31.1.08

poeminhas de quinta



a mãe

o cabelo molhado
os óculos escuros
uma bola
a mão segurando a casquinha

meu irmão nunca mais devolveu a fotografia

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o amor

eu ainda lembro do seu colchão de molas
molas
molas
molas


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29.1.08


* A primeira edição de Esperando Godot, de Samuel Beckett, em 1952 saiu com 1.000 exemplares. Um ano depois o livro só havia vendido 400. Só quando a peça foi encenada na Broadway poucos anos depois foi que o livro começou a vender. A peça ficou em cartaz apenas seis semanas em Nova York pois foi acusada de propaganda comunista e o público sumiu. Foi o que bastou para o autor ficar famoso. Depois disso, o livro venderia mais de 2 milhões de exemplares.

** Walter Lowenfels, amigo de Beckett, era um homem muito preocupado com a condição humana. Um dia, conversando com Beckett, começou a deblaterar sobre o assunto. Beckett ouvia pacientemente, sentado em sua poltrona, até que Walter explodiu, exasperado: "Você fica aí sentado enquanto o mundo se acaba! O que você quer? O que você vai fazer?"

"Walter", Beckett respondeu, cruzando as pernas languidamente, "tudo o que eu quero é sentar minha bunda numa poltrona, dar os meus peidos e pensar em Dante."


28.1.08

Piada dos pinguins lésbicos


Duas lésbicas entram num bar, sentam no balcão e a primeira lésbica pede um gim-tônica. A segunda lésbica então pede um... ah, pera aí, eu disse que o bar fica no Texas? Isso é muito importante, o bar fica no Texas, ok? Então as duas lésbicas entram num bar no Texas, sentam no balcão e a segunda lésbica pede... não, a primeira lésbica pede um gim-tônica e a segunda lésbica pede uma vodca. As bebidas chegam, elas começam a beber e aí a primeira lésbica... ah, eu esqueci, na verdade são três lésbicas, tá certo? Isso mesmo, as três lésbicas entram num bar no Texas, sentam no balcão e a primeira lésbica pede vodca, não, a primeira lésbica pede gim-tônica, a segunda lésbica pede vodca e a terceira pede um sanduíche de presunto. Ih, eu disse que era um bar? Não, na verdade é uma boate, isso é crucial na história. Ok, então as três lésbicas estão na boate e a primeira pede vodca enquanto a segunda pede gim-tônica, não, pera aí, é o contrário, bom, vamos simplificar a coisa, as duas pediram um gim-tônica e uma vodca e ficam trocando, tá certo? Mas a terceira lésbica pediu um sanduíche de presunto. É isso. Então, quando os pedidos chegam, um cowboy entra na boate e... pera aí, agora eu me lembro, elas não eram lésbicas, eram pinguins. Ou talvez pinguins lésbicos? Ah, então não é no Texas, é na Tasmânia. E não é uma boate, é um armazém. E não são três pinguins, são 27. Mas 13 deles estão mortos. E eles não estão pedindo bebidas nem sanduíche, estão é metralhando todo mundo lá dentro. E o cowboy na verdade é um leprechaun. Ok, então onde é que eu estava mesmo?



22.1.08

O poeta X



Semana passada falei com A. pelo telefone. A. é poeta famoso em seu meio, o lá dele. Um dos melhores de sua geração, como gostam de dizer os jornais que não querem arranjar confusão com poetas bem melhores de outra geração. Diziam isso em 1992, em 2001 e ontem mesmo. A. acha pouco Schopenhauer essa conversa de que poetas são a antena da raça. Desconheço a cerveja, mas tive de concordar com ele, a ligação era interurbana. A. parece estar descendo a ladeira, só poetas do tempo em que lampião dava choque lembram do antena da raça. Mas A. é compadre de C., que por sua vez é discípulo de D. Já B., pós-cordelista por controle remoto, é execrado por F., o poeta maior. E., o incorriolável, não deixa por menos: é execrado por todos. Meu problema é que F. está velho e eu achei que um dia posso me sentar na cadeira dele se A. me ensinasse a compor uns versos mais e menos modernos que agradem a todos. Digo mais e menos modernos porque acredito na conciliação dos opostos quando não se tem um estilo muito próprio -- o meu caso. A. não é nenhum professor doutor de letras nem nada, é workshopper. Dá umas aulinhas de caraoquê criativo a quem pode pagar para ser escritor -- a minha sorte. Ele tem umas olheiras fundas e a pele branquinha, quase rosa, feito galinha depenada. E engordou muito desde 92, vejo aqui nesta foto de 2001 repetida ontem no jornal. Está macilento. Os poetas românticos do passado eram descarnados de tuberculose. Hoje qualquer mestre-do-cu-sujo tem a mesma cara de doente, mas é gordo. Menos F., duro de boca e magro de ruindeza. Lasca humana. Que eu diga. F. está decrépito e alguém vai ter de tomar conta da loja quando ele não puder mais cantar pra subir. A disputa vai ser uma rinha, já vi tudo. Tenho cá minhas chances. A. aceitou me dar aulas particulares de poética por e-mail porque moro onde não tem um zé. Ele nem desconfia do meu plano mirabolante de assumir o trono de F. e quem sabe alguma vaga na coleção de carecas de porcelana da Academia. Imagino até a cara dele quando eu quis me fazer de espirituoso: "Não nasci em Itabira, não lavei meus cueiros líricos no Tietê, principalmente não brinquei de roda no Café Vermelhinho. Tenho alguma chance de ser um poeta maiusculoso?” Ele só deu um risinho caviloso. Está precisando do meu dinheiro, não é burro de me contrariar. Vou pagar muito bem pelo curso, tive de vender dois zebus gordos da minha criação. Ideias e inspiração não me faltam, não sabe?, eu disse assim. Quero aprender é o manejo. Saber conduzir bem sujeito-predicado-complemento tudo encaixadinho numa cancela de versos sonoros em cascata, com alinhamento e cadência, feito música. Não precisam rimar, disso eu sei que é antigo. Mas precisam ser enxutos -- um boi sem gordura. Tristes. Lacônicos. E difíceis. Acho que a boa poesia é aquela que as pessoas demoram muito a compreender que não vale nada. Como a vida de um grande poeta só começa depois da morte, fico tranquilo, que de morto ninguém tira a fama. Ademais sei perceber quando todos escrevem o mesmo renrém, só mudando o cardápio de substantivos. O leitor shopping-center cai no gás-com-água porque de vernáculo não entende ponto e vírgula. Engole aqueles versos ensaboados de homeopatia achando que é refinamento filológico. Tudo que sei de poesia foi com dona Adelina que aprendi. Palavras com frente e verso. Poeta bom é aquele que não vê a vida só da sua privada, ela bafejou na minha orelha, mastigando um queijinho-do-céu. Eu poderia ter continuado meus estudos com ela, mas dona Adelina é poeta afeita a coisas de religião, e religião não tem serventia para quem, como eu, concorre à vaga de maior poeta do país. Tem que ser coisa de ateu. De matuto chique. De quem não acredita que o mar um dia vai ter sabor de limonada. A. não entende por que alguém rico e ocupado assim feito eu quer ser poeta, logo agora que a poesia não vale uma boa estrumeira. Ele se faz de besta que eu sei. Vaidade não é patrimônio exclusivo de A, B ou C. Por que seria eu a incógnita deste abecedário? 

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15.1.08




itaipava: 15 anos atrás, um lugar tranquilo. hoje, se bobear, um SUV te atropela ou passa por cima do teu carro na primeira curva. e SUVs só respeitam outros SUVs. clima frio e seco. desmatamento demais, turistas emergentes demais, point demais. celebridades globais chegam de helicóptero nas pousadas. até o povo de petrópolis faz turismo em itaipava, passeia de carro pra lá e pra cá a 20 por hora, olhando as modas da irmã chique, engarrafando a rua principal nos fins de semana, mas as lojas vazias, um mistério que os comerciantes desalentados me revelam. o povo só quer passear. não consumir. itaipava não deixa barato. figurinhas fáceis, hugo carvana, jaguar, angela vieira, todos no horto mercado. com cachaça e repolho. figurinhas difíceis, bonner e fátima. se você quer sossego e um bom uísque de companhia, tem o black horse. daí você pega a 040 e segue pra araras. uma vegetação mais preservada. clima frio e úmido. o único lugar que ainda tem o legítimo cheiro de mato. não de mato queimado. mas há que atentar para o mofo. fizeram um shopping, não deu certo. o povo de araras fica em casa. bebe vinho na lareira. se não tem lareira, bebe mais vinho, que você pode comprar no ari por 15 reais a garrafa de um chileno vagabundo. muitos restaurantes caros, nem sempre bons. figurinha fácil, angela vieira, a ivete sangalo da serra carioca. figurinha difícil, bussunda, porque morreu. subindo araras, você dá no vale das videiras. era uma roça, hoje movimentado. marcos palmeira andava a cavalo ali. depois se mandou. muito assalto se você bobear. disputa de terra. um assassino de aluguel que cobrava 50 contos pelo serviço. nos fins de semana, carros disparam pela rua, perigo no trânsito. tem shopping. onde não tem? o bom é que você de lá segue por uma estrada de terra e vai dar em pati do alferes e miguel pereira, onde não vê angela vieira. pedro do rio está meio favelizada. mas tem as lojas mais baratas. nogueira era linda, ainda tem a melhor empada da região. um lago e cavalos. hoje está meio largada. chico buarque não toma mais café na padaria de correas, que tem os melhores veterinários da cidade. obrigada, marluce. um frango assado de vitrine gordo e estupendo, clarice haveria de gostar. um bom comércio e um centro agitado. a melhor banca de jornal. secretário é do outro lado, já foi um must. passo batido. só sei que tem assalto, mesmo em condomínio fechado. e um amigo, com placa do rio, foi seguido na estrada à noite, quase assaltado. dizem que por cá o segredo é não ter placa do rio. a posse é caminho pra juiz de fora. aí não é mais rio.


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11.1.08




Prévert: "Onde houver algo de bom para roubar, eu roubo!", lembra? Você ainda vai confiar em museu brasileiro?

Picasso: Carajo... Aquilo é uma mancha amarela ou é o sol?


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7.1.08



poema interno

a senhorita Mansfield é um símbolo da Nova Zelândia
e está disponível também em pdf
a senhorita Mansfield quando abre a boca
eu sinto o cheiro da senhorita Mansfield morta
entre um denso nevoeiro de garrafas
não sei se porque ontem saldei toda a minha dívida
para com a companhia de águas e esgotos
ou porque comprei velas roxas
com elevado teor cósmico e isso
me altera olfato e memória
ler Mansfield é como caminhar entre crianças,
li num obituário de 1923,
e crianças cheiram a baba
já a Cabrita não cheira a baba,
afugenta-as fumando charuto na poltrona
ouvindo passarinhos cantando em grego
e pagando caro sua hospedagem na vida
como a macaca assada de Zanzibar


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4.1.08

Jacques Prévert




pôs o café
na xícara
pôs leite
na xícara com café
pôs açúcar
no café com leite
com uma colherinha
e mexeu
bebeu o café com leite
e pôs a xícara no pires
sem falar comigo
acendeu
um cigarro
fez círculos
com a fumaça
pôs as cinzas
no cinzeiro
sem falar comigo
sem olhar pra mim
levantou-se
pôs
o chapéu na cabeça
vestiu
a capa de chuva
porque chovia
e foi embora
debaixo de chuva
sem uma palavra
sem nem me olhar
e eu
pus a mão na cabeça
e chorei



jacques prévert, em "café da manhã".


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