27.2.10

Lêdo Ivo

Queime tudo o que puder :

as cartas de amor

as contas telefônicas

o rol de roupas sujas

as escrituras e certidões

as inconfidências dos confrades ressentidos

a confissão interrompida

o poema erótico que ratifica a impotência

e anuncia a arteriosclerose



os recortes antigos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados

nenhuma herança de papel.



Seja como os lobos : more num covil

e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.

Diga sempre não à escória eletrônica.



Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,

as variantes e os fragmentos

que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.

Não confie a ninguém o seu segredo.

A verdade não pode ser dita.




 "A Queimada".

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18.2.10




Credo in un Dio crudel che m'ha creato
Simile a sè, e che nell'ira io nomo.

Dalla viltà d'un germe o d'un atomo
Vile son nato.
Sono scellerato
Perchè son uomo
E sento il fango originario in me.
Si! quest'è la mia fé!
Credo con fermo cuor, siccome crede
La vedovella al tempio,
Che il mal ch'io penso e che da me procede
Per mio destino adempio.
Credo che il giusto è un istrion beffardo
E nel viso e nel cuor,
Che tutto in lui è bugiardo:
Lagrima, bacio, sguardo,
Sacrifício ed onor.
E credo l'uom gioco d'iniqua sorte

Dal germe della culla
Al verme dell'avel.
Vien dopo tanta irrision la Morte.

E poi? La morte è il Nulla.
È vecchia fola il ciel!




Creio em um Deus cruel que me criou
À sua semelhança, e que na ira eu invoco.

Da vileza de um germe ou de um átomo
Vil nasci.
Sou celerado
Porque sou homem
E sinto a lama originária em mim.
Sim! esta é a minha fé!
Creio com firme coração, como crê
A viuvinha no templo,
Que o mal que penso e que de mim procede
Eu o realizo pelo meu destino.
Creio que o justo é um histrião burlador
No rosto e no coração,
Que tudo nele é mentira:
Lágrima, beijo, olhar,
Sacrifício e honra.
E creio que o homem é um jogo da sorte iníqua

Do germe do berço
Ao verme do túmulo.
Vem, depois de tanta irrisão, a Morte.

E depois? A morte é o Nada.
O céu, uma velha fábula!



Arrigo Boito, compositor, poeta e libretista, responsável pela adaptação do Otelo shakespeariano à ópera homônima de Verdi, de 1887. O monólogo aqui publicado, Credo de Iago, é um acréscimo do poeta.
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7.2.10




O ovo e a vizinha


“Vó, a vizinha tá cheirando o seu ovo!” Elizabeth Soares, dos Almeida, nasceu no Rio de Janeiro em 1968 e morava com a avó no Leme, o apêndice de Copacabana. Morava com a avó porque dos pais pouco sabia. Eram professores e viviam viajando, comentavam baixinho. Ela nunca os viu. Nunca os veria. Como via agora a vizinha cheirando o ovo. A vizinha batera na porta há uns três cafés da manhã e pedira por obséquio um ovo. Só um. E branco. Não uma xícara de açúcar. Uma colher de sal. Um ovo. A cozinha da avó ficava de frente para a cozinha da vizinha. Entre elas um fosso de dez andares. Vinte cozinhas ao todo. De todos os cheiros, vozes e ruídos. Elizabeth viu pela janela sempre aberta a vizinha entrando na cozinha em frente e pousando o ovo sobre a mesa. Não fritou, não cozinhou. Sentou na cadeira e ficou lá a manhã inteira. Olhando o ovo. Estudando. Depois pegando, tateando, girando-o entre os dedos e, largando de novo na mesa, tentou várias vezes colocá-lo de pé. Ovo teimoso. Elizabeth sorriu, lembrando da avó. Turrona. A mulher olhava para o ovo com a devoção dos não famintos. Como um Cristo na cruz. “Vó, a vizinha é doida?” Não, é jornalista. Vive batendo à máquina, nunca ouviu? Jornalista é quem escreve em jornal, Elizabeth lembrou das palavras da avó enquanto catava conchinhas na praia. Será que ela vai escrever sobre o ovo da minha avó no jornal? Que notícias pode trazer um ovo? Dos meus pais desaparecidos? Elizabeth largou o baldinho, deu um mergulho e voltou para a sombra da barraca. A avó comprou dois picolés. Olhando um navio que passava, ela começou a fazer um buraco fundo na areia morna. Um dia ela iria para longe dali. Outro país. Não sabia como. De navio ou por aquele buraco na areia. A areia da praia costumava ser generosa. Bastava saber cavar. Um dia achou um relógio de ouro. Outra vez um livro de capa dura de um escritor chamado Oscar. O Retrato de Dorian Gray, leu sua avó. Seu pai também se chamava Oscar, ela disse, como se ele estivesse morto. Foi o primeiro livro de Elizabeth. Ela aprendeu a ler só para entender o que Oscar dizia. Mas Oscar ainda era uma boia longe e solitária no oceano. Foram necessários mais vinte anos para entendê-lo. A avó não existia mais e Elizabeth descobriu não gostar do universo literário brasileiro. O ovo era o disfarce da vizinha. Não precisou do navio ou do buraco na areia para chegar ao outro lado do Atlântico. Professora de teoria literária e literatura comparada em Oxford, Elizabeth perdeu também o sobrenome. Ganhou dois filhos, Troilus e Cressida.

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1.2.10




Quais foram as últimas palavras de Maiakóvski antes de cometer suicídio?
"Camaradas, não atirem!"


(piada que circulou entre os russos logo após a morte do poeta em 14 de abril de 1930)

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