e esta fagulha vivificando
é a máquina pedindo
me leia
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7.7.09
Rodrigo de Souza Leão (1965-2009)
Fisicamente a noite é só um segundo
Eu sou um museu Tenho uma filha com nome de furacão Uma mulher com nome de vulcão Uma farmácia particular Um corpo pra me distrair E dois copos de vidro Um eu quebro E brindo com o outro Dentro do meu museu há um zoológico Há um parque de diversão Um cidadão jogando paciência E um cientista se fingindo de importante Há vários covardes como eu Alguém bebe leite quente Palavras se devoram dentro da boca Há um homem vestido de burro Um burro vestido de homem Mandei tudo a merda Mas um pouco de mim foi junto
*
Sou o melhor que posso Possuo o melhor que sou
De mim sei não restará nada Nenhum caroço, nenhuma empada
Às vezes me jogo do sexto andar Às vezes me jogo do quinto
Mas nunca passo do chão Do chão onde um fogo extinto
De um mendigo que me acudiu É aceso toda noite
Toda noite um anjo cai E um outro abismo cospe labaredas
Talvez o dragão seja hoje O melhor amigo do fogo
Talvez seja o deus pra quem rogo O último ateu suicida
*
Tudo ficou dourado. O céu dourado. O Cristo dourado. A ambulância dourada. As enfermeiras douradas tocavam-me com suas mãos douradas. Tudo ficou azul: o bem-te-vi azul, a rosa azul, a caneta bic azul, os trogloditas dos enfermeiros. Tudo ficou amarelo. Foi quando vi Rimbaud tentando se enforcar com a gravata de Maiakovski e não deixei. Pra que isso Rimbaud? Deixa que detestem a gente. Deixa que joguem a gente num pulgueiro. Deixa que a vida entre agora pelos poros. Não se mate irmão. Se você morrer não sei o que será de mim. Penso em você pensando em mim. Rimbaud tudo vai ficar da cor que quiser. Aqui não dá pra ver o mar. Mas você vai sair daqui. Tudo ficou verde da cor dos olhos de meu irmão e da cor do mar. Do mar. Rimbaud ficou feliz e resolveu não se matar. Tudo ficou Van Gogh. A luz das coisas foi modificada. Enfim me deram uns óculos. Mas com os óculos eu só via as pessoas por dentro.
*
QUÍMICA CEREBRAL
Bom dia Lexotan Bom dia Prozac Bom dia Diazepan Bom dia coquetel Bom dia amplictil Bom dia fenergan Bom dia sossega-leão Bom dia eletrochoque Bom dia Piportil Bom dia Lorax Bom dia Litium Bom dia Haldol
Boa noite Rodrigo
* O poeta é um ladrão Rouba tão descaradamente Que chega a dizer que é seu O poema de outro indigente
*
O meu poema burilado É como um pum molhado
Ele não fede nem cheira Gosto de Manuel Bandeira
*
LOBOTOMIA
Na Caixa Craniana Não há nada Só o nada como artefato
Nada Um peixe E suas barbatanas Homens dão viradas olímpicas Nadam E o nada continua ali Vazio Entre duas mãos E o bisturi
* INTERNO RETORNO
Eu ando em círculos e paro: às vezes na metade do círculo.
O círculo é só um movimento e o movimento é uma onda.
O círculo. O movimento. A onda. São todos tão redondos assim como quase um ovo que nunca consegui colombar em pé.
Colombo é um nome cheio e redondo. Desses que circula em círculos. Desses que o mar traz para descobrir: o movimento o Círculo a onda. Tudo que faço é mesmo circular: um ponto qualquer no infinito. Um ponto também é um círculo. Tudo é círculo, onda e mar.
Apenas alguma sarda que tinha não era totalmente redonda. Por que um círculo precisa de um compasso? A Terra
nua no espaço é onda é mar é círculo: sou eu no meu cubículo.
*
Todo mundo caga regras também
*
Às vezes eu penso, mas só às vezes. Quando alguém morre, eu fico triste porque não sei pra onde esta pessoa, objeto ou coisa vai. O fato de não ter certeza é que me incomoda. Quando eu morrer, não fique triste só porque não sabe para onde eu vou. Fique triste porque gosta de mim e sentirá minha falta. Mesmo sendo você alta voltagem. Sentirei sua falta também. Estarei no cemitério do Caju e lá sediado esperarei as flores que sempre quis lhe dar. *
. o lince corre das listras vestindo meias coloridas.
-- Os textos de Rodrigo foram retirados do seu Lowcura, um blog para se ler de janeiro a dezembro. Poeta, músico e jornalista, Rodrigo e eu ainda tateávamos uma amizade à distância começada neste ano. Sua poesia espontânea, angustiada e ao mesmo tempo lúdica se espalha pela rede, por seus livros, onde ele permanecerá vivo para sempre.