28.4.04

A linguagem do cabelo


No "Dicionário do Folclore Brasileiro", de Câmara Cascudo, descubro e me especializo na linguagem do cabelo. Obra de referência indispensável para quem estuda literatura folclórica ou simplesmente gosta de saber de histórias, lendas, fábulas, mitos e crendices que o Brasil herdou da África e de Portugal, o Dicionário registra lá que, no início do século 20, a forma de arranjar a cabeleira feminina possuía um vocabulário próprio cuja significação amorosa o homem(namorado) entendia perfeitamente. Vejamos alguns significados dessa linguagem cifrada:

1) cabelo aparado na testa, com franja: "Estou feliz de te ver."

2) coque para trás: "Está perdendo seu tempo comigo."

3) coque no alto da cabeça: "Não consigo te tirar do pensamento."

4) cabelo dividido à esquerda: "Não."

5) cabelo dividido à direita: "Sim."

6) cabelo dividido no meio: "Sou tua", ou "Confio em ti".

7) com as orelhas descobertas: "Espero cartas, notícias, quero falar-te."

8) com a testa descoberta: "Não te quero", ou "Tenho outro alguém".

9) todo o cabelo puxado para trás: "Não tenho compromisso."

10) muitas tranças: "Há obstáculos demais ao nosso amor."

Há muitas outras tradições referentes ao cabelo. Mulheres solteiras costumavam usar cabelos soltos e compridos. As casadas, cabelos presos. As viúvas, em geral a cabeça coberta com uma touca. Já os cabelos cortados curtos significavam para a mulher renúncia completa à vaidade, como a das freiras e monjas. Isso sem falar na punição de mulheres acusadas de "vida dissoluta" e que consistia em rapar-lhes a cabeça. Uma punição também aplicada aos homens acusados de felonia, falsidade e covardia. No caso dos homens, ter cabelos no peito era sinônimo de valentia. E para quem exercia a bruxaria, os cabelos eram material precioso para a realização de feitiços. Por exemplo, uma porção de cabelo da cabeça seria usada para enlouquecer ou matar o desafeto. Um punhadinho de pentelhos, para anular a virilidade. Afe, eu vou é dormir de touca...

27.4.04



Meu amigo confortavelmente instalado na poltrona abre uma cerveja e me fala baixinho detalhes do turbocapitalismo. Eu estou com sono, mas ele está se coçando por um debate e ainda não deixou clara sua posição. Aquela aparente hostilidade ao capitalismo pode ter raízes na esquerda, na direita, e até na terceira via. Ainda não decidi qual é o caso dele. Não me divirto mais com essas coisas. Com o computador ligado, olho alternadamente para ele e a tela congelada. Por dentro, fico penteando um caroço de manga sem que ele perceba. Eu não gosto de desapontar um amigo.



-- Va bene, larga questa machina agora, hum?


26.4.04

Edyr Augusto



Oi


Ninguém tem nada a ver com isso. Minha vida. Eu. Quem quiser que fale. Que ria. Que vaie. Fofocas. Vivo do meu jeito. Comigo. Eles falavam que precisa ter mulher. Filhos. Família. Não deu. Houve uma. Chegava em casa cansado. Dizia oi. Não respondiam. Ficava comigo mesmo. Um dia saí e não voltei. Fiquei na rua. Achei um canto. No meio do mundo. Uma grande avenida. Gente passando. Barulho. A faina. Carros. Ninguém se vê, mesmo. O cara deixou a cadeira de engraxate dando sopa. É minha. Passei a noite. No dia seguinte, chegou todo mordido. Mostrei a faca. Nem precisei falar alto. Agora é minha. Ele foi. Chegou um gringo. Mostrou o sapato. Dei um lustro. Pagou uma banda. Um trombadinha foi comprar pra nós dois. Café da manhã. Veio outro. Almoço. Uma lata de tinta jogada fora. Põe água. Tomo banho. Os barões jogam fora. Caixas, papéis, papelão. Banho tomado, assisto o final da tarde. A pressa dos que voltam para casa. Vão dizer oi. Tá. Arrumo a cama com papelão. Faço uma parede. Durmo. É silenciosa a noite ali no centro. Lá vem o dia. E os caras, apressados. Umas donas gostosas. Quando dá vontade, as putinhas fazem por 5 reais. É coisa rápida. Sempre foi assim. 1, 2, 3. Que bom. Assisto o mundo à minha frente. Não dou opinião. Apenas coleciono imagens. Agora há uma banca de xerox na esquina. Um guardador de carros. Um carrinho de lanches. Família. De outro jeito. Família do mundo. Falamos. Contamos piadas. Trocamos favores. Não perguntamos nomes. É só assunto do dia. Do nosso dia. Às seis eles vão dizer oi. Eu fico. Vou dizer oi porra nenhuma. Os moleques pediram pra adiantar um pouco da cola. Eu devia umas. Parece que forçaram uma barra lá na Praça. De manhãzinha os meganhas vieram. Alguém dedurou. Seguraram forte, aqui no braço e no resto de cabelo no cocuruto. E ainda aquela viada escrota, velha, que mora no casarão, falando aquelas porras de sempre, me chamando de vagabundo, mendigo, drogado, traficante. Vá se foder. Me jogaram no pátio na Seccional do Comércio. No chão, levantei a vista aos poucos. Foda. Turma da pesada. Endireitei o corpo. Encarei. Alguns já me conheciam. De vista. Foda. Fiquei ali. Mofei. Escrotice. Um dia, trocou o delegado. O cara decidiu fazer limpeza. Me jogou fora. Sem culpa formalizada. Que dia era? Sei lá. O mundo aqui fora, de novo. Fui lá na casa. Entrei e disse oi. Os moleques cresceram. A mãe foi levar a roupa lavada para a patroa. Então tá. Tchau. Voltei. A cadeira tinha sumido. Um carro de cachorro-quente no lugar. Do lado, um espaço. Fui andar. Achei uma cadeira. O velhinho arrumou a trouxa e foi dizer oi. Botei lá no espaço. Dormi sentado. O cachorro-quente veio encrespar. A galera falou por mim. Tá. Dando um lustre nos sapatos. Um cuspe e brilha. Vou atrás de papelão. Meu quarto, ali, no meio do mundo. No meio do lixo, um cachorrinho, filhote, perdido. Vem comigo. Improviso uma mamadeira na garrafa descartável de Coca-Cola. Ele fica. Hoje é amigo da esquina. Fica por ali e todo mundo gosta. Não tem nome. Ninguém tem. E então ela chegou. Dessa gente, tem muito. Se tem fome, joga pedra, faz um bode, come manga. Se tem sono, deita no chão e dorme. Ficou ali, chupando uma manga batida, lentamente. Descalça. Pés imundos. Toda imunda. Deitou nos degraus de uma portaria de prédio fechada e dormiu. Deixa pra lá. No dia seguinte, sumiu. Voltou. Ficou ali, calada, olhando para nada. Me atraiu. Joguei um pedaço de pão. Ficou olhando um tempão. Ah, foda-se. Quando olhei de novo, o pedaço não estava. Bom. Fui preparar meu quarto. Ela está sentada na cadeira. No meu trono. Fico brincando em volta, assobiando qualquer coisa. Ela, nada. Peguei a lata. Tinha um resto de água. Lavei os pés. Ela continua olhando o nada. Mas havia um fio de sorriso. Me animo. Assobio à sua volta. Faço uma dança. Ela levanta e sai. Vai para o seu degrau. Deita e fecha os olhos. Lá, o fio de sorriso. Que coisa. No dia seguinte foi aquela farra. A galera zoando. Namorada, namorada. Fechei a cara. Namorada o caralho. Até peguei a faca. No fim do dia ela chegou estranha. Tremia, batia na cabeça. Não sabia se chegava junto. A gente nunca sabe. Se acocorou num canto e ficou. Sei lá. Deitei. Me acordou. O cachorro nos braços. Passando a mão na minha cabeça. Me assustei. Quase bati. Agora, eu tinha certeza, ela olhava pra mim. Assobiou minha música. Chamei pra deitar. Não era pra tirar confiança. Só pra deitar. Ela não veio. Levantei. Ficamos ali, a noite inteira. Calados. De vez em quando eu assobiava, ela respondia. Dormi. Ela foi. Mas agora volta mais cedo. Já estou pronto. Dou um lustre na bota. Não falei da minha bota? De caubói. Com desenhos. Meu tesouro. Sento no trono e espero. Quando ela chega, assume. Deixa falarem. O cachorro gosta. Assobiamos. Agora já ri. Às vezes dorme um pouquinho. Tem um sono esquisito. Curto. Diz coisas. Pede desculpas. Que não, não e não. Sei lá. Quando acorda, fecha a matraca. Passei a mão no rosto. Olhou, riu e chorou. Só. Somos eu, o cachorro e ela. No meio do mundo. Pra mim está bom. E nem dizemos oi.




24.4.04

Diatribe


Dois zoilos mui completos deste mundo,
Dois zoilos há terríveis e zelosos,
Que estando sem fazer, mui ociosos
Só tratam dum falar nauseabundo.

Eu sei mui bem seus nomes -- não confundo
Com esses bem sensatos, talentosos,
Com esses lidadores mui briosos
Que têm estudo imenso e bem profundo!

Mas ah! pra que tempo hei-de gastar
Com quem só vive imerso na caligem
D’inveja torpe e vil a esbravejar!

Isto, meus amigos, é impigem
Que quanto se procura mais coçar
Tanto e tanto mais só dá prurigem!



Escravocratas


Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos, agachados -- bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar -- formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos a espinha -- enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordinário --
Da branca consciência -- o rútilo sacrário
No tímpano do ouvido -- audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro -- ouvindo-vos urrar!


Cruz e Sousa


23.4.04



Se Leonardo dá vinte
Por que é que eu não posso dar dois

Mesmo apertando na encolha, malandro
Pinta sujeira depois

Levei um bote perfeito
Com um baseado aceso na mão
Tomei um sacode regado a tapa
Pontapé e pescoção
Eu fui levado direto à presença do dr. delegado
Ele foi logo gritando: ''Vai se abrindo, malandro
E me conta tudo como foi''
Eu respondi: ''Se Leonardo dá vinte
Por que é que eu não posso dar dois''

''Leonardo é Leonardo'', disse o doutor
Ele faz o que bem quer, está tudo bem
Infelizmente é que, na lei dos homens
A gente vale o que é e somente o que tem
Ele tem imunidade para dar quantos quiser
Porque é rico, poderoso e não perde a pose
E você que é pobre, favelado
Só deu dois, vai ficar grampeado no doze


Bezerra da Silva




Sim, eu conheci uma noviça rebelde. Seu nome não era Maria, não era Julie Andrews. Nós não estávamos em Hollywood. Para mim a Irmã Domitila era simplesmente Lolita. Que me ensinou a ter mais paciência com o seu Deus enquanto ouvíamos cantos gregorianos e eu vomitava minhas filosofias baratas madrugada adentro. Nós ríamos e secávamos uma garrafa de vinho, porque ela era afinal uma ex-freira mas não era santa. Uma amizade que atravessou anos, sem crenças, cobranças, ao som da música. Do amor puro sem Jesus. E hoje minha noviça rebelde se foi. Há uma estrela lá do lado da lua crescente que eu não sei como vocês chamam, porque para mim é Lolita. Onde sempre haverei de procurá-la. Sempre que descansar em paz.

22.4.04

MARIA VAI COM AS OUTRAS

Peguei no Mundo Podre, que pegou no Sopa (de mim), que pegou na Fal que pegou na Mel, que pegou na Dani, que pegou no Delfin:

Instruções:
1. Pegue o livro mais próximo de você;
2. Abra o livro na página 23;
3. Ache a quinta frase;
4. Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.


Bom, o meu deu o seguinte:

"He has to like me", he tried to convince himself.

A frase foi do livro There's a Boy in the Girls' Bathroom, de Louis Sachar. O livro mais perto de mim que achei no momento. Waarl, nada como uma diversão para sacudir a poeira. Já imaginou quem ficar no final da corrente?

21.4.04



Além de poeta prolífico, Byron ficou também conhecido pela profusão admirável de cartas que escreveu. Em 1819, morando em Veneza, escreve uma deliciosa carta a seu editor e amigo John Murray para contar-lhe a história de Margarita Cogni, uma de suas quase duzentas amantes no período de dois anos. Extravagante, Byron apreciava as mulheres de condição humilde, por julgar as damas da sociedade "mais feias que a própria Virtude". O excerto da longa carta publicado aqui foi realizado a partir da versão na íntegra que saiu na edição brasileira de Beppo: uma história veneziana, com tradução de Paulo Henriques Britto.

"Meu caro

...Você comprou os desenhos que Harlow [o pintor] fez de Margarita e de mim por um preço muito alto, a meu ver, mas como você quer saber a história de Margarita Cogni, vou contá-la, ainda que seja um tanto longa. Seu rosto é do belo molde veneziano dos velhos tempos e suas formas, embora ela talvez seja alta demais, não são menos belas... No verão de 1817, eu e Hobhouse [amigo e confidente de Byron] estávamos passeando a cavalo ao longo do Brenta [rio] uma tarde quando vimos, num grupo de camponeses, as duas moças mais belas dos últimos tempos. Recentemente a região passara por muito sofrimento e eu ajudara algumas pessoas. Um pouquinho de generosidade impressiona muito, quando trocada em moeda veneziana, e a minha fora talvez excessiva sendo eu inglês. Se elas perceberam que olhávamos para elas ou não, isso eu não sei, mas uma delas se dirigiu a mim em veneziano. "Por que o senhor, que ajuda os outros, não pensa em nós também?" Virei-me e respondi-lhe: "Minha cara, você é bela e jovem demais para precisar de minha ajuda." Ela respondeu, "Se o senhor visse minha cabana e minha comida, não falaria assim". Tudo isso foi num tom de brincadeira e não a vi de novo por uns dias. Algumas tardes depois, encontramos essas moças novamente e elas se dirigiram a nós em tom mais sério, garantindo que o que diziam era verdade. Eram primas, Margarita casada, e a outra solteira...combinei de encontrá-las na tarde seguinte. Hobhouse se engraçou com a jovem solteira... e a minha levantou obstáculos ante minhas propostas, dizendo que queria pensar. Disse-lhe eu: "Se você está mesmo passando necessidade, eu a ajudo sem lhe impor quaisquer condições, e você pode ou não fazer amor comigo, como quiser,... mas se não está passando necessidade, então isto aqui é um encontro amoroso e julguei que estivesse ciente deste fato quando combinou encontrar-se comigo." Ela disse que não tinha nada contra fazer amor comigo já que era casada e todas as mulheres casadas faziam isso, porém seu marido (que era padeiro) era uma fera e ia fazer-lhe algum mal. Para encurtar a história, após alguns encontros entramos em acordo e durante dois anos, no decorrer dos quais tive mais mulheres do que sou capaz de relatar, ela foi a única que manteve sobre mim uma ascendência muitas vezes disputada e nunca diminuída. Como ela própria dizia em público, "Não faz mal, ele pode arranjar mais quinhentas, sempre acaba voltando pra mim". As causas deste fato eram, em primeiro lugar, seu físico, bem trigueira, alta, rosto veneziano, olhos negros excepcionais e certas outras qualidades que não é necessário mencionar. Tinha 22 anos e, por nunca ter tido filhos, não havia estragado suas formas, nem mais coisa alguma, o que, acredite, é de grande importância num clima quente onde elas ficam frouxas e flácidas e flopt pouco tempo depois de procriar. Além disso, era uma veneziana autêntica em seu dialeto, em suas idéias, em sua expressão, em tudo, com toda a ingenuidade e o humor pantaleônico típicos de lá. Ademais, não sabia ler nem escrever, portanto não me importunaria com cartas... Sob outros aspectos ela era um tanto feroz e prepotente, costumando entrar quando lhe dava na veneta, sem ligar para hora, lugar, nem pessoas, e se encontrava alguma mulher na sua frente, a derrubava. ... Quando fui passar o inverno em Veneza, ela foi atrás: nunca tive uma relação regular com ela, mas sempre que ela aparecia, eu não deixava que qualquer outra interferisse, e assim, percebendo o meu favoritismo, ela vinha com bastante frequência. Mas seu amor-próprio era excessivo e ela não tolerava outras mulheres... e, como na época eu era um tanto promíscuo, ocorriam muitas confusões e demolições de penteados e lenços e por vezes meus criados, tentando pôr fim a um conflito entre ela e outras senhoras, recebiam mais socos do que agradecimentos por suas iniciativas de paz. ... Por fim ela brigou com o marido e uma noite fugiu para a minha casa. Expliquei-lhe que aquilo, nem pensar, e ela disse que preferia deitar-se no meio da rua a voltar para ele, que ele batia nela (a doce tigresa), gastava o dinheiro dela e abandonava seu forno de modo escandaloso. Como era meia-noite, deixei-a ficar, e no dia seguinte não havia como fazê-la sair. Veio o marido, rugindo e chorando e implorando que ela voltasse, pois sim que ela voltava! Ele então recorreu à polícia, a qual recorreu a mim e eu disse à polícia e ao marido que a levassem, eu não a queria, ela viera e eu não podia jogá-la pela janela, mas que eles poderiam levá-la pela porta se quisessem. Ela foi parar na delegacia, mas foi obrigada a voltar com aquele "becco ettico" (corno tísico), como ela se referia ao pobre coitado, que estava tuberculoso. Alguns dias depois ela fugiu de novo. Depois de pintar e bordar, instalou-se na minha casa, sem meu consentimento, por culpa exclusiva de minha indolência e por eu não conseguir manter a firmeza, pois se eu começava a me irritar, ela sempre acabava fazendo-me rir com alguma palhaçada veneziana, e a ciganinha sabia disso muito bem, tal como conhecia seus outros poderes de persuasão e os exercia com o tato e o êxito que caracterizam todas as coisas fêmeas, elevadas e baixas, são todas iguais neste ponto. ... Ela oscilava de um extremo a outro, ou chorava ou ria, e ficava tão feroz quando irritada que apavorava homens, mulheres e crianças, pois tinha a força de uma amazona e o temperamento de Medéia. Era um magnífico animal, porém impossível de domar. Eu era a única pessoa que ainda conseguia controlá-la até certo ponto...Nesse ínterim, ela batia nas mulheres e interceptava minha correspondência. ... chegou mesmo a estudar o alfabeto com o fim (segundo afirmou) de abrir todas as cartas que me eram enviadas e lê-las. Tenho de fazer justiça a seus talentos domésticos, depois que veio para minha casa como "donna di governo", as despesas caíram para menos da metade e cada um passou a cumprir suas obrigações direito, os aposentos eram mantidos em ordem como tudo o mais e todo mundo, menos ela. Eu tinha motivos para acreditar que ela, lá a seu modo louco, tinha bastante consideração por minha pessoa... porém seu reinado aproximava-se do fim. Tornou-se completamente ingovernável alguns meses depois e uma série de queixas, algumas verdadeiras e muitas falsas, "favorita não tem amigos", levaram-me a decidir afastar-me dela. Disse-lhe com calma que ela teria de voltar para casa (ela havia adquirido uma provisão suficiente para si própria, sua mãe etc., no tempo em que estivera a meu serviço) e ela recusou-se a sair da casa. Fui firme e ela saiu, com ameaças de facas e de vinganças. ... No dia seguinte, durante meu jantar, ela entrou, depois de quebrar uma porta de vidro do salão à guisa de prólogo, e, avançando até a mesa, arrancou-me a faca da mão, cortando-me de leve o polegar. ...Então, chamei meus barqueiros e mandei que aprontassem a gôndola e a levassem de volta para sua casa... Ela parecia calma enquanto descia a escada. Voltei ao jantar. Ouvimos um grande barulho, saí e encontrei-os na escada, carregando-a de volta para cima. Ela havia se jogado no canal. ...Percebi sua intenção de reinstalar-se e mandei chamar um médico. ...Após sua recuperação, mandei que a entregassem em casa discretamente e nunca mais a vi, salvo duas vezes na ópera... Ela fez muitas tentativas de voltar, mas nenhuma violenta. E esta é a história de Margarita Cogni, até onde estou envolvido. Esqueci de dizer que era muito devota e persignava-se quando ouvia o sino indicar a hora da prece, às vezes em momentos nos quais esta cerimônia não parecia muito condizente com o que ela estava fazendo. Tinha respostas rápidas na ponta da língua como, por exemplo, num dia em que ela havia me irritado muito por ter batido em alguém e chamei-a de "vaca", o que em italiano é uma séria afronta. Chamei-a de "vacca", ela virou-se, fez uma mesura e respondeu: "Vacca tua, 'Celenza." Em suma, era como já disse, um magnífico animal, de beleza e energia consideráveis, com muitas qualidades boas e algumas divertidas, porém selvagem como uma bruxa, e feroz como um demônio. Costumava vangloriar-se em público de sua ascendência sobre mim, contrastando-a com a de outras mulheres e atribuindo-a a razões de ordem física e moral que melhor diziam de seu físico que de sua moral. Era bem verdade que todas tentaram livrar-se dela e nenhuma conseguiu, até que foram ajudadas pela sua própria falta de juízo. Sempre que havia uma competição, e às vezes uma era fechada num quarto e outra noutro para impedir uma batalha, a Fornarina [a padeira] geralmente tinha a preferência.

Com muita estima e afeição

B"

19.4.04

Giovanni de' Dondi, de Pádua,
gastou uma vida
para construir um relógio.

Um relógio sem igual, insuperado
durante quatrocentos anos.
Mecanismo múltiplo,
rodas dentadas elípticas;
ligadas por engrenagens articuladas,
e o primeiro escapo fusiforme:
uma construção inaudita.

Sete mostradores
indicam a situação do firmamento
e as revoluções silenciosas
de todos os planetas.
Um oitavo mostrador,
o mais discreto de todos,
marcava a hora, o dia e o ano:
A.D. 1346.

Trabalhado à mão pelo próprio:
uma máquina celestial,
sem finalidade e plena de sentido, como os Trionfi,
um relógio de palavras
construído por Francesco Petrarca.

Mas por que perdeis tempo
com o meu manuscrito,
se não sois capazes
de me imitar?

Duração do dia solar,
nós da órbita da Lua,
festas móveis.

Uma máquina de calcular e ao mesmo tempo
uma reprodução do céu.
Em latão, em latão.
Nós continuamos a viver sob esse céu.

A gente de Pádua
não olhava para o relógio.
As carroças da peste rolavam pelas calçadas.
Os banqueiros
saldavam as suas contas.
A comida escasseava.

A origem daquela máquina
é problemática.
Um computador analógico.
Um menhir. Um astrário.
Trionfi del tempo. Restos.
Sem finalidade e plenos de sentido
como um poema de latão.

Nenhum Guggenheim mandava
cheques a Francesco Petrarca
no primeiro dia do mês.
De' Dondi não tinha contrato
com o Pentágono.

Outros predadores. Outras
palavras e rodas. Mas
o mesmo céu.
Nós continuamos a viver
nessa Idade Média.


Hans Magnus Enzensberger

17.4.04

Sou um homem doente... Um homem despeitado. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo absolutamente nada da minha doença, nem sei ao certo do que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além disso, sou supersticioso ao extremo; o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. (Tenho bastante instrução para não ser supersticioso, mas sou.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Mas eu compreendo. Está claro que não vos saberei explicar a quem exatamente estarei prejudicando, nesse caso, com a minha raiva; sei muito bem que aos médicos não causo dano algum por deixar de consultá-los; percebo melhor do que ninguém que, com tudo isto, o único a sair perdendo sou eu. Mas, seja como for, se não me trato é por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais! (...) Não consegui chegar a ser coisa alguma, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem homem de bem nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias no meu canto, escarnecendo de mim mesmo com o inútil e despeitado consolo de que um homem inteligente não pode vir a ser nada de sério e de que só o idiota o consegue. Sim, um homem inteligente do século 19 precisa e está moralmente obrigado a ser, em essência, uma criatura sem caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, é fundamentalmente uma criatura limitada. Esta é a convicção dos meus quarenta anos. Tenho agora quarenta anos, e quarenta anos são toda uma vida, são a mais irremediável velhice. Viver mais de quarenta anos é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? -- respondei-me sincera e honestamente. Vou dizer-vos quem: os idiotas e os inúteis. Vou dizer isto na cara de todos esses velhos respeitáveis de cabeleiras prateadas e perfumadas! Vou dizê-lo na cara de todo mundo! Tenho direito de falar assim, porque eu mesmo viverei até os sessenta. Até os setenta! Até os oitenta!... Um momento! Deixai-me tomar fôlego...


Dostoiévski, em Zapíski iz podpólia (Memórias do Subterrâneo, Notas do Subterrâneo ou Memórias do Subsolo), 1864.

16.4.04

Rio, apartheid social: morro x asfalto
(para refrescar a memória)


. 5 regiões + ricas da cidade: Lagoa (Ipanema+Leblon), Barra, Botafogo, Copacabana, Tijuca. Seus moradores trabalham 5 horas a menos e têm renda 5 vezes maior (R$2.145 mensais) do que a renda dos moradores das 5 maiores favelas (R$405) : Rocinha, Jacarezinho, Maré, Complexo do Alemão, Cidade de Deus.

. Taxa de desemprego nos bairros ricos: 9,9 %
. Taxa de desemprego nas favelas: 19,1 %

. O município do Rio tem 14,6% (855 mil cariocas) de miseráveis (aqueles com renda per capita de até R$79).
. O estado do Rio tem 19,45% (2,7 milhões) vivendo abaixo da linha da miséria.

. Na Rocinha, 21,8% (12 mil) de seus 56 mil moradores estão abaixo da linha da pobreza.
. No estado do Rio, o município de São Francisco de Itabapoana tem quase metade dos seus moradores vivendo abaixo da linha da pobreza.
. Erradicar a miséria na capital custaria cerca de R$34 milhões por mês. E no estado, R$109 milhões. Se cada carioca contribuísse com 5,90 reais por mês, seria possível erradicar a miséria.

.Taxa média de escolaridade:

Brasil: 4,81 anos de estudo
Estado do Rio: 5,88 anos
Município do Rio: 6,87 anos
Bairros ricos: 11,9 anos
Favelas: 6,2

. O Brasil tem 56 milhões de miseráveis.


-- dados do estudo "Mapa do fim da fome II" do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, lançado em 15.04.2004.

15.4.04

Vestida para Dormir



tropeço em volta da cama e acerto o despertador para as 5.
os três cubos de gelo no copo já derreteram.
eu daria tudo por um feijão com carne seca agora,
mas minha alma feminina remói outras delicadezas.


SO LET ME HAVE MY FUN


Tri tri tri-fru fru fru-ihu uhi uhi!

The poet's having fun;
he's mad
and out of control!
But don't say anything bad,
let him have his fun,
poor soul:
these harmless little tricks
that give him his kicks.

Cucu ruru-ruru cucu-cucucucurucu!

What are these obscenities?
These stanzas, who can read them?
Freedom, freedom,
poetic freedom!
They're my passion.

Farafarafarafa-tarataratarata
paraparaparapa-laralaralarala!

Do you know what they are?
Avant-garde stuff:
not mere grotesqueries
but the finishing off
of other poetries.

Bubububu-fufufufu-Friu-Friu

It hasn't a shred
of wit -
so why does he write it,
the block-head?

Bilobilobilobilobilo-blum
Filofilofilofilofilo-flum
Bilolu. Filolu-U.

It isn't true they have no meaning,
they mean something;
what they mean
as when
one starts to sing
and doesn't know the words . . .
a very vulgar thing,
and yet it's to my liking!

Aaaaa! Eeeee! Iiiii! Ooooo!
Uuuuu ! A ! E ! I ! O ! U !

But young man
will you tell me this:
isn't your act a pose,
to claim with such little justification
you're going to cause
a conflagration ?

Whish . . . . . whish . . . .
Shoo shoo shoo Koku koku koku

But how is one to understand?
You make pretences that are meant to please,
but all the same they sound like Japanese.

Abi, all, alari,Ririririri! Ri.

Don't go off on a spree;
it's better not to be so free.
Your fun will cost you quite a bit,
and you'll be called an ass for it.

Labala falala falala and even lala.
Lalala lalala!
The risk is certainly great
to write the way you do.
Like guards at every gate
the professors are watching you.
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
When all is said and done
I’m right, the times have changed,
And men don’t ask a thing
Of poets anymore,
So let me have my fun!


Aldo Palazzeschi, poeta futurista italiano, 1910. Poema em versão inglesa. E para você se divertir mais um pouquinho, veja a tradução do Google para o mesmo poema. Não confie.


DEIXE-ME ASSIM TÊM MEU DIVERTIMENTO


Uhi tri tri do uhi de USC-ihu da USC tri-USC!
O poeta que tem o divertimento;
é louco
e fora do controle!
Mas não diga qualquer coisa mau,
deixe-o ter seu divertimento,
alma pobre:
este harmless pouco engana
essa elasticidade ele que his retrocede.
Cucu-cucucucurucu do ruru-ruru de Cucu!
Que são estes obscenities?
Estes stanzas, quem podem lê-los?
Liberdade, liberdade,
liberdade poética!
São minha paixão.
Farafarafarafa-tarataratarata
paraparaparapa-laralaralarala!
Você sabe o que são?
Material de Avant-garde:
grotesqueries nao meros
mas o revestimento fora
de outros poetries.
Bubububu-fufufufu-Friu-Friu
Não tem um shred
da sagacidade -
assim porque a escreve,
a obstru-cabeça?
Bilobilobilobilobilo-blum
Filofilofilofilofilo-flum
Bilolu. Filolu-U.
Não é verdadeiro eles não tem nenhum meaning,
significam algo;
o que significa
como quando
um começa cantar
e não sabe as palavras. . .
uma coisa muito vulgar,
no entanto é a meu gostar!
Aaaaa! Eeeee! Iiiii! Ooooo!
Uuuuu! A! E! I! O! U!
Mas homem novo
vontade você diz-me este:
não é seu ato um o pose,
para reivindicar com tal pouca justificação
você está indo causar
um conflagration?
Whish. . . . . whish. . . .
Koku do koku de Koku do shoo do shoo de Shoo
Mas como é um a compreender?
Você faz os pretences que são significados satisfazer,
mas todos os mesmos que soam como o japonês.
Abi, tudo, alari, Ririririri! Ri.
Não vá fora em um spree;
é melhor não ser assim livre.
Seu divertimento custar-lhe-á completamente um bocado,
e você será chamado um burro para ele.
Falala e mesmo lala do falala de Labala.
Lalala de Lalala!
O risco é certamente grande
para escrever à maneira você .
Protetores do gosto em cada porta
os professores estão prestando-lhe atenção.
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
Quando tudo for dito e feito
A direita de I'm, os tempos mudou,
E o don't dos homens pede uma coisa
Dos poetas anymore,
Deixe-me assim têm meu divertimento

14.4.04

escrevendo

Larguei a mania de escolher palavras. Qualquer uma serve para precipitar o pensamento. O que vale não é o pensamento? Aquilo que se desprega do mais íntimo e revoluciona as sensações e se expande como uma bolha elástica e se funde com o silêncio e, por fim, denuncia a miséria de estar vivendo? Vou escrever umas bolhas. Você não pode mais me impedir.


Jorge Pieiro

Feliz Aniversário, Prosa Caótica










12.4.04

Eu falo, grito, esbravejo contra as tais das panelinhas, vcs sabem, né? Xingo, faço piada, ridularizo e tal, mas sabem o que é? Inveja. In-ve-ja. Eu queria desesperadamente fazer parte duma panelinha dessas. Queria ser amiguinha do dono da editora, puxar o saco dele prele me publicar. Queria ter um papai que me botasse dentro do jornal. Queria, ué, queria mesmo. Eu queria um esquema, sabem? Mas eu não sei. Não sei ir ao lançamento do livro do papagaio da tia do oculista da cozinheira e fazer amigos, e influenciar pessoas. Não sei fazer networking. E não falo isso com orgulho não, eu, o último bastião da moralidade e da ética, nada disso. Falo profundamente magoada. E com vergonha. Pq isso, em última instância, é incompetência, pura e simples, sem atenuantes. Mas depois dum dia como o de hoje, depois de traduzir mais de 20 páginas dum dos piores textos já escritos em qrr idioma, prum debilóide que já tem editora, que está escrevendo sob contrato, eu fico, sei lá. Com inveja. Despeitada. Magoada. Depois de receber a décima segunda carta de recusa de editora, eu fico assim. Com insônia. Pensando que caralho tou eu aos 33 anos fazendo da merda da minha vida. E com a certeza mais que absoluta, que eu tenho mesmo é que baixar a minha bolinha. Que bom que eu descobri o blog, onde dá pra escrever só pra ser feliz, sem grandes expectativas, só pela curtição. Pq vai ser só isso mesmo. E já tá bão, né? Tá. Enfim. E não, eu não quero tapinhas nas costas, bilhetinhos no LV de "sua hora vai chegar", nada disso. É só um desabafo. É só um chorinho de madrugada. Passou.


Drops da Fal

11.4.04




Sua pesquisa -- acho que vou fechar esta merda -- não encontrou nenhum documento correspondente.

Sugestões:

-- Certifique-se de que todas as palavras estejam escritas corretamente.
-- Tente palavras-chaves diferentes.
-- Tente palavras-chaves mais genéricas.
-- Tente usar menos palavras-chaves.

lembrança de um brasil


Abakuéra era um cabra mangatu. Tinha pernas de gente mas tão curtinhas de tanto gastá-las andando pelo kaá ou atravessando os 'ygûasu atrás das mbôia que viviam debaixo de toda itamirim. Diferente de todos os curumins, Abakuéra não tinha Sy, ou se teve não conheceu. Porém, como todos eles, nasceu também num kurityba e já antes que lhe nascessem os dentes devorava os pirá que abás traziam das pescarias. Da pouca memória que me restou da inteligência, lembro que Abakuéra não tinha cara de abá, nem de kunhã. Era banguela, com fachada de minhoca e cabelo arrepiado. Mas seu coração era uma katusaba só. Todos gostavam dele, menos as kunhãs recém-casadas, que achavam que ele tinha cara de abortivo e por isso evitavam olhar aqueles seus olhos de água parada. Não que ele se ressentisse disso, mas que ficava triste, ah, isso ele ficava. Abakuéra se recolhia no fundo da mata com sua tristeza, e ficava lá, alisando o aipim até ficar redondo, catando a cabeça, desencaroçando casca de concha com a ponta da língua e botando pra secar. Algumas kunhãs novinhas no assanho gostavam de mostrar suas akoabas pra ele. Abakuéra ficava com o akuãia muito atã e à noite sonhava com babakas vermelhinhas. Eu tinha pena dele. Que vida de asyara. Ser tratado assim, como se fosse uma angaba, um espírito maligno. Mas isso tudo foi muito antigamente, só estou contando pra vocês porque hoje, enquanto tirava minha cera do ouvido, me lembrei do mestre Anchieta e de suas lições na arte da gramática. Foi com o padre que aprendi os rudimentos do tupi clássico ao qual me mantenho fiel até hoje, apesar das críticas de ilustres tupinólogos contemporâneos que julgam que eu e minhas teses somos pura abyaka. Para mim não passam de traidores, uns abangaíbas, de raciocínio esponjoso e abebó. Não aprecio quem costuma falar de boca cheia, tratando a língua como farinha. O final completo da historinha de Abakuéra eu não me lembro. Sei que aprendi com ele que os índios contavam os anos tomando por base o surgimento do caju e Abakuéra me contava isso rindo, a banguela de fora, os dois bêbados de tanto akaîui. Não trabalho mais na Funai mas guardo ainda um bracelete de penas presente do meu amigo. Que a água azul embale seus sonhos. Vida longa para todos. Anhé será.

10.4.04

Ao meu cachorro



Eu gosto mais do Rio, quando estou com você
De ouvir canções do Tom quando estou com você
Gosto de ir a um bar bem à beira-mar
Tomar um chope gelado, ver gente passear, mas só com você
É bom viver no Rio, mas só se for com você
O Rio é sempre lindo, a praia, o mar azul
Tudo isso que o Tom já cantou nas canções
Ah! Como é bom
Eu gosto disso mas com você


-- fragmento de "Eu Gosto Mais do Rio", gravação de Nara Leão, 1987

9.4.04

Não. Não era a polícia. A campainha tocou e eu pulei da cama. Era um sábado de sol nas Laranjeiras e eu estava de ressaca. Eles não botaram o pé na porta que eu abri. Manda aí os dólares e jóias. O 38 na minha cabeça e eu posta na sala. Na vitrola um arranhado Clara Nunes que não era meu começou a tocar para abafar os ruídos a vizinhos que ainda dormiam. Já faz tempo que morei no pé do Dona Marta. Já faz tempo que tarde da noite eu misturava o preto com o branco e subia as lembranças da arma na minha cabeça enquanto eles vasculhavam o apartamento atrás dos dólares e do ouro que eu não tinha. Foram 50 minutos de buscas inúteis para eles descobrirem que eu não era o que procuravam. Só alguns discos e livros. LPs de Maysa e Madonna, livros de alguns amigos, livros clássicos, livros de quem não pensa em fazer livros. Livros miúdos, de capa grossa. Tratados de agronomia, teses sobre o ciúme, poesia, cem mil réis de filosofia, roteiros de Fellini, enciclopédias de medicina, cópias de jornais, revistas velhas, partituras de piano, segundos cadernos, o que isso poderia lhes interessar, embromações de papel, manuais de redação, gramáticas superadas. Com a boca amordaçada eu não pensava em livros. Imaginava a que horas eles sairiam dali para eu poder almoçar e contar aos meus amigos que eu havia sido assaltada e meus livros permaneceram intocados. Meus amigos ririam antes de pedir o cafezinho. Hoje abandonei a cidade e meus livros continuam intocados. E à tardinha, quando volto de um passeio, beijo meus cachorros e ajeito as coisas para o verão.

8.4.04



e pensar que, depois que eu me for,
haverá mais dias para os outros, outros dias,
outras noites.
cães andando, árvores balançando ao
vento.

não deixarei tanto.
algo por ler, talvez.

um rebelde na estrada
devastada.

Paris às escuras.


Charles Bukowski

diálogos improváveis




-- Querida, já passa das duas da manhã e você não sai desse blog! Vem, vamos pra cama.

-- Ai, me larga, amor, espera, só falta eu ver o contador de acessos.


7.4.04




a letra com sangue entra


É a minha própria casa
mas creio que vim fazer
uma visita a alguém.

--------------------------

Sentada
no adro, vejo a igreja de São Martinho aberta
mas tão aberta
que a Física explode.

--------------------------

De hoje em diante já não consigo separar
a leitura da escrita. Se pudesse olhar
o texto a produzir-se,
voltaria de novo a ler.

--------------------------

Só depois de escrito percebemos
que tudo se passou no futuro.
O que eu vivi, tão imperfeitamente,
virá mais perfeitamente ao coração legente,
eis porque lhes escrevo.


Maria Gabriela Llansol

6.4.04



End


I opened the window of my hotel room and the
December wind
got sucked across the floor
under the door to the
hallway.
It made an eerie sound.
Creepy and slow.

On the TV, they advertised
GI Junkie and GI Judas,
complete with
backstabbing action. I'm
living to see the destruction
of
everything holy, everything
hopeful, everything bearded
and
everything that ever meant
anything.

Christmas has become a
media event without
consequences. Our
children will suffer long after
the snow covered ground
covers us all.


Michael Madsen


4.4.04

Ela nem havia nascido direito e já estava pintando os dedinhos. Sempre se esquecia de ler quando apoiava a mão na estante de livros e descobria uma unha descascada entre duas lombadas. Piccola biografia. Só gostava de ir à praia no Leblon, almoçar na Gávea e ir ao cinema na Barra, onde eu ia assim fritando o meu fígado. Eu não podia reclamar porque também só havia atravessado o túnel depois dos 18 anos. A televisão está ligada no BBB enquanto tiro um cochilo com um livro de Cesário Verde no colo na página de

"Naquele "pic-nique" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas."

Piesporter Michelsberg é o nome do vinho alemão vagabundo que estou bebendo. Comprei ontem uma caixa. Muriel está no celular comentando o que vejo na tv com alguém que não sei quem é chamado Andre, sem acento. Ontem Muriel disse que Andre leu meus poemas inacabados que deixei sobre a mesa do escritório. Eu não sei quando Andre esteve aqui e quem lhe deu permissão para entrar no meu escritório na minha ausência. Muriel concluiu a história dizendo que Andre achou que eu escrevo "parecido" com Sá de Miranda. Claro que ele não entende nada de poesia, eu disse. Muriel revirou os olhos e mudou de canal. Aqui em casa as conversas nunca acabam no mesmo dia. "Precisamos trocar as capas das almofadas" por exemplo já dura umas duas semanas. Há seis meses Muriel não consegue entender por que não quero publicar livros, embora escreva freneticamente. Eu já expliquei umas 180 vezes, mas é como o vento, ela fecha as janelas. Mesmo assim continuamos ouvindo o vizinho que tosse. Uma tosse seca que atravessa a noite, nos acorda de madrugada e avisa quando está saindo lá do corredor do prédio pela manhã. Muriel tem andado histérica por isso. Final do ano mudamos para uma casa, prometo. Ela joga o resto da torrada sobre a mesa, me dá um beijo e bate a porta. Procuro Cesário Verde no fundo do sofá onde acho que o perdi e encontro o controle remoto. Mais tarde Muriel gostará de saber que aprendi na tv os benefícios à coluna que só os colchões da Filadélfia poderão nos trazer.


"Eu me apago sozinho. Não me acendi, mas podes deixar, eu me apago sozinho. Minha vizinha se demora a pentear os cabelos. Ela é adolescente e vai sair. Acredita sinceramente na noite. Passou todo dia pensando na noite. Ela somente acordou para não dormir depois. O que fui em mim ainda será. Não fecho o ciclo, não bato a porta, permaneço acreditando na noite."

O que dizer de Fabrício Carpinejar que todo mundo já não tenha dito, ou, pelo menos, sem cair no lugar-comum? Prefiro calar minha boca, ler os seus textos e ecoar as palavras de José Castello quando afirma que Carpinejar é, sem exagero ou favor, um dos maiores poetas brasileiros de sua geração. E ainda de lambujem, como autor de blog, ele tem a vantagem de saber equilibrar lá um marketing pessoal não-agressivo com a publicação de seus textos, o que mais nos interessa no final das contas.

3.4.04

Vozes imperdíveis


Confesso que em geral não gosto de récitas. São raros aqueles que lêem bem um texto em voz alta sem nos dar um profundo tédio. Mas sem dúvida prefiro ouvir os próprios autores lendo seus textos. Hoje descobri, acho que com atraso, um endereço na Web que disponibiliza, entre muitos outros autores, as vozes de James Joyce, Tristan Tzara, Gertrude Stein, Maiakovski (sim!), Bukowski, Sylvia Plath, Appolinaire, Jean Cocteau, Burroughs e, mais imperdível ainda, a performance de Antonin Artaud nos dizendo o seu "Pour finir avec le jugement de dieu" com direito a gritos histéricos e tudo! Bom, no mínimo é curioso. Mesmo que não se entenda tudo. Passe aqui, escolha os autores na coluna da direita(de fundo cinza), dê um clique e divirta-se.


Seqüência


Tudo se dá lentamente

sem sinais ostensivos

Um dia esquecem

de trocar os lençóis

ou colocam a cama

rente à porta

em posição propícia

a esbarrões freqüentes



Depois

por conta dalgum defeito

mandam o monitor pra manutenção

A cânula entra meio torta



Quem tiver paciência

verá a máscara de dor

armar-se sobre o rosto amado



Na hora certa

um enfermeiro moreno e rápido

cerca o leito com um biombo

preme a última seringa



Na casa dos parentes

o telefone toca




Fabio Weintraub

1.4.04



Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos Índia, seus cabelos
Índia, seus cabelos...


Tiririca, em paródia à famosa guarânia



Uma escuta atenta sabe ampliar as significações. Espasmos, respirações suspensas, gritos, vertigens, altas voltagens, choques e contrastes. Eis o cenário da vida em sociedade. Deslocamentos desordenados pela sala, onde você espera encontrar um monitor ligado. A crispação da tela que se acende. As imagens se superpondo. Você rasteja na sua imobilidade sobre a cadeira. O espaço cênico se abre. É pegar ou largar. A Web é um espaço fechado mas que induz ao mergulho. Dupla pulsão. Eu acho que participo e entro em transe. Prendemos os dentes e acompanhamos os hipertextos em movimento, embora não se dê importância. O importante é o ritual: estamos no meio do duelo e do triunfo. Você se pergunta o que eu e você fazemos ali. Faz um travelling de sites com enquadramento fechado, como se seus olhos fossem uma câmera você vai e volta, aparentando inocência. Mas não entende nada, segue o ritmo da sedução. Como uma composição musical, você desabrocha em seqüências, modelando a sua imagem em total simbiose com a tela, comigo. Não somos mais desconhecidos, tampouco amigos. Mas nos confundimos, como mercadorias numa barraca de feira, conteúdos em blocos, explosão coletiva numa praia deserta de pixels.