26.12.04

Alberto Blanco

A porta é estreita/ o caminho é estreito/ a noite é interminável

Alberto Blanco, México



O fim das etiquetas
A mosca se levanta da mesa
e domina os quartos até o teto,
atravessa pontualmente o corredor
que comunica o mar com o espelho.

Penetrante na luz é o seu zumbido
Uma bolha a mais dentro da água...
navegando descobre entre os botes
a borda iluminada da toalha.

O fundo é sujo, o que ela vê, claro:
esta vida que flutua vacilante
com ar de papel, branco de luz,
já não lembra nada das palavras.

(trad. MP)

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Poema visto no ventilador de um hotel
Faz um calor dos diabos.
Ligo o ventilador
e começam a girar as pás...
Logo se espalha um suave vento
e as cortinas começam a dançar.
O centro do ventilador
é um espelho convexo,
um olho de peixe,
um capacete de ouro.

Ali vibram os reflexos
com o zumbido da máquina,
mas não saem do seu lugar.

Aumento a velocidade e as pás giram
até virar quase invisíveis
-- sobre uma gaze alvacenta --
mas os reflexos no centro
continuam sendo os mesmos.

Assim tem que ser com tudo -- digo para mim --
as superfícies se movem a grande velocidade
mas as formas que refletem não.

Passam os indivíduos de uma espécie,
mas a espécie continua a mesma.

Passam os homens de um povo,
mas o povo permanece.

Passam todos os poetas,
mas fica a poesia.

Passam nossos pensamentos,
mas alguma coisa, ou alguém,
está observando.
Segue observando.


(trad. Rodolfo Mata)
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20.12.04

Machado de Assis





COGNAC


VEM, MEU COGNAC, meu licor d'amores!...
É longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração - da vida esmalte,
Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!
Cognac! - inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor - de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m'inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!


Machado de Assis, 1856.






18.12.04

sobre traduções





Duas versões d'O Meu Pipi


1) a portuguesa, original

Crítica de fodas

A foda que dei ontem devia estar preservada no Museu de História Natural. Será considerada a gambozina das fodas, uma vez que já muitos a quiseram dar, mas nunca antes tinha sido vista. Falo da pinocada que dei em crica virgem de 72 anos. Uma virgem de 72 anos, Pipi?? Pergunta o efeminado leitor, enquanto rapa os pêlos das pernas. É facto, rabichos. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudação que repelia os mais temerários, mantinha intacta a cabaça com que Deus -- por chiste, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. A cabaça não estava intacta. Estava reforçada. Décadas de falta de uso alteraram a génese da membrana virginal que, de simples selo, garante de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o hás-de: da maneira como aquilo estava, era o "não hás-de foder nunca". Quem encostasse o ouvido àquela rata avoenga, lograria ouvir os latidos do cabrão do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar.O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal precisaria de estar ano e meio sem foder, para ter o pau mais feito de sempre, 20 centímetros de força bruta, necessária para furar o contraplacado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculadas da greta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter madeiro suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu uma mistela verde. Digo eu: "Vamos lá a ver se não tem já a pachacha estragada, minha senhora. Isto devia ter começado a ser consumido por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE O PITO AINDA ESTARÁ BOM!" E ela: "Como diz?" E eu: "O PITO, O PITO! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADO!" E ela: "Escarranche-me mas é isso, jovem." Escarranchei. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segunda, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebés. No final, confessou-me que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das cricas e do chavascal, trabalhamos. Vou só actualizar o meu curriculum e já venho.



2) a brasileira, em tradução de Mario Prata 



Crítica de Fodas


A trepada que dei ontem devia ficar preservada no Museu de História Natural. Falo da pirocada que dei em xota virgem de 72 anos. "Uma virgem de 72 anos, Pipi?" Pergunta o efeminado leitor, enquanto raspa os pêlos das pernas. É verdade, bichinhas. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudorese que repelia os mais temerários, mantinha intacto o cabaço com que Deus -- por gozação, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. O cabaço não estava intacto. Estava reforçado. Décadas de falta de uso alteraram a gênese da membrana virginal que, de simples selo, garantia de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o "há de": da maneira como aquilo estava, era o "não 'há de' foder nunca". Quem encostasse o ouvido naquela velha boceta, lograria ouvir os latidos do danado do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar. O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal teria que estar há um ano e meio sem foder para ter o pau mais duro da sua vida, vinte centímetros de força bruta, necessária para furar o compensado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculosas da boceta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter um pau suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu um líquido verde. Eu disse: "Vamos ver se não tem a chavasca estragada, minha senhora. Isto deve ter começado a ser criado por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE A XOTA AINDA VAI ESTAR BOA!" E ela: "Como diz?" E eu: "A XOTA, A XOTA! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADA!" E ela: "Me fode, garoto." Fodi. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segundo, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebês. No final, me confessou que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das xotas e da sacanagem, trabalhamos. Vou só atualizar o meu curriculum e já volto.
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Para quem não sabe, O Meu Pipi era um blog português que chegava a receber 4.500 acessos/dia. O Prosa Caótica foi um dos primeiros blogs, senão o primeiro, a mencionar O Meu Pipi no Brasil. Transformado em livro em 2003, é um dos maiores sucessos da literatura portuguesa. Seu autor continua anônimo. Na edição brasileira, apesar dos esforços do tradutor de fidelidade ao original, o texto perde bastante do seu saboroso humor lusitano. Ah, sim, o tradutor comeu a segunda frase do texto. Saudades do Pipi.


10.12.04

Hilda Hilst




Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

9.12.04



não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
o que passou


Torquato Neto

5.12.04

João Cabral -- Os três mal-amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo-morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.



João Cabral de Melo Neto, em fragmento de "Os três mal-amados", 1943.