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24.7.17
24.5.16
Elza Soares - Coração do Mar
Coração do mar
É terra que ninguém conhece
Permanece ao largo
E contém o próprio mundo
Como hospedeiro
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por nome "Se eu tivesse um amor"
Tem por bandeira um pedaço de sangue
Onde flui a correnteza do canal do mangue
Tem por sentinelas equipagens, estrelas,
taifeiros madrugadas e escolas de samba
É um navio humano, quente, negreiro, do mangue
É um navio humano, quente, guerreiro, do mangue
28.3.12
Oswald de Andrade
Súbito [Miss Barbara] teve um enjoo e deu de cara, no banco fronteiro, com Rodolfo Valentino.
O enjoo passara, mas vinha de novo. Rodolfo Valentino fitava-a. Aquele olhar fixo de sheik, debaixo da cartolinha arrepiada. Ela estava pálida, transfigurada. Era ele! Não morrera. Revirou os olhos.
Ia desfalecendo em cima de uma inglesa de óculos e chapéu de palha.
Rodolfo levantou-se, amparou-a.
Ao seu lado, só, de cartolinha, Rodolfo Valentino.
O diálogo que houve foi numa língua sem dicionário possível, mas facilmente traduzida pela fotogenia de ambos.
- Por que o senhor está aqui?
- Chi! lo sá?
- O senhor é médico?
Gesto afirmativo, categórico.
- Especialista de quê?
Gesto indicando o estômago. Ela sorriu.
- Já passou...
Silêncio. Olhar de sheik. Ela sorriu de novo. Perguntou:
- Quantos médicos há?
- Chi! lo sá?
Silêncio. Olhar de sheik. Ela contou:
- Eu nasci torta...
Conversaram a tarde toda, depois do desembarque azul, em Capri. De vez em quando, o sheik dizia:
- Chi! lo sá?
E foi assim que Champoglione Vespa conquistou num tiro a alma, o corpo e a fortuna da neta do Rei do Óleo de Fígado de Bacalhau.
Oswald de Andrade, em "O sucessor de Rodolfo Valentino", Jornal do Commercio, 28.10.1926.
25.7.08
Picuinhas literárias

picuinhas literárias: oswald de andrade x nelson rodrigues
As ferraduras mentais do sr. Nelson Rodrigues trotaram longamente pelo "asfalto é nosso" de uma revista que desde a capa traz um tom laranja que não engana. Trata-se evidentemente de um comício laranja, onde só ele surra os seus maus sucessos e enche de invectivas as páginas mornas daquele repositório comportado de opiniões parlamentares, tímidas conversas moles sobre a Rússia e histórias do namoro de Bernard Shaw com Sarah Bernhardt.
Nunca em minha vida li um documento de insânia tão descosido, intempestivo e bravio. Não há lógica de louco que consiga acompanhar esse disco voador da besteira pelos corcovos, carambolas e girândolas em que se desagrega e pulveriza.
É melhor documentar que comentar.
O alarve que escreveu Álbum de família declara-se "espiritualista" e "antidivorcista". Raciocina ele assim: "Se a gente tem um pai só, por que não há de ter uma mulher só?"
Depois, num assomo de reacionarismo, diz que o homem de Marx é um homem inexistente. Está claro, a Rússia não existe.
Certo como está de que não atingirá a imortalidade aqui na terra, com sua coleção de torvas tolices espetaculares, opta sabiamente pela imortalidade da alma. Só assim poderá ele sobreviver.
O caso Nelson Rodrigues demonstra simplesmente os abismos de nossa incultura. Num país medianamente civilizado, a polícia literária impediria que a sua melhor obra passasse de um folhetim de jornalão de quinta classe. Mas não temos nem crítica nem críticos. E o caos trazido pela revolução mundial, que se processa sob todas as formas, permitiu que qualquer fístula aparecesse em cena vestida de noiva. A alta costura de Ziembinski -- Santa Rosa conseguiu que se consumasse a façanha teratológica.
Daí por diante, o insano ficou impossível. Veio Álbum de família e agora, num bom acesso de sã consciência, ele confessou que há mau gosto em seu teatro. Como se outra coisa houvesse! Guiado pela mão caridosa do sr. Tristão de Athayde, vamos ver o monstro contrito subir para o céu como num fim de mágica. Já crê em Deus e nos conventos e declara que "a única solução para o problema sexual é a castidade". Patetamente declama: "O homem que não compreende a grandeza de um convento não compreende nada!"
Se o sr. Nelson Rodrigues não fosse um taradão ilustre, mas de poucas letras, pensaríamos que se pudesse tratar de um convento do Aretino. Mas estamos certos de que nem dessa piada ele é capaz. Quem foi Aretino, seu Nelson?
Oswald de Andrade, em "O analfabeto coroado de louros", crônica publicada no Correio da Manhã em 8 de junho de 1952.
18.3.08

São José
Pai putativo de Cristo.
Salomé
Maxixeira.
Virgem Maria
Miss Nazareth.
São João
O besta do Apocalipse.
César
Greta Garbo.
Maomé
Organizador do Estado religioso como
forma de exploração das massas por
uma elite guerreira.
Job
Judeu sem dinheiro.
Tomás de Aquino
Missa cantada por alma de Aristóteles.
Dante
Ator da Divina Comédia.
Shakespeare
Caixa de brinquedos na Renascença.
Cabral
O culpado de tudo.
Leonardo da Vinci
Criador do sorriso burguês.
Cervantes
Estréia literária da burguesia.
Voltaire
Idealista que realizou todos os seus
ideais. Dizia da religião: "Quando
não é loucura, é malandragem."
George Washington
Senhor de escravos que proclamou a
liberdade dos senhores de escravos.
Napoleão
Corso de carnaval com muitas vítimas.
Dom Pedro I
Imperador que riscava fora da caixa.
Monroe
Anexista que descobriu que a América
é dos americanos...do Norte.
Chopin
Amante de George Sand.
George Sand
Amante de Alfred de Musset.
Visconde de Cairu
Personagem grego do Segundo Império
brasileiro que dizia que "a verdade
é a mentira muitas vezes repetida".
Trotski
Trotskista.
Gandhi
Socialista passivo. Ensina liberdade
aos povos oprimidos pelo método Berlitz.
Freud
Diretor espiritual da burguesia.
Cassiano Ricardo
Ratazana ao molho pardo. Muito fotogênico.
Machado de Assis
Complexado criador de uma instituição branca.
Mário de Andrade
Macunaíma de Conservatório. Muito parecido
pelas costas com Oscar Wilde.
Oswald de Andrade
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23.8.06
Oswald de Andrade
infância
O camisolão
O jarro
O passarinho
O oceano
A visita na casa que a gente sentava no sofá
adolescência
Aquele amor
nem me fale
maturidade
O Sr. e a Sra. Amadeu
Participam a V. Exa.
O feliz nascimento
De sua filha
Gilberta
velhice
O netinho jogou os óculos
Na latrina
Oswald de Andrade, "As Quatro Gares", 1927.
8.5.06
7.12.05
Oswald de Andrade
Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clina
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jabuticabas.
Oswald de Andrade, "Fim de Serafim", 1929.
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7.9.05
19.4.03
Serafim saiu só pela noite de Jerusalém. Era a rua principal em descida. Penetrou nas luzes do Café Bristol. A sala abafada coloria-se de papel no jazz idiota. Um pianista saracoteava nulamente entre garçons e cadeiras vazias. Havia sírios gordos, homens vagos do Sul, caixeiros, viajantes bêbados e duas alemãzinhas globe-trotters. Um ar de inocência iluminava aquela blasfêmia que um cachorro enorme vigiava. No interior do bar um rei mago tingia um cocktail.
Nosso herói saiu pelo vento. Em cima fazia uma lua paulista. Passou os armazéns, o Hotel Allemby, um café turco. De repente a noite crenelada dos cruzados gritou quem vens lá! A Torre Antônia velava sobre a lama dos quarteirões. Havia sombras de guardas ao lado dos degraus de um portão. Serafim aproximou-se. Eram dois soldados curdos. Perguntou-lhes pelo Santo Sepulcro.
-- Não há nenhum Santo Sepulcro...
-- Como?
-- Nunca houve.
-- E Cristo?
-- Quem?
O outro esclareceu:
-- Cristo nasceu na Bahia.
-- Oswald de Andrade, em "Serafim Ponte Grande".
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