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8.3.11

Sylvia Plath


Poemas são um mau começo: especialmente os mais complexos: eles me paralisam depressa demais por muito pouco. Melhor poemas curtos como exercício de descrição que não exijam desenvolvimento lógico ardiloso, verdadeiras armadilhas filosóficas. Pequenos poemas sobre o patim, a vaca ao luar, à Sow. Muito concretos, no sentido de que os mundos são personificados em minhas palavras, e não declarados em abstrações, ou em denotações espirituosas em três níveis claros. Descrições curtas nas quais as palavras tenham uma aura de poder místico: nomear o nome de uma característica: delgada, picante, lustrosa, chanfrada, lívida, luminosa, bojuda. Sempre nomeá-las em voz alta. Torná-las irrefutáveis.




Sylvia Plath, 17 de julho de 1957, começando um dia de trabalho. The Journals of Sylvia Plath.


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22.5.06

Sylvia Plath e Ted Hughes

A nada mole vida de poeta





Os poetas Ted Hughes e Sylvia Plath tiveram um casamento conturbado. Ele, mulherengo e infiel, ela, depressiva e ciumenta. Sylvia grávida do segundo filho, Ted inicia um romance secreto com uma amiga do casal, Assia Wevill, mulher do poeta David Wevill, publicitária e aspirante a poeta. Sylvia acaba descobrindo e o abandona. Seis meses após a separação se mata aspirando gás de fogão, depois de sucessivas crises de depressão e de estar escrevendo como nunca, à luz de velas e num apartamento sem calefação que pertencera ao poeta Yeats. Suspeita-se que ficou sabendo que a amante de Ted esperava um filho dele, que acabou sendo abortado após o suicídio da poeta. Ted passa a viver com Assia -- uma mulher obcecada por Sylvia e que chegava a usar as roupas da poeta -- que, seis anos mais tarde e também sofrendo de depressão, se mata da mesma forma que Sylvia, com a cabeça ao lado do fogão e junto com a filha de 4 anos que teve com Ted e que era rejeitada pelo pai. Nessa época Ted já estava de romance com a enfermeira Carol Orchard, com quem veio a se casar e de quem se diz que também tentou o suicídio. A lembrança de Sylvia sempre acompanharia o poeta, que a certa altura escreveria o verso: "O teu fantasma, inseparável de minha sombra..." Os fãs de Sylvia Plath o odeiam, não sem motivos, o poeta declararia à Paris Review que queimou parte dos Diários de Sylvia referentes aos últimos meses de vida da poeta pois não queria que os filhos ficassem sabendo dos últimos dias de sofrimento da mãe. Ted Hughes era um dos poetas preferidos da nobreza britânica e de Margaret Thatcher, que deu uma mãozinha para ele se consagrar como poeta laureado. Ted morreria de câncer 35 anos depois de Sylvia Plath.




Assia Wevill, a Outra.



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23.6.04

Sylvia Plath



Aqui estou, um monte de recordações do passado e sonhos futuros reunidos num monte de carne razoavelmente atraente. Lembro-me do que esta carne já passou, sonho com o que passará. Registro aqui a ação dos nervos óticos, das papilas gustativas, da percepção sensorial. E penso: sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional -- um conjunto de valores. Esta solidão diminuirá e desvanecerá, sem dúvida, quando amanhã eu mergulhar novamente nos cursos, na necessidade de estudar para os exames. Mas agora este falso objetivo foi suspenso e giro num vácuo temporário. Em casa, descansei e me diverti, aqui onde trabalho a rotina foi momentaneamente suspensa e me perdi. Não há outro ser vivo na terra neste momento além de mim. Poderia percorrer os corredores, por todos os lados os quartos desertos escancarariam as portas para zombarem de mim. Meu Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das "festas" alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, pára chocada com as palavras pronunciadas -- são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo -- mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante...


(Sylvia Plath, em seus Diários, 1950.)