28.6.04

Ode aos Calhordas

Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices ? nunca fazem nada.
Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.

Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
"O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais."

Os calhordas não morrem ? não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: "Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem."

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.


Rubem Braga


Era uma vez o Pedro Malasarte e foi ter a uma serra aonde havia uma casa de ladrões, e depois ele pediu socorro que era um triste barbeiro que andava a fazer barbas, e depois eles fugiro todos dele, e só ficou um resolvido a gardar o jantar, e depois o Pedro Malasarte dixe assim: -- "Ó meu senhor, trá-la barba tão grande... eu faço-la." O ladrão afastou-se e ele fez-la barba, e depois dixe que ele botasse a língua de fora, e cortou-la e comeu o jantar; depois o ladrão começou a fugir pelo monte abaixo e dizia: "explorai por mim!" porque não podia dizer "esperai!" E os outros cada vez fugio mais. Depois eles foro fazer o jantar para outra serra. O Pedro Malasarte subiu para cima de um pinheiro na serra e levou para lá uma cancela velha, e eles stavo por baixo a fazer o jantar; assim que estava o jantar feito, eles descobriro as panelas e ele mijou por cima delas, e depois dizem eles: "Este molhinho vem do céu, há de ser gostoso"; o Pedro Malasarte fez então a sua vida sobre as panelas, e eles dixero que a marmelada que era boa; depois ele botou-lo a cancela velha pela cabeça abaixo; e eles dixeram ansim: "Ora sempre isto agora foi demais; se vem aí o céu velho, logo vem o novo, vamos a fugir", depois olharo pra cima do pinheiro e dixero: "Ai que ele é o Pedro Malasarte, vamos fugir!" Depois dizem eles: "De que modo nos havemos de vingar?" Foro para a beira de um rio e fizero um homem de visgo[de cera]. Daí a poucos dias, ele passou por lá: "Ora para que estará este home aqui? Deixa-me dar-lhe um pontapé." Deu-le um pontapé e ficou lá com o pé; deu-le oitro pontapé e ficou com oitro pé; deu-le com os braços, ficou lá também; infim ficou lá todo. Depois ficou lá três dias; estava quase morto, passou lá o ladrão que fez o homem de visgo e atirou ao rio o homem de visgo e o Pedro. Adeus, ó Vitória, acabou-se a história!


-- conto popular português, da tradição oral, narrando as aventuras de Pedro Malasarte, registrado em Tradições Populares de Portugal, de J. Leite de Vasconcelos, 1882.

25.6.04

Uma breve história da literatura brasileira


Os primeiros escravos vieram ao Brasil para nos libertar do jugo de Camões. Atendendo ao apelo de Gonçalves Dias, que acabaria sucumbindo a bordo de um navio negreiro nas costas do Maranhão, o povo d'África aportou no Novo Mundo na época em que Anchieta ainda era coroinha. Apesar de virulentamente combatida pelo Grupo Mineiro numa publicação da revista Klaxon, esta tese não há como ser refutada pois a Biblioteca Nacional guarda a sete chaves inúmeros fragmentos de poemas de viagem que conseguiram ser resgatados após o naufrágio do navio em que viajava o bardo desaparecido. Relatos do padre Fernão Cardim dão conta de que Anchieta, ao presenciar o desembarque de tão formosos guerreiros africanos seminus em praias brasileiras, comentaria extasiado: "O Brasil não precisa de mutilados. Precisa de braços!" E, deixando de lado o índio que lhe segurava a bata, saiu correndo na direção dos escravos e rabiscando nas areias os seus sermões. Naquele mesmo dia mandou que se rezasse a primeira missa, esquecido de que esta já havia acontecido. Nessa época era popular entre as caboclas a Canção da Aranha, um canto peculiar que servia para animar a rapagem da mandioca e cujos versos diziam mais ou menos assim:

"Que ku, cama-cama
Que ku, catolé
Ó Zarizê
Casal que me coma
Casal que me deixe
O chinrimbê cum biá.
Cacholi-choli-cholê."

No entanto, as sinhás moças , mais influenciadas pelos cantos gregorianos e músicas sacras, preferiam entoar seus sentimentos em serões familiares nos velhos casarões. Eram os românticos já entrando na dança com seus pezinhos clássicos, mas as mãos ainda nas Sextilhas do Frei Antão. Foi quando surgiram os primeiros sinais do romance brasileiro. O moço loiro e a namoradeira, casal travesso e piegas, bem ao gosto popular, deram início aos primeiros autores, jamais imaginados antes em terras de Santo Inácio. Prevalecia nas letras pátrias a máxima de Santa Teresa d'Ávila: "Morrer de tanto não morrer." Para não agonizar, o barroco rococou-se: o amor pelas curvas de capelas imperfeitas. O sexo como um pássaro de rica plumagem. A mulher, antes oculta nas camarinhas, entra no mundo verbal. Da janela do convento, o Aleijadinho já pressentia o que viria a ser "o torvelinho de ímpeto convexo". Inês de Castro fugindo desabalada da oitava-rima. Como ninguém mais falasse no Sermão da Sexagésima, os vice-reis, por interesses mui excusos, incentivaram o Marquês do Lavradio para que fundasse o teatro brasileiro. Mas isto só aconteceria lá pelos idos de 1770, na Praça Tiradentes do que se conhece por Rio de Janeiro. João Caetano também nasceria na Praça Tiradentes, onde, por vaidade típica dos artistas, ganharia um teatro com o seu nome. Dizia-se na época que não se devia convidar para a mesma coxia João Caetano e Leonor de Mendonça. Martins Pena faleceria em Lisboa, no ano da graça de 1848, Cena IV, Ato III, deixando o palco livre para o psicologismo iaiá-garcia de Machado de Assis. Abriam-se as portas do Ateneu. O escritor romântico virou Capitu, mocinha pobre e ambiciosa. Herança que ainda perdura. Perdeu-se o condor e a literatura vestiu a mortalha de Pirajá. O jornalismo teria início com o periódico Bazar Volante, embora críticos tardios reivindiquem a posição para o Correio Mercantil. Começa a boemia de jornal e café. A rotina do escárnio. Sob os laranjais, Aluísio de Azevedo descobrir-se-ia gostando da filha da madame, a quem dedicava poemas socialistas notoriamente influenciados por Castro Alves: "A morte já começa/a martelar caixões na porta dos ateus!" Rejeitado, arranjou-se com Filomena Borges e foram morar num cortiço lá pros lados da Tijuca. O universo literário-cultural jamais voltaria a abolir o acaso sob o signo da navegação. Do jogo entre sombra e luz surge o espírito científico. A mocidade coimbrã daria lugar a uma geração poética, viçosa e galharda cheia de fervor, convicção e outros hipicilones. Mário de Andrade aprende o francês e nasce o modernismo, de parto atravessado. Darwin deixaria Deus de lado para abraçar o primeiro macaco. Desta troca de casais nasceriam por fim Édipo, o perverso polimorfo, a Dama das Camélias e Caetano Veloso.

24.6.04

Teste de Inteligência


1) Venho com meu carro a 120km/h por uma estrada de asfalto movediço. Se diminuir a velocidade, afundo; se acelerar, o carro afoga. O que fazer se daqui a 2 horas encontrarei uma rocha encravada no meio da estrada e não poderei chocar-me com ela, nem tampouco desviar-me pois em torno só há abismos? Considere que daqui a 3 horas tenho um compromisso inadiável ao qual não devo faltar sob nenhuma circunstância.

2) A cada tosse um indivíduo elimina 150 perdigotos de 7 diferentes níveis de periculosidade. O carro do metrô em que me encontro tem capacidade para 50 passageiros sentados. Ele está lotado e todos tossem, menos eu. Qual a probabilidade estatística de eu contrair uma doença infecto-contagiosa se ficar de pé?

3) Minha calculadora eletrônica não registra o número 13. Como poderei, sem este recurso, achar a raiz quadrada de 169?

4) A minha vizinha completará 67 anos amanhã. No entanto, ela só achou para comprar 66 velinhas. Que disposição geométrica deverá usar na hora de enfeitar o bolo para que ninguém perceba que está faltando 1 velinha? Considere que ela tem horror a velinhas numeradas.

5) Faltam 2 doses para que a garrafa de uísque que está sobre a mesa redonda da sala fique totalmente vazia. Em volta da mesa há 12 pessoas, mas 4 não bebem. Como beber 1 dose sem que ninguém perceba a diferença no nível da garrafa e todos se dêem por satisfeitos ao beber o resto?

6) Na casa há 3 crianças e 2 pães. Como multiplicá-los sem reparti-los?

7) Em um pequeno cybercafé fechado há 10 terminais de computador disponíveis aos clientes. O gerente vai abrir a loja daqui a 15 minutos mas a fila do lado de fora já tem 12 clientes, sendo que 4 são blogueiros. O que o gerente deve fazer para atender a todos os seus clientes, partindo do pressuposto de que ele não sabe o que é um blog?

23.6.04

Sylvia Plath



Aqui estou, um monte de recordações do passado e sonhos futuros reunidos num monte de carne razoavelmente atraente. Lembro-me do que esta carne já passou, sonho com o que passará. Registro aqui a ação dos nervos óticos, das papilas gustativas, da percepção sensorial. E penso: sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional -- um conjunto de valores. Esta solidão diminuirá e desvanecerá, sem dúvida, quando amanhã eu mergulhar novamente nos cursos, na necessidade de estudar para os exames. Mas agora este falso objetivo foi suspenso e giro num vácuo temporário. Em casa, descansei e me diverti, aqui onde trabalho a rotina foi momentaneamente suspensa e me perdi. Não há outro ser vivo na terra neste momento além de mim. Poderia percorrer os corredores, por todos os lados os quartos desertos escancarariam as portas para zombarem de mim. Meu Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das "festas" alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, pára chocada com as palavras pronunciadas -- são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo -- mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante...


(Sylvia Plath, em seus Diários, 1950.)

20.6.04



Das coisas que os livros contam


Que Matusalém morreu aos 979 anos.
Que Deus é esferoidal e existe sim, nós é que não existimos.
Que o mundo é minha representação. A mente, um teatro.
Que Pitágoras dialogava com um cão.
Que nunca entramos duas vezes no mesmo rio e a lua é da cor da areia.
Que a duração da vida é como a roda da carruagem, toca a terra num único ponto.
E a alma, depois da morte do corpo, esquece o próprio nome.

Feche os olhos e veja um bando de pássaros.
Eu e você jamais saberemos quantos pássaros você viu.
Por que os melhores escritores são do tempo em que não havia literatura infantil?


(imagem: Michal Macku)

18.6.04

Jorge Luis Borges


O Punhal



Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, nos fins do século passado; Luis Melián Lanifur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; em algum momento, Evaristo Carriego teve-o na mão.

Quem o vê tem de brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito o procuravam; a mão se apressa a apertar a empunhadura que a espera; a lâmina obediente e poderosa encaixa com precisão na bainha.

Outra coisa quer o punhal.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno o punhal que ontem à noite matou um homem em Tacuarembó e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da escrivaninha, entre rascunhos e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o empunha, porque o metal se anima, o metal que pressente em cada contato o homicida para quem o criaram os homens.

Às vezes me dá pena. Tanta dureza, tanta fé, tão impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.



16.6.04



Último adeus III

Tenho escrito longamente
sobre esse assunto
Aizita traz o chá
Bebericamos na varanda
Nenhum descontrole na
tarde
Intervalo para as folhas
caindo da árvore em
frente
que nos entra pela janela
Não precisamos nos dizer
nada
O parapeito vaza outra
indicação
seca do presente
Ouvimos:
outra indicação seca do
presente
Aizita vai ver na folhinha
pendurada no prego da
cozinha
Acaba o chá
Acaba a colher de chá
Longamente
Eu também, bem, tenho escrito


Ana Cristina Cesar

14.6.04

Aquele que fosse capaz de atravessar o espelho do seu próprio tempo para habitar o meu tempo não veria nada demais. Perderia a viagem. O meu mundo, que lhe é estranho, mostraria uma mulher à mesa, tarde da noite, um braço jogado sobre papéis movimentando-se da esquerda para a direita. "Ela está escrevendo, diz aqui", pensaria o alienígena com os seus catálogos. Eu mesma não perceberia a sua presença de tão recolhida que estaria em minhas próprias ilusões. Além disso, o estranho -- o Outro que veio do seu mundo para me conhecer -- seria uma hipótese nebular, sem cheiro, sem cor, sem voz. Porque a voz que eu procurava estava ali no papel. Nas linhas em branco que eu precisava preencher para me julgar criativa. Mas isso o estranho não sabia. Ele só tinha que observar e de sua observação extrair uma fonte de conhecimentos inúteis que para ele seriam úteis lá no tempo de onde veio. O estranho para mim não era ninguém. Mesmo que ele fosse a simples presença de um ovo ou de algo mais picante no aparador da cozinha, eu não saberia. Era ele que buscava conhecer os meus sentimentos, não o contrário. Como eu não ouvia sua voz -- ele não era interativo -- para mim o tempo dele não existia. Era uma paralisia, uma máscara sem rosto. Se arregalasse os olhos, mesmo assim eu não o veria. Se me tocasse, eu não sentiria. O Outro para mim já não existe mais. Aprendi com o meu tempo que o Outro é o meu próprio corpo, o qual adestro regularmente com dietas de baixas calorias, exercícios, overdose de vitaminas e sexo seguro. E se por acaso o desconhecido tivesse uma voz e me dirigisse a palavra, ou um som eletrônico-gutural, eu não ia querer ouvi-lo. Me trancaria no banheiro? Sempre tive medo de estranhos, com suas perguntas, suas verdades, suas simpáticas fragilidades. Mas que merda, o que um viajante no tempo estaria fazendo na minha casa afinal? Quer saber como vivo, o que faço ou deixo de fazer, o que escrevo ou deixo de escrever, o que como? Quer trocar civilidades, me impor a intimidade de... um cafezinho? Me incomodar com a sua existência? Ele acha que compreenderia os meus medos? Não preciso pensar para escrever que não, não compreenderia e ainda me faria ver que não passo de uma paranóica cheia de melindres, quando na verdade o que mais quero é um pouco de sossego, dois tranqüilizantes antes de dormir e que o mundo se dane. Passado, presente e futuro. A minha esperança é de que ele, quem sabe, antes que eu finalize estas linhas da esquerda para a direita, da esquerda para a direita, possa perceber que seria ótimo para nós dois se ele desaparecesse pelo espelho de onde veio e me deixasse em paz com o meu mundo. Que afinal não tem nada demais.

13.6.04

W. H. Auden



Não, Platão, Não

Não consigo pensar em nada
que eu desejasse menos ser
que Espírito desencarnado
sem poder comer ou beber
e nem contactar superfícies
ou sentir os cheiros do estio
ou compreender palavra e música
ou olhar para o que está além.
Não, Deus me colocou bem lá
onde eu teria escolhido estar:
bom mesmo é o mundo sublunar,
no qual o Homem é macho ou fêmea
e dá Nomes Próprios às coisas.

Posso, porém, conceber que os
órgãos que Me deu a Natureza
tais minhas glândulas endócrinas,
dando duro vinte e quatro horas
sem demonstrar ressentimento,
para satisfazer-Me, seu Mestre,
e manter-Me sempre em boa forma
(não que eu lhes tenha dado as ordens,
pois não saberia o que gritar),
sonhem com uma outra existência
que não a que até então conhecem:
sim, talvez minha Carne esteja
rezando para que "Ele" morra
e, livre, Ela possa tornar-se
Matéria irresponsável.


As antigas damas japonesas


As antigas damas japonesas
distraidamente
agitam seus leques
no solitário mundo dos biombos

A distração
porém
é uma forma superior de ocultação
e
na enorme aridez
do seu íntimo domado
o rugido da raiva
estava contido
artisticamente comprimido
no extravagante cinto
que traziam
atado nas costas

Tocavam
dançavam
serviam o chá de joelhos
num secular seqüestro

Mas às vezes
num intervalo do desvelo
da hora e do pudor
descobriam
o esquisito sabor
que tem o crime


Ana Hatherly



12.6.04

________________

em tempo: os textos de outros autores publicados aqui não necessariamente refletem os pontos de vista da autora do blog. A concordância não é o critério norteador do Prosa Caótica. Um abraço.

Memórias de um ex-escritor (XIV)


Pedra que rola não cria limo, dizem os gaúchos. Muito menos identidade, seria bom acrescentar. Hoje, quando perguntam qual é minha cidade, tenho de refletir. Para começar, não nasci em cidade. De minha mais que metade de século, em Dom Pedrito só vivi seis anos, de 1958 a 63. Quase o mesmo tempo que vivi em Paris. Quando se tem muitas cidades nas costas, temos de estabelecer critérios para definir o que seja "minha cidade". Talvez seja aquela em que nos defrontamos com os primeiros embates existenciais, os primeiros desafios profissionais, a primeira mulher na qual apostamos tudo. Neste sentido, minha cidade é Porto Alegre. Foi lá que fiz minhas universidades, escolhi profissão, ganhei meu primeiro salário. E foi também lá - conquista mais importante que qualquer outra - que encontrei a companheira de toda uma vida, hoje ausente.

Verdade que me sinto muito mais em casa em Madri ou Buenos Aires, é como se sempre tivesse vivido nelas, enquanto na capital gaúcha ainda tenho um pouco a sensação de peixe fora d'água. Seqüelas da infância na fronteira. Em verdade, sempre me senti mais platino, uruguaio, hispânico, que brasileiro. Ao falar espanhol sinto um prazer que o português não me dá.

Em 77, quando recebi bolsa em Paris - do governo francês, que o brasileiro jamais me concedeu qualquer favor - meus professores não entendiam por que razões não escolhera obra de autor brasileiro como tema da tese. Não foi muito fácil explicar que a literatura brasileira pouco ou nada me dizia.

O Brasil ainda não produziu um poema que possa ombrear com o Martín Fierro, nem escritores do porte de um Roberto Arlt, Ernesto Sábato ou José Donoso. Machado de Assis, desculpem-me os machadianos, é literatura água-com-açúcar, tanto que é permissível em qualquer escola secundária, até mesmo religiosa. Se um escritor entra nos círculos didáticos oficiais, é porque sua literatura já perdeu seu potencial subversivo. Quando Machado começa a escrever, há um mundo editorial tão incipiente no Brasil que os escritores tinham de publicar em Paris. Como dizia Fernando Pessoa, sobre um pano de fundo de nada qualquer coisa se destaca.

Guimarães Rosa, perdoem-me os rosianos, é um elefante branco criado pela universidade brasileira. Impossível negar seu talento de poliglota e criador de uma linguagem, mas é o menos lido e mais citado dos ficcionistas brasileiros. Escreve para uma elite que sequer o lê. As tiragens de suas obras só foram possíveis porque impostas em currículos acadêmicos.

Erico Verissimo, gostei muito de conversar com o homem, mas o escritor não me diz nada. É outra planta de estufa universitária. O gaúcho pintado por Verissimo é uma ficção ao estilo dos Centros de Tradições Gaúchas, nada tem a ver com nosso homem de fronteira. (O gaúcho mesmo, sem pilchas nem fanfarronadas, está em Aureliano Figueiredo Pinto, um dos injustiçados da cultura gaúcha. Memórias do Coronel Falcão, editado postumamente, foi sufocado pelos donos da cultura na capital, entre outras razões porque continha "espanholismos".) Erico foi homem urbano, nada conhecia da vida de campo. Ele próprio jamais se considerou escritor, apenas um contador de histórias. O problema em torno a Verissimo é a simpatia e calor humano que dele emanavam. Depois de uma charla com ele, não era fácil ir aos jornais e dizer o que se pensava de sua literatura. As novas gerações têm a vantagem de não sofrer este constrangimento, e talvez dentro em breve sua obra seja avaliada com isenção. Mais ainda: Erico foi covarde e omisso em relação ao comunismo. Conto mais adiante.

Jorge Amado, cortesã de alto bordo, foi nazista, stalinista, cúmplice das duas ideologias mais assassinas que empestaram o século, e vira qualquer coisa que lhe renda fortuna. Apoiou Collor de Mello na tentativa de colocar o Itamaraty em sua campanha desesperada para receber o Nobel. Suas traduções no mundo todo se devem à sua cumplicidade com o fascismo eslavo. A bem da verdade, tem um belo livro, e um só: Os Velhos Marinheiros.
Escritor de porte, para competir na literatura universal, penso que o Brasil tem apenas um, o Nelson Rodrigues. Só começou a ser descoberto depois da queda do Muro de Berlim. Seu teatro tinha livre trânsito, afinal denunciava as "contradições da burguesia". Como malhava as esquerdas em suas crônicas, o Nelson cronista sempre foi maldito nos círculos intelectuais do país. De qualquer forma, em matéria de literatura, sempre me senti melhor freqüentando os hispânicos. Mas adoro reler o Nelson, o das crônicas. Escritor bom é o que gostamos de reler. Os outros passam. "Só escrevo para ser relido", dizia Gide. Como dizia D. H. Lawrence, é melhor ler um livro seis vezes do que seis livros.


Janer Cristaldo


10.6.04



ONTEM VI UM ANÚNCIO NO JORNAL
VI NA TV NO OUTDOOR E EM DIGITAL
PEDIAM MULHERES COM CORPO ESCULTURAL
PRA DAR PRAZER A HOMENS, MULHERES E ATÉ CASAL
MAS NA REAL O QUE EU QUERO É SER ARTISTA
DAR AUTÓGRAFOS, ENTREVISTA, SER CAPA DE REVISTA
QUERO SER VISTA BEM BONITA NA TELEVISÃO
ROLÉ DE CARRO E NÃO MAIS DE CAMBURÃO, NÃO
TÔ DEPRIMIDA NESSE AMBIENTE DE DESGRAÇA
TRAFICANTES, PARASITAS, VICIADOS PSICOPATAS
UM BASEADO PRA AFASTAR ESSA FADIGA
DESSA NOITE SEDENTÁRIA DE ORGIA E MALDORMIDA
NÃO CHORO MAIS, SEI QUE ME PERDI
TÔ CONSCIENTE, O MEU DESTINO EU ESCOLHI
DAS PRAGAS SOCIAIS SOU A PIOR
COCOROCOCÓ EU SOU O EFEITO DOMINÓ
O LENOCÍNIO OFUSCA, INDUZ, COAGE, ATRAI
O MARINHEIRO AVENTUREIRO SORRATEIRO DESEMBARCA E CAI
SOU DE QUEM ME VIR PRIMEIRO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)

SOU PUTA SIM VOU VIVENDO MEU JEITO
PROSTITUTA ATACANTE VOU DRIBLANDO O PRECONCEITO

OS CRENTES DIZEM QUE VENDO A ALMA PRO CAPETA
SEI MUITO BEM QUE NÃO SOU MAIS MULHER DIREITA
NÃO SEI SE É CERTO, MAS FAÇO PARTE DO BORDEL
UM RENDEVÚ QUE MAIS PARECE A TORRE DE BABEL
SINTO OS SINTOMAS DA FADIGA NO MEU CORPO
MAIS SEDATIVOS ALIVIAM AS CONSEQÜÊNCIAS DESSE ABORTO
A PERVERSÃO DEIXA PROFUNDAS CICATRIZES
EM DESESPERO JÁ TENTEI VÁRIOS SUICÍDIOS
QUEM ME VÊ AQUI, SORRI ASSIM TÃO INOCENTE
NÃO PERCEBE A MALÍCIA DA SERPENTE
DOU MAIS UM DOIS E ALIVIO ESSA TENSÃO, OU NÃO?
NA MADRUGADA TODA PUTA É A IMAGEM DO CÃO, OU NÃO?
SEM CARTEIRA VOU GUIANDO, SENTIDO CONTRAMÃO
ARTIGO CINCO NOVE LEI DA CONTRAVENÇÃO
VOU DESPERTANDO A LIBIDO DE UM VELHO OU DE UM MENINO
CONSIDERADA AQUI NA ZONA A RAINHA DO EROTISMO
SANTO AGOSTINHO É MEU SANTO PROTETOR
CONTRADIÇÃO É MINHA MARCA NA REZA E NA DOR
SOU O RETRATO TRÊS POR QUATRO DESSE POVO BRASILEIRO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)

SER MERETRIZ TRISTE E FELIZ, CODINOME VAGABUNDA
ENTRE O MAL E O BEM VOU DEIXAR DE SER IMUNDA
VOCÊ ACHA QUE É FALTA DE MORAL, PROMISCUIDADE EXCESSIVA
SEJA PUTA DOIS MINUTOS E SOBREVIVA
TENHO SONHO, AMOR E VAIDADE
UM TÉCO AJUDA SUPORTAR A ENFERMIDADE
AS FAMÍLIAS ME ODEIAM POR CAUSA DA LUXÚRIA
MAS SÓ VENDO A MINHA CARNE E MEU CARINHO A QUEM PROCURA
ENTRE LOGO, FECHE A PORTA MEU CLIENTE
TIRE A ROUPA, LAVE O SEXO, TOME A PASTA, ESCOVE O DENTE
NÃO PENSE NO PECADO, TENHA DECISÃO
SOU SEU VIDEOGAME, LIGUE AQUI NESSE BOTÃO
GOZE LOGO O TEMPO É CURTO O PREÇO É JUSTO
OUTROS HOMENS ME ESPERAM, VÁ SEM SUSTO
A POLÍCIA É APENAS NOSSO RISCO
A JUSTIÇA É APENAS NOSSO CISCO
A NECESSIDADE ME LEVA À SOBREVIVÊNCIA
A MISÉRIA ME LEVA À INDECÊNCIA
AS DUAS À LOUCURA, INTENSO DEVANEIO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)

SOU PROSTITUTA NA BOCA DO POVO CONHECIDA COMO PUTA
OBRIGADA A CONHECER AS POSIÇÕES DO KAMA SUTRA
SE MEU FILHO CHORA, SOU EU A MÃE QUE ESCUTA
MEU DEUS DESCULPA, NÃO TENHO CULPA SÓ FUI À LUTA
NÃO SEI SE TENHO O VALOR QUE MEREÇO
MAS PRA DEITAR COMIGO TEM UM PREÇO
PELA MINHA MÃE PELO MEU FILHO TENHO MUITO APREÇO
FOI NUM PROSTÍBULO QUE ACHEI MEU ENDEREÇO
NÃO ME ORGULHO MAS ME ASSUMO, MENOS MAL
QUEM RODA BOLSA OU FAZ PROGRAMA, PRA MIM É TUDO IGUAL
DAS CINZAS ÀS CINZAS, DO PÓ AO PÓ
SEM DÓ, OS MEGANHAS CHEGAM O TEMPO FICA BEM PIOR
VEM DI MENOR, VEM COMIGO NO XILINDRÓ
ESTAR EM CASA COM MEU FILHO AGORA SERIA BEM MELHOR
NÃO ESTOU SÓ, TENHO DEUS COMIGO
MAS CORRO O RISCO DE DEITAR COM O INIMIGO
BATE O SINO, MEU FILHO DEVE TÁ DORMINDO
ENQUANTO EU INICIO A VIDA SEXUAL DE UM MENINO
AOS DEZESSEIS SÓ CURTIÇÃO, PENSAVA EM NADA
HOJE AOS 23 NEUROSE A MIL SÓ TRANSO ANGUSTIADA
AOS 33 QUEM SABE VELHA E ARREPENDIDA
AOS 43 SÓ NO ESQUELETO RECORDO A VIDA
MINHA PUTA VIDA
REFLETE O DESESPERO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)
SOU PUTA SIM VOU VIVENDO MEU JEITO
PROSTITUTA ATACANTE VOU DRIBLANDO O PRECONCEITO


Nega Gizza, em "Prostituta".

9.6.04

VI (última parte)

Minha Alteza

Há séculos que sonho com o teu retorno triunfante de uma guerra que só faria engrandecer o teu nome na história, colocando-o ao lado de Alexandre o Grande. O sonho coroou-se de realidade. Por fim a Gália subjugada! E que butim nos trazes! Meu senhor, como me orgulho do meu rei, do meu esposo, ao lado de quem me sinto a verdadeira Hera. Ouça os dobres dos sinos que ordenei tocassem para acompanhar os passos de tão valorosos cavaleiros no seu caminho de volta ao lar. Ouça e apressa-te que hoje à noite te receberá o banquete que merece todo César. Organizado por mim mesma com as mais saborosas carnes de nosso reino, meu bravo consorte. E após refestelar-te com o sangue vigoroso da caça, um leito de depravações aguarda o corpo lúbrico do saudoso esposo em meus aposentos. Estou ansiosa para mostrar-te tudo que podemos fazer com o espelho deformante que me foi presenteado pelo cardeal de Vincennes. Acredita? Não vejo a hora de abraçar-te, de deitar fora teu gibão, arrancar teus calções suados da batalha e tocar tua espada com o bico de meus seios, ao pé da cama, derretendo-me em tuas mãos. (Não me importo mais com a história de teus folguedos com a anã, tudo descansa no passado. Desconheço o que foi feito dela. A condessa chorosa ainda procura a filha pelos pântanos e jardins da basílica, onde foi vista pela última vez.) Mas hoje à noite só seremos tu, eu e nosso lectus genialis.

Tua esposa que te adora
e jamais renuncia aos prazeres
que nascem desse direito

A Trapezista

V

Meu senhor meu herói

Todas as noites sonho contigo carregado de glória. E que beijo teu busto clássico e vivo sobre um pedestal grego. Vejo-me alisando tua coroa de louros. Acordo toda suada e te procuro em minha caverna úmida. Vazia. Tanta paixão não existe, não pode existir, nem nunca existiu. Quando não te vejo, me sinto à margem do mundo, pendurada num abismo, minhas mãos sangrando nos beirais de pedra. E se não estás dentro de mim, sou toda sangue e lágrimas, um fruto abominável do Destino. Minha boca passa seus dias tristes buscando o teu nome em um alfabeto a que jamais é permitido formar palavras. Sinto-me tragada pelas feras no Coliseu. Querido, meus pés já não dóem tanto, faltam somente quatro centímetros para caberem na palma de tua mão. Minha mãe percebe minha angústia e faz comentários sobre minha pele de mármore. Pouco me alimento e não saio à rua. Ela faz perguntas. Não sei o que responder. Começo a assustar-me e receio que não poderás mais vir me ver com a mesma tranqüilidade. Há dois guardas na porta dos meus aposentos pois a condessa minha mãe receia que eu esteja sendo "vampirizada". Ela é uma mulher sensível às superstições do populacho. Não a culpo, porém não sei mais o que fazer. Penso em fugir para procurar-te, sei que não devo. Estou desesperada com este sentimento que só faz aumentar sua própria sede. Imploro-te que venhas ao meu encontro hoje à noite nos jardins da basílica. Não me faltes, ou algo de terrível pode acontecer.

Tua escrava sempre
na vida e na morte
Urselina



8.6.04

IV

Senhor

Como diz o ditado, não creio nessa história mesmo se Catão ma contasse. Que a tua cortesã bizarra é capaz de engolir toda a tua espada vezes seguidas e ainda pedir por mais escabrosidades? Um fenômeno da fisiologia! Posso concluir daí que, enfim, chafurdarás na volúpia com que sempre sonhastes. No entanto, um culhonésimo de comedimento seria aconselhável de tua parte para que não sobrevenha novamente um desastre como o de Madame du Bressac. A pobre libertina vive até hoje mal das pernas e me dá grandes despesas e enfado com suas queixas e ameaças de escândalo. Nossa reputação não suportaria mais este abalo. E os tempos, como sabes, não são mais aqueles faustíssimos. A hipótese de uma guerra agora seria oportuna, meu caro. Ainda assim, me divirto com tuas distrações. Essa pequinesa vibrante, de admirável intrepidez, sabe de fato manejar-te, o que eu mal consigo com meus improvisos acrobáticos e louçanias de espírito. Temo não possuir os mesmos dotes da anã no coup de foudre. Para finalizar, previno-te que a tua falta não só é sentida em meu leito como nas reuniões do Conselho. Seria prudente que aparecesses. Já começam os rumores.

Tua esposa ainda amada
A Trapezista

7.6.04

III


Queridinho e todo meu senhor


Rio sozinha até agora das brincadeiras que inventas a toda hora para fazer-me sentir melhor as delícias da vida. Sou tão feliz ao teu lado que até me envergonho de perguntar: -- Quem é Maimônedes? Por que me pedes que o recite para ti sempre que me penetras por trás vestido de mulher? És louquinho, e eu louca por ti. Quase à vertigem. Tens ciúmes do meu primo? Ora, ele é um cavaleiro da Ordem de Cristo e ademais tão baixinho que só monta cabritos. Jamais seria um mestre na cavalaria como é o meu senhor, este sim, um verdadeiro prodígio na arte de ferrar. Já sinto saudades, vês? Meu senhor, não sei se poderei usar amanhã os coturnos venezianos que me destes, meus pés estão tão doloridos que tive de banhá-los com chá de murta e rosas. Mas não te preocupa. Adorei o presente. Como te adoro
e vivo
para te servir
Urselina

6.6.04

II

Senhor

És um homem ou um bebê? Por que durante o banquete de ontem percebi a centelha da cobiça em teus olhos derramados naquela monstrinha, a filha da condessa Ottinger? Por que aquela cara de gêmea siamesa caminha feito uma vagabunda de Pequim? O que ela tem nos pés? Por certo estás fascinado por sua beleza grotesca, meus ciúmes não são infundados. Só espero, como sempre, que este teu carnaval se haja com a máxima discrição. Não toleraria virar motivo de chacota nestes tempos já tão conturbados. Estou aniquilada e tua ausência me desespera. Hoje à noite me encontrarás sozinha em meus aposentos se quiseres conversar. Ou para, quem sabe, um dos nossos espetáculos sem palco (o que anseio mais do que tudo).

Tua amada esposa
A Trapezista

Meu senhor

Os pés são tudo. Os pés são o amor. Os pés precisam ser burilados. Por isso amarro os meus diariamente para que fiquem como o "lótus dourado". Para que não chamem atenção num viveiro de amoreiras. Pés de oito centímetros para que caibam docemente na palma de sua mão. Pés para o meu Marquês do Pombal. O meu fidalgo. O meu amo. (Traga as botas de hipismo neste sábado depois da ceia. Deixo a porta dos fundos encostada. Mamãe viajou.)

Tua pastora Urselina

4.6.04

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..........

Do sonho


O dia acordou.
Levantou-se na ponta dos pés
e viu o mundo
ainda deitado com os sonhos
e incantações da noite.

Subiu aos montes,
deslizou pelas colinas
e escorreu para a cidade
apressado.

Apagou os candeeiros das ruas
esganou
sombras escondidas nos pátios e nas esquinas,
e depois de repartir pelos humanos
angústias e problemas
encarregou-os de o levar até o fim.

Depois deu pela minha ausência
(estava ainda no meio do sonho
a negociar uma felicidade),
abriu a minha janela fechada
e com todo o seu peso caiu sobre mim
interrompendo as negociações.


Kiki Dimoulá

3.6.04

Nelson Rodrigues

De vez em quando entro na redação e vou dizendo, de passagem: "Dura nossa profissão de estilista!" Alguns acham graça e outros amarram a cara. Todavia, se pensarmos bem, veremos que nem uns nem outros têm razão. Pergunto: por que rir ou zangar-se com uma piada que nem piada é? Trata-se de uma verdade, nada mais que verdade. Realmente, vivemos a mais antiliterária das épocas. E mais: não só a época é antiliterária. A própria literatura também o é.

Os idiotas da objetividade hão de rosnar: "Que negócio é esse de literatura antiliterária?" Parece incrível, mas aí está outra verdade límpida, exata, inapelável. Onde encontrar uma Karenina? Uma Bovary? Conhecem algum Cervantes? Um dia, Sartre esteve na África. Na volta, deu uma entrevista. Perguntou um dos rapazes da reportagem: "Que diz o senhor da literatura africana?" Vejam a resposta do moedeiro falso: "Toda a literatura africana não vale a fome de uma criancinha negra."

Vamos imaginar se, em vez de Sartre, fosse Flaubert. Que diria Flaubert? Para Flaubert, mil vezes mais importante do que qualquer mortalidade infantil, ou adulta, é uma frase bem-sucedida. Se perguntassem a Proust: "Entre a humanidade e a literatura, quem deve morrer?" Resposta proustiana: "Que pereça a humanidade e viva a literatura."

Portanto, os estilistas, se é que ainda existem, estão condenados a falar sozinhos. Por outro lado, os escritores, em sua maioria absoluta, estão degradando a inteligência em todos os países, em todos os idiomas. É meio insultante chamar um escritor de escritor. Outro dia, num sarau de escritores, chamaram um romancista de romancista. O ofendido saltou: "Romancista é você!"

Diz o PC russo: "No tempo do czar, Tolstoi era o único escritor de Tula. Hoje, Tula tem para mais de 6 mil escritores." É verdade. Cabe, todavia, um reparo: "É que os 6 mil escritores contemporâneos não são dignos nem de amarrar os sapatos de Tolstoi."


Nelson Rodrigues, em fragmento da crônica "Inteligência Invertebrada", 1972.



Existem duas possibilidades: ou estamos sozinhos no universo ou não estamos. Ambas são identicamente aterradoras.


- Arthur C. Clarke, relembrado pelo Ozono.


2.6.04

Nariz, nariz, e nariz,
Nariz, que nunca se acaba;
Nariz, que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz;
Nariz, que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que, se o cálculo não erra,
Posto entre o Sol e a Terra,
Faria eclipse total!


Bocage

1.6.04

A motoqueira de Chernobyl




"A radiação permanecerá em Chernobyl por mais 48 mil anos... Senti-me como se estivesse num mundo irreal com todo aquele silêncio a minha volta... foi como entrar naquele quadro de Dali dos relógios que derretem."

Acompanhe aqui o relato na íntegra de Elena, a motoqueira de Chernobyl, sobre sua viagem dramática ao que restou da cidade-fantasma.