31.10.02

Gustavo Lisboa

"Mar é moto contínuo/ dentro da alma sem paz." Gustavo Lisboa não é muderno, muito menos pós-moderno, mas escreve como quem sonha. Hoje, dia 31, aniversário de Drummond, leio os poemas dispersos de Gustavo Lisboa organizados em uma pequena coletânea chamada "Azul" que ele me enviou por e-mail. Como "anonimato pouco é bobagem", tomei a liberdade de publicar aqui um dos seus textos.


"Tardíssima tarde de inverno: azul esfregado
no céu, nuvens rápidas e inóspitas, a cidade
e seus seres, carros, ônibus, lixo nas calçadas,
escrevo sob um teto indiferente, décimo andar.
No sonho não me realizo, o leito é desprezado
pela amante incompleta, ela é só irrealidade;
ontem, o abraço inútil, a alma também ignorada:
hoje escrevo, olhando a vida e seu repassar.
Breve, não breve, irei sair na noite por ali e acolá;
breve, não leve, vestirei o casaco da noite fria:
avenidas, sonhos, luzes, bares, calçadas, becos,
Porto Alegre, oito graus, mais frio em Santa Maria,
onde já refiz variadamente o trajeto do vinho seco:
Porto Alegre, inverno, julho, um úmido qualquer já."

30.10.02

Beowulf precisou de 3.183 versos para relatar suas façanhas heróicas no início da época medieval. Foi modesto. Mesmo depois de velho e caquético, o rei lutava com monstros, dragões e sereias igualmente monstruosas. Já os franceses, bem mais verborrágicos, lançaram mão de 30.000 versos para fechar o "Romance de Tróia" pela pena de Benoit de Sainte More. Me recuso a ler tanto papel. Quem tem tempo pra isso hoje em dia? A "Divina Comédia" por sua vez tem 100 cantos. Um repositório de conhecimentos enciclopédicos, só esta frase me dá preguicinha. Nunca li a obra-prima de Dante de cabo a rabo. Toda vez que a via pela frente ficava em dúvida se começava pelo Inferno, pelo Purgatório ou pelo Paraíso. Verdade que a inscrição da porta do Inferno sempre me atraiu mais: "Lasciati ogni speranza, voi ch' entrate!", o que significa mais ou menos "tirem o cavalinho da chuva daqui para a frente". Grande coisa. Os melhores ficavam no Limbo: Sócrates, Platão, Homero e o resto da galera. Como estou bocejando e este post já está ficando extenso demais, escolho pra ler uns poeminhas safados e de tamanho bem mais conveniente, o que os sofisticados gostam de chamar de haicai.


"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"

(de Charles, em "Perpétuo Socorro")


"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio

o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"

(de Ronaldo Santos, em "14 bis").


Álvares de Azevedo

É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até...perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d' honra, és tu, ó meu charuto!


---  "Terza Rima".

28.10.02

Caetano Veloso

e era nada de nem noite de nego não
e era nê de nunca mais
e era noite de nê nunca de nada mais
e era nem de negro não
porém parece que a golpes de pê
de pé de pão
de parecer poder
(e era não de nada nem)
pipoca ali pipoca aqui
pipoca além
desanoitece a manhã
tudo mudou

----  "Pipoca Moderna".

Félix de Athayde

brasil não finda em abril
há outubros
o tempo é trabalho do homem
de tempo em tempo o tempo
dá um salto
como tudo que é vivo e pássaro

brasil não finda em abril
há muito tempo pela frente
outubro pode vir em maio ou dezembro
é questão de não se perder tempo

volta a viver teu dia
como se vivesses uma mulher
trabalhando todas as partes do seu corpo

brasil não finda em abril
nem finda em mim nem em ti
há outubros e há outros outros
além de nós que sabem
no amor e no ódio
que o tempo é a esperança dos homens

há outubro


---  "Há Outubros".

21.10.02

D. H. Lawrence

A indecência pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

---  "A Indecência Pode Ser Saudável".

20.10.02

Ana Cristina Cesar

Me deu uma dor forte de repente e eu disse -- me leva para o hospital.
O casal do lado me levou no carro.
Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.
Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio.
Você não apaga -- acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê Tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta: no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso. Você pode também sentar de novo na Place des Vôges, que é perfeita, cartão postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não é vago.

--- Em "Luvas de Pelica".

15.10.02

Rio em preto-e-branco

Nos anos 1930, o aluguel de um apartamento mobiliado na Cinelândia (centro do Rio) custava 400 mil réis. Na época, só uma elite emergente podia morar bem nessas vizinhanças. Um médico bem-sucedido podia ganhar 1:500.000 ( 1 conto e 500 mil réis), um operário têxtil ganhava 240 mil réis por mês e uma empregada doméstica, 120 mil. O quilo de arroz custava no mínimo 500 réis, o açúcar, 700; o bacalhau, 2.100; café, 2.400; carne de primeira e frango, 2.000; feijão preto, 500; leite, 800 o litro, e ovos, 2.200 a dúzia. Já um par de sapatos de pelica, modelo Luís XV, para moças de fino trato chegava a custar 36 mil réis. Nessa época o rádio e a propaganda incentivavam os "novos" hábitos: "Não há mais belo destino para um cigarro do que o de luzir, como um astro, nos lábios de uma mulher bonita." Nas ruas trafegavam os ônibus de dois andares, os "chope-duplo", os táxis passaram a calcular a corrida por taxímetros e ganhou popularidade o hábito de se tomar café em pé, no balcão. No comércio estabelece-se o "horário comercial" e as vendas são incrementadas com a introdução do crediário. Um grande número de mendigos "transfere-se" para São Paulo, alegando que lá serão tratados com mais civilidade, pois um decreto recém-criado os protegia da polícia. Dizia-se que alguns chegaram a fazer fortunas só de pedir esmolas. Nas farmácias podia-se comprar 5 gramas de cocaína malhada a 2.000 réis, e uma ampola de heroína custava 1.500. Na Lapa bebia-se cerveja por 1.100 a garrafa. Com seus casarões antigos de paredes enegrecidas, seus bares, restaurantes, cabarés e bordéis, a Lapa era ponto de encontro de intelectuais e artistas. Freqüentavam a Lapa Plínio Salgado, San Tiago Dantas, Noel Rosa, Assis Valente, Heitor dos Prazeres, Cartola, Nelson Cavaquinho, Francisco Alves, Araci de Almeida, Jorge Amado, Cândido Portinari, Villa-Lobos, Sérgio Buarque de Holanda, Rubem Braga, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Madame Satã, um dos mitos do bas-fond, e muitos outros. No final dos anos 1930 a polícia do Estado Novo fechou todos os bordéis da Lapa, decidida a acabar violentamente com a prostituição na Capital Federal. Nos anos 1940, o bairro entra em franca decadência devido à Segunda Guerra Mundial. A Lapa é invadida por marinheiros americanos vomitando dólares e pelos "falsos malandros", deixando de ser a partir daí a Montmartre carioca.

14.10.02

Torquato Neto

o poeta nasce feito
assim como dois mais dois
; se por aqui me deleito
é por questão de depois

a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara

ou seja:

quarenta a sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites,
calmas, desperdiçadas.

saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida

no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.

nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender -
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto. e querer

não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.

-

Rogério Duarte

Depois que eu deixei crescer a barba as coisas continuaram igualmente confusas, exceto pelo acréscimo da barba que se associa ao antigo caos e o revela com aparente nova fúria. Não sei mesmo por que me permiti tal embuste (sim, nada agora merece mais do que este qualificativo).
Foi depois da visita à fazenda natal e do retrato do bisavô peludo que acabou por me sugerir reencarná-lo. Caricatura do meu passado me tornei porque caricaturei a busca de mim mesmo indo atrás dos detritos que o meu caminho deixou à margem.
Estranho às vezes o meu corpo assusto-me frente ao espelho na vã tentativa de captar-me outro e recebê-lo na minha ternura ou, menos ainda, procurando especular sobre a aparência nova e suas possibilidades de realizar o paradoxal embuste de parecer humana, coisa aliás que não se realiza é apenas em função da minha recusa.
Terá que ser desta mesma guitarrística maneira o continuar no ato de fazer a ladainha dos pães de cada dia. Talvez tenha descoberto eu hoje uma maneira nova: não se trata de cometer o verbo mas sim de esgotar-se no só afã de cometê-lo, ou de convencionar-se para si a fatalidade de cumpri-lo. Isto poderia se compreender imaginando-se a ação de modo a não diferenciá-la da não-ação. E é tangível quando tragicamente se cai na penumbra da unidade, ou zona do fenômeno.
Talvez, se a fidelidade a cada dia me compra o direito de depuração contínua, eu chegue a escutar a viva voz que articula a vibração do manifesto.
Guitarristicamente tecendo em dedos e espera-deflagração.
Que chance? O meu destino desenvolveu-se enquanto eu mantinha os olhos tapados e já nem me reconheço nele.
Brutalmente a qualquer momento pode surgir a vida, eu sei que não estou preparado. O medo, que é sombra da luxúria, aproveitou-se do meu corpo inteiro como morada do seu escuro.
Eu sinto, quando estou falando com alguém, nitidamente a sensação de não controlar a espontânea linguagem de loucura e sofrimento que torna como que desconcertantemente ridícula (já que a cobre e nega) a comunicação esboço-vomitada.
É absolutamente igual à fé na chegada do Messias o prognóstico sobre a passagem de um Cometa. Se nos voltamos para o grande corpo, sem um sequer leve cilício, tomamos o líquido aviso, confundimos a nossa alma com Ele.
Daqui a alguns anos a moral será uma ciência misteriosa ao alcance apenas de uns poucos iniciados que, de resto, ninguém viu. A Fé, as Leis etc. serão no Futuro não muito distante de uns duzentos anos como hoje são a alquimia, astrologia e lá vai fumaça...
Eu sou muito amigo do Rei, eu me dou bem com o Rei, Eu sou o outro Rei.
Hereafter all will be different, you need to get a very human face...

--- Na revista "Navilouca", anos 1970.

8.10.02

Faça-se o cogumelo

"Sentimo-nos como se estivéssemos presentes no momento da criação, quando Deus disse 'Faça-se a luz' ... a imensa nuvem de cogumelo por um instante pareceu a gigantesca estátua da Liberdade, o braço elevado para o céu, simbolizando o nascimento de uma nova liberdade para o homem." (General Leslie Groves, comandante do Projeto Manhattan que desenvolveu a bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial e um dos idealizadores do Pentágono.) Duas bombas seriam lançadas no Japão. Uma sobre Hiroshima, a "Little Boy", e outra sobre Nagasaki, a "Fat Man". O resto da tragédia já se sabe. O presidente Truman, ao ser entrevistado anos depois, diria a respeito de seu primeiro pensamento ao saber do programa atômico: "Eu esperava que desse certo, principalmente porque custou 2,6 bilhões de dólares, o que dava uma média de 400 milhões por quilo de bomba...um explosivo caro demais." Uma pesquisa do Gallup feita em 1944 revelou que 13% dos americanos eram favoráveis à eliminação do povo japonês por meio do genocídio. Estima-se que, até 1950, 350 mil pessoas morreram como resultado direto das bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki.
Em 20 de agosto de 1998, o governo americano usou mísseis de longo alcance para destruir uma fábrica de remédios na capital do Sudão, com a justificativa de que a fábrica produzia gás dos nervos para ser usado por agentes de Bin Laden. Como se provaria logo depois, esse argumento era falso, a fábrica produzia apenas remédios contra a malária e a tuberculose, e drogas de uso veterinário. A Medical Emergency Relief International, entidade de ajuda humanitária sediada em Londres, declarou que na época do ataque americano, o Sudão passava por uma grave epidemia de malária, o que transformava a destruição da única fábrica do país que produzia remédios contra a doença num grave crime contra a humanidade.
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7.10.02

Guilhem de Peitieu

Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.

Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.

Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.

Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.

Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.

Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.

Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.

---  "Canção", séc. 12.

4.10.02

Aos 100 anos de Drummond

É noite. Sinto que é noite. E amanhã o nome, letra por letra, se desletrará. Farta de komunikar-me na pequenina taba, no pavilhão da komunikânsia interplanetária interpatetal, eis-me prostrada a vossos peses, que sendo tantos todo plural é pouco.

Cem anos: espelho d'água ou névoa? Que palavra é essa que a vida não alcança ainda quando morte esculpida em vida? Sede que bebo, vento que me arrasta, há uma hora em que todos os bares se fecham porque você não está mais na idade de sofrer por estas coisas e tudo que se pensa, tudo que se fala, tudo que se conta não passa de papel. Vamos para a Lua, Carlos. Vamos para Marte. Vamos a outra parte. Sem tir-te nem guar-te amanhã o nome, letra por letra, se desletrará.
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1.10.02

Ser carioca não é pra qualquer um. Morar de frente pro morro e lambuzar o cérebro de areia só pra quem tem a praia logo ali ó. Passo correndo por ruas vazias e desperdício de cores onde analfabetos contam casos. Carioca espanta a preguiça dormindo em pé. Celulares sebentos espalham boatos. O Iraque é aqui. Quase. E nem vamos precisar da intervenção da ONU. Antes que a noite avance me tranco em casa, encho a banheira e fecho os olhos. A obra civilizadora do narcotráfico. A água respinga nos jornais. Os salões de Tarsila estão cobertos de asfalto. Só posso dizer duas coisas, ou é isso ou é o quê?