29.5.09

Afrânio Coutinho - A comédia da vida literária




A vida literária é, no Brasil, muito mais importante do que a própria literatura. É este um dos fatores de pobreza de nossas letras, do escasso número de obras de importância e de figuras literárias de primeira plana. A superficialidade é a regra em nossos livros e em nossos homens de letras. Raros os que alcançam um nível de profundidade e de essencialidade. Isso porque nos gastamos, desperdiçamos nossas energias em preocupações bem diversas da produção de verdadeira literatura.

Uma dessas preocupações é a da glória em vida. Já se disse de alguém que teve tanta glória em vida que a esgotou nada lhe sobrando para depois de morto. São os vários processos e táticas de administração da glória que constituem um dos muitos meios de esgotamento dos escritores entre nós. O fenômeno é por demais conhecido: escritores que, em vida, desfrutaram de rumorosa nomeada e domínio sobre a opinião do público e dos confrades e que deles hoje ninguém quase desconfia da existência. Gastaram-se na vida literária, atiraram fora nas disputas de rodinhas e nas lutas pelo domínio da opinião tudo o que poderia ter sido empregado na construção de obras sérias. Pela notoriedade efêmera queimaram toda a lenha que trouxeram. Mas a notoriedade é feminina: com frequência varia de ânimo e de senhor.

Nada mais divertido do que observar a comédia da vida literária no Brasil. A felicidade é que o público não toma conhecimento dela, senão a literatura já estaria há muito desmoralizada, pois dificilmente saberia ele distinguir literatura de vida literária e verificar que esta não passa de exploração daquela em proveito de meia dúzia de sabidos. Aliás, já é de se atribuir muito do desprestígio de que a literatura é vítima nos últimos tempos nos leitores ao fato de que afinal se vai tomando conhecimento fora dos meios literários, dos processos e artimanhas dos aproveitadores da literatura.

Nesse particular, como em muitos outros para o bem e para o mal, devemos enormemente à França. Não há número de periódico francês, à imagem dos quais são feitos os nossos em sua maioria, que não estampe uma reportagem ou uma entrevista a propósito desse ou daquele aspecto da vida particular ou das intimidades de determinado escritor. A preocupação com a obra é de somenos e decresce dia a dia. Em vez da obra a vida dos autores. Em vez da literatura, o extraliterário. Em lugar da literatura, a história literária. E foi isso que Renan quis dizer quando afirmou que cada vez mais a história da literatura iria substituindo a leitura das obras. E a crítica foi-se aos poucos transformando em biografia ou interpretação do homem e da época, deixando de lado aquilo que deve ser sua primordial finalidade - a obra, sua análise, interpretação, julgamento.

Que interesse tem para a literatura que o poeta fulano haja completado anos ou tenha ido veranear em Petrópolis e o romancista sicrano em Caxambu? Apenas para ele, para o bom funcionamento de seu fígado, é que o fato tem importância. E para a alegria de seus amigos. A não ser que daí resulte uma obra fundamental que venha enriquecer nosso patrimônio literário. De outro modo, isso tem tanta importância quanto a ida para uma estação de repouso de um fiscal de consumo ou um amanuense, e, no entanto, ninguém disso toma conhecimento nem se anunciam esses acontecimentos. Mas de certos literatos qualquer que seja o seu movimento, lá vem a notícia que os amigos dos suplementos e dos jornais literários não esquecem. Há nomes que aparecem inexoravelmente todos os domingos nos órgãos literários. E às vezes com os retratos. É uma estratégia cansativa de meter pelos olhos a glória de um personagem. É um processo que está intimamente ligado à estrutura da vida literária em que dominam as igrejinhas, as cadeias de felicidade e os fogos cruzados de elogios. Sobretudo, muitas igrejinhas vivem à sombra de alguma árvore frondosa. Quais cogumelos, seus membros necessitam de sua proteção. Por isso, dão-lhes em troca o coro de louvores e de propaganda. Produtos típicos e exclusivos da vida literária são as famas rápidas e descabidas. As igrejinhas transformam, da noite para o dia, sem que nada justifique, improvisados comentaristas em críticos famosos, e meros revisores de provas em "mestres" filólogos, só porque os primeiros "promovem" os livros e os últimos colocam certo os acentos e os pronomes nos trabalhos dos membros do grupo.


Afrânio Coutinho, 1953.

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25.5.09

Apesar da diferença de altura

Em um hotel de Chicago, no outono cheyenne, um rico criador de gado chamado Waco se embriaga, perde no pôquer e se associa a Maddox, ex-pistoleiro de olhos de mingau que deseja esquecer seu passado de fora-da-lei. Antes de a noite acabar, eles decidem partir para comprar uma boiada no México. Durante o acidentado percurso, a notável diferença de altura dos dois, em vez de plantar discórdia, os aproxima fazendo nascer uma amizade de fortes. Após cruzarem um deserto de sal, eles se perdem e vão parar em Wichita Sky, uma cidade-fantasma cercada de rochas esculpidas pela erosão e assombrada por espectros de índios sioux em sanguinária batalha contra espectros de ianques renegados. Sem saber se haviam chegado na porta do inferno ou do Texas, os dois amigos se mostram determinados a expulsar da cidade o que julgam ser uma manifestação do demônio. No entanto, pela primeira vez eles divergem dos métodos. Waco, que apostava no futuro nas alturas e acreditava que o céu sempre manda alguém, achava que deviam construir uma igreja evangélica, pois entre o bem e o mal não há acordo. Maddox, acossado pela memória e preferindo jogar todas as fichas na pacificação do passado, tentou convencer o amigo com palavras duras: "Hijo de cuatro puercos, odiar o diabo é o mesmo que odiar o deserto por não ter água. Temos de proteger os túmulos, não construir igrejas." Não houve regateio. Em meio a visões fantasmagóricas de tiroteios, lutas de machadinha, flechas de fogo, carnificinas, escalpos e árvores de enforcados, Waco construía a sua igreja com as tábuas do saloon, enquanto Maddox negociava a paz sepulcral com as almas penadas dos sioux para que retornassem a sua reserva e com as almas ianques para que voltassem à Inglaterra, terra ancestral de onde nunca deveriam ter saído. A salvação de Waco foi garantida tábua por tábua até que a madeira durasse. Em uma mesa branca no cemitério, Maddox garantiu a paz fumando em um rifle de 15 tiros com os líderes sioux e ianque. Na véspera do dia de Ação de Graças, Wichita Sky amanhece afinal livre das assombrações e as primeiras diligências e carroças voltam a circular. Waco acredita que foi a igreja que os salvou. Maddox silencia e não o desmente, pois a vida lhe ensinou o valor de uma amizade sincera e verdadeira, apesar da diferença de altura. Os dois desistem da boiada mexicana e compram um rancho bucólico no Oregon, onde fabricam uísque até o fim dos seus dias, embalados por sinfonias pastorais de caubóis-cantores entre um crepúsculo e outro. 


MP


15.5.09


Estêvão quer ser meu amigo no Facebook. Não sei como me achou pois não perco perfil nessas coisas. Acho que Estêvão não tem mais essa carinha de Beach Boy porque vovó gostou dele. Não sei por que as pessoas mentem a idade, ela disse. Chico Anysio tem 90 anos e não os 78 que dizem os jornais. Eu acredito na vovó. Ela lê enciclopédias e sabe da vida de reis e rainhas. Foi o que atraiu meu avô, plantador de arroz no Sul. Fico confusa na frente do monitor e vovó me passa uma bala de tamarindo com sorriso malicioso. A vida é azeda. Estêvão é um problema que não preciso resolver.


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13.5.09




Dinorá nunca saberia quem a matou. Não saberia a que horas exatamente o assassino entrou em sua casa e esperou pelo momento certo para fazê-la exalar o último suspiro. Dinorá foi comer uma fatia de bolo na cozinha e a faca que deixou sobre a mesa em meio aos farelos cortou a sua barriga de leste a oeste. O marido dormia. As crianças dormiam. As brasas na lareira já não iluminavam a sala. Mas Dinorá era gulosa. Tinha fomes noturnas. Medo do escuro. Medo de passar fome no escuro. O assassino também provou o bolo. O perito encontrou fragmentos de glúten na arcada dentária de Dinorá, pegadas enlameadas na porta da cozinha, farelos na mesa, no chão, nos dedos da mão direita de Dinorá, no corredor e na porta da frente. O marido e os filhos de Dinorá não comeram o resto do bolo. Não comeriam nunca mais bolos no que restou de suas vidas. A polícia nunca saberia quem a matou. Dinorá foi enterrada em 28 de agosto de 1909 com uma cerimônia simples na catedral de Yorkshire, o melhor bolo de sua terra.


-- maira parula

6.5.09



Days with my father, um dos mais belos sites
que vi na rede, senão o mais belo.
De Phillip Toledano.


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1.5.09

Cristina Peri Rossi



PARA QUÉ SIRVE LA LECTURA


Me llaman de una editorial
y me piden que escriba
cinco folios sobre la necesidad de la lectura

No pagan muy bien
¿quién podría pagar bien por un tema así?
pero de todos modos
necesito el dinero

así que enciendo el ordenador y me pongo a pensar.
sobre la necesidad de la lectura
pero no se me ocurre nada

es algo que seguramente sabía cuando era joven
y leía sin parar
leía en la Biblioteca Nacional
y en las bibliotecas públicas

leía en las cafeterías
y en la consulta del dentista

leía en el autobús y en el metro

siempre andaba mirando libros

y me pasaba las tardes en las librerías de usados
hasta quedarme sin un duro en el bolsillo

tenía que volver a pie a casa

por haberme comprado un Saroyan o una Virginia Woolf

Entonces los libros parecían la cosa más importante de la vida

fundamental

y no tenía zapatos nuevos
pero no me faltaba un Faulkner o un Onetti
una Katherine Mansfield o una Juana de Ibarbourou


ahora la gente joven está en las discotecas
no en las bibliotecas

yo me hice una buena colección de libros
ocupaban toda la casa

había libros en todas partes
menos en el retrete

que es el lugar donde están los libros
de la gente que no lee

a veces tenía que seguirle durante mucho tiempo
las huellas a un libro que había salido en México
o en París

una larga pesquisa hasta conseguirlo

No todos valían la pena
es verdad
pero pocas veces me equivoqué
tuve mis Pavese mis Salinger mis Sartre mis Heidegger
mis Saroyan mis Michaux mis Camus mis Baudelaire
mis Neruda mis Vallejo mis Huidobro
para no hablar de los Cortázar o de los Borges

siempre andaba con papelitos en los bolsillos
con los libros que quería leer y no encontraba

por allí andaban los Pedro Salinas y los Ambrose Bierce
la infame turba de Dante

pero ahora no sabía decir para qué maldita cosa
servía haber leído todo eso

más que para saber que la vida es triste

cosa que hubiera podido saber sin necesidad de leerlos


Cuando habían pasado cinco horas yo todavía no había escrito
una sola línea
así que me puse a escribir este poema
Llamé a los de la editorial
y les dije creo que para lo único que sirve
la lectura
es para escribir poemas

no puedo decirles más que eso

entonces me dijeron que un poema no servía,
que necesitaban otra cosa.
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