14.12.07




ñ sô nd
nuuuuunca serei nd
ñ posso qrer c nd
à parte issu, tenho em mim
tds os sonhos d mndo



d Tabacaria, Frndo Pessoa


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11.12.07




vou passar o natal em pedro juan caballero com jeanne duval, mas acho que é pseudônimo. "eu sou retardada e gosto de você", ela disse-me assim. não pude resistir. não é paraguaia. nem brasileira. não é poeta, ou sacoleira, o que pra mim dá no mesmo. duval insistiu no mistério e está me esperando num hotel duas estrelas. me poupando das vaquejadas, vai me apresentar na academia pontaporanense de letras, me vender baratinho uns ingressos pra copa de 2014 e cantar baixinho no meu ouvido boate azul. mandou-me um mapa para minha orientação, eu já estava fazendo as malas. e cadê o caballero aqui? tive de perguntar a minha tia, ex-guerrilheira do Cerro Corá, que fez outra rota mais segura pra mim e me deu um kit sobrevivência, pois não perde os velhos hábitos. não sei o que me espera em jeanne duval. o avião sai em duas horas do aeroporto de mossoró para o meu éden latino. eu não deveria me iludir tanto, leio na lâmina da faca dentro do kit. pero así ha sido, es y será.


5.12.07

Copacabana, São Petersburgo e as oficinas literárias




navegando por um conhecido site de literatura, achei lá uma oficina literária que nos sugeria um curioso exercício: escreva um conto ambientado na praia de Copacabana. só que ao lado da sugestão vinha uma lista de proibições vernaculares. não devíamos usar as seguintes palavras: água de coco, amendoim, areia, asa-delta, avião, barco, barraca, barriga, bermudas, bíceps, biquíni, bicicleta, biscoito, bola, boné, bronzeador, bunda, cachorro, calçadão, calor, camarão, caminhada, campeonato, canga, cedê, cerveja, céu, chapéu, chinelo, chuva, cochas [sic], cooper, COPACABANA, conversa fiada, domingo, ducha, esporte, esteira, estrela, flacidez, futebol, futevôlei, galera, garota, garotão, ginástica, horizonte, ilha, jornal, livro, lua, mar, mate, mulher, músculos, namoro, navio, oceano, óculos, ondas, panfleto, paquera, patins, peitos, pelada, peteca, picolé, praia, prancha, propaganda, protesto, protetor solar, publicidade, quiosque, rádio, rede, refrigerante, revéillon, revista, sábado, sandália, sexo, show, sol, som, soneca, sorvete, suco, sunga, suor, surfe, tanga, tênis, tira-gosto, toalha, trânsito, turma, vôlei, vôo-livre.

sim, eu entendi, a idéia é evitar o clichê. depois de tirarem todas as coisas boas de uma praia, a gente que se vire para escrever um bom conto ambientado na praia de Copacabana. que, diante disso, eu poderia ter escrito em São Petersburgo, ninguém ia notar a diferença. talvez eles não saibam de um detalhe, não importam as palavras, não há nada que não possa ser vulgarizado. lição de um grande autor, o que morreu em São Petersburgo.

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10.11.07

Alberto Pimenta


dum lado da jaula
os que vêem
do outro
os que são vistos

e vice-versa



O pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.

no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos,diz ainda
o pequeno filho-da-puta.

o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho-da-puta.

no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho-da-puta.
todos os grandes
filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o
pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.

é o pequeno filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o
pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho-da-puta.



de repente no meio da rua
não se saber onde se está
de repente no meio da rua
não se saber quem se é
não encontrar o bilhete
de identidade nem a chave
de casa nem o dinheiro nem
conhecer os sapatos que
se trazem nem as calças e
a camisa eventualmente
o casaco nem compreender
a língua que falam todos
os que de roda se puseram
empurrando-se para ver
melhor até chegar a polí
cia e encarregar-se de tu
do o resto quer dizer: de
fazer o transporte e de
abrir e fechar a porta da
cela branca branca vazia
donde nunca mais se sairá


tinha na mão
a antologia
e primeiro não sabia
que show via
o que ouvia
ou via.
mas de repente
ouvi ou vi
que chovia
e fechei
a antologia.
mas só trinta anos
mais tarde
fiz esta poesia.

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25.10.07

a torquato



Assim
Era um rapaz de 25 anos.
Arranjou um jeitinho pra ser escritor
e logo depois deu certo e, logo depois,
deu certo.

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15.10.07



Há pessoas diante das quais você não pode mostrar que está feliz, elas vão achar sempre que você está bêbada. O que no meu caso é invariavelmente verdade, pois ser feliz na presença delas exige de mim manutenção alcoólica contínua. Hilda é uma dessas pessoas. Hilda Feliz, como eu chamo. Não somos amigas, nem parentes, mas uma circunstância da vida permitiu que fôssemos próximas. Diferente de mim, Hilda não aprendeu a tirar prazer de uma palestra sobre o icosaedro. Decepcionada com o mundo corporativo, Hilda largou tudo e foi viver de jogar tarô para pessoas que necessitam dos arcanos para saber se devem pegar a rua B ou C. Eu não acredito em tarô, acredito em tarólogos convincentes. Hilda baixou para mim suas cartinhas ilustradas umas duas vezes. Na primeira disse que um projeto meu do qual nem lembro seria um sucesso. Na segunda, afirmou categoricamente, após várias confirmações, que eu estava encolhendo. Mentalmente?, ora, não é novidade. Não. Encolhendo fi-si-ca-men-te. Encolhendo no sentido leste-oeste?, eu perguntei dessa vez animada. Não, você está encolhendo no norte-sul. Está perdendo altura, ficando mais baixa. Mais baixa? Bom, com a idade perdemos alguns centímetros, a coluna verga, é isso? Ela não soube ou não quis explicar. Já se passaram alguns anos, estou do mesmo tamanho e Hilda sumiu. Acho que Hilda é assim mesmo, é daquelas pessoas para quem a felicidade não pode ter uma cara. Nyuk-nyuk-nyuk! Ela não sabe que a felicidade tem cara de bola de tênis suja.


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7.10.07




ela era uma poeta numa encruzilhada tentando
recitar para uma multidão que arrancava sua roupa.

arthur miller






3.10.07



De: mpa@hotmail.com
Para: armandojarbuch@hotmail.com
Assunto: e-therapy



Querido doutor

Adorei a sua idéia de dar continuidade ao meu tratamento por e-mail. Não faz sentido mesmo interrompermos as sessões só porque me mudei para Manaus. Confesso que a princípio cheguei a procurar alguns terapeutas locais que me foram indicados. Tive entrevistas com quatro. Dois não aceitaram meu caso, por motivos que não explicaram bem, ou eu não entendi direito, e alegando agenda cheia. O terceiro não teve pudores para me dizer que não trabalhava com "estados limites" e o quarto, bem, o quarto tinha mau hálito e seu consultório, além de todo decorado segundo os cânones do feng-shui, exalava um odor nauseabundo de incenso de jasmim. O senhor sabe bem como abomino essas coisas, esses "territórios marcados". Então, como vê, foram tentativas vãs. E também, cá entre nós, só de pensar em um recomeço, ter de contar toda a história da minha infância de novo, é um atropelo. Depois de cinco anos me tratando com o senhor, quem mais teria um know-how tão perfeito das combinações de meus pensamentos?

Falando em pensar, estou aqui teclando e imaginando o que o senhor deve estar achando das coisas que digo, imagino o seu rosto, os olhos apertados, o cavanhaque bem-aparado onde o senhor apóia o polegar e o indicador enquanto me escuta. Imagino que um dia possa vir a se arrepender de fazer essa análise eletrônica. Que dessa forma eu posso ludibriá-lo mais do que já o fiz de corpo presente. Que posso fazer literatura dos meus fenômenos psíquicos e no fim das contas nada lhe servirá como material empírico. Que minha degeneração intelectual, moral e afetiva corre o risco de se revelar mais obscura ainda, nos distanciando do processo de "cura". Que, por fim, minha "tendência à distração" seja contagiosa e o senhor acabe caindo na superficialidade dos laços que a virtualidade desse suporte infalivelmente impõe. Penso essas coisas enquanto lhe escrevo e ao mesmo tempo tento me convencer de que não devemos temer a incursão em domínios estranhos, eu mesma uma prova viva da estranheza.

Tenho custado a dormir, doutor, fico rolando na cama e fazendo associações de palavras sem sentido que depois não consigo memorizar nem para compor um poema. E quando consigo escrever algo, é um entusiasmo que logo se apaga. Não dá mais para convencer ninguém de que meu desencadeamento de conteúdos é uma forma de estilo. Mas não consigo evitar. Parece que, como eu, tudo o que escrevo tem de seguir o caminho do isolamento associativo. Não é novidade para o senhor, que me conhece sem eu precisar falar, pois tudo está escrito nos compêndios de psiquiatria. O senhor só precisa achar a página certa.

Bom, essa terapia eletrônica de hoje já está se alongando e devo me despedir pois não quero tomar muito o seu tempo. Me permita um último comentário: enquanto lhe escrevia este e-mail, me peguei várias vezes olhando fixamente para o cinzeiro em minha mesa. Suponho que o cinzeiro seja meu, mas não me lembro de como veio parar aqui, se ganhei de presente, se comprei num belchior, não importa. É um cinzeiro assinado, pertenceu a Afranio de Mello Franco, pois este nome está gravado na porcelana logo abaixo de uma citação de Kant e é ali que eu deposito minhas cinzas. Sim, apago o cigarro nas letras de Kant, que, à medida que fumo, vão sumindo na porcelana. Depois de apagar um único cigarro no cinzeiro limpo, por exemplo, posso ler assim:

"Duas coisas preenchem o ânimo co adm ção e respeito sempr novos e crescente quanto ais frequente e duradour or o tempo que pens ento dispensa com elas. O céu estrela sobre e a lei moral d tro de m."

O senhor conhece esta citação? Eu conheço, pois sou eu que limpo o cinzeiro. Podemos discutir o significado dessa passagem do cinzeiro mais detalhadamente num próximo e-mail. Sem cinzas.

um grande abraço
M.

P.S. Envie-me por favor as receitas para a Caixa Postal 313112 - Manaus - AM


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29.9.07

A importância de ser pepino




A importância de ser pepino


Como muita gente sabe, o sanduíche de pepino é um acompanhamento tradicional do chá inglês, ou dos piqueniques de verão daquelas bandas. Preparado com finas camadas de pepino colocadas em duas fatias de pão de fôrma branco, sem casca, besuntadas com manteiga. No entanto, os sanduíches de pepino ganharam notoriedade literária na peça de Oscar Wilde, A importância de ser Prudente, onde eram especialmente preparados para Lady Bracknell, que se deu mal porque... ora, leiam a peça. Hoje há muitas versões do sanduíche de pepino. Até acrescido de bacon e cream cheese, o que sem dúvida revoltaria o paladar delicado de Lady Bracknell. Dito isto, publico aqui a receita do Sanduíche de Pepino à Oscar Wilde, grande sucesso nos salões literários da Paris dos anos 1920:

Para preparar 10 sanduíches, descasque e corte em finíssimas camadas um pepino grande. Coloque as fatias do pepino em uma peneira e acrescente uma pitada de sal. Deixe descansando por 1 hora. Depois seque bem as fatias com um pano limpo ou toalha de papel. Coloque as fatias de pepino em uma tigela com 1 colher de sopa de azeite de oliva, 1 colher de sopa de suco de limão, 1/2 colher de chá de açúcar e uma pitada de pimenta branca. Misture tudo suavemente e deixe em repouso enquanto prepara o pão. Use um pão de fôrma branco da melhor qualidade -- de preferência caseiro e do dia seguinte -- e corte-o em finas camadas. Para preparar 10 sanduíches, obviamente você precisará de 20 fatias. Em uma tigela, coloque 1 1/2 de manteiga sem sal na temperatura ambiente, 2 colheres de sopa de creme (natas), 1/2 colher de sopa de mostarda. Misture tudo. Em seguida espalhe esta mistura generosamente em cada fatia de pão, acrescente as fatias de pepino e, pronto, feche o sanduíche. Corte-o na diagonal, formando dois triângulos. Coloque os triângulos no prato para servir enfeitado com raminhos de agrião ou hortelã. Os sanduíches devem ser preparados logo antes de servir, para evitar que fiquem úmidos demais e percam o frescor. Aprecie com moderação.


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24.9.07

A carta de Helsinque




Ele colocou os livros na mesa e abriu a carta de Helsinque. Agora vêm as notícias. O que penso que lerá nessa carta? Anna não virá nunca mais. A cena se repetia todas as manhãs: quando o telefone tocou ele ainda não havia chegado. Ouvira falar dos livros e comprou-os. Tudo muito por hábito, pensava idéias que todo mundo fala sem notar a diferença das suas. Idéias comuns sempre chegam mais cedo do que se espera. Começou a ler sem interromper a continuidade do silêncio. O papel fino tremendo nas mãos. O papel dos livros é duro. Não verga. A carta era breve, 265 palavras e a assinatura final. Vamos terminar por aqui. Ele já tinha notado a diferença. Anna não virá nunca mais. Poesia toda numa só. Ano passado ela disse que voltava já. Ele ficou esperando e comprou livros. Das 265 palavras, 42 foram usadas uma só vez. Distribuídas em um único parágrafo de frases com sujeito obrigatório e algumas agramaticalidades. O sujeito oculto estava em algum lugar. Vamos terminar por aqui veio seguido de uma pausa: cinco linhas em branco. Ficção da indiferença. Ele pensou em preencher o espaço com desaforos e devolvê-lo ao remetente. O acaso é um processo, eu pensei em dizer, sem coragem de chamá-lo pelo nome: eram letras borradas no destinatário do envelope. Sei que ele gosta de ler livros, já o irmão é alto. Todos sabem. Anna conheceu o irmão em Helsinque. Ninguém sabe. Ele colocou a carta dentro do livro. O papel da carta é mole, o papel do livro é duro. Mal os sentia agora.

18.9.07



row row row your boat
gently down the stream
merrily merrily merrily merrily
life is but a dream



17:48

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12.9.07

flashes da Blooks -- Tribos & Letras na Rede





A poeta e blogueira Ane Aguirre foi conferir a exposição, me achou lá (o texto embaixo) e gentilmente Sergio Fonseca clicou. As fotos saíram meio escuras porque o ambiente era cavernoso. Mais detalhes sobre a mostra no Rio veja num post aí embaixo.








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9.9.07

Josefina Plá




Quisera eu algum dia ser a faca
que me corta e saber o que ela sente


Josefina Plá (1902-1999)




Nascida na Espanha, quase desconhecida no Brasil, Josefina Plá tornou-se uma das maiores expressões da cultura do Paraguai, onde passou a maior parte de sua vida. Para este blog, traduzi 3 de seus poemas.



Livre


Livre para nascer sem escolher o dia
livre para beijar sem saber por que esta boca e não outra
livre para engendrar e conceber o que há de te trair
livre para pedir o que depois será inútil
livre para buscar o que amanhã já não terá significado
livre para morrer sem escolher o dia
livre para apodrecer sem escolher o lugar
livre para voltar ao pó sem memória
livre para seguir o rumo das raízes pequenas
livre para olhar o sol que não te olha
Livre para nascer sem escolher o dia



As portas


...Um fechar de portas,
à direita e esquerda;
um fechar de portas silenciosas,
sempre a destempo,
sempre um pouco antes
ou um momento demasiado tarde;
até restar só uma aberta,
a única pontual,
a única obscura,
a única sem paisagem e sem olhar



A viagem


Não sei onde tomei este trem
O vagão está fechado
e a única paisagem
é a sombra que corre com o trem
Me acompanham um velho que já se esqueceu de tudo
e um menino que não sabe aonde vai nem com quem
Sei apenas que este trem tem
uma só estação uma só plataforma
e que quando chegar seja onde for
não sei onde estarei



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6.9.07

Programação de setembro



Blooks -- Tribos & Letras na Rede

Prosa, poesia, quadrinhos, letras de música e games. A efervescência da criação literária na web e a interferência dos bytes na escrita e na leitura do que é hoje produzido na internet vão estar na exposição Blooks - Tribos & Letras na Rede, da editora Aeroplano. A mostra, idealizada pela professora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda e com a participação de Omar Salomão e Bruna Beber, ressalta o vasto universo da palavra, que prolifera na rede em blogs interativos, podcasts e sites, celeiros de expressão e criação literária do novo milênio.

Além da Blooks, onde esta que vos fala vai ter um texto lá exibido, você poderá ver no mesmo espaço a exposição Waly Salomão: Babilaques, Alguns Cristais Clivados que vai até 14 de outubro. A TechNô, uma mostra de arte, poesia e tecnologia. Denise Stoklos encenando teatro para crianças e outras atrações. O convite está aí embaixo. Tudo no Rio de Janeiro, Oi Futuro, rua Dois de Dezembro 63, Flamengo. Aproveite. Nas exposições a entrada é franca.





5.9.07

Casimiro de Abreu com Che Guevara



Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida



Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!



Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras




À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!



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28.8.07

Gafes à mesa



Sobre gafes à mesa
Os acepipes muitas vezes despertam a maledicência. Este hábito constitui a força dos pobres de espírito, os cultos não o adotam. Santa Teresa sempre foi tida como a advogada dos ausentes e, diante dos que invocam como desculpa o fato de que "os outros não nos poupam", seria oportuno recordar que a bondade e a reserva são adornos para todas as idades.

A gafe é uma vocação, disse Laudet. Grandes personalidades, como Napoleão, cometeram gafes a torto e a direito. Como um pássaro a esvoaçar sobre todas as reuniões, a gafe sobrepaira em todas as mesas, mas é preciso não permitir que pouse, pois nos causa um mal-estar que nos fica colado à alma. E o pior ainda é que depois disso não sabemos conversar.

Há pessoas que tomam a palavra de princípio a fim e discorrem o tempo todo, com os direitos de um conferencista. Ora, a menos que a nossa competência sobre qualquer assunto tenha sido solicitada, não se usurpa indefinidamente um privilégio que nos foi momentaneamente concedido. Outras pessoas remontam, em suas narrativas, a Matusalém, e, embora contem fatos absolutamente banais, não dispensam um cortejo histórico. Outras, ainda, têm a mania irritante das comparações hiperbólicas ou indiscretas.

Também desgracioso seria falar mal de si próprio, dos seus, ou levar à mesa um compêndio sobre seus males íntimos, mesmo porque jamais devemos dizer de nós mesmos, nem mal, nem bem. Santo Agostinho caluniava-se por virtude; Rousseau, por orgulho; e a celebridade de Byron foi o ter sabido queixar-se. São exceções. Acusar publicamente um rim volante ou um fígado em cólicas para não aceitar um prato que nos foi oferecido, ou cujos condimentos não nos apetecem, seria perfeitamente descabido, incivilizado mesmo. E depois, se temos o direito de recusar um prato em meio a um banquete, para que impor aos convivas "bons garfos" a mágoa dessas proscrições terapêuticas e seus regimes aguados?

Falar freqüentemente de si ou das próprias atividades é ser pretensioso, pouco polido para com os demais, e, num jantar, é quase indigesto. Discutir sobre a origem da vida só é aproveitável aos grandes espíritos. Ainda assim, o resultado dessas controvérsias é raramente feliz. Os antigos baniam das suas mesas a religião e a política, porque as criaturas de caráter impulsivo e apaixonado, nas suas expressões partidárias e ofensivas, se esquecem muitas vezes de que a verdadeira civilização transmuda o homem, inspirando-lhe o respeito recíproco que desconhece os limites dos partidos.

Enfim, à mesa, mesmo quando pesem as iguarias no estômago, o espírito deve conservar-se leve. Limitemo-nos a banalidades sociais: fatos do dia, fragmentos de história e literatura, anedotas não obrigadas a biografias, cuja oportunidade se ajuste a uma expressão feliz.

Saber conversar é uma arte, e uma prosa destra, como dizia Nietzsche, tem ritmo de dança. E o homem amável, disse Mme. de Genlis, é aquele que escuta com interesse as coisas que sabe da boca daquele que as ignora. Ainda mais, é aquele que conhece todo o manejo dessa arma poderosa - o Silêncio. É o silêncio que encoraja, que cede, que aprova, que desvia uma frase infeliz, acode a uma fraqueza, condena um pensamento suspeito e mata uma esperança.




Carmen D'Avila, em seu manual de 390 págs. intitulado Boas Maneiras, cuja décima edição publicada em 1956 pela ed. Civilização Brasileira saiu com uma tiragem de "89 milheiros".

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21.8.07

Jorge Gomes Miranda





Lâmina de Barbear


Abre um armário espelhado,
pega em mim.
Pousa-me no lado direito do lavatório.
Inclina-se.
No instante em que a água quente
corre da torneira,
nas mãos em concha mergulha
o rosto; emerge para o aproximar
um pouco mais do espelho
e repara nas linhas
que se formaram nos últimos anos
à volta dos olhos.
O creme percorre a pele áspera,
suaviza-a,
quase uma carícia.
Calmamente começa a fazer a barba:
movimentos certos,
conhecidos.


Olha para o seu lado esquerdo.
Removida do rosto uma sombra,
outra, ainda sem nome,
investe já contra a pele.




Jorge Gomes Miranda, "Lâmina de Barbear", 2007.

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15.8.07



ao departamento de letras


vida diarréia e morte

por uma literatura dégagée

para a mortificação dos sentidos


cocô em pele de alabastro

água salivando água

bíblia dos pobres

leu e creu



hoje é a minha vez de escrever mal

amanhã será a sua


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14.8.07

Rainer Maria Rilke




Cristo, no gesto da Crucificação, seus braços estendidos parecendo uma placa de sinalização na encruzilhada de toda a dor, morre sob o peso do seu destino que, como uma pedra (a Cruz pesada e petrificada), eleva-se sobre ele. E ela, que uma vez veio para ungir seus pés incansáveis, aproxima-se, agora que o sacrifício está completo, para envolver aquele corpo abandonado e inanimado com o carinho tardio e sem sentido do seu próprio corpo. Em um paroxismo de desespero, ela se joga aos pés dele. Com o braço esquerdo, apóia aquela cabeça maltratada, cuja expressão já não consegue suportar. E o rosto dele deixa-se levar por seu braço trêmulo, como um objeto flutuante, enquanto ela, curvada para a direita, como uma chama atormentada pelo vento, tenta enterrar e esconder o sofrimento inefável daquele corpo tão amado no seu próprio amor destruído. Ela o envolve com um movimento desconsolado e suplicante e, com um gesto de desamparo, solta os cabelos para mergulhar neles o coração atormentado de Cristo.


Rainer Maria Rilke, em monografia sobre a escultura Cristo e Madalena, de Rodin, 1902.


8.8.07




Vi realmente um anjo não muito longe de mim, vinha na direção de minha mão esquerda... ele não era grande, era pequeno, muito bonito, o rosto magnífico... Vi, sim, na sua mão um longo dardo de ouro que, na extremidade da ponta de ferro, parecia haver um foguinho com que ele me atravessava o coração às vezes, e penetrava minhas entranhas, tanto que achei que ele as arrancou de mim quando o retirou, e ele me deixou totalmente inflamada de um amor imenso por Deus, a dor era tão grande que me fazia chorar de aflição, mas a delícia era tanta, a delícia que essa dor causava, que eu não queria que a tirassem de mim jamais...


Santa Teresa de Ávila, em Livro da Vida, publicado em 1588.
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27.7.07

Sobre o ofício de escrever



os dias de anteontem


Dia 25 foi o dia do escritor. Eis o que alguns deles
já disseram sobre o ofício:


Eu gostaria de ter dinheiro e gostaria de ser uma
boa escritora. Estas duas coisas podem vir juntas,
e espero que venham, mas se isso for demais,
queridinho, eu preferiria o dinheiro.
- Dorothy Parker


Não é má idéia escrever o que se pensa. Assim
a gente poupa os outros de aborrecê-los
com nossas idéias.
- Isabel Colegate


Na literatura como no amor, é um espanto
ver o que os outros escolhem.
- André Maurois
Se eu tivesse de dar um conselho aos jovens
escritores, diria para eles não darem ouvidos
aos escritores que falam do que é escrever
ou de si mesmos.
- Lillian Hellman

Escrever é um jeito de falar sem ser interrompido.
- Jules Renard


Não me tornei escritora porque estudei. Tornei-me
escritora porque minha mãe me levava na biblioteca
e eu sempre quis ver meu nome no catálogo deles.
- Sandra Cisneros
Escrever é transformar os piores momentos
em dinheiro.
- J.P. Donleavy

Eu levei 15 anos para descobrir que não tinha talento
para escrever. Mas daí eu não podia desistir mais
porque já era famoso.
- Robert Benchley
Escrever é livrar-se das coisas. Você se livra de
muitas coisas quando as coloca no papel.
- Hemingway
Escrever é um ofício em que você tem que ficar
provando o seu talento a quem não tem
talento nenhum.
- Jules Renard
Adoro ser um escritor. O que não suporto é ter
trabalho de escrever.
- Peter DeVries
Na dúvida, corte um adjetivo.
- Mark Twain

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18.7.07




creio esta noite na terrível imortalidade:
nenhum homem morreu no tempo,
nem mulher, nenhum morto,
porque esta inevitável realidade de ferro e de barro
tem de atravessar a indiferença de quantos estejam
adormecidos ou mortos
- ainda que se ocultem na corrupção e nos séculos -
e condená-los à vigília espantosa.

Toscas nuvens cor de borra de vinho infamarão o céu;
há de amanhecer em minhas pálpebras apertadas.





Jorge Luis Borges, em fragmento de "Insônia". Imagem de Diego Abrahão.

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7.7.07

Mia Couto



Manhã


Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos



Mia Couto

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3.7.07




a parede cega


Gosto da caixinha de cotonetes exatamente onde está. Ao meu lado. Na estante a um metro da minha cama. Posso pegá-la só esticando o braço para a noite. Gosto das paredes que me cercam, dos vidros limitados por janelas começando onde as paredes acabam. Gosto das janelas por onde vejo o mundo lá fora sem precisar respirar o seu ar, ouvir os seus sons. Gosto do meu banheiro. Só no banheiro. Em que me banho com vapores de eucalipto sempre que o telefone toca. Gosto dos móveis, que me distraem das paredes, portas e janelas, sem me pedir nada por isso. Preciso destes móveis, deste chão, deste teto sobre mim e dos corredores que me carregam pela casa sempre que ela me chama. Gosto da geladeira exatamente ali, onde posso achá-la no escuro. Tão bela, tão imponente, tão pálida. E condescendente. A boca enorme de silêncio se abrindo só para mim. Gosto da cozinha toda na verdade. Pias, cubas e torneiras. E de sua generosidade. Não consigo passar 24 horas longe delas. Longe da minha casa. Tenho dependência química da minha casa, coloquemos assim. Do inconsciente das paredes, com seus buracos de pregos, manchas de umidade, rastros de insetos. Do chão de tábua corrida que morrerá comigo porque assassinarei a casa antes dos restauradores e seus bisturis. Da bananeira em que me apóio para descer a escada. Dos livros que apodrecem enquanto durmo. Do pátio interno que se finge de mar e sol. Rio de Janeiro. Da parede cega em que penduro poemas medíocres. Da porta da rua que guarda você para nunca mais voltar. Da varanda que te espera sozinha porque vivo nos fundos. Dos quartos, ah dos quartos. Não consigo passar 24 horas longe da minha tesourinha de unhas, da minha estátua de Diana e das bolas de tênis murchas. Dos gatos de meio-fio. Gosto de mim exatamente aqui. E por tudo isso você há de me perdoar, mas não posso ir ao seu lançamento hoje.



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27.6.07

Bruno Tolentino






A grande alma penada



Se Baudelaire, à diferença de Pascal,
odiou a amplidão
e não soube conter a vertigem do mal
no drama da razão,


terá sido talvez porque insistiu em ver
o olhar que usurpa e mata:
a Medusa da Idéia, esse avatar do ser
que vai virando estátua.


Pascal calou-se ante os silêncios infinitos
e ouviu de Deus a cura;
o outro, o ceifador do mal, saiu aos gritos,
como um louco à procura


da comiseração que os abismos não têm.
A simples diferença
entre o temor a Deus e o pânico de alguém
que O não escuta é imensa.


Um radical, um jansenista, um puritano
da estirpe de Pascal,
teme a misericórdia de Deus (se não me engano);
mas nem em Port Royal,


aquela fortaleza do orgulho, houve lugar
jamais para um bueiro
de que o Céu se tornasse a tampa tumular
e o velho desespero


a bússola da vida, ou um contrapeso a ela.
Vira a alma penada
o poeta imortal que ao abrir a janela
vai do Infinito ao Nada.





24.6.07

a orelha


From: dx@hotmail.com
To: bx@editorax.com.br
Sent: Monday,February 19,2007
Subject:Re:Proposta


B., meu caro

Li o livro de X. e gostei. Sem dúvida, o autor tem talento. Os pontos fracos são bem menos significativos que os pontos fortes. A presença do tempo como uma força que oprime e fragmenta a vida dos narradores é interessante. Não gostei, porém, dos textos que seguem o formato típico de textos de blog (a enumeração de gostos e ações dos narradores), acho que não funcionam bem no suporte livro. Mesmo assim, vou recusar o convite de escrever a orelha, o que não tem nada a ver com o meu julgamento do livro de X. Apesar de 200 reais fazerem falta a quem vive de frila, só assino orelhas de livros pelos quais eu tenha uma admiração extraordinária ou de autores com quem tenha vínculos de amizade ou afinidade. Espero que compreenda a minha posição. Ando também sem tempo pois me ocupo do meu próprio livro a ser lançado mês que vem pela editora xxg. Se eu tiver alguma chance, contudo, poderei elogiar o livro de X. no meu blog, em entrevistas ou conversas, pois trata-se realmente de um bom livro.

um abraço,

D.


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19.6.07

Mário Cesariny



Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante

-- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício

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Versos da "Pastelaria" de Mário Cesariny.

15.6.07

Bolero


Qué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Y este fragmento:

La lenta máquina del desamor
los engranajes del reflujo
los cuerpos que abandonan las almohadas
las sábanas los besos

y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo
ya no mirándose entre ellos
ya no desnudos para el otro
ya no te amo,
mi amor.


Julio Cortázar

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13.6.07




Quer botar na rua o seu livro engavetado? Veja aqui dicas para o autor inédito.


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11.6.07

Sátira contra as molheres

Sátira contra as molheres


Esforça-te meu coraçom,
nom te mates, se quiseres,
lembra-te que sam molheres.

Lembra-te qu’é por naçer
nenhûa que nam errasse
lembra-te que seu prazer,
por bondade e mereçer,
nam vi quem dele gostasse,
pois nam te dês a paixam,
toma prazer se poderes,
lembra-te que sam molheres.

Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vingãças,
tuas lagrimas amansa,
leix’as suas esperanças.
Ca pois naçem sem rezã,
nunca por ella lh'esperes;
lembra-te que sam molheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais nações
causaram tuas tristezas.
Pois nam te mates em vão,
que quanto mais as quiseres,
verás que sam molheres.

Que te presta padeçer,
que t'aproveita chorar,
pois nunc’outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deix’as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes;
lembra-te que sam molheres.

Não te mates cruamente
por quem fez tam grande errada,
que quem de si nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive lançando pregam
por hu fores e vieres,
que sam molheres, molheres.

Espanha foi já perdida
por Letabla hûa vez,
e a Troia destroida
por males qu’Elena fez.
Desabafa, coraçam,
vive, nam te desesperes,
que quem fez pecar Adam
foi a mãi destas molheres.



Jorge d'Aguiar, Portugal, séc. 15.

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8.6.07

Por que os touros são melhores do que os críticos literários



Touros não fazem resenhas. Touros de 25 anos não casam com velhas de 55 nem esperam ser convidados para o jantar. Touros não o citam como testemunha em processos de divórcio. Touros não pedem dinheiro emprestado. Touros ainda servem para se comer depois de mortos.



(Hemingway em carta a Ezra Pound de 1925. A carta faz parte de uma coleção de 1.000 documentos históricos encontrados recentemente em uma lavanderia de uma mansão na Suíça. O colecionador era um banqueiro austríaco falecido em 2005. Entre as peças raras estão cartas de Napoleão a Josefina, de Churchill, de Pedro o Grande, Puchkin, John Donne, Gandhi entre outros. A coleção será leiloada mês que vem e já foi avaliada em quase 5 milhões de dólares.)

5.6.07

e. e. cummings



maggie and milly and molly and may
went down to the beach (to play one day)

and maggie discovered a shell that sang
so sweetly she couldn't remember her troubles, and


milly befriended a stranded star
whose rays five languid fingers were;

and molly was chased by a horrible thing
which raced sideways while blowing bubbles: and

may came home with a smooth round stone
as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose (like a you or a me)
it's always ourselves we find in the sea





29.5.07





Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.


adília lopes
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25.5.07



Eu não poderia lavar alface nessa pia. Moro num 3x2, pia e privada incluídas. E uma janela-basculante sobre a Guanabara. Quando se mora há muito tempo num 3x2, não dá para lavar alface na única pia do lugar. E eu moro há mais de vinte anos ao lado dessa pia de frente pro mar. Ela é o meu mundo. Toda a água de que preciso nesta vida eu sei que sairá por ali. A pia é o meu atlântico, minha lagoa, minha piscina. Aqui lavo o rosto, as mãos, os dentes, o cabelo, o corpo por inteiro. Por isso botei minha cama ao lado da pia. A pia é o meu relógio. Quando quero saber o tempo que passa, basta abrir um pouco a torneira e contar os pingos. Aprendi que o justo controle da pressão da água me daria também tudo de que eu precisava para ser feliz. Pingos diferentes são música. Pulsos lentos, pulsos rápidos, meus tímpanos vibrando na freqüência dos pingos, formando compassos. Eu divido o fluxo da água para obter o som que bem quero, mas às vezes a torneira me surpreende com uma batida diferente. São momentos mágicos, posso dizer assim. Como as horas em que dou toda pressão e uma cachoeira entra no meu quarto. Tudo é questão de fechar o ralo certo. Na medida certa. Para pessoas comuns um ralo é um ralo. Bocal de canalização de esgotos, como nos dicionários. Pessoas comuns e dicionários têm idéias menos imaginativas a respeito dos ralos. Para mim são a porta de saída da minha vida. Como a torneira é a porta de entrada. O que eu preciso é controlar ralo e torneira. Mantê-los em sincronia. Onde um cede o outro resiste. Os dois não podem ceder e resistir ao mesmo tempo. E assim vou aprendendo com a minha pia o que é o mundo das possibilidades. A pia é o único professor que eu tenho à mão. E eu nunca sei qual será a próxima aula.

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10.5.07

Ana Paula Tavares

Desossaste-me
cuidadosamente
inscrevendo-me
no teu universo
como uma ferida
uma prótese perfeita
conduziste todas as minhas veias
para que desaguassem
nas tuas
sem remédio
meio pulmão respira em ti
o outro, que me lembre
mal existe
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Deixa a mão pousada na duna
Enquanto dura a tempestade de areia
A sede colherá o mel do corpo
Renasceremos tranquilos
De cada morte nos corpos
Eu em ti
Tu em mim
O deserto à volta





8.5.07

O sanatório de almas




medo na biblioteca

alguém já disse que uma biblioteca é o sanatório das almas. uma boa definição. os mais melosos também chamam de o coração da humanidade. e ainda há aqueles que acham que toda biblioteca não passa de um depósito das maldades do paganismo e do ateísmo. longe de definir, eu gosto de estar dentro de uma biblioteca. de preferência antiga, muito antiga. quase medieval. encardida pelo tempo. com teto alto e corredores escuros. corredores não, ruas. avenidas, para eu me perder por elas. estantes gigantescas que não poderia alcançar sem uma escada. e a escada, sempre há poucas. o ar, o ar precisa ser irrespirável. as lombadas, empoeiradas. para se descobrir os títulos aos pouquinhos. letra por letra. é preciso ter medo na biblioteca. medo do corredor ao lado. medo do escuro. das vozes baixas, dos passos lentos que se aproximam e se afastam. medo dos livros que podem despencar sobre mim e me sufocar. dos livros que não devo ler se quero sair da biblioteca viva. medo dos insetos por trás, por dentro de um livro. roendo papel. medo de ser roída também se fizer da palavra escrita uma forma de vida. medo de passar um dia eu mesma a roer livros. como uma traça. há que se temer bibliotecas. e acorrentar livros. como nesta biblioteca que conheci na filadélfia. isso faz muito tempo.

2.5.07

bed & book








Residue é o título deste livro em forma de caminha que ganhou o Florida Book Prize de 2003. O projeto é da artista plástica Rosemarie Chiarlone e da poeta Susan Weiner, que publicou no livro um poema bordado nos lençóis de algodão. Para ler o poema é preciso desfazer a cama. São 12 folhas soltas e com direito a travesseirinhos e tudo. Só houve 3 edições (1 exemplar de cada), em inglês, francês e espanhol. Viraram peças de museu. O que dizer além de fofo?
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21.4.07





Bilhetinho de Gertrude Stein para
Alice B. Toklas. Arquivo pessoal, s/d.


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10.4.07

Bolsa de autógrafos






bolsa de autógrafos: veja só quanto valem os livros autografados de nossos escritores, vivos ou mortos. curioso notar como o mercado pode ser injusto e às vezes extremamente sábio.

Bruna Lombardi - 70 reais
Nélida Piñon - 55

Jô Soares - 65
Chico Anísio - 50

Gilberto Freyre - 225 reais
Olavo de Carvalho - 90
Alceu Amoroso Lima - 90
Plínio Salgado - 80
Carlos Lacerda - 45

Di Cavalcânti - 455
Jorge Amado - 80
João Ubaldo - 65
José Sarney - 55

Rubem Braga - 200
Otto Lara Resende - 125
Paulo Mendes Campos - 90
Fernando Sabino - 75

Dalton Trevisan - 300 reais
Raduan Nassar - 225
Caio Fernando Abreu - 175
Paulo Coelho - 110
Antônio Callado - 90
Stanislaw Ponte Preta - 85
Moacyr Scliar - 75
Luís Fernando Veríssimo - 65
Cony - 60
Jorge Mautner - 55
Ignácio de Loyola Brandão - 30

Dias Gomes - 255
Plínio Marcos - 90

Pelé - 455 reais
Guimarães Rosa - 145

Rachel de Queiroz - 95
Marina Colasanti - 90
Lya Luft - 50
Lygia Fagundes Telles - 40

poesia:

Adolfo Casais Monteiro - 720
Guilherme de Almeida - 420
Sergio Milliet - 325

Waly Salomão- 220
Haroldo de Campos - 210
Cassiano Ricardo - 210

Jorge de Lima - 150
Menotti Del Picchia - 110
Raul Bopp - 110

Thiago de Mello - 90
Moacyr Félix - 55

Adélia Prado- 50
Chacal - 45
Affonso Romano - 35
J. G. de Araújo Jorge - 30


-- o livro mais caro que encontrei foi um autografado pelo astronauta americano David R. Scott, 5.000 reais. os mais baratinhos, por 1 real, os de um budista aí falando de ioga, Prabhupada?
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9.4.07



piadinha de scriptorium


Um sujeito entra num bar em Chicago às cinco da tarde e pede três uísques. Não um depois do outro, e sim três de uma só vez. O barman fica meio intrigado com o pedido inusitado, mas não abre a boca e serve o que o homem pediu -- três uísques alinhados no balcão, um do lado do outro. O sujeito toma todos eles, um por um, paga a conta e vai embora. No dia seguinte, lá está ele de novo, às cinco da tarde, e pede a mesma coisa. Três uísques de uma vez. Faz isso todo dia durante duas semanas. Por fim, a curiosidade vence o barman: não quero me meter, diz ele, mas o senhor vem aqui todo dia, há duas semanas, e sempre pede três uísques ao mesmo tempo, eu só queria saber por quê. Quase todo mundo pede um de cada vez. Ah, diz o sujeito, a resposta é muito simples. Eu tenho dois irmãos. Um mora em Nova York, o outro em San Francisco, e nós três somos muito chegados. Como forma de honrar nossa amizade, sempre vamos a um bar às cinco da tarde, pedimos três uísques e em silêncio brindamos à nossa saúde, fingindo que estamos todos juntos no mesmo lugar. O barman meneia a cabeça, entendendo finalmente o motivo do estranho ritual, e esquece o assunto. O sujeito continua a aparecer no bar por mais quatro meses. Sempre às cinco da tarde bebe os três uísques. Até que um dia aparece mas dessa vez pede só dois uísques. O barman fica preocupado e, tomando coragem, resolve dizer: não quero me meter, mas todo dia, nestes últimos quatro meses e meio, o senhor veio aqui e pediu três uísques. Hoje pediu dois. Sei que não é da minha conta, mas espero que não tenha acontecido nada com sua família. Não aconteceu nada, não, diz o sujeito, muito animado e alegre como sempre. Então o que foi?, pergunta o barman. A resposta é muito simples, diz o homem. É que eu parei de beber.


-- do livro Viagens no scriptorium, de Paul Auster. 

30.3.07






quem se lembra? quem não conhece? "Vamos, Lobo!". os quadrinhos do Vigilante Rodoviário e o filme que passava na TV, anos 60. para ler uma história, veja aqui. passeie pelo site. tem também histórias do Anjo.

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23.3.07







onde só é preciso abrir a boca

todas essas coisas no peito, um mal-entendido. a dor, alívio do temperamento. um livro não tem movimentos bruscos. aliás, nem o seu. calma para descrever, boca para respirar, cheiro de mármore, perto, mais perto. a estibordo. o que sempre me foi omitido. são seus olhos, não nego. note bem. coisa de estilo. dizer como se diz qualquer coisa. dizer estilo. adjetivo do fundo da alma. está pensando que o fogo do inferno é efeito especial? o chá não me cai bem. quando vejo quatro pessoas, podem ser duas. o dia não me cai bem. o sol na janela da carruagem queima meus lábios. solavanca. quase humano mas nem tanto. apoia-te na lhama. parei na bodeguita para tomar uns goles. calor, emoções domésticas. um pouco de azuis não lhe faria mal. estes aqui são o meu coração. para comer de noite. como foder bem com o seu marido, ela escreveu sobre a mesa. não pediu opinião. só convidou. venha como estiver. não fui. tive medo porque ela começou a matar aos sete anos de idade. há certas coisas que um uísque não pode curar. não deves ler. não deves sair. não deves porvir. debaixo de um bonsai em gibraltar, traduzindo ana gorenko. ferida em combate. donde a terra se acaba e o mar começa. portugal. a boca do homem não se satisfaz com pouco. desde quem? baía de guanabara. túmulo dos fenícios. baía de guanabara. não é de hoje que a poesia não serve pra nada. as coisas querem sorvete. depois esquecem. ni-ca-rá-gua. água quente não é chá. ocha wo nigosu. essas saladeiras inglesas. esses balanços de jardim. esses trâmites da matéria. esses teus olhos muçulmanos, pelas cinco chagas do nosso senhor. tudo isso é tu. oitenta palmos de altura. a relatividade é um simples relojoeiro. é preciso ter presença de espírito. reservas. um leque na mão esquerda. na direita, a espada. too fast to get old. poetas clássicos gostam de proparoxítonas. testículos cíclicos incham num átimo. a mulher que toda são paulo conhece. moça de muita ficção. orgulho do papai. enquanto ele se barbeava. eu tinha tudo para ser qualquer coisa.
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22.3.07

a comédia da vida literária


Que subcultura será essa na qual a singularidade dá lugar à simpatia?



adalzirinha bittencourt, 1956.


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18.3.07

os bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez




Está no ar o número 6 da revista eletrônica de cinema Zingu!. Imperdível. A Zingu! é cinema brasileiro, Boca do Lixo, com incursões em Hollywood. Uma revista sem patrocínio do MinC, davidcardosiana, onde se pode ler sobre Wilson Grey, Ozualdo Candeias, Howard Hawks, Ivan Cardoso (ótima entrevista aqui), John Huston, Conrado Sanchez, a pornochanchada e suas musas, as antimusas, onde nas vinhas da ira à meia-noite levarei sua alma. Nekromantik na foto. Não perca. Eu recomendo. Leia de cabo a rabo.


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16.3.07





Ninguém te diz que
fiques
mas eu digo

possíveis os teus olhos
são de verde

que seja a cor da água
do que sentes
infância e madressilva
tu comigo

Selado sobre a casa-desabrigo
ou cintilante racha na parede
aparte do que sabes
e que eu minto

te exponho só de rosas
não somente
o corpo que se canta e não pretende
por demais onde a terra não se estende
e de ti memória
em fio de zinco

Ninguém te diz que
partas
mas eu digo

Intransponíveis são
as pedras do que sinto

Atentamente estou
mas não contigo




-- "Jardim de Março", em Novas cartas portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, 1974.

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6.3.07




AKHMATOVA AKHMATOVA
HÁ UMA MINA ABANDONADA EM POTOSÍ

AKHMATOVA AKHMATOVA
AY CARAJO!
DIGA QUE SÍ



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3.3.07

Banana is my business

Conheci um poeta beat em Nagasaki pouco depois de Emilinha gravar a última cena de "Cala a boca, Etelvina". A cidade estava em reconstrução, voltando a amontoar casas, e qualquer corrente de ar era um risco. Eu evitava tossir. Bob me perguntava do Cassino da Urca. Queria ler seus poemas no Rio. Emilinha já havia trocado a Urca pelo Cassino Atlântico. Bob desconhecia muitas coisas, pude reparar com gosto depois de dois apliques de metadona. Era fã de Emilinha. Decepcionado com Carmen Miranda, sua ambição poética era ser anônimo. Esquecido. Me convidou para conhecer sua família em New Orleans, onde recitava em cafeterias baratas. Jazz poet por essência, dispensara o be-bop depois de ver Carmen no cinema. Chegou a escrever "Cocoa Morning" para o Bando da Lua, que não se interessou. Bob sofria. Parece que não gostava de ser americano. Odiava Ginsberg, que lhe roubara dois namorados com promessas de transformá-los em poetas. Sua última esperança era Emilinha. Eu os apresentei e dois anos depois, com problemas nas cordas vocais, a Favorita da Marinha gravou uma marchinha de carnaval com letra de Bob vertida para o português. Não me ofendi quando a assessora de Emilinha dispensou os meus serviços de tradução depois que Bob aprendeu a nossa língua. Bob comporia muitas canções para Emilinha. Sempre anônimo. Esquecido. Soube disso ontem, enquanto acompanhava o velório de Bob no São João Batista. Com um calor de 42 graus, só o rosto de Bob não suava. Blake saiu sem ser notado. Suas flores já haviam murchado.

26.2.07




meus barquinhos





a tantos quilômetros da praia





só esperam o mar






para partir



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24.2.07




são minhas as ruas que dão na praia
e o sono das manhãs que dão no mar
são meus a areia o barco e o vazio
dentro do barco
são meus o mar e o vazio dentro do mar
em que mergulho sem qualquer vestígio
de sangue




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imagem de Sérgio Fonseca.

16.2.07



a cidade esvazia pouco a pouco. amanhã nas ruas tudo parecerá brasília. tristezas não fazem rafting. do tamanho do aconcágua, esperam você subir devagar, bem devagar. sozinho e sem oxigênio. até dar de cara num paredão. há quem prefira se bronzear, seguir as placas, esquecer da vida em cancun, posar de morto em lençóis maranhenses ou na praia da esquina. sempre há um pacote especial para um coração cansado. um patrimônio histórico, um navio soterrado, uma maratona do vinho, aquele coqueiro que dá coco. o sol entra e sai da minha janela a 13 nós. areia baixa, sol de asfalto. o celular sobre a cama está desligado. vulcão inativo, ninguém há de me achar. para isso comprei calçados apropriados. temperatura média 19 graus no ambiente, 15 na água. não há como chegar a mim sem passar por quito e guayaquil. meus amigos sabem disso e não telefonam. há preços mais em conta.

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11.2.07




Como fazer-se escriptor


Todo aspirante a escriptor precisa aprender a soletrar. A ortografia é um dos grandes pilares da literatura. A maioria imagina-se douta em matéria de ortografia, no entanto raríssimos são os casos de perfeição em coisa tão simples. Tu, que me lês, sem dúvida julgas que sabes soletrar impecavelmente. Pois bem. Dá a um amigo um dicionário e pede-lhe que te faça um teste de palavras comumente usadas: em cinco minutos terás perdido a ilusão. A verdade é que não se tira uma pessoa de dez em cuja correção ortográfica se possa absolutamente confiar. Não creio mesmo que os próprios escriptores sejam, nesse ponto, mais favorecidos do que o público ao qual se dirigem. O aspirante a escriptor deve portanto dedicar 10 minutos, todos os dias, ao estudo dos senões deste ramo da gramática. Não pense que, pelo receio de ser tomado por algum colegial, eu esteja dando um conselho ridículo. Não, senhor, é um conselho intensamente prático e muito sensato.


a. bennett