26.11.11

Lyrische Novelle





Carson McCullers gostava de

Annemarie Schwarzenbach



que gostava de

Erika Mann



que gostava de

Therese Giehse



que gostava de Annemarie que também gostou de

Marianne Breslauer




e Ella Maillart




enquanto fugia de Carson McCullers
que viveu o resto da vida assombrada
pelos reflexos do olhar dourado e o rosto de
Annemarie que nunca parou de gostar de
Erika Mann e de fugir da mãe Renée
que gostava de Emmy Krüger
e do cachorrinho.




(Anos 1930: a vida turbulenta de escritoras, fotógrafas, atrizes,
uma cantora de ópera e uma mãe nazista neta de Bismarck.)

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25.11.11

Maira Parula

Os 300 francos que você me emprestou em 1976


1.

Flâneur da dialética ao drama barroco, o amigo de André Gide escreveu B-r-e-c-h-t com conhecimento das coisas comunistas. Saiu do túnel pela mão única, Lukács. O trabalho de recolher as passagens era transformar a União Soviética no retrato bem-passado de Walter Benjamin. As alegorias só aparecem visíveis na apresentação. Meu primeiro próprio era pura questão de reflexão. Um modo de pintar o momento como montagem. Contar a história em hieróglifos, fetiches da exceção. Já Baudelaire era uma beleza. Original, passado e trágico no banquinho ensebado da Escola de Frankfurt. Proust foi publicado por uma razão que se desconhece. Uma tradução que dá muito trabalho. Como restaurar a velhice na adolescência. Um homem nunca se consola dos prazeres que perde. Da emoção da época, da expressão nas caras de Victor Hugo. Dos títulos que poderia dar a todos os poemas sem título. Coisas com conhecimento de causa, cartas de amor em francês íntimo. A morte que chega no mundo a qualquer hora achando que é noite -- a universidade sem versos. Escreveu, escrito está. Esqueceu, esquecido está. Tanto faz homônimos ou heterônimos. Se a tia é portuguesa ou os lençóis estão amarfanhados. Camilinho sempre chamará a ciência de coisa. Esteta é o Alberto. Que não é amigo de André Gide, o flâneur da dialética à dama barroca. Desde o cubismo Deus ficou assim meio torto, saído do quinto dos impérios. Ponho o café no fogo e me conformo. A arte rivaliza muito com a análise. Atchiiiim.


2.
Amora admitiu pela primeira vez não entender nada de Aristóteles quando lia na praia. Eu respondi que a arte dos livros pensadores e dos comedores de Dublin era um problema preceptístico que eu ainda tinha de resolver. Amora assentiu com o sorvete e Tartu chegou nesse exato minuto perguntando a que horas saía o nosso ônibus para Martin Heidegger. Amora entendeu menos ainda. Piscou para mim porque desconhecia as modalidades de Tartu embora eu já estivesse acostumado. Sozinho ninguém sabia mesmo. Quando se espalhava a notícia de que ele estava chegando na escola, as aulas terminavam e os professores se escondiam no banheiro. Amora ficou metrificada quando lhe contei. Jakooobson, ela sussurrou no meu ouvido sem Tartu perceber. Mas ele percebeu o sorvete pingando. Virei-me para ele e disse que havíamos desistido da viagem há tempos, só ele não sabia. Ele esmagou um besouro com o pé e senti uma espetada na boca. Vou pedir uma travessa de costeletas de porco bem grossas, ele não se fez de rogado. Sua voz era baixa, estilística. Um memorialista supostamente não deve esquecer de nada. Amora fazia um estudo sistemático de sua barriga. Estou gorda? É impossível que aquilo que não é seja menos ainda, disse Tartu, filosófico. Arrume as malas e vá pro diabo, seus olhos cinzentos me diziam. Ele estava precisando é de raízes nutritivas e hipnóticas que suprimissem aquela fome e sede de saber, pensei comigo mesmo. Amora lambia o vazio. Temperamento não se partilha. Tartu assobiou um scherzo. Não era novidade. A brisa trouxe um cheiro de chumbo. Quanto precisarei morrer para alguém me entender?, ele soltou a pergunta no ar como um balão. Nem nos preocupamos em alfinetar. Sem recepção e efeito, ele acabou indo embora sem as costeletas. Melhor assim. Molière mostra o mundo mas sempre tem um espírito de porco que acha que é Munique.



23.11.11

Venha morrer na minha casa




Eu só tinha um título. E a vítima. Precisava da história que inventaria para atraí-la ao meu destino. Era uma noite seca e eu ouvia atentamente o silêncio embrulhando as folhas que caíam na calçada: se estiver escuro à tua frente, nunca fica de costas para ele. Eu encarava a janela fechada fingindo esperar alguém. Do outro lado da vidraça o céu negro fingindo esperar tudo que espero de uma pessoa. Ao meu lado, a cadeira e a corda. Aqui me darás a mão. Aluguei o apartamento há dois meses, parece que moro ali há centenas. O inquilino perfeito. Sem ninguém além das paredes brancas. Quase como gelo escapado ao mar. O prédio antigo e comercial é um cubo cinza. O próximo à direita. Subo pela escada, na curva trêmula das lixeiras. Em algum andar eu preciso que acabe. Não mandei ligar a luz. Quando entro, acendo a lanterna. Minhas pupilas se dilatam em três segundos. Esqueço a mão nos cabelos. Ninguém me pagou para fazer isso. Não há contrato nem veneno de rato no armário da cozinha. Se trago um café da rua, bebo depressa. A investigação será fácil. O espaço exato das folhas dos jornais. Sem sangue nas luvas para contar-lhes o resto. Só profissionais planejam mínimos detalhes. É a minha primeira vez. O ódio tem mais tempo. Lágrimas formando espuma. Custo a dormir. Ouço risadas na água, não sei a mando de quem. O ruído dos meus lábios debaixo de mim. Fico me perguntando como uma morte a mais no mundo ajudará na formação do meu caráter. Metade do meu cérebro teme por mim. Metade ninguém metade daqui a pouco. Trago anotado o número do telefone no espelho embaçado do banheiro. Certas pessoas não deviam confiar nos amigos. São os primeiros a juntar-nos ao sal para que não fiquemos insípidos. Não me surpreenderia se cortassem metade da cena e a virassem na pia. Há uma outra. A casa sempre aberta, a mesa sempre farta. O conforto de olhos recostados, guarda-chuvas transpirando, ferramentas úteis ao trabalho, à família. O conforto do entulho. Não precisar me mexer para sair do lugar. Esta é a minha parte. Apegar-me a coisas que teria coragem de perder. A mesma noite de volta outra vez dizendo venha jantar comigo. Se ela soubesse que era mentira, não atenderia. Não dobraria o corredor. Sairia correndo da areia sem deixar nenhum rastro. Mas já era um percevejo no alfinete ao cruzar minha porta num clarão de fósforo. O que queria de mim não conseguiu. Não valia muita coisa, mas era meu. Assim seja.

MP, 2011.

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15.11.11

Fliporto 2011



À esquerda, Eliane Garcia, videomaker do meu poeminha,
recebendo o prêmio que abiscoitamos na Fliporto 2011,
em Olinda. Valeu!


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8.11.11




Uma historinha para quem não gosta de spoilers:



O medo de


Irene era casada. Tinha um amante, um apartamento para encontros e dois filhos. O marido, juiz. Da alta sociedade vienense. Até que um dia uma mulher desconhecida descobre o adultério de Irene e passa a chantageá-la. Irene enlouquece e. A desconhecida a assedia sempre que Irene está na. O marido então. Irene tremia sempre que. Os filhos começam a. Um dia o amante resolve. Os criados sabem quando. A sensação de náusea foi ficando cada vez mais. Irene precisava fazer com que. Subiu as escadas com. O marido nem. Se o motorista fosse um pouco menos. A primeira medida foi. Entrou no escritório e. Quando se lembrou da. Imediatamente recusou-se a. Postou-se atrás das grades onde. Acabou que de repente. Ainda doía um. Abriu os olhos e. Muitas vezes.



MP, 14:43.

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4.11.11

e. e. cummings




"next to of course god america i
love you land of the pilgrims' and so forth oh
say can you see by the dawn's early my
country 'tis of centuries come and go
and are no more what of it we should worry
in every language even deafanddumb
thy sons acclaim your glorious name by gorry
by jingo by gee by gosh by gum
why talk of beauty what could be more beaut-
iful than these heroic happy dead
who rushed like lions to the roaring slaughter
they did not stop to think they died instead
then shall the voice of liberty be mute?"

He spoke. And drank rapidly a glass of water


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2.11.11

I do not write rhymes for dad



I do not write rhymes for dad

Ok, aí está. Nosso vídeo conquistou o segundo
lugar no V Prêmio Internacional Poesia ao
Vídeo da VII Festa Literária Internacional
de Pernambuco - a Fliporto.

Meus agradecimentos aos inúmeros
amigos que acreditaram e
participaram da empreitada.
E vamos em frente.

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