30.12.02

Alberto Janes


Foi no domingo passado que passei
à casa onde vivia a Mariquinhas,
mas 'stá tudo tão mudado
que não vi em nenhum lado
as tais janelas que tinham tabuinhas.

Do rés-do-chão ao telhado
não vi nada, nada, nada
que pudesse recordar-me a Mariquinhas,
e há um vidro pregado e azulado
onde havia as tabuinhas.

Entrei e onde era a sala agora está
à secretária um sujeito que é lingrinhas,
mas não vi colchas com barra
nem viola, nem guitarra,
nem espreitadelas furtivas das vizinhas.

O tempo cravou a garra
na alma daquela casa
onde às vezes petiscávamos sardinhas
quando em noites de guitarra e de farra
estava alegre a Mariquinhas.

As janelas tão garridas que ficavam
com cortinados de chita às pintinhas
perderam de todo a graça
porque é hoje uma vidraça
com cercadura de lata às voltinhas.

E lá pra dentro quem passa
hoje é pra ir aos penhores
entregar ao usurário umas coisinhas,
pois chega a esta desgraça toda a graça
da casa da Mariquinhas.

Pra terem feito da casa o que fizeram
melhor fora que a mandassem pras alminhas,
pois ser casa de penhores
o que foi viveiro d'amores
é idéia que não cabe cá nas minhas

Recordaçoes do calor
e das saudades. O gosto
que eu vou procurar esquecer
numas ginginhas,
pois dar de beber à dor é o melhor,
já dizia a Mariquinhas.

--- "Vou Dar de Beber à Dor", letra e música de Alberto Janes, intérprete Amália Rodrigues.



26.12.02

A revolução americana


No séc. 18, o abade Morellet, um dos líderes do Iluminismo francês, declarou que a verdadeira motivação dos americanos para a Revolução não foi se libertar da coroa inglesa, mas conseguir se livrar da cerveja inglesa para poder pôr a mão no vinho francês. Benjamin Franklin então respondeu ao abade que a prova da vontade de Deus de que o homem devia beber vinho está na localização do cotovelo. Se este ficasse localizado mais acima ou mais abaixo no braço, seria impossível levar o copo de vinho diretamente à boca. Para incrementar o debate, Franklin escreveu uma canção sobre o tema, cujos versos finais dizem mais ou menos assim:

Neste ponto da história descobrimos simplesmente
que a água não é boa nem para o corpo, nem para a mente;
que Virtude & Proteção só no vinho vamos encontrar,
e os que bebem água merecem mais é se afogar.

23.12.02

Dylan Thomas

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
-

17.12.02

La Fontaine

Epigrama

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco
Foder sem amar não é nada.
-

Goethe



Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.


-- Fragmento dos "Epigramas Venezianos".




Benjamin Péret

Ah! as mocinhas que erguem o vestido
para se esfregarem na moita
ou então nos museus
atrás de Apolos de gesso
enquanto a mãe delas compara a vara da estátua
com a do marido
e suspira
Ah! se meu marido fosse parecido
Um dia a mãe voltará sozinha ao museu
mas a filha dela fugirá pelo outro lado
vara na mão
e a mãe desolada
roubará de uma porta
a maçaneta de cristal

--  "As Ferrugens Engaioladas".

16.12.02

William Carlos Williams



Nada Ter Feito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito





12.12.02

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

--  "Psicologia de um Vencido".

Tagore

Em minha frágil canoa, luto por atravessar o mar do desejo 
e esqueço que eu também estou brincando.
-

11.12.02

Você diz que sabe muito
Borboleta sabe mais:
Anda com os pés pra riba
Coisa que você não faz.

-- Trova popular, autor anônimo.

Cada cabelo tem a sua sombra na testa.

7.12.02

Murilo Mendes

O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.

A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.

O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.

O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.

No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.

Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.

--  "O Ovo".

6.12.02

Vinicius

Certa época, Vinicius de Moraes andava muito incomodado com a moda de musicalização de poemas. Virou-se para Tom e pediu: "Olha, parceirinho, antes que algum aventureiro apareça, faça por favor uma musiquinha para o meu 'Soneto da Separação'." Vinicius ficou encantado com o resultado do trabalho e comentou: "Está lindo, porque é uma música que não atrapalha o soneto. Que o deixa quieto." Essa foi uma das raras vezes, na carreira do poeta, em que a música sucedeu a um poema. Tinha medo de que a música viesse incomodar os versos, acordá-los de sua elegância. Era um mestre da brandura. Vinicius não acreditava em seriedade, acreditava no momento, com o roldão de emoções caóticas que ele arrasta atrás de si. Tom nunca negou que deve tudo, ou quase tudo, a esse sentimentalista. Mas Vinicius sempre renegou a posição de mestre - o que, aliás, faz parte da posição de mestre. Enigmas que não se dão esse nome. Tom testemunhou que, de todos os enigmas, o mais atroz para o poeta era a mulher. "A mulher não é para ser entendida, é para ser amada", argumentava sempre com o parceiro. E, com um cerimonioso português castiço, completava: "Não há entender mulheres." Essas confissões de ignorância mobilizavam Tom mais do que qualquer exibição luxuosa de saber. Vinicius o guiara para a incompletude atordoante dos sentimentos, e isso agora era um caminho sem volta.

-- José Castello, "Vinicius de Moraes, Livro de Letras", 1991.

4.12.02

Na verdade, eu me sinto como se já fosse tricolor antes do Fluminense, antes de mim mesmo e até, se me permitem o exagero: eu era tricolor antes de Cristo.

-- Nelson Rodrigues, em "O Profeta Tricolor".

 "Bem-aventurado aquele que nada espera, pois é isso mesmo que vai receber".
Li por aí.
-

3.12.02

Kurt Vonnegut

Sempre tive dificuldade para terminar os contos de uma forma que satisfizesse o público em geral. Na vida real, as pessoas não mudam, não aprendem nada com seus erros e não pedem desculpas. Num conto, elas precisam fazer pelo menos duas dessas três coisas, ou será melhor jogá-lo fora na lata de lixo sem tampa presa com corrente e cadeado a um hidrante em frente à Academia Americana de Letras e Artes.
Tudo bem, isso eu podia resolver. Mas depois de fazer um personagem mudar, aprender alguma coisa e/ou pedir desculpas, isso deixava o resto do elenco parado chupando o dedo. Isso não é jeito de dizer ao leitor que o espetáculo terminou.
Quando eu era jovem e inexperiente, imaturo nas minhas opiniões e, para começo de conversa, sem nunca ter pedido para nascer, pedi conselho a meu agente literário daquela época sobre como terminar os contos sem matar todos os personagens. Ele havia sido editor de ficção de uma revista importante, além de consultor de roteiros para um estúdio de Hollywood. "Nada mais simples, meu rapaz", disse ele. "O herói monta no seu cavalo e sai cavalgando em direção ao pôr-do-sol."
Muitos anos depois, ele se mataria deliberadamente com uma espingarda calibre 12.

-- Em "Timequake".

2.12.02

Mallarmé

Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,

O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.

Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal

E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.

--  "O Sineiro".