27.4.10

Ana Merino




Vida de lagartija


Yo quise ser animal casero
con vistas a la playa
pero soy lagartija y habito entre las grietas
de una roca volcánica en medio del desierto.

A veces alguien corta el final de mi cola
y allí quedan mis sueños moviéndose nerviosos
creyendo que están vivos.

Yo soy como las horas que pierden los domingos
acaricio el descanso metido entre las sábanas
y espero a que amanezcan los días de diario.

La vida es un enigma del que sólo descrifro
un trozo de esperanza
lo miro de reojo y nunca me detengo
porque temo al acecho de los tirachinas
o la sombra de un gato.



15.4.10





Constance,


Deitada nos arrozais de Pendotiba
sonhei que colocavas toda
a tua língua em minha boca
até o fundo da primavera

ninguém acharia os nossos corpos ali.


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13.4.10

Paul Bowles



Todos os dias eu sentava à minha mesa no balcão e escrevia várias páginas de uma obra que intitulara "Without Stopping". O importante era aumentar a pilha de páginas. Decidi escrever o que me viesse à cabeça e trabalhar o texto depois. Temia que, se parasse para pensar, eu iria ver a obra com olhos críticos, e isso deteria o fluxo. E era o fluxo o que mais me preocupava, pois escrever "Without Stopping" constituía uma terapia. Ver o número de páginas crescer me dava a ilusão de estar criando alguma coisa. Eu tinha perfeita consciência de que vender livros impunha uma situação de inatividade.



Paul Bowles, em Without Stopping, 1972. No Brasil, esta autobiografia só seria publicada em 1994, com o título Tantos caminhos.

9.4.10





Dois homens parados na rua.
Seguem em direções opostas.
Estou dentro do carro.
Não chove porque já choveu
tudo que havia para chover.
Os homens tiram a capa.
O para-brisa marca os segundos.
Os homens não param.
Saem pelos cantos do retrovisor.
Viro à esquerda.
Dou a volta no quarteirão.
Lá está outro, parado.
Vem na minha direção.
Não preciso do retrovisor para ver
que leva a mão ao bolso da calça
e puxa um estilete/carteira/revólver?
Estou dirigindo sem óculos.
Uma imprudência.
Os vidros elétricos sobem.
Abro o porta-luvas e destravo minha Ratzinger.
O homem olha fixamente para mim.
Não me reconhece.
Passa direto e atravessa a rua.
Do outro lado a mulher espera.
Abraços e vão beber sozinhos.
Enfio o pé no acelerador
e eles ficam para trás.
Parados para sempre.
Digo a mim mesmo que estou ficando senil.
E concordo.


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