26.11.04

William Carlos Williams



O direito de passagem

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei --
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa --
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio --

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra --

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão




23.11.04

Guilherme Mandaro



meu amigo de infância continua emagrecendo
fala depressa
diz que a vida tá difícil
que mário continua exagerando
que ele vai à praia ali mesmo
enquanto a cerveja sobra no copo
alguma coisa sobra no papo
a noite apenas começa




16.11.04

ALEA I -- VARIAÇÕES SEMÂNTICAS
(uma epicomédia de bolso)

Haroldo de Campos
1962/63


O ADMIRÁVEL o louvável o notável o adorável
o grandioso o fabuloso o fenomenal o colossal
o formidável o assombroso o miraculoso o maravilhoso
o generoso o excelso o portentoso o espaventoso
o espetacular o suntuário o feerífico o feérico
o meritíssimo o venerando o sacratíssimo o sereníssimo
o impoluto o incorrupto o intemerato o intimorato

O ADMERDÁVEL o loucrável o nojável o adourável
o ganglioso o flatuloso o fedormenal o culossádico
o fornicaldo o ascumbroso o iragulosso o matravisgoso
o degeneroso o incéstuo o pusdentoso o espasmventroso
o espertacular o supurário o feezífero o pestifério
o merdentíssimo o venalando o cacratíssimo o sifelíssimo
o empaluto o encornupto o entumurado o intumorato

N E R U M
D I V O L
I V R E M
L U N D O
U N D O L
M I V R E
VO L U M
N E R I D
M E R U N
V I L O D
D O M U N
V R E L I
L U D O N
R I M E V
M O D U L
V E R I N
LO D U M
V R E N I
I D O L V
R U E N M
R E V I N
D O L U M
M I N D O
L U V R E
M U N D O
L I V R E


programa o leitor-operador é
convidado a extrair outras
variantes combinatórias
dentro do parâmetro semântico
dado
as possibilidades de permutação
entre dez letras diferentes
duas palavras de cinco letras cada
ascendem a 3.628.800



Haroldo de Campos


11.11.04

Do roteiro de "Total Eclipse", 1995




Verlaine: O que você acha de minha esposa?
Rimbaud: Não sei. O que você acha dela?
Verlaine: Ela ainda é muito criança.
Rimbaud: Eu também.

(pausa)
Verlaine: (para o garçom) Dois absintos...
Rimbaud: Esse seu último livro...
Verlaine: Sim...
Rimbaud: ...não é lá essas coisas.
Verlaine: Não está falando sério.
Rimbaud: Puro lixo pré-matrimonial.
Verlaine: Não. São poemas de amor. Muita gente gostou.
Rimbaud: Não passam de uma mentira.
Verlaine: Não são uma mentira, eu amo minha mulher.
Rimbaud: Amor...
Verlaine: Sim.
Rimbaud: Isso não existe.
Verlaine: O que quer dizer?
Rimbaud: O que une as famílias e os casais, isto não é amor. É burrice, egoísmo, ou medo. O amor não existe.
Verlaine: Você está enganado.
Rimbaud: O interesse próprio existe, a união para proveitos pessoais existe, a complacência existe. Não o amor. O amor tem de ser reinventado.
Verlaine: Eu amo o corpo dela.
Rimbaud: Há outros corpos.
Verlaine: Não. Eu amo o corpo de Matilde.
Rimbaud: E a alma não?
Verlaine: Acho mais importante amar o corpo do que amar a alma, afinal a alma pode ser imortal. Terei muito tempo para a alma, enquanto a carne...
Rimbaud: (bufando)
Verlaine: O que foi? É o meu amor pela carne que me mantém fiel.
Rimbaud: Fiel. O que quer dizer com isso?
Verlaine: Sou fiel a todos a quem amei. Se amei um dia, amarei para sempre...e quando estou sozinho à noite ou pela manhã, posso fechar meus olhos e celebrar a todos.
Rimbaud: Isto não é fidelidade. É nostalgia. Não espere fidelidade de mim.
Verlaine: Aaah... por que está tão azedo comigo?
Rimbaud: Porque você precisa disso.
Verlaine: Já não basta saber que amo você mais do que ninguém? E que sempre amarei?
Rimbaud: Ah, cale essa boca, seu bêbado choramingas.
Verlaine: Diga que me ama.
Rimbaud: Ah, pelo amor de Deus.
Verlaine: Por favor, é importante para mim, diga...
Rimbaud: Você sabe que gosto de você.
Verlaine: Fiz umas compras hoje de manhã. Comprei um revólver.
Rimbaud: E pra quê?
Verlaine: Para você, para mim, para todos.
Rimbaud: Espero que tenha comprado munição suficiente pra todo mundo.



(trad. Maira Parula)


8.11.04

Salvador Dalí, visto por Buñuel


Durante a guerra da Espanha, Dalí por várias vezes manifestou sua simpatia pelos fascistas. Propôs até à Falange um monumento comemorativo bastante extravagante. Tratava-se de fundir, misturadas, as ossadas de todos os mortos da guerra. Em seguida, a cada quilômetro, entre Madri e o Escorial, erguer-se-iam uns cinqüenta soclos sobre os quais seriam colocados esqueletos feitos com as ossadas verdadeiras. Esses esqueletos iriam aumentando de tamanho. O último, chegando ao Escorial, atingiria 3 ou 4 metros. Como se pode imaginar, o projeto foi recusado. Em seu livro, A vida secreta de Salvador Dalí, ele se referiu a mim como um ateu. De certa maneira isto era mais grave do que uma acusação de comunismo. Um tal Prendergast, representante dos interesses católicos em Washington, começou, na mesma época, a usar sua influência junto aos meios governamentais para que eu fosse despedido do Museu [de Arte Moderna de Nova York]. (...) Depois de minha demissão, um dia marquei um encontro com Dalí no bar do Sherry Netherland. Ele chega, muito pontual, e pede champanhe. Furioso, em vias de agredi-lo, digo-lhe que é um canalha, que estou na rua por sua culpa. Ele me responde com esta frase que jamais esquecerei: "Escrevi esse livro para erigir um pedestal para mim. Não para você." Recolhi minha bofetada. Com a ajuda do champanhe -- e das reminiscências, do sentimentalismo -- nos separamos quase amigos. Mas a ruptura era profunda. Eu só tornaria a vê-lo uma vez mais. (...) Um dia, em Montmartre, vou vê-lo em seu hotel, encontro-o de peito nu com um curativo nas costas. Pensando sentir um "percevejo" ou qualquer outro bichinho -- na verdade era uma espinha ou verruga -- ele cortara as costas com uma lâmina de barbear e sangrara abundantemente. Ele então contou muitas mentiras, embora fosse incapaz de mentir. Quando, por exemplo, para escandalizar o público americano, escreveu que um dia, visitando um museu de história natural, sentiu-se violentamente excitado pelos esqueletos de dinossauros a ponto de se ver obrigado a "sodomizar" Gala [sua mulher] num corredor, isso era evidentemente falso. Mas ele é de tal modo fascinado por si mesmo que tudo o que diz o toca com a força cega da verdade. (...) Quando foi a Nova York pela primeira vez, no início dos anos 30, foi apresentado aos milionários, de quem já gostava muito, e convidado para um baile de máscaras. A América inteira estava na época traumatizada pelo seqüestro do bebê Lindbergh, o filho do famoso aviador. A esse baile Gala compareceu com uma roupa de criança, o rosto, o pescoço e os ombros manchados de sangue. Dalí dizia apresentando-a: "Ela está fantasiada de bebê Lindbergh assassinado." Isso repercutiu muito mal. Tratava-se de um personagem quase sagrado, de uma história em que não se podia tocar sob pretexto algum. Dalí, censurado por seu marchand, rapidamente recuou e contou aos jornais, numa linguagem hermético-psicanalítica, que a fantasia de Gala inspirava-se, na realidade, no complexo X. Era um travesti freudiano. (...) Quando penso nele, apesar das recordações de nossa juventude, apesar da admiração que ainda me inspira atualmente uma parte de sua obra, me é impossível perdoar-lhe seu exibicionismo ferozmente egocêntrico, sua adesão cínica ao franquismo e sobretudo seu ódio declarado pela amizade. Numa entrevista, há alguns anos, declarei que ainda assim gostaria bastante de tomar uma taça de champanhe com ele antes de morrer. Ele leu essa entrevista e disse: "Eu também, mas já não bebo."


Luis Buñuel, em seu livro de memórias Meu último suspiro, 1982.


7.11.04

André de Leones



INT. LANCHONETE - DIA.

O lugar está praticamente vazio. JEAN e FABIANA estão sentados a uma mesa qualquer. Tomam suco. Jean folheia um livro grosso.
FABIANA
- Odeio ler. Prefiro ir à praia.

JEAN
- Aqui não tem praia.

FABIANA
- Pra você ver o quanto minha vida é sacal.

Jean sorri sem desviar os olhos do livro, de tal forma que não se sabe se ele ri do sarcasmo de Fabiana ou de algo que tenha lido.
FABIANA
- Você sabe, eu divido minha vida em fases.

JEAN
- Todo mundo faz isso.

FABIANA
- Não como eu faço.

Breve silêncio. Ela toma um grande gole de suco. Ele continua concentrado em folhear o livro.
FABIANA
- Quer saber como é?

Novo silêncio. Após um momento, Jean fecha o livro e a encara.
JEAN
- Diz aí.

FABIANA
- Ok, obrigada. É o seguinte: eu divido meus dias, todos eles, todos os dias da minha vida, em duas categorias: "na praia" e "longe da praia". Pensando nos dias que passei na praia e nos dias que passei longe da praia, concluí que amo os dias que passei na praia e alimento sentimentos que variam entre tristeza e ódio puro pelos dias que passei, ou passo, longe da praia. Levando-se em conta que, em dezessete anos de vida, passei um total de cento e vinte e três dias na praia, dos quais treze dias foram ainda dentro da barriga da minha mãe, já grávida de mim em sua lua-de-mel, bem, dá pra imaginar que tipo de sentimento eu tenho pela joça da minha vida em geral.

Silêncio. Fabiana toma outro gole de suco. Jean sorri.
JEAN
- Eu... eu nunca fui muito fã de praia.



- Em  Hoje está um dia morto.