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27.7.14
4.11.10

The unending gift
Um pintor prometeu-nos um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras
vezes, a tristeza de compreender que somos como um
sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei em um lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa
mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa;
agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma
e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e
estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há
algo imortal.)
Jorge Luis Borges, em Elogio da sombra, 1969.
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28.7.08
Dreamtigers

Na infância pratiquei com fervor a adoração do tigre: não o tigre oveiro dos camalotes do Paraná e da confusão amazônica, mas o tigre rajado, asiático, real, que só homens aguerridos podem enfrentar, sobre um castelo em cima de um elefante. Eu costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das jaulas do Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural, pelo esplendor de seus tigres. (Ainda me lembro dessas figuras: eu, que não consigo recordar sem engano a fronte ou o sorriso de uma mulher.) A infância passou, caducaram os tigres e sua paixão, mas eles prosseguem em meus sonhos. Nessa tela submersa ou caótica continuam prevalecendo, e deste modo: adormecido, distrai-me um sonho qualquer, e de repente percebo que é um sonho. Costumo pensar então: isto é um sonho, pura diversão de minha vontade, e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre.
Oh, incompetência! Nunca meus sonhos sabem engendrar a almejada fera. O tigre aparece, sim, mas dissecado ou fraco, ou com impuras variações de forma, ou de um tamanho inadmissível, ou muito fugaz, ou tirante a cão ou a pássaro.
Jorge Luis Borges, "Dreamtigers", O Fazedor, 1960.--
18.7.07

creio esta noite na terrível imortalidade:
nenhum homem morreu no tempo,
nem mulher, nenhum morto,
porque esta inevitável realidade de ferro e de barro
tem de atravessar a indiferença de quantos estejam
adormecidos ou mortos
- ainda que se ocultem na corrupção e nos séculos -
e condená-los à vigília espantosa.
Toscas nuvens cor de borra de vinho infamarão o céu;
há de amanhecer em minhas pálpebras apertadas.
Jorge Luis Borges, em fragmento de "Insônia". Imagem de Diego Abrahão.
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8.4.06
Borges e o Farrapo Humano
la gota del tiempo que vacila

Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
y que fue el rojo Adán y que es ahora
todos los hombres y los que seremos.
Ya somos en la tumba las dos fechas
del principio y el fin, la caja,
la obscena corrupción y la mortaja,
los ritos de la muerte y las endechas.
No soy el insensato que se aferra
al mágico sonido de su nombre,
pienso con esperanza en aquel hombre
que no sabrá quien fui sobre la tierra.
Bajo el indiferente azul del cielo,
esta meditación es un consuelo.
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Na foto, o escritor fracassado, vivido por Ray Milland no cinema, bebendo em seu bar favorito, o lendário Clarke's, na Terceira Avenida.
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Dizem que Jorge Luis Borges, poucos anos antes de morrer, visitou Nova York para uma conferência e quis conhecer, apesar de cego, todos os bares por que passou Ray Milland no filme Farrapo Humano. Borges sabia de cor o nome de todos esses bares e nessa ocasião acabou conhecendo María Panero, estudante de medicina argentina, para quem declamou 5 sonetos feitos na hora para que ela os copiasse. Disse ele que vinha pensando naqueles poemas no avião que o levou de Buenos Aires a Nova York, e que ela seria a pessoa indicada para copiá-los. Os sonetos permaneceriam inéditos pois o autor não levou uma cópia e María não conseguiu enviar a ele a cópia que ficara consigo. Anos após a morte do autor, José Manuel Martell, especialista em Borges, confirmou a autoria ao ler os sonetos, argumentando no entanto que deviam ser rascunhos mentais dos anos 60 que o autor nunca quis publicar mas que usava como isca para conseguir alguma mulher por quem se interessava. Mais recentemente estes sonetos foram disponibilizados na rede pelo poeta colombiano Harold Alvarado Tenorio e aqui publico um deles:
Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
y que fue el rojo Adán y que es ahora
todos los hombres y los que seremos.
Ya somos en la tumba las dos fechas
del principio y el fin, la caja,
la obscena corrupción y la mortaja,
los ritos de la muerte y las endechas.
No soy el insensato que se aferra
al mágico sonido de su nombre,
pienso con esperanza en aquel hombre
que no sabrá quien fui sobre la tierra.
Bajo el indiferente azul del cielo,
esta meditación es un consuelo.
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Na foto, o escritor fracassado, vivido por Ray Milland no cinema, bebendo em seu bar favorito, o lendário Clarke's, na Terceira Avenida.
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27.9.03
As coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.
-- Jorge Luis Borges
A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.
-- Jorge Luis Borges
24.3.03
É o amor. Terei de me esconder ou fugir.
Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz. A bela máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, o aprendizado das palavras que usou o áspero Norte para cantar seus mares e suas espadas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar de meus mortos, a noite intemporal, o gosto do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida de meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já se levanta o homem à voz da ave, já escureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, eu sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Agora os exércitos me cercam, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher me delata.
Dói-me uma mulher por todo o corpo.
-- Jorge Luis Borges, "O Ameaçado".
12.11.02
Jorge Luis Borges
Se não existe emoção, não pode existir poesia. Tampouco há necessidade de que haja esta poesia. Assim, eu diria que se escreve ungido pela emoção e melhor seria tentar desencorajar a emoção, porque se um tema não nos deixa sossegados, então o escrevemos para nos livrar dele ou, como disse Reyes, para que não passemos a vida corrigindo rascunhos.
(...)
O escritor deve ser submisso e não convém que tente compreender demais o que está fazendo, porque qualquer ato consciente pode deitar a perder a obra.
-18.9.02
Jorge Luis Borges
"Todas as literaturas começaram pela poesia. Estudei as origens da literatura anglo-saxônica e achei a épica, séculos de épica, antes de chegar à prosa. Os conhecedores deram a explicação: é mais fácil conseguir a unidade de um verso e depois repeti-lo inúmeras vezes, do que se lançar na complexidade da prosa, onde não se pode repetir o jogo. A prosa é complexa, difícil, e para mim na verdade a prosa é a última forma da poesia. O homem começou cantando seus mitos, celebrando seus heróis, seus guerreiros, embora depois, graças a Deus, descobrisse outros temas."
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"A poesia japonesa se baseia no contraste. Não se compara uma coisa com outra, contrasta-se. Um dos mais famosos exemplos da poesia japonesa, traduzido, se expressaria assim: 'Sobre o grande sino de bronze pousou uma borboleta.' Há traduções diferentes, mas é mais ou menos assim. Aí obviamente não se compara nada com nada, se contrasta. O firme e durável sino de bronze com a efêmera borboleta. Não há metáfora."
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