29.12.03

Nara Leão

Além do arco-íris


Além do arco-íris há um lugar
Onde um dia eu ouvi
Uma canção de ninar
Pra lá do arco-íris o céu é azul
E os sonhos que nós ousamos
Vêm nos acalentar
Um dia eu quis subir numa estrela
E acordar bem longe numa nuvem
Eu vi que estava mesmo no espaço
E que não era fantasia, te juro
Então o que pensei foi
Nada sei dos mistérios da vida
Nem por onde eu andei


-- Nara Leão, em sua versão para "Over the Rainbow".

27.12.03

Eudoro Augusto

Pelo telefone


Você me liga querendo saber
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.


-- Eudoro Augusto

26.12.03

1 poema de Raymond Carver

Medo


Medo de ver o carro da polícia estacionar na porta de casa.
Medo de pegar no sono à noite.
Medo de não pegar no sono.
Medo do passado que volta.
Medo do presente que escapa.
Medo do telefone que toca de madrugada.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma verruga na bochecha!
Medo dos cachorros que não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de não ter dinheiro.
Medo de ter demais, embora ninguém acredite.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de chegar antes dos outros.
Medo da caligrafia dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim e da culpa que sentiria.
Medo de viver com minha mãe quando ela e eu estivermos velhos.
Medo da confusão.
Medo de que o dia de hoje termine num tom melancólico.
Medo de acordar e descobrir que você foi embora.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que eu amo seja mortal àqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.
Eu já disse isso.


-- Raymond Carver

19.12.03

Feliz Ano Novo



Natal é união: 667 lojas e 9.230 vagas para estacionamento. Pessoas marchando da esquerda para a direita da direita para a esquerda enquanto escrevo oculta por uma gigantesca árvore do shopping. Nada em mim lhes chama a atenção porque não sou de néon, não estou vendendo nada e daqui a pouco me mando pois é proibido fumar. Porém o garçom da birosca chique ao lado sabe bem onde estou, e não erra uma. Ele enche meu copo pela sexta vez e não tenta puxar assunto. Natal é união e é assim que começo meu texto de encomenda nesta tarde de quarta-feira. Eu poderia rabiscar palavras bonitas para embrulhar pensamentos harmônicos e quem sabe presenteá-los ao leitor, mas o celular toca e alguém diz que não vai aparecer porque a cidade está uma loucura e o trânsito, um inferno. Ergo o copo e vejo a adolescente amuada fechando o celular e guardando na bolsa. Ela se atrapalha com as sacolas de grife, sussurra merda e afasta-se trincando o piso. Já terei ido embora quando ela voltar mais uma vez sozinha para tomar a mesma cerveja quente enquanto espera pelos netos. Minha caneta começa a falhar a tinta e não tenho uma extra. Precisaria comprar. Comprar. Natal é união e parece que não consigo sair da mesma frase, que é um pensamento simples, qualquer um pode entender. Ao contrário do que imaginava, o excesso de cerveja está me deixando sóbria, não gostaria de ficar sóbria até o ano-novo, esta é que é a verdade. Talvez o problema seja da cerveja. Chamo o garçom e peço chopp. O shopping está um forno e meu braço gruda na mesa. A mesa é sólida e o shopping é de cimento armado. Não há janelas. Navios não passam. Há um elevador separando cidade e oceano. Os corpos curvados que passam na minha frente parecem saber que o Natal é união, eu é que perdi o detalhe. 17:45 da tarde de quarta-feira. Falta uma semana para o dia 24 e duas para o ano-novo. Se eu continuar escrevendo desse jeito o sentimentalismo vai empoeirar tudo e o leitor vai pedir pra trocar. Mas minhas palavras não aceitam devolução. Ligo para a revista, ocupado. Pago a conta, jogo a caneta no lixo e do lado de fora uma noite cansada se despede do calendário. Feliz Ano Novo.

18.12.03

Almada Negreiros

A cena do ódio

(excerto final)


(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anêmicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards,
esse vaivém cínico de bandidos mudos,
esse mexer esponjoso de carne viva,
esse ser-lesma nojento e macabro,
esse S ziguezague de chicote autofustigante,
esse ar expirado e espiritista,
esse Inferno de Dante por cantar,
esse ruído de sol prostituído, impotente e velho,
esse silêncio pneumônico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira
Larga a cidade e foge!

Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás — vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
— Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
— Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!
Depois põe-te a virar sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra,
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
— põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois põe-te à coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhes a cabeça por dentro
co'as tuas unhas e cacos de garrafas,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa, muito depressa,
sem que o sol te veja,
deitar tudo no mar onde haja tubarões!

Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola despanta-pardais!
Mas hás de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás de pagar-Me o Abismo e a Morfina!
Hei de ser cigana da tua sinal
Hei de ser a bruxa do teu remorso!
Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei de vara mágica encantar-te arte de ganir!
Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne viva deitar fel,
e depois na carne viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros,
Hei de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei de bóia do Destino ser em brasa
e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!

E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei de ser a mulher que tu gostes,
hei de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!


-- Almada Negreiros

17.12.03

Charles Bukowski

À puta que levou meus poemas


dizem que devemos evitar remorsos pessoais
num poema,
ser abstratos, e há razões para isso,
mas deus do céu
doze poemas perdidos e não tenho cópias!
você também levou meus quadros, os melhores!
é demais:
está querendo acabar comigo como todo mundo?
por que não levou meu dinheiro? é o que costumam fazer
com os bêbados caídos nas calçadas
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de 50
mas não os meus poemas:
não sou Shakespeare
mas pode ser que um dia não existam mais,
abstratos ou não,
sempre haverá grana e putas e bebuns
até que caia a última bomba,
mas como disse Deus,
cruzando as pernas,
acho que criei poetas demais
e muito pouca poesia.

(trad. MP)

16.12.03

Yo ya estoy hasta la madre de que me pongan sombrero, escucha entonces cuando digo:
"No me llames frijolero". Y aunque exista algún respeto,
y no metamos las narices. Nunca inflamos la moneda,
haciendo guerra a otros países. Te pagamos con petróleo
o intereses, nuestra deuda. Mientras tanto no sabemos
quién se queda con la feria. Aunque nos hagan la fama
de que somos vendedores. De la droga que sembramos,
ustedes son consumidores. Don't call me gringo,
You fuckin' beaner. Stay on your side
of that goddamn river. Don't call me gringo,
You beaner. No me digas beaner, Mr. Puñetero.
Te sacaré un susto por racista y culero.
No me llames frijolero, Pinche gringo puñetero.
(Chingao’) Now I wish I had a dime for every single time
I've gotten stared down for being in the wrong side of town.
And a rich man I'd be if I had that kind of chips.
Lately I wanna smack the mouths of these racists.
Podrás imaginarte desde afuera, ser un Mexicano cruzando
la frontera, pensando en tu familia mientras que pasas,
dejando todo lo que tú conoces atrás.
Si tuvieras tú que esquivar las balas de unos
cuantos gringos rancheros. ¿Les seguirás diciendo:
“good for nothing wetback” si tuvieras tú que empezar
de cero? Now why don't you look down to where your
feet is planted. That U.S. soil that makes you take
shit for granted. If not for Santa Ana, just to let
you know that where your feet are planted would be Mexico.
¡Correcto!


-- os Molotov, "Frijolero".

William Burroughs

Dia de Ação de Graças - 28 de novembro de 1986


Agradeço pelo peru e os pombos selvagens para serem cagados pelas tripas dos americanos.
Agradeço por todo um continente para espoliar e envenenar.
Agradeço pelos índios por proporcionarem um pouco de desafio e perigo.
Agradeço pelas manadas de bisões para matar, arrancar-lhes a pele e deixar que apodreçam.
Agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
Agradeço pelo Sonho Americano, por difundir mentiras até que elas apareçam.
Agradeço pela Ku Klux Klan, pelos policiais que matam negros e os contabilizam, pelas mulheres religiosas e decentes com suas faces mesquinhas cansadas, amarguradas e perversas.
Agradeço pelos adesivos "Mate um viado em nome de Jesus".
Agradeço pela AIDS de laboratório.
Agradeço pela lei seca e a guerra contra as drogas.
Agradeço por um país aonde não se permite a ninguém que cuide da própria vida.
Agradeço por uma nação de delatores.
Oh sim agradeço por todas as recordações: "Me mostre aí os seus braços".
Você sempre foi um problema, um estorvo.
Agradeço pela traição do último e mais importante dos sonhos humanos...


(trad. MP)

14.12.03

Gottfried Benn

Apêndice


Tudo branco e preparado para o corte.
O bisturi esterilizado esfumaçando. O abdome marcado.
Debaixo dos panos brancos algo geme.

"Sr. Professor, está tudo pronto."
A primeira incisão. Como se fatiasse o pão.
"Pinças!" Algo púrpura começa a brotar.
Mais profundo. Os músculos: úmidos, brilhantes, frescos.
Há rosas sobre a mesa?

Isto que salta é pus?
Teriam cortado o intestino?
"Doutor, debaixo desta luz,
nem o diabo pode ver o diafragma.
Anestesia, não posso operar,
o homem sumiu com o estômago."

Silêncio pesado, úmido. No vazio
uma tesoura tilinta no chão
e a angelical enfermeira
oferece algodão esterilizado.

"Não consigo encontrar nada nesta porcaria!"
"O sangue está escurecendo. Tirem-me a máscara!"
"Mas, deus do céu, meu caro,
vamos logo com isso!"
Tudo disforme. Por fim: aqui está!
"O ferro em brasa, enfermeira!" Um corte.

Desta vez tiveste sorte, meu filho.
A coisa estava a ponto de perfurar-se.
"Está vendo esta pequena mancha verde?
Mais três horas e o estômago se encheria de merda."

Barriga fechada. Pele costurada.
"Ponham esparadrapos aqui!
Bom dia, senhores."
A sala fica vazia.
Furiosa, trincando e rangendo os dentes,
a morte se apressa para o pavilhão dos cancerosos.


-- Gottfried Benn

13.12.03

Concurso "Piores Contos" - final


Menção Desonrosa:


Ecos de uma noite

As personagens fantasmagóricas que circundam minha alma e com as quais esbarro sem me dar conta, às vezes por puro acaso, às vezes premeditando olhares, às vezes por pura falta de opção, não importa, estão todas mortas novamente. Talvez sejam elas os replicantes de quem um dia deixei em um canto qualquer de um quarto qualquer, porque não cabiam em minha mala de viagem. E aquela história daquele desconhecido, grafada em papel-jornal? Bem. Essa também não me é totalmente desconhecida. É a mesma que já um dia, pelo menos, ouvi falar e que se impregnou em um canto qualquer da minha memória. Mas ela também não me emociona! Assim como não me emociona mais fazer a barba, cortar o cabelo e olhar o espelho pelo avesso. Será outra recusa? Sei lá. Seria prudente da minha parte saber dos outros, principalmente dos navegantes aleatórios que passam pelos becos da cidade, sem deixar rastros e rostos? Acho que não. Mesmo porque são viajantes que trilham apenas as rotas do previsível, com mapas já decifrados e bússolas viciadas. Bem, acho que agora vou pôr a minha pior roupa e ir aquele bar tomar uma bebida qualquer. Ver uma pessoa qualquer, com um cheiro qualquer. Sei lá. Ou o melhor talvez será ler uma poesia desconhecida? Aquela? Sim, aquela! Rabiscada com caneta bic, em um papel-guardanapo, guardado no bolso detrás da calça, que a lavanderia não me entregou por falta de pagamento, aonde as personagens encontram-se em elipse e seus corpos transfigurados pelo tempo voraz. Sei lá também. Talvez, o melhor será ouvir uma música, cuja melodia uma bêbada inoportuna escreveu à mesa de um bar e com elegância escarrou sobre o papel. Também não, pois seria arriscado demais e eu tenho todos os medos do mundo. Então, fico inerte sobre essas quatro janelas, ouvindo The Doors - Riders On The Storm, com uma puta sensação de já ter vivido todos os ecos que agora se apresentam como um dia a mais.

-- Incitatus de Preto



Tomorrow will be different


Cá estou eu em frente a uma privada, segurando o meu pinto de perna aberta, esperando o xixi descer. Eu tive uma leve impressão de que minha bexiga estava cheia e isso já foi um pretexto para eu sair daquela sala quente. Agora estou aqui, na maior concentração, esperando o maldito xixi descer. Se bem que é melhor que ele não desça mesmo, porque eu prefiro ficar aqui do que naquela sala fria. Olho para cima, olho para o teto branco e fecho os olhos. Estou flutuando agora... flutuando num lugar branco e imenso.Encontro então o meu chaveiro e nele escrito "Seu idiota! Você mijou na mão!". Quando eu abro os olhos, assustado olho para baixo e vejo que eu... não tinha conseguido mijar ainda. Mas eu sentia que o xixi estava na ponta da cabeça e não queria sair por algum motivo. Não agüento mais ficar de pé. Sento, apoio minha cabeça nas minhas mãos e meus braços na minha coxa. Fecho os olhos de novo e agora tudo está preto, menos a minha camisa que é vermelha e uma mulher logo adiante que usa uma saia vermelha. Quem será aquela mulher? Ah, é a minha tia, aquela maldita. Resolvo abrir os olhos, pois eu odeio a minha tia, aquela fofoqueira. Mas penso melhor. Fecho os olhos de novo, pego um revólver e dou três tiros na cabeça dela. Agora sim eu abro os olhos de novo. Caem duas gotinhas do meu pinto e eu resolvo sair do banheiro. Volto para aquela sala morna e vou direto para cama, esse negócio de matar até que não era tão mau assim. Mas aí eu fico pensando "E depois? E se eu for preso?". Merda de consciência esta minha que me poda até na hora de sonhar. Perdi o sono e não vou voltar mais para aquela sala fedida. Amarro a coleira na minha cadela e resolvo dar uma volta. Seis da manhã e essa cidade está gelada e vazia. A partir daqui eu resolvo ir até o mar a pé. São 600 km, mas foda-se. Quando eu chego na metade do caminho, já vai ser a segunda vez que vai escurecer, resolvo ir dormir de novo. Então percebo que não estou mais com a minha cadela na coleira e sim que estou arrastando um esqueleto com um urubu em cima. O urubu me olha e diz "Meu amigo, essa história precisa ter um fim". Não sei o que ele quis dizer com isso naquele momento, mas acho que ele quer que eu o arraste até a praia logo. Acelero o passo, sem parar para dormir e logo chego à praia. O urubu voa até um esgoto e encontra um urubu fêmea. Os dois começam a dividir uma carniça, numa das cenas mais românticas que eu já vi na minha vida. Vou até uma barraquinha e peço um guaraná. Chega uma garota e comenta de como o tempo está quente. Ela pergunta se eu não quero ir morar na Antártida com ela. Eu respondo que sim e ela diz que só tem um problema: nós teríamos que ir a pé até lá. Eu digo que não me importo (acho que foi a emoção de ver os urubus). Vamos a pé para a Antártida e chegando lá resolvo ser escritor e quando ficar velho ser um apresentador de um programa de entrevistas na TV. Já estou na minha primeira página do meu livro e vou indo muito bem. Amanhã irei pescar. Eu, Maria e meus três pingüins. Mas eu espero que depois seja diferente.

-- Gabriel Pagnano



12.12.03

Concurso "Piores Contos"


1º) lugar


Minha História


Nasci como todo mundo, depois de uma gravidez completa de minha mãe. Não foi muito agradável todo o tempo que fiquei em sua barriga. Ela sentia muita dor e o peso era insuportável. Mais os enjôos seguidos de vômitos, sempre perto de quem estava, deliciosamente, saboreando uma refeição.
Vim bem magra e comprida e chorava desesperadamente de fome o tempo inteiro. Minha mãe não tinha um pingo de leite, também pudera, meu pai, aquele calhorda, vivia de porre e sacaneando ela o tempo inteiro. Ele era um cara derrotado, que não conseguia trabalho. Minha mãe, quando casou com ele, tava muito apaixonada e achava que tudo ia mudar. Mas bem que a mãe dele tinha avisado que ele sempre tinha sido assim e que "pau que nasce torto não conserta". Mas, sabe como é, quem ouve os outros quando está apaixonado!

Gente, eu tava falando da fome que sentia e da falta de leite da minha mãe, não era? Sabe como é, um assunto puxa outro... Esse negócio de um assunto que puxa outro também é engraçado. Falando nele, lembrei que tem gente que não pode encontrar outro que já começa a falar da sua vida, não é? E pior! Fala de coisas desagradáveis como dores, enjôos e vômitos. Como é que pode?
E quando começa a falar mal do pai, aí não há quem agüente! Sempre nas histórias tem uma mãe sofredora e um pai que não presta o ar que respira. Que coisa mais desagradável!
Mas também tem muito homem safado neste mundo, não é? Outro dia soube que o marido da Anete, aquela que fornece quentinha, tinha dado uma surra nela. E sabe qual foi o motivo? Ela tava com uma roupa um pouquinho curta.
Nada demais. Mas pensando bem, ela é meio alegre demais. Uma mulher daquela idade com as coxas de fora!
Detesto falar da vida dos outros!
De que que eu tava falando antes mesmo?
Ah, deixa pra lá. Não tenho mais tempo de conversar. Até mais ver.





Menção Honrosa:


“Hasta cuando, Diós mio, hasta cuando?”


Havia flores de todas as cores no jardim dos Cavalcanti. Não apenas rosas, nem apenas rosas vermelhas, mas também rosas amarelas, cor de champanhe e cor-de-rosa. Além delas, havia cravos, mas eram cravos de uma única cor, a vermelha. Havia também crisântemos, margaridas, gerânios, hortênsias... como se uma dessas gôndolas da seção de jardinagem de supermercados houvesse derramado, nos canteiros do jardim da mansão, todas as sementes contidas nas dezenas de saquinhos ali existentes à venda, e como se alguma pessoa, dessas que têm mão boa para o plantio de flores e outras espécies de vegetais, tais como legumes e cereais, as houvesse plantado com carinho e amor, porque carinho e amor também ajudam as flores a florirem, segundo antigas lendas, hoje comprovadas por fontes bem informadas e de notório conhecimento.

O aroma das rosas, talvez por serem elas mais numerosas, predominava, todavia. Soprado pela brisa leve, que balouçava suavemente as ramagens, não apenas das flores, mas também de pequenos arbustos e até mesmo das árvores de porte médio, que também faziam parte do jardim, o aroma das rosas penetrou pela grande janela do quarto de Maria Isaura, a filha única dos Cavalcanti, que nessa época do ano, a primavera, dormia com ela, a janela, aberta, exatamente por gostar do aroma de flores naturais, especialmente o das rosas – razão de ser da predominância dessa espécie de flor nos jardins da mansão.

Também trazido pela brisa, o som do relógio da pequena capela da vila, distante da mansão cerca de um quarteirão ou pouco mais, repetiu oito vezes sua nostálgica badalada, fazendo com que Maria Isaura despertasse, interrompendo estranho sonho que há dias se repetia, sem que a donzela tivesse para ele alguma explicação – e olha que ela passava horas e horas do dia à procura dela, a explicação.

Maria Isaura espreguiçou-se com a delicadeza típica dos gestos das jovens do seu tempo, quando tudo na educação das moças era direcionado para a delicadeza: o bocejar, o sentar-se, o tomar refeições tanto no convívio da família, quanto na presença de estranhos em ágapes de cunho social, enfim, em praticamente cada gesto por ela, Maria Isaura, e por elas, as demais jovens da classe social dos Cavalcanti, executado rotineira e cotidianamente. Havia em seu semblante sinais inequívocos de uma noite mal dormida, isto é, olheiras que, talvez em alguma outra pessoa de tez mais amorenada, nem fossem notadas, mas que manchavam inapelavelmente o derredor daqueles olhos azuis, duas verdadeiras águas-marinhas incrustadas no alvo rosto emoldurado por encaracolados cabelos da cor do mais puro ouro de dezoito quilates.

“Hasta cuando, Diós mio, hasta cuando?”, indagou-se Maria Isaura, referindo-se à repetência do sonho, e o fez em espanhol porque nele, no sonho, a jovem aparecia encarnando uma duquesa da corte de Dom João 6º, forçada a casar-se com um primo em segundo grau do imperador, o duque Joaquim Emanuel Aguirre, cuja existência não era comprovada em nenhum dos livros de história da corte lusitana, consultados, com afinco de pesquisadora, por Maria Isaura, desde quando começou a sonhar o acima referido sonho. Nesse episódio onírico, Maria Isaura vivia sua primeira noite nupcial, mais precisamente o momento em que Joaquim Emanuel, a quem o imperador chamava carinhosamente de Manu, tentava romper a resistência da linda esposa, a quem, por sua vez, repugnava a aparência horrível do duque – homem quarenta anos mais idoso que ela, calvo, tendo a pele do rosto perfurada pela bexiga que quase o matara na infância e cujo dorso ostentava a deformação de uma corcunda que o impedia de se postar erectamente.

“Hasta cuando?”, repetiu a jovem, agora recostada na cabeceira da cama, acomodada por dois macios travesseiros de pena de ganso. Foi nesse exato momento que uma rajada mais forte de vento, ao mesmo tempo em que trazia para o interior do quarto o aroma de todas as flores e não apenas das rosas, soprou sobre o colo de Maria Isaura uma pequena joaninha, espécie de escaravelho muito comum, não apenas no jardim da mansão, como também em toda a região setentrional onde ficava a semi-selvagem propriedade da família Cavalcanti, propriedade aliás herdada de ancestrais chegados ao Brasil juntamente com a corte de Dom João 6º, igualmente fugidos da volúpia imperialista de Napoleão Bonaparte.

Ao perceber que as costas da pintalgada joaninha, ainda que mal comparando, se assemelhavam à repugnante corcunda do duque Joaquim Emanuel Aguirre, personagem fictícia mas absolutamente real quando aparecia em seus repetidos sonhos, Maria Isaura foi acometida de súbito infarto do miocárdio, doença incomum em pessoas da sua idade e sem antecedentes do mal em membros da família, vindo a falecer ali mesmo, onde seu corpo jovem estava recostado sobre macios travesseiros de pena de ganso, agora com os olhos azuis extasiados, imóveis, indelevelmente marcados por olheiras próprias de quem havia passado uma ou mais noites mal dormidas.

Fim.


-- Erazê Martinho



Queridos leitores, que tal? Pensam que acabou? Não, amanhã publicaremos os dois melhores contos que a comissão julgadora encontrou entre os concorrentes, e que por isso receberam a Menção Desonrosa. Depois eu juro que acaba. Precisaremos de uma lavagem cerebral?

11.12.03

Concurso "Piores Contos"-- O Resultado (cont.)


3º) lugar

O Pior Conto Brasileiro


Ele pigarreou, alisou o bigodinho fino, cruzou as pernas e tapou o nariz com o lenço bordado. Não gostava de viver misturado àquela ralé, aquilo podia ser contagioso. Um amontoado de gente promíscua, suja, crianças cheias de ranho, vermes, e aquelas balas passando, as facas na parede, gente gritando, beijos indecentes… Vinha de uma estirpe nobre, da biblioteca do gabinete da família Real. Pertencia ao mais antigo compêndio de contos do país. Era da época em que se escrevia com penas de pássaros criados em gaiolas douradas. Por muitos anos, passara por mãos sedosas, cheirando a perfume francês ou fora acariciado por luvas de pelica. O requinte era seu lema. Não abria mão das boas letras. Nunca!

E agora, ninguém mais reconhecia seu talento. O mundo estava um caos. Havia sido inundado por aquela escrita violenta, rasteira, que tinha a ousadia de se denominar literatura. Aquilo lhe fazia mal. Sentia tonturas, náusea, mas precisava se recompor. Tomava diariamente pílulas de aliterações e fazia mergulhos nas obras imortais para continuar sobrevivendo. Retocava a maquiagem três vezes ao dia, mas parecia que ninguém olhava para ele. Sentia-se invisível, anônimo. Não! Que horror! O anonimato era um tabu, o mesmo que ser bastardo. Esse pensamento lhe causou um tremor. Tomou um cálice de vinho do Porto num só gole. Um arroto o sacudiu e foi seguido de um gritinho. O que estava acontecendo com ele? Nunca tivera esse tipo de comportamento. Agora lhe faltava o fecho, o grande final! Saiu correndo pela estação da Central do Brasil e, ao ver um trem se aproximando, se jogou sobre os trilhos cinematograficamente. Fim.

-- Angela Castelo



2º) lugar

Uma Noite Inesquecível


Em 1972, aos 26 anos, fui convidada para lecionar na escola de uma fazenda de cana incrustada no sertão alagoano, na pequena cidade de Nova Primavera. Ao chegar, ainda descarregando as malas da charrete que me conduzira à Casa Grande, como era chamada a sede da fazenda, topei com um homem rude, másculo e que me olhava parecendo não me ver. Na mesma hora, um arrepio úmido tomou conta de mim e desejei ser possuída ali mesmo, em meio aos cavalos e defronte ao canavial.

Tentando ser amável, sorri e pedi-lhe que avisasse a Seu Matias, dono da fazenda, da minha chegada.. "Não sou seu empregado e não recebo ordens de mulheres." Sem esperar resposta, deu-me as costas, montou em seu cavalo e saiu em disparada.

"Vejo que já conheceu meu filho mais velho, Altemir. Não se incomode com ele, apesar de seus modos broncos, é um bom moço." Era Matias, apertando gentilmente minhas mãos, e dando-me as boas-vindas.

O trabalho com as crianças tomava meu dia, mas à noite eu sonhava com aquele homem que me incendiava. Nosso relacionamento não passava de bons-dias secos, ele era frio e formal, até que algumas semanas depois de nosso primeiro encontro, numa noite fria, ouvi passos próximos ao meu chalé. Corri para a porta e Altemir estava lá.

Sôfregos de paixão, nos abraçamos, unindo nossos corpos e senti seu membro rígido de encontro ao tecido fino de minha camisola sexy. Nos beijos, eu sentia seu hálito de tabaco. Seu queixo forte empurrava aquela língua macia pela minha garganta adentro.

Arranquei-lhe a camisa, percorri seu abdome enxuto e, tateando por dentro de seus jeans surrados, encontrei o que tanto desejara. Com um gemido de prazer, ele me possuiu. O amor explodiu em jatos quentes e eu o cavalguei como uma amazona desvairada. Naquele momento, desejei morrer nos braços do homem que me penetrava.

Amanheceu e, perdidos em carícias, não nos demos conta de que era a hora da fazenda acordar quando batidas na porta acabaram com nosso torpor. Era Seu Matias que vinha verificar o porquê de minha ausência no desjejum da Casa Grande. Surpreso em nos ver, e sem imaginar que seu filho fosse capaz de copular com a mulher pela qual ele também se apaixonara, levou a mão ao peito e desabou no chão vitimado por um infarto fulminante.

Culpando-me pela morte do pai, Altemir mandou-me embora da fazenda e de sua vida. Voltei à cidade grande e, hoje em dia, escrevo poemas para extravasar minha dor, mas ainda trago esperanças de reencontrar o meu rústico amor.

-- Pyra Olímpica



Não percam amanhã a publicação dos contos vencedores que conseguiram merecidamente o primeiro lugar e a menção honrosa. Indiscutíveis. Ai, já estou ficando meio zureta, é impressão minha? Estes contos são uma tortura. O pessoal exagerou...


10.12.03

Concurso "Piores Contos" -- O Resultado (cont.)


6º) lugar

Proseabundo

-- Sabe aquele cara?
-- Que cara?
-- Aquele que ouvia música clássica, que é um tipo de
arte erudita, que é o que revela erudição, que é uma
instrução superior, vasta e variada, que é ampla,
diversa, que lembra diversão, que anda sempre ligada a
parque, que tem montanha-russa e carrossel, que foi
nome de novela, que é muito popular no Brasil, que foi
colonizado por portugueses, que são ótimos personagens
de piada, que é um tipo de narrativa humorística, que
é relativa a humor, que tem gente que tem e tem gente
que não, que pode ser advérbio e também substantivo,
do qual existem abstratos e concretos, que também é
nome de material de construção, algumas das quais
habitadas, para o que se precisa de um habite-se, que
é um tipo de documento, que também é um nome para
pinto, que é o filhote da galinha, que é o que são
certos tipos de moça, que se usa para designar certo
tipo de mulher, que sangra uma vez por mês, que é um
período quase igual ao ciclo da lua, que é redonda e
não é feita de queijo, alguns dos quais precisam de
mofo, que é um fungo, alguns dos quais são chamados
chapéu-de-sapo, que vive no brejo, que um dia pode ter
sido uma lagoa, que nas margens pode ter uma capivara,
que é o maior roedor do mundo, que é um nome pra
terra, que é o nosso planeta, cuja superfície é
coberta de água, que evapora quando está quente,
característica do verão, uma das quatro estações, não
aquela onde pára o trem, que um dia foi maria-fumaça,
que sai do cigarro, que é composto em 70% de impostos,
que são cobrados dos cidadãos, que vivem em nossa
sociedade...
-- Sei, Sei. Agora lembrei quem é. O que tem ele?
-- Morreu.

-- Letra Morta



5º) lugar

No Coletivo

Eu sabia que conhecia aquele homem de algum lugar. Meu Deus, essa cabeça esteve em outro pescoço, mas em qual? Ele tinha uma mania de mexer no cantinho das unhas com a ponta da chave que era tão familiar... Será que é o homem da lavanderia? Ele era bonito, não era muito do meu tipo, mas tinha um certo charme e até que eu gostei de ficar olhando. Engraçado, ele parece com Tio Felipe. Tio Felipe era tão engraçado. O tipo de roupa que ele vestia não dizia muita coisa: calça jeans, camisa de botão e uns tênis velhos, mas limpos. Quem é esse homem, caramba? Dei o sinal e ele desceu junto, fiquei até com medo, mas ele nem me notou. Será que ele também gostou de mim? Nossa, ele anda tão elástico, parece o gato da Márcia. Eu bem que gostei daquilo e comecei a mexer no cabelo e a olhar discretamente por cima do ombro. Ah, agora ele me notou. Com o antebraço, dei uma levantada nos peitos e empinei a bunda um pouquinho. Mas um pouquinho só, que era para não dar na pinta. Menina, que homem é esse? Entrei na banca de jornal e ele passou reto. Confesso que me decepcionei, esperava que ele parasse e fizesse alguma coisa, sei lá, tipo perguntar onde ficava a Rua Uruguaiana, comprar um jornal. Continuei andando e vi que ele saía de trás do camelô das balas. Então ele veio na minha direção remexendo no cantinho da unha, mas agora ele fazia com a outra mão, não usava a chave não. Nossa, que mão bonita. Deve fazer tudo bem direitinho. Não pude deixar de dar um sorrisinho e ele correspondeu. Epa, ele tá me notando! Daí ele chegou bem perto de mim e disse: Carla? Nessa hora fiquei com medo mesmo, mas pensei se ele também não achava que me conhecia, as pessoas dizem que eu tenho cara de Carla. Não, eu sou Lúcia. Ele então veio pegando nas minhas mãos e eu tremi na base, ah, tremi mesmo! Estava sem transar há tanto tempo e a idéia de um desconhecido era bem interessante. Carla é sua prima, né? Estranho, ele parecia um bruxo, mas estava tão tranquilo e ao mesmo tempo ansioso, parecia que guardava alguma coisa. Menina, nem te conto das coisas que eu pensei em fazer com ele. Tudo bem que não gosto de coroa, mas aquele tinha uma cara honesta, uma cara limpa. Eu tenho uma tia que é Carla. Mas por quê? Você me conhece? Lúcia, eu sou seu pai. Porra, eu pensando que ia trepar e o babaca dizendo que era aquele meu pai que sumiu quando eu nasci. Pode?

-- Márcia Soares


4º) lugar

Marimbondos de Porre ou Abelhas de Fogo, Tanto Faz

Pensamentos velhos voando enxergam lá embaixo o velho Marimba de perna engessada. Briga de bar. Marimba velho enxerga lá embaixo duas abelhas (ou seriam marimbondos?, não vejo direito) na calçada. Briga? Estarão de fogo? Sexo? Jogos de guerra?
Deus enxerga tudo lá de cima e boceja. "Estou de ressaca", pensa. "Vou colocar fogo nessas brigas barulhentas". E, movendo o enorme dedo mindinho, explode a bomba. Tal como Sodoma e Gomorra. Depois do barulhão, a calmaria. Deus tá aliviado: "Eu me ajudo porque cedo madrugo", pensou. E dormiu mais um pouquinho.

-- Sarna Maria

9.12.03

Concurso "Piores Contos Brasileiros" - O Resultado (cont.)


8º) lugar

Vitória

Ela achava que podia ser tudo, coitada. Tantos talentos, cabecinha genial. Não conhecia ninguém importante, também não participava da panelinha dos desimportantes. Mesmo se o telefone não tocasse, ela se distraía com a televisão. E se traía também. O tempo parece ser muito devagar para quem não faz nada. Em que mês estava mesmo? Já conseguia encontrar esboços de futuras profundas rugas em seu rosto. Nenhum livro seu foi vendido, nem mesmo editado. Ninguém foi aos seus shows, suas músicas não agradaram. Se pelo menos tivesse colegas para lhe mentir um elogio... Seus desenhos mantiveram-se inéditos. Seu teatro diário não tinha público. Ela dançava, sempre.
Era muito bem informada, sabia de tudo o que acontecia, apesar de nada ter presenciado. Em casa era mais confortável. Não precisava se arrumar, nem tomar banho, nem correr o risco de escutar o que não queria. Pra que correr atrás de novas frustrações se as cotidianas já lhe bastavam? Nada ambiciosa aquela moça. Com uma camiseta furada e um short largo e velho ela imaginava seus dias de glória. Viriam sim, com certeza. Ficava dias sem comer. Depois entupia-se com o que via pela frente e vomitava. O ritual do vômito era seu momento de reflexão. Os piores e os melhores momentos passavam por sua cabeça enquanto jorros de comida triturada e bílis mergulhavam na privada. Uma mistura de alívio e penitência. Era até divertido. Ela não fumava porque era demodê. Precisava preservar sua saúde para quando fosse requisitada pelo sucesso. Mas bebia. Só fortes e eficientes destilados. Cerveja é coisa de desocupado. Vinho lhe dava ânsias insuportáveis, afinal, não gostava de fazer nada obrigada. Fazia planos fantásticos pro futuro que fora ontem. De vez em quando, saía pra comprar roupas, todas guardadas no armário. Era preciso estar precavida, caso ocorresse um chamado. Os raros trinados do telefone ela ouvia calada, como se alguém a espreitasse. Escondia-se debaixo das cobertas até desistirem. Também saía para comprar vodka e alimentos. Sempre à noite, de cabelo preso e trajes simples para que não a notassem. Afinal, era uma estrela e tinha consciência de seu brilho descomunal. Isto era um grande incômodo e acabou por adotar os serviços de entrega em domicílio. Variava as lojas para evitar que o mesmo entregador a visse mais de uma vez. Amava a sua privacidade e tinha uma potente luneta para espionar a vida dos incautos vizinhos. Elaborava teorias a respeito de suas rotinas e os criticava a todos. Uma gente muito sem-graça aquela. Arrumou no mesmo cômodo tudo o que precisava: sua cama, sua televisão, seu instrumento de observação alheia, frigobar, forno elétrico e seu altar sagrado -- o vaso sanitário, escorredouro de seus dons. Tinha também um latão de lixo amarrado a uma corda que, quando cheio, ela descia pela janela para que o porteiro o esvaziasse. Aos poucos sua pele começou a descamar, quiçá pela falta de sol. Feridas foram surgindo. Delas, com o tempo, saíram ramificações, como que brotos de tamanha singularidade. Ou como trapos de tamanha decrepitude. Já não lia nem escrevia. Seu querido piano estava empoeirado e as músicas guardadas num baú bem trancado, um tesouro. Sua voz falhava por falta de uso. Os brotos-trapos cresciam tanto que começaram a pesar. E como que seguindo seu caminho natural foram se aderindo ao chão e às paredes, limitando progressivamente seus movimentos. Mas ela se adaptava muito bem às novas situações e ficou lá pacientemente parada esperando o dia em que seus dotes seriam reconhecidos e sua vida se transformaria naquele sonho tão real.

-- Renata Finaendor


7º) lugar

Fuga Desesperada dos Vales Verdes que Nunca Chegam aos Neuróticos do Coração

Ele estava decidido. Não havia mais nada a fazer para impedi-lo de sofrer. Foi até cozinha, aproveitando que seu pai havia viajado, puxou da gaveta cor de madeira a velha faca "cabo-de-osso" da época de sua mãe. Colocou-a sobre a pia. Tirou a camiseta mostrando o fraco corpo de derrotado e sofredor. Dobrou-a com todo o cuidado e colocou-a sobre o microondas. Pegou a faca, ergueu a cabeça e engoliu seco. Abriu bem os olhos, encostou a ponta congelante e assustadora abaixo do peito, engoliu seco mais um vez e ainda mais uma e então, com a força de quem sofre mais do que os esfomeados, os torturados, os culpados, as vítimas, aplicou-se um golpe certeiro. Não, engana-se quem pensava que mataria-se. Remexendo a faca em suas entranhas, utilizando o cabo como alavanca, começou a remexer veias, artérias e empurrou seu coração para fora. Expulsou-o. Condenou-o. Ao vê-lo ali, exposto ao gelado metal da pia mas ainda a ele ligado por veias e traumas, começou a chorar, sinal de que ele ainda o influenciava. Trocou a faca de mão e apanhou com vontade o coração apertado e rubro que chorava a perda de um romântico. Então arrancou-o do corpo e o jogou abaixo da torneira na pia. Com uma pequena agulha e uma linha, também da época de sua mãe, costurou seu corpo. Pontos bem feitos, racionais. Limpou-se com a água da pia deixando os pingos atingirem o velho coração esquecido. Então secou-se, colocou novamente a camiseta minuciosamente bem exposta sobre o corpo e saiu a caminhar com passos medidos, exatos. Pelo resto de sua vida não foi feliz, não foi triste. Apenas foi. Mas foi. E é.

-- Gabriel Silveira

8.12.03

Grande Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros"- O Resultado


Ufa, até que enfim a Comissão Julgadora chegou a um consenso e decidiu pelo resultado deste magnânimo concurso. Horas intermináveis de discussão, os contos foram lidos, relidos, analisados, vasculhados, linha por linha, letra por letra, sob as mais diversas óticas de teorias literárias diferentes, auto-referentes, comparadas, enfim, tudo foi esmiuçado para chegarmos à conclusão de que o conto vencedor é sem dúvida o mais podre que esta comissão já leu em sua longa carreira nos bastidores da Academia. Senhoras e senhores, o conto vencedor do nosso grande concurso literário "Piores Contos Brasileiros" foi


1º) "Minha História", de Maricleide de Jesus


que, infelizmente, para o pesar do mundo das letras pátrias, prefere permanecer no anonimato. Vocês nunca saberão de quem se trata, só eu sei, claro, pois a mim ela revelou sua identidade, e minha boca é um túmulo! Só posso lhes garantir que é blogueira, coitada. Passemos então aos outros classificados, não menos importantes, que deliciaram esta comissão com sua originalidade.

2º) "Uma Noite Inesquecível", de Pyra Olímpica (muito meiga)

3°) "O Pior Conto Brasileiro", de Angela Castelo (título persuasivo, mas a comissão estava atenta)

4º) "Marimbondos de Porre ou Abelhas de Fogo, Tanto Faz", de Sarna Maria (um esmero bíblico)

5°) "No Coletivo", de Márcia Soares (uma dama do lotação pós-moderna)

6º) "Proseabundo", do Letra Morta (muito instrutivo)

7º) "Fuga Desesperada dos Vales Verdes que Nunca Chegam aos Neuróticos do Coração", de Gabriel Silveira (densa psicopatologia)

8º) "Vitória", de Renata Finaendor (nossa Jane Austen tupiniquim)

9º) "Quando o Sr. Carmela Saiu de Férias", de Daniel Guimarães (o melhor título)

10º) "O Pior Homem do Mundo", de Miranda Neto (um outsider)



E a nossa Menção Honrosa foi para o conto:

-- "Hasta Cuando, Diós Mio, Hasta Cuando?", de Erazê Martinho. (Uma verdadeira aula. Precisamos aprender com ele, pessoal.)


Bem, concurso que se preza tem que ter impasse, tem que ter empate, para levantar polêmica. Apesar do aviso na porta "Piores Contos", alguns desavisados enviaram contos bons, quer dizer, seria injustiça para com os outros e para com eles mesmos, pois seriam desclassificados de cara. Por isso, a comissão criou, de última hora, a categoria Menção Desonrosa para resolver o impasse. Só que dois contos mereceram a vitória. Os dois serão publicados também. São eles:

-- "Ecos de Uma Noite", de Incitatus de Preto (nosso Jim Morrison da Consolação)

-- "Tomorrow Will Be Different", de Gabriel Pagnano (escrevendo neste estilo logo será um best-seller nas "indie").


É isso, amigos. Espero que tenham gostado da brincadeira. Os vencedores Maricleide de Jesus e Erazê Martinho logo estarão recebendo em casa os prêmios prometidos. Agradeço a todos pela força. A partir de hoje começo a publicar os contos vitoriosos. Não todos de uma vez, porque cansará nossas meninges. Gozemos aos pouquinhos.

10º lugar

O Pior Homem do Mundo


Não há mais dançarinos no salão, mas a música insiste em soar. No chão opaco, apenas os restos do festim, corpos empilhados após a chacina. O nada. Onipresente, pisca zombeteiro. Nos amigos e nos desconhecidos, nos botecos e nos restaurantes chiques que não freqüento, no meu trabalho e na minha vagabundagem.
Todos continuam a se mover, bonecos em quem uma mão invisível e decrépita deu corda demais. Continuam a falar, sorrir, gritar, assobiar, cantar e a chacoalhar suas bundas para um lado e para o outro, soltando peidos fedorentos que aspiram com prazer. Tentam soar profundos em suas preocupações minúsculas. Têm tanto medo quanto eu. Eles também percebem a merda avançando, mas fingem que tudo vai bem. Como se adiantasse alguma coisa.
Precisamos nos iludir. Precisamos beber e foder. Precisamos não pensar e seguir em frente, em fila indiana, derramando futilmente nosso sangue, consumindo nossos corpos na fogueira bizarra que jamais afastará o medonho fantasma que habita a escuridão total da caverna.
Um grito estilhaçou a noite. Logo, tudo voltou ao mesmo lugar. As mil luzes azuladas piscando frenéticas em sincronia demoníaca nas janelas.
Tânia me olha e sei que está desesperada. Espera que eu vá até ela, a abrace, encoste sua cabeça em meu peito, alise seus cabelos, seu rosto, seus ombros e braços, enxugue suas lágrimas com minha língua e a conforte, dizendo que não se preocupe, eu ainda estou ali. Ela quer se abandonar em mim. Quer que eu a carregue nos braços e a coloque sobre a cama e a foda como na primeira vez. Tânia está imóvel sobre o sofá, com uma revista nas mãos. Tem um rosto bonito. Admiro a estrutura óssea de sua cabeça. Tem algo de nobre.
Não encontro nada para lhe dizer. Vou até a geladeira e pego a última das cervejas escondidas. Acabo com ela rapidamente, em poucos e grandes goles. Arroto. Tânia faz uma careta. Gargalhada histérica. De repente, pálida, joga a revista para o alto e corre para o quarto. Escuto seus soluços. Preciso mijar. No caminho para o banheiro dou uma espiada nela. Não se deu sequer ao trabalho de usar a cama. Está no chão, contorcendo-se em cólicas. Diante do vaso, vomito tudo que me vai na barriga. Putos safados! Assistam à minha derrocada, saboreiem meus piores momentos. É só o que lhes resta, canalhas. Eu não dou a mínima.

-- Miranda Neto


9º lugar

Quando o Sr. Carmela Saiu de Férias


Retornando do trabalho, mala e paletó a cargo do braço esquerdo. O braço direito esticado. Polegar, indicador e médio da mão desse braço abraçando a chave, responsável pela porta do apartamento entreaberta. Tarde da noite, não haveria mesmo problema com aquele silêncio todo, exceto talvez algum assassino shinobi que, havendo passado janela adentro, poucos minutos antes de sua chegada, poderia estar aguardando que a vítima indefesa entrasse assobiando no apartamento, para degolá-la.
Absurdo aquilo. Esboçou um sorriso paranóico. Permaneceu no mesmo lugar, na mesma posição, com um misto de medo e autopiedade, por ser louco de pensar na hipótese. Afinal, mais provável seria que, imediatamente após a porta, houvesse uma finíssima linha à altura de seus tornozelos que, ao mais leve toque, faria descer do teto uma lâmina afiadíssima, capaz de parti-lo ao meio.
Olhou para o chão. Ora, mas veja só! Que diabos! Medo do silêncio, medo do escuro, medo do ninja, quando podia ser que, exatamente como havia ocorrido com seu vizinho há seis meses atrás, pudesse passar-lhe correndo pelas costas uma mulher ensandecida, loura e com somente um dos pés calçados, nua e que, gritando, seria capaz de mata-lo de susto! Olhou rápido para trás. Alívio. A loura semidescalça não estava lá, e as luzes do corredor ainda permaneceriam acesas, embora restasse pouco tempo, já que eram automáticas, acendendo-se somente quando alguém passava.
Riu-se. Mas onde é que a imaginação pode levar um homem, meu Deus? Tudo aquilo o fez lembrar, quase que automaticamente, de um filme aterrorizante em que quase todas as personagens eram assassinadas, mas não sem antes receberem um pequeno canudo plástico de presente. Sobressaltado, procurou canudos dentro da mala, dentro dos bolsos. Nada. Ufa!
E foi então que aconteceu o pior: as luzes do corredor, uma a uma, vieram-se apagando, impiedosamente, a despeito de qualquer oração ou súplica que pudesse fazer durante aquela aterrorizante fração de segundo. De um salto, entrou no apartamento e bateu a porta. Escuro. Atirou-se ao chão para proteger-se da lâmina que já deveria estar vindo ao encontro de sua caixa craniana, por causa da cordinha finíssima tocada por seus pés, ao entrar bruscamente no apartamento.
Quanto absurdo! Esfregou as mãos na cabeça, chorou. Estava enlouquecendo, era certo. De onde vinha tudo aquilo? Que idéias malucas eram aquelas? Precisava de descanso. De férias. Pediu-as ao patrão no dia seguinte, que não hesitou em concedê-las, funcionário exemplar que era o veterano Sr. Carmela.
Quando o avião já decolava, uma aeromoça de traços orientais, com cabelos pintados de loiro, veio oferecer-lhe bebida e petiscos, como havia feito com todos os outros passageiros. Mas, por infelicidade do destino, e por ordem da companhia aérea, trajava sapatos de cores diferentes e um avental estampado com figuras características do Japão feudal. E foi então que o Sr. Carmela, num acesso de desespero, puxou o canudo que estava sobre a bandeja e o enfiou no ouvido da mulher, rindo-se, maquiavelicamente, dos espasmos que a pobre profissional sofria, aos estertores da morte. Quando ela parou de estrebuchar, ele gritou, com os braços para o alto:

-- Canudo é o caralho!


-- Daniel Guimarães



Amanhã mais piores contos publicados aqui. Não percam.


7.12.03

Isto é que tu me saiste uma melga, pá! Mas que cambada! É porque sim, é porque não, é porque não está aqui, é porque afinal fica, é porque tem companhia, é porque não gosta, é porque...apre! Não percebes nada disto miúda, mas ainda és novita, quando fores uma senhora respeitável como eu, que diz foda-se e di-lo bem alto na rua se for preciso e não deixa de ser uma lady, como acham certas coninhas himenadas e se lhe apetece ter mais alguém em casa, tem e não tem que dar satisfações a ninguém, mas dá porque gosta muito de ti e olha que não dava a mais ninguém! Mas este blog é para dar na corneta e não me peçam a opinião senão eu dou mesmo e vai tudo a eito, sairem-me da frente, e vós, cuscos, que estais aqui a cheirar, hein? Isto é um post absolutamente personalizado para uma senhora que vale alguns mil de vós e das poucas que eu me orgulho de ser amiga, mesmo que nunca lhe tenha posto a vista em cima! Até saio do meu retiro higiénico por momentos, mas volto já para a clandestinidade, que isto de andar aqui com ranhosos é a desgraceira, isto é que dá cabo da reputação de uma senhora, ser vista com criaturas de sanidade mental duvidosa, sempre agarrados ao pc, sempre na net, sempre a postar, sempre a cuscar, aposto que neste momento estão alguns vinte caramelos de 90 quilos para cima, mau hálito e sovaco avinagrado, sem vida social nenhuma, aqui pendurados a ler isto, anda mas é embora, Maria, que isto não é sítio para nós! E vós, carrada de fuçangas, RUA DO MEU BLOG, ouvisteis seus infelizes que não têm onde cair mortos senão neste bidé blogsférico, quem sois vós, uns anónimos na vida real...é triste, isto...

-- 100vergonha, blog português extinto.

5.12.03

Os Dez Mais dos "Piores Contos Brasileiros"


Finalistas:


-- "Fuga Desesperada dos Vales Verdes que Nunca Chegam aos Neuróticos do Coração"
Gabriel Silveira

-- "Marimbondos de Porre ou Abelhas de Fogo, Tanto Faz"
Sarna Maria

-- "Minha História"
Maricleide de Jesus

-- "No Coletivo"
Márcia Soares

-- "O Pior Conto Brasileiro"
Angela Castelo

-- "O Pior Homem do Mundo"
Miranda Neto

-- "Proseabundo"
Letra Morta

-- "Quando o Sr. Carmela Saiu de Férias"
Daniel Guimarães

-- "Uma Noite Inesquecível"
Pyra Olímpica

-- "Vitória"
Renata Finaendor


Aí estão finalmente, amigos. A tarefa não foi fácil. Muitos bons candidatos ficaram de fora, mas o que fazer? No entanto, não perca as esperanças se o seu conto não se encontra nesta lista, pois a Comissão Julgadora concederá também os prêmios Menção Honrosa para o pior conto e Menção Desonrosa, para o melhor conto -- sim, porque apareceram contos verdadeiramente bons, de candidatos que provavelmente não entenderam a proposta ou não se esforçaram o suficiente. Também serão publicados aqui. Então é isso, dia 8 veremos a classificação final e os vencedores. Até lá.

3.12.03

António Lobo Antunes

Não entendo por que motivo, querida, nunca te interessaste pela minha infância: sempre que falo de mim encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo louro, de modo que acabo por me calar, envergonhado, a colocar os copos, os pratos e os talheres na mesa do almoço, enquanto a tua tia tosse na despensa e o teu pai roda os botões do televisor em busca das estridências da novela. E, todavia, Iolanda, logo que adormeces, mal o teu rosto, amolgado na almofada, readquire a inocência do presépio de outrora, tal como te vi, pela primeira vez, na pastelaria à esquina do Liceu, quando os teus dedos sujos de tinta e os teus cadernos escolares me comoveram de uma alegria sem sentido,
logo que adormeces e uma brancura de olmo com pássaros nos atravessa o quarto, arengo sem que me troces, converso, pairando sobre ti, com as tuas palmas inertes e as tuas coxas indefesas, e a casa onde morei antes da família da minha mãe surge da noite, nascida de uma imperfeição do espelho ou da gaveta da cômoda em que a nossa roupa se mistura com ninhos de traças e maçanetas de cobre, desde que há meses me ordenaste Vem e eu me apresentei, com o guarda-chuva e duas malas gastas, neste andarzinho da Quinta do Jacinto, em Alcântara, para explicar que sim, que tinha mais trinta e um anos do que tu mas o emprego do Estado, Senhor Oliveira, não é mau de todo, e claro que pagaria a eletricidade, a renda e a despesa do talho.


-- Em "A Ordem Natural das Coisas", 1992.

1.12.03

"Piores Contos Brasileiros": reta final



Inscrições encerradas. Isso mesmo, amigos, o nosso Grande Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros" está chegando ao fim. Dia 5 (sexta-feira) publicaremos a lista com os 10 finalistas. Dia 8 (segunda) o tão esperado resultado! e a seguir, como prometemos, a publicação dos finalistas. Agradeço a todos os candidatos que participaram enviando suas obras (mais de 77 contos inscritos!, um fenômeno), e aos leitores e blogs que apoiaram a iniciativa sem restrições. Grande abraço a todos e não percam no dia 5 a lista dos finalistas. Você pode estar lá!



Al Berto

Vigílias


pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa

deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim

agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magníficas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas

onde desenvolve o calmo vôo lunar

enumero cuidadosamente os objetos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa

então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.


-- Al Berto

28.11.03

Alexandre O'Neill

Poema pouco original do medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

-

26.11.03

Lin Hsin Hsin

Phone-Mail


this is the phone-mail system
the party you have just called at extension 1272 is not available
you can either leave a message or transfer out of phone-mail
to leave a message, begin speaking at the tone
to transfer out of phone-mail, press zero
peee
... begin speaking at the tone
to transfer out of mail, press zero
This is ibm, good morning
Mr Lum's secretary please
one moment please

this is Karol, I am sorry I am not at my desk now
please leave a message after you hear the beep tone
if you have something urgent
please call Xiang Hoon at extension 1542
thank you

pu-pu, pu-pu, pu-pu
Hi! this is Xiang Hoon's desk, I am afraid I am not in now
please leave a message after you hear the beep tone
for urgent matters
you can contact either Ilaine at 1632
or Karol at 1273
thanks for calling

pu-pu, pu-pu, pu-pu
Hi! this is Ilaine, I am afraid I am not available
please leave a message after you hear the beep tone
for urgent matters
please call Karol at 1273
or Xiang Hoon at 1542
have a nice day, bye now

-

25.11.03

Heriberto Yépez


Tarde. Pôr-do-sol.


Na frente do cybercafé, o arco do milênio aparece refletido nas janelas do segundo e terceiro andares do dentista Lincoln. Estou aguardando uma máquina para poder escrever. Fumo um cigarro na calçada. Não é certo. São apenas palavras. Não acredite nelas. Aconteceu outro dia. Se você acredita. Mas não agora.


"Os escritores ruins revelam o ofício de escrever, porque neles tudo é grotesco, descarado. Eles deixam transparecer aquilo que os bons autores souberam ocultar e sublimar com muita eficiência. Um escritor ruim põe em evidência todos os outros escritores porque, ao abortar a escrita, deixa os segredos desta à vista de todos."


-

23.11.03


I like to have a martini,
Two at the very most.
After three I'm under the table,
After four I'm under my host.


-- Dorothy Parker

... e estamos conversados


Democracia é quando eu mando em você.
Ditadura é quando você manda em mim.


-- Millôr

22.11.03

Dorothy Parker



Résumé


Razors pain you
Rivers are damp
Acid stain you
And drugs cause cramp
Guns aren't lawful
Nooses give
Gas smells awful
You might as well live

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21.11.03

Dias de Dona Beja



Como costumo fazer toda semana, esta manhã fui até o Correio verificar a minha caixa postal. Até aí nada demais, vocês diriam. Porém minha história começa quando, ao me apoiar sobre o balcão do posto, distraída, dei de cara com um exemplar do jornal "Correio de Araxá" meio que jogado de lado. Aparentemente fora esquecido ou descartado. Até aqui nada demais também, não fosse o jornal estar endereçado ao "Professor Leonardo Boff". Minha curiosidade pipocou. Eu já sabia que o sr. Boff era meu vizinho, inclusive já o vi inúmeras vezes no mesmo posto dos Correios. Obviamente ele não me cumprimenta porque não me conhece. Motivo suficiente para despertar minha curiosidade adormecida em relação ao tipo de leitura que o meigo frei costuma descartar. O exemplar em questão datava de 8 de novembro e exibia 3 cadernos: o primeiro, mais volumoso; um outro denominado "Caderno Mulher Feminino", e, por último, o "Correio Literário". Não vou me deter aqui comentando o XXIX Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, a Expomilk 2003, o Bailão do Cowboy, ou o lançamento da primeira água de coco em pó do mundo, matérias de capa do citado hebdomadário araxaense, por julgar que não são temas de interesse direto de meus leitores. (Ou são?) E assim passo à parte mais curiosa de minha narrativa, o caderno literário em si. São 6 páginas exibindo poetas locais, o resultado de um Torneio de Xadrez (?), uma crônica assinada por Irmã Domitila, uma lista de best-sellers! locais (cujo campeão de vendas absoluto é o sr. Nuno Cobra, com o livro "Semente da Vitória") e, pasmem, um artigo do próprio teólogo Leonardo Boff intitulado "Que é o ser humano". Ora, por que será que o frei jogou fora um jornal do qual é colaborador? É o que me pergunto até agora, quatro horas depois de fazer tal descoberta... No entanto, a minha história não acaba aqui, pelo contrário. A melhor parte vem agora. Após fuçar a ostra, descubro a pérola que fez o meu dia: página 6, coluna "Araã!", assinada por Evandro Affonso Ferreira. Não preciso dizer mais nada e, como eu, tenham um bom dia depois de lê-la até o fim:

"Deuses frígidos desalumiam alma chamejante

Sim Senhor meu Deus sei que estou resvalando em culpa mas difícil saber quem neste Teu vasto mundo não tem telhado de vidro; impossível resistir Seleno aquele trilhando minhas veredas nunca antes palmilhadas; faço mea culpa deste meu ultraje ao pudor; sei que tenho praticado atos contrários à virtude; bacante insensata sim Senhor; que tenho me portado qual mulher de costume fácil feito Jezebel Messalina Dalila; que sou a mais depravada e lúbrica de todas as mulheres; impossível resistir Seleno aquele miraculoso que revivificou meus desejos impuros; sim Senhor meu Deus sei que estou salpicando meu caminho de devassidão lama mácula; sei que estou lançando sombra sobre minha angelitude; mas inútil negar Senhor meu Deus que estou vivendo a estação dos amores dos prazeres dos risos; que meu corpo desde sempre assexo ficou subitamente abrasador; impossível resistir Seleno aquele dadivoso que substancia às lufadas meu apetite depravado; sim senhor meu Deus sei que tirei pudor dos gonzos; que desarranjei meu projeto decoroso; que subverti os princípios basilares do recato; mas inútil negar que ardor fogoso desordenado bonifica minha pele alenta meu humor infunde novos ânimos; impossível resistir Seleno aquele lascivo que desnuda meus caprichos voluptuosos; ah Senhor meu Deus esperei meio século para descobrir minha capacidade de exalar encanto e sedução; foram cinqüenta anos anódinos frígidos insípidos; renasci.
Bom dia senhor Títio...sim manhã lindíssima sol esbanjando clareza...como sempre todos os dias logo cedo primeira coisa igreja...murmurando minhas preces ao som de hinos ambrosianos de louvor...entoando litanias diante Daquele-que-falou-e-o-mundo-passou-a-existir...sim sei, o senhor sempre diz isso, que Deus, sendo perfeito, não carecia de nada, logo não tinha por que digamos criar o mundo; mas meus pais ambos certamente no Céu me ensinaram na flor da idade a não abrir mão do archote da fé; sim verdade férias terminando...semana que vem Tribunal de Contas novamente.
O sexto círculo do Inferno dantesco está assim de Títios.
Parece crime de leso-bom senso...sol sobrando lá fora eu aqui hum gostoso ficar assim deitada nua pensando nele Seleno lambendo meu corpo todo feito fazem agora raios infravermelhos.
Nunca vou entender Lisístrata aquela que comandou as mulheres de Atenas numa greve de sexo.
Sim querida calcinha rendada, branca, toda branca para contrastar com minha pele bronzeada.
Hum será que ele Seleno vai gostar deste perfume cheirando a algália...acho que não...hum...jasmim também não...hummm sândalo... vou levar este.
(continua na próxima edição)"
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20.11.03

Era uma vez uma carta que não tinha nada de mais.
Era apenas uma folha, pequena e branca,
mas não era assim que Ivaníssia a via.
Para ela, uma folha em branco era
uma janela para um outro mundo,
nela poderia escrever o que quisesse
e ser então pássaro ou baleia, seta ou perífrase,
incandescência, brilho, amizade, paixão ou mesmo amor.

No esforço que ali se coadunava
com a mais erudita imaginação,
Ivaníssia culminou num tremendo gemido
que se viu transcender com um "sploft" suave
e um friozinho molhado na base da espinha.

Atravessou uma última vez a carta em branco
com o seu doce e agora sereno olhar,
amarrotou-a um pouco, puxou o autoclismo e limpou o rabo.


-- Filipe Goulão, em Luzes Azuis

18.11.03

Boris Vian

Tudo foi dito cem vezes


Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba

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17.11.03

Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas
Guidons enferrujados na chuva
Devia haver um orfanato
Para essas coisas que ninguém mais quer
Setembro me lembra julho
É tempo de dizer adeus
Se o verão passou o meu amor permanece
Velhas bicicletas quebradas na chuva

Bicicletas quebradas, não digam nada aos meus pais
Com todas aquelas cartas enfiadas nos raios
Espalhadas como esqueletos sobre a grama
Rodas que não giram sem a outra metade
As estações passam a correr
E eu que me esqueço todas as vezes
Mas as coisas que me deste ficarão para sempre
Mesmo quebradas nunca as jogarei fora.


-- Tom Waits, "Bicicletas Quebradas".

14.11.03

Sentada na areia. Eu tive medo. Meu pai estava lá em cima. Túnel Dois Irmãos. Atlântica. Não, eu não estou bem na foto. Não acredite em nada do que escrevo quando digo que meu pai estava lá em cima e nossas janelas não se preocupavam com detalhes. Os barcos entravam na baía do Leme. Meus olhos acompanhando os pedaços, minha mãe batia os bifes. Só de mim outros carnavais. Marina hoje perdeu a voz e eu paro na barraca de coca-cola. Peço uma cerveja. Há um Copacabana Palace em que não entro. Estou sozinha. Seguro um coco. Escuto mal. Meu pai não vê mais ninguém. Para ele tá tudo assim, diferente de um soco. Está tudo do lado atlântico. E nós na foto.

13.11.03

Despreocupada e leve, ocupei-me da vida alheia e o tempo voou. O mundo para mim era jovem, grande e gordo. O verão sempre acabava voltando e punha-se a administrar a vida de todos. Minha casa tinha pouca luz, mas as bochechas rosadas de minha irmã a tudo iluminavam. Razão suficiente para instalar-me num mau humor profundo. Segui o curso da corrente de ar e dei com meu pai parado ao pé da escada. Olhos esbugalhados, provavelmente bêbados. Escrever acerca deles exigiria um tratamento profissional. Olhos esbugalhados excluem tudo o que não seja o esbugalho, se é que me faço entender. Tenho muita preguiça e algumas dificuldades. Uma vez um cabotino me perguntou: "Você consegue conceber a totalidade de um momento?" Engasguei com a metade de um travesseirinho de ravióli. "Francamente, isso não é assunto para o momento do jantar", repliquei. Ocorreu-me na hora que minha avó dera a mesma resposta ao ser indagada em quanto aumentaria o salário da empregada. Nossa combinação genética me parecia impossível até então. Ando obcecada por limpeza. Vasculho paredes do teto ao rodapé, procurando manchas, saliências, traças. Não posso negar que me sinto um pouco esquisita esta tarde. Há algo de calculado na minha tristeza. Algo prematuramente criado para não causar surpresa. Sempre que me sinto assim desço correndo para as ruas e me misturo com os camelôs. As aglomerações são gigantescas línguas de humanidade, ou nos excitam ou dão nojo. O que perco em arriscar? Um Jesus rabugento perambula pelos corredores. Eu vi. Em torno de sua beleza lenta um festejo de criados. Cânticos, sinos de igreja. Gostaria de acordar agora, eu não suportaria toda aquela velha ladainha outra vez. Daqui a dez minutos as mariposas entrarão pela casa e eu descobrirei que é tudo mentira. As mariposas, a casa, a mentira. Tripulante da sala de visitas, o telefone faz fila para atrair os meus ouvidos. As probabilidades de um domingo agradável me cercam feito arame farpado. Estou com 37 anos e a urna com as minhas cinzas começa a ser deslocada.
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12.11.03

Alexandre O'Neill


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.








11.11.03

Paul Verlaine

Gostos imperiais

Assim como Luís XV, não gosto de perfumes.
Só posso suportá-los no justo limite.
Na cama, por favor, nem frascos nem sachês!
Mas ah, que um ar singelo e picante flutue
Ao derredor de um corpo, desde que me excite;
E meu desejo preza e minha ciência aprova
No corpo apetecido, quando se desnuda,
O odor da picardia, o odor da puberdade
E o hálito excelente das belas maduras.
Mais: me fascinam (cala, moral, essa arenga)
Como dizer? Essas exalações secretas
Do sexo e arredores, antes e depois
Do abraço celestial e durante as carícias,
Sejam elas quais forem, devam ou pareçam.
Mais tarde, sonolento, com o olfato lasso,
Saciado de prazer, como os outros sentidos,
Quando meus olhos vão morrendo noutro rosto,
Quase extinto também, lembrança e previsão
Do entrelaçamento das pernas e braços,
Da união dos pés nos lençóis úmidos, vermelhos,
Sobe desse langor de agradável volúpia
Tanta humanidade que dá um certo embaraço
Mas tão bom, tão bom, que dá ganas de comer!
Como é possível desejar, por cima disso,
Uma fragrância estranha, de planta, de besta,
Mudando a percepção, confundindo os sentidos,
Quando disponho, para aumentar a volúpia,
Da quintessência, exatamente, da beleza!

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7.11.03

Laura Riding

William e Daisy: Fragmento de uma novela inacabada


William e Daisy moravam na rua do Cemitério. Não possuíam nenhuma ligação entre si exceto que ambos não se sentiam atraídos pela vida tampouco pela morte; por isso viviam na rua do Cemitério. William era pessimista porque desgostava da vida um pouco mais do que da morte. Daisy era otimista porque desgostava da morte um pouco mais do que da vida. William tinha duas lembranças: uma, que já tivera familiaridade com prostitutas; e a segunda, que já tivera familiaridade com escritores famosos. Estas duas lembranças se confundiam e delas não tirava nenhum sentido. Daisy tinha duas lembranças: uma, que algum dia já fora prostituta; e a segunda, que no seu tempo ela havia conhecido vários escritores famosos. Estas duas lembranças se confundiam e delas não tirava nenhum sentido. Não tiravam nenhum sentido de suas lembranças exceto que ambos se sentiam muito dignos e não queriam acabar seus dias vivendo num casebre. Por isso viviam na rua do Cemitério.

Todas as noites Daisy caminhava pela rua do Cemitério e dizia "Que noite bonita" e passava ao lado de William e dizia "Que coincidência"; e a cada noite William, também, dizia "Que noite bonita" e "Que coincidência". Assim foi que os dois começaram a conhecer os pensamentos um do outro e mais do que nunca acabaram se cansando disso.

Os dois consertavam seus sapatos no mesmo sapateiro. Os dois sabiam que o sapateiro colocara uma menina para viver com ele na parte dos fundos da sapataria e que logo depois a expulsou dali quando a esposa ficou sabendo de tudo. No entanto, os dois continuaram considerando o sapateiro um bom homem porque não queriam se aborrecer por considerá-lo um mau sujeito. Os dois se arraigavam cada vez mais a suas idéias e hábitos até que...

Não sei o que foi feito dos dois. Nem eles.


-- Laura Riding

Poema de Paul Auster

White Nights


No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.

Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.

Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body's whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.

I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.


-- Paul Auster

5.11.03

Cálculo de probabilidades


Cada vez que um dono de terra
declara: para me tirarem este patrimônio
terão de passar por cima do meu cadáver

ele deveria levar em conta
que às vezes
passam


-- Mario Benedetti

4.11.03

Em memória de Rachel de Queiroz


Talvez o último desejo


Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?

Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!

Sim, te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.

Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!

Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!

Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.

Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.

Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.



Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.

Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.

E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.

E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.

E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.

E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.

E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.

E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.

Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?

O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!



-- Rachel de Queiroz, em "Um alpendre, uma rede, um açude".




3.11.03

Alberto Moravia


Agnes podia ter-me avisado em vez de ir embora assim, sem sequer dizer: dane-se. Não pretendo ser perfeito e se ela me tivesse dito o que lhe faltava, poderíamos ter discutido. Mas não: durante dois anos de casamento, nenhuma palavra; e depois, uma manhã, aproveitando um instante em que eu não estava, foi embora sorrateiramente, como fazem as empregadas que arranjaram um serviço melhor. Foi-se e, ainda agora, seis meses depois que me deixou, não entendi por quê.
Naquela manhã, após ter feito as compras no mercadinho do bairro (gosto de fazer as compras eu mesmo: conheço os preços, sei o que quero, gosto de regatear e discutir, experimentar e apalpar, quero saber de que animal vem minha bisteca, de que cesta a maçã), saí novamente para comprar um metro e meio de franja para pregar na cortina, na sala de jantar. Como não queria gastar mais que o devido, dei muitas voltas antes de encontrar o que me convinha, numa lojinha na rua da Umiltà. Voltei para casa a umas onze e vinte, entrei na sala de jantar para comparar a cor da franja com a da cortina e logo vi em cima da mesa o tinteiro, a caneta e uma carta. Para dizer a verdade, o que, sobretudo, atraiu minha atenção foi uma mancha de tinta na toalha de centro da mesa. Pensei: "Mas olha, que porcalhona... manchou a toalha." Tirei o tinteiro, a caneta e a carta, peguei a toalha, fui à cozinha e ali, esfregando limão com força, consegui tirar a mancha. Depois voltei à sala de jantar, repus a toalha no lugar e, só então, me lembrei da carta. Era endereçada a mim: Alfredo. Abri e li: "Limpei a casa. O almoço você mesmo faça, que tem muita prática. Adeus. Volto para a casa de mamãe. Agnes." Por um instante fiquei sem entender nada. Em seguida reli a carta e finalmente entendi: Agnes tinha ido embora, me deixava após dois anos de casamento. Por força do hábito, coloquei a carta na gaveta do bufê onde guardo os recibos e a correspondência e sentei numa cadeira perto da janela. Não sabia o que pensar, não estava preparado para isso e quase que não acreditava. Enquanto assim refletia, bati os olhos no chão e vi uma pequena pena branca que devia ter se soltado do espanador quando Agnes tirara o pó. Catei a pena, abri a janela e a joguei fora. Depois peguei o chapéu e saí de casa.


-- Fragmento do conto "Não se aprofundar", do livro Contos romanos, 1954.


2.11.03

A nova caligrafia da Internet


As novas facilidades de comunicação via Internet trouxeram grandes mudanças à forma como falamos e escrevemos. As abreviaturas, a substituição de letras ("qu" por "k", "ss" por "x", etc.), a quase-eliminação da pontuação, tudo isso são constantes em e-mails, chats, e trocas de mensagens em geral.

Num esforço de propôr uma caligrafia coerente e unificada, o Quarto Segredo propõe uma série de regras comuns a utilizar na comunicação electrónica para facilitar a compreensão mútua e a troca de ideias.

1. Em primeiro lugar, por questão de simplificação, todos os "qu" deverão ser substituídos por "k". Da mesma forma, todos os "c" (excepto antes de "e" ou "i") serão também substituídos por "k".

2. Em segundo lugar, para simplifikar o duplo "s", todos os "ss" serão substituídos por "x". Por uma kestão de koerência, todos os restantes "s" serão também substituídos por "x", poupando-se assim uma letra;

3. Todox ox "e" ke extiverem ixoladox xerão xubxituídox por um "i" para evitar a má pronunciação da letra;

4. Ax cedilhax i ox axentox ortográfikox dexaparecerão porke xó provokam konfuxão (xendo ax cedilhax xubxtituidax por um "x");

5. Ja ke eliminamox ox "x", entao todox ox "c" antex de "i" ou "i" xerao tambem xubxtituidox por um "x";

6. Em todax ax palavrax ke xejam terminadax em "i" mudo, o "i" dexaparexera;

7. Todax ax palavrax kom trex ou maix xilabax xerao abreviadax. a abreviatura xera feita retirando vogaix aleatoriament a palavra;

8. Ax letrax maiuxklx i ox xinaix de pntxao xerao elminadx para xmplifkar a exkrta.

akrdto k x formox todox korentx no xeguimnt dextax regrax a knvvenxia elktrnika na intrnt xera muito maix xaudvl i hrmnioxa do k ate agora, evtndo-x as knfxoex i mal-entnddox gnralizdox.



-- O Quarto Segredo da Fátima



31.10.03

Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais e você fica dando voltas pela casa se perguntando em voz baixa como tudo começou. Moro numa rua sem saída de uma cidade pequena onde o único armazém do lugar fica na minha esquina. Quando me canso de andar, é no balcão do armazém que eu paro para pensar. O estabelecimento tem cinco metros de largura por seis de profundidade e dois bêbados fixos que não dão conta da minha presença. Atrás do balcão descascado os braços rechonchudos da dona do armazém embrulham o feijão, o arroz, a farinha, o pacote de macarrão, a lata de sardinha, o sabão em barra, o pão de fôrma já vencido. Sim, e as salsichas. Toda vez que chego com sede eu sei que só posso pedir cerveja barata, cachaça ou coca-cola. Peço a cerveja e os braços rechonchudos erguem a tampa do freezer coberto de ferrugem. São braços brancos, flácidos, onipotentes. E ocupam o espaço de todo o armazém. Quando eles se movem, os bêbados param de beber, o ar fica em suspenso e a poeira não baixa. A lâmpada engordurada não balança mais sobre a única mesa. Quem está fora não entra, quem está dentro não sai. Eu fico imóvel e ouço a tampinha da garrafa quicar no chão. Quatro vezes. Volto a piscar só quando os braços se acomodam no balcão feito uma raposa empalhada. Retomo o pensamento de onde parei. Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais.
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