26.12.04

Alberto Blanco

A porta é estreita/ o caminho é estreito/ a noite é interminável

Alberto Blanco, México



O fim das etiquetas
A mosca se levanta da mesa
e domina os quartos até o teto,
atravessa pontualmente o corredor
que comunica o mar com o espelho.

Penetrante na luz é o seu zumbido
Uma bolha a mais dentro da água...
navegando descobre entre os botes
a borda iluminada da toalha.

O fundo é sujo, o que ela vê, claro:
esta vida que flutua vacilante
com ar de papel, branco de luz,
já não lembra nada das palavras.

(trad. MP)

--------------

Poema visto no ventilador de um hotel
Faz um calor dos diabos.
Ligo o ventilador
e começam a girar as pás...
Logo se espalha um suave vento
e as cortinas começam a dançar.
O centro do ventilador
é um espelho convexo,
um olho de peixe,
um capacete de ouro.

Ali vibram os reflexos
com o zumbido da máquina,
mas não saem do seu lugar.

Aumento a velocidade e as pás giram
até virar quase invisíveis
-- sobre uma gaze alvacenta --
mas os reflexos no centro
continuam sendo os mesmos.

Assim tem que ser com tudo -- digo para mim --
as superfícies se movem a grande velocidade
mas as formas que refletem não.

Passam os indivíduos de uma espécie,
mas a espécie continua a mesma.

Passam os homens de um povo,
mas o povo permanece.

Passam todos os poetas,
mas fica a poesia.

Passam nossos pensamentos,
mas alguma coisa, ou alguém,
está observando.
Segue observando.


(trad. Rodolfo Mata)
-




20.12.04

Machado de Assis





COGNAC


VEM, MEU COGNAC, meu licor d'amores!...
É longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração - da vida esmalte,
Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!
Cognac! - inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor - de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m'inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!


Machado de Assis, 1856.






18.12.04

sobre traduções





Duas versões d'O Meu Pipi


1) a portuguesa, original

Crítica de fodas

A foda que dei ontem devia estar preservada no Museu de História Natural. Será considerada a gambozina das fodas, uma vez que já muitos a quiseram dar, mas nunca antes tinha sido vista. Falo da pinocada que dei em crica virgem de 72 anos. Uma virgem de 72 anos, Pipi?? Pergunta o efeminado leitor, enquanto rapa os pêlos das pernas. É facto, rabichos. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudação que repelia os mais temerários, mantinha intacta a cabaça com que Deus -- por chiste, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. A cabaça não estava intacta. Estava reforçada. Décadas de falta de uso alteraram a génese da membrana virginal que, de simples selo, garante de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o hás-de: da maneira como aquilo estava, era o "não hás-de foder nunca". Quem encostasse o ouvido àquela rata avoenga, lograria ouvir os latidos do cabrão do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar.O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal precisaria de estar ano e meio sem foder, para ter o pau mais feito de sempre, 20 centímetros de força bruta, necessária para furar o contraplacado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculadas da greta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter madeiro suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu uma mistela verde. Digo eu: "Vamos lá a ver se não tem já a pachacha estragada, minha senhora. Isto devia ter começado a ser consumido por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE O PITO AINDA ESTARÁ BOM!" E ela: "Como diz?" E eu: "O PITO, O PITO! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADO!" E ela: "Escarranche-me mas é isso, jovem." Escarranchei. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segunda, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebés. No final, confessou-me que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das cricas e do chavascal, trabalhamos. Vou só actualizar o meu curriculum e já venho.



2) a brasileira, em tradução de Mario Prata 



Crítica de Fodas


A trepada que dei ontem devia ficar preservada no Museu de História Natural. Falo da pirocada que dei em xota virgem de 72 anos. "Uma virgem de 72 anos, Pipi?" Pergunta o efeminado leitor, enquanto raspa os pêlos das pernas. É verdade, bichinhas. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudorese que repelia os mais temerários, mantinha intacto o cabaço com que Deus -- por gozação, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. O cabaço não estava intacto. Estava reforçado. Décadas de falta de uso alteraram a gênese da membrana virginal que, de simples selo, garantia de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o "há de": da maneira como aquilo estava, era o "não 'há de' foder nunca". Quem encostasse o ouvido naquela velha boceta, lograria ouvir os latidos do danado do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar. O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal teria que estar há um ano e meio sem foder para ter o pau mais duro da sua vida, vinte centímetros de força bruta, necessária para furar o compensado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculosas da boceta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter um pau suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu um líquido verde. Eu disse: "Vamos ver se não tem a chavasca estragada, minha senhora. Isto deve ter começado a ser criado por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE A XOTA AINDA VAI ESTAR BOA!" E ela: "Como diz?" E eu: "A XOTA, A XOTA! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADA!" E ela: "Me fode, garoto." Fodi. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segundo, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebês. No final, me confessou que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das xotas e da sacanagem, trabalhamos. Vou só atualizar o meu curriculum e já volto.
.......................................................


Para quem não sabe, O Meu Pipi era um blog português que chegava a receber 4.500 acessos/dia. O Prosa Caótica foi um dos primeiros blogs, senão o primeiro, a mencionar O Meu Pipi no Brasil. Transformado em livro em 2003, é um dos maiores sucessos da literatura portuguesa. Seu autor continua anônimo. Na edição brasileira, apesar dos esforços do tradutor de fidelidade ao original, o texto perde bastante do seu saboroso humor lusitano. Ah, sim, o tradutor comeu a segunda frase do texto. Saudades do Pipi.


10.12.04

Hilda Hilst




Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

9.12.04



não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
o que passou


Torquato Neto

5.12.04

João Cabral -- Os três mal-amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo-morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.



João Cabral de Melo Neto, em fragmento de "Os três mal-amados", 1943.


26.11.04

William Carlos Williams



O direito de passagem

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei --
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa --
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio --

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra --

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão




23.11.04

Guilherme Mandaro



meu amigo de infância continua emagrecendo
fala depressa
diz que a vida tá difícil
que mário continua exagerando
que ele vai à praia ali mesmo
enquanto a cerveja sobra no copo
alguma coisa sobra no papo
a noite apenas começa




16.11.04

ALEA I -- VARIAÇÕES SEMÂNTICAS
(uma epicomédia de bolso)

Haroldo de Campos
1962/63


O ADMIRÁVEL o louvável o notável o adorável
o grandioso o fabuloso o fenomenal o colossal
o formidável o assombroso o miraculoso o maravilhoso
o generoso o excelso o portentoso o espaventoso
o espetacular o suntuário o feerífico o feérico
o meritíssimo o venerando o sacratíssimo o sereníssimo
o impoluto o incorrupto o intemerato o intimorato

O ADMERDÁVEL o loucrável o nojável o adourável
o ganglioso o flatuloso o fedormenal o culossádico
o fornicaldo o ascumbroso o iragulosso o matravisgoso
o degeneroso o incéstuo o pusdentoso o espasmventroso
o espertacular o supurário o feezífero o pestifério
o merdentíssimo o venalando o cacratíssimo o sifelíssimo
o empaluto o encornupto o entumurado o intumorato

N E R U M
D I V O L
I V R E M
L U N D O
U N D O L
M I V R E
VO L U M
N E R I D
M E R U N
V I L O D
D O M U N
V R E L I
L U D O N
R I M E V
M O D U L
V E R I N
LO D U M
V R E N I
I D O L V
R U E N M
R E V I N
D O L U M
M I N D O
L U V R E
M U N D O
L I V R E


programa o leitor-operador é
convidado a extrair outras
variantes combinatórias
dentro do parâmetro semântico
dado
as possibilidades de permutação
entre dez letras diferentes
duas palavras de cinco letras cada
ascendem a 3.628.800



Haroldo de Campos


11.11.04

Do roteiro de "Total Eclipse", 1995




Verlaine: O que você acha de minha esposa?
Rimbaud: Não sei. O que você acha dela?
Verlaine: Ela ainda é muito criança.
Rimbaud: Eu também.

(pausa)
Verlaine: (para o garçom) Dois absintos...
Rimbaud: Esse seu último livro...
Verlaine: Sim...
Rimbaud: ...não é lá essas coisas.
Verlaine: Não está falando sério.
Rimbaud: Puro lixo pré-matrimonial.
Verlaine: Não. São poemas de amor. Muita gente gostou.
Rimbaud: Não passam de uma mentira.
Verlaine: Não são uma mentira, eu amo minha mulher.
Rimbaud: Amor...
Verlaine: Sim.
Rimbaud: Isso não existe.
Verlaine: O que quer dizer?
Rimbaud: O que une as famílias e os casais, isto não é amor. É burrice, egoísmo, ou medo. O amor não existe.
Verlaine: Você está enganado.
Rimbaud: O interesse próprio existe, a união para proveitos pessoais existe, a complacência existe. Não o amor. O amor tem de ser reinventado.
Verlaine: Eu amo o corpo dela.
Rimbaud: Há outros corpos.
Verlaine: Não. Eu amo o corpo de Matilde.
Rimbaud: E a alma não?
Verlaine: Acho mais importante amar o corpo do que amar a alma, afinal a alma pode ser imortal. Terei muito tempo para a alma, enquanto a carne...
Rimbaud: (bufando)
Verlaine: O que foi? É o meu amor pela carne que me mantém fiel.
Rimbaud: Fiel. O que quer dizer com isso?
Verlaine: Sou fiel a todos a quem amei. Se amei um dia, amarei para sempre...e quando estou sozinho à noite ou pela manhã, posso fechar meus olhos e celebrar a todos.
Rimbaud: Isto não é fidelidade. É nostalgia. Não espere fidelidade de mim.
Verlaine: Aaah... por que está tão azedo comigo?
Rimbaud: Porque você precisa disso.
Verlaine: Já não basta saber que amo você mais do que ninguém? E que sempre amarei?
Rimbaud: Ah, cale essa boca, seu bêbado choramingas.
Verlaine: Diga que me ama.
Rimbaud: Ah, pelo amor de Deus.
Verlaine: Por favor, é importante para mim, diga...
Rimbaud: Você sabe que gosto de você.
Verlaine: Fiz umas compras hoje de manhã. Comprei um revólver.
Rimbaud: E pra quê?
Verlaine: Para você, para mim, para todos.
Rimbaud: Espero que tenha comprado munição suficiente pra todo mundo.



(trad. Maira Parula)


8.11.04

Salvador Dalí, visto por Buñuel


Durante a guerra da Espanha, Dalí por várias vezes manifestou sua simpatia pelos fascistas. Propôs até à Falange um monumento comemorativo bastante extravagante. Tratava-se de fundir, misturadas, as ossadas de todos os mortos da guerra. Em seguida, a cada quilômetro, entre Madri e o Escorial, erguer-se-iam uns cinqüenta soclos sobre os quais seriam colocados esqueletos feitos com as ossadas verdadeiras. Esses esqueletos iriam aumentando de tamanho. O último, chegando ao Escorial, atingiria 3 ou 4 metros. Como se pode imaginar, o projeto foi recusado. Em seu livro, A vida secreta de Salvador Dalí, ele se referiu a mim como um ateu. De certa maneira isto era mais grave do que uma acusação de comunismo. Um tal Prendergast, representante dos interesses católicos em Washington, começou, na mesma época, a usar sua influência junto aos meios governamentais para que eu fosse despedido do Museu [de Arte Moderna de Nova York]. (...) Depois de minha demissão, um dia marquei um encontro com Dalí no bar do Sherry Netherland. Ele chega, muito pontual, e pede champanhe. Furioso, em vias de agredi-lo, digo-lhe que é um canalha, que estou na rua por sua culpa. Ele me responde com esta frase que jamais esquecerei: "Escrevi esse livro para erigir um pedestal para mim. Não para você." Recolhi minha bofetada. Com a ajuda do champanhe -- e das reminiscências, do sentimentalismo -- nos separamos quase amigos. Mas a ruptura era profunda. Eu só tornaria a vê-lo uma vez mais. (...) Um dia, em Montmartre, vou vê-lo em seu hotel, encontro-o de peito nu com um curativo nas costas. Pensando sentir um "percevejo" ou qualquer outro bichinho -- na verdade era uma espinha ou verruga -- ele cortara as costas com uma lâmina de barbear e sangrara abundantemente. Ele então contou muitas mentiras, embora fosse incapaz de mentir. Quando, por exemplo, para escandalizar o público americano, escreveu que um dia, visitando um museu de história natural, sentiu-se violentamente excitado pelos esqueletos de dinossauros a ponto de se ver obrigado a "sodomizar" Gala [sua mulher] num corredor, isso era evidentemente falso. Mas ele é de tal modo fascinado por si mesmo que tudo o que diz o toca com a força cega da verdade. (...) Quando foi a Nova York pela primeira vez, no início dos anos 30, foi apresentado aos milionários, de quem já gostava muito, e convidado para um baile de máscaras. A América inteira estava na época traumatizada pelo seqüestro do bebê Lindbergh, o filho do famoso aviador. A esse baile Gala compareceu com uma roupa de criança, o rosto, o pescoço e os ombros manchados de sangue. Dalí dizia apresentando-a: "Ela está fantasiada de bebê Lindbergh assassinado." Isso repercutiu muito mal. Tratava-se de um personagem quase sagrado, de uma história em que não se podia tocar sob pretexto algum. Dalí, censurado por seu marchand, rapidamente recuou e contou aos jornais, numa linguagem hermético-psicanalítica, que a fantasia de Gala inspirava-se, na realidade, no complexo X. Era um travesti freudiano. (...) Quando penso nele, apesar das recordações de nossa juventude, apesar da admiração que ainda me inspira atualmente uma parte de sua obra, me é impossível perdoar-lhe seu exibicionismo ferozmente egocêntrico, sua adesão cínica ao franquismo e sobretudo seu ódio declarado pela amizade. Numa entrevista, há alguns anos, declarei que ainda assim gostaria bastante de tomar uma taça de champanhe com ele antes de morrer. Ele leu essa entrevista e disse: "Eu também, mas já não bebo."


Luis Buñuel, em seu livro de memórias Meu último suspiro, 1982.


7.11.04

André de Leones



INT. LANCHONETE - DIA.

O lugar está praticamente vazio. JEAN e FABIANA estão sentados a uma mesa qualquer. Tomam suco. Jean folheia um livro grosso.
FABIANA
- Odeio ler. Prefiro ir à praia.

JEAN
- Aqui não tem praia.

FABIANA
- Pra você ver o quanto minha vida é sacal.

Jean sorri sem desviar os olhos do livro, de tal forma que não se sabe se ele ri do sarcasmo de Fabiana ou de algo que tenha lido.
FABIANA
- Você sabe, eu divido minha vida em fases.

JEAN
- Todo mundo faz isso.

FABIANA
- Não como eu faço.

Breve silêncio. Ela toma um grande gole de suco. Ele continua concentrado em folhear o livro.
FABIANA
- Quer saber como é?

Novo silêncio. Após um momento, Jean fecha o livro e a encara.
JEAN
- Diz aí.

FABIANA
- Ok, obrigada. É o seguinte: eu divido meus dias, todos eles, todos os dias da minha vida, em duas categorias: "na praia" e "longe da praia". Pensando nos dias que passei na praia e nos dias que passei longe da praia, concluí que amo os dias que passei na praia e alimento sentimentos que variam entre tristeza e ódio puro pelos dias que passei, ou passo, longe da praia. Levando-se em conta que, em dezessete anos de vida, passei um total de cento e vinte e três dias na praia, dos quais treze dias foram ainda dentro da barriga da minha mãe, já grávida de mim em sua lua-de-mel, bem, dá pra imaginar que tipo de sentimento eu tenho pela joça da minha vida em geral.

Silêncio. Fabiana toma outro gole de suco. Jean sorri.
JEAN
- Eu... eu nunca fui muito fã de praia.



- Em  Hoje está um dia morto.

28.10.04

Juvenilidades Auriverdes



"Pessoalmente acho lastimável essa história de nascer entre paisagens incultas e sob céus pouco civilizados. Acho o Brasil infecto. Devo imenso a Anatole France que me ensinou a duvidar, a sorrir e a não ser exigente com a vida." Foi o que disse o poeta Drummond em carta enviada a Mário de Andrade no final do ano de 1924. Mário e Drummond mantiveram uma correspondência habitual ao longo de décadas, jamais conviveram assiduamente, exceto por cartas, mesmo na época em que ambos moravam no Rio de Janeiro, no final dos anos 30. A este "desabafo escandaloso", segundo o mineiro, Mário responderia com o seu cinismo filosófico prático:

"Mas meu caro Drummond, pois você não vê que é esse todo o mal que aquela peste amaldiçoada fez a você! Anatole ainda ensinou outra coisa de que você se esqueceu: ensinou a gente a ter vergonha das atitudes francas, práticas, vitais. Anatole é uma decadência, é o fim duma civilização que morreu por lei fatal e histórica. Não podia ir mais pra diante. Tem tudo que é decadência nele. Perfeição formal. Pessimismo diletante. Bondade fingida porque é desprezo, desdém ou indiferença. Dúvida passiva, porque não é aquela dúvida que engendra a curiosidade e a pesquisa, mas a que pergunta: será? irônica e cruza os braços. E o que não é menos pior: é literato puro. Fez literatura e nada mais. E agiu dessa maneira com que você mesmo se confessa atingido: escangalhou os pobres moços fazendo deles uns gastos, uns frouxos, sem atitudes, sem coragem, duvidando se vale a pena qualquer coisa, duvidando da felicidade, duvidando do amor, duvidando da fé, duvidando da esperança, sem esperança nenhuma, amargos, inadaptados, horrorosos. Isso é que esse filho-da-puta fez. Foi grande? Foi. Foi talvez mesmo genial nalgumas páginas. Pouquinhas, graças a Deus. Foi elegante, fino, sutil? Foi, foi, foi. Mas também foi filho-da-puta, porque as grandezas que engendrou não bastam pra pagar um só dos males que fez. Você diz que ele ensinou você a não ser exigente com a vida... Como isso! se você se confessa um inadaptado e tem um errado desprezo pelo Brasil e os brasileiros. O mal que esse homem fez a você foi torná-lo cheio de literatices, cheio de inteligentices, abstrações em letra de fôrma, sabedoria de papel, filosofia escrita: nada prático, nada relativo ao mundo, à vida, à natureza, ao homem. Representou a sua época. Não foi um passadista. Mas a nossa época, a sua época, Drummond, não é a época dele, e foi e é outros gatunos da laia dele que roubaram a você as riquezas da felicidade, que só pode existir nesta terra pela adaptação, pela correspondência, pelo equilíbrio. Ele não é um passadista, mas se você tiver as idéias dele, será um horroroso, ridículo passadista. Mas tudo passa, Drummond, você vai ver. Um pouco de paciência, um pouco de raciocínio, um pouco mais de farra vital, muito menos literatura, mudar um hábito antigo e então você me dirá se foi injusto ou se ficou muito aquém de toda a maldade e insulto que esse homem merecia de você... Tudo isso são caraminholas metidas na cabeça de você pelas letras do sr. France et caterva... Você faça um esforcinho pra abrasileirar-se. Depois se acostuma, não repara mais nisso e é brasileiro sem querer. "


A íntegra desta carta de Mário a Drummond e da correspondência entre os dois foi publicada em "A Lição do Amigo", 1982.

19.10.04

Livro de Ensinança de Bem Escrever


Em nome de nosso senhor Jesu Cristo, que he mandado que todallas cousas façamos, ajudando aquel dito que de fazer livros nom he fim, screvo algüas cousas per que seran ajudados pera a milhor percalçar os que leerem com boa voontade. Faço por ensynar os que tanto nom souberem, e trazer em renembrança aos que mais sabem as cousas que lhes bem parecerem. Per bem screver he necessario que ajom duas cousas principaaes: grande desposiçom e muyto saber. De cada hüa direi apartadamente o que me parece, per que me praz de poer esta scyencya em scripto ainda que tam aproposito nom venham, por fazer a algüus proveito, posto que a outros pareça sobejo. (Bem sey quanto pera mym presta fazello ou leixallo de fazer.)

Grande desposiçom: o coraçom oucioso, de tam fraca desposiçom, nom averá poder de cometer, contradizer e soportar todallas cousas fortes e contrairas que perteecem aos estados e oficios de screver. Os desasperançados leixam daprender o que pera ello saber lhes he necessario, e ssom conhecidamente os mais enganados por esto. E ssentyndo esto o vailente emperador Jullyo Cesar, por muyto que ouvesse de fazer, sempre quando avya spaço seguya o estudo e algüas obras de novo screvya. Digo que he visto per speriencia que o coraçom dos que prezam screver he semelhante aa moo do moynho, a qual botada per força das auguas nunca cessa de seu andar, e tal farinha dá como a ssemente que mooe.

Muyto saber: Aos que dizem que screver sem livro se deprende, digo que nom he verdade. Papagayos bem aprendem porem nom leem pera saberem milhor. Aos que bem pratycam a converssaçom de mais cousas razoadamente devem saber, por que esta manha per ssy soo nom he soficiente pera fazer algüu muyto valer. Ssaybham nom tomar jnoramcia por boa voontade. Os que tiram grandes vantagëes do conhecymento em proveito de bem parecer e outras mostramças nom poderóm seer boons scryptores por que a contynuada husança de sua presunçom afastará muytas pessoas se os leerem, que logo se enfadaróm delles. Por regra geeral pessoas de boos coraçõoes desejam leer livros dalgüa scyencya ou enssynança, nom livros bestas mais sem proveito que ellas.

Screver nom he jogo de manqual. Screver bem he saber leer aalem da propria imagem em hum espelho de borracha. E por nom trautarse de avamjelho esto que aquy screvo, leixo de mais sobre'ello screver, por muyto nom perlongar. Milhor ouvermos nosso caminho per doutro mar de lomgo.


Destas Minas Geraes da Jlha de Vera Cruz, 2004.


(Meus agradecimentos a Sua Alteza El-rey D. Duarte de Portugal e Algarve, sem cuja consultoria lingüística esta minha breve e modesta ensinança não teria sido possível.)

17.10.04

Joan Airas de Santiago



Todalas cousas eu vejo partir
Todalas cousas eu vejo partir
do mund' en como soian seer,
e vej' as gentes partir de fazer
ben que soian, ¡tal tempo vos ven!,
mais non se pod' o coraçon partir
do meu amigo de mi querer ben.

Pero que ome part' o coraçon
das cousas que ama, per bõa fe,
e parte-s' ome da terra ond' é,
e parte-s' ome d' u gran[de] prol ten,
non se pode partilo coraçon
do meu amigo de mi [querer ben].

Todalas cousas eu vejo mudar,
mudan-s' os tempos e muda-s' o al,
muda-s' a gente en fazer ben ou mal,
mudan-s' os ventos e tod' outra ren,
mais non se pod' o coraçon mudar
do meu amigo de mi querer ben.


Joan Airas de Santiago, cantiga de amigo da literatura galega medieval.


16.10.04

A mulher na poesia barroca portuguesa

A mulher na poesia barroca portuguesa
Mortal doença

Na febre do amor-próprio estou ardendo,
No frio da tibieza tiritando,
No fastio ao bem desfalecendo,
Na sezão do meu mal delirando,
Na fraqueza do ser, vou falecendo,
Na inchação da soberba arrebentado,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dureza do peito atormentada,
Na sede dos alívios consumida,
No sono da preguiça amadornada,
No desmaio à razão amortecida,
Nos temores da morte trespassada,
No soluço do pranto esmorecida,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dor de ver-me assim, vou desfazendo,
Nos sintomas do mal descoroçoando,
Na sezão de meu dano estou tremendo,
No ris como da doença imaginando,
No fervor de querer-me enardecendo,
Na tristeza de ver-me sufocando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Vou ao pasmo do mal emudecendo,
À sombra da vontade vou cegando,
Aos gritos do delito emouquecendo,
No tempo sobre tempo caducando,
Nos erros do caminho entorpecendo,
Na maligna da culpa agonizando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.


Soror Maria do Céu, freira também autora de autos e comédias de fundo moral para uso didático nos conventos.

--------------


Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para quem de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.



Vozes de uma dama desvanecida
de dentro de uma sepultura que fala
a outra dama que presumida entrou em
uma igreja com os cuidados de ser vista
e louvada de todos; e se assentou junto
a um túmulo que tinha este epitáfio
que leu curiosamente

Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.

Considera que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.

Considera que a morte rigorosa
Não respeita beleza nem juízo
E que, sendo tão certa, é duvidosa.

Admite deste túmulo o aviso
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes que o teu fim é tão preciso.


Soror Violante do Céu, freira dominicana e um dos expoentes máximos da poesia barroca portuguesa, séc. 17.

12.10.04

A q u i
J a z



aquele cujo nome traçaram os vagalumes
cujo perfil formaram as pétalas caídas
antes do dia
e do vento



Mário Faustino, 1948


10.10.04

Copacabana é um bairro onde se pode viver tranquilamente, desde que se seja louco. E não só pelas mulheres, diga-se de passagem, nem tampouco pelos transístores ou pelos veados, que esses os há em toda parte; mas pela ausência completa de lógica nas coisas mais simples e mais humanas, como encontrar um amigo, por exemplo. Uma vez encontrei um amigo de infância que não via havia muitos anos; empurrei-o de encontro à parede, abracei-lhe o pescoço, o tórax, o abdome e a bacia, puxei-lhe os cabelos que aliás já estavam ficando escassos, dei-lhe tapinhas no rosto, nas costas, nos rins, nas pernas, na bunda, mal continha a emoção de enfim encontrar um amigo entre tantos inimigos ou indiferentes, fiz em suma tudo que era possível fazer na circunstância ou mesmo fora da circunstância: quando vi, o homem se chamava Harald Haardraade, era norueguês de nascença e por convicção, acabara de chegar de Oslo ou de Jostedalsbra não estou bem lembrado, não entendia uma palavra do português e pelo visto não tinha o mínimo interesse em aprender. Pior, muito pior, foi o outro que, não sei se pago pelo tal norueguês, me abraçou algum tempo depois em plena avenida Atlântica, o mar que era uma beleza, e no mais puro sotaque nordestino me perguntou que fazia eu que não aparecia mais em Itapecuru-mirim, pois aquela garota de Cajapió vivia sempre a perguntar por mim, o Manuel Rosendo se casara o mês passado com a filha do prefeito de Chapadinha, ia se candidatar a vereador para ver no que dava o cabaço da desinfeliz, e mais isso e mais aquilo, como então hein seu, uma efusão que me deixou de certo modo comovido; quando nos separamos, após muitas juras de eterna amizade, foi que dei pela falta da carteira, do relógio, da caneta-tinteiro e até de um lenço de estimação, que me teria pelo menos servido para enxugar as lágrimas da separação.


Campos de Carvalho, em O púcaro búlgaro, 1964.


26.9.04

Tu És o MDC da Minha Vida



Tu és o grande amor da minha vida
Pois você é minha querida
E por você eu sinto calor
Aquele teu chaveiro escrito "love"
Ainda hoje me comove
Me causando imensa dor
Eu me lembro
Do dia em que você entrou num bode
Quebrou minha vitrola
E minha coleção de Pink Floyd
Eu sei que eu não vou ficar aqui sozinho
Pois eu sei que existe um careta
Um careta em meu caminho
Ah! Nada me interessa nesse instante
Nem o Flávio Cavalcanti
Que ao teu lado eu curtia na TV
Nesta sala hoje eu peço arrego
Não tenho paz nem tenho sossego
Hoje eu vivo somente a sofrer
E até o filme que eu vejo em cartaz
Conta nossa história e por isso eu sofro muito mais
Eu sei que dia a dia aumenta o meu desejo
E não tem Pepsi-Cola que sacie
A delícia dos teus beijos
Ah! Quando eu me declarava, você ria
E no auge da minha agonia
Eu lhe citava Shakespeare
Não posso sentir cheiro de lasanha
Me lembro logo das Casas da Banha
Onde íamos nos divertir
Eh! Hoje o meu Sansui-Garrard-Gradiente
Só toca mesmo embalo quente
Pra lembrar do teu calor
Então, eu vou ter com a moçada lá no píer
Mas pra eles é careta
Se alguém fala de amor
Na faculdade de Agronomia
Numa aula de energia
Bem em frente ao professor
Eu tive um chilique desgraçado
Eu vi você surgindo ao meu lado
No caderno do colega Nestor
Por isso, é por isso que de agora em diante
Pelos cinco mil alto-falantes
Eu vou mandar berrar o dia inteiro
Que você é
O meu
Máximo
Denominador
Comum


Poesia sem título (1972)
Eu não pertenço ao domingo ensolarado
Meu pijama branco e largo
Que eu arrasto pela sala
Pela sala de jantar
Já não m'importa , o que m'importa nesse instante
É o meu vagar constante
Sob o peso dessa estante
Que eu vasculho até dormir
Meu quarto escuro sob os olhos de coruja
Boca seca e roupa suja
O coração se enferruja
Ao contato do verniz
Eu não pertenço nem à flor nem à espada
Tenho é u'a fome desgraçada
Minha cara engarrafada
Mais parece um guaraná


Raul Seixas

23.9.04

To hell and back



Agora fiz a minha primeira carnificina. Não sinto náuseas, não sinto orgulho, não sinto remorso. Há só uma entediante indiferença que me acompanhará durante toda a guerra... Tive de abandonar a idéia de que a vida fosse sagrada... No dia da rendição alemã, nas ruas da Riviera apinhadas de gente comemorando, eu senti apenas uma vaga irritação. Lá fora há o Dia da Vitória, mas por dentro não há paz. Como num filme de terror rodando de trás para frente, as imagens da guerra piscavam em meu cérebro... feito um incêndio que tivesse tomado conta desta casa humana, deixando apenas a carcaça carbonizada de algo que já foi verde. Em poucas horas eu não suportei mais. Voltei para o meu quarto. Mas não conseguia dormir. Minha cabeça rodava. Quando criança me disseram que a guerra estigmatizava os homens. O estigma foi colocado em mim? Os anos de sangue e ruína me despiram de todo sentimento de decência? De toda crença?... Creio na força de uma granada de mão, no poder da artilharia, na precisão de uma Garand. Creio em matar antes de ser morto.


Audie Murphy, na autobiografia To Hell and Back, de 1949. O mais condecorado dos heróis americanos da Segunda Guerra Mundial, célebre ator de Hollywood, Audie viveria em desespero até o final de sua vida, em 1971, por conta de sua participação numa guerra onde adquiriu a consciência da sua própria capacidade de matar.


20.9.04



Deixo para trás todas as roupas
Que usei quando estive contigo
Levo só minhas botas e o casaco de couro
Enquanto me despeço dos braços de Ruby.
Mesmo que o coração aperte
Tenho de me esgueirar pelas persianas
Porque logo irás acordar.

A luz da manhã lavou teu rosto
E agora o azul vai cobrindo tudo
Abraça teu travesseiro
Que agora já não posso fazer nada
Enquanto me despeço dos braços de Ruby.
Encontrarás outro soldado
E juro por Deus que pelo Natal
Terás outro alguém para te abraçar.

Do desalinho de tuas roupas
Levo só um lenço
Vou fugindo rente à tua cômoda
E aos teus sinos de vento quebrados
Enquanto me despeço
Enquanto digo adeus aos braços de Ruby.
Descerei pelo corredor escuro
E, rompendo a manhã, verei que os vagabundos da estação
Mantiveram as fogueiras acesas
Meu Deus, como chove
E não há um trem...
Não beijarei mais teus lábios
Nem partirei o teu coração
Enquanto me despeço
Enquanto digo adeus aos braços de Ruby.


Tom Waits




19.9.04

A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai. Eram quase duas da manhã quando pisei no Arpège, lotado aquela noite. Tom Jobim, todo muito sincopado, espremendo do piano queixas de amor com uma nova batida que o público não entende, só se balança. Pra mim aquela bossa não dizia nada, nada que Cole Porter já não tivesse dito, e melhor. Peço um White Horse duplo, sem gelo, e fico por ali em suspenso, fumando e assobiando baixinho De cigarro em cigarro, do Bonfá. De cinco em cinco minutos meu olhar se despeja nas mesas, procurando Dindi. Encostado na parede ao meu lado, um sujeito lê no Correio da Manhã a inauguração da nova capital federal. Na luz fraca da boate vejo a foto daquela cidade de sonho talhada no deserto. Um chapadão de arquitetura arrevesada e megalomaníaca, pra assustar e afastar a calangada revoltada dos centros de decisão. Mas se ela voltar, se ela voltar que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os Vejo o corpo de Silvinha cruzando a fumaça e meu coração acelera. Silvinha chegando é só encantamento. Não precisa de música. Ela senta na minha mesa sem tirar os olhos do piano, a mão suada apertando a minha. Silvinha não sabe que amanhã vou pra Brasília e nunca mais nos veremos. Foi assim que combinamos, desde o início. O fim não seria anunciado. Ela marca o meu copo de batom e antes de sairmos dali apaga um último cigarro no cinzeiro de cristal.


14.9.04

Há, no Bairro Francês, vários bares gays, tão repletos todas as noites que os viados transbordam pras calçadas. Um ambiente cheio de viados me enche de pavor. Eles se sacodem que nem marionetes movidas por fios invisíveis, galvanizados por uma agitação hedionda que é a própria negação de tudo que é vivo e espontâneo. A vida genuína se mudou desses corpos há muito tempo. E algo se infiltrou lá dentro, quando o locatário original foi embora. Viados são bonecos de ventríloquos que tomaram de assalto a alma do mestre. O boneco senta no balcão, ninando sua cerveja e tagarelando sem parar. Nada é capaz de alterar a rigidez de seus traços inumanos.

De vez em quando a gente encontra personalidades intactas num bar gay, mas são as bonecas que estabelecem o padrão nestas bibocas, e eu sempre fico deprimido quando entro numa delas. Com o tempo, a depressão só faz aumentar. Depois de uma semana numa cidade nova, já esgotei todas as possibilidades desses bares; só me resta fuçar noutros cantos, em geral nos bares da boca do lixo e imediações.

Mas, vez por outra, eu tenho umas recaídas. Certa noite, no Frank's, fiquei descerebrado de tanto beber e fui a um bar gay. Devo ter bebido mais lá, pois fui acometido de um lapso temporal. Já estava clareando lá fora quando se abriu no bar um desses súbitos bolsões de silêncio. Silêncio é algo que não ocorre com frequência num bar gay. Acho que a maioria dos viados já tinha ido embora. Eu estava debruçado no balcão diante de uma cerveja que eu não queria. O barulho se dissipou feito fumaça e notei que um garoto ruivo me olhava fixamente, a um metro de distância.

Como ele não veio com viadagens pra cima de mim, me animei a dizer, "Como vão indo as coisas?", ou algo assim.

-- Cê quer ir pra cama comigo? -- ele disse.

-- Tudo bem, vamos nessa -- eu disse.

Quando íamos saindo do bar, ele apanhou minha garrafa de cerveja no balcão e escondeu-a sob o casaco. Lá fora já era dia. O sol despontava. Atravessamos trôpegos o Bairro Francês, passando a garrafa um pro outro. Ele ia me levando ao seu hotel, pelo menos foi o que me disse. Sentia meu estômago crispar, como se estivesse prestes a tomar um pico depois de muito tempo sem droga. Eu devia ficar mais atento, sem dúvida, mas nunca consegui misturar sexo e vigilância. O tempo todo eu ouvia sua voz sexy, cujo sotaque sulista não era de Nova Orleans. Mesmo à luz do dia, ele ainda me parecia apetecível.

Chegamos no hotel e ele veio com um papo de que tinha de entrar primeiro. Tirei umas notas do meu bolso. Ele deu uma olhada e disse: "Melhor me dar uma de dez." Dei a ele. Entrou no hotel e logo saiu.

-- Lotado -- disse ele. -- Vamos tentar o Savoy.

O Savoy ficava logo ali, do outro lado da rua.

-- Espere aqui -- ele disse.

Fiquei uma hora esperando. De repente me bateu o que havia de errado com o primeiro hotel. Não devia ter porta dos fundos ou lateral por onde ele pudesse escapar. Voltei ao meu apartamento e peguei meu revólver. Fiquei esperando perto do Savoy. Depois dei uma volta pelo Bairro Francês, à cata do garoto. Já devia ser meio-dia quando me bateu a fome. Tracei um prato de ostras e uma cerveja. Ao sair do restaurante, senti um cansaço repentino de dobrar as pernas, como se me aplicassem golpes de karatê nas junções atrás dos joelhos.

Peguei um táxi até em casa e me joguei atravessado na cama, sem tirar os sapatos. Acordei por volta das seis da tarde e fui ao Frank's. Três cervejas mais tarde, eu já me sentia melhor.


William Burroughs, em Junky, 1953.


13.9.04

Fantasia erótica
A mulher que eu amo, que impressão me faz!
De cabelos rasos, parece um rapaz.
Mas os olhos dela, sem ela o querer,
É que dizem coisas que só de mulher.
As suas narinas vibram, a chamar
Os turvos eflúvios vagabundos no ar;
E os seus dentes, frios no sorriso moço,
Sinto-os, só de vê-los, contra o meu pescoço.
A mulher que eu amo, que impressão me faz!
Seu sorriso é triste, seu perfil minaz.
Os seus seios hirtos, pequeninos, túmidos,
Bastam a que os olhos se me façam húmidos.
Suas mãos felinas, logo que me tocam,
Meus nervos agudos todos se deslocam.
Suas ancas -- taças do prazer -- transbordam
De ópios que adormentam... mas que logo acordam.
Suas pernas magras de desenho fino
São como suspensos arcos de violino.
Quando as beijo cego-me! e esse beijo, corre
Como a onda solta que só longe morre.
Com seu riso aéreo nos lábios vermelhos,
Ela, então, recebe-me, entre os nus joelhos,
Sobre o longo corpo inteiramente franco...
E os seus olhos mortos boiam só em branco.


José Régio, 1961.


10.9.04

porque a ficção é parte da história


Mata Hari foi executada no pátio do Castelo de Vincennes. O fuzil do jovem oficial que executou a sentença fez correr o seu sangue antes que ela concluísse suas últimas palavras: "Gosto que me matem." No cinema, Greta Garbo mordeu o charuto e a frase foi cortada. Na vida real, Mata Hari, ou Margarette Zelle, foi condenada à morte por se recusar a confessar sua participação no maior contrabando da história. A Basílica de São João de Latrão, a maior e mais antiga de Roma, um verdadeiro museu de relíquias cristãs, teve alguns dos principais itens de sua fabulosa coleção secreta roubados. A saber: todos os originais dos evangelhos gnósticos, as cabeças de São Pedro e São Paulo, a Arca da Aliança, uma urna de maná, a túnica da Virgem, a mesa de jantar da Última Ceia, os cinco pães e dois peixes com que Jesus matou a fome de cinco mil, e, o mais notável, o prepúcio e o cordão umbilical de Jesus. Interrogada pelo serviço secreto francês sobre o destino que dera às relíquias desaparecidas, Mata Hari limitou-se a repetir seus "nada a declarar". O crime só não teve repercussão porque a cúpula papista estalou o chicote para abafar o caso. A Scotland Yard lavou as mãos. O último desejo da suposta espiã antes de ser libertada da matéria foi que sua execução se desse no vigésimo oitavo degrau da Escada Santa. Recusado. A famosa escada que Cristo subira para se encontrar com Pôncio Pilatos também havia sido roubada. O mundo cristão ocidental só contaria com o Santo Sudário dali para a frente. O paninho sujo de Cristo foi o único item que os ladrões deixaram para trás.

poesia trovadoresca, c. 1200


Et ab jio li er mos treus
Entre gel e vent e neus.
La Loba ditz que seus so,
Et a.n be dreg e razo,
Que, per ma fe, melhs sui seus
Que no sui d'autri ni meus.

Procuro-a com alegria
Pelo vento neve granizo.
A Loba diz que sou dela
E meu Deus ela está certa:
Sou todo dela
E de ninguém mais, nem de mim.


Peire Vidal, em tradução livre do occitano. A Loba do poema era Etiennette de Pennautier, a dama mais bela e cortejada de sua época no Languedoc, região da antiga França que foi berço dos heréticos, do amor cortês e da poesia trovadoresca. Isso até aparecerem os soldados de Cristo, os cruzados, e empatarem tudo.


9.9.04

Um site de portugueses sobre literatura brasileira


O que motivou um grupo de portugueses a criar um blog para falar de literatura brasileira? O blog Gávea acaba de entrar na rede e já chama nossa atenção. Veja aqui a resposta:

"A ignorância, de um e de outro lado do Atlântico, sobre o que se faz na outra margem, é um dos absurdos da nossa vida. Temos de viver com ele. Muitos portugueses precisavam de uma terapia de choque nesse sentido. Eu tive a minha quando frequentei Literatura Brasileira na universidade. Íamos cheios de Jorge Amado, Graciliano e pouco mais, mas isso garantia uma série de certezas absolutas ? Érico Veríssimo estava um pouco deslocado no retrato, era leitura de família. Mas Guimarães Rosa era um mundo longínquo que falava outra língua, Machado uma espécie de subproduto desconhecido (que Eça satirizava em privado, rindo do mulato), os modernos escreviam numa gramática terrível, cheia de sons e de atropelos. Manuel Bandeira, por tradição, conhecíamos, sim, e Vinicius, pelas canções, e Drummond, porque sim. Não vale a pena enumerar as desgraças. O meu professor era o poeta (angolano) Mário António Oliveira. As suas primeiras palavras foram simples: «Lamento desiludi-los, mas a literatura brasileira é muito superior à portuguesa.» Um eco de indignação percorreu a sala. Ele ria. Abençoado riso. Semanas depois percebíamos a provocação. Eu tinha percebido a provocação com Gregório de Mattos (o homem falava de Itaparica e, junto com as águas azuis e transparentes da ilha, falava das putas e dos álcoois), por exemplo, ainda que aceitasse com dificuldade, nesses anos, dividir Tomaz Gonzaga ou Cláudio Manuel da Costa com Ouro Preto (a Inconfidência, aliás, era um pormenor na leitura dos autores brasileiros), e encontrar consonâncias em Castro Alves ou Olavo Bilac (ah, a última flor do Lácio?). Se Capitú traiu ou não, sempre me pareceu assunto secundário, desde que Brás Cubas continuasse a perorar além-túmulo. E, depois, que brincadeira era essa de haver um leitor brasileiro de Sterne? Preconceito sincero. Quando Antônio Cândido teve o Premio Camões, houve mesmo um professor de uma universidade de Lisboa (e de literatura, e de esquerda, e que participava em jornadas de apoio ao PT?) que desabafou para os jornais: «É essa mania de premiarem os desconhecidos?» Coitado do Antônio Cândido. Vocês também não se portavam muito melhor, é preciso dizer. Quanto ao preconceito, nessas aulas de literatura, desapareceu com o tempo e com uma dose de ciúmes assombrosa, quando se descobriu que Oswald de Andrade tinha seduzido Isadora Duncan daquela maneira gloriosa, como um canibal de verdade. Eça riu dos paulistas que se atiraram aos pés de Sarah Bernhard, mas a verdade é que os autores portugueses não tiveram grandes momentos de exuberância, pequeninos e confinados a um mundo de fronteiras curtas. Isto também tem os seus exageros, mas a culpa também é vossa. Não sei porquê. Deve ser dessa mania de implicarem com os portugas, não sei; e de os portugueses fingirem que são tão sérios que ainda não aprenderam a brincar. Temos de viver com isso."


7.9.04

O que você não pode fazer porque é casado?

(breve amostra)

Você não pode:

. sair de casa sem dizer aonde está indo.
. deixar de dizer a que horas vai voltar.
. sair quando o outro prefere ficar em casa.
. ir a festas sozinho.
. sair só por sair.
. planejar nada sem consultar o outro, particularmente à noite e nos fins de semana.
. ser um porcalhão.
. deixar pela casa seus livros, lenços de papel, sapatos, maquiagem, correspondência, roupas íntimas, trabalho, material de costura ou pornografia.
. fumar, ou fumar dentro de casa, ou deixar cigarros em xícaras.
. amontoar mais quinquilharias do que o outro acha suportável.
. deixar os pratos para lavar depois, ou lavá-los mal, beber direto da garrafa, fazer farelo sem limpá-los.
. acumular coisas que você acha que pode usar um dia se o outro acha que você não vai usar.
. jogar roupas úmidas no cesto de roupa suja.
. ter uma mesa confortável porque ela não combina com a decoração.
. deixar de perceber se a casa está arrumada ou bagunçada.
. contratar uma faxineira, porque seu parceiro é socialista e não consegue conviver com a idéia, ou porque o outro acha que não poderão pagar, embora você tenha feito as contas.
. deixar a tampa da privada aberta.
. deixar coisas ensangüentadas no cesto de lixo do banheiro.
. deixar produtos de higiene íntima feminina à vista.
. lavar suas mãos sujas na pia da cozinha.
. colocar o rolo de papel higiênico no suporte "voltado para baixo".
. deixar de prestar atenção ao que você simplesmente ignora: os pêlos de seu nariz, os pêlos da axila, as unhas dos pés.
. deixar de fazer a cama, ou deixar de expressar apreciação quando o outro faz a cama.
. dormir separado, ir para a cama em horários diferentes, cair no sono no sofá sem acordar para ir para a cama, comer na cama, sair da cama logo depois do sexo, ter insônia sem passar por um interrogatório sobre o que realmente está te aborrecendo, aumentar o ar-condicionado do jeito que quer, dormir tarde se o outro tem que acordar cedo.
. ver novelas sem se divertir com elas, assistir pornografia, se isolar patologicamente nos esportes mesmo que esta seja a única forma de liberar a ansiedade, ouvir Bob Dylan nem outros excessos de sua juventude, sair para jogar fliperama, fumar maconha, beber de dia ou nos fins de semana, tirar sonecas quando o outro está em casa porque o parceiro acha que o tempo livre deve ser compartilhado, trabalhar quando devia estar relaxando, passar tempo demais no computador (e fique longe das salas de chat!), ter paqueras por e-mail mesmo que sejam inocentes, jogar paciência no computador porque os cliques deixam o outro maluco.
. conversar ao telefone quando estão em casa trabalhando, ser mal-educado com as pessoas que telefonam para o parceiro, falar ao telefone quando o outro está no quarto sem que o outro comente a conversa ou tente falar com você ao mesmo tempo, seu melhor amigo não pode ligar depois das dez.
. deixar de prestar atenção à presença do outro, ser impulsivo, ensimesmado ou distraído, assumir riscos, a menos que sejam riscos com os quais o outro concordou, dar o fora do trabalho nem se demitir de repente, tomar decisões profissionais unilaterais, nem trocar de emprego sem discussões e negociações intensas, fazer grandes compras sozinho, nem gastar dinheiro em coisas que o outro considera supérfluo, nem pode torrar dinheiro só porque está de mau humor, e não pode ficar de mau humor sem explicar por quê. Você não pode ter segredos - sobre dinheiro ou qualquer outra coisa.
. comer o que quer, deixar de fazer as refeições, deixar de preferir comer o que o outro cozinhou, sair de sua dieta, comer alho porque o outro não agüenta o cheiro, comer manteiga se o outro está monitorando seu colesterol, assoar o nariz à mesa, ler o jornal às refeições, comer coisas que lhe dão gases ou fazer piadas sobre os gases.
. usar o "tom de voz errado", se repetir, saber de coisas que o outro não sabe ou dar a impressão de que está exibindo seu conhecimento, comemorar demais suas realizações particularmente se o parceiro é menos bem-sucedido, pedir ajuda e depois criticar o modo da ajuda, ser simplista mesmo quando as coisas são simples, ter o riso errado: alto, explosivo demais, inadequado demais, bobo demais, falar "xereca", fazer piadas com tamanho de pênis ou rir quando os outros fazem.
. dizer o que pensa da família do outro, comparar o outro com qualquer membro de sua família, expressar ironia inadequada sobre alguma coisa que o outro leva a sério, chamar um faz-tudo para consertar alguma coisa se o outro se considera "habilidoso", deixar de dar apoio mesmo quando o parceiro faz alguma coisa insuportável, analisar a cinematografia de um filme que comove o outro, fazer uma piada que o outro possa interpretar como inconscientemente dirigida a ele.
. falar de relacionamentos passados, deixar de falar de relacionamentos passados, dizer nada que deixe o outro consciente demais de sua incompetência ou suas falhas, questionar o autoconhecimento do outro ou a interpretação que o outro dá a uma determinada situação, ter amigos que gostem mais de um do que do outro, ter amigos de quem um de vocês goste mais do que o outro, ser grosseiro com as visitas, sair de casa quando as visitas estão presentes, falar de sua depressão em público, ignorar o parceiro quando saem, ser encantador demais em público especialmente com pessoas do sexo oposto (ou do mesmo sexo, quando aplicável), conversar com pessoas que fazem o parceiro se sentir inseguro ou ameaçado, fazer social com seus ex mesmo que você jure que tudo acabou, transgredir os padrões de franqueza que o outro acha adequado em situações sociais, deixar de ter o grau de informalidade do outro, deixar de rir das piadas do outro em público.
. vestir roupas que não combinam, usar roupas mal ajambradas em casa sem ouvir algum tipo de comentário, dormir com a camiseta que tem desde a faculdade, comprar roupas sozinho se o outro não confia no seu gosto, sair de casa sem passar por uma inspeção, usar alguma coisa que te deixe sexy demais (ou atarracado demais, ou que não seja adequada para a idade), estar mais arrumado que o outro.
. beber mais que a quantidade x quando saem juntos, beber sem que o outro conte seus drinques, deixar de "se entrosar", dançar se o outro te acha péssimo dançarino, sair de um lugar antes que o outro esteja pronto para ir, esquecer coisas e depois voltar em casa para pegá-las depois que a porta foi fechada, dirigir rápido demais ou mais rápido do que o outro define como rápido, colar na traseira do outro carro ou buzinar, criticar o modo como o outro dirige, sinaliza ou troca de pista, ficar irritado quando dirige, nem xingar outros motoristas, ouvir rádio no carro.

É assim que se obtém amor.


Laura Kipnis, no livro Against Love, 2003.



6.9.04



Samba di Una Nota


Per un samba piccolino
una nota basterà
Altre note troverò
ma la base è tutta qua
E quest'altra è conseguente
puoi comprenderlo da te
perchè tu sei conseguenza
inevitabile di me.

Per non imitare
chi non parla
che in maniera imprecisata,
approssimata...
Cerco tra le note d'ogni scala
ad una eseminata
e abbandonata

E ritorno alla mia nota
come tu torni da me
e non cerco che una nota
come cerco sempre te
Che m'importa d'ogni nota
re mi fa sol la si do
me ne basta solo una
e su quella canterò.


-- Versão italiana de G. Calabrese ao "Samba de Uma Nota Só", de Tom Jobim e Newton Mendonça.



3.9.04


Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?


Tom Jobim, de Los Angeles, 1965, em carta a Vinícius de Morais.



2.9.04

A biblioteca de Babel





a Jorge Luis Borges


Se eu digo que nos galhos de um cedro do Líbano costumavam se aninhar todas as aves dos céus. Que à sua sombra se acolhiam todos os animais dos campos e descansava toda a espécie de gente. Se eu digo que meus ouvidos mortais não foram preparados para o som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos. Que, antes disso, as ruas abertas de minha infância transformaram em mármore as tardes que hoje busco na memória. Se eu digo que minha raça, classe e sexo são definitivamente a garatuja de tudo aquilo que sou. Que tudo aquilo que sou poderia muito bem acomodar-se no espaço entre uma vírgula e um ponto num rodapé desnecessário. Que não tenho a pretensão das páginas elegantes para pendurar minhas reflexões rudimentares de minha vidinha rudimentar, muito menos quinhentos séculos de dúvidas. Se eu ainda assim digo que não acredito num livro total porque sempre desconfiei dos místicos e do seu Deus circular de lombada contínua, é porque, depois de tudo o que acabei de dizer ou que me disseram, o meu universo não é uma biblioteca, ou porque qualquer coisa que eu venha a dizer ou escrever não passam de letras soltas de uma história inteira de que quase nem lembro.

M.P.




1.9.04


por que eu não posso esquecer


que Deus sonda os meus rins


penetra até o fundo do meu coração


e ouve as minhas palavras?





31.8.04

Parece-me por vezes que ouço dizer o vinho (ele fala com a sua alma, com essa voz dos espíritos que só pelos espíritos é ouvida) : " -- Homem, meu bem-amado, quero lançar para ti, apesar da minha prisão de vidro e dos meus ferrolhos de cortiça, um canto cheio de alegria e de esperança. Não sou ingrato; sei que te devo a vida. Sei o que te custou de trabalho e de sol nas costas. Tu deste-me a vida, eu te recompensarei. Pagar-te-ei largamente a minha dívida; porque eu sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta sedenta pelo trabalho. O peito de um bom homem é uma morada que me agrada muito mais do que estas caves melancólicas e insensíveis. É um alegre túmulo onde cumpro o meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande reboliço, e dali, por escadas invisíveis, subo-lhe ao cérebro onde executo a minha dança suprema.

"Ouves tu agitarem-se em mim as poderosas canções dos tempos antigos, os cantos do amor e da glória? Sou a alma da pátria, meio galante, meio militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho faz os dias prósperos, o vinho faz os domingos felizes. Com os cotovelos assentes na mesa de família e as mangas arregaçadas, tu me glorificarás altivamente e estarás verdadeiramente contente.

"Iluminarei os olhos da tua velha mulher, a velha companheira dos teus desgostos cotidianos e das tuas velhas esperanças. Enternecerei o seu olhar e porei no fundo das suas pupilas o fogo da juventude. E ao teu filho, palidozinho, esse pobre burrico atrelado à mesma fadiga que o cavalo da charrua, dar-lhe-ei de volta as belas cores do seu berço, e serei para esse novo atleta da vida o óleo que reforça os músculos dos antigos lutadores.

"Cairei no fundo do teu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o sulco dolorosamente lavrado. A nossa íntima reunião criará a poesia. Nós dois faremos um Deus e voaremos para o infinito, como os pássaros, as borboletas, os fios da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."

Eis o que o vinho canta na sua linguagem misteriosa. Ai daquele cujo coração egoísta e fechado às dores dos seus irmãos nunca ouviu esta canção.


Charles Baudelaire, em "Do Vinho e do Haxixe, Comparados como Meios de Multiplicação da Individualidade", 1851.


28.8.04



Cheguei na beira do porto
Onde as ondas se espáia
As garça dá meia-volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai, ai
Aí quando eu vim de minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d`água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai


-- Pena Branca e Xavantinho, em "Cuitelinho".
Imagem: Augusto Malta. Posto 6, Copacabana, outros tempos.


Carvalho Júnior



Antropofagia

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

-- Os átomos sutis -- os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris -- esplêndidos sobejos!




27.8.04



e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta...


Al Berto

26.8.04



Índio muda de oca e tudo continua igual.
Índio muda de taba e nada é diferente.
Índio muda de tribo e é sempre a mesma nhanha.
Índio muda de provedor e não consegue nem velocidade de pangaré.
Índio tem sistema de comentários e não consegue comentar.
Índio percebe que tudo muda pra ficar a mesma merda.
Índio quer tudo e não quer coisa alguma.
Pensa em mudar de país.
Vai pra Gelolândia.
Índio quer ser amigo de Bjork no Orkut.
And nobody's bizness if I do.



25.8.04

John Lennon - Um atrapalho no trabalho



Jesus El Pifco era um estrangeiro e sabia disso. Ele tinha imigratificado de seu pequeno barraco branco em Barcelônia uns bons dezenoivos anos atrás tendo antes o cuidado de garantir um emprego como cocheiro na Escócega. O emprego era na casa do Simsenhor de MacAnus, um típico muito qualacterístico que tinha um castelo nas Highlands. A primeira coisa que Jesus El Pifco notou nos primaveiros dias foi que o Simsenhor não parecia ter nada que se assemelhasse à descrição de um coche ou mesmo uma cocheira você sabe, para seu suprêmio desgasto. Mas -- e uso a palavra em vão -- o Simsenhor parece que tinha alguns cavalos, cada um exibindo um belo par de pernas. Jesus se apaixonou por eles à primeira vista, como eles por ele, o que era muita sorte, porque os aposentos de El Pifco eram realmente no estábulo lado a lado com seus quatro nobres amigos cavalares.

Logo longo a gente dava pra ver Jesus quase todo dia, pageando os cavalos do seu patrão, penteando suas crinas e obturando seus dentes, assobiando um velho refrão espanhol sonhando com suas úteras amadas lá na terrinha em suas bastardas e brancas cabaninhas fascistas.

-- Turminha legal de cavalos, eu diria, ele observava à pequena Spastic Sporran, a camareira escorregadiça, quem ele bem não tiritava o olho desdentão Hogmanose.

-- Dá pro gasto, ela respondiva com seu lixeiro sotictac de Aberdeen-martin. Vosmecê passa mais tempo co'esses cavalos do que mecê passa comigo, com uma dessas ela se precipirulitava para suas obrigações, amarrando bem firme seu jacinto de castidade na epidorme.

Bom católico que era, Jesus limpava o cuspo da cara e oferecia a outra alface -- mas ela já tinha ido emborbas deixando ele mais uma vez numa ágata Christi.

-- Um dilha ela vai passar da conta, e eu seixo ela, ele disse ao seu cavalo Favo o Ríctus. Claro que o cavalo não responsou, porque vocês sabem eles não falam, e vê lá se iam falar logo com um comedor de alho, fedorento, baixinho, covarde, seboso, um bastardo fascista católico espanhol. Logo fizeram as aspásias e Jesus e a tal Spastic estavam de nojo unidos naquele amor sem dolores.

-------------------------------------


(Fragmento de Um atrapalho no trabalho (1984), tradução particularíssima de Paulo Leminski ao texto A Spaniard in the Works (1965), de John Lennon. Por sua prosa pop, um mix de flash-contos, esboços de peças, poemas nonsense e desenhos, os livros de Lennon (Lennon On His Own Write e A Spaniard in the Works) têm um lugar especial na criação literária do século 20. Apesar de seus textos lembrarem o estilo de James Joyce, Lennon confessou que sua maior influência foi Lewis Carroll -- a fonte onde bebeu Joyce. Nem preciso dizer que essa tradução é na verdade uma transcriação, difícil saber onde acaba Lennon e começa Leminski.)


24.8.04

Do sovaco do Cristo: o retorno

Cá estou eu, dez dias depois, morando ao lado de um Cristo Redentor, versão reduzida. Uma imitação de pedra. Olhos de pedra, braços de pedra, sovacos de pedra. Moro debaixo do sovaco direito, o que seria esquerdo para quem sobe a rua e encara de frente o homem. Cidade pequena, uns 6 ou 7 mil habitantes, vivendo a euforia da campanha eleitoral. Carros de som passam berrando por minha porta. Trabalho com tampões de ouvido. Meu consolo é que isso passa. Fora isso, tudo corre bem. O inverno aqui é verão. O quilo do filet mignon custa 8 reais. Posso me queixar? Os mineiros recebem bem seus forasteiros. Me perguntam a toda hora por que troquei o Rio pelo interior de Minas, se no Rio também tem mil cidadezinhas. Tento explicar com lógica o que não tem muita explicação. Eles não entendem. Dizer que a vida me levou não convence muito. Estou pensando numa resposta mais convincente para tranquilizá-los: um dia, na enseada de Botafogo, a Virgem Maria me apareceu e disse: Vá embora daqui que o Rio vai se acabar. Eu fui.


11.8.04

Junqueira Freire



Martírio
Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo

Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas

Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até repúdio,
Sentir essa ironia,

Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,

Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!


Junqueira Freire, monge beneditino e poeta baiano, séc. 19.


8.8.04

Explicação de poesia sem ninguém pedir


Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.


Adélia Prado

5.8.04

Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação ou agradecimento:
(Machado de Assis)

- Uma galinha é a maneira de um ovo produzir outro ovo.
(Samuel Buttler)

- Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.
(Sartre)

- O otimista acha tudo bom exceto o pessimista. O pessimista acha tudo ruim exceto a si mesmo.
(Chesterton)

- Quando o populacho se mete a raciocinar, tudo está perdido.
(Voltaire)

- Tenho tentado viver numa torre de marfim, mas sempre uma maré de merda lhe bate nas paredes para fazê-la desabar.
(Flaubert)

- Os velhos repetem-se e os jovens nada têm para dizer. O tédio é recíproco.
(Jacques Bainville)

- Dize às vezes a verdade para que te creiam quando mentires.
(Jules Renard)

- Um idiota pobre é um idiota. Um idiota rico é um rico.
(Paul Laffitte)

- O imigrante é um indivíduo mal informado que pensa que um país é melhor que outro.
(Ambrose Bierce)

- É agradável ver o nome da gente impresso. Um livro é um livro, ainda que não contenha nada.
(Byron)

- Eu nunca viajo sem o meu diário. A gente sempre tem que ter alguma coisa sensacional para ler no trem.
(Oscar Wilde)

- Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.
(Balzac)

- Que homem Balzac teria sido se soubesse escrever!
(Flaubert)

- Não gosto de Deus porque não o conheço, nem do próximo, porque o conheço.
(Montesquieu)

- O homem só inventou Deus para poder viver sem matar-se.
(Dostoievski)

- O autodidata é o ignorante por conta própria.
(Mário Quintana)

- Quando o apocalipse vier, Senhor, que eu tenha pelo menos escovado os dentes!
(Eno Teodoro Wanke)

- Detesto citações.
(Emerson)



4.8.04

Agustín Garcia Calvo




Maletas
Bagagem
Bagaxe
Bagaje
Bagatge

En una equipaje caben todos los diccionarios.


De vuelta

Saber el nombre de los pueblos
por los que va pasando el tren
gracias al nombre de las estaciones
por las que va pasando el tren.


Recelos justificados

Prescindir de lo propio
no por propio o por impropio,
sino por enteramente ajeno.
---------------------

"La cultura es una fantasía que está a expensas del poder. "
"El artista es un estorbo para su obra."
"El cultivo del prestigio de los autores clásicos y contemporáneos es un juego de vanidades y engaños." Saiba mais do poeta e filólogo em uma entrevista de 2003 publicada no site Babab.


3.8.04



O maior poeta possível -- é o sistema nervoso.
O inventor do todo -- mas antes o único poeta.


Paul Valéry


2.8.04

Nomes de blogs, pelo mundo

A Leonor morreu (fomos nós que a matamos), Diário de cores impossíveis, O siri cascudo, Os prós e os contras de respirar, Camisas pretas cuecas brancas, Clit Pussy, Lomoblografia, Trepanação digital, Pretzels me dão sede, Lésbicas russas, Eu não sou ninguém -- e você?, Apartamento 4, Large Cunt, Pink Cunt, Wife Cunt, Bunda latina, Punhaladas em 35mm, Meu psiquiatra é um duende, Relatos de um obeso ocioso, A planta, Faca na liga, Prozac e pompons, Se você precisa perguntar é porque não merece saber, Humphrey Bloggart, Te peguei no quiosque da esquina, Uma dose liberal, Dona-de-casa com tesão, Vagina de mulheres, Vagina careca, Vagina seca, O fator vagina, À prova de falos, Império da sujeira, Reflexões sobre mamãe, Amantes de metanfetaminas, Divirta-se com Pinto, Ideorréia, Sim senhor eu gosto, A mente de Olivia Drab, 84 razões, Estilos dos professores, Por los temerosos rincones de mi cerebro, Meu cérebro é sua pista de dança, As far as the bastards are going, My thingy, Sangra Valentina, Pseudolua, Cu molhado, Cu jovem, Kiss my blog, Nômade ancorado, Quem se não eu? Ufa, há uma lista interminável de blogs aqui, com suas atualizações. Divirta-se.


1.8.04

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reincarnar, reincarnei sem mim, sem ter eu reincarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção infinítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo ? vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda. E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.
Poder saber pensar! Poder saber sentir!
Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...


Bernardo Soares (Fernando Pessoa), em O livro do desassossego.


30.7.04


 
 Tudo no mundo começou com um sim.
 
 
-- extraído das "Entrevistas Sensoriais" do Arte da Palavra, com meus agradecimentos. 

 

28.7.04

Memórias de uma forca
(fragmento)

Sou duma antiga família de carvalhos, raça austera e forte --  que já na Antiguidade deixava cair, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era uma família hospitaleira e histórica: dela tinham saído navios para a derrota tenebrosa das Índias, contos de lanças para os alucinados das Cruzadas, e vigas para os tetos simples e perfumados que abrigaram Savanarola, Espinosa e Lutero. Meu pai, esquecido das altas tradições sonoras e da sua heráldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana. Não respeitava as nobres morais antigas, nem a ideal tradição religiosa, nem os deveres da história. Era uma árvore materialista. Tinha sido pervertida pelos enciclopedistas da vegetação. Não tinha fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do Sol, da seiva e da água. Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, enquanto sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, acolhia os grandes concertos de pássaros boêmios, cuspia a chuva sobre o povo curvado e humilde das ervas e das plantas e, de noite, enlaçado pelas heras lascivas, ressonava sob o silêncio sideral.  Quando vinha o inverno, com a passividade animal dum mendigo, erguia, para a impassível ironia do azul, os seus braços magros e suplicantes!

Por isso nós, os seus filhos, não fomos felizes na vida vegetal. Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços; ramo contemplativo e romântico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, pelo escárnio, pela farsa e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de sol, de poeira, áspero solitário da vida, lutador dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre nós para ir ser tábua de esquife! -- Eu, o mais lastimável, vim a ser forca!

 
Eça de Queiroz, em "Prosas Bárbaras".

 

27.7.04

O medo é o único e verdadeiro adversário da vida. Só o medo pode derrotar a vida. Ele é um adversário inteligente e traiçoeiro, eu bem sei. Vai atrás de nosso ponto mais fraco, o que encontra com infalível facilidade.  Ele começa em nossa mente, sempre. Num momento estamos calmos, com autocontrole, felizes. Então o medo, disfarçado de dúvida, entra furtivamente em nossa mente feito um espião. A dúvida se encontra com a descrença e a descrença tenta enxotá-la. Mas a descrença é um soldado de infantaria pobremente armado. A dúvida acaba com ela sem muito problema. Ficamos ansiosos. Surge a razão para lutar por nós. Sentimo-nos tranqüilizados. A razão é totalmente equipada com a tecnologia das armas mais modernas. Contudo, para nosso espanto, apesar de sua tática superior e de inúmeras vitórias inegáveis, a razão é derrubada. A gente se sente enfraquecendo, oscilando. Nossa ansiedade se transforma em pânico.

O medo em seguida volta-se com força total para o nosso corpo, que já sabe que algo de terrivelmente errado está acontecendo. A essa altura os pulmões já voaram para longe como um pássaro e as tripas fugiram ziguezagueando como uma serpente.  A língua então cai morta feito um gambá, enquanto o maxilar se põe a galopar em seu lugar. Os ouvidos ensurdecem. Os músculos começam a tremer como se dominados pela malária e os joelhos a sacudir como se dançassem. O coração se esforça demais e o esfíncter relaxa demais. E assim acontece com o resto do corpo. Cada parte de nós, da maneira que mais lhe convém, se desintegra. Só os olhos funcionam bem. Sempre prestam atenção correta ao medo.

Logo passamos a tomar decisões precipitadas. Descartamos nossos últimos aliados: a esperança e a confiança. Aí, nós mesmos já nos derrotamos. O medo, que não passa de uma impressão, triunfou sobre nós.

 
Yann Martel, em Life of Pi, 2001.

 

26.7.04



E esse vento indo e vindo pela porta
 
 
 
- verso de Jorge de Lima
 

25.7.04

Marilyn?
 


Dizem os arquivos do FBI que Marilyn Monroe, antes do estrelato, fez um filme erótico por volta de 1948-49, supostamente antes de filmar com Groucho Marx. Um filme em 16mm, P&B, com 7 minutos de duração, e que foi descoberto por um fotógrafo sueco em 1980.  A notícia foi publicada em inúmeras revistas internacionais nos anos 90. Bom, essa dona aí não parece MM, mas também há que se pensar que ela de fato fez muitas plásticas corretivas, condição sine qua non para entrar no circuito hollywoodiano. Mais informações estão neste site espanhol, que pelo visto está é querendo vender o seu peixe, quer dizer, a fita. Sei não...

 

23.7.04



No começo eu até gostei da pinta dele, daquela cara de quem abusava do açúcar. Olhos de frade. Ele me pediu que eu mudasse de nome. Eu mudei. Dizia que eu tinha nome de boneca velha e que só de pensar ficava broxa. Durante seis anos fui Deborah. Ele nunca broxou com Deborah. Depois passou a implicar com a minha profissão. Não se conformava por eu saber exatamente qual era o tamanho do nariz de Cleópatra. Eu parei de trabalhar e mudamos de cidade. Eu queria amá-lo e sofrer ao lado dele. Principalmente sofrer, porque no amor sigo a cartilha de são Paulo: "Eu completo na minha carne o que faltou à Paixão do Cristo." Vivemos juntos por algum tempo. Nosso lar, uma câmara de eco.  Eu gostava de ver navios, os dias foram passando e me acostumei a não olhar mais pra mim.  Mas todo céu tem um inferno logo ali e uma noite o eclipse de nós dois acabou.  O saco de pipoca estourou no cinema. Hoje sou Emília de novo. Cirurgiã plástica. Rio de Janeiro. Consultas às segundas, quartas e sextas, no mesmo endereço e telefone. Obrigada. 

 

22.7.04

William Carlos Williams




O carrinho de mão vermelho



tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

reluzente de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

 


 

21.7.04

O gordo-chavão
 
 
precisão cirúrgica
vegetação exuberante
marca indelével
desabalada corrida
ironias do destino
grito lancinante
banho de sangue
festim macabro
membro túrgido
idéia inusitada
dorme como um anjo
pranto convulsivo
separar o joio do trigo
 
Estes são apenas alguns dos mais de 800 clichês que Sérgio Barcellos Ximenes, do excelente Blog do Romance, teve a paciência de catalogar dos dois romances de Jô Soares: O Xangô de Baker Street e O homem que matou Getúlio Vargas.  Um número que impressiona, principalmente quando se sabe que não representa o total de clichês utilizados pelo autor, apenas um apanhado.  Uma pequena aula de técnica literária. Vale conferir.