31.5.04

Lundum de Cantigas Vagas


Xarapim eu bem estava
Alegre nest'aleluia,
Mas para fazer-me triste
Veio Amor dar-me na cuia.

Não sabe meu Xarapim
O que amor me faz passar,
Anda por dentro de mim
De noite, e dia a ralar.

Meu Xarapim já não posso
Aturar mais tanta arenga,
O meu gênio deu à casca
Metido nesta moenga.

Amor comigo é tirano
Mostra-me um modo bem cru,
Tem-me mexido as entranhas
Qu'estou todo feito angu.

Se visse o meu coração
Por força havia ter dó,
Por que o Amor o tem posto
Mais mole que quingombó.

Tem nhanhá certo nhonhó,
Não temo que me desbanque,
Porque eu sou calda de açúcar
E ele apenas mel do tanque.

Nhanhá cheia de chulices
Que tantos quindins afeta,
Queima tanto a quem a adora
Como queima a malagueta.

Xarapim tome o exemplo
Dos casos que vêm em mim,
Que se amar há-de lembrar-se
Do que diz seu Xarapim.

(estribilho)

Tenha compaixão
Tenha dó de mim,
Porqu'eu lho mereço
Sou seu Xarapim.


Domingos Caldas Barbosa, em Viola de Lereno, 1826.

Nota: Xarapim: xará, em tupi. Aleluia: alegria, bem-estar. Cuia: no texto, cabeça. Dar à casca: morrer, perder tudo, arruinar-se. Moenga: moenda. Quingombó: quiabo. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Nhonhó: tratamento dado aos senhores pelos escravos. Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Quindins: dengues, meiguices, encanto.

30.5.04



Primeiro amor


Quando um homem ama uma mulher
Primeiro, ele a coloca no colo
Toma o cuidado de levantar o vestido
Para não estragar a calça
Pois um tecido sobre um tecido
Gasta o tecido.
Em seguida, verifica com sua língua
Se as amígdalas foram bem extraídas
Se não seria realmente contagioso.
E depois, como é preciso ocupar as mãos,
Ele procura, o mais longe que pode procurar
E rápido acaba por constatar
A presença efetiva e real da cauda
De um camundongo branco manchada de sangue
E ele puxa, delicadamente, pelo fiozinho
Para engolir o tampax.


- texto: Boris Vian
- imagem: AlexWilson, em deviantART

28.5.04

Minha alegria


minha alegria permanece eternidades soterrada
e só sobe para a superfície
através dos tubos de filtros alquímicos
e não da causalidade natural.
ela é filha bastarda do desvio e da desgraça,
minha alegria: um diamante gerado pela combustão,
como rescaldo final de incêndio.


Waly Salomão










Maria Mencia

26.5.04

Para adorar o que queimei


Há livros que lemos sentados num banquinho
diante de uma carteira escolar.

Há livros que lemos andando
(e também por causa do formato);
Uns são para as florestas e outros para outros campos,
Et nobiscum rusticantur, diz Cícero.

Alguns há que li na diligência;
Outros, deitado no fundo dos celeiros de feno.

Há os para fazer crer que temos uma alma;
Outros, para desesperá-la.

Há os em que se prova a existência de Deus;
Outros, em que não se consegue fazê-lo.

Há livros que não é possível admitir
senão em bibliotecas particulares.

Há os que receberam elogios
de muitos críticos autorizados.

Alguns há em que só se trata de apicultura,
que certas pessoas acham algo especializados;
noutros fala-se tanto da natureza
que não vale mais a pena passear depois.

Outros há que os homens sensatos desprezam
mas que excitam as criancinhas.

A alguns chamam antologias
e neles incluíram tudo o que de melhor se disse
a propósito de tudo.

Há os que desejariam fazer-nos amar a vida;
outros depois dos quais o autor suicidou-se.

Alguns semeiam o ódio
e colhem o que semearam.

Alguns, quando os lemos, parecem brilhar,
carregados de êxtase, deliciosos de humildade.

Há os que amamos como irmãos
mais puros e que viveram melhor do que nós.
E os há impressos em caracteres extraordinários
e que não compreendemos, mesmo depois de tê-los estudado muito.

Ah! quando teremos queimado todos os livros, Nathanael!

Alguns há que não valem um vintém furado,
outros alcançam preços consideráveis.
Alguns falam de reis e de rainhas
e outros de gente muito pobre.

Alguns há cujas palavras são mais suaves
do que o ruído das folhas ao meio-dia.
Foi um livro que João comeu em Patmos
como um rato; mas eu prefiro as framboesas.
Isso encheu-lhe as entranhas de amargura
e ele teve depois muitas visões.

Ah! quando teremos queimado todos os livros, Nathanael!


André Gide



Perdas&Ganhos

A última janela é alta e sem parapeitos,
nessa hora o medo não tem mais tempo,
mas talvez as pernas traiam no subir dos ventos.

A vida esquece os músculos lá pelos meios,
a lembrança dos laços é a única força dos membros.

A mão vai deixar seus últimos apetrechos:
uma agulha, um terço ou a bengala do companheiro.

Convém que as vestes acompanhem o corpo.
A alma pode esfriar com a sombra,
saltando na tempestade prevista por aquele tolo homem do tempo.

.........

Esboço

Eu tinha te preparado uma casinha besta:
o amor espiando na fresta da janela
os endereços da próxima cena.
fechadura sem saída
com bilhete pingando as letras:
"não sai da poeteira".
duas velas alternando sol e lua
escorrendo os segundos da impaciência.
um sacrário na despensa
escondendo a simpatia do nome preso.
na soleira de porta
tapete bordado
em terceto desesperado:

o ciúme
costura
minha pele sobre a mesa

.........

Vizinha de infância

Dona Celeste
a vida no varal expunha.
Secava carne, roupas
e cascas de laranja.

Cantava de pregadores na boca,
um amor de apertos.
E nas suas estirações,
fazia duetos com Altemar Dutra.

O amarrado de ervas,
nos cantos das cordas,
protegia a penduração.
Tinha peças que não torcia
por respeito às dores alheias.

Seis horas badalava o rádio.
Dona Celeste de terço na mão,
afastava a voz do peito.
Como se pecado houvesse no varal.

A torneira fechava o dia,
no seu tanque encostava minhas cismas:
Por quem Dona Celeste chora quando canta?
Por que esquenta carne se depois a serve fria?


Kátia Marchese, enfim de volta, à beira de sua Janelaria.

25.5.04

Dr. Funk


Sim, eu vou a bailes funk sim. Por que não? Primeiro comecei a ir pra ver qual é. Hoje vou porque não passo sem, virou vício. Cansei-me das festinhas nas casas de amigos, de jantares de casais em restaurantes finos, cansei-me principalmente das trocas de casais. Das surubas de improviso com mulheres perfumadas e bombadas em academia. Enfim, cansei-me do clássico. Por isso que agora tomo uma ducha rápida e deixo de lado a Jacuzzi porque hoje não é dia de relaxar. Preciso ficar ligado para a noite. Uma noite sem televisão ou filmes no DVD, sem delivery ou livros de auto-ajuda, sem internet ou papos ao telefone. Alguns poucos amigos ainda me ligam para saber se eu parei com a mania de freqüentar bailes funk na periferia. A maioria deles, porém, desistiu de se preocupar comigo quando percebeu que eu não abriria mão de meus pequenos prazeres exóticos. Ainda bem. Na época em que a liga da moral e a mídia começaram a atacar o funk e funkeiros, o meu telefone não parava de tocar. "O que você tanto faz nesses bailes funk? Ficou maluco? Você não tem mais idade pra isso. Virou pedófilo? Não sabe que é perigoso? Vai cruzar a cidade num Audi até a zona oeste? E vai sozinho? Desarmado? Não tem medo de ser morto?" E por aí vai. Nem me dou mais ao trabalho de responder. Na frente do espelho encolho a barriga, mínima, e puxo o zíper dos jeans para cima com o cuidado de não esfolar a carne, pois não uso cuecas. Tomo uma dose de Jack Daniel's puro, cowboy, enquanto pesquiso no closet um blazer que valorize meu tom de pele. Ando tão pálido. Tenho negligenciado minhas sessões de bronzeamento artificial, ir à praia nem pensar. Estou tão branco que seria capaz de ser facilmente reconhecido no escuro, o que não é nada bom. Hum...minha pele está um pouco seca mas no todo não está nada mal. As adolescentes com quem converso nos bailes dizem que lembro o Brad Pitt "mais coroa". Um exagero. Mas elas são adoráveis. Umas coisinhas. E fazem de tudo para chamar minha atenção assim que desponto na pista. Não se cansam de me agradar, o que deixa os marmanjos do lugar muito putos. Só que nenhum deles se mete comigo porque para freqüentar a periferia um cara como eu tem de saber molhar a mão das pessoas certas se quiser sair vivo dos lugares. Mas como eu ia dizendo, as meninas não se cansam de me agradar, devem achar que sou rico, que danço bem, que não me importo de suar feito um porco no meio daquela gente toda com seus odores desprezíveis, que tenho o corpo malhado e bem esculpido, diferente de seus amiguinhos subnutridos, que sou um cara bacana e descolado que não se importa de dividir com elas a mesma lata de cerveja barata apesar de ser um homem de fina educação, que faço gostoso mesmo para um gringo, e que no final da noite posso escolher uma delas para ficar, que já devo ter comido todas, que me visto bem "só com roupa de grife" e que não ligo se sujá-la com molho de X-tudo, que gosto de misturar minha língua na delas enquanto mascam chicletes sebentos, que adoro me esfregar naqueles tops vulgares, que estou sempre duro sem viagras porque sou forte o suficiente para derrubá-las na cama e mantê-las lá, presas do meu fascínio, amarradas o tempo que for necessário para eu fazer o meu trabalho, que não vai adiantar nada se elas gritarem porque o meu papo não é chato apesar de tudo e convence pois sou um cara antenado e devo trabalhar na Globo onde elas poderão descolar uma ponta na novela das oito, que meu sorriso afinal é irresistível e minhas mãos macias, mãos de médico, que meus dedos são tão firmes e delicados que não vacilam na hora da incisão, que devo ser médico sim porque elas não sentem dor alguma quando eu lhes retiro os órgãos e os coloco ainda sangrando nuns recipientes gozados que vão pro fundo da geladeira, que eu devo ser então um médico muito importante de um hospital muito chique onde elas poderão fazer uma lipo de graça um dia, que devo ter amigos também tão legais e importantes como eu que se preocupam comigo e com minha idéia maluca de viver enfiado em bailes funk.

24.5.04

Uma família feliz

Referência ao grotesco (desenquadrado-da-realidade-como-que-a-piscar-o-olho-ao-ridículo-ou-ainda-um-hino-aos-tocadores-de-trombone-profissionais)

Célia tem mãe mas não tem pai. O pai de Célia não existe, mas mora a 12 quilómetros. A mãe de Célia não tem marido mas mora com um homem a quem Célia chama pai. O pai que existe não gosta de Célia. Célia não tem irmão, mas o pai de Célia tem um filho a quem Célia chama pelo primeiro nome. A mãe de Célia não tem filho mas tem filho. O pai que não existe não conhece o pai que existe, por respeito à lei da anti-matéria. A esposa do pai que não existe não é casada e não tem filhos. Não conhece Célia. Mas Célia conhece a esposa que não existe do pai que não existe. Célia chora apenas em frente do irmão que não é irmão. A mãe de Célia chora em segredo, canalizando telepaticamente as suas lamúrias ao marido que não o é e que não existe como pai da sua filha. O marido que tem é intermitente e olha Célia apenas do pescoço para baixo. A mãe de Célia sabe coisas mas não conta.

...............

Choque de culturas

Chill Out pré-dormência de fim de semana chuvoso

Alguma vez vos contei a história do homem apaixonado pelo mundo? Um homem que passava a vida em êxtase a contemplar as maravilhas da natureza, um homem que vivia num estado idílico embriagado por excesso de poesia, um homem que via arte nos mais subtis detalhes da banal rotina do dia-a-dia. Um homem rendido às obras literárias e à pintura distorcionista franco-espanhola do início do século XX.

Um dia foi atropelado por uma carrinha de distribuição da DHL, conduzida por um jovem de t-shirt dos Sepultura que rebentava as colunas com "Bulls on Parade" dos Rage Against The Machine, enquanto procurava um isqueiro no porta-luvas. Uma cópia ensanguentada de "Noites Brancas" de Dostoievski foi encontrada na carrinha, com um separador na página 36.


Castor de Mármore

23.5.04

À América Marrom



América eu te dei tudo e agora não sou nada
América quando acabaremos com a guerra humana?
América as pétalas das ameixeiras estão caindo
América eu era comunista quando criança e não me arrependo
América, estou falando com você
Passa pela minha cabeça que eu sou a América
América tudo isso é muito sério
América será que isso está certo?
Estou falando sozinho de novo.


- texto: versos esparsos de Allen Ginsberg
- imagem: Washington Post, 20 de maio de 2004

21.5.04

consulta ao leitor


Estava com uma dor assim no peito, meio funda, meio rasa. Lá pelo miolo das vértebras, sabe como é? Daquelas dores chatas o suficiente para não te deixar dormir, você fica sem posição na cama, quanto mais respira mais dói, você imagina o pior, começa a suar de nervoso, daí a dor piora e, pronto, não há depois quem tire da tua cabeça que você vai infartar dali a duas horas como o teu pai e o teu avô infartaram. É verdade que a minha dor no peito vinha do estômago, mas na hora nenhuma lógica diferente me ocorreu. Minhas cartelas de diazepam e frontal, arreganhadas sobre o criado-mudo, me exibiam seus buracos vazios. Hora de visitar o passador de receita aqui do bairro, que, na falta de outro, atende pelo nome de Dr. José das Couves, especialista numa clínica que desconheço: a cardiopsiquiatria. Ora, eu nunca ouvi falar nessa daí, mas que a recepção estava cheia, isso estava. Gente safenada e artrítica, gente safenada e esquisita, me olhando de um jeito esquisito. Convencida de minha coronariopatia, sentei-me ao lado de meus colegas e, para me distrair, procurei por diplomas nas paredes. Eu queria saber que raio de especialidade é esta de que nunca ouvi falar ou sequer li nas publicações de medicina - minha literatura favorita - que tenho lá em casa. Nada. Nas paredes só vi quadrinhos com ideogramas chineses, para analfabetos em chinês, e duas plaquinhas, uma ao lado da outra. A primeira dizia: "Se te escutarem, fala. Se não te ouvem, cala." A outra, mais enigmática: "Na vida às vezes é preciso se recortar para se recompor." Me remexi na poltrona, desconfiada, guardando as mãos nos bolsos do casaco. Bom, resumindo, uma hora e quatro pacientes depois, o cardiopsiquiatra me atende, tira a pressão, me apalpa, conta umas piadas e passa a receita dizendo que eu tenho hérnia de hiato, por isso as dores no peito. Não há necessidade de um eletrocardiograma, bobagem. Na farmácia que ele indica, devo comprar os remédios para o estômago com 60% de desconto, cortesia do Dr. Couves, que é candidato a vereador pelo partido da oposição. Faço cara de coitadinha-é-perturbada-das-idéias e peço uma receita para os tranquilizantes. Ele hesita mas faz. Ano eleitoral. Antes de me despachar, me distribui umas amostras grátis de digestivos e me dá de presente um livro de um mestre taoísta sobre métodos de vida natural, harmonia mente-corpo, o yin que atrai o yang e o yang que atrai o yin. Afundo o iogue na bolsa com uns restos de barras de chocolate e puxo lá de dentro o cheque. À noitinha, enquanto degusto minha sopinha de legumes com diazepam ralado na frente da tevê, aproveito para folhear o livro do Mestre Oki e leio no prefácio que o sábio oriental morreu aos 64 anos! Só o que me faltava, minha avó, que era uma bronca de quatro costados, viveu muito mais do que isso. Minha mãe, roída por um câncer, viveu muito mais do que isso. E as duas nem precisaram escrever um livro para contar suas histórias. Ou será que escrever é que faz mal à saúde?

20.5.04



Internato

Uma quinze anos, dezesseis a outra,
Dormiam as duas no mesmo quarto.
Numa noite abafada de setembro:
Frágeis, olhos azuis, rubor de frutas.

Para ficar a gosto as duas tiram
As finas camisolas perfumadas.
A mais moça abre os braços e se arqueia
E a beija a irmã, com as mãos nos seus seios,

Depois cai de joelhos, fica atrevida
E tumultuosa e doida e sua boca
Afunda no ouro claro, em meio às sombras;

Mas a menina, nos dedos mimosos
Vai recontando as valsas prometidas
E, corada, sorri com inocência.


Paul Verlaine



Quando a cabeça do meu melhor amigo explodiu de encontro à bala perdida, pensei logo na melhor maneira de descrever aquilo em meu blog.


Daniel Pellizzari

19.5.04

Esquecimento

Um homem chamado Hua-tzu passou a sofrer da memória ao atingir a meia-idade. Ele esquecia durante a noite o que tinha feito durante o dia, e esquecia de manhã o que havia feito à noite. Na estrada esquecia como andar, em casa como sentar. Num determinado momento ele ficava inconsciente do que tinha feito no momento anterior, e um pouco depois ele não sabia o que iria fazer no presente.

Toda a sua família estava perturbada com o seu estado. Eles chamaram um adivinho mas não tiveram qualquer prognóstico. Convocaram um xamã para rezar por ele, mas isso não fez com que o processo de esquecimento parasse. Chamaram um médico para tratá-lo, mas ele não o curou.

Havia um confucionista que reconheceu que poderia curar o homem esquecido, e a sua mulher e filhos lhe ofereceram a metade das suas propriedades pelo remédio. O confucionista disse: "Este caso não pode ser por esconjuros, não pode ser aliviado pela prece, não pode ser tratado pela medicina. Eu tentarei transformar a sua mente e mudar o seu pensamento e espero que ele fique melhor."

Então o adepto de Confúcio o testou expondo-o aos elementos, e o homem pediu roupas para se abrigar. Quando ele o fez passar fome, o homem pediu comida. Quando o fechou num local escuro, o homem pediu luz. O confucionista alegremente anunciou aos seus filhos: "Esta doença pode ser curada. O meu remédio, entretanto, é secreto e não pode ser revelado aos outros. Por favor saiam todos e deixem-me só com ele durante sete dias." A família fez o que ele disse e com isso ninguém pôde saber que medidas o confucionista havia tomado, e um dia a doença que havia acometido o homem foi embora.

Quando o homem acordou, ele expulsou a sua mulher de casa, puniu os filhos e foi atrás do confucionista com uma machadinha. As pessoas que estavam no local seguraram-no e perguntaram qual o motivo de tanta confusão. Ele disse: "No meu passado, quando eu estava completamente esquecido de tudo, eu estava claro e livre, inconsciente da existência ou da não-existência do céu e da terra. Agora que estou subitamente consciente, todas essas décadas de ganhos e perdas, dores e alegrias, quereres e não-quereres, subitamente me ocorrem numa grande confusão. Eu tenho agora medo de que o futuro possa me trazer ganhos e perdas, que perturbarão a minha mente completamente. Será que eu terei um momento de esquecimento novamente?"


-- tradição oral retirada dos Lieh-tzu, um clássico do taoísmo.

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente

Bénédicte Houart

17.5.04

Robert Bringhurst

Pitágoras

lemuribus vertebratis ossibus inter tenebris

I
O que resta: as trinta e nove regras, um relógio solar
desamarrado como um cordão de sapato, uma teoria do número
desmembrada e dispersa como dados. E a velha
conversa-fiada a respeito da transmigração da alma.
E uma lenda: Pitágoras se recusava a comer carne
e por isso tinha as pernas bambas.
Escombros
de pensamentos recolhidos, frontões quebrados, cacos
de telhas assentadas com argamassa agora carregada pelas chuvas.

Aves marinhas sobrevoando a relva crescida,
nada ereto
exceto estes pilares:
a mente de Pitágoras repousa sobre duas colunas de palavras.

II
Não o cálculo. Números. Inteiros
atrelados em estruturas cristalinas: cobre, antimônio...
Inteiros cravados como pregos num vazio inflexível.

Discípulos obtusos, séculos após, sentando-se
para contar o catálogo,
murmurando multiplicadores.

III
A unidade é uma substância, não uma propriedade. A luz
é finita e móvel. A escuridão
é o verbo eterno.

A singularidade é reta.
A pluralidade se curva
e a escuridão é plural.
E somente a mão esquerda se move.
E a escuridão...esta...estas
escuridões estão em toda parte.

O ponteiro do relógio solar é símbolo,
assim como a régua de cálculo do carpinteiro. A aguçada
escuridão é simplesmente o índice.
A luz não se move, e a luz é a ferramenta.

IV
O princípio, portanto:
transparência.

Lavrar a obsidiana
à limpidez duma garra;
não deixar sulco, pegada, ou galho partido,
ou qualquer vestígio de repouso entre dois intervalos de movimento
que a língua não faça sombra
à palavra, nem a mão faça sombra à pedra.

A escuridão se arqueia sobre a cabeça, disse Pitágoras.
Esquecei a cabeça. Pintai retratos da mente.
A escuridão flui entre dedos fechados.
Representai-me o deus sem o corpo. Apenas
a tangência intangível, escultura como a corda dedilhada
e fala à maneira de canto inaudível.
Afina-se o plano pelo retesamento da reta.


V
Oitavas de silêncio
não existem e não ecoam. Intervalos
de escuridão desagregam-se
infinitamente. Não bebais
a escuridão
, disse Pitágoras,
a alma não pode tornar-se pura escuridão.
Talvez
. Talvez.

Robert Bringhurst

Este assunto já transbordou os pinicos, mas é sempre bom saber dos segredos de Larry Rohter.

15.5.04

Luiz Ruffato

Via internet

Estou te falando, cara, vinte e cinco!, vinte e cinco só através da internet, nos chats e ICQ. E olha que eu não sacaneio não, vou logo avisando: sou baixinho, gordinho, míope... mas muito viril! E sem viagra! Faço de tudo na cama... Bom, aí eu tasco poesia. Vinícius de Moraes é infalível. Mas se precisar, uso golpe baixo. Comprei num sebo as obras completas do J.G. de Araújo Jorge... E, se a fulaninha é dessas mais...intelectualizadas...Byron! Você sabe...aquela conversinha...no fundo no fundo as mulheres só querem ser bem comidas por alguém carinhoso, romântico... Mas que não seja boiola! Porque hoje em dia se o cara é romântico, é veado, e se é macho, insensível...troglodita... Eu junto as duas coisas: sou macho e romântico... Ressuscitei a palavra como instrumento de sedução, entende? A melodia de um verso mordiscada no lóbulo da orelha... Ai! Eu elejo a beleza delas com frases emprestadas dos outros... Claro, elas não precisam saber disso, mas eu acho que, mesmo se soubessem, nem ligariam. As poesias foram escritas não pra ficar sepultadas nas páginas dos livros, mas pra se tornarem parte da nossa memória coletiva... Eu avivo todo o meu conhecimento de moleque míope que ficava em casa lendo, enquanto a molecada ia pro campinho jogar futebol... Tem um tempo em que as mulheres dão muita atenção aos músculos, bíceps, tríceps, essas bobagens... Depois, descobrem que até cachorro sabe trepar. E trepar bem, se levar em conta os filmes que a gente vê por aí... Então, elas começam a procurar algo mais, entende? No chat, eu faço o primeiro contato, me apresento, ali a gente já sabe se somos ou não, digamos assim, almas gêmeas... Aí, se der, trocamos o número do ICQ, o e-mail... Começam as negaças, os falsos mal-entendidos, os ditos com segunda intenção, os nhenhenhéns, os hehehés... É um jogo danado, meu irmão, fascinante, melhor que todos os outros games do mundo, porque o prêmio, se você consegue chegar no final, é uma mulher na sua cama...louca pra fazer tudo que você quiser...tudo! E eu digo: não posso reclamar de nada...Já comi uma menina de dezesseis anos, cabaço, acredita?, e uma bem-casada, cinqüenta e três anos, enxutíssima, uma bunda e uns peitos de fazer inveja a muita adolescente aí; já comi uma médica e a secretária dela; já comi preta, branca, japonesa, gaúcha, nordestina e até uma judia; já broxei -- com uma paulistana bonita, gostosa, mas, porra, ela fedia a cerveja, tentei uma, duas, três vezes, estava com a cabeça em outro lugar (a cabeça do pinto, é claro), falei pra ela, caralho, isso nunca me aconteceu antes!; já consegui dar cinco numa noite (com uma japonesa, que parecia ser a luxúria em pessoa!); já tive de trocar o número do telefone (por causa de uma tal de Letícia, que me ligava toda hora e enviava uns cem e-mails por dia); já tive que negar casamento a três; já banquei o psicólogo para convencer uma a não se separar do marido; já peguei doença... Cada história, cara, que se um dia eu sentar pra te contar você escreve um livro inteiro só sobre isso... Vinte e cinco, cara, vinte e cinco! Já tive de abandonar o barco três vezes, porque não correspondiam à descrição, e uma vez me sacanearam, um cara se fez passar por mulher e no dia e hora marcados três brutamontes me cataram, encheram de porrada, quebraram meus óculos... Fiquei de licença médica por três dias (aleguei que tinha sido atropelado, não anotaram a chapa), uma merda... Mas o que fazer?, eu adoro buceta... Bom, cara, vou andando, está na hora de me conectar, você acerta aí? então, um abração, companheiro, me liga, heim, dá licença, por favor, dá licença, com licença


Luiz Ruffato, em eles eram muitos cavalos, 2001.

13.5.04

Anônima Delirante



À esquerda, a rainha-mãe, em toda a sua alteza real, adentrando o salão nobre da Universidade de Cambridge para o coquetel de lançamento do meu livro no Reino Unido. Mal pude acreditar, mas aí está a foto que não me deixa mentir. Ao lado um flagrante da presença discreta do meu queridíssimo Joyce, outro que não poderia faltar em se tratando de free cocktails...(não, ele não recitou Finnegans Wake). A nota desagradável da noite ficou por conta da antipatia ambulante das irmãs Brontë, bem visível no retrato feito na ocasião, uma vez que as sirigaitas penetras eram supersticiosas e não se deixavam fotografar por nada. Noël Coward me confidenciaria, entre um scotch e outro, que as três bruxas só apareceram porque souberam da presença da aristocracia. Humpf.

Espanha em meu coração

Parto, todos os dias, em busca daqueles que compartilharam comigo parcelas de suas vidas, afastando-se logo depois, silenciosos, a maioria deles para não me reencontrar jamais.

Meus olhos de criança seguem os gestos de meu avô, um operário da antiga Vigorelli, consertando nosso fogão na primeira casa de que me recordo. Logo depois, enquanto minha mãe lava o chão da cozinha, ele me ensina a contar, acompanhando o vai-e-vem da cadeira de balanço. O sol do princípio da tarde rompe o enorme vitrô e vou adormecendo, ouvindo os números que o velho espanhol canta, balançando a cadeira, ritmando, sem querer, os movimentos do rodo que minha mãe empunha, puxando para o quintal a água ensaboada. A luz do sol reverbera pela cozinha azulejada de branco, a água que o rodo leva também brilha, e meu avô recomeça a contar...

Ele morava em uma casa simples, na Vila São João Batista, a caminho da Colônia, em minha cidade natal, Jundiaí. Sala, dois quartos, cozinha e banheiro, mas tudo tão humildemente limpo, de um assoalho tão brilhante, que eu pisava devagar, sem forçar muito os pés sobre a madeira espelhada.

Os tamancos de minha avó esperavam na soleira da porta dos fundos, e ela os calçava quando ia cuidar da roupa, no quintal. A cozinha recendia a pedaços de toucinho, dependurados sobre o fogão, e o barulho da máquina de costura corta a rua quieta, onde a tarde vazia vinha descansar. Os pés de minha avó ainda movem o pedal de ferro, forçando a máquina a trabalhar.

Aos sábados, por vezes aquele homem tranqüilo nos visitava e, para minha tristeza, após o almoço, meus pais não renunciavam ao hábito de me fazer dormir à tarde. Resignado, eu subia para o quarto e, na penumbra, mantinha o ouvido colado à veneziana, tentando escutar não as conversas, mas somente as doces inflexões da voz de meu avô.

Uma lembrança triste me diz que aproveitei muito pouco do seu rosto de bondade, no qual um derrame, anos depois, plantou um enigmático sorriso. Mas reencontro, ao escrever, a textura da pele mal escanhoada e o seu cheiro, sentido em centenas de repetidos abraços, mescla de fumo e algum envelhecido conhaque, enquanto ouço, meio adormecido, o seu sotaque andaluz, a sua voz tisnada pelo sol da Espanha, a me cantar números infinitos...


Rodrigo Gurgel

12.5.04



Esta "pérola" saiu da boca do reverendo Pat Robertson, senador e líder da Coalizão Cristã, um paladino da ultradireita republicana e, é claro, da turma de Bush.



11.5.04

Escritor de nome disse dos meus amigos e de
mim ou que éramos gênios ou bestas. Acho que
tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos,
o anseio do farol. Se fôssemos tão carneiros a
ponto de termos escola coletiva, esta seria por
certo o "Farolismo". Nosso desejo: alumiar. A
extrema esquerda em que nos colocamos não
permite meio-termo. Se gênios: indicaremos o
caminho a seguir; bestas: naufrágios por evitar.



Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.


Mário de Andrade

Recordação do país infantil


A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.

Um camisolão. Conchas.

Vamos à praia das Tartarugas!

O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia.

O carro plecpleca nas ruas.

O trem vai vendo o Brasil.

O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus.

Depois todos morrem.


Verbo Crackar

Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa

Sê pirata
Sêde trouxas

Abrindo o pala
Pessoal sarado.

Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular.


Oswald de Andrade



10.5.04

Caçadores de ilhas


A ilha procurada
foge de quem a procura
por ser ilha ensimesmada.

Caçadores de ilhas
conhecem a lição
ilhada:
são caçadores de Tétis
na ilha dos amores
que não se dá por achada.

Há duas feições de ilha
em escala solidária.

Uma feição de ilha
é a ilha jorge de lima
que já no mundo lusíada
por máquina do mundo
passava.

Nessa ilha,
caçadores de ilha
como máquina
põem no futuro a mira
sobre a ilha
de uma utopia caçada.

Outra feição de ilha
é a ilha drummondiana
escassa.
Sem as águas de ilha navegada
é ilha camoniana
já clássica.

É ilha do mesmo mundo
que se abre como máquina,
sendo pedra que se fecha
para a perda do poeta
que se busca
sem palavra.

Em dupla escala
as duas feições de ilha
são a mesma solidária:

tanto numa como noutra
nenhuma utopia é dada.
Toda ilha é ilha
ensimesmada.


Mário Chamie




8.5.04

Anônima Delirante



Em mesas separadas, a lindíssima Brigitte Bardot, e Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Boris Vian e sua Michelle, por ocasião da noite de autógrafos de meu primeiro livro, realizada no Cafe de Flore do Boulevard St-Germain, em Paris. Merleau-Ponty não apareceu, naturellement. Jamais me perdoaria por não ter escolhido o Cafe Deux Magots para celebrar o evento. Tant pis.





7.5.04

O professor filósofo


De todas as ciências que se inculca na cabeça de uma criança quando se trabalha em sua educação, os mistérios do cristianismo, ainda que uma das mais sublimes matérias dessa educação, sem dúvida não são, entretanto, aquelas que se introjetam com mais facilidade no seu jovem espírito. Persuadir, por exemplo, um jovem de quatorze ou quinze anos de que Deus pai e Deus filho são apenas um, de que o filho é consubstancial com respeito ao pai e que o pai o é com respeito ao filho etc., tudo isso, por mais necessário à felicidade da vida, é, contudo, mais difícil de fazer entender do que a álgebra, e quando queremos obter êxito, somos obrigados a empregar certos procedimentos físicos, certas explicações concretas que, por mais que desproporcionais, facultam, todavia, a um jovem a compreensão do objeto misterioso.

Ninguém estava mais profundamente afeito a esse método do que o abade Du Parquet, preceptor do jovem conde de Nerceuil, de mais ou menos quinze anos e com o mais belo rosto que é possível ver.

— Senhor abade — dizia diariamente o pequeno conde a seu professor. — Na verdade, a consubstanciação é algo que está além das minhas forças. É-me absolutamente impossível compreender que duas pessoas possam formar uma só: explicai-me esse mistério, rogo-vos, ou pelo menos colocai-o a meu alcance.

O honesto abade, orgulhoso de obter êxito em sua educação, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agradável de dirimir as dificuldades que embaraçavam o conde, e esse meio, tomado à natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a quatorze anos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.

— Pois bem — disse-lhe o abade. — Agora, meu amigo, concebei o mistério da consubstanciação: compreendeis com menos dificuldade que é possível que duas pessoas constituam uma só?

-- Oh! meu Deus, sim, senhor abade — diz o encantador energúmeno. — Agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente. Não me admira esse mistério constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois é bem agradável quando se é dois a divertir-se em fazer um só.

Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda "no mistério" que ele não compreendia muito bem e que só poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como já o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem e a lição recomeça, mas, desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.

— Parece-me que vai demasiado rápido —diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde. — Muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjunção, não sendo mais tão íntima, apresenta bem menos a imagem do mistério que se procura aqui demonstrar. Se fixássemos, sim... dessa maneira — diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta à jovem.

— Ah! Oh! meu Deus, vós me fazeis mal— diz o jovem. — Mas essa cerimônia parece-me inútil. O que ela me acrescenta com relação ao mistério?

-- Por Deus! — diz o abade, balbuciando de prazer. — Não vedes, caro amigo, que vos ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho... é a trindade que hoje vos explico. Mais cinco ou seis lições iguais a esta e sereis doutor na Sorbonne.


Marquês de Sade, em "Contos Libertinos".


o leitor em prosa caótica



Bauer e a máquina

Herr Bauer não sabe o porquê dessa máquina, ela é um enigma que agora ele não pode mais decifrar, ele já não entende nem mesmo como ela funciona. Na verdade não se lembra de tê-la visto funcionando, mas sabe que ela alguma vez funcionou. Herr Bauer não se lembra de uma razão para ela ser. No começo havia uma razão, mas Herr Bauer ficou tão entusiasmado mexendo com algumas pecinhas e com umas várias idéias, que mais e mais idéias foram surgindo sem parar e assim naquele turbilhão de criações loucas essa razão de ser de toda aquela tempestade e de sua máquina se perdeu na sua memória. Morreu! Morreu em sua mente cedendo lugar a alguma coisa quotidiana qualquer, ou quem sabe a uma idéia filha dela própria, mas isso não serviu para salvá-la se foi assim que aconteceu. Também não serviu para salvá-la a documentação do projeto, que é um maço de folhas em branco numa pasta velha - que ele encontrou por um acaso procurando uma canetinha de escrever em cd no quartinho de bagunça - mais uma folha no topo onde se lê "Stroplusceratróica". E não poderia ser diferente a documentação desse projeto fantástico, a "Stroplusceratróica" não foi planejada, não foi sequer imaginada. A "Stroplusceratróica" é uma manifestação espontânea do poderoso inconsciente de Herr Bauer concretizada. Todas as idéias que lhe vinham à cabeça eram logo transformadas em ações! É uma máquina grande, complicada e pesada, que o Herr Bauer adora e da qual se orgulha, porque sabe que é fantástica e que ninguém jamais criou ou criará coisa igual. É quase uma obra de arte. Mas ele não se lembra pra que serve.

Billy, por e-mail


Casamento

Foi quando fiquei sabendo que Alice havia se casado com um rapaz de carreira promissora no ramo da venda de seguros de vida.Tudo bem, até os amigos um dia se casam. Mas o que mais chamou a minha atenção nesse fato que ocorrera com minha antiga amiga é que ele remonta ao meu passado; faz com que memórias dura e penosamente trancafiadas no mais oculto e obscuro nicho do meu subconsciente - muitas destruídas pelo amargor da precoce vida adulta - voltem à tona, trazendo-me de volta a figura de um colegial suburbano, ébrio e inconseqüente - que teima em continuar vivo dentro de mim.

A notícia veio da boca de um amigo que se encontrava no mesmo bar que eu. Era um dia de sábado, cuja tarde suscitava a uma reflexiva e nostálgica caminhada pelo centro da cidade. De dentro do bar eu podia sentir o vento soprando e fazendo balançar as enormes folhas das palmeiras que se estendiam pela alameda, irritando os olhos dos transeuntes sempre apressados, levando embora as folhas secas no chão bem como os anos de minha vida, como se esses fossem grãos de areia que foram se acumulando com o passar do tempo em minha face; deixando-me opaco, sem vida.

Aquele deslocamento de ar fez o tempo regredir: agora eu era um simples estudante, de tênis All Star, calça jeans e camiseta dos Ramones, que fazia do porre aos sábados sua maior preocupação na vida. Meu amigo também rejuvenescera; como tudo que estava ao meu redor. Eu podia ver novamente as garotas que me deixavam num profundo estado de torpor quando passavam e espalhavam pelo ar o cheiro doce de uma água-de-colônia qualquer. Na rua os carros ainda passavam soberbos, brilhantes, exibindo rostos jovens à procura de companhia para a noite.

Eu observava a tudo calado. Me limitava apenas a dar um leve e cético sorriso. Era impossível acreditar que os deuses haviam me dado outra chance." Malditos! Sentados numa mesa de bar e decidindo o que fazer com a vida de nós, pobres mortais, que merecem a piedade do Onipotente, obrigado." Alice entrou no bar e nos avistou. Deu um beijo breve no meu rosto e no de meu amigo e entrou na conversa. Pedimos os drinques. Nossa conversa tola, sobre coisas e pessoas tolas, se estendeu pela noite e esvaziou nossos copos e encheu o cinzeiro. Em meio a eloqüência do momento lhe perguntei sobre seu marido. Ela apenas se levantou e me deu um beijo.

E então ele veio à galope.Veio como uma bala de fuzil a atingir uma vidraça, espalhando os estilhaços pelo chão.O tempo, com um forte sopro, levou embora não só minha juventude como também mostrou o que ele havia roubado de mim; o que eu pensava que havia perdido. Arrependido do furto que fizera, me devolveu tudo como era antes - gente enlouquecida, conta de gás e previdência social.

Velho de gravata vermelha levanta-se, faz um comprimento cordial aos companheiros de desespero e parte para a rua pensando se a noiva iria gostar de uma cafeteira de segunda mão.

John Sobrante, por e-mail


5.5.04



rua gustavo sampaio: as duas rodas do táxi se aproximam. percebo sua forma, cor e velocidade na noite melancólica. minhas botas travam no asfalto coberto de areia. do outro lado do hotel, o táxi contorna o forte do Leme. ondas batendo no costão: são para mim, não são eu. não me vejo mais na praça andando de patins. hoje o mostrador embaçado dos relógios sinaliza a gringos, putas e pivetes a temperatura da avenida Atlântica. o carro escorre por Copacabana e eu desvio a cabeça das descargas de gás carbônico. a família inerte no papel de parede. passo pela esquina da rua onde costumava fumar trepada nos capôs. meus colegas da escola não estão mais lá. dentro do táxi um cheiro de lavanda insuportável. volto minha atenção para o livro que estou lendo para distrair uma vontade passageira de fazer cocô. dados da ONU: o patrimônio de somente 300 bilionários excede a renda de metade da população do planeta. tráfico internacional de lixo: a Ásia é o maior depósito de lixo tóxico do Ocidente. faço umas anotações à margem para a reunião de pauta: + economia do crime, comércio global de crianças, mulheres, órgãos etc. massa crítica de gente descartável. uma van ultrapassa o táxi pela direita e quase entra na traseira de um ônibus. ouço freios e palavrões de todos os lados. meu corpo se projeta para a frente e por pouco não vai parar no painel, sufocando as carinhas dos bebês do motorista. me recomponho no cenário e faço uma ligação pelo celular. enquanto espero que atendam procuro na porta do Roxy pelos mendigos deficientes que costumavam ficar por ali desenhando com os pés. ninguém atende. e os mendigos já se foram. preciso parar com esta mania de voltar ao passado pelas esquinas. o motorista pára o táxi na rua Miguel Lemos e espera, folheando umas fotos de Juliana Paes nua que pegou na internet. eu não desço. dou uma desculpa qualquer e seguimos para Botafogo, pela praia. ele não se queixa, diz que o dia até que está calmo, pois não pegou nenhum tiroteio. eu relaxo e acendo um cigarro. posso fumar?


A produção de um livro é assim:

Primeiro o livro chega ao editorial. É traduzido (a maioria não é de autor nacional), depois copidescado, depois segue para a produção e passa por pelo menos duas revisões tipográficas, segue para a gráfica, dali para o depósito, daí para a livraria.

Se o tradutor é ruim, a editora contrata um bom copidesque para consertar a lambança. Muitas vezes o copi não consegue, porque é lambança demais e ele não é Cristo, e o livro sai uma merda.

Se o tradutor é bom, a editora contrata um copi ruim, que acha que é bom, faz uma lambança e o livro sai uma merda.

Na produção, muitos revisores (não todos, pelamordedeus e graçasadeus) não gostam de livro. Fazem uma revisão do tipo gráfico e o resto que se foda. Se o revisor da primeira prova é bom, o da segunda não precisa ser, o da segunda não pega as lambanças que restam e o livro sai uma merda. Se o revisor da primeira é ruim, o da segunda tem que ser bom, o da segunda não consegue pegar todas as lambanças porque o prazo se estreita à medida que o livro caminha para a gráfica, e o livro sai uma merda. O da terceira prova, se houver, em geral só passeia.

O conflito de classes numa editora é agudíssimo. Marx teria poupado um tempo enorme se, em vez de passar anos estudando a história do capital e do trabalho, ficasse apenas um mês dentro de uma editora. Os revisores odeiam os copis, os copis odeiam os tradutores e os tradutores odeiam os copis e os revisores. A produção odeia o editorial e o editorial odeia a produção.

O dono finge que tudo são flores, chora miséria para justificar a merda que paga, concorda com todo mundo e só faz o que lhe dá na veneta.

É assim que se produz um livro.


Mundo Podre


4.5.04





Mas

Não há nada além deste pacto da imaginação.


Sobre o instante

clic
da luz
do intervalo
que revela
sua obscuridade.


Tramas

Uma palavra
trai
a outra versão
de si.
A transversão de si:
seu não
seu necessário
seu inaudível.


Entender

Buscando, ouvindo
essa antiga
cadência
de suas palavras
no metódico
na cifra
na citação
de uma voz anterior.


Coisa

Essa forma é a voz.


Horas

Eu aqui
no trabalho lento da matéria:
madeira
nada.


Formas

E tudo é uma cifra da memória.
E tudo é citação da memória que se repete.


Rodolfo Enrique Fogwill


3.5.04

Roteiro básico para uma vida sem livros



Um país que deseja acabar com os livros não precisa nem de prática nem de habilidade, basta seguir passo a passo os 20 mandamentos abaixo:

1. Aumente o número de editoras até chegar à seguinte equação: haverá no país mais editoras que livrarias.

2. Cada editora deve diminuir a tiragem de cada livro e aumentar os títulos publicados periodicamente.

3. Abarrote as livrarias, diminuindo o tempo de exposição de cada exemplar, pois haverá um rodízio natural.

4. As livrarias não comprarão mais livros, passarão a alugar suas estantes.

5. As livrarias pequenas tenderão a se extinguir ou mudar de ramo, pois não possuirão espaço suficiente para expor todas as novidades. Só sobrarão as megastores.

6. Em virtude do acúmulo de títulos, os jornais só darão a resenha ou crítica 3 ou 4 meses depois do lançamento.

7. Como o livro já estará na livraria há 3 meses, mas ninguém vai saber, ele será devolvido para a editora, pois não terá vendido o suficiente para continuar sendo exposto com destaque, mesmo porque já haverá outro livro mais novo no lugar, que só será resenhado pela mídia 3 ou 4 meses depois e assim por diante.

8. O setor de marketing das editoras escolherá previamente o livro em que irá investir todos os seus recursos de divulgação na mídia. O resto cairá na vala comum.

9. Os suplementos literários passarão a resenhar somente os livros de editoras que anunciarem em suas páginas.

10. Só serão vendidos nas livrarias os títulos que tiveram farta exposição na mídia, ou seja, os que já nasceram best-sellers.

11. As livrarias aumentarão cada vez mais sua porcentagem, chegando a 60%.

12. As editoras passarão a procurar uma tecnologia cada vez mais moderna para baratear os custos, mas deixarão o preço final igual ao de sempre.

13. As distribuidoras contratarão equipes cada vez menos especializadas, de preferência vendedores que nunca tenham lido um livro na vida. Alegarão que isso atrapalha.

14. O direito autoral dos escritores será diminuído dos atuais 10% para 5%.

15. As editoras extinguirão os departamentos de avaliação de originais, pois só serão publicados livros de gente conhecida, celebridades, não necessariamente escritores.

16. As editoras contratarão escritores que passarão a escrever somente livros com potencial de venda, com elementos ditados previamente pelos departamentos de marketing.

17. Só serão publicados livros de ficção que sejam baseados em fatos reais, de preferência chocantes, com a verdade nua e crua como fio condutor da trama e que possam aflorar no leitor uma emoção muito grande.

18. As livrarias passarão a incrementar cada vez mais seus espaços com bares, cafés, restaurantes, pontos de encontro, vendendo games, bichinhos de pelúcia, miniaturas, cigarros importados, bonequinhos, pôsteres, baralhos e outros acepipes.

19. Aos escritores sérios, só restará a alternativa de se mancomunarem em confrarias, onde ficarão se autocitando, autoparodiando, auto-elogiando e punhetando-se uns aos outros.

20. Só terão amplo destaque na mídia os escritores que acabaram de morrer e que, em vida, jamais viram seus nomes impressos nos jornais.


ROTEIRO DAS MELHORES LIVRARIAS


FNAC (Rio e São Paulo)
Local ideal para você comprar o seu aparelho de DVD, TVs com tela plana de 89 polegadas e micros digitais importados do Japão.

LETRAS & EXPRESSÕES (Rio)
Num ambiente agradável e arejado, você poderá escolher charutos cubanos, incrementar sua coleção de motos em miniatura, comprar mimosos bonequinhos de cristal e ainda vai curtir saborosas delicatessens. Não deixe de experimentar a torta de limão.

LIVRARIA DA VILA (São Paulo)
Amplo sortimento de enroladinhos de salsicha, espetinhos de queijo de coalho, amendoins, empadas da fazenda, café de coador, tudo muito caseiro, muito simples, você vai se sentir em casa.

LIVRARIA DA TRAVESSA (Rio)
Lugar ideal para você degustar a maravilhosa salada básica da casa, com generosas porções de rúcula, tomate seco e mussarela de búfala. Tem as atendentes mais gostosas do Rio de Janeiro.

SARAIVA MEGA STORE (Rio e São Paulo)
É lá que você vai encontrar o maior acervo de CDs da praça, todos com preços que variam entre R$ 39,70 (os nacionais) e R$ 91,70 (os japoneses). O melhor café expresso que você já tomou na vida. Tem também revistas importadas.

ARGUMENTO (Rio)
Tem vários tipos de cerveja, tira-gostos incríveis e sanduíches variados. Imperdível a panqueca de espinafre com requeijão.

SICILIANO (Rio e São Paulo)
Infelizmente, esta livraria não acompanhou a tendência atual, mas tem sempre um Habib’s por perto, onde você vai poder se embrenhar na exótica cozinha árabe. Esfihas de carne, queijo e escarola a R$ 0,49 e quibes sempre crocantes a R$ 0,89 na promoção.



Furio Lonza


2.5.04

A vita stá dificille p'ra burro! Us frigueiz nom vó maise nu saló afaze a barba. Tuttos gompra una navaglia Gigollette per trezentó i faiz a barba in casa a settimana intirinha. A literattura non dá maise nada! Anticamente io afaceva unos versinho p'ros namurado dá p'ras anamuradas i acanhava unos caraminguado. Oggi inveiz illos non quere sabe maise di verso -- pega a piquena, amunta na baratina e sái, comme un empiastro...


Juó Bananére, barbieri i giurnaliste, 1933, Zan Baolo.


1.5.04



Quero, para compor os meus castos monólogos
Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,
E, junto aos campanários, escutar sonhando
Solenes cânticos que o vento vai levando.
As mãos sob meu queixo, só, na água-furtada,
Verei a fábrica em azáfama engolfada;
Torres e chaminés, os mastros da cidade,
E o vasto céu que faz sonhar a eternidade.

É doce ver, em meio à bruma que nos vela,
Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,
Os rios de carvão galgar o firmamento
E a lua derramar seu suave encantamento.
Verei a primavera, o estio, o outono; e quando
Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,
Cada postigo fecharei com férreos elos
Para na noite erguer meus mágicos castelos.
Hei de sonhar então com azulados astros,
Jardins onde a água chora em meio aos alabastros,
Beijos, aves que cantam de manhã e à tarde,
E tudo o que no Idílio de infantil se guarde.
O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,
Não me fará volver a fronte ao que passa,
Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento
De relembrar a Primavera em pensamento
E um sol na alma colher, tal como quem, absorto,
Entre as idéias goza um tépido conforto.


Charles Baudelaire, em "Quadros Parisienses" das Flores do Mal.