
Mulheres velhas têm a boca fria por favor não me beije agora. Estou comendo um ovo cozido na janela enquanto ele passa a mão na minha bunda operada. Continue olhando os carros na rua, vai, escolha um bem tunado pra quem sabe eu comprar pra você. Esse rapaz não sai da minha cama. Não se mexe nem pra me comprar um saco de batatas. As cascas do ovo caem sem querer no pára-brisa de um Fusca lá embaixo. Vizinhança pobre. Que merda. Os parapeitos todos cagados de pombos. Toda cidade tem crianças assassinas que fazem a alegria das moscas, reflito de boca cheia. Hoje é dia de ver o R. R. Soares na TV e ele me arrasta pra cama. Pergunto se ele sabia que mulheres não batizadas como eu não têm alma, só vapor. Fico sem entender por que ele riu se não há nada pra achar engraçado. Se eu vomitasse naquela bíblia ensebada dele que ele nunca lê, talvez achasse engraçado também. Não estou num dia bom. Quando o programa acaba e ele já tomou posse da bênção, levo minha cabeça esvaziada e maligna pra escovar os dentes e volto pra cama. Fico lendo num song book versos das canções de Janis Joplin, de quem ele nunca ouviu falar. Minutos depois está cabeceando cabeceando. Adormece no meu ombro. Pena que na minha geladeira não tem capim. Amanhã, é claro, ele vai preferir dormir. Aqueles olhos azuis não devem se cansar lendo.
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