30.4.05

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29.4.05

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O monge e a velha


Passeando um monge pela beira-rio,
Viu uma velha que lavava a roupa;
Viu-lhe a perna de garça e o fogo viu
Onde uma coxa vem juntar-se à outra.
O monge inflamado ergue a própria roupa,
Pega o instrumento e se achegando a ela:
Velha, diz ele, acende a minha vela.
E, para dar-lhe gosto, a velha então
Vira-lhe o cu e pede por cautela:
Chega mais perto e assopra o meu carvão.



Clément Marot, séc. 16.

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27.4.05

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Aforismo


Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

(1968)




Fábula


Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.



José Craveirinha, considerado o maior poeta da língua portuguesa na África e um dos maiores escritores africanos.

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26.4.05

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Microliteratura 1: Dom Quixote, Miguel de Cervantes


"a otro parecerá siempre otra cosa"


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25.4.05

becominglessness


Subo lentamente os degraus da escada. Não tenho curiosidade de contá-los. Falando sério, entre nós dois, nunca tive curiosidade de nada. Rigorosamente nada. Muito menos da vida alheia. Nada herdei das pias matronas romanas. Nem as noções de datilografia de suas filhas, minhas mães. Maria teve um filho de quem se tornou filha, você sabe. E se Cristo tivesse batido com a cabeça na quina da manjedoura?

A metafísica dada não se olha os dentes.

Quando o coração acelera, prefiro calar-me.

Favela é um termo que surgiu no século 19, vem de favos de abelha. Você gosta de me ilustrar com essas coisas enquanto passamos rapidamente de carro pela boca banguela. Olhos azuis refrescam.

A beleza da vida está nos detalhes: quanto maior o meu saldo no banco, menos taxas pagarei, mais créditos obterei. Equalitas diversorum. Mas dinheiro não é sarampo, Danuza me disse.

Arrasto o corpo escada acima pelo tropismo da auto-expressão: "Minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque pra mim."

Meus avós bebiam sangue enquanto as mulheres preparavam os bordados, a mesa, a sopeira fumegante, o pão, o vinho. Também nada herdei da Pomerânia. Quando nasci, já trazia o vício de peneirar lembranças, todos aqueles corpos se atraindo na razão direta das massas, minha alminha ali, ocupando espaço nenhum. E o mestre Voltaire:

"Toda religião quando não é loucura, é malandragem."

Quem tem um olho na panela e outro na chaminé é zarolho, parece que diz um ditado.

O mundo precisará fazer uma cirurgia de redução do estômago para que eu caiba nele, Clarice. Por enquanto tenho um projeto de estudo: o zapatismo na era intergalática. (Wanderléia faz propaganda de remédios genéricos.) De que serve la rivoluzione culturale no tecido eletrônico das novas lutas? As Irmãs Sandino vão ter de me explicar esses planos sem piloto. U.S. Bureau of Labor. Vão ter de me explicar direitinho o que é que eu faço com essas singularités, com o meu coração sozinho e sem tentáculos no meio de tanta swarm intelligence, smart mobs, webs of power.

Devo evitar a fadiga.
Bed-ins. Kiss-ins.

Hora do almoço: o problema das anoréxicas é que o seu espírito é gordo. O Geist. Sonho com anoréxicas num trem-fantasma.

Sinto que minha demência precoce começa a decolar, como se fosse isca de armadilha. Verlaine diria: "Venez, chère grande âme, on vous appelle, on vous attend." Mas não confio nos poetas. Rimbaud era daltônico: I é verde! U é vermelho! Regalem-se pois as formas e os movimentos que eu não vou traduzir ninguém. Não são os nervos que saltam depressa, são as pulgas. E pulgas não são nervosas. São pulgas. Aquela ternura saltitante mordendo mordendo. Tenho inveja das pulgas. Das histórias sem princípio meio e fim.

Minha terra é bacana e assim. Meu trabalho é achar quem goste dela por mim.

Metafísica não desce escada.


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23.4.05

Manicure


Fui atender uma ligação no celular ontem e senti um cheiro de cocô. Não era aquele cheiro forte de quando se pisa em merda e sai-se por aí carimbando a calçada, era algo mais sutil. Um cheiro leve mas decidido: era bosta, sem dúvida.

Cheirei a mão e lá estava o motivo. Debaixo do canto da unha, marotamente escondida, estava a prova orgânica da minha dedada matinal em Teresa. Se a Interpol precisasse me foder, nem precisava solicitar exame de DNA. Teresa tem um amarelo clarinho que é só dela.

É por essas e outras que sou um cara prevenido. Saquei do bolso do paletó minha escova de dentes, entrei no McDonald's mais próximo e fiz a higiene do dedo, cantinho por cantinho, bastante água e sabão.

Preciso parar com essas sacanagens na escada do prédio da empresa.


Jair Beirola, para quem aprecia pornoerotismo e escatologia com bom humor.

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sando passando passando passando pas




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20.4.05

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arqueologia do poder


Bento I (575-579) - fracassou em todas as suas tentativas de restabelecer a ordem na Itália e França controladas pelas invasões bárbaras e ensanguentadas pelas disputas internas.

Bento II (684-685) - seu primeiro ato foi conseguir do imperador um decreto que abolia o privilégio de imperadores confirmarem a escolha do papa.

Bento III (885-858) -- fomentou a luta contra os sarracenos. Amado pelo povo, tentou ser derrubado por antipapistas mas foi defendido pelo povo.

Bento IV (900-903) -- em meio a corrupção generalizada, conservou a integridade da Santa Sé. Transformou Ludovico de Borgonha em imperador de Roma.

Bento V (964-966) - passa por períodos turbulentos e só assume após a pressão de francos e romanos. Mesmo assim Bento V e Leão VIII intitulam-se papa simultaneamente.

Bento VI (973-974) - converteu os húngaros ao cristianismo. Acabou encarcerado e estrangulado pelo seu sucessor, o papa Bonifácio VII (que mataria outros papas e acabou também deposto e assassinado).

Bento VII (974-983) - reprimiu os abusos e a ignorância reinantes na Itália e no mundo cristão, deu grande impulso à agricultura. Bento VII e Bonifácio VII intitularam-se papa simultaneamente.

Bento VIII (1012-1024) - comprou o ofício papal. Derrotou os sarracenos que atacaram o litoral da Itália, proibiu que os padres se casassem. Simultaneamente os católicos elegem Gregório VI como antipapa de Bento VIII.

Bento IX (1032-1045) -- compra o ofício papal e elege-se papa aos 12 anos. Foi obrigado a renunciar por interesses econômicos e políticos e denúncias de corrupção.

Bento X (1058-1059) - antipapa. Devido a um cisma, foi eleito pelo partido romano; os reformistas elegeram como papa Nicolau II. Bento X passaria em brancas fumaças.

Bento XI (1303-1304) homem de paz, tentou resolver os conflitos entre Roma e França. Morreu envenenado.

Bento XII ( 1334-1342) -- combateu heresias, o nepotismo e a simonia.

Bento XIII (1724-1730) - aboliu a pena de excomunhão para quem cheirasse rapé na Basílica Vaticana; proibiu o jogo a dinheiro. Aceitou ser papa por imposição do Superior Geral de sua Ordem.

Bento XIV (1740-1758) - atraiu os protestantes para a Igreja. Proibiu a escravização dos índios.

Bento XV (1914-1922) -- assumiu uma postura de neutralidade durante a Primeira Guerra Mundial, apesar de suas tentativas para negociar a paz. Fez a reforma administrativa da Igreja.

Bento XVI (2005-?) - ex-filho de policial, ex-Juventude Hitlerista, ex-soldado de infantaria na Alemanha nazista, ex-desertor do exército nazista, ex-prisioneiro de guerra dos alemães, ex-padre, ex-professor de teologia, ex-reitor de universidade, ex-arcebispo, ex-prefeito do ex-Tribunal da Inquisição (hoje Congregação para a Doutrina da Fé), ex-teólogo conselheiro especialista no combate ao marxismo e ao ateísmo no movimento estudantil dos anos 60, opositor à teologia da libertação e a inúmeras outras denominações cristãs, ao controle da natalidade, ao feminismo e à união homossexual, ex-braço-direito de João Paulo II, ex-cardeal.

Vamos pedir piedade, Senhor, piedade...

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19.4.05

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-- Minha santa paciência, quantas vezes vou ter de explicar a esses idiotas que fumaça preta é sinal de filtro sujo ou problemas no sistema de injeção, e fumaça branca é defeito no sistema de arrefecimento?

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18.4.05

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"Se uma alma
Quer se conhecer
É numa alma que ela deve se olhar":
Foi no espelho que
Vimos o inimigo e o estrangeiro.
Eram rapazes valentes, companheiros, não se queixavam
Nem da sede nem da fadiga nem do frio,
Faziam como as árvores e as ondas
Que aceitam o vento e a chuva,
Aceitam o sol e a noite,
E em meio à mudança, permanecem sem mudar.
Eram rapazes valentes. Dia após dia,
Suando nos remos, os olhos baixos,
Respirando em cadência,
O sangue colorindo-lhes a carne dócil.
Um dia cantaram, de olhos baixos,
Enquanto passávamos pela ilhota deserta das figueiras da
Barbárie
Rumo ao poente, depois do cabo dos cães que ladram.
Se ela quer se conhecer, diziam eles,
É numa alma que deve se olhar,
E os remos braceavam o ouro do mar em meio ao crepúsculo.
Dobramos muito cabos, muitas ilhas, o mar
Que dá em outro mar, gaivotas e focas.
Mulheres lacrimosas lamentavam-se às vezes
E choravam os filhos perdidos,
Outras, em furor, reclamavam Alexandre
E suas glórias submersas nas profundezas da Ásia.
Abordamos plagas cheias de aromas noturnos,
Cantos de aves, fontes que deixavam nas mãos
A lembrança de grande felicidade.
Mas não tinham mais fim aquelas viagens.
A alma dos companheiros confundiu-se com os remos e com
as cavilhas,
Com a austera figura de proa,
A esteira do leme,
A água dispersando seus rostos.
Um após outro, os companheiros morreram,
De olhos baixos. Seus remos
Indicam na praia o lugar onde repousam.

Ninguém se lembra. Justiça.


Georgios Seféris, em "Argonautas", anos 30. Na mitologia grega, "argonautas" significa marinheiros da nau Argo, criada pela deusa Atena e cuja proa tinha o dom de profetizar. A foto do pôr-do-sol foi tirada neste dia 14 no Pontal do Atalaia, em Arraial do Cabo, RJ.

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12.4.05

Aos três anos de Prosa Caótica!

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Obrigada, patetas. Obrigada, leitores. É isso mesmo, no dia 14 de abril este blog comemora sua senescência blogal e eu nem estarei aqui para brindar. Farei uma curta viagem para uma praia distante de letrinhas. Volto logo. Quanto aos meus diletos leitores e amigos, podem deixar aqui nos comentários uns regalos para eu ler quando voltar, se quiserem, claro. Beijos gerais e até brevinho. Saúde!

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11.4.05

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Serguei Iessiênin: dois poemas


A confissão de um vagabundo


Nem todos sabem cantar,
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então, limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro,
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.
Amo demais minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos dos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E o mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Pégaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos.
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.

(1920)


Iessiênin nasceu em 1895 e foi um dos maiores poetas russos. Aos 30 anos suicidou-se num quarto de hotel em Leningrado cortando os pulsos e se enforcando. Alcoólatra, casou cinco vezes e três de suas esposas foram a atriz Zinaida Raich, a dançarina americana Isadora Duncan e a neta de Tolstoi. Contudo, o que é pouco mencionado foram seus relacionamentos clandestinos com homens. Antes de suicidar-se escreveu com sangue um poema de despedida dedicado ao poeta Anatoli Marienhof, com quem vivia há quatro anos:

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Até logo, até logo, meu companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

--- ( a tradução dos poemas é de Augusto de Campos)

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10.4.05

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8.4.05

O Rio de Janeiro está uma loucura

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Ir ao Rio nunca é uma empreitada tranqüila. As ruas do centro da cidade explodem gente pelos bueiros. O calor derrete o cérebro, forma uma bolha em volta do corpo e você pinga e pinga no meio-fio junto com os aparelhos de ar-condicionado. Ok, a imagem é vagabunda, meu cérebro ainda está pastoso, mas a sensação é essa. Daí, a gente foge do bafo quente direto pra dentro de um táxi geladinho e o motorista, muito solícito, nos presenteia com relatos escabrosos de seu cotidiano no ofício. Você já está com medo porque não mora no Rio, porque fugiu do Rio, porque sabe o que aconteceu com você lá e o que ainda acontece e blablablá, e o motorista lhe conta por exemplo em detalhes como foi quase degolado e baleado por uma dimenor estudante branca e uniformizada que queria roubar-lhe a féria do dia e o carro, o que ela conseguiu. E que o delegado conhecia a mencionada assaltante mirim mas não podia fazer nada porque ela era dimenor etc. e tal. Que uma loura com pinta de executiva, sua cliente habitual nas corridas, era assaltante de políticos ricos e famosos. Que uma carreta acabou de passar por cima de um ônibus que vinha na contramão matando não sei quantos porque você não se lembra. Daí você paga o táxi, sai do geladinho e entra na bolha quente de novo porque marcou com seu amigo na porta do restaurante geladinho que NÃO PERMITE QUE VOCÊ FUME. Você entra porque já se cansou e fica sem fumar. E você e seu amigo ficam putos porque ambos fumam. Mas a saudade é maior e vocês esquecem, começam a conversar e pedem salada pro garçom porque o corpo está quente e vocês não agüentariam comer nada quente. Então o amigo quer saber de você, quer saber da nova cidade em que você mora porque você abandonou o Rio e ele quer saber como você está se virando e se sentindo. Hum-hum, tá legal, você conta. Depois pede pra ele falar do Rio. Ele conta uma fofoca política quente, nem bem uma fofoca mas um rumor à boca pequena dos cariocas, que eu não posso contar aqui e isso é uma merda, mas os cariocas falam de alguém que possivelmente está com câncer e eu abro a boca ããã e fecho. O amigo conta outras coisas mais, de lavagem de dinheiro de uma famosa empresa digamos que do entretenimento e você ããã porque não sabia, mas os cariocas sabem. Os cariocas que vivem lá sabem. Você toma um chope, pede outro, ninguém fuma e um grupo de bailarinos entra no restaurante. Não para bailar. Os bailarinos comem pizza. Você olha pra eles porque há muito tempo não vê bailarinos ao vivo. O amigo conversa, você ouve. Você conversa, o amigo ouve. O Rio é o Bronx, a Broad Street. Mas você não se droga mais. Nem fuma um cigarro. Na saída do restaurante, sob um céu estrelado e quente, vocês fumam enfim e se despedem. Um avião passa bem acima da sua cabeça direto pro Santos Dumont. Você sente vontade de chorar. Estou morrendo de saudade. Você canta. Mas saudades não pagam dívidas. Você entra na bolha fria de outro táxi. Para um pouco mais de mim, tecle zero.

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3.4.05

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Não vim aqui querendo provar nada
não tenho nada pra dizer também
só vim curtir meu rockzinho antigo
que não tem perigo
de assustar ninguém...


-- os versos são de Raul Seixas, a foto da mesa de trabalho é minha, a Harley também.

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