29.9.06
27.9.06

o passado está acabando rápido demais
7 reais o papelote
trepak cospe do último andar do prédio
e esfrega a gengiva
trepak acha que eu não existo
não vou desapontá-lo
seria um crime de lesa-majestade
amar demais esgota os recursos hídricos
de nosso teatrinho eletrônico
ele desvia a câmera e seus olhos consolam
os mil lagos da dinamarca
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25.9.06

alô Rio de Janeiro
Bruna Beber, uma das novíssimas poetas de minha preferência e amiga de infância deste blog, está convidando! Eu já arrumei a carroça. Se der, chego lá a tempo. É amanhã!

alô São Paulo
Não precisa chorar, Bruna fará um replay dia 6/10 às 20h na Mercearia São Pedro, rua Rodésia 34, na Vila Madalena.
E, falando em lançamentos, Marcelo Mirisola, depois de falar cobras e lagartos da Flip que jornal nenhum quis publicar, está de blog novo e lançando O homem da quitinete de marfim, pela Record. Quem ainda não leu nada de nossa Angela Ro Ro das letras pátrias, confira "Rio Pantográfico", um dos seus melhores textos, segundo o próprio autor. Eu concordo.
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23.9.06
si ustedes lo permiten, prefiero seguir viviendo

Bar "La Calesita"
Es el fondo de un bar. Es un lugar parecido a una
cueva donde uno se sienta, bebe y ve pasar a
hombres enrarecidos por distintos problemas. Es una
gran linterna mágica.
Es una gruta retirada del mundo que cobija a sus
criaturas. Uno se siente allí ferozmente feliz.
Acaba de aparecer el primer hombre, apenas ha
aprendido a caminar, aún no sabe defenderse.
El hombre sonríe y llora y sigue la fiesta.
Cárcel del pueblo
ciudadano de la clase 39
factor rh negativo
comunica
a la división de
investigaciones policiales
antidemocráticas
haber descubierto una cárcel del
pueblo
esta ubicada cerca de mi casa
es la villa
miseria
a la que da su espalda
la manufacturera
algodonera
argentina
sociedad anónima.
Breves
una mujer
una rama
y en el otoño algo más
asomado al flexible
horizonte
algo insignificante
sustantivo como la vida
en acción como los hombres
o el río
-- Paco Urondo
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Bar "La Calesita"
Es el fondo de un bar. Es un lugar parecido a una
cueva donde uno se sienta, bebe y ve pasar a
hombres enrarecidos por distintos problemas. Es una
gran linterna mágica.
Es una gruta retirada del mundo que cobija a sus
criaturas. Uno se siente allí ferozmente feliz.
Acaba de aparecer el primer hombre, apenas ha
aprendido a caminar, aún no sabe defenderse.
El hombre sonríe y llora y sigue la fiesta.
Cárcel del pueblo
ciudadano de la clase 39
factor rh negativo
comunica
a la división de
investigaciones policiales
antidemocráticas
haber descubierto una cárcel del
pueblo
esta ubicada cerca de mi casa
es la villa
miseria
a la que da su espalda
la manufacturera
algodonera
argentina
sociedad anónima.
Breves
una mujer
una rama
y en el otoño algo más
asomado al flexible
horizonte
algo insignificante
sustantivo como la vida
en acción como los hombres
o el río
-- Paco Urondo
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20.9.06

meu bem eu vou pra tokyo
viver a vida intensamente
poeta sentada
mão no queixo
sirva-me versos ergonômicos
de bocas sem prazeres intelectuais
preciso esquecer do teu pai adoentado
descendo a rua dos fanqueiros
preciso morrer do jeito que eu sou
morrer só pra nós dois
nos braços do teu irmão
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imagem de Sergio Fonseca
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19.9.06
18.9.06
estética dá vontade de comer
me muero por guarânias paraguaias
versos chacos de amor e morte
corpos afundados até a alma
saias descendo de cavalos
possíveis para as massas
possíveis para as mamas
gertrude stein é manha
galinha preta de encruzilhada
descarnada
sophisticated
estética carrancuda
dos zé coiós de rayban
ecstasy fossilizado
porque se o rosa é maior do que a rosa
asmática de repetição
pra quê manadas de bishops no curral do bom-letrismo
macacas do aibici, a poesia não é de ninguém
só armadilha de passarinho
poetas enterrados vivos, rebolem-se
mastiguem vidro
que essa anemia tem cura
no pound final.
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me muero por guarânias paraguaias
versos chacos de amor e morte
corpos afundados até a alma
saias descendo de cavalos
possíveis para as massas
possíveis para as mamas
gertrude stein é manha
galinha preta de encruzilhada
descarnada
sophisticated
estética carrancuda
dos zé coiós de rayban
ecstasy fossilizado
porque se o rosa é maior do que a rosa
asmática de repetição
pra quê manadas de bishops no curral do bom-letrismo
macacas do aibici, a poesia não é de ninguém
só armadilha de passarinho
poetas enterrados vivos, rebolem-se
mastiguem vidro
que essa anemia tem cura
no pound final.
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16.9.06

divinópolis - interior - preparando almoço. não estamos sós.
luzia:
" Desejo, como quem sente fome ou sede, um caminho de areia margeado de boninas, onde só cabem a bicicleta e seu dono. Desejo, como uma funda saudade de homem ficado órfão pequenino, um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos para um forte carinho em minha nuca. Brotam os matinhos depois da chuva, brotam os desejos do corpo. Na alma, o querer de um mundo tão pequeno, como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga."
ou:
"Ao entardecer no mato, a casa entre bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo, aparece dourada. Dentro dela, agachados, na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo, rápidos como se fossem ao Êxodo, comem feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis, muitas vezes abóbora. Depois, café na canequinha e pito. O que um homem precisa pra falar, entre enxada e sono: Louvado seja Deus!"
cada poeta tem sua bíblia. me passa a asinha de frango.
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15.9.06

sexta-feira: 20:22
ouvindo no carro Rêverie de Debussy, o Bussyk, meu compositor favorito depois de Satie. uma surpresa. ah, Tom Jobim, você fez igualzinho no piano o seu primeiro verso: "Olha, está chovendo na roseira..." reparem só.
21:51 segunda parada
well, parece que descobri a pólvora, hum? Tom Jobim faz uma "citação" de Debussy. só eu não tinha percebido. a 120 por hora pelas estradas esburacadas de Minas, minha memória é névoa. estou no laptop puglado sobre a mesa encardida do bar Duas Cruzes. rumo a Divinópolis. depois de passar dias olhando os pombos se coçarem no peitoril de minha janela em JF, decidi ser stalker de adélia prado. o que fazer em Minas se eu não acredito em Deus? buscar adélia prado. assediar os seus versos. lentas tomadas em sépia. dou um gole na cerveja. polícia militar rodoviária a 500 metros, leio na placa. está escuro. o bar já vai fechar. penso nos versos que fiz esta semana e enviei para o Valter:
Verlaine era verde.
Às três da manhã sua boca verde
cochichava no ouvido de Rimbaud:
"Venez, chère grande âme,
on vous appelle,
on vous attend!"
Mas Rimbaud era daltônico
e se importava com outras coisas.
Perdeu-se n'África e nunca mais escreveu.
Às vezes a poesia dá um nojo.
eu não tenho nojo - angustura - dos versos de adélia. luzia, estou indo para Divinópolis, para a rua Ceará. acelerada, pneumática. se ela não me receber, vou me instalar numa carrocinha de cachorro-quente na frente de sua casa. será que a poeta tem balanços na varanda? as noites seriam mais curtas em divinópolis? antes que o dia amanheça estarei chegando em BH. dali para divinópolis é chão. esqueço das horas. ouço bois que não precisam da noite para mugir. minha boca tem gosto de prego. e do banco do carona vazio. o Duas Cruzes tem um jardim de gerânios secos no fundo. duas sepulturas. uma TV ligada na rede minas. minha orelha coça e descubro que é carrapato. a estiagem traz dessas coisas. estou seca. previsão de chuvas para o fim de semana. adélia não vai me deixar ao relento. ela deve ser educada. vai me receber com café e biscoitos. bolo de fubá. talvez me mostre a igreja da praça. um poema inédito. uma rua de terra. um quarto com crucifixo na parede. uma ampla cozinha onde se conversa da vida alheia enquanto se come à farta. isto é Minas. um silêncio na alma. meus pombos estão sozinhos no décimo quarto andar. eu só preciso agora pagar a conta e pisar no acelerador.
23:19
consulto o mapa pela décima vez. tenho de seguir por congonhas para chegar a divinópolis. quem foi o filho da puta que me falou de BH? sinto uns tremores só de pensar no fantasma de aleijadinho. dizem que ele assombra as estradas. estou parada num trevo. consigo a conexão com dificuldade. a bateria não vai suportar. não sei a que horas chegarei em divinópolis. só sei que ela estará lá. é mais perto do que eu imaginava. poucos carros passam por mim a esta hora. todos me ultrapassando nas curvas pelo meio da pista. muitas carretas. o que é pior. espero chegar viva para adélia. não faz diferença. luzia nem sabe que existo.
23: 58
outra parada obrigatória. acidente na estrada. duas ambulâncias. um corpo de bombeiros. uma multidão em volta. não quero olhar as ferragens. teclo no banco do carona. cochicham dois morreram. mulher de mão seca, não sei o que dizer aqui. gostaria de escrever torrencialmente. mas minha vizinha do coração disparado emudece. às vezes penso que adélia é uma miragem. vou chegar na hora do catecismo, luzia.
sábado 00:39
london motel. beira de estrada. papel de parede verde. ventilador de teto. apartamento simples, 35 reais. café da manhã. 40 watts. janelas sem cortinas. chuveiro elétrico. o melhor da região. pelo menos o mais visível. sem sabonete. bíblia na cabeceira. faltando a página 109. apago o cigarro. boa noite.
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O escritor e eu
Imaginei a história de um escritor:
Infância adotada por anjos decaídos, poliomielite, batia e apanhava, jogado em cactos, cicatrizes, cagava nas calças, escaldado enquanto dormia pelo pai alcoólatra, que queria apenas fazer um escalda-pé, garotos riam, meninas choravam, porque ele era nojento e dizia a elas coisas sem cabimento como "posso te lamber?", "quero bater sua cara naquela parede", "você me belisca?". Nas aulas de francês se agravaria sua dislexia: só olhava para cima e para baixo, suspeitas de autismo.
Adolescência delinqüente, roubava doces de feira, levantava as saias das mulheres nas ruas, vestia os vestidos da madrasta e passeava pela casa com um copo de Martini seco na mão, dizendo "we'll always have Paris". Jogava sacos d'água pela janela de casa, agora apanhava mais e batia menos, porque sofria de asma, mas sonhava com a tuberculose que matou Álvarez de Azevedo. Mandava os mais novos fazerem coisas erradas e fazia tudo o que os mais velhos o mandavam fazer. Matava gatos amarrados pelo rabo e lançados pela janela. As garotas, dessa vez, lhe causavam repulsa e tesão, por isso chorava incompreensivelmente enquanto se masturbava, já que nenhuma delas queria chegar perto dele por causa do incrível cheiro de esperma coalhado que se desprendia das suas roupas e entranhas, já que raramente se trocava e nunca se limpava propriamente e vivia nos banheiros públicos a sacudir o próprio pau, até conseguir se livrar um pouco de si mesmo na latrina.
Foi quando começou a escrever suas primeiras grandes reflexões nas paredes dos banheiros: suas primeiras experiências literárias.
Com isso, se animou a participar do concurso literário da escola, mas foi expulso por ter adotado "Comando dos Putrefatos" como pseudônimo -- e o colégio nem mesmo era católico, era um colégio maçônico. Não desistiu. No ano seguinte se inscreveu novamente, dessa vez como "Coração Enjaulado", mas foi desclassificado logo na primeira eliminatória, tendo o primeiro prêmio, um teclado Cássio de última geração, sido dado a um garoto que fez um belo texto sobre como as borboletas morrem.
Juventude desinteressada, passava a maior parte das tardes e noites trancado em seu quarto bebendo e falando sozinho, quando não se cortando para saber, pela cor do seu sangue, se teria diabetes e morreria como John Fante. Não sabia de onde vinham as coisas que o abatiam (pois elas pareciam vir de todos os cantos), por mais que todo mundo em volta parecesse também não saber, mas como diabos eles conseguiam viver assim, tão bem, sem saber? Não entendia o primeiro movimento, então como poderia passar para o segundo?
Aos vinte e um se mandou num cargueiro, como voluntário da Cruz Vermelha, para Luanda, e pensou que diabos havia na Luanda, mas foi mesmo assim, porque pensar "que diabos" o fazia sentir bem, já que os santos e as boas atitudes e entidades de respeito o entediavam sobremaneira, além de negarem tudo aquilo que lhe gerava prazer e contentamento. Lá apostou tabaco nas cartas, retalhou as bochechas de alguns destemidos, cagou nos sapatos do capitão por este ter-se dirigido a ele como a um "carcamano de merda", só porque tinha que limpar o chão e usava dessa vez um bigode sem barba e vestia suspensórios, e também por causa do duplo t e do duplo c e do i no final do seu sobrenome. Mas ninguém descobriu que tinha sido ele, então foram todos praguejando limpar as latrinas, e o sabão em pó corroía suas mãos e cheirava a fênico. Depois brigou de mão duas vezes, a segunda lhe causando uma profunda perfuração no crânio, cuja cauterização o ambiente salubre marítimo acabou retardando, período durante o qual não precisou esmagar baldes de alho com as pontas dos dedos, nem senti-las queimar por semanas a fio. Simplesmente se deitava no convés, junto aos ratos e baratas e ao chorume dos lavabos e da cozinha, lendo livros de bolso com estórias policiais sobre mulheres frígidas, copos de uísque tilintando com gelo, homens carecas e falidos e detetives flácidos de olhos murchos que não conseguiam mais fazer o pau subir, por isso usavam lenços para enxugar a testa. Foi quando começou a escrever a sério.
Voltou para casa com seu primeiro livro escrito: "Palhaço de Bolso", com contos que lembravam sua infância e adolescência e a época em que seu pai pisava no seu pé e sua mãe jogava suas chupetas pela janela, comprando outras no final do dia, porque sofria de alternância súbita de humor, eufemismo de loucura. Era por fim um escritor. Começou então com a poesia, conselho de um amigo que disse: "você tem a cara triste, devia fazer poesia". Mas a palavra poesia lhe dava coceiras e arrepios, e por um tempo achou que isso fosse o certo, que fosse daí que viesse toda a poesia, mas não conseguia ler poesias, o que dirá escrevê-las.
De qualquer forma isso foi bom, porque nessa época se juntou com uma turma da pesada que seria o novo cenário, todos jovens e ricos fundamentalistas da simplicidade e concisão estéticas, mesmo que falassem sobre isso bebendo single malt escocês e comendo cogumelos no azeite com tomate e sal. Com um ano de convivência montaram um caderno literário chamado "Sacrílegos Sacripantas", para cujas tiragens alguns de seus textos eram aqui e ali selecionados. Mas o irritava o fato de serem sempre os textos sobre suas dúvidas, jamais sobre suas certezas.
Nessa mesma época, apesar de ter sido reconhecido por este seleto círculo de óculos e camisas de botão como um escritor de verve e ritmo, sentia-se miserável e pensava constantemente em se suicidar. Foi quando teve a idéia de escrever uma história na qual um sujeito pula de uma janela a fim de se matar, mas acaba recolhido no meio do trajeto por uma enorme ave azul, que o leva para um mundo distante que se revela pior do que o primeiro, já que o sujeito tem que rapidamente aprender a comer minhocas e voar, algo nada fácil quando não se têm asas. De qualquer forma, "Depois da Morte a Ave Azul" lhe rendeu muitos prêmios e belas mulheres e entrevistas e "o que pensa o mais novo escritor talentoso?" e "qual será agora o próximo passo?" e "o que você pensa sobre o último livro do Chico Buarque?" e "qual a influência de Raymond Chandler nas suas obras?" e "o que você tem a dizer sobre Raymond Radiguet?" e "o que falta para a nova geração despontar?"
Mas seu sofrimento, sua necessidade de saber e seu desprezo pela procura mantinham-no cada vez mais perto da parede, de modo que começou a largar mão dos cabelos e da barba e entrou feio pelo tonel de vinho. Foi quando conheceu sua única esposa, massagista à noite e sempre uma alcoólatra pela manhã, com quem teve um relacionamento turbulento como o de qualquer grande escritor. Diziam que ele era grande, que o próximo livro seria um estardalhaço, que deveria se livrar daquele babaca, seu editor, um chupa-sangue, que sua esposa tinha sido vista em tais e tais lugares, acompanhada de tais e tais tipos, e ele já não conseguia mais rir nem chorar. Apenas andava do quarto para o banheiro, do banheiro para a máquina de bater, e nada mais acontecia. Então, dali para o quarto outra vez.
Papéis eram espalhados pelo chão, afinal, um escritor precisa espalhar seus papéis. Começou a procurar mulheres pela rede de relacionamentos virtuais e a marcar encontros aos quais nunca comparecia. Preferia se masturbar de cinco a sete vezes por dia, como se fosse possível recuperar a infância que nunca teve, de modo que quando sua esposa voltava para casa do trabalho, tarde, malcheirosa, bêbada e furiosa, tentava assassiná-la com uma faca, dia-sim-dia-não, porque ela dizia que ele não era mais capaz de ter uma ereção honesta. Então os vizinhos tinham sempre que intervir batendo com um banco na sua cabeça até desmaiá-lo.
No fim de quatro anos nessa agitação, descobriu que sua esposa toda manhã tomava um copo d'água com sal para vomitar e que cozinhava suas almôndegas no sangue da própria menstruação. E os bancos na cabeça lançados pelos vizinhos já tinham-no metido na banheira a tarde toda, com dores lancinantes, todas as tardes, a falar sozinho e a cantar velhas tarantelas como "Pane e Vino" (la mente è potenza, il cuore è amore / la potenza è maschile, l'amore è femminile / la mente è pane, l'amore è vino).
Quando o inchaço na parte inferior, entre a cabeça e a nuca, tinha-se transformado numa pústula de sangue inchada e, pela gangrena, temiam que fosse acometido de uma hemorragia cerebral a qualquer momento, tratou de escrever seu célebre romance "Uma Puta -- Dor Na Nuca", em homenagem à sua esposa, outro sucesso de vendagens que lhe rendeu mais entrevistas e filmagens e garotos bêbados na sua janela com roupas rasgadas gritando como ele tinha salvado suas vidas, por mais que ele próprio pensasse em quem salvaria a sua, mas enquanto isso: "o que você acha que pode ser feito para se dar novos rumos à literatura mundial?", "qual a sua opinião sobre a literatura virtual?", "qual o seu método de escrita?", "e quanto ao comprometimento político?", "o que você diria para os jovens escritores que o estão assistindo agora?".
Foi quando morreu de cansaço, sem deixar filhos. Foi quando entendeu que era mesmo um palhaço. Que no fundo não era nada daquilo. Mas já tinha deixado seu rastro de dúvidas e rancor. Estava feito. Era aquilo que todos queriam: um fim onde encontrasse cada um seu próprio começo.
Depois olhei para minha própria figura de 23 anos, derrotada e inchada, diante do espelho do banheiro sobre a pia, o amolador de facas lá embaixo, na rua, tocando Celine Dion: my heart will go on.
Tentei chorar, tentei me debater, tentei sentir raiva, mas o que fiz mesmo foi abrir um sorriso que ficou entre o "meu deus, é isso?" e o "é impressionante como você não tem a menor chance".
Então apaguei a luz e não dormi.
Leonardo Marona, em conto inédito para este blog.
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12.9.06
9.9.06
8.9.06
2.9.06

Contrariedades
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.
Sentei-me à secretaria. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.
Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...
O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.
Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.
A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.
Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie,
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.
A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...
E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!
Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!
Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?
Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!
Cesário Verde
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