30.12.02
Alberto Janes
Foi no domingo passado que passei
à casa onde vivia a Mariquinhas,
mas 'stá tudo tão mudado
que não vi em nenhum lado
as tais janelas que tinham tabuinhas.
Do rés-do-chão ao telhado
não vi nada, nada, nada
que pudesse recordar-me a Mariquinhas,
e há um vidro pregado e azulado
onde havia as tabuinhas.
Entrei e onde era a sala agora está
à secretária um sujeito que é lingrinhas,
mas não vi colchas com barra
nem viola, nem guitarra,
nem espreitadelas furtivas das vizinhas.
O tempo cravou a garra
na alma daquela casa
onde às vezes petiscávamos sardinhas
quando em noites de guitarra e de farra
estava alegre a Mariquinhas.
As janelas tão garridas que ficavam
com cortinados de chita às pintinhas
perderam de todo a graça
porque é hoje uma vidraça
com cercadura de lata às voltinhas.
E lá pra dentro quem passa
hoje é pra ir aos penhores
entregar ao usurário umas coisinhas,
pois chega a esta desgraça toda a graça
da casa da Mariquinhas.
Pra terem feito da casa o que fizeram
melhor fora que a mandassem pras alminhas,
pois ser casa de penhores
o que foi viveiro d'amores
é idéia que não cabe cá nas minhas
Recordaçoes do calor
e das saudades. O gosto
que eu vou procurar esquecer
numas ginginhas,
pois dar de beber à dor é o melhor,
já dizia a Mariquinhas.
--- "Vou Dar de Beber à Dor", letra e música de Alberto Janes, intérprete Amália Rodrigues.
27.12.02
Allons enfants de la Patrie
Le jour de boire est arrivé!!!
Por mais que eu beberique o espírito de Adonis, o sangue em minhas veias flui grosso, melancólico e lento. Na minha certidão de nascimento, além do meu nome meus pais carimbaram que mulheres bêbadas são inconvenientes e perigosamente imorais. Fosse alguns séculos antes, eles diriam "Esta menina está é com verminose". Na botica da esquina, segundo a boa tradição farmacológica, me aviariam um bom vinho misturado com resinas, ervas, especiarias, pêlo de asno, estrume de animais, cérebro de cachorro, vesícula de peixe, carne de cascavel, urina de bode e, voilà, problema resolvido. Mas hoje, por trás dos parentes acumulados na ceia de natal, a vida será o que a fotografia quiser que ela seja, a samambaia murcha de minha mãe, o colar de brotoejas de minha avó, as pálpebras diabéticas de meu avô, a ausência germânica de meu pai, o silêncio debruçado de minha irmã, a arrogância gaúcha de meus tios, a juventude apoplética de meus sobrinhos, e mais um iogurte de memórias. Se nesta foto eu nunca fui a lugar nenhum, como posso estar atrasada?
26.12.02
A revolução americana
No séc. 18, o abade Morellet, um dos líderes do Iluminismo francês, declarou que a verdadeira motivação dos americanos para a Revolução não foi se libertar da coroa inglesa, mas conseguir se livrar da cerveja inglesa para poder pôr a mão no vinho francês. Benjamin Franklin então respondeu ao abade que a prova da vontade de Deus de que o homem devia beber vinho está na localização do cotovelo. Se este ficasse localizado mais acima ou mais abaixo no braço, seria impossível levar o copo de vinho diretamente à boca. Para incrementar o debate, Franklin escreveu uma canção sobre o tema, cujos versos finais dizem mais ou menos assim:
Neste ponto da história descobrimos simplesmente
que a água não é boa nem para o corpo, nem para a mente;
que Virtude & Proteção só no vinho vamos encontrar,
e os que bebem água merecem mais é se afogar.
23.12.02
Dylan Thomas
Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
-
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
-
19.12.02
dizem que aquele que escrevesse com uma das penas do urutau conseguiria realizar todos os seus desejos. o urutau é uma ave noturna cujo canto carrega a dor da alma penada dos enforcados. perto do natal gosto de saber dessas coisas. gosto de saber que no Egito antigo as taberneiras que malhassem o vinho com água eram condenadas à morte por afogamento. e que Maomé condenava o vício do álcool mas tomava vinho de tâmaras e o apóstolo Paulo aconselhava seus discípulos a beber mais vinho e menos água para evitar acessos de enfermidade. já na Grécia antiga o vinho quase sempre era diluído com água do mar para conferir maior acidez à bebida. na verdade gosto de saber dessas coisas em qualquer época do ano. elas evisceram meus pensamentos e aliviam minha dor de cabeça constante. ou seria o contrário?
18.12.02
Simpatias curadoras
1. Para evitar que falem mal de você
Se uma pessoa fica com a orelha quente, é sinal de que estão falando dela. Quando é a orelha direita que esquenta, isto quer dizer que a estão elogiando. Se for a esquerda, alguém está falando mal dela. Contra este mal que esquenta a orelha esquerda existe uma simpatia que vai direto à língua do maledicente. Para castigá-lo, basta morder com força o bico da camisa, do vestido ou da blusa. Agindo assim, ele morderá a língua e não falará mais nada contra a pessoa de orelha quente.
As simpatias agem pelo bem e pelo mal. O povo, na sua antiga sabedoria, regula as coisas de modo que nada seja feito sem justiça. Mas existem pessoas que sofrem com vizinhos. As guerras de vizinhos são terríveis. Acabam por destruir muros, deixar invadir águas e até matar animais. Para quem estiver metido numa guerra dessas é que existe a simpatia da arruda-do-diabo. É claro que nada é feito em nome do Diabo, apenas se chama assim porque é infernal nos seus resultados. Para começar, plante um ramo de arruda numa noite de sexta-feira e diga: "Planto essa arruda em nome da minha vizinha (.......). Nos sete primeiros dias, regue a arruda com água e sabão.
3. Para homem parar de roncar
Quando ele estiver dormindo e roncando, molhar a ponta do dedo indicador em azeite de oliva e fazer, lentamente, uma cruz na ponta do nariz, na testa e no queixo. Se ele acordar, aproveite e faça uma cruz nas suas costas. Ele pode saber da simpatia.
Faça uma espécie de xarope com erva-cidreira, camomila, erva-doce e açúcar mascavo. Feito e coado o xarope, deixe descansar 24 horas e só depois engarrafe em recipiente de vidro. Deve-se tomar 1 colher de sopa 3 vezes ao dia. Este xarope, além de cortar o assanhamento de idosos, é ótimo tranquilizante.
Toma-se a moela de uma galinha preta e, sem lhe tirar a pele, lava-se bem, torra-se e faz-se com ela uma infusão. Dá-se a infusão a beber à pessoa que desejar livrar-se do vício da bebida. Essa pessoa nunca mais deverá comer galinha preta.
--- Filomena da Silva Martins, a Tia Mena de Aparecida, no seu livro Simpatias curadoras.
17.12.02
La Fontaine
Epigrama
Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco
Foder sem amar não é nada.
-
Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco
Foder sem amar não é nada.
-
Goethe
Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.
-- Fragmento dos "Epigramas Venezianos".
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.
-- Fragmento dos "Epigramas Venezianos".
Benjamin Péret
Ah! as mocinhas que erguem o vestido
para se esfregarem na moita
ou então nos museus
atrás de Apolos de gesso
enquanto a mãe delas compara a vara da estátua
com a do marido
e suspira
Ah! se meu marido fosse parecido
Um dia a mãe voltará sozinha ao museu
mas a filha dela fugirá pelo outro lado
vara na mão
e a mãe desolada
roubará de uma porta
a maçaneta de cristal
-- "As Ferrugens Engaioladas".
para se esfregarem na moita
ou então nos museus
atrás de Apolos de gesso
enquanto a mãe delas compara a vara da estátua
com a do marido
e suspira
Ah! se meu marido fosse parecido
Um dia a mãe voltará sozinha ao museu
mas a filha dela fugirá pelo outro lado
vara na mão
e a mãe desolada
roubará de uma porta
a maçaneta de cristal
-- "As Ferrugens Engaioladas".
16.12.02
William Carlos Williams
Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito
é feito de
nada
e o ditongo
eu
seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo
do verbo
auxiliar
ter
tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo
se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos
morais
físicos
e religiosos
pois tudo
e nada
são sinônimos
quando
a energia in vacuo
tem o poder
de confusão
que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito
-- "Nada Ter Feito".
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito
é feito de
nada
e o ditongo
eu
seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo
do verbo
auxiliar
ter
tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo
se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos
morais
físicos
e religiosos
pois tudo
e nada
são sinônimos
quando
a energia in vacuo
tem o poder
de confusão
que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito
-- "Nada Ter Feito".
13.12.02
12.12.02
Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
-- "Psicologia de um Vencido".
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
-- "Psicologia de um Vencido".
Tagore
Em minha frágil canoa, luto por atravessar o mar do desejo
e esqueço que eu também estou brincando.
-
e esqueço que eu também estou brincando.
-
11.12.02
O generoso espírito natalino baixou em mim e antes que ele cante pra subir saí distribuindo links aos meus leitores blogueiros mais fiéis, e aos infiéis também. Veja se você está aí ao lado. Não? Paciência. Fica pra próxima. Generosidade tem limite. Aproveito para agradecer a todos que de uma forma ou de outra ajudaram este blog que completa 9 meses esta semana. Ok? Bom, agora devo matar a curiosidade selvagem de meus leitores que não me dão sossego desde que no último post mencionei a expressão "vela cossaca". Pois bem, a maioria das pessoas conhece ou já assistiu a uma "dança cossaca", outras por certo já ouviram a expressão "pobreza cossaca", significando dureza atroz. Porém a enigmática "vela cossaca" quase ninguém sabe o que é. Os soldados cossacos, da época da Rússia tsarista, tinham uma cruel forma de executar os seus inimigos. Amarravam-nos a uma estaca fincada no chão, com os braços erguidos, cobriam-nos de piche e feno e depois acendiam suas mãos como se fossem pavios. A pessoa queimava devagarinho, como uma vela, daí "vela cossaca". Era um tipo de tortura temidíssimo na época. Satisfeita a curiosidade? Então, feliz natal.
9.12.02
A vela cossaca
Quando eu era criança, tinha verdadeira obsessão por datas de túmulos. Naquela época, as pessoas costumavam visitar os cemitérios no dia dos mortos mesmo que não houvesse um defunto para ser chorado na família. Eu passeava pelas alas do São João Batista e ficava olhando as fotos em suas delicadas molduras enferrujadas para calcular com quantos anos cada uma daquelas pessoas havia morrido. Se alguém morria velho, eu concluía que tinha muito tempo pela frente. Nos casos de morte prematura, eu calculava quantos anos ainda me restavam. Minha mãe não se importava com meu mórbido exercício da matemática e continuava sussurrando à beira do túmulo de Carmen Miranda. Nunca soube dizer se ela rezava ou cantava "Bamboleô". Pois bem, o tempo passou e o meu menu de obsessões ampliou-se consideravelmente. Hoje sou fascinada por velas, candelabros e capas de livros. Sem falar em espadas orientais, cimitarras turcas e tudo que é tipo de lanças, punhais e sabres. Gosto de livros esquisitos que tratam de temas esquisitos. Desejo escrever uma tese sobre carma genético e outra sobre gritos animalescos e uivos de animais desconhecidos. Por conta destas esquisitices, e por achar que o erro da humanidade está em querer um corpo de grego em carne cristã, sou levada, mais do que gostaria, a me relacionar e a me desapontar com gente que, como eu, também pensa o esquisito e precisa do impossível. Por que me desaponto? Eu explico. Há pouco tempo recebi por e-mail uma proposta de um desconhecido com os seguintes termos:
"Executivo submisso e obediente procura dominatrix, alguém que o queime, subjugue, maltrate e deixe-o sem comer por dias. Assino contrato de servidão consentida. Imprescindível o uso de consolo, chicote, chibata, coleira, bondage, algemas, guias, correntes, cadeados, vendas e mordaças. Opcionais: fisting anal, eletroestimulação e shibari. Paga-se bem." Ora, eu já não me surpreendia com nada há um bom par de meses e, assim, resolvi dar corda ao sujeito. Respondi-lhe que estava disposta a ser a sua Rainha, sem qualquer honorário incluído, desde que ele me permitisse ser a sua "vela cossaca". E aguardei a resposta. Esperei uns três dias e me esqueci da história. Ontem, quando eu me preparava para dormir e bebericava meu leitinho morno antes de me enfiar debaixo das cobertas, o telefone toca. Era o sujeito. Que atrapalhação. Depois de gaguejar e babujar do outro lado da linha, ele por fim me revelou o motivo de ligação tão abrupta: "O que é uma vela cossaca?" Francamente!!! Dito isto, eu bati com o telefone na cara dele e afofei meus travesseiros com sincera irritação. Tenha santa paciência! Falta de profissionalismo não dá!
8.12.02
7.12.02
Murilo Mendes
O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.
-- "O Ovo".
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.
-- "O Ovo".
6.12.02
José Castello
Certa época, Vinicius de Moraes andava muito incomodado com a moda de musicalização de poemas. Virou-se para Tom e pediu: "Olha, parceirinho, antes que algum aventureiro apareça, faça por favor uma musiquinha para o meu 'Soneto da Separação'." Vinicius ficou encantado com o resultado do trabalho e comentou: "Está lindo, porque é uma música que não atrapalha o soneto. Que o deixa quieto." Essa foi uma das raras vezes, na carreira do poeta, em que a música sucedeu a um poema. Tinha medo de que a música viesse incomodar os versos, acordá-los de sua elegância. Era um mestre da brandura. Vinicius não acreditava em seriedade, acreditava no momento, com o roldão de emoções caóticas que ele arrasta atrás de si. Tom nunca negou que deve tudo, ou quase tudo, a esse sentimentalista. Mas Vinicius sempre renegou a posição de mestre - o que, aliás, faz parte da posição de mestre. Enigmas que não se dão esse nome. Tom testemunhou que, de todos os enigmas, o mais atroz para o poeta era a mulher. "A mulher não é para ser entendida, é para ser amada", argumentava sempre com o parceiro. E, com um cerimonioso português castiço, completava: "Não há entender mulheres." Essas confissões de ignorância mobilizavam Tom mais do que qualquer exibição luxuosa de saber. Vinicius o guiara para a incompletude atordoante dos sentimentos, e isso agora era um caminho sem volta.
-- Em "Vinicius de Moraes, Livro de Letras", 1991.
4.12.02
3.12.02
Kurt Vonnegut
Sempre tive dificuldade para terminar os contos de uma forma que satisfizesse o público em geral. Na vida real, as pessoas não mudam, não aprendem nada com seus erros e não pedem desculpas. Num conto, elas precisam fazer pelo menos duas dessas três coisas, ou será melhor jogá-lo fora na lata de lixo sem tampa presa com corrente e cadeado a um hidrante em frente à Academia Americana de Letras e Artes.
Tudo bem, isso eu podia resolver. Mas depois de fazer um personagem mudar, aprender alguma coisa e/ou pedir desculpas, isso deixava o resto do elenco parado chupando o dedo. Isso não é jeito de dizer ao leitor que o espetáculo terminou.
Quando eu era jovem e inexperiente, imaturo nas minhas opiniões e, para começo de conversa, sem nunca ter pedido para nascer, pedi conselho a meu agente literário daquela época sobre como terminar os contos sem matar todos os personagens. Ele havia sido editor de ficção de uma revista importante, além de consultor de roteiros para um estúdio de Hollywood. "Nada mais simples, meu rapaz", disse ele. "O herói monta no seu cavalo e sai cavalgando em direção ao pôr-do-sol."
Muitos anos depois, ele se mataria deliberadamente com uma espingarda calibre 12.
2.12.02
Mallarmé
Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,
O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.
Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal
E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.
-- "O Sineiro".
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,
O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.
Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal
E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.
-- "O Sineiro".
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