30.6.18
22.6.18
19.6.18
11.6.18
10.6.18
9.6.18
8.6.18
3.6.18
27.5.18
21.5.18
RIP Assionara Souza
As mulheres do sabonete Araxá
São cinquentonas gostosas
E moram em casas largas
Com cães latindo felizes em torno de suas saias
No que o sol dá as caras, elas vêm abrir janelas
Com um gesto expansivo de um Jesus recendescido do eterno crucifixo
O olhar doido doidinho pra dar dentadas no dia
Se possível, sem alvoroço
Há espaço para todos no coração dessas três
Agora cuidam das mães
Abraçam e beijam os netos
E riem, como elas riem com as frases que eles dizem
A primeira - não insistam!
Só faz ligações pra fixo
Imagino ela se enrolando no fio do telefone tipo a mocinha do filme
Emoldurada na porta que dá para um jardim
Me conta as últimas novidades
Os casos mais descabidos
Fico por dentro de tudo e ainda arrisco um palpite
Ai, essa eu amo muito demais e desejo
A segunda é das redes sociais
Tem perfil em vários sites
Adoro quando ela agarra o gargalo do frisante
Fica assim meio alisando e me falando dos amantes
Dos olhos saem faíscas da vingança de saber
Por trás de cada calça o tipo de pau que resguardam
Me segreda esse segredo com a língua em meu ouvido
Ai, essa eu amo muito demais e desejo
A terceira já foi prostituta linda que eu namorei
Fazia ponto na esquina da quadra de minha rua
E quando o frio batia, batia de não ter jeito
Eu ia lá ter com ela, dividir um cigarrinho
E um gole do bom conhaque
Ouvir confissões doídas
Tomar ódio de polícia
Imaginar um movimento e fazer revolução
Meus reinos e meus festins, tudo por esses olhares
A alegria tão lírica
Os mantras que elas recitam
As velas de sete dias para São Jorge Guerreiro
Novena de Nossa Senhora e o sagrado feminino
Sagrações da primavera, conselhos, receitas, chás
Tudo isso eu adoro
Nessas mulheres tesudas do Sabonete Araxá!
Não quero nunca que morram
Minha vontade por elas vem de um tempo tão antigo
De quando os homens do mundo
Um mundo avesso a esse nosso
Eram gentis cavalheiros
Respeitavam bem as moças
E cuidavam das crianças
Lágrima havia nenhuma
Só amor e temperança e cantigas de ninar
Essas cinquentonas lindas ainda me bouleversam
Hipnotizam meus reinos, embriagam meus festins
Esses versinhos chinfrins, deixarei tudo pra elas
A cismar sozinho à noite
Abro um livro já antigo
Fico lendo e repetindo o poema feito reza
Ao poeta solitário que inventou essa balada
Vou dormir bem convencido:
Tenho mais do que preciso
Desejo só o que quero
Tudo belo belo belo
Assionara Souza, "Bandeira".
19.5.18
Paul Bowles - Black Star at the Point of Darkness - 9 faixas
Now streaming on our #bandcamp : Paul Bowles’s "Black Star at the Point of Darkness » - https://t.co/d1sNWn2FGC #musicstreaming #subrosalabel #paulbowles— Sub Rosa Label (@SubRosaLabel) 16 de maio de 2018
18.5.18
Roberta Jean
'The first in a sequence of three films, together forming a new screen version of Roberta Jean’s critically acclaimed live work Brocade. Lace was shot on location at MYB Textiles in Ayrshire, the only producer in the world to still manufacture patterned lace with original Nottingham Lace Looms. Here, human movements align and juxtapose with the choreography and soundtrack of the machines and voice.’
17.5.18
14.5.18
12.5.18
11.5.18
9.5.18
4.5.18
3.5.18
30.4.18
20.4.18
13.4.18
12.4.18
6.4.18
4.4.18
25.3.18
15.3.18
13.3.18
12.3.18
Ingeborg Bachmann
O tempo adiado
Vêm aí dias piores.
O tempo adiado até nova ordem
surge no horizonte.
Em breve deves atar os sapatos
e espantar os cães para os prados.
Pois as vísceras dos peixes
esfriaram no vento.
Débil arde a luz do lupinus.
Teu olhar abre trilhas na névoa:
o tempo adiado até nova ordem
surge no horizonte.
Do outro lado afunda tua amante, na areia,
ela sobe-lhe pelo cabelo esvoaçante,
ela corta-lhe a palavra,
ela ordena-lhe silêncio,
ela acha-a mortal
e entregue à despedida
depois de cada abraço.
Não olha para trás.
Ata teus sapatos.
Espanta os cães.
Joga os peixes ao mar.
Extingue o lupinus!
Vêm aí dias piores.
(trad. Claudia Cavalcanti, Die gestundete Zeit)
9.3.18
8.3.18
Victor Heringer
Não sou poeta
Agora que os estalos da adolescência passaram
e a vida assenta como uma cômoda de mogno
e a vida assenta como uma cômoda de mogno
agora que os joelhos estalam quando me levanto
sem mulher, sem filhos, mas com emprego estável
é preciso admitir que não sou poeta.
sem mulher, sem filhos, mas com emprego estável
é preciso admitir que não sou poeta.
Embora o meu amor esteja solto no mundo
violento, semicego e ferido no ombro
não sou poeta.
violento, semicego e ferido no ombro
não sou poeta.
Todos me felicitam. Que bom, dizem
vida de poeta é muito difícil.
vida de poeta é muito difícil.
Logo a gente chega a ser homem
e acaba com as coisas de menino.
e acaba com as coisas de menino.
A vida afunila.
Eu tinha dois, três truques nos bolsos
de calças compradas em shoppings.
de calças compradas em shoppings.
Não soube nunca comprar como poeta
a longa espera por um par de sapatos
sentinela no deserto.
a longa espera por um par de sapatos
sentinela no deserto.
Os sapatos são fabricados e os pés dos poetas passam anos se deformando. Até que um dia cabem.
Por isso qualquer roupa parece velha
no corpo de um poeta.
Por isso estão sempre se desculpando
pelas roupas velhas.
Mas em segredo se orgulham.
Por isso qualquer roupa parece velha
no corpo de um poeta.
Por isso estão sempre se desculpando
pelas roupas velhas.
Mas em segredo se orgulham.
Embora eu tenha um corpo
que pode ser confundido com o corpo de um poeta
não sou poeta.
que pode ser confundido com o corpo de um poeta
não sou poeta.
Tenho as pernas fortes e os braços magros.
O torso amolecido dos boxeadores
os órgãos de dentro estropiados.
O torso amolecido dos boxeadores
os órgãos de dentro estropiados.
Mas quem me vê nu instintivamente sabe que não sou poeta.
Não levantei a mão esquerda em golpe de dançarina de flamenco ao ler Jaime Gil de Biedma para os meus amigos,
embora tudo tenha conspirado para isso.
Para que se me entranhassem as coisas.
embora tudo tenha conspirado para isso.
Para que se me entranhassem as coisas.
Concluo que não sou poeta.
Tenho os dedos frios de um técnico em informática
e sou triste como um técnico em informática
mas não sou tão triste quanto um barbeiro.
e sou triste como um técnico em informática
mas não sou tão triste quanto um barbeiro.
Eu li todos os tratados da métrica portuguesa.
Assinei dois contratos como poeta
que doravante já não têm validade.
Assinarei um terceiro, como última traição.
que doravante já não têm validade.
Assinarei um terceiro, como última traição.
Serei perdoado por todos.
Doravante vão reinar o olho e a raiva.
As melhores botas para caminhar na areia
os cálculos de longas distâncias
os treinamentos de apneia.
os cálculos de longas distâncias
os treinamentos de apneia.
O amor virá até mim como vai aos jornalistas e CEOs, aos sushimen de São Paulo (SP) que vieram do Ceará – ideais porque têm mãos quentes.
As partes elegem o Foro da comarca de São Paulo (SP), renunciando a qualquer outro, por mais privilegiado que possa ser, para dirimir todas as questões surgidas quanto à interpretação ou execução deste contrato que não puderem ser resolvidas amistosamente.
6.3.18
4.3.18
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