27.2.18

Golgona Anghel




Porque falta meia hora antes de 
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.


Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.

O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.


Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!

O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.




20.2.18

Ben Lerner 10:04




Pré-venda, lançamento em 07/03
Tradução de Maira Parula 
272 páginas

"Segundo romance do autor do aclamado Estação Atocha, 10:04 alçou definitivamente o nome de Ben Lerner ao olimpo da ficção literária contemporânea. No livro, que possui boas doses de autoficção e metalinguagem, o narrador, Ben, vive numa Nova York turbulenta, ameaçada por terremotos, furacões e convulsões sociais. Neste cenário um tanto desolador, Ben é diagnosticado com uma síndrome cardíaca potencialmente fatal, ao mesmo tempo que recebe um gordo adiantamento por um livro que ainda não escreveu e uma proposta de conceber um filho com sua melhor amiga. Enquanto reflete sobre a iminente extinção da cidade, a angústia de uma paternidade não programada e os desafios de escrever em tempos tão instáveis, o narrador constrói um romance dentro do romance, em que vislumbra, com uma prosa poética, intimista e bem-humorada, os múltiplos futuros que podemos habitar e as conexões que ainda precisamos formar."


24.1.18

Morente canta a Lorca




Canción interpretada por Enrique Morente con letra de Federico García Lorca. Imágenes extraidas de las películas Tren de Sombras (José Luis Guerín), El Perro Andaluz (Buñuel), Ballet Mécanique (Fernand Leger), Amanecer (Murnau), L´étoile de mer (Man Ray) y El Cisne negro (Aronofsky).




18.1.18

6.1.18

Ezra Pound lê fragmento do Canto LXXXI



What thou lovest well remains,
                                                  the rest is dross
What thou lov’st well shall not be reft from thee
What thou lov’st well is thy true heritage
Whose world, or mine or theirs
                                            or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
        Elysium, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov’st well shall not be reft from thee
 
The ant’s a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
         Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
                                        Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.
 
“Master thyself, then others shall thee beare”
       Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst’ou wing from tail
Pull down thy vanity
                        How mean thy hates
Fostered in falsity,
                        Pull down thy vanity,
Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
 I say pull down.
 
But to have done instead of not doing
                     this is not vanity
To have, with decency, knocked
That a Blunt should open
               To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
This is not vanity.
         Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered  .  .  .