6.3.06

O libertino de qualidade





Gosto muito de foder. Mas como o bom Deus não quis que conhecêssemos o moto-perpétuo, uma hora temos que parar, pois este jogo cansa mais do que aborrece. Ora, minha duquesa só tinha um jargão, sempre o mesmo, e como eu tinha abaixado seu fogo, ela não era mais do que um diminuto ser rasteiro e monótono. Como adoro ver sair de uma boca tão bela estas pequenas coisas que uma mulher embriagada de volúpia torna tão preciosas! Como uma palavra dita no bom momento faz aumentar o preço de uma carícia e a torna mais emocionante! Eliminem-se os prelúdios do gozo e as palavras mágicas que, fazendo sair do êxtase, ajudam muitas vezes a nele mergulhar de novo... o tédio boceja conosco no seio de nossas belas; o amor foge, o enxame de seus prazeres bate asas, e dorme-se para nunca mais se acordar.


Mirabeau, em Minha conversão ou o libertino de qualidade, 1783.

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3.3.06

Augusto Meyer




Senhora minha, quo vadis?
Que me enchedes de soidades,
A esta façon me feredes
Deperecer por mi fé
De vossas blandas beldades.

A esta façon me deixades?

Senhora minha, haveredes
De avelenar coraçom,
y ay quão cuitado deixades
a quem tão mal atendedes!

Deixaredes de mardades.



Augusto Meyer, em "Rimance", uma paródia neotrovadoresca
do poeta, jornalista, memorialista e folclorista gaúcho composta em 1957.


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15.2.06

5 poemas de Luis Chaves







Luis Chaves, poeta costa-riquenho, nasceu em 1969, tem três livros publicados, El anónimo (1996), Los animales que imaginamos (1998) e Historias Polaroid (2000).  Escreve simples e direto à sensibilidade. Para este blog, traduzi cinco poemas dele.


Postal
No mar à tarde,
calmo e sem ondas,
uma banhista solitária
entra até a cintura.

A metade de cima
observa algo que não vemos.
A metade de baixo
não existe.


A baixinha do canto escuro
Mamãe queria que eu fosse mulher
e que não chovesse nove meses do ano
e que papai a tirasse para dançar de vez em quando.
Mas era mais fácil amanhecer um dia com tetas
do que don Luis convidá-la para um bolero.

Há muitos anos minha mãe deixou de sonhar,
hoje aguarda a velhice como um último trâmite.
Essa mulher que em muitas manhãs
lavou e secou os pés que mais tarde
uma só vez dançaram com ela,
senta todos os dias nos degraus de sua casa
para olhar a dança vitoriosa da chuva
e para atender meus telefonemas,
cada vez menos freqüentes,
já nem sequer pode levantar-se
com o peso de tanta música morta nas pernas.


Plano B
Todas as decisões erradas de tua vida
fizeram com que chegasses até aqui.

Basta uma correta para afastar-te.


O objeto do desejo

Debaixo dessa pintinha tão sexy
cresce em silêncio
um tumor maligno.


Quanto dura a felicidade
O avô de mamãe,
totalmente senil,
dentadura de porcelana e fraldas,
sentado no meio de sua prole
que já não reconhece.
Depois de contar até três todos dizem giz.

Seu sorriso tem a mesma duração
que o instante mínimo
entre o flash e o obturador.


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13.2.06




a word is dead
when it is said,
some say.

I say it just
begins to live
that day.



Emily Dickinson



4.2.06




Porque hoje não é sábado e Vinicius que se foda porque o calor é infernal e quero entrar neste shopping agora, acabei comprando um Rive Gauche no pré, uma bolsa tipo carteiro, um All-Star para presente. Cano longo. Eu sabia que não se fuma mais em shoppings e por garantia havia fumado uns três depois que saltei do táxi, onde também não se pode fumar mas sentir o miasma do motorista pode. As madames e seus filhotes gordos que flanam pelas lojas parecem esquecer que a fumaça do trânsito engarrafa suas artérias. A polícia do Rio-Sul são seus clientes, que deduram quem fuma lá dentro aos seguranças. Os seguranças fazem pose de FBI no walkie-talkie. O shopping é uma Alfândega limpinha. Branca, caucasiana, de banho tomado. Quem não faz pegação no banheiro olha vitrines, uns dois ou pouco mais compram, o resto leva os celulares pra passear. De nariz empinado. As funcionárias das lojas me olham de cima a baixo, estou de havaianas, mas quando puxo o checão, elas me oferecem cafezinho e água gelada. Eu devia estar acostumada. Garçons só me levam a sério depois do segundo uísque. Pois eu ia dizer que estava com fome. Colei a bunda num sofá boquiforme, longe da praça de alimentação, e decorei o cardápio. Salada caesar. Classe média adora salada caesar. É infalível. Não quero pegar pesado com meu estômago, peço uma também e fico namorando a bolsa nova. Alisando. Cheirando dentro. Peço uma long-neck. Testando o fecho. Ajustando a alça. Vão caber poucos livros. A carteira. Chaves. Moedas. Analgésicos, cigarros, isqueiro. Neosoro. Agenda, celular, canetas. A papelada amassada de sempre. Posso deixar a agenda em casa e botar mais um livro. Ou mais analgésicos. Ou livro nenhum e só analgésicos, empilhadinhos. No segundo gole a mulher na minha frente está me encarando. Uns vinte e poucos anos? Bonita de lado, de frente, menos. Da sua boca sai um canudo que desce até a lata de coca light. Lábios grossos. Dois piercings. Um metro e setenta e sete de trevas. As unhas pintadas estragam a cena. Há quem goste. Ela olha pra esquerda mas seus olhos não demoram. Voltam pra mim. Meu celular toca. Tenho de estar na editora às quatro. Eu sei. Já estou indo. E a salada não chega nunca, me pergunto. Atrapalhada, guardo o celular na bolsa nova, entre as bolas de papel. A mulher percebe e ri. Eu não tenho o que fazer e rimos juntas. Quando a segunda cerveja chega, ela já está em minha mesa. De lata e canudinho. Sorrindo, diz um nome qualquer, estuda não sei o quê numa universidade tchu-tchuru-tchu. Eu não presto atenção nessas coisas. A salada chega. Ponho de lado. Perdi a fome. Cruzamos as pernas. É, eu sou do Rio mas não moro aqui, digo sempre que me perguntam. Não diga? A família do meu pai é toda de Minas. Tínhamos uma fazenda lá, gado leiteiro. Hum, hum. Você não é professora, é? Uma mosca taxia no prato. Uma mosca num shopping, vai morrer com esse frio. Não, não mais. Tá sozinha? Aqui sim. Pausa. Quer fazer um programa? Programa? Que programa? Comigo, ora. Ah. Não sei, tenho compromisso agora. Posso te atender mais tarde. À noite. Anota o número do meu celular. Eu não sei. Pausa. Você prefere outra coisa? Posso chamar um carinha amigo meu, gente boa, universitário também. Não é isso. Eu não costumo pagar pra essas coisas. Deixa de bobagem, gata, você me quer, não quer? Você vai gostar de mim. Olho no olho: 14 segundos. Terceira garrafa. Você bebe sempre assim ou está tensa? Eu bebo sempre assim. E quanto você costuma cobrar? Depende dos seus quereres. Dou um desconto. Outro sorriso. Ah. Silêncio. Bom, vou deixar você comer. Me liga se quiser. A qualquer hora. Tá. Tchau. Tchau. 15:47. Uma salada caesar + 3 long-necks + 1 coca light, gorjeta incluída. Na editora sabem que eu prefiro diálogos sem travessão.


2.2.06

2 de fevereiro


nasce james joyce
2 de fevereiro, dia da Iemanjá
dia de festa no mar

2 de fevereiro
Dia Mundial das Zonas Úmidas




Tu viens?



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31.1.06




When you're dealing with a store like this, they're insured up the ass. They're not supposed to give you any resistance whatsoever. If you get a customer or an employee who thinks he's Charles Bronson, take the butt of your gun and smash their nose in. Drops 'em right to the floor. Everyone jumps, he falls down, screaming, blood squirts out his nose. Freaks everybody out. Nobody says fuckin' shit after that. You might get some bitch talk shit to ya. But give her a look, like you're gonna smash her in the face next. Watch her shut the fuck up. Now if it's a manager, that's a different story. The managers know better than to fuck around. So if one's givin' you static, he probably think he's a real cowboy. So what you gotta do is break that son-of-a-bitch in two. If you wanna know something and he won't tell you, cut off one of his fingers. The little one. Then you tell 'im his thumb's next. After that he'll tell ya if he wears ladies underwear. I'm hungry, let's get a taco.



Mr. White, em Reservoir Dogs, ou Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino. Para ler o roteiro completo no original passe aqui.

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29.1.06

Odysseas Elytis




Pequeno mar verde, menina de treze anos
Gostaria de te adotar
E te mandar para uma escola da Jônia
Aprender absinto e tangerina
Pequeno mar verde, menina de treze anos
Para que no farol do meio-dia
Tu faças girar o sol
Ouvir o som do destino
E compreender como de colina em colina
Conspiraram outrora nossos ancestrais
Face ao vento como estátuas
Pequeno mar verde, menina de treze anos
E que com tuas fitas, tua gola branca
Entres em Esmirna pela janela
Para copiar nos tetos os reflexos
Das Doxa soi e Kyrie eleison
E que o vento do norte e o vento do leste
Onda após onda te tragam de volta
Pequeno mar verde, menina de treze anos
Para que eu, fora-da-lei, durma abraçado a ti
E encontre no aconchego de teus braços
Pedras esfareladas as palavras dos deuses
Pedras esfareladas os fragmentos de Heráclito.



Odysseas Elytis

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26.1.06

Literatura keitai




Aí está a literatura keitai, ou literatura para celular. Keitai é o termo japonês para telefone celular. Ainda em fase embrionária mas fazendo sucesso, no ano passado milhões de pessoas leram pelo celular o romance Deep Love, do escritor japonês Yoshi. Contando a história de uma adolescente prostituta nas ruas de Tóquio, a obra, depois de estrondoso sucesso pelos celulares, numa divulgação boca a boca, virou filme e livro, vendendo quase 3 milhões de exemplares. Há também os keitai tanka, ou poemas para celulares, geralmente compostos em 31 sílabas. Você pode ler clássicos, best-sellers e textos escritos especificamente para a telinha do celular. Todos os textos devem ser curtos, para leitura rápida. As páginas vão baixando para você ler. Os neoeditores estão de olho neste mercado. Tudo começou no Japão, claro. E você ainda pode ler no escuro, só com a iluminação da tela. Que tal?


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20.1.06




Ela chegou bufando do Jockey Club e colocou as pernas pra cima. Havia despejado as economias no quinto páreo e perdeu tudo. Tirou os sapatos e as calças vermelhas. Disse que o vermelho lhe dava azar e me pediu 1.000 paus com os olhinhos cheios d'água. Ia recuperar tudo no bingo aquela noite, eu ia ver. Tomou um banho, vestiu amarelo e ficou plantada na porta esperando. Dei-lhe 500. Era uma artista de talento. Famosa desde cedo, aos 20 anos pintava para a revolução. Aos 40, para comprar pó. Aos 60, tenta o destino nos jogos de azar. Todos os anos vai a Las Vegas. Perde umas 4 telas nas roletas. Odeia caça-níqueis. Diz que Mônaco perdeu o glamour e trabalha com cartas marcadas. Ela divide o apartamento comigo enquanto traduzo poemas de Li Shangyin. Fanática por Maiakovski e Rimbaud, diz que não entende poetas de gabinete. Mistura tintas de dia e embaralha cartas à noite. Antes de ela sair preparo um drinque para nós e lhe desejo boa sorte. Há dias longos e dias de haicai. Volto pro meu quarto e fecho a última estrofe.


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17.1.06




Claes Oldenburg, em "Soft Typewriter" ou "Máquina de escrever maleável", 1963. Esta é a versão "fantasma", há uma outra em que a máquina é preta, toda feita em vinil, kapok, tecido e plexiglass.


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14.1.06



o passado terminou ontem
já não há revoluções debaixo do colchão
na foto meus amigos mal sorriem
segurando o copo, fui de navio pra São Paulo
suas almas ficaram na praia.

vida sala quarto cozinha e banheiro,
são outros sentimentos
quando um cachorro morre,
deixa manchas na lua
por isso vigio, sou paciente
e não mordo meu dono.


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13.1.06




"Io non so littere!" -- "eu não sou letrado", disse o papa Júlio II a Michelangelo. O artista queria colocar um livro na estátua que faria do papa, este preferiu uma espada.


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9.1.06

Allen Ginsberg




um supermercado na Califórnia

Não paro de pensar em ti esta noite, Walt Whitman,
caminho pela calçada, sob as árvores, com uma dor de
cabeça constante e olhando a lua cheia.

Em meu faminto cansaço, faço compras na imaginação, entro
num supermercado de néon sonhando com tuas listas!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
nas compras da noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates, bebês nos tomates! - e tu, Garcia Lorca,
o que fazes aí na frente dos melões?

Te vi, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,
apalpando as carnes no refrigerador, de olho nos
funcionários garotões.

Te ouvi perguntando a cada um: quem matou as costeletas
de porco? Qual o preço das bananas? És o meu Anjo?

Perambulei pelas brilhantes prateleiras dos enlatados,
te seguindo e sendo seguido pelo detetive da casa
em minha imaginação.

Percorremos todo o supermercado juntos em nossa solitária
fantasia, provando alcachofras, pegando cada delícia congelada
sem passar pelo caixa.

Para onde estamos indo, Walt Whitman? Daqui a uma hora
as portas se fecham. Que caminho a tua barba hoje aponta?

(Toco em teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado
-- que absurdo.)

Caminharemos a noite toda por essas ruas solitárias? As árvores
fazem sombra às sombras, luzes apagadas nas casas, estaremos sozinhos.

Andando e sonhando com a América perdida de amor,
passando por automóveis azuis parados, a caminho de nosso solitário refúgio?

Ah, querido pai de barbas grisalhas, velho e solitário mestre de coragem,
que América conhecestes quando Caronte parou de conduzir
e desceu-te na margem enfumaçada enquanto vias
o barco desaparecer nas negras águas do Letes?



Allen Ginsberg, Berkeley, 1955.



28.12.05




naquela época tínhamos um texas


e um dia, vi que tudo tinha um fim, menos o convento das carmelitas. As fronteiras históricas do sentimentalismo. Enquanto a croácia pensa, o brazil bronzeia os mamilos. Saio de dentro dele e vejo pela janela bêbados de pijama jogando truco na praça. O natal já passou, deixando simone com cara de aracy de almeida. Lágrimas da puberdade não secam. Sonhei que a ditadura militar tinha voltado e que eu era presa. Eu negociava com um sargento enquanto minha amiga levava porrada na cara. Algumas vezes soa melodramático. Conheci um poeta famoso que me disse que ouvia as vibrações do mito, as catástrofes do mundo, as evocações do silêncio. Ele caía como um elefante sobre o papel. Não sei o que foi feito dele. Também pouco importa, agora estou surda. Vozes polimorfas não me alcançam. Foi fácil. Acabei de ler o livro de GGM. Está caduco. Escreve caduco para leitores caducos. Não digo que parece caduco. É caduco. Afogado na senilidade. Mas seus personagens vendem muito. Escrevem bem. Como quando se aprende a andar de bicicleta, ninguém esquece. É infinita a imaginação dos autores quando ouvem falar em royalties. Não condeno. A vida é difícil para poucos. Para a maioria, resta o inferno. Dia desses vou lhe pedir um autógrafo. Entro nele outra vez e ela passa com as pernas de fora pela esquina. Os bêbados de pijama param de jogar. As pernas dobram a rua. Como se nada fossem. Esquecemos. Eu gozo, tomo um café e me submeto à realidade. Ele fica lá deitado. Tive um professor que dizia que se é pra se submeter à realidade, um escritor não devia nem escrever. O bom escritor tem de vencer a realidade, vencer o desespero. Acho que estávamos falando de coisas diferentes. Aquela versão olímpica da literatura não me convencia. O desespero é meu e ninguém tasca. "O tempo vai dizer qual texto sobrevive." Que bobagem. Como se palavras e idéias fossem vinho. Caducos. Caducos. Palavras velhas perpetuam idéias velhas, mesmo que não pareça assim e sua beleza nos confunda. Que bunda. Nada é mais chato do que "conversar sobre a literatura de hoje". Gozo outra vez. Um dos bêbados de pijama acena pra mim com um sorriso. Feliz ano novo, ele grita. Não sabe que estou surda. Pouco adiantaria ouvi-lo. Eu não sei jogar truco. Vou passar o ano novo fodendo.



20.12.05

17.12.05

Guia para ter cultura de Paulo Francis 1991



Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos... Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.
Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.
Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 1980. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como reza o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.
Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.
Começando pelo Brasil, é indispensável a leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia. Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e paz, de Tolstoi.
Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o nosso drama irresolvido.
Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a língua O memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.
Os gregos são um dos nossos berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold (também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia e do Novo Testamento, que predominaram no mundo ocidental desde o século V da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no Século XIX, quando se tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.
Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia do seu gosto, se deve ler A apologia, que é a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.
Na Apologia se discute o que é mais importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia. Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.
Depois, o delicioso Simpósio. É uma discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.
Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo, Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.
Imprescindível também ler As vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranoico, a Júlio César, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no século V antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cleon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebíades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.
Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.
Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas li, claro, a Lógica da pesquisa científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os princípios matemáticos da filosofia natural, de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Princípios da matemática. Também vale a pena ler a História da filosofia ocidental, de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo lógico que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.
É nas artes que está a sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.
Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.
Antígona é o que há de melhor na mulher. É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida. É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu a tragédia.
A melhor história de Roma é a de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que você precisa saber.
E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena história do mundo, de H.G.Wells, superada em muitos sentidos, mas insuperável como literatura.
Passo tranquilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.
Não é preciso ler Origem das espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um naturalista ao redor do mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)
Houve três grandes revoluções no mundo, a americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando escreveu, fazia fé, ainda na década de 1930, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o seu imenso fracasso.
O melhor livro sobre a Revolução Francesa é História da Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa, leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov, que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais alto que o brilho literário de Trotski.
Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.
Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.
Dos romances do século XIX, Guerra e paz, de Tolstoi, e Crime e castigo, de Dostoievski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande família, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoievski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.
Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A montanha mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr. Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.
Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo. Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.


15.12.05

Roberto Schwarz

Depois do telejornal


Pela terceira vez explico a manobra legal usada contra os pretos ativistas à velha tia surda que visito em Nova York. Seus olhos cansados postos em mim, também as mãos, são da irmã que envelhece noutro continente. Está aqui desde 42. Fugiu aos nazistas em 39, foi internada em 40 num campo francês, em 41 passou para um quartel em Casablanca, perdeu a mãe em Buchenwald e costurou seis dias por semana, 25 anos, numa fábrica de roupas no Bronx. Sem entender acena ao sobrinho do Brasil -- onde as coisas vão mal -- a cabeça que não pacienta mais com as lutas infindáveis do planeta. -- Sei que você vai dizer que explico fatos sociais como se fossem naturais, e vai pensar que sou uma velha. Mas às vezes acredito nalgum defeito genético do homem. Senão por que este gosto de brigar? É tudo muito, muito triste, e eles enquanto isto, os donos da vida como dizem os outros, os donos dos meios de produção -- a lepra do mundo, me entenda bem! a lepra do mundo -- nos acabam de trabalho, desemprego, guerra ou loucura.

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Divagações no cais


Há fuga de capitais
devido às medidas policiais
nesta não acredito mais
onde estais
que não nos achacais
meus sentimentos nacionais
diluem-se mais e mais
estranha essa paz
o que será que preparais

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Vejo num globo terrestre
de portaria de hotel
a familiar cara larga
e torta do Brasil
simpática, geografia
não é história




- Em Corações veteranos, 1974.

13.12.05




E a primeira, e a primeira, e a primeira memória, memória que tenho, que tenho de meu pai é dele me colocando no refrigerador. Ele tinha o hábito de tirar toda a roupa do meu corpo de cinco anos de idade e eu ficava sentada nua naquela prateleira prateada da geladeira. ... Então ele se abaixava em direção à gaveta dos legumes, abria a gaveta e tirava as cenouras, o aipo, a abobrinha, os pepinos. E aí ele começava a trabalhar o meu buraquinho, meu pequeno buraquinho, meu pequeno pequeno buraquinho. Meu buraquinho de menina. Me mostrando "como é ser como a mamãe", ele diz. Me mostrando "como é ser uma mulher, ser amada. Essa é uma tarefa para o papai", ele me diz. Trabalhando meu buraquinho. ... Então ouço minha mãe chegar em casa. E ela começa a gritar a plenos pulmões. "O que aconteceu com os legumes do jantar de hoje? Você andou brincando com sua comida de novo, menina? Eu ia fazer a receita favorita do seu pai." Eu apenas quero gritar, mas não posso, claro, "Mamãe, abra seus olhos! VOCÊ NÃO SABE QUE EU SOU A FAVORITA DO PAPAI?"



Karen Finley, no monólogo do "Refrigerador", San Francisco, 1990. Na foto, a polêmica autora e performer atuando em George and Martha, 2004.


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7.12.05

Oswald de Andrade



Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clina
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jabuticabas.



Oswald de Andrade, "Fim de Serafim", 1929.


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6.12.05

Poesia africana

Poesia africana -- 2 momentos



Ser tigre


O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.


(Arménio Vieira, Cabo Verde, 1999.)

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Em teus dentes


Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos


(Arlindo Barbeitos, Angola)



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4.12.05

Tudo começou quando eu tinha 12 anos. E agora vou ter de contar isso por escrito porque meu médico mandou. Não estou com a menor paciência para revelações íntimas a esta altura da vida e ainda por cima domingo à noite. Mas o médico diz que escrever vai me ajudar porque ele acha que eu preciso de ajuda. Diz que tudo que é escritor é maluco e que só não estão trancafiados num hospício porque a sociedade ainda valoriza os livros porque dão um bom dinheiro a quem disfarça bem a maluquice. Ele disse isso, eu fiquei olhando, tentando entender por que o meu caso era motivo de comentários sobre literatura. Eu quero mais é que os escritores se fodam se eles gostam de lavar o rabo em público, mas parece que meu médico não pensa assim quando pensa. Eu quando penso, penso exatamente assim. Eu não gosto de lavar o rabo em público e vou ter que lavar porque tudo começou quando eu tinha 12 anos e um dia acordei gorda e peluda. Pêlos debaixo do braço, nas pernas, na buceta. E a pele inchada. Camadas de gordura se acumulando por baixo, sem que eu tivesse feito qualquer coisa que provocasse isso. Modificaram meu corpo sem a minha autorização. Os médicos disseram que era normal. Ouvi uma conversa de hormônios, tireóide, glândulas disso, glândulas do caralho e todos aqueles polissílabos que hoje qualquer ignorante diplomado ou não aprendeu a repetir na televisão sem entender xongas. Porque gente burra é mercadoria que não falta. E daí eu tinha 12 anos, acordei peluda e gorda e peguei uma gilete e cortei tudo. Pêlos e pele. Eu me furei como se fura um balão de aniversário, pra ver se desinchava. Não desinchou e fui parar no hospital. Fiquei umas duas semanas lá, até passar o risco de infecções. Voltei magra. Precisava ver. Meus pais até passaram a reparar em mim. Não bem em mim, mas na minha tentativa de suicídio, o que me pareceu o novo nome que eles deram pra mim. Tentativa de Suicídio, sexo feminino, branca, 12 anos. Não tive do que reclamar. A rua inteira, o colégio, o pessoal da praia, todos passaram a me ver com novos olhos. Eu me conferira um novo poder. Eu agora tinha poder sobre o meu corpo. Podia modificá-lo quando bem quisesse. Quando o mundo se acostumava com minha aparência, eu mudava tudo. Fazia dietas sucessivas de engorda e emagrecimento. Cabelo curto, cabelo grande. Loura, morena, grisalha, ruiva, verde, roxa. Alta, baixa, banho tomado, suja. Roupa nova e limpa, rasgada e fedorenta. Isso pra falar o mínimo que não estou aqui pra dar detalhe a vagabundo. Hoje em dia ninguém se mete mais. Médicos, especialistas, amigos ou parentes. Eles sabem que isso é coisa minha. Que sou feliz assim. E sempre forneço um espetáculo à parte. Devem se divertir à minha custa, os pobres de espírito. Falam pelas minhas costas, que eu sei. Eles pensam que vivo de costas. Que se fodam. Já foi determinado, é minha lei, ninguém se meta com o prazer que tiro de minhas experiências com o corpo. Quem não se interessa, que se foda também. A quem se interessa posso dizer que já fiquei 3 semanas sem dormir, 3 meses sem comer, 4 meses sem me mexer sentada numa cadeira de frente pra parede, 17 minutos debaixo d'água, 39 horas dentro de uma sauna na temperatura máxima, 4 dias sem roupa num freezer de açougue, troquei de cara 6 vezes, 23 transfusões de sangue, provei tudo que é droga e remédio, posso dizer isto tudo e muito mais mas não quero me exibir. Eu morri? Não morri. Se quisesse contar vantagem tinha aceito a proposta de um primo idiota e ido trabalhar num circo fazendo dupla com a gorila da mãe dele. Não fui. Será que meu médico vai gostar deste relato? Acho que não, médicos já ouviram falar de cada coisa, são todos pervertidos. Se ele soubesse da surpresa que estou preparando pra ele, não ia desfilar por aí com aquela carinha bonita que estou querendo pra mim.



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2.12.05

Gregório de Matos


QUANTA ADMIRAÇÃO QUE LHE CAUSARAM AS MUDANÇAS DO SÍTIO.


Ou o sítio se acabou,
ou o mudaram daqui,
ou eu às cegas o vi,
e a cegueira me cagou:
quando o sítio me logrou,
ou eu o sítio lograva,
o sítio me enfeitiçava,
pelo sítio me morria,
pelas fêmeas, que ali via,
pelas saídas, que achava.

Havia umas fermosuras
mui ledas, e mui louçãs
para qualquer sim mui chãs
para qualquer não mui duras:
hoje há quatro más figuras
mui presumidas, e inchadas,
querem-se muito adoradas,
porém com pretexto errado,
e é que ao fazer do pecado
são fidalgas estiradas.

Outras putinhas malsins
me têm cercado de sorte,
que por ver-me em mãos da morte
não me dão descarga aos rins:
mas como nestes confins
tenho tanta parentela,
dando uma vista a Castela
me deparou logo Amor
na terra uma linda flor,
no céu uma rica estrela.

Fretei-a a pouco trabalho,
e mui pouco me custou,
porque era do ferro, ou
porque era amiga do alho:
veio buscar-me sem falho,
inda durava o luar,
não veio para ficar,
mas eu contudo finquei-o:
com que se a ficar não veio,
contudo veio a fincar.

Como tenho já segura
a carne no garavato,
me rio, que o sítio ingrato
tenha, ou não tenha fartura:
porque em sendo conjuntura,
que é lá pela noite alta,
nunca a Mulatinha falta,
e dêem-me outra Parda forra
em que tudo isto concorra,
geme, gosta, atura, e salta.



Gregório de Matos


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20.11.05




O único problema
do haicai é que você
mal começa e aí



Roger McGough



18.11.05

Bruna Beber, em poema inédito para este blog



Teste Vocacional

Meu bem eu quero ser
Um bom poeta pra você

Não vou buscar os simbolistas
porque o séc. XX já buscou
ezra pound
t. s. eliot
poe, e blake,
que também era místico.

macalé, melodia, tqto, wally

Ou os poetas de guerra
sassoon
sorley
owen
brooke
entre os georgians.

Já quis ser surrealista breton
ou desnos.
Mas dizem sou poeta
do apocalipse
Ou poeta landscape
concorrendo com poetas
do Cairo.

Um beat ou um metafísico.
Parnasiano, formalista.

Meu bem eu quero ser
Um bom poeta pra você

Meu bem eu sou poeta.
É a minha profissão.

O dylan thomas o bob dylan
que faltava no oswald
O baudelaire que baixava no mário.
Ou satie, amigo de apollinaire
in bulevar de Montparnasse.
O mallarmé
que sonhou leminski
e rimbaud desfilando para os meninos
na praia de Copacabana.

Teu valéry teu verlaine teu valéry teu verlaine teu valéry teu verlaine.

Um bom poeta.

cummings
cummings
cummings
cummings.

To me.
To me or not
to me.

Poesia da Eslováquia
feita para as massas.
Ou não.
Yes mann, Yes rilke
No heine, No Hesse
Teu brecht, teu grass.

Eu vou lembrar todos os dias
de trazer o pastel de basho
junto com a faca junto com a prosa
do mishima
embrulhada num papel de pão
dentro da bolsa de plástico da padaria.

Runto com bóRrres pedro ruan gutiérrez oquitábio paz. Devagar,
lorca-cortázar.
Devagar,
lorca-cortázar.

Meu bem eu fui um bom poeta pra você

Alighiere!
Ungaretti!

Meu bem eu fui um bom poeta pra você

Fiz o horácio, o ovídio
juvenal, teu catullus.
Tua paixão cearense
na Roma Antiga.
A grega Safo
Ou qualquer poeta hebraica
que eu jamais conheça.

Meu bem eu fui
Um bom poeta pra você
E ainda posso melhorar
Quando descobrir
onde estão meus bukowski
onde estão minhas bishop
onde estão meus burroughs.

Ò meu creely
meu corso
meu d. h. lawrence dói nos quartos.

E onde está vladimir mayakovsky
Se encontra nabokov?
Com pavlova? Cruzes.
Com o pushkin pode.

E que murilo mendes durma
com gregório de matos guerra
na cadeia no navio no teatro
ou numa praça do subúrbio
chamada jean genet.

Ô, dos anjos, vê se entende
que o jorge de lima é o meu carma.
e aproveita
e concorda
que o quintana já foi tarde
E o drummond.
E que o bandeira
deveria ser chamar
Poesia de Domingo.

Sá carneiro!
pessoa.
camões.

Eu fui teu poeta da Pérsia
Não fui?
E dorothy parker fazendo escândalo
no salão de chá
E posso ser de novo
Todo dia ou toda hora
Teu ginsberg
Ou tua moore.

Tua plath.
plath plath.
stein
thoreau
Os quatro dáblius em
Walt Whitman William carlos Williams.

Poetas turcos
estão seguros
dos poetas africanos?
E olha que eu já ia
morrer sem saber
que peter strauss
é um poeta africano do sul.
antes era só o nome
daquele meu amigo peter
que por acaso tem strauss
no sobrenome.
Você se lembra?

Mostre segurança.
Mostre segurança.

E se faltar cerveja
Pega o marcelo montenegro
que eu trouxe no saco
junto com o wally
e o tqto
por pura provocação
todos os poetas em chacal

Se faltar alegria
pega o nilsson
john paul ou bowie.
Mas o neruda
jamais.

Fui algum poeta galês
Algum bêbado, algum bardo.
Teu sérgio sampaio
ou algo que possa
doer menor em itamar.

E se um dia eu morrer,
vou deixar meu sergio mello pra você.




Bruna Beber

4.11.05

Guimarães Rosa



Dizem que o Rosa é regionalista... Eu me divirto muito com isso, porque dizem que eu fiz uma paisagem, um crepúsculo mineiro, e não é nada de crepúsculo mineiro, é um crepúsculo que eu vi na Holanda, misturei com umas coisas que eu vi em Hamburgo, com coisas de Minas, misturei tudo aquilo e joguei lá -- e as pessoas dizem que estou fazendo uma cena do interior de Minas, eu estou fazendo é um omelete ecumênico. O Rosa é como uma ostra: projeta o estômago para fora, pega tudo, de todas as fontes possíveis e introjeta de novo no estômago, mastiga tudo aquilo e produz o texto.


Guimarães Rosa, em conversa com Haroldo de Campos relatada no documentário Os nomes do Rosa, 1996.



3.11.05




Poema


Eu quero ser aberto por punhais
e escavado no fundo dos meus ossos.
Quero abrir esta alma que me morde
como se abre uma noz, ver o que encontro.
Quero saber bem claro isto da vida:
que louco insaciável represento,
de que sede, que febre somos feitos.


Hector Yánover



Nuno, é pra você. Pelos 2 anos de Rua da Judiaria e tudo o mais.


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30.10.05

2 poemas de Luiza Neto Jorge



Alguém se me assemelha
e me quer para si



Poema Quase Epitáfio
Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco

Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos

Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)

O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões

- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?

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As Casas Vieram de Noite


As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas



Luiza Neto Jorge

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28.10.05

Ana C



Estou jogando na caixa do correio mais uma carta para você que só me escreve alusões, elidindo fatos e fatos. É irritante ao extremo, eu quero saber qual foi o filme, onde foi, com quem foi. É quase indecente essa tarefa de elisão, ainda mais para mim, para mim! É um abandono quase grave, e barato. Você precisava de uma injeção de neo-realismo, na veia.


(Pensando em você não é bem o termo. Você na minha pele, me ocorrendo sem querer, até lembrança de perfume.)



Ana C., em Luvas de pelica, 1980.


26.10.05

Murilo Mendes



Propõe-nos Toledo um encontro de culturas díspares -- a cristã, a judia, a mourisca -- bem como a superposição de camadas do tempo. Mas outros dados poderão excitar o hóspede: também o caráter duro da sua posição natural, as rochas, a presença do Tejo de águas severas; suspenso na altura o casario cor de sangue coagulado, as pontes tão próximas, tão distantes; a mole da catedral e do castelo de San Servando, os restos da arquitetura árabe.

***

Na Idade Média Toledo foi centro de alquimistas, de iniciados em ciências esotéricas, artes mágicas, inclusive na arte do demônio, cultivando-se também a cabala, ritos ocultos. Para isso teria contribuído a influência israelita.

***

Isabel a Católica costumava dizer: "Sólo mi siento necia en Toledo." Aludia em particular à mordacidade do espírito das toledanas, o que é confirmado por Azorin: "estas toledanitas son terribles".

***

Procuro pelas ruas moças e mulheres que se assemelhem a outras, pintadas por El Greco. Através das grades daquele convento de freiras atingem-me ecos dum canto com algo de oriental ou não. Sinos ouvem-se de todas as partes, conforme a cantiga popular colhida por Dámaso Alonso: "campanillas de Toledo,/ óigoos y no vos veo". Descubro uma loja onde me forneço de mazapán, estupendo doce árabe a base de amêndoas. É dia de Corpus Christi: as casas acham-se pavesadas, e as ruas atapetadas de folhagem. Sai a procissão percorrendo o centro; o cardeal primaz levanta no ar a pesada custódia do século XVI, invenção de Juan de Arfe; distinguem-se hábitos escuros ou variopintados de membros de ordens religiosas que eu julgava extintas de há muito. Decora externamente a catedral uma série de tapeçarias antigas: vestiram a pedra para a festa. Os turistas que contavam regressar a Madrid no ônibus da tarde impacientam-se: a corrida só terminará de noite. Festa de Corpus Christi e tourada no mesmo dia, quase na mesma hora: somente na Espanha isto sucede, indicando aspectos contrastantes do seu gênio. Mas eu não volto hoje a Madrid: como de outras vezes dormirei em Toledo; aqui a noite ainda consegue dispor de filtros mágicos; ajuda a funcionar o motor da história toledana, áspera.



Murilo Mendes, em "Espaço Espanhol, 1966-1969".



23.10.05

lock and load



* via ondas curtas: reuniões diárias laboratório. grupo mineiro autodenominado "A Vassoura de Deus" articula ciberintervenção em massa -- operação "O papa é pop-up". meta: moralização subliminar da rede e seus usuários. meios: cybersquatting (search&destroy), hackerismo, criação de sites orientados e os biblogs -- blogs bíblicos, disseminação ampla de contra-informações, derrame de hiperdocumentos e links pró-neo-evangelização, arregimentação global de voluntários anônimos p/ agitprop nômade: os "terroristas de maria", guerrilha virtual: franco-atiradores de spams/wide-range virus/junk mail/info-spy, gerar confusão/onicrise de confiabilidade, desideologização, infiltração de fóruns e outros locais de encontros públicos... não consegui mais decodificar. a casa se encheu de parentes gritando, solicitando. tranquei a porta do quarto e fui pro churrasco. suando.

* é, a filosofia do "lock and load" prevaleceu. a galera quer ter o direito de se defender matando rápido e sem contato físico.

* livro é toda publicação com um mínimo de 49 páginas (UNESCO)

* pobresse obrige

* eu não me importo de A. ter um desejo obsessivo-compulsivo de beijar as maçanetas lá de casa. mas ela podia pelo menos não usar batom?

* o povo brasileiro custa a entender o que os governos não se cansam de explicar: ora, primeiro é preciso gerar a riqueza, só depois é que se pode distribuí-la. tchan.

* RELEMINSKI: Me enterrem com os leninistas/Na vala comum dos materialistas/ Onde jazem aqueles/ Que a utopia corrompeu

* vamos foder sim, Eulália, logo mais (Hilda Hilst)

* filhinha, por que a cadeira de balanço da mamãe não balança mais?

* minha CPU tem ruído de ovos fervendo na panela

* os 3 filhos de Francisco: o melhor post do ano

* Quem é Beta, Nelson?

* falando em Nelson, lembrei do Bob: Sou xerife, sou filha de vaqueiro/fui nascida, fui criada no sertão/pego bala, solto bala/lasco bala/e na falta da bala eu dou tiro de feijão

* consolo: se até o roteiro de Rambo I levou 10 anos para ser escrito...

* não dá pra traduzir: de manhã, aquele sorriso maior que o Abaeté/ à noite, um grip demolidor/ meu coração saiu pelas costas

* o que é mais antigo, o dia ou a noite?

* tudo que se torna realidade não é mais amor (mandamento do amor cortês, séc. 12)

* ela sofre tão bem...

* LIVRO NÃO SE EMPRESTA. A CASA É SUA. VENHA LER AQUI. (lembrete afixado numa estante da residência de Mário de Andrade)

* soneto travado: "Ó Minhocas verdes do monte Pascoal..."

* geladeira cheia/libido vazia, libido abarrotada/geladeira vazia. C. tinha problemas para equilibrar a economia doméstica com a economia psíquica. eu engordava e emagrecia, emagrecia e engordava.

* é pagando que se recebe

* só os sovinas condenam sinceramente o sexo por dinheiro, já reparou?

* bem-aventurados os que têm sono, porque breve adormecerão

* tenho tentado viver numa torre de marfim, mas sempre uma maré de merda lhe bate nas paredes para fazê-la desabar (Flaubert)

* quanto de mole forma o duro?

* mortos os mortos pareciam, e os livros,/livros; melhor não viu quem/ verdadeiros os viu, que eu que/ só os vi figurativos

* o poeta novo chama de não-coisa o que o poeta velho chama de intangível

* e não me convidem mais para tertúlias. todas não passam de choldras. nem os alcoóis compensam

* Vén y sabrás al grande fin que aspiro/antes que el tiempo muera em nuestros brazos (González Lanuza)



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18.10.05

Christophe Tarkos

poésie impure: "d'une violangue proétique"




Eu atravesso a ponte, a ponte atravessa o Sena, eu atravesso o Sena, caminho ao longo da ponte, eu não paro, quando caminho eu olho o Sena, a água, sigo por uma ponte, caminho sobre a água, a ponte passa sobre a água, a ponte é longa, eu caminho longamente, vou bem junto ao parapeito da ponte, a ponte passa por cima do Sena, olho o Sena, a água, a água cinza, não estou só, o Sena não está só, estou sobre uma ponte, eu caminho olhando para o rio, a água do rio, a água cinza do rio, eu sigo por um dos lados da ponte, a ponte se alonga de uma margem a outra do Sena, eu caminho de cabeça baixa, a ponte deixa o Sena correr, não olho para a correnteza, tenho sob os olhos a água cinza e larga que passa, eu passo, eu caminho, eu sigo meu rumo, sigo a ponte, eu atravesso a ponte, reparando de vez em quando na água cinza do Sena, a ponte larga atravessa toda a largura do Sena, eu apenas caminharei.


Christophe Tarkos




16.10.05

Orides Fontela: Toda palavra é crueldade



Peixe
pescado
descobre o ar:

não volta para
contar.



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14.10.05




A poesia é um jogo em que,
sob uma realidade
aparente, aparece uma
outra de repente.

...............

Depois de escrever o poema,
os limites da página já não estão
onde foi cortado o papel.

...............

Pego a régua,
a caixa de compassos
e começo a riscar
e desenhar.

Passa um pássaro e o poema acaba.

................

São tantas as diferenças que noto
entre o que sinto e o que vejo,
que, se me lembro de tragédias
pessoais, acendo um cigarro
e saio do poema.



Joan Brossa, 4 poemas.


13.10.05

(.) (.)




Dizem que boi preto, em noite preta, entende o cochicho da gente.





Guimarães Rosa







25.9.05



Gosto de bares assim, logo que abrem para a noite. Quando o ar em seu interior ainda está fresco e limpo, tudo brilha e o barman dá uma última olhada em si mesmo no espelho, para ver se a gravata está no lugar e se o cabelo está bem penteado. Gosto das garrafas limpas no fundo do bar e dos belos copos brilhando, dessa expectativa toda. Gosto de ver o barman misturar o primeiro drinque da tarde e colocá-lo no copo com canudo e gelo e um pequeno guardanapo de papel dobrado ao lado. Gosto de apreciar isso tudo bem devagar. O primeiro e tranqüilo drinque da tarde num bar tranqüilo -- é ótimo... Álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro, mera rotina. Depois disso, tira-se a roupa da garota.



Raymond Chandler, em O longo adeus, 1953.


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23.9.05

É sempre o mesmo cachorro velho com uma coleira nova





"A Inglaterra daria boas-vindas e apoiaria um Hitler que oferecesse paz e tolerância."


Winston Churchill, o baluarte da democracia ocidental, em ensaio escrito em 1939 mas que viria à luz somente nos anos 60 (New York Times, 12-12-1965). A frase-título do post é de um operário catalão anarquista a respeito do governo da República durante a guerra civil espanhola.


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21.9.05

Dorothy Parker




Uma rosa perfeita


Dele só ganhei até hoje uma flor
E tão terna, com um coração à espreita
Pura, púrpura, tendo do orvalho o odor
Uma rosa perfeita.

Já conheço a linguagem do buquê
"Nestas frágeis folhas, meu coração se estreita"
E imagino perfeitamente em quê:
Numa rosa perfeita.

Por que é que nunca me dão
uma limusine perfeita, acaso você suspeita?
Ah, não, o meu destino é ganhar sempre
Uma rosa perfeita.



Dorothy Parker


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