28.10.05
Ana C
Estou jogando na caixa do correio mais uma carta para você que só me escreve alusões, elidindo fatos e fatos. É irritante ao extremo, eu quero saber qual foi o filme, onde foi, com quem foi. É quase indecente essa tarefa de elisão, ainda mais para mim, para mim! É um abandono quase grave, e barato. Você precisava de uma injeção de neo-realismo, na veia.
(Pensando em você não é bem o termo. Você na minha pele, me ocorrendo sem querer, até lembrança de perfume.)
Ana C., em Luvas de pelica, 1980.
26.10.05
Murilo Mendes
Propõe-nos Toledo um encontro de culturas díspares -- a cristã, a judia, a mourisca -- bem como a superposição de camadas do tempo. Mas outros dados poderão excitar o hóspede: também o caráter duro da sua posição natural, as rochas, a presença do Tejo de águas severas; suspenso na altura o casario cor de sangue coagulado, as pontes tão próximas, tão distantes; a mole da catedral e do castelo de San Servando, os restos da arquitetura árabe.
***
Na Idade Média Toledo foi centro de alquimistas, de iniciados em ciências esotéricas, artes mágicas, inclusive na arte do demônio, cultivando-se também a cabala, ritos ocultos. Para isso teria contribuído a influência israelita.
***
Isabel a Católica costumava dizer: "Sólo mi siento necia en Toledo." Aludia em particular à mordacidade do espírito das toledanas, o que é confirmado por Azorin: "estas toledanitas son terribles".
Procuro pelas ruas moças e mulheres que se assemelhem a outras, pintadas por El Greco. Através das grades daquele convento de freiras atingem-me ecos dum canto com algo de oriental ou não. Sinos ouvem-se de todas as partes, conforme a cantiga popular colhida por Dámaso Alonso: "campanillas de Toledo,/ óigoos y no vos veo". Descubro uma loja onde me forneço de mazapán, estupendo doce árabe a base de amêndoas. É dia de Corpus Christi: as casas acham-se pavesadas, e as ruas atapetadas de folhagem. Sai a procissão percorrendo o centro; o cardeal primaz levanta no ar a pesada custódia do século XVI, invenção de Juan de Arfe; distinguem-se hábitos escuros ou variopintados de membros de ordens religiosas que eu julgava extintas de há muito. Decora externamente a catedral uma série de tapeçarias antigas: vestiram a pedra para a festa. Os turistas que contavam regressar a Madrid no ônibus da tarde impacientam-se: a corrida só terminará de noite. Festa de Corpus Christi e tourada no mesmo dia, quase na mesma hora: somente na Espanha isto sucede, indicando aspectos contrastantes do seu gênio. Mas eu não volto hoje a Madrid: como de outras vezes dormirei em Toledo; aqui a noite ainda consegue dispor de filtros mágicos; ajuda a funcionar o motor da história toledana, áspera.
Murilo Mendes, em "Espaço Espanhol, 1966-1969".
23.10.05
lock and load
* via ondas curtas: reuniões diárias laboratório. grupo mineiro autodenominado "A Vassoura de Deus" articula ciberintervenção em massa -- operação "O papa é pop-up". meta: moralização subliminar da rede e seus usuários. meios: cybersquatting (search&destroy), hackerismo, criação de sites orientados e os biblogs -- blogs bíblicos, disseminação ampla de contra-informações, derrame de hiperdocumentos e links pró-neo-evangelização, arregimentação global de voluntários anônimos p/ agitprop nômade: os "terroristas de maria", guerrilha virtual: franco-atiradores de spams/wide-range virus/junk mail/info-spy, gerar confusão/onicrise de confiabilidade, desideologização, infiltração de fóruns e outros locais de encontros públicos... não consegui mais decodificar. a casa se encheu de parentes gritando, solicitando. tranquei a porta do quarto e fui pro churrasco. suando.
* é, a filosofia do "lock and load" prevaleceu. a galera quer ter o direito de se defender matando rápido e sem contato físico.
* livro é toda publicação com um mínimo de 49 páginas (UNESCO)
* pobresse obrige
* eu não me importo de A. ter um desejo obsessivo-compulsivo de beijar as maçanetas lá de casa. mas ela podia pelo menos não usar batom?
* o povo brasileiro custa a entender o que os governos não se cansam de explicar: ora, primeiro é preciso gerar a riqueza, só depois é que se pode distribuí-la. tchan.
* RELEMINSKI: Me enterrem com os leninistas/Na vala comum dos materialistas/ Onde jazem aqueles/ Que a utopia corrompeu
* vamos foder sim, Eulália, logo mais (Hilda Hilst)
* filhinha, por que a cadeira de balanço da mamãe não balança mais?
* minha CPU tem ruído de ovos fervendo na panela
* os 3 filhos de Francisco: o melhor post do ano
* Quem é Beta, Nelson?
* falando em Nelson, lembrei do Bob: Sou xerife, sou filha de vaqueiro/fui nascida, fui criada no sertão/pego bala, solto bala/lasco bala/e na falta da bala eu dou tiro de feijão
* consolo: se até o roteiro de Rambo I levou 10 anos para ser escrito...
* não dá pra traduzir: de manhã, aquele sorriso maior que o Abaeté/ à noite, um grip demolidor/ meu coração saiu pelas costas
* o que é mais antigo, o dia ou a noite?
* tudo que se torna realidade não é mais amor (mandamento do amor cortês, séc. 12)
* ela sofre tão bem...
* LIVRO NÃO SE EMPRESTA. A CASA É SUA. VENHA LER AQUI. (lembrete afixado numa estante da residência de Mário de Andrade)
* soneto travado: "Ó Minhocas verdes do monte Pascoal..."
* geladeira cheia/libido vazia, libido abarrotada/geladeira vazia. C. tinha problemas para equilibrar a economia doméstica com a economia psíquica. eu engordava e emagrecia, emagrecia e engordava.
* é pagando que se recebe
* só os sovinas condenam sinceramente o sexo por dinheiro, já reparou?
* bem-aventurados os que têm sono, porque breve adormecerão
* tenho tentado viver numa torre de marfim, mas sempre uma maré de merda lhe bate nas paredes para fazê-la desabar (Flaubert)
* quanto de mole forma o duro?
* mortos os mortos pareciam, e os livros,/livros; melhor não viu quem/ verdadeiros os viu, que eu que/ só os vi figurativos
* o poeta novo chama de não-coisa o que o poeta velho chama de intangível
* e não me convidem mais para tertúlias. todas não passam de choldras. nem os alcoóis compensam
* Vén y sabrás al grande fin que aspiro/antes que el tiempo muera em nuestros brazos (González Lanuza)
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18.10.05
Christophe Tarkos
poésie impure: "d'une violangue proétique"
Christophe Tarkos
Eu atravesso a ponte, a ponte atravessa o Sena, eu atravesso o Sena, caminho ao longo da ponte, eu não paro, quando caminho eu olho o Sena, a água, sigo por uma ponte, caminho sobre a água, a ponte passa sobre a água, a ponte é longa, eu caminho longamente, vou bem junto ao parapeito da ponte, a ponte passa por cima do Sena, olho o Sena, a água, a água cinza, não estou só, o Sena não está só, estou sobre uma ponte, eu caminho olhando para o rio, a água do rio, a água cinza do rio, eu sigo por um dos lados da ponte, a ponte se alonga de uma margem a outra do Sena, eu caminho de cabeça baixa, a ponte deixa o Sena correr, não olho para a correnteza, tenho sob os olhos a água cinza e larga que passa, eu passo, eu caminho, eu sigo meu rumo, sigo a ponte, eu atravesso a ponte, reparando de vez em quando na água cinza do Sena, a ponte larga atravessa toda a largura do Sena, eu apenas caminharei.
Christophe Tarkos
16.10.05
14.10.05
A poesia é um jogo em que,
sob uma realidade
aparente, aparece uma
outra de repente.
...............
Depois de escrever o poema,
os limites da página já não estão
onde foi cortado o papel.
...............
Pego a régua,
a caixa de compassos
e começo a riscar
e desenhar.
Passa um pássaro e o poema acaba.
................
São tantas as diferenças que noto
entre o que sinto e o que vejo,
que, se me lembro de tragédias
pessoais, acendo um cigarro
e saio do poema.
Joan Brossa, 4 poemas.
13.10.05
25.9.05

Gosto de bares assim, logo que abrem para a noite. Quando o ar em seu interior ainda está fresco e limpo, tudo brilha e o barman dá uma última olhada em si mesmo no espelho, para ver se a gravata está no lugar e se o cabelo está bem penteado. Gosto das garrafas limpas no fundo do bar e dos belos copos brilhando, dessa expectativa toda. Gosto de ver o barman misturar o primeiro drinque da tarde e colocá-lo no copo com canudo e gelo e um pequeno guardanapo de papel dobrado ao lado. Gosto de apreciar isso tudo bem devagar. O primeiro e tranqüilo drinque da tarde num bar tranqüilo -- é ótimo... Álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro, mera rotina. Depois disso, tira-se a roupa da garota.
Raymond Chandler, em O longo adeus, 1953.
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23.9.05
É sempre o mesmo cachorro velho com uma coleira nova

"A Inglaterra daria boas-vindas e apoiaria um Hitler que oferecesse paz e tolerância."
Winston Churchill, o baluarte da democracia ocidental, em ensaio escrito em 1939 mas que viria à luz somente nos anos 60 (New York Times, 12-12-1965). A frase-título do post é de um operário catalão anarquista a respeito do governo da República durante a guerra civil espanhola.
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"A Inglaterra daria boas-vindas e apoiaria um Hitler que oferecesse paz e tolerância."
Winston Churchill, o baluarte da democracia ocidental, em ensaio escrito em 1939 mas que viria à luz somente nos anos 60 (New York Times, 12-12-1965). A frase-título do post é de um operário catalão anarquista a respeito do governo da República durante a guerra civil espanhola.
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21.9.05
Dorothy Parker

Uma rosa perfeita
Dele só ganhei até hoje uma flor
E tão terna, com um coração à espreita
Pura, púrpura, tendo do orvalho o odor
Uma rosa perfeita.
Já conheço a linguagem do buquê
"Nestas frágeis folhas, meu coração se estreita"
E imagino perfeitamente em quê:
Numa rosa perfeita.
Por que é que nunca me dão
uma limusine perfeita, acaso você suspeita?
Ah, não, o meu destino é ganhar sempre
Uma rosa perfeita.
Dorothy Parker
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16.9.05

Projecto de Sucessão
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra.
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponhas as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar de fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
António Maria Lisboa
imagem: Laurent Askienazy
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14.9.05

A posse do silêncio
Não, não te assustes! Eu não quero mais este reino dos céus nem um milímetro por século. Num dia tão cheio de sol, hoje estou de pé diante do teu susto. Sim, sou eu mesma, vê? Sei que a ti pouco importa que não seja eu propriamente dita, mas a que convencionei chamar de eu. E estou aqui agora nesta página tão dentro dela como um desenho há trezentos mil anos numa caverna. Escuta sem susto e sem sofrimento: este meu reino também é do teu mundo. Não é a via-láctea, ou o paraíso perdido. É o nada em cada um de nós, fluido e constante. O grande vazio de nós é o meu lugar de existir, e quando atravessares minha escuridão, te encontrarás do outro lado contigo. Ah, não me descompreendas, não estou tirando nada de ti. Se venho aqui, é porque estou querendo que eu reviva da parte humana mais difícil: que eu viva do germe do amor neutro. Não, não te assustes como estou assustada: não pode ser ruim ver a vida no seu plasma. Espera, espera que eu ainda continue um pouco. Estou falando da morte? não, da vida. Não é um estado de felicidade, é um estado de contato. Tenho avidez pelo mundo, mas ao mesmo tempo não preciso de nada. Não preciso sequer que uma árvore exista. Eu sei agora de um modo que prescinde de tudo, que prescinde de mim. Eu sei agora da perda de tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser. Mas volto com as mãos vazias, volto com o indizível.
Clarice Lispector, em psicografia não autorizada, 2005.
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9.9.05
Paulo Coelho: uma leitura acadêmica

Nunca é demais lembrar a realidade do texto como coisa de palavras, onde identidade e valor se medem pela fluência de seus próprios materiais icônicos. Com isto em mente, Roman Iákobson sustentou a tese de que, na prosa, há uma inclinação natural para a metonímia e, na poesia, para a metáfora. No entanto, o que se observa na obra-invenção de Paulo Coelho é a transvaloração desta dupla polaridade, a saber, prosa/poesia e metonímia/metáfora.
A obra coelhiana transfigura, de forma irreconhecivelmente original, os dois universos de representação. Ao manipular livremente os pretextos sígnicos como se os transformasse em transparências, opacidades, Coelho des-hierarquiza o ritual/valor simbólico das palavras, atribuindo-lhes uma nova configuração numa hierarquia já agora transubstancializada dos caracteres físicos, articulando assim os novos signos-transparências numa espécie de descontexto em que falarão de tudo, menos do universo que o autor-leitor-autor vê a sua volta. Na recusa ao jogo fácil da poesia-dicionário e da prosa factual, Coelho implode o arame farpado das categorizações da literatura programática que se fez até agora para reinstaurar sua palavra liquidificada, transluzente e desritualizada no terreno livre, opaco e universal da pluri/nanossignificância, reinscrevendo assim o corpus literário no plano que lhe é de direito: um turbilhonante amálgama individuado de significados sem significado e de significantes des-significantizados.
Assim sendo, não seria hiperbólico afirmar que James Joyce e Guimarães Rosa têm em Paulo Coelho um herdeiro à altura, não como um discípulo do ABC poundiano, que tanto agrada às elites acadêmicas e à crítica mambembe de nossos resenhistas literários, mas enquanto a aurora de um novo paideuma: o XYZ da literatura.
7.9.05
1.9.05
Katrina Blues
Dizem que a água cobriu New Orleans. Já não posso ver daqui a Nouvelle Orleans do Garden District, Niuorlins do French Quarter, da Bourbon Street, do French Market. Já não posso ver ma baby. A luz da noite não vem dos bares mas das lanternas de resgate. A cidade inteira transformada num imenso Voodoo Museum. Os gritos não vêm do Mardigras. A alegria acabou. Meu copo vazio encheu-se de água suja. Equipes mortuárias identificam corpos pelas ruas, mas não me viram. Helicópteros feito aves agourentas sobrevoando sobrados históricos e seus balcões de ferro, onde sempre apoiei meu braço cansado. Fats Domino pode estar pendurado num telhado, o velho safado. Só pode estar. Irão achá-lo, espero assim. Não ia dar essa bobeira. Espero por ele, longe do Mississippi, velho, longe do Mississippi. Meus companheiros estão comigo. Afinam os instrumentos. Evil Katrina. Katrina Blues. Ainda não decidimos o nome da música. Paciência. Temos tempo de sobra para esquentar a garganta.
Oh, when the saints go marching in,
Oh, when the saints go marching in;
Lord, I want to be in that number,
When the saints go marching in.
All my folks have gone before me,
All my friends and all my kin;
But I'll meet with them up yonder,
When the saints go marching in.
30.8.05
24.8.05
Camus descobre a América

Camus descobre a América
"15 grandes cidades apitando, berrando, trabalhando, divertindo-se com uma espécie de desespero mecânico."
"os americanos são cordiais, hospitaleiros e indiferentes, que se satisfazem depressa, e esquecem depressa."
"o segredo de qualquer conversa aqui é falar para não dizer nada: Good morning, Good morning. Do you like America, Mr. Camus?, Ok, I like it very much. Nice country, is it not?, It is. Will you come back again?, Sure. Etc. etc. "
"durante dias passeei por Nova York com os olhos cheios de lágrimas... simplesmente porque o ar da cidade é cheio de ciscos... É desse modo, enfim, que carrego Nova York em mim, como quem leva no olho um corpo estranho, insuportável e delicioso, com lágrimas de enternecimento e fúrias de rejeição a tudo. Talvez seja isso que chamamos de paixão..."
"sim, gosto das manhãs e das noites de Nova York. Gostei de Nova York com aquele amor possante que às vezes nos deixa cheios de incertezas e de ódio, precisando de um exílio."
"minha curiosidade por este país cessou de repente. Como acontece com alguns seres dos quais me afasto sem explicação e sem mais interesse. E certamente enxergo as mil razões que podemos ter para nos interessar por ele, seria capaz de apresentar sua defesa e apologia, posso descrever sua beleza e seu futuro, mas simplesmente meu coração parou de falar."
-- passagens extraídas de sua correspondência particular e de seu diário, por ocasião de sua viagem aos EUA em 1946 para uma série de palestras e o lançamento da edição americana de O estrangeiro. Em terras americanas, Camoose, como era chamado lá, observou com interesse o abuso do uísque entre intelectuais, o luxo e o mau gosto até nas gravatas, o hábito de sucos de frutas pela manhã, de sorvetes deliciosos, das doses de vitaminas, de ovos com bacon, as drásticas variações de temperatura, a Broadway e seus teatros, as luzes de néon, Chinatown, o Bronx, o Harlem, o Brooklyn, o jazz, as boates, os cafés-concertos burlescos e os estranhos costumes funerários dos americanos. Na volta a Paris, após 12 dias de navio, Camus traz na bagagem 80 quilos distribuídos por caixas de açúcar, café, ovos em pó, alimentos para bebês, comidas em conserva, sabonetes e sabão em pó. (in Albert Camus, Une Vie, Olivier Todd, 1996.)
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16.8.05
Gertrude Stein
I like the feeling the everlasting feeling of
sentences as they diagram themselves
As long as the outside does not put a value on you it remains outside but when it does put a value on you then it gets inside or rather if the outside puts a value on you then all your inside gets to be outside.
14.8.05
Cruz e Sousa
Elizirna! Elizirna!
Como faz a gente pensar nos mundos de além, emigrar, boemizar, para a gare azul dos sonhos estrelados de auroras, o teu perfil correto, linha direita de imperatriz da Rússia.
Como essa cintura, mais delicada e galante do que a pétala branca, de leite, da deliciosa magnólia, quando a gente te vê elegantemente espartilhada, jubilosa, parecendo uma alegria do céu, tantaliza e arrebata os bravios leões do desejo.
Elizirna! Elizirna!
E a tua epiderme, macia, jambosa, com a penugem veludínea do pêssego, molar com a suavidade doce do creme, e o frescor perfumoso da malva-maçã; de um róseo queimado, a tua epiderme, flor azul dos luares brancos, impressiona o nervosismo, dá irritabilidades espasmódicas.
E a música do teu laringe, o gargantear cantarolante do cristal, semelhante ao tinido miúdo, claro, sonoro de uma campainha elétrica, vibrada num palácio de vidro, como prostra a alma num êxtase, num êxtase...
Elizirna! Elizirna!
E a curva do teu colo, a abençoada curva do teu colo!
Quantos ideais meus, quantas cismas encharcadas no licor saborosíssimo da ventura que palpita, que ferve, que escalda e esbraseia, não foram flutuar, boiar no maciosíssimo topázio rico do teu colo moreno, como um batalhão triunfal de pássaros vermelhos, nos fluidos da enorme concha de alabastro do firmamento.
Elizirna! Elizirna!...
Pomba doce dos países de ouro.
E a tua boca, cor de pitanga madura, levemente roxa, esse escrínio rútilo dos meus beijos, esse fruto ruborizado, polposo, sempre aromático, infiltrado do sândalo agradável da mocidade, do gosto saudável da beleza pura, castíssima, frescurizada, vegetabilizante, como é consoladora e boa.
Elizirna! Elizirna!
E a tempestade negra dos teus cabelos, cortada pelos fuzis dos meus olhares, por onde o vento absurdo, desabrido, das minhas desgraças, faz ziguezagues e esfuziotes continuados; o mar profundo e vão dessas tranças, por onde o meu destino naufraga desoladoramente, como eu acho terrivelmente deslumbrante, esmagadoramente belo...
Elizirna! Elizirna!...
E os teus olhos, filha, abundantes de cousas celestiais, fartos das bênçãos do gozo, inundados dos equatorianos rosicleres primaverinos, cheios dos pizzicatos, dos acceleratos das paixões, como iluminam e cantam...
Elizirna! Elizirna!...
Parecem dois sóis esplendorosíssimos, os teus olhos, cada qual com um sabiá dentro, abrindo, cristalinizadoramente, em trilhos gorjeadores, a bravuresca garganta lírica...
Cruz e Sousa
3.8.05
31.7.05
A primeira cabeça cortada a gente nunca esquece
Prezado Almocreve
Pois foi. Antesmente lhe agradeço as palavras tam gentis, fiz gosto. O senhor não carecia de. Um chamego é sempre bom, faz a p'ssoa sentir que está falando consigo mesma, aconchegando pertinho. Tão pertinho que posso lhe contar a confidência de como surgiu meu amor por Lampião. Assim, eu menina ainda, meus velhos me arrastaram prum museu aqui da ex-capital do Brasil. Um museu formoso, cheio de histórias e pertences de reis de Portugal, carruagens e coisas, mais ossadas de animais e vidas num formol, nem mais lhe relato porque o senhor deve de saber imaginar aquilo tudo que há dentro de uma casa dessas. Apois foi que meu olho bateu num mostruário de vidro com as cabeças duns cangaceiros, pura verdade. Lampião e Maria Bonita entre elas. Meu bestunto ainda mirrado naqueles dias quase perdeu a mão. Num se faz isso nem com uma criança, o senhor não acha, acha? Foi dali que nasceu doído meu amor pelo cangaço e pelo xaxado, que um dia lhe ensino a dançar, se o senhor fizer gosto. O xaxado como Lampião inventou: aquele ruidim que as pisadas de alpercatas faziam no chão arenoso e pedregulhoso do sertão.
Sem mais pra lhe dizer, que o dia hoje tá uma leseira só, deixo aqui uma toada popular pra alegrar quem tem calo no coração:
Eu canto o que sucedeu
Na sombra da gameleira:
Foi um tiro de ronqueira
O peido que a doida deu.
Toda terra estremeceu,
Abalou Assuaçu!
Ela mexendo um angu,
Puxou a perna de lado,
Deu um peido tão danado,
Quase não cabe no cu.
Que a Nossa Senhora das Vassouras lhe proteja.
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20.7.05
Luiza Neto Jorge
A cabeça em ambulância
Há feridas cíclicas há violentos vôos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã
ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos
ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta
quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura, de infância
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Venho de dentro, abriu-se a porta...
Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.
Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra
Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.
17.6.05
Fazer poético: lição de João Cabral
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar o poema.
João Cabral de Melo Neto, no poema "Alguns Toureiros", 1954-55.
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como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar o poema.
João Cabral de Melo Neto, no poema "Alguns Toureiros", 1954-55.
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12.6.05
Mario Benedetti
Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque viestes a recolher tua imagem
e és melhor do que todas tuas imagens
porque és linda desde o pé até a alma
porque és boa desde a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça
porque és minha
porque não és minha
porque te vejo e morro
e pior que morro
se não te vejo amor
se não te vejo
porque tu sempre existes onde quer que seja
porém existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que amar-te amor
tenho que amar-te
ainda que esta ferida doa como dois
ainda que te busque e não te encontre
e ainda que
a noite passe e eu te tenha
e não.
11.6.05
Conde de Lautréamont
Para construir mecanicamente o miolo de uma história de adormecer, não basta dissecar asneiras e embrutecer poderosamente em doses repetidas a inteligência do leitor, de maneira a tornar paralíticas as suas faculdades para o resto da vida, pela infalível lei do cansaço; é preciso, além disso, com um bom fluido magnético, pô-lo engenhosamente na impossibilidade sonâmbula de se mexer, forçando-o a escurecer os olhos, contra o que lhe é natural, pela fixidez dos nossos. Quero eu dizer, para não me fazer compreender melhor mas apenas para desenvolver o meu pensamento, que ao mesmo tempo interessa e irrita por uma harmonia das mais penetrantes, que não acredito que seja necessário, para atingir o fim que nos propomos, inventar uma poesia inteiramente fora do caminho habitual da natureza, e cujo sopro nocivo pareça transtornar até as verdades absolutas; mas conseguir tal resultado (aliás conforme às regras da estética, se pensarmos bem) não é tão fácil como se pensa: era o que eu queria dizer. É por isso que envidarei todos os meus esforços para o conseguir! Se a morte detiver a magreza fantástica dos dois braços compridos dos meus ombros, utilizados no lúgubre esfarelamento do meu gesso literário, quero pelo menos que o leitor de luto possa dizer consigo mesmo: "Há que lhe fazer justiça. Cretinizou-me muito. Que não teria ele feito se tivesse podido viver mais! É o melhor professor de hipnotismo que conheço!"
Conde de Lautréamont, em Cantos de Maldoror, 1869.
6.6.05
Duas canções do tempo do beco
Primeira canção do beco
Teu corpo dúbio, irresoluto
De intersexual disputadíssima,
Teu corpo, magro não, enxuto,
Lavado, esfregado, batido,
Destilado, asséptico, insípido
E perfeitamente inodoro
É o flagelo de minha vida,
Ó esquizóide! ó leptossômica!
Por ele sofro há bem dez anos
(Anos que mais parecem séculos)
Tamanhas atribulações,
Que às vezes viro lobisomem,
E estraçalhado de desejos
Divago como os cães danados
A horas mortas, por becos sórdidos!
Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
Por estas sombras de convento,
E propicia aos meus sentidos
Atônitos, horrorizados
A folha-morta, o parafuso,
O trauma, o estupor, o decúbito!
Segunda canção do beco
Teu corpo moreno
É da cor da praia.
Deve ter o cheiro
Da areia da praia.
Deve ter o cheiro
Que tem ao mormaço
A areia da praia.
Teu corpo moreno
Deve ter o gosto
De fruta de praia.
Deve ter o travo,
Deve ter a cica
Dos cajus da praia.
Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz.
Manuel Bandeira
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Primeira canção do beco
Teu corpo dúbio, irresoluto
De intersexual disputadíssima,
Teu corpo, magro não, enxuto,
Lavado, esfregado, batido,
Destilado, asséptico, insípido
E perfeitamente inodoro
É o flagelo de minha vida,
Ó esquizóide! ó leptossômica!
Por ele sofro há bem dez anos
(Anos que mais parecem séculos)
Tamanhas atribulações,
Que às vezes viro lobisomem,
E estraçalhado de desejos
Divago como os cães danados
A horas mortas, por becos sórdidos!
Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
Por estas sombras de convento,
E propicia aos meus sentidos
Atônitos, horrorizados
A folha-morta, o parafuso,
O trauma, o estupor, o decúbito!
Segunda canção do beco
Teu corpo moreno
É da cor da praia.
Deve ter o cheiro
Da areia da praia.
Deve ter o cheiro
Que tem ao mormaço
A areia da praia.
Teu corpo moreno
Deve ter o gosto
De fruta de praia.
Deve ter o travo,
Deve ter a cica
Dos cajus da praia.
Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz.
Manuel Bandeira
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29.5.05
A poesia de Glauber Rocha
Não é mais possível esta festa de medalhas,
este feliz aparato de glórias,
esta esperança dourada nos planaltos!
Não é mais possível esta festa de bandeiras
com Guerra e Cristo na mesma posição!
Não é possível a impotência da fé
a ingenuidade da fé...
Vejo campos de agonia,
Velejo mares do Não...
Na ponta da minha espada
Trago os restos da paixão
Que herdei daquelas guerras.
Umas de mais, outras de menos,
Testemunhas silenciosas
Do sangue que nos sustenta.
Convivemos com a morte.
Dentro de nós a morte se converte
Em tempo diário, em derrota
Do quanto empregamos,
Ao passo que vamos, recuamos.
Não anuncio cantos de paz
Nem me interessam as flores do estilo.
Como por dia mil notícias amargas
Que definem o mundo em que vivo.
Não me causam os crepúsculos
A mesma dor da adolescência.
Devolvo à paisagem
Os vômitos da experiência...
Quando a beleza é superada pela realidade,
Quando perdemos nossa pureza nestes jardins de males tropicais,
Quando no meio de tantos anêmicos respiramos
O mesmo bafo de vermes em tantos poros animais,
Ou quando fugimos das ruas e dentro da nossa casa
A miséria nos acompanha em suas coisas mais fatais
Como a comida, o livro, o disco, a roupa, o prato, a pele,
O fígado de raiva arrebentando, a garganta em pânico
E um esquecimento de nós inexplicável,
Sentimos finalmente que a morte aqui converge
Mesmo como forma de vida, agressiva.
Qual o sentido da coerência?
Dizem que é prudente observar a História sem sofrer.
Até que um dia, pela coincidência,
As massas tomem o poder...
Ando nas ruas e vejo o povo fraco, abatido,
Este povo não pode acreditar em nenhum partido.
Este povo cuja tristeza apodreceu o sangue
Precisa da morte mais do que se pode supor.
O sangue que em seu irmão estimula a dor,
O sentimento do nada que faz nascer o amor,
A morte enquanto fé e não como temor.
#
Estou morrendo agora, nesta hora.
Estou morrendo neste tempo.
Estou correndo meu sangue e minhas lágrimas.
Ah, Sara! Todos vão dizer que sempre fui um louco,
um anarquista, que sempre...
Ah, não sei, Sara...
Até quando suportaremos?
Até quando além da fé e da esperança suportaremos?
Até quando além da paciência e do amor suportaremos?
Até quando além da inconsciência?
Até quando? Até quando, Sara?
Sara, foi tudo por amor a você...
-- poemas esparsos do personagem Paulo Martins do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, 1967.
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21.5.05
20.5.05
Adélia Prado
Cinzas
No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita,
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.
Adélia Prado
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18.5.05
Oração a Oxum
Ora iê iê ô Oxum,
Salve dourada senhora
Da pele de ouro!
Benditas são suas águas,
e essas mesmas águas lavam meu ser
e me livram do mal.
Oxum, Divina Rainha, bela orixá,
venha a mim, caminhando na Lua Cheia.
Traga, mãe, em suas mãos,
os lírios do amor e da paz.
Dai-me o néctar da sua doçura.
Mãe do ouro, da beleza e do amor,
Senhora do mais puro Axé,
valei-me hoje e sempre.
Aiê iê ô Oxum!
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imagem: Oxum, arte digital de Paulo R. Rodrigues
14.5.05
Cecily von Ziegesar
brunch no domingo
No fim da manhã de domingo, a escadaria do Metropolitan Museum of Art estava abarrotada de gente. Turistas, principalmente, e moradores que tinham vindo em uma breve visita para poder se gabar com os amigos e aparentar cultura.
Dentro do museu, estavam servindo um brunch na ala egípcia para todos os membros do conselho do museu e suas famílias. A ala egípcia era um cenário soberbo para festas noturnas -- em ouro brilhante e exótica, com o luar brilhando dramaticamente em todas as modernas paredes de vidro. Mas era totalmente inadequada para um brunch. Salmão defumado, ovos e faraós egípcios mumificados realmente não combinam. Além disso, o sol da manhã brilhava tão forte pelas paredes de vidro oblíquas que até a mais leve ressaca parecia dez vezes pior.
Quem foi o idiota que inventou o brunch? O único lugar decente para ele nas manhãs de domingo era a cama.
A sala estava cheia de grandes mesas redondas e moradores recém-lavados do Upper East Side. Eleanor Waldorf, Cyrus Rose, os van der Woodsen, os Bass, os Archibald e seus filhos estavam ali, todos sentados em volta de uma mesa. Blair sentou-se entre Cyrus Rose e a mãe, mal-humorada. Nate, intermitentemente chapado, bêbado ou inconsciente desde sexta-feira, parecia tonto e amarrotado, como se tivesse acabado de acordar. Serena usava uma das roupas novas que tinha comprado com a mãe na véspera e estava com um novo corte de cabelo, com camadas suaves emoldurando o rosto. Estava ainda mais bonita do que nunca, mas nervosa e quicando depois de beber seis xícaras de café. Só Chuck parecia tranqüilo, bebericando satisfeito seu Bloody Mary.
Cyrus Rose cortou a omelete de salmão e alho-poró ao meio e a enfiou em um pão de centeio.
-- Estou louco para comer ovo -- disse ele para ninguém em particular, dando uma mordida faminta. -- Sabe quando o seu corpo diz que você precisa de uma coisa? O meu está gritando: "Ovo, ovo, ovo!"
E o meu está gritando: "Cala a porra dessa boca!", pensou Blair.
Blair empurrou seu prato para ele.
-- Toma, fica com o meu. Detesto ovo.
Cyrus empurrou o prato de volta.
-- Não, você está em fase de crescimento. Precisa dele mais do que eu.
-- Ele tem razão, Blair -- concordou a mãe dela. -- Coma seu ovo. Vai fazer bem a você.
-- Ouvi dizer que ovo dá brilho aos cabelos -- acrescentou Misty Bass.
Blair sacudiu a cabeça.
-- Eu não como aborto de galinha -- disse ela, obstinada. -- Me dá enjôo.
Cecily von Ziegesar, em Gossip Girl, vol. 1. Considerada a "Sex and the City" versão adolescente, a série Gossip Girl virou best-seller nos EUA. Aqui vai trilhando o mesmo caminho.
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6.5.05
A literatura e as escalas de grandeza
Tera é uma adaptação originária do grego tetra-, que, como sabemos desde 1994, é um prefixo que significa "quatro", como em "tetracampeão", "tetraciclina" ou "tetralegal". Tera é um multiplicador, por exemplo, um teragrama equivale a um trilhão de gramas. (Não confundir com "tetragrama", que significa uma palavra com quatro letras.) Donde podemos concluir que um teraconto são um trilhão de contos.
Giga, também uma adaptação do grego gígas, deu origem a "gigante". Assim, um gigagrama equivale a um bilhão de gramas. Logo, um gigaconto são um bilhão de contos.
Mega, do grego megal(o)-, significa "grande", como em "megacéfalo". Pois bem, um megagrama equivale a um milhão de gramas. Assim, um megaconto é uma unidade equivalente a um milhão de contos.
Quilo, vem do grego khílioi. Todos sabem que um quilograma equivale a mil gramas. No entanto, pouca gente se dá conta de que um quiloconto vale mil contos.
Mili, forma derivada do francês millième, não do latim millesimus (há controvérsias desde Sêneca), significando "milésimo". Assim, um miligrama, claro, equivale à milésima parte do grama. O miliconto, portanto, é a milésima parte de um conto.
Micro, do grego mikrós, significando "pequeno", "curto", "pouco" ou "pouco importante". Um micrograma é a milionésima parte do grama. Logo, um microconto é um conto dividido por 1 milhão. Correto?
Nano, outra vez do grego nánnos (é impressionante!), significa "excessiva pequenez", derivando para "anão". Um nanograma é a bilionésima parte de um grama. Então temos que um nanoconto equivale à bilionésima parte do conto.
Pico, do italiano piccolo (ah, enfim o império romano), significando "pequeno". Um picograma é um trilionésimo de um grama. Assim, um picoconto é um conto dividido por 1 trilhão.
Já o conto, a unidade lingüística que nos interessa aqui, vem do latim computus, significando "cálculo", "cômputo", "conta", a que o povo daria posteriormente a acepção de "narrar", vindo de "computare": enumerar os detalhes de um acontecimento, relatar etc. Nada se determinou a respeito do tamanho exato de um conto, se deve equivaler a mil escudos, um milhão de réis, 50 rasos de sal ou 20 meadas de linho. Sabe-se apenas que o conto deve ser uma narrativa breve ou concisa. Seja com milhares de tetragramas ou com um bilionésimo de picograma.
Assim, de posse desta elucidativa tabela, querido autor, escolha o tamanho desejado de sua literatura e mãos à obra. Para finalizar, desejo registrar aqui meus agradecimentos à minha Tabela de Unidades de Pesos e Medidas, sem a qual este esboço da tese acadêmica que ora preparo, intitulada "A Literatura a Metro", teria sido impossível. Título, aliás, inspirado numa afirmação de Júlio César anotada em seu De Bello Gallico. Diz lá o intrépido general romano que, ao ser indagado sobre o que achava das filosofices de seu arquiinimigo, o arenguista profissional Cícero, ele teria dito: " -- Ave, aquilo tudo é literatura pra mais de metro."
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Tera é uma adaptação originária do grego tetra-, que, como sabemos desde 1994, é um prefixo que significa "quatro", como em "tetracampeão", "tetraciclina" ou "tetralegal". Tera é um multiplicador, por exemplo, um teragrama equivale a um trilhão de gramas. (Não confundir com "tetragrama", que significa uma palavra com quatro letras.) Donde podemos concluir que um teraconto são um trilhão de contos.
Giga, também uma adaptação do grego gígas, deu origem a "gigante". Assim, um gigagrama equivale a um bilhão de gramas. Logo, um gigaconto são um bilhão de contos.
Mega, do grego megal(o)-, significa "grande", como em "megacéfalo". Pois bem, um megagrama equivale a um milhão de gramas. Assim, um megaconto é uma unidade equivalente a um milhão de contos.
Quilo, vem do grego khílioi. Todos sabem que um quilograma equivale a mil gramas. No entanto, pouca gente se dá conta de que um quiloconto vale mil contos.
Mili, forma derivada do francês millième, não do latim millesimus (há controvérsias desde Sêneca), significando "milésimo". Assim, um miligrama, claro, equivale à milésima parte do grama. O miliconto, portanto, é a milésima parte de um conto.
Micro, do grego mikrós, significando "pequeno", "curto", "pouco" ou "pouco importante". Um micrograma é a milionésima parte do grama. Logo, um microconto é um conto dividido por 1 milhão. Correto?
Nano, outra vez do grego nánnos (é impressionante!), significa "excessiva pequenez", derivando para "anão". Um nanograma é a bilionésima parte de um grama. Então temos que um nanoconto equivale à bilionésima parte do conto.
Pico, do italiano piccolo (ah, enfim o império romano), significando "pequeno". Um picograma é um trilionésimo de um grama. Assim, um picoconto é um conto dividido por 1 trilhão.
Já o conto, a unidade lingüística que nos interessa aqui, vem do latim computus, significando "cálculo", "cômputo", "conta", a que o povo daria posteriormente a acepção de "narrar", vindo de "computare": enumerar os detalhes de um acontecimento, relatar etc. Nada se determinou a respeito do tamanho exato de um conto, se deve equivaler a mil escudos, um milhão de réis, 50 rasos de sal ou 20 meadas de linho. Sabe-se apenas que o conto deve ser uma narrativa breve ou concisa. Seja com milhares de tetragramas ou com um bilionésimo de picograma.
Assim, de posse desta elucidativa tabela, querido autor, escolha o tamanho desejado de sua literatura e mãos à obra. Para finalizar, desejo registrar aqui meus agradecimentos à minha Tabela de Unidades de Pesos e Medidas, sem a qual este esboço da tese acadêmica que ora preparo, intitulada "A Literatura a Metro", teria sido impossível. Título, aliás, inspirado numa afirmação de Júlio César anotada em seu De Bello Gallico. Diz lá o intrépido general romano que, ao ser indagado sobre o que achava das filosofices de seu arquiinimigo, o arenguista profissional Cícero, ele teria dito: " -- Ave, aquilo tudo é literatura pra mais de metro."
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5.5.05
4.5.05
3.5.05
Günter Grass
Pontualidade
No andar debaixo
uma jovem mulher
bate no filho
a cada meia hora.
Por isso vendi
o meu relógio
e só me oriento
pela mão severa
do andar debaixo,
os cigarros contados
ao alcance de minha mão.
Tenho o tempo bem medido.
Günter Grass, trad. MP.
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No andar debaixo
uma jovem mulher
bate no filho
a cada meia hora.
Por isso vendi
o meu relógio
e só me oriento
pela mão severa
do andar debaixo,
os cigarros contados
ao alcance de minha mão.
Tenho o tempo bem medido.
Günter Grass, trad. MP.
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2.5.05
O que há em mim é sobretudo cansaço --
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas --
Essas e o que falta nelas eternamente --;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada --
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, 1934.
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29.4.05
Clément Marot - poema erótico
O monge e a velha
Passeando um monge pela beira-rio,
Viu uma velha que lavava a roupa;
Viu-lhe a perna de garça e o fogo viu
Onde uma coxa vem juntar-se à outra.
O monge inflamado ergue a própria roupa,
Pega o instrumento e se achegando a ela:
Velha, diz ele, acende a minha vela.
E, para dar-lhe gosto, a velha então
Vira-lhe o cu e pede por cautela:
Chega mais perto e assopra o meu carvão.
Clément Marot, séc. 16.
27.4.05
José Craveirinha
Aforismo
Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.
(1968)
Fábula
Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.
Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!
Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.
José Craveirinha, considerado o maior poeta da língua portuguesa na África e um dos maiores escritores africanos.
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26.4.05
25.4.05
becominglessness
Subo lentamente os degraus da escada. Não tenho curiosidade de contá-los. Falando sério, entre nós dois, nunca tive curiosidade de nada. Rigorosamente nada. Muito menos da vida alheia. Nada herdei das pias matronas romanas. Nem as noções de datilografia de suas filhas, minhas mães. Maria teve um filho de quem se tornou filha, você sabe. E se Cristo tivesse batido com a cabeça na quina da manjedoura?
A metafísica dada não se olha os dentes.
Quando o coração acelera, prefiro calar-me.
Favela é um termo que surgiu no século 19, vem de favos de abelha. Você gosta de me ilustrar com essas coisas enquanto passamos rapidamente de carro pela boca banguela. Olhos azuis refrescam.
A beleza da vida está nos detalhes: quanto maior o meu saldo no banco, menos taxas pagarei, mais créditos obterei. Equalitas diversorum. Mas dinheiro não é sarampo, Danuza me disse.
Arrasto o corpo escada acima pelo tropismo da auto-expressão: "Minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque pra mim."
Meus avós bebiam sangue enquanto as mulheres preparavam os bordados, a mesa, a sopeira fumegante, o pão, o vinho. Também nada herdei da Pomerânia. Quando nasci, já trazia o vício de peneirar lembranças, todos aqueles corpos se atraindo na razão direta das massas, minha alminha ali, ocupando espaço nenhum. E o mestre Voltaire:
"Toda religião quando não é loucura, é malandragem."
Quem tem um olho na panela e outro na chaminé é zarolho, parece que diz um ditado.
O mundo precisará fazer uma cirurgia de redução do estômago para que eu caiba nele, Clarice. Por enquanto tenho um projeto de estudo: o zapatismo na era intergalática. (Wanderléia faz propaganda de remédios genéricos.) De que serve la rivoluzione culturale no tecido eletrônico das novas lutas? As Irmãs Sandino vão ter de me explicar esses planos sem piloto. U.S. Bureau of Labor. Vão ter de me explicar direitinho o que é que eu faço com essas singularités, com o meu coração sozinho e sem tentáculos no meio de tanta swarm intelligence, smart mobs, webs of power.
Devo evitar a fadiga.
Bed-ins. Kiss-ins.
Hora do almoço: o problema das anoréxicas é que o seu espírito é gordo. O Geist. Sonho com anoréxicas num trem-fantasma.
Sinto que minha demência precoce começa a decolar, como se fosse isca de armadilha. Verlaine diria: "Venez, chère grande âme, on vous appelle, on vous attend." Mas não confio nos poetas. Rimbaud era daltônico: I é verde! U é vermelho! Regalem-se pois as formas e os movimentos que eu não vou traduzir ninguém. Não são os nervos que saltam depressa, são as pulgas. E pulgas não são nervosas. São pulgas. Aquela ternura saltitante mordendo mordendo. Tenho inveja das pulgas. Das histórias sem princípio meio e fim.
Minha terra é bacana e assim. Meu trabalho é achar quem goste dela por mim.
Metafísica não desce escada.
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Subo lentamente os degraus da escada. Não tenho curiosidade de contá-los. Falando sério, entre nós dois, nunca tive curiosidade de nada. Rigorosamente nada. Muito menos da vida alheia. Nada herdei das pias matronas romanas. Nem as noções de datilografia de suas filhas, minhas mães. Maria teve um filho de quem se tornou filha, você sabe. E se Cristo tivesse batido com a cabeça na quina da manjedoura?
A metafísica dada não se olha os dentes.
Quando o coração acelera, prefiro calar-me.
Favela é um termo que surgiu no século 19, vem de favos de abelha. Você gosta de me ilustrar com essas coisas enquanto passamos rapidamente de carro pela boca banguela. Olhos azuis refrescam.
A beleza da vida está nos detalhes: quanto maior o meu saldo no banco, menos taxas pagarei, mais créditos obterei. Equalitas diversorum. Mas dinheiro não é sarampo, Danuza me disse.
Arrasto o corpo escada acima pelo tropismo da auto-expressão: "Minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque pra mim."
Meus avós bebiam sangue enquanto as mulheres preparavam os bordados, a mesa, a sopeira fumegante, o pão, o vinho. Também nada herdei da Pomerânia. Quando nasci, já trazia o vício de peneirar lembranças, todos aqueles corpos se atraindo na razão direta das massas, minha alminha ali, ocupando espaço nenhum. E o mestre Voltaire:
"Toda religião quando não é loucura, é malandragem."
Quem tem um olho na panela e outro na chaminé é zarolho, parece que diz um ditado.
O mundo precisará fazer uma cirurgia de redução do estômago para que eu caiba nele, Clarice. Por enquanto tenho um projeto de estudo: o zapatismo na era intergalática. (Wanderléia faz propaganda de remédios genéricos.) De que serve la rivoluzione culturale no tecido eletrônico das novas lutas? As Irmãs Sandino vão ter de me explicar esses planos sem piloto. U.S. Bureau of Labor. Vão ter de me explicar direitinho o que é que eu faço com essas singularités, com o meu coração sozinho e sem tentáculos no meio de tanta swarm intelligence, smart mobs, webs of power.
Devo evitar a fadiga.
Bed-ins. Kiss-ins.
Hora do almoço: o problema das anoréxicas é que o seu espírito é gordo. O Geist. Sonho com anoréxicas num trem-fantasma.
Sinto que minha demência precoce começa a decolar, como se fosse isca de armadilha. Verlaine diria: "Venez, chère grande âme, on vous appelle, on vous attend." Mas não confio nos poetas. Rimbaud era daltônico: I é verde! U é vermelho! Regalem-se pois as formas e os movimentos que eu não vou traduzir ninguém. Não são os nervos que saltam depressa, são as pulgas. E pulgas não são nervosas. São pulgas. Aquela ternura saltitante mordendo mordendo. Tenho inveja das pulgas. Das histórias sem princípio meio e fim.
Minha terra é bacana e assim. Meu trabalho é achar quem goste dela por mim.
Metafísica não desce escada.
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