25.9.05



Gosto de bares assim, logo que abrem para a noite. Quando o ar em seu interior ainda está fresco e limpo, tudo brilha e o barman dá uma última olhada em si mesmo no espelho, para ver se a gravata está no lugar e se o cabelo está bem penteado. Gosto das garrafas limpas no fundo do bar e dos belos copos brilhando, dessa expectativa toda. Gosto de ver o barman misturar o primeiro drinque da tarde e colocá-lo no copo com canudo e gelo e um pequeno guardanapo de papel dobrado ao lado. Gosto de apreciar isso tudo bem devagar. O primeiro e tranqüilo drinque da tarde num bar tranqüilo -- é ótimo... Álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro, mera rotina. Depois disso, tira-se a roupa da garota.



Raymond Chandler, em O longo adeus, 1953.


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23.9.05

É sempre o mesmo cachorro velho com uma coleira nova





"A Inglaterra daria boas-vindas e apoiaria um Hitler que oferecesse paz e tolerância."


Winston Churchill, o baluarte da democracia ocidental, em ensaio escrito em 1939 mas que viria à luz somente nos anos 60 (New York Times, 12-12-1965). A frase-título do post é de um operário catalão anarquista a respeito do governo da República durante a guerra civil espanhola.


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21.9.05

Dorothy Parker




Uma rosa perfeita


Dele só ganhei até hoje uma flor
E tão terna, com um coração à espreita
Pura, púrpura, tendo do orvalho o odor
Uma rosa perfeita.

Já conheço a linguagem do buquê
"Nestas frágeis folhas, meu coração se estreita"
E imagino perfeitamente em quê:
Numa rosa perfeita.

Por que é que nunca me dão
uma limusine perfeita, acaso você suspeita?
Ah, não, o meu destino é ganhar sempre
Uma rosa perfeita.



Dorothy Parker


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16.9.05




Projecto de Sucessão


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra.

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponhas as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar de fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.



António Maria Lisboa

imagem: Laurent Askienazy


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14.9.05




A posse do silêncio


Não, não te assustes! Eu não quero mais este reino dos céus nem um milímetro por século. Num dia tão cheio de sol, hoje estou de pé diante do teu susto. Sim, sou eu mesma, vê? Sei que a ti pouco importa que não seja eu propriamente dita, mas a que convencionei chamar de eu. E estou aqui agora nesta página tão dentro dela como um desenho há trezentos mil anos numa caverna. Escuta sem susto e sem sofrimento: este meu reino também é do teu mundo. Não é a via-láctea, ou o paraíso perdido. É o nada em cada um de nós, fluido e constante. O grande vazio de nós é o meu lugar de existir, e quando atravessares minha escuridão, te encontrarás do outro lado contigo. Ah, não me descompreendas, não estou tirando nada de ti. Se venho aqui, é porque estou querendo que eu reviva da parte humana mais difícil: que eu viva do germe do amor neutro. Não, não te assustes como estou assustada: não pode ser ruim ver a vida no seu plasma. Espera, espera que eu ainda continue um pouco. Estou falando da morte? não, da vida. Não é um estado de felicidade, é um estado de contato. Tenho avidez pelo mundo, mas ao mesmo tempo não preciso de nada. Não preciso sequer que uma árvore exista. Eu sei agora de um modo que prescinde de tudo, que prescinde de mim. Eu sei agora da perda de tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser. Mas volto com as mãos vazias, volto com o indizível.



Clarice Lispector, em psicografia não autorizada, 2005.


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9.9.05

Paulo Coelho: uma leitura acadêmica








Nunca é demais lembrar a realidade do texto como coisa de palavras, onde identidade e valor se medem pela fluência de seus próprios materiais icônicos. Com isto em mente, Roman Iákobson sustentou a tese de que, na prosa, há uma inclinação natural para a metonímia e, na poesia, para a metáfora. No entanto, o que se observa na obra-invenção de Paulo Coelho é a transvaloração desta dupla polaridade, a saber, prosa/poesia e metonímia/metáfora.

A obra coelhiana transfigura, de forma irreconhecivelmente original, os dois universos de representação. Ao manipular livremente os pretextos sígnicos como se os transformasse em transparências, opacidades, Coelho des-hierarquiza o ritual/valor simbólico das palavras, atribuindo-lhes uma nova configuração numa hierarquia já agora transubstancializada dos caracteres físicos, articulando assim os novos signos-transparências numa espécie de descontexto em que falarão de tudo, menos do universo que o autor-leitor-autor vê a sua volta. Na recusa ao jogo fácil da poesia-dicionário e da prosa factual, Coelho implode o arame farpado das categorizações da literatura programática que se fez até agora para reinstaurar sua palavra liquidificada, transluzente e desritualizada no terreno livre, opaco e universal da pluri/nanossignificância, reinscrevendo assim o corpus literário no plano que lhe é de direito: um turbilhonante amálgama individuado de significados sem significado e de significantes des-significantizados.

Assim sendo, não seria hiperbólico afirmar que James Joyce e Guimarães Rosa têm em Paulo Coelho um herdeiro à altura, não como um discípulo do ABC poundiano, que tanto agrada às elites acadêmicas e à crítica mambembe de nossos resenhistas literários, mas enquanto a aurora de um novo paideuma: o XYZ da literatura.


7.9.05



mas quando tu reapareces
sob o hemisfério estrelado
ó brasil
meu coração feito de pedaços
se unifica
e proclama
a independência das lágrimas




-- versos de Oswald de Andrade



1.9.05

Katrina Blues




Dizem que a água cobriu New Orleans. Já não posso ver daqui a Nouvelle Orleans do Garden District, Niuorlins do French Quarter, da Bourbon Street, do French Market. Já não posso ver ma baby. A luz da noite não vem dos bares mas das lanternas de resgate. A cidade inteira transformada num imenso Voodoo Museum. Os gritos não vêm do Mardigras. A alegria acabou. Meu copo vazio encheu-se de água suja. Equipes mortuárias identificam corpos pelas ruas, mas não me viram. Helicópteros feito aves agourentas sobrevoando sobrados históricos e seus balcões de ferro, onde sempre apoiei meu braço cansado. Fats Domino pode estar pendurado num telhado, o velho safado. Só pode estar. Irão achá-lo, espero assim. Não ia dar essa bobeira. Espero por ele, longe do Mississippi, velho, longe do Mississippi. Meus companheiros estão comigo. Afinam os instrumentos. Evil Katrina. Katrina Blues. Ainda não decidimos o nome da música. Paciência. Temos tempo de sobra para esquentar a garganta.


Oh, when the saints go marching in,
Oh, when the saints go marching in;
Lord, I want to be in that number,
When the saints go marching in.

All my folks have gone before me,
All my friends and all my kin;
But I'll meet with them up yonder,
When the saints go marching in.


24.8.05

Camus descobre a América


Camus descobre a América


"15 grandes cidades apitando, berrando, trabalhando, divertindo-se com uma espécie de desespero mecânico."

"os americanos são cordiais, hospitaleiros e indiferentes, que se satisfazem depressa, e esquecem depressa."

"o segredo de qualquer conversa aqui é falar para não dizer nada: Good morning, Good morning. Do you like America, Mr. Camus?, Ok, I like it very much. Nice country, is it not?, It is. Will you come back again?, Sure. Etc. etc. "

"durante dias passeei por Nova York com os olhos cheios de lágrimas... simplesmente porque o ar da cidade é cheio de ciscos... É desse modo, enfim, que carrego Nova York em mim, como quem leva no olho um corpo estranho, insuportável e delicioso, com lágrimas de enternecimento e fúrias de rejeição a tudo. Talvez seja isso que chamamos de paixão..."

"sim, gosto das manhãs e das noites de Nova York. Gostei de Nova York com aquele amor possante que às vezes nos deixa cheios de incertezas e de ódio, precisando de um exílio."

"minha curiosidade por este país cessou de repente. Como acontece com alguns seres dos quais me afasto sem explicação e sem mais interesse. E certamente enxergo as mil razões que podemos ter para nos interessar por ele, seria capaz de apresentar sua defesa e apologia, posso descrever sua beleza e seu futuro, mas simplesmente meu coração parou de falar."


-- passagens extraídas de sua correspondência particular e de seu diário, por ocasião de sua viagem aos EUA em 1946 para uma série de palestras e o lançamento da edição americana de O estrangeiro. Em terras americanas, Camoose, como era chamado lá, observou com interesse o abuso do uísque entre intelectuais, o luxo e o mau gosto até nas gravatas, o hábito de sucos de frutas pela manhã, de sorvetes deliciosos, das doses de vitaminas, de ovos com bacon, as drásticas variações de temperatura, a Broadway e seus teatros, as luzes de néon, Chinatown, o Bronx, o Harlem, o Brooklyn, o jazz, as boates, os cafés-concertos burlescos e os estranhos costumes funerários dos americanos. Na volta a Paris, após 12 dias de navio, Camus traz na bagagem 80 quilos distribuídos por caixas de açúcar, café, ovos em pó, alimentos para bebês, comidas em conserva, sabonetes e sabão em pó. (in Albert Camus, Une Vie, Olivier Todd, 1996.)


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16.8.05

Gertrude Stein



I like the feeling the everlasting feeling of

sentences as they diagram themselves



As long as the outside does not put a value on you it remains outside but when it does put a value on you then it gets inside or rather if the outside puts a value on you then all your inside gets to be outside.





14.8.05

Cruz e Sousa



Elizirna! Elizirna!

Como faz a gente pensar nos mundos de além, emigrar, boemizar, para a gare azul dos sonhos estrelados de auroras, o teu perfil correto, linha direita de imperatriz da Rússia.

Como essa cintura, mais delicada e galante do que a pétala branca, de leite, da deliciosa magnólia, quando a gente te vê elegantemente espartilhada, jubilosa, parecendo uma alegria do céu, tantaliza e arrebata os bravios leões do desejo.

Elizirna! Elizirna!

E a tua epiderme, macia, jambosa, com a penugem veludínea do pêssego, molar com a suavidade doce do creme, e o frescor perfumoso da malva-maçã; de um róseo queimado, a tua epiderme, flor azul dos luares brancos, impressiona o nervosismo, dá irritabilidades espasmódicas.

E a música do teu laringe, o gargantear cantarolante do cristal, semelhante ao tinido miúdo, claro, sonoro de uma campainha elétrica, vibrada num palácio de vidro, como prostra a alma num êxtase, num êxtase...

Elizirna! Elizirna!

E a curva do teu colo, a abençoada curva do teu colo!

Quantos ideais meus, quantas cismas encharcadas no licor saborosíssimo da ventura que palpita, que ferve, que escalda e esbraseia, não foram flutuar, boiar no maciosíssimo topázio rico do teu colo moreno, como um batalhão triunfal de pássaros vermelhos, nos fluidos da enorme concha de alabastro do firmamento.

Elizirna! Elizirna!...

Pomba doce dos países de ouro.

E a tua boca, cor de pitanga madura, levemente roxa, esse escrínio rútilo dos meus beijos, esse fruto ruborizado, polposo, sempre aromático, infiltrado do sândalo agradável da mocidade, do gosto saudável da beleza pura, castíssima, frescurizada, vegetabilizante, como é consoladora e boa.

Elizirna! Elizirna!

E a tempestade negra dos teus cabelos, cortada pelos fuzis dos meus olhares, por onde o vento absurdo, desabrido, das minhas desgraças, faz ziguezagues e esfuziotes continuados; o mar profundo e vão dessas tranças, por onde o meu destino naufraga desoladoramente, como eu acho terrivelmente deslumbrante, esmagadoramente belo...

Elizirna! Elizirna!...

E os teus olhos, filha, abundantes de cousas celestiais, fartos das bênçãos do gozo, inundados dos equatorianos rosicleres primaverinos, cheios dos pizzicatos, dos acceleratos das paixões, como iluminam e cantam...

Elizirna! Elizirna!...

Parecem dois sóis esplendorosíssimos, os teus olhos, cada qual com um sabiá dentro, abrindo, cristalinizadoramente, em trilhos gorjeadores, a bravuresca garganta lírica...




Cruz e Sousa

3.8.05




Diálogo entre os escritores José Lins do Rego e Graciliano Ramos nos tempos do getulismo:


-- Mestre Graça, se a situação continuar deste jeito, vamos comer merda!

-- Se sobrar pra nós, Zé Lins. Se sobrar...



31.7.05




A primeira cabeça cortada a gente nunca esquece


Prezado Almocreve


Pois foi. Antesmente lhe agradeço as palavras tam gentis, fiz gosto. O senhor não carecia de. Um chamego é sempre bom, faz a p'ssoa sentir que está falando consigo mesma, aconchegando pertinho. Tão pertinho que posso lhe contar a confidência de como surgiu meu amor por Lampião. Assim, eu menina ainda, meus velhos me arrastaram prum museu aqui da ex-capital do Brasil. Um museu formoso, cheio de histórias e pertences de reis de Portugal, carruagens e coisas, mais ossadas de animais e vidas num formol, nem mais lhe relato porque o senhor deve de saber imaginar aquilo tudo que há dentro de uma casa dessas. Apois foi que meu olho bateu num mostruário de vidro com as cabeças duns cangaceiros, pura verdade. Lampião e Maria Bonita entre elas. Meu bestunto ainda mirrado naqueles dias quase perdeu a mão. Num se faz isso nem com uma criança, o senhor não acha, acha? Foi dali que nasceu doído meu amor pelo cangaço e pelo xaxado, que um dia lhe ensino a dançar, se o senhor fizer gosto. O xaxado como Lampião inventou: aquele ruidim que as pisadas de alpercatas faziam no chão arenoso e pedregulhoso do sertão.

Sem mais pra lhe dizer, que o dia hoje tá uma leseira só, deixo aqui uma toada popular pra alegrar quem tem calo no coração:

Eu canto o que sucedeu
Na sombra da gameleira:
Foi um tiro de ronqueira
O peido que a doida deu.
Toda terra estremeceu,
Abalou Assuaçu!
Ela mexendo um angu,
Puxou a perna de lado,
Deu um peido tão danado,
Quase não cabe no cu.


Que a Nossa Senhora das Vassouras lhe proteja.


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20.7.05

Luiza Neto Jorge





A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas há violentos vôos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura, de infância

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Venho de dentro, abriu-se a porta...

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.




17.6.05

Fazer poético: lição de João Cabral


como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar o poema.


João Cabral de Melo Neto, no poema "Alguns Toureiros", 1954-55.


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12.6.05

Mario Benedetti



Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque viestes a recolher tua imagem
e és melhor do que todas tuas imagens
porque és linda desde o pé até a alma
porque és boa desde a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça

porque és minha
porque não és minha
porque te vejo e morro
e pior que morro
se não te vejo amor
se não te vejo

porque tu sempre existes onde quer que seja
porém existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que amar-te amor
tenho que amar-te
ainda que esta ferida doa como dois
ainda que te busque e não te encontre
e ainda que
a noite passe e eu te tenha
e não.




11.6.05

Conde de Lautréamont




Para construir mecanicamente o miolo de uma história de adormecer, não basta dissecar asneiras e embrutecer poderosamente em doses repetidas a inteligência do leitor, de maneira a tornar paralíticas as suas faculdades para o resto da vida, pela infalível lei do cansaço; é preciso, além disso, com um bom fluido magnético, pô-lo engenhosamente na impossibilidade sonâmbula de se mexer, forçando-o a escurecer os olhos, contra o que lhe é natural, pela fixidez dos nossos. Quero eu dizer, para não me fazer compreender melhor mas apenas para desenvolver o meu pensamento, que ao mesmo tempo interessa e irrita por uma harmonia das mais penetrantes, que não acredito que seja necessário, para atingir o fim que nos propomos, inventar uma poesia inteiramente fora do caminho habitual da natureza, e cujo sopro nocivo pareça transtornar até as verdades absolutas; mas conseguir tal resultado (aliás conforme às regras da estética, se pensarmos bem) não é tão fácil como se pensa: era o que eu queria dizer. É por isso que envidarei todos os meus esforços para o conseguir! Se a morte detiver a magreza fantástica dos dois braços compridos dos meus ombros, utilizados no lúgubre esfarelamento do meu gesso literário, quero pelo menos que o leitor de luto possa dizer consigo mesmo: "Há que lhe fazer justiça. Cretinizou-me muito. Que não teria ele feito se tivesse podido viver mais! É o melhor professor de hipnotismo que conheço!"



Conde de Lautréamont, em Cantos de Maldoror, 1869.



6.6.05

Duas canções do tempo do beco


Primeira canção do beco


Teu corpo dúbio, irresoluto
De intersexual disputadíssima,
Teu corpo, magro não, enxuto,
Lavado, esfregado, batido,
Destilado, asséptico, insípido
E perfeitamente inodoro
É o flagelo de minha vida,
Ó esquizóide! ó leptossômica!

Por ele sofro há bem dez anos
(Anos que mais parecem séculos)
Tamanhas atribulações,
Que às vezes viro lobisomem,
E estraçalhado de desejos
Divago como os cães danados
A horas mortas, por becos sórdidos!

Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
Por estas sombras de convento,
E propicia aos meus sentidos
Atônitos, horrorizados
A folha-morta, o parafuso,
O trauma, o estupor, o decúbito!



Segunda canção do beco


Teu corpo moreno
É da cor da praia.
Deve ter o cheiro
Da areia da praia.

Deve ter o cheiro
Que tem ao mormaço
A areia da praia.

Teu corpo moreno
Deve ter o gosto
De fruta de praia.
Deve ter o travo,
Deve ter a cica
Dos cajus da praia.

Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz.



Manuel Bandeira


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29.5.05

A poesia de Glauber Rocha




Não é mais possível esta festa de medalhas,
este feliz aparato de glórias,
esta esperança dourada nos planaltos!
Não é mais possível esta festa de bandeiras
com Guerra e Cristo na mesma posição!

Não é possível a impotência da fé
a ingenuidade da fé...

Vejo campos de agonia,
Velejo mares do Não...
Na ponta da minha espada
Trago os restos da paixão
Que herdei daquelas guerras.
Umas de mais, outras de menos,
Testemunhas silenciosas
Do sangue que nos sustenta.
Convivemos com a morte.
Dentro de nós a morte se converte
Em tempo diário, em derrota
Do quanto empregamos,
Ao passo que vamos, recuamos.

Não anuncio cantos de paz
Nem me interessam as flores do estilo.
Como por dia mil notícias amargas
Que definem o mundo em que vivo.
Não me causam os crepúsculos
A mesma dor da adolescência.
Devolvo à paisagem
Os vômitos da experiência...

Quando a beleza é superada pela realidade,
Quando perdemos nossa pureza nestes jardins de males tropicais,
Quando no meio de tantos anêmicos respiramos
O mesmo bafo de vermes em tantos poros animais,
Ou quando fugimos das ruas e dentro da nossa casa
A miséria nos acompanha em suas coisas mais fatais
Como a comida, o livro, o disco, a roupa, o prato, a pele,
O fígado de raiva arrebentando, a garganta em pânico
E um esquecimento de nós inexplicável,
Sentimos finalmente que a morte aqui converge
Mesmo como forma de vida, agressiva.

Qual o sentido da coerência?
Dizem que é prudente observar a História sem sofrer.
Até que um dia, pela coincidência,
As massas tomem o poder...
Ando nas ruas e vejo o povo fraco, abatido,
Este povo não pode acreditar em nenhum partido.
Este povo cuja tristeza apodreceu o sangue
Precisa da morte mais do que se pode supor.
O sangue que em seu irmão estimula a dor,
O sentimento do nada que faz nascer o amor,
A morte enquanto fé e não como temor.

#

Estou morrendo agora, nesta hora.
Estou morrendo neste tempo.
Estou correndo meu sangue e minhas lágrimas.
Ah, Sara! Todos vão dizer que sempre fui um louco,
um anarquista, que sempre...
Ah, não sei, Sara...
Até quando suportaremos?
Até quando além da fé e da esperança suportaremos?
Até quando além da paciência e do amor suportaremos?
Até quando além da inconsciência?
Até quando? Até quando, Sara?
Sara, foi tudo por amor a você...


-- poemas esparsos do personagem Paulo Martins do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, 1967.


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21.5.05



Posso ter sido eu mesma, mas sem que me surpreendesse,
o que havia significado
ser alguém completamente diferente.


Wislawa Szymborska


20.5.05

Adélia Prado



Cinzas


No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita,
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.


Adélia Prado


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18.5.05

Oração a Oxum



Ora iê iê ô Oxum,
Salve dourada senhora
Da pele de ouro!
Benditas são suas águas,
e essas mesmas águas lavam meu ser
e me livram do mal.

Oxum, Divina Rainha, bela orixá,
venha a mim, caminhando na Lua Cheia.
Traga, mãe, em suas mãos,
os lírios do amor e da paz.
Dai-me o néctar da sua doçura.

Mãe do ouro, da beleza e do amor,
Senhora do mais puro Axé,
valei-me hoje e sempre.
Aiê iê ô Oxum!


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imagem: Oxum, arte digital de Paulo R. Rodrigues


14.5.05

Cecily von Ziegesar

brunch no domingo

No fim da manhã de domingo, a escadaria do Metropolitan Museum of Art estava abarrotada de gente. Turistas, principalmente, e moradores que tinham vindo em uma breve visita para poder se gabar com os amigos e aparentar cultura.

Dentro do museu, estavam servindo um brunch na ala egípcia para todos os membros do conselho do museu e suas famílias. A ala egípcia era um cenário soberbo para festas noturnas -- em ouro brilhante e exótica, com o luar brilhando dramaticamente em todas as modernas paredes de vidro. Mas era totalmente inadequada para um brunch. Salmão defumado, ovos e faraós egípcios mumificados realmente não combinam. Além disso, o sol da manhã brilhava tão forte pelas paredes de vidro oblíquas que até a mais leve ressaca parecia dez vezes pior.

Quem foi o idiota que inventou o brunch? O único lugar decente para ele nas manhãs de domingo era a cama.

A sala estava cheia de grandes mesas redondas e moradores recém-lavados do Upper East Side. Eleanor Waldorf, Cyrus Rose, os van der Woodsen, os Bass, os Archibald e seus filhos estavam ali, todos sentados em volta de uma mesa. Blair sentou-se entre Cyrus Rose e a mãe, mal-humorada. Nate, intermitentemente chapado, bêbado ou inconsciente desde sexta-feira, parecia tonto e amarrotado, como se tivesse acabado de acordar. Serena usava uma das roupas novas que tinha comprado com a mãe na véspera e estava com um novo corte de cabelo, com camadas suaves emoldurando o rosto. Estava ainda mais bonita do que nunca, mas nervosa e quicando depois de beber seis xícaras de café. Só Chuck parecia tranqüilo, bebericando satisfeito seu Bloody Mary.

Cyrus Rose cortou a omelete de salmão e alho-poró ao meio e a enfiou em um pão de centeio.

-- Estou louco para comer ovo -- disse ele para ninguém em particular, dando uma mordida faminta. -- Sabe quando o seu corpo diz que você precisa de uma coisa? O meu está gritando: "Ovo, ovo, ovo!"

E o meu está gritando: "Cala a porra dessa boca!", pensou Blair.

Blair empurrou seu prato para ele.

-- Toma, fica com o meu. Detesto ovo.

Cyrus empurrou o prato de volta.

-- Não, você está em fase de crescimento. Precisa dele mais do que eu.

-- Ele tem razão, Blair -- concordou a mãe dela. -- Coma seu ovo. Vai fazer bem a você.

-- Ouvi dizer que ovo dá brilho aos cabelos -- acrescentou Misty Bass.

Blair sacudiu a cabeça.

-- Eu não como aborto de galinha -- disse ela, obstinada. -- Me dá enjôo.



Cecily von Ziegesar, em Gossip Girl, vol. 1. Considerada a "Sex and the City" versão adolescente, a série Gossip Girl virou best-seller nos EUA. Aqui vai trilhando o mesmo caminho.


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6.5.05

A literatura e as escalas de grandeza



Tera é uma adaptação originária do grego tetra-, que, como sabemos desde 1994, é um prefixo que significa "quatro", como em "tetracampeão", "tetraciclina" ou "tetralegal". Tera é um multiplicador, por exemplo, um teragrama equivale a um trilhão de gramas. (Não confundir com "tetragrama", que significa uma palavra com quatro letras.) Donde podemos concluir que um teraconto são um trilhão de contos.

Giga, também uma adaptação do grego gígas, deu origem a "gigante". Assim, um gigagrama equivale a um bilhão de gramas. Logo, um gigaconto são um bilhão de contos.

Mega, do grego megal(o)-, significa "grande", como em "megacéfalo". Pois bem, um megagrama equivale a um milhão de gramas. Assim, um megaconto é uma unidade equivalente a um milhão de contos.

Quilo, vem do grego khílioi. Todos sabem que um quilograma equivale a mil gramas. No entanto, pouca gente se dá conta de que um quiloconto vale mil contos.

Mili, forma derivada do francês millième, não do latim millesimus (há controvérsias desde Sêneca), significando "milésimo". Assim, um miligrama, claro, equivale à milésima parte do grama. O miliconto, portanto, é a milésima parte de um conto.

Micro, do grego mikrós, significando "pequeno", "curto", "pouco" ou "pouco importante". Um micrograma é a milionésima parte do grama. Logo, um microconto é um conto dividido por 1 milhão. Correto?

Nano, outra vez do grego nánnos (é impressionante!), significa "excessiva pequenez", derivando para "anão". Um nanograma é a bilionésima parte de um grama. Então temos que um nanoconto equivale à bilionésima parte do conto.

Pico, do italiano piccolo (ah, enfim o império romano), significando "pequeno". Um picograma é um trilionésimo de um grama. Assim, um picoconto é um conto dividido por 1 trilhão.

Já o conto, a unidade lingüística que nos interessa aqui, vem do latim computus, significando "cálculo", "cômputo", "conta", a que o povo daria posteriormente a acepção de "narrar", vindo de "computare": enumerar os detalhes de um acontecimento, relatar etc. Nada se determinou a respeito do tamanho exato de um conto, se deve equivaler a mil escudos, um milhão de réis, 50 rasos de sal ou 20 meadas de linho. Sabe-se apenas que o conto deve ser uma narrativa breve ou concisa. Seja com milhares de tetragramas ou com um bilionésimo de picograma.

Assim, de posse desta elucidativa tabela, querido autor, escolha o tamanho desejado de sua literatura e mãos à obra. Para finalizar, desejo registrar aqui meus agradecimentos à minha Tabela de Unidades de Pesos e Medidas, sem a qual este esboço da tese acadêmica que ora preparo, intitulada "A Literatura a Metro", teria sido impossível. Título, aliás, inspirado numa afirmação de Júlio César anotada em seu De Bello Gallico. Diz lá o intrépido general romano que, ao ser indagado sobre o que achava das filosofices de seu arquiinimigo, o arenguista profissional Cícero, ele teria dito: " -- Ave, aquilo tudo é literatura pra mais de metro."


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3.5.05

Günter Grass

Pontualidade


No andar debaixo
uma jovem mulher
bate no filho
a cada meia hora.
Por isso vendi
o meu relógio
e só me oriento
pela mão severa
do andar debaixo,
os cigarros contados
ao alcance de minha mão.
Tenho o tempo bem medido.


Günter Grass, trad. MP.

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2.5.05



O que há em mim é sobretudo cansaço --
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas --
Essas e o que falta nelas eternamente --;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada --
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos, 1934.

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29.4.05

Clément Marot - poema erótico


O monge e a velha



Passeando um monge pela beira-rio,
Viu uma velha que lavava a roupa;
Viu-lhe a perna de garça e o fogo viu
Onde uma coxa vem juntar-se à outra.
O monge inflamado ergue a própria roupa,
Pega o instrumento e se achegando a ela:
Velha, diz ele, acende a minha vela.
E, para dar-lhe gosto, a velha então
Vira-lhe o cu e pede por cautela:
Chega mais perto e assopra o meu carvão.



Clément Marot, séc. 16.


27.4.05

José Craveirinha





Aforismo


Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

(1968)




Fábula


Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.



José Craveirinha, considerado o maior poeta da língua portuguesa na África e um dos maiores escritores africanos.

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25.4.05

becominglessness


Subo lentamente os degraus da escada. Não tenho curiosidade de contá-los. Falando sério, entre nós dois, nunca tive curiosidade de nada. Rigorosamente nada. Muito menos da vida alheia. Nada herdei das pias matronas romanas. Nem as noções de datilografia de suas filhas, minhas mães. Maria teve um filho de quem se tornou filha, você sabe. E se Cristo tivesse batido com a cabeça na quina da manjedoura?

A metafísica dada não se olha os dentes.

Quando o coração acelera, prefiro calar-me.

Favela é um termo que surgiu no século 19, vem de favos de abelha. Você gosta de me ilustrar com essas coisas enquanto passamos rapidamente de carro pela boca banguela. Olhos azuis refrescam.

A beleza da vida está nos detalhes: quanto maior o meu saldo no banco, menos taxas pagarei, mais créditos obterei. Equalitas diversorum. Mas dinheiro não é sarampo, Danuza me disse.

Arrasto o corpo escada acima pelo tropismo da auto-expressão: "Minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque pra mim."

Meus avós bebiam sangue enquanto as mulheres preparavam os bordados, a mesa, a sopeira fumegante, o pão, o vinho. Também nada herdei da Pomerânia. Quando nasci, já trazia o vício de peneirar lembranças, todos aqueles corpos se atraindo na razão direta das massas, minha alminha ali, ocupando espaço nenhum. E o mestre Voltaire:

"Toda religião quando não é loucura, é malandragem."

Quem tem um olho na panela e outro na chaminé é zarolho, parece que diz um ditado.

O mundo precisará fazer uma cirurgia de redução do estômago para que eu caiba nele, Clarice. Por enquanto tenho um projeto de estudo: o zapatismo na era intergalática. (Wanderléia faz propaganda de remédios genéricos.) De que serve la rivoluzione culturale no tecido eletrônico das novas lutas? As Irmãs Sandino vão ter de me explicar esses planos sem piloto. U.S. Bureau of Labor. Vão ter de me explicar direitinho o que é que eu faço com essas singularités, com o meu coração sozinho e sem tentáculos no meio de tanta swarm intelligence, smart mobs, webs of power.

Devo evitar a fadiga.
Bed-ins. Kiss-ins.

Hora do almoço: o problema das anoréxicas é que o seu espírito é gordo. O Geist. Sonho com anoréxicas num trem-fantasma.

Sinto que minha demência precoce começa a decolar, como se fosse isca de armadilha. Verlaine diria: "Venez, chère grande âme, on vous appelle, on vous attend." Mas não confio nos poetas. Rimbaud era daltônico: I é verde! U é vermelho! Regalem-se pois as formas e os movimentos que eu não vou traduzir ninguém. Não são os nervos que saltam depressa, são as pulgas. E pulgas não são nervosas. São pulgas. Aquela ternura saltitante mordendo mordendo. Tenho inveja das pulgas. Das histórias sem princípio meio e fim.

Minha terra é bacana e assim. Meu trabalho é achar quem goste dela por mim.

Metafísica não desce escada.


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23.4.05

Manicure


Fui atender uma ligação no celular ontem e senti um cheiro de cocô. Não era aquele cheiro forte de quando se pisa em merda e sai-se por aí carimbando a calçada, era algo mais sutil. Um cheiro leve mas decidido: era bosta, sem dúvida.

Cheirei a mão e lá estava o motivo. Debaixo do canto da unha, marotamente escondida, estava a prova orgânica da minha dedada matinal em Teresa. Se a Interpol precisasse me foder, nem precisava solicitar exame de DNA. Teresa tem um amarelo clarinho que é só dela.

É por essas e outras que sou um cara prevenido. Saquei do bolso do paletó minha escova de dentes, entrei no McDonald's mais próximo e fiz a higiene do dedo, cantinho por cantinho, bastante água e sabão.

Preciso parar com essas sacanagens na escada do prédio da empresa.


Jair Beirola, para quem aprecia pornoerotismo e escatologia com bom humor.

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sando passando passando passando pas




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20.4.05

Arqueologia do poder




Bento I (575-579) - fracassou em todas as suas tentativas de restabelecer a ordem na Itália e França controladas pelas invasões bárbaras e ensanguentadas pelas disputas internas.

Bento II (684-685) - seu primeiro ato foi conseguir do imperador um decreto que abolia o privilégio de imperadores confirmarem a escolha do papa.

Bento III (885-858) -- fomentou a luta contra os sarracenos. Amado pelo povo, tentou ser derrubado por antipapistas mas foi defendido pelo povo.

Bento IV (900-903) -- em meio a corrupção generalizada, conservou a integridade da Santa Sé. Transformou Ludovico de Borgonha em imperador de Roma.

Bento V (964-966) - passa por períodos turbulentos e só assume após a pressão de francos e romanos. Mesmo assim Bento V e Leão VIII intitulam-se papa simultaneamente.

Bento VI (973-974) - converteu os húngaros ao cristianismo. Acabou encarcerado e estrangulado pelo seu sucessor, o papa Bonifácio VII (que mataria outros papas e acabou também deposto e assassinado).

Bento VII (974-983) - reprimiu os abusos e a ignorância reinantes na Itália e no mundo cristão, deu grande impulso à agricultura. Bento VII e Bonifácio VII intitularam-se papa simultaneamente.

Bento VIII (1012-1024) - comprou o ofício papal. Derrotou os sarracenos que atacaram o litoral da Itália, proibiu que os padres se casassem. Simultaneamente os católicos elegem Gregório VI como antipapa de Bento VIII.

Bento IX (1032-1045) -- compra o ofício papal e elege-se papa aos 12 anos. Foi obrigado a renunciar por interesses econômicos e políticos e denúncias de corrupção.

Bento X (1058-1059) - antipapa. Devido a um cisma, foi eleito pelo partido romano; os reformistas elegeram como papa Nicolau II. Bento X passaria em brancas fumaças.

Bento XI (1303-1304) homem de paz, tentou resolver os conflitos entre Roma e França. Morreu envenenado.

Bento XII ( 1334-1342) -- combateu heresias, o nepotismo e a simonia.

Bento XIII (1724-1730) - aboliu a pena de excomunhão para quem cheirasse rapé na Basílica Vaticana; proibiu o jogo a dinheiro. Aceitou ser papa por imposição do Superior Geral de sua Ordem.

Bento XIV (1740-1758) - atraiu os protestantes para a Igreja. Proibiu a escravização dos índios.

Bento XV (1914-1922) -- assumiu uma postura de neutralidade durante a Primeira Guerra Mundial, apesar de suas tentativas para negociar a paz. Fez a reforma administrativa da Igreja.

Bento XVI (2005-?) - ex-filho de policial, ex-Juventude Hitlerista, ex-soldado de infantaria na Alemanha nazista, ex-desertor do exército nazista, ex-prisioneiro de guerra dos alemães, ex-padre, ex-professor de teologia, ex-reitor de universidade, ex-arcebispo, ex-prefeito do ex-Tribunal da Inquisição (hoje Congregação para a Doutrina da Fé), ex-teólogo conselheiro especialista no combate ao marxismo e ao ateísmo no movimento estudantil dos anos 60, opositor à teologia da libertação e a inúmeras outras denominações cristãs, ao controle da natalidade, ao feminismo e à união homossexual, ex-braço-direito de João Paulo II, ex-cardeal.

Vamos pedir piedade, Senhor, piedade...

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18.4.05

Argonautas



"Se uma alma
Quer se conhecer
É numa alma que ela deve se olhar":
Foi no espelho que
Vimos o inimigo e o estrangeiro.
Eram rapazes valentes, companheiros, não se queixavam
Nem da sede nem da fadiga nem do frio,
Faziam como as árvores e as ondas
Que aceitam o vento e a chuva,
Aceitam o sol e a noite,
E em meio à mudança, permanecem sem mudar.
Eram rapazes valentes. Dia após dia,
Suando nos remos, os olhos baixos,
Respirando em cadência,
O sangue colorindo-lhes a carne dócil.
Um dia cantaram, de olhos baixos,
Enquanto passávamos pela ilhota deserta das figueiras da
Barbárie
Rumo ao poente, depois do cabo dos cães que ladram.
Se ela quer se conhecer, diziam eles,
É numa alma que deve se olhar,
E os remos braceavam o ouro do mar em meio ao crepúsculo.
Dobramos muito cabos, muitas ilhas, o mar
Que dá em outro mar, gaivotas e focas.
Mulheres lacrimosas lamentavam-se às vezes
E choravam os filhos perdidos,
Outras, em furor, reclamavam Alexandre
E suas glórias submersas nas profundezas da Ásia.
Abordamos plagas cheias de aromas noturnos,
Cantos de aves, fontes que deixavam nas mãos
A lembrança de grande felicidade.
Mas não tinham mais fim aquelas viagens.
A alma dos companheiros confundiu-se com os remos e com
as cavilhas,
Com a austera figura de proa,
A esteira do leme,
A água dispersando seus rostos.
Um após outro, os companheiros morreram,
De olhos baixos. Seus remos
Indicam na praia o lugar onde repousam.

Ninguém se lembra. Justiça.


Georgios Seféris, em "Argonautas", anos 30.


11.4.05

Serguei Iessiênin




Dois poemas

A confissão de um vagabundo

Nem todos sabem cantar,
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então, limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro,
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.
Amo demais minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos dos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E o mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Pégaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos.
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.

(1920)


Iessiênin nasceu em 1895 e foi um dos maiores poetas russos. Aos 30 anos suicidou-se num quarto de hotel em Leningrado cortando os pulsos e se enforcando. Alcoólatra, casou cinco vezes e três de suas esposas foram a atriz Zinaida Raich, a dançarina americana Isadora Duncan e a neta de Tolstoi. Contudo, o que é pouco mencionado foram seus relacionamentos clandestinos com homens. Antes de suicidar-se escreveu com sangue um poema de despedida dedicado ao poeta Anatoli Marienhof, com quem vivia há quatro anos:



Até logo, até logo, meu companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.


 (tradução Augusto de Campos)




31.3.05

O futuro na paixão


José Castello



A cultura no novo século -- o tema me é proposto por Carminha Guerra e seu seminário "A Arte do Encontro/ Uma reflexão sobre as artes no século XXI", que se realiza entre 28 de março e 01 de abril no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte. O assunto é vasto, pode parecer vago, mas toca na aflição mais extrema que atormenta escritores, artistas e intelectuais nesse momento. O que será da cultura, em um mundo cada vez mais veloz, pragmático e "profissional"? A arte ainda terá lugar (e que lugar?) num tempo em que a internet e a televisão se tornam universais, formando uma rede de uniformidade e de repetição que encobre todo o planeta? Enfim: ainda haverá espaço para os escritores e para a literatura em um mundo gerido pelas imagens, pela superficialidade e pela síntese?

A minha resposta para as três perguntas, apesar de todos os indícios pessimistas, é: sim. De fato, o novo século começa com uma tendência, que parece irreversível, à padronização, à superficialidade e à razão prática. O mundo de hoje, mais que nunca, exige resultados - na economia, na política, no campo jurídico, na engenharia, na pesquisa científica. É um mundo cada vez mais "profissional" e que cada vez tem menos tolerância com amadores e aventureiros. Isso é bom? A verdade é que é. Se contratamos um arquiteto, queremos que ele não cometa erros na construção de nossa casa. De um médico, exigimos seriedade e bons resultados. De um advogado, idoneidade e esperteza. Os atletas são treinados com métodos científicos para chegar a marcas precisas. A todos eles, pedimos basicamente uma coisa: competência.

Só que nada mais distante da cultura e da arte que a idéia de eficácia. A arte, dizia o filósofo alemão, é o caminho que não leva a parte alguma. Sua matéria prima é a gratuidade, a perplexidade, a hesitação, a liberdade. Um pintor pode estudar na melhor academia, um músico pode contratar o melhor mestre, um escritor pode ser o melhor leitor dos clássicos; mas não será isso que irá determinar se ele será, ou não, um grande pintor, um grande músico, um grande escritor. Há algo espontâneo, imprevisível e obscuro, que entra em jogo e que decide o destino do artista. Um artista não é competente, é brilhante. Ou arranca uma luz especial do que faz, ou será apenas um burocrata da criação.

O problema é que é justamente esse aspecto não mensurável e irracional, é justamente essa força sombria e indomável que, agora, está a se perder. A praticidade, o senso de lucro, a busca de efeitos e de resultados invade a cultura. A um pintor, hoje, se pede que suas telas sejam vendáveis. A um escritor, que seus escritos sejam compreensíveis e acessíveis. A um músico, que sua música seja agradável e digerível. Os artefatos culturais são observados, cada vez mais, como objetos de consumo, quer dizer, como peças de um mercado, o mercado da arte. Se esse quadro não combina com a parede de minha sala, eu me desinteresso. Se aquele livro exige um pouco mais de minha atenção, eu me canso e o dispenso. Se essa música não me traz harmonia e tranqüilidade, eu a ignoro. Pede-se à arte que ela seja tão confortável quanto uma poltrona e tão aconchegante quanto um bom agasalho. Em outras palavras: que não nos faça pensar, sentir e, sobretudo, sofrer.

Mas a cultura - a arte - não é o terreno dos resultados, e sim das origens. É misteriosa a origem da criação e ninguém a experimenta se uma boa dose de entrega e de risco. Um artista cria a partir de sua experiência pessoal, da cultura que acumulou, dos saberes que lhe transmitiram; mas cria, também, a partir do que desconhece, do que não domina e, até, do que o assusta e submete. A qualidade da arte se guarda muito além de qualquer cálculo, de qualquer etiqueta de qualidade e de qualquer "boa procedência". Por isso a cultura é, continua a ser, tão importante: em um mundo cada vez mais prático e previsível, ela coloca em cena o desconhecido e o que não se pode controlar. Num mundo uniformizado, ela traz de volta a surpresa. Num mundo "profissional", quer dizer, que se guia por projetos e métodos claros e se pauta por resultados objetivos, ela recoloca em cena o ato tormentoso da paixão.

Penso em um poema esplêndido de Vinicius de Moraes, infelizmente não muito lembrado: a "Carta aos Puros", que ele escreveu em fins dos anos 50. E que, no entanto, parece ter, hoje, uma brutal atualidade. "Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros/ e em cujos olhos queima um lento fogo frio", o poeta começa seu poema. "Vós de nervos de nylon e de músculos duros/ capazes de não rir durante anos a fios". Nesse quatro primeiro versos, está quase tudo dito. A frieza, a praticidade, a dureza, a sobriedade são atributos que, com o passar dos anos, se tornaram ainda mais prestigiados e dominantes. Volto a lembrar do arquiteto, do médico, do economista, do político: é bom que assim seja. Mas a arte nada tem a ver com o mundo prático. A cultura e a arte tratam, justamente, daquele outro terreno em que perdemos o controle sobre nossas vontades, em que nos assombramos com nós mesmos e em que nos sentimos numa contínua, ainda que criativa, perplexidade.

Nada mais distante da poesia e da arte que a pureza, que o rigor, que a exatidão, e Vinicius sabia muito bem disso. Ao contrário, ele pensava, a poesia é o terreno da impureza. É o lugar do deslize e da imperfeição. "Ó vós, homens iluminados a néon/ seres extraordinariamente rarefeitos/ vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos/ e vos ciliciais à idéia do que é bom", escreveu o poeta. A arte lida com os dejetos do mundo pragmático, com tudo aquilo que não produz efeitos e que não gera resultados - as "inutilidades", de que nos fala outro grande poeta, Manoel de Barros. O inútil, o imprestável, o repulsivo: esses são os objeto de paixão na arte. Caminho que não leva a parte alguma, a arte só traz o sujeito de volta a si mesmo e a àquilo que em si desconhece.

Na medida em que lidam com universos tão extremos, a arte e a cultura não podem ser feitas sem um elemento fundamental: a paixão. Quando falamos da arte, é da paixão que se trata. Se não fosse assim, por que João Gilberto Noll se isola e leva meses, anos à fio debruçado sobre os originais de um romance? Por que José Celso Martinez passa noites e noites ensaiando e repetindo a mesma peça? Por que Tomie Othake se afasta do mundo para se debruçar, em silêncio, sobre suas cores e telas? Por que Walter Salles investe tanta força e fúria para produzir seus filmes? Sem paixão, a postura desses artistas perderia o sentido. Sem paixão, ninguém faz arte.

Contudo, o mundo pragmático de hoje quer nos convencer de que a arte, como qualquer outra atividade humana, pode ser ensinada na escola. Quer nos persuadir de que ela é uma questão de competência, quem sabe de bom comportamento, ou de títulos. O mundo de hoje acha que os artistas, ou são "profissionais", isto é, produzem para o mercado, para os patrocinadores e para os doutores e especialistas, ou não têm interesse algum. "Ó vós que desprezais a mulher e o poeta/ em nome de vossa vã sabedoria", escreveu Vinicius. Nada contra o saber, ao contrário. Mas a arte, embora exija certo grau de competência, de mestria, não é, em definitivo, o lugar do saber. É o lugar da exaltação, do irracional, do susto. O lugar da paixão.

Não é preciso ficar no terreno da cultura. Hoje, quando tudo o que se pede é saber e competência, elementos como o impulso, o devaneio e a intuição caem em desprestígio. Em um mundo cada vez mais voltado para efeitos práticos e para fatos mensuráveis, se torna cada vez mais importante -- embora cada vez mais estreito -- o lugar destinado à gratuidade. "Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito", escreveu ainda Vinicius, se referindo assim às terríveis limitações que esse muito objetivo e seco impõe à existência humana.

O que se pode esperar, então, da cultura no novo século? Nada mais adequado do que esperar aquilo que mais nos falta: a paixão. Porque essa é a função da arte, se é que ela serve para alguma coisa: injetar intensidade e arrebatamento em um mundo que, mesmo quando funciona da melhor maneira, tende cada vez mais à superficialidade, à monotonia e à repetição. "Ó vós que vos negais à escuridão dos bares/ onde o homem que ama oculta o seu segredo/ vós que viveis a mastigar os maxilares/ e temeis a mulher e a noite, e dormis cedo", escreveu Vinicius. Está tudo dito: no mundo da clareza e do funcional, a arte nos traz um pouco de segredo e de escuridão. Num mundo objetivo e forte -- dizemos, errando, "masculino" -- a arte nos leva em direção ao impreciso, ao subjetivo e à fraqueza -- diz-se, errando também, ao "feminino". Artistas não têm sexo, têm, isso sim, um modo particular de se conectar com a vida.

Da cultura, não se pede rigor, mas susto. Ao artista, não se pede competência e certezas, mas hesitação e perturbação. Do escritor não se espera a palavra bem dita e o português castiço, mas a palavra plena e o pensamento devastador. Se a arte serve para alguma coisa, é para colocar em dúvida as nossas certezas e ilusões. Ao artista, ao escritor, ao intelectual, como já escreveu Edward Said, se pede, hoje mais do que nunca, que seja novamente um amador. Amador não só no sentido daquele que se dedica a sua arte por prazer e com liberdade, mas daquele para quem a arte é, antes de tudo, um ato de paixão.



-- Artigo publicado em 26.03.05 no Estado de Minas.

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30.3.05

antroponímia

Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida
Alce Barbuda
Barrigudinha Seleida
Cafiaspirina Cruz
Chevrolet da Silva Ford
Cólica de Jesus
Colapso Cardíaco da Silva
Comigo é Nove na Garrucha Trouxada
Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco
Éter Sulfúrico Amazonino Rios
Foca Bilota
Gerunda Gerundina Pif Paf
Graciosa Rodela D'Alho
Hepotamedes Maria Good Good
Himeneu Casamentício das Dores Conjugais
Ilegível Inelegível
Inocêncio Coitadinho Sossegado
Janeiro Fevereiro de Março Abril
Joaquim Casou de Calças Curtas
José Marciano Verdinho das Antenas Longas
Jotacá Dois Mil e Um
Kussen Pestana
Letsgo
Magnésia Bisurada do Patrocínio
Maria da Segunda Distração
Maria Panela
Maria Passa Cantando
Maria Tributina Prostituta Cataerva
Naída Navinda Navolta Pereira
Ocricocrides de Albuquerque
Pália Pélia Pília Púlia dos Guimarães Peixoto
Pedrinha Bonitinha da Silva
Placenta Maricórnia da Letra Pi
Restos Mortais de Catarina
Sete Rolos de Arame Farpado
Soraiadite das Duas a Primeira
Última Delícia do Casal Carvalho
Voltaire Rebelado de França


-- nomes de brasileiros registrados em cartório.

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