31.3.05

O futuro na paixão


José Castello



A cultura no novo século -- o tema me é proposto por Carminha Guerra e seu seminário "A Arte do Encontro/ Uma reflexão sobre as artes no século XXI", que se realiza entre 28 de março e 01 de abril no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte. O assunto é vasto, pode parecer vago, mas toca na aflição mais extrema que atormenta escritores, artistas e intelectuais nesse momento. O que será da cultura, em um mundo cada vez mais veloz, pragmático e "profissional"? A arte ainda terá lugar (e que lugar?) num tempo em que a internet e a televisão se tornam universais, formando uma rede de uniformidade e de repetição que encobre todo o planeta? Enfim: ainda haverá espaço para os escritores e para a literatura em um mundo gerido pelas imagens, pela superficialidade e pela síntese?

A minha resposta para as três perguntas, apesar de todos os indícios pessimistas, é: sim. De fato, o novo século começa com uma tendência, que parece irreversível, à padronização, à superficialidade e à razão prática. O mundo de hoje, mais que nunca, exige resultados - na economia, na política, no campo jurídico, na engenharia, na pesquisa científica. É um mundo cada vez mais "profissional" e que cada vez tem menos tolerância com amadores e aventureiros. Isso é bom? A verdade é que é. Se contratamos um arquiteto, queremos que ele não cometa erros na construção de nossa casa. De um médico, exigimos seriedade e bons resultados. De um advogado, idoneidade e esperteza. Os atletas são treinados com métodos científicos para chegar a marcas precisas. A todos eles, pedimos basicamente uma coisa: competência.

Só que nada mais distante da cultura e da arte que a idéia de eficácia. A arte, dizia o filósofo alemão, é o caminho que não leva a parte alguma. Sua matéria prima é a gratuidade, a perplexidade, a hesitação, a liberdade. Um pintor pode estudar na melhor academia, um músico pode contratar o melhor mestre, um escritor pode ser o melhor leitor dos clássicos; mas não será isso que irá determinar se ele será, ou não, um grande pintor, um grande músico, um grande escritor. Há algo espontâneo, imprevisível e obscuro, que entra em jogo e que decide o destino do artista. Um artista não é competente, é brilhante. Ou arranca uma luz especial do que faz, ou será apenas um burocrata da criação.

O problema é que é justamente esse aspecto não mensurável e irracional, é justamente essa força sombria e indomável que, agora, está a se perder. A praticidade, o senso de lucro, a busca de efeitos e de resultados invade a cultura. A um pintor, hoje, se pede que suas telas sejam vendáveis. A um escritor, que seus escritos sejam compreensíveis e acessíveis. A um músico, que sua música seja agradável e digerível. Os artefatos culturais são observados, cada vez mais, como objetos de consumo, quer dizer, como peças de um mercado, o mercado da arte. Se esse quadro não combina com a parede de minha sala, eu me desinteresso. Se aquele livro exige um pouco mais de minha atenção, eu me canso e o dispenso. Se essa música não me traz harmonia e tranqüilidade, eu a ignoro. Pede-se à arte que ela seja tão confortável quanto uma poltrona e tão aconchegante quanto um bom agasalho. Em outras palavras: que não nos faça pensar, sentir e, sobretudo, sofrer.

Mas a cultura - a arte - não é o terreno dos resultados, e sim das origens. É misteriosa a origem da criação e ninguém a experimenta se uma boa dose de entrega e de risco. Um artista cria a partir de sua experiência pessoal, da cultura que acumulou, dos saberes que lhe transmitiram; mas cria, também, a partir do que desconhece, do que não domina e, até, do que o assusta e submete. A qualidade da arte se guarda muito além de qualquer cálculo, de qualquer etiqueta de qualidade e de qualquer "boa procedência". Por isso a cultura é, continua a ser, tão importante: em um mundo cada vez mais prático e previsível, ela coloca em cena o desconhecido e o que não se pode controlar. Num mundo uniformizado, ela traz de volta a surpresa. Num mundo "profissional", quer dizer, que se guia por projetos e métodos claros e se pauta por resultados objetivos, ela recoloca em cena o ato tormentoso da paixão.

Penso em um poema esplêndido de Vinicius de Moraes, infelizmente não muito lembrado: a "Carta aos Puros", que ele escreveu em fins dos anos 50. E que, no entanto, parece ter, hoje, uma brutal atualidade. "Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros/ e em cujos olhos queima um lento fogo frio", o poeta começa seu poema. "Vós de nervos de nylon e de músculos duros/ capazes de não rir durante anos a fios". Nesse quatro primeiro versos, está quase tudo dito. A frieza, a praticidade, a dureza, a sobriedade são atributos que, com o passar dos anos, se tornaram ainda mais prestigiados e dominantes. Volto a lembrar do arquiteto, do médico, do economista, do político: é bom que assim seja. Mas a arte nada tem a ver com o mundo prático. A cultura e a arte tratam, justamente, daquele outro terreno em que perdemos o controle sobre nossas vontades, em que nos assombramos com nós mesmos e em que nos sentimos numa contínua, ainda que criativa, perplexidade.

Nada mais distante da poesia e da arte que a pureza, que o rigor, que a exatidão, e Vinicius sabia muito bem disso. Ao contrário, ele pensava, a poesia é o terreno da impureza. É o lugar do deslize e da imperfeição. "Ó vós, homens iluminados a néon/ seres extraordinariamente rarefeitos/ vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos/ e vos ciliciais à idéia do que é bom", escreveu o poeta. A arte lida com os dejetos do mundo pragmático, com tudo aquilo que não produz efeitos e que não gera resultados - as "inutilidades", de que nos fala outro grande poeta, Manoel de Barros. O inútil, o imprestável, o repulsivo: esses são os objeto de paixão na arte. Caminho que não leva a parte alguma, a arte só traz o sujeito de volta a si mesmo e a àquilo que em si desconhece.

Na medida em que lidam com universos tão extremos, a arte e a cultura não podem ser feitas sem um elemento fundamental: a paixão. Quando falamos da arte, é da paixão que se trata. Se não fosse assim, por que João Gilberto Noll se isola e leva meses, anos à fio debruçado sobre os originais de um romance? Por que José Celso Martinez passa noites e noites ensaiando e repetindo a mesma peça? Por que Tomie Othake se afasta do mundo para se debruçar, em silêncio, sobre suas cores e telas? Por que Walter Salles investe tanta força e fúria para produzir seus filmes? Sem paixão, a postura desses artistas perderia o sentido. Sem paixão, ninguém faz arte.

Contudo, o mundo pragmático de hoje quer nos convencer de que a arte, como qualquer outra atividade humana, pode ser ensinada na escola. Quer nos persuadir de que ela é uma questão de competência, quem sabe de bom comportamento, ou de títulos. O mundo de hoje acha que os artistas, ou são "profissionais", isto é, produzem para o mercado, para os patrocinadores e para os doutores e especialistas, ou não têm interesse algum. "Ó vós que desprezais a mulher e o poeta/ em nome de vossa vã sabedoria", escreveu Vinicius. Nada contra o saber, ao contrário. Mas a arte, embora exija certo grau de competência, de mestria, não é, em definitivo, o lugar do saber. É o lugar da exaltação, do irracional, do susto. O lugar da paixão.

Não é preciso ficar no terreno da cultura. Hoje, quando tudo o que se pede é saber e competência, elementos como o impulso, o devaneio e a intuição caem em desprestígio. Em um mundo cada vez mais voltado para efeitos práticos e para fatos mensuráveis, se torna cada vez mais importante -- embora cada vez mais estreito -- o lugar destinado à gratuidade. "Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito", escreveu ainda Vinicius, se referindo assim às terríveis limitações que esse muito objetivo e seco impõe à existência humana.

O que se pode esperar, então, da cultura no novo século? Nada mais adequado do que esperar aquilo que mais nos falta: a paixão. Porque essa é a função da arte, se é que ela serve para alguma coisa: injetar intensidade e arrebatamento em um mundo que, mesmo quando funciona da melhor maneira, tende cada vez mais à superficialidade, à monotonia e à repetição. "Ó vós que vos negais à escuridão dos bares/ onde o homem que ama oculta o seu segredo/ vós que viveis a mastigar os maxilares/ e temeis a mulher e a noite, e dormis cedo", escreveu Vinicius. Está tudo dito: no mundo da clareza e do funcional, a arte nos traz um pouco de segredo e de escuridão. Num mundo objetivo e forte -- dizemos, errando, "masculino" -- a arte nos leva em direção ao impreciso, ao subjetivo e à fraqueza -- diz-se, errando também, ao "feminino". Artistas não têm sexo, têm, isso sim, um modo particular de se conectar com a vida.

Da cultura, não se pede rigor, mas susto. Ao artista, não se pede competência e certezas, mas hesitação e perturbação. Do escritor não se espera a palavra bem dita e o português castiço, mas a palavra plena e o pensamento devastador. Se a arte serve para alguma coisa, é para colocar em dúvida as nossas certezas e ilusões. Ao artista, ao escritor, ao intelectual, como já escreveu Edward Said, se pede, hoje mais do que nunca, que seja novamente um amador. Amador não só no sentido daquele que se dedica a sua arte por prazer e com liberdade, mas daquele para quem a arte é, antes de tudo, um ato de paixão.



-- Artigo publicado em 26.03.05 no Estado de Minas.

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30.3.05

antroponímia

Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida
Alce Barbuda
Barrigudinha Seleida
Cafiaspirina Cruz
Chevrolet da Silva Ford
Cólica de Jesus
Colapso Cardíaco da Silva
Comigo é Nove na Garrucha Trouxada
Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco
Éter Sulfúrico Amazonino Rios
Foca Bilota
Gerunda Gerundina Pif Paf
Graciosa Rodela D'Alho
Hepotamedes Maria Good Good
Himeneu Casamentício das Dores Conjugais
Ilegível Inelegível
Inocêncio Coitadinho Sossegado
Janeiro Fevereiro de Março Abril
Joaquim Casou de Calças Curtas
José Marciano Verdinho das Antenas Longas
Jotacá Dois Mil e Um
Kussen Pestana
Letsgo
Magnésia Bisurada do Patrocínio
Maria da Segunda Distração
Maria Panela
Maria Passa Cantando
Maria Tributina Prostituta Cataerva
Naída Navinda Navolta Pereira
Ocricocrides de Albuquerque
Pália Pélia Pília Púlia dos Guimarães Peixoto
Pedrinha Bonitinha da Silva
Placenta Maricórnia da Letra Pi
Restos Mortais de Catarina
Sete Rolos de Arame Farpado
Soraiadite das Duas a Primeira
Última Delícia do Casal Carvalho
Voltaire Rebelado de França


-- nomes de brasileiros registrados em cartório.

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19.3.05

Anna Akhmatova



Poeta


Que grande mistério este trabalho,
esta vida de nenhuma agrura:
espiar qualquer coisa da música
e fazê-la passar por coisa sua.

E intrometer por entre as linhas
um scherzo de outrem bem alegre,
jurando que na luz das pradarias
é teu pobre coração que geme.

Roubar qualquer coisa aos pinheiros
da negra floresta taciturna,
enquanto ergue os seus nevoeiros
a toda a volta a cortina de bruma.

E ir procurar - impudica -,
por onde calha e me aventuro,
alguns pedaços da vida oblíqua
e, ao silêncio da noite, tudo.



Anna Akhmatova, 1959.

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16.3.05

Cantiga de Amiga


"A gente nunca está só de verdade. Nossos sentidos conversam uns com os outros, a razão discute com a imaginação, tudo numa sublime camaradagem", dizia Ju para A. quando passei pelo sofá da sala. Ora, eu conhecia essa frase, o autor dessa frase. Levei uns 15 segundos para baixá-lo da memória. Era uma frase idiota que poderia ter sido dita por qualquer idiota, mas tinha dono. Mário de Andrade. Fui lentamente até a janela para tomar um pouco de ar. Parado. Nenhuma folha das palmeiras centenárias da Paissandu se mexia. Eu suava por baixo da camiseta preta. Dei um gole na coca, virei as costas para a rua e encarei as duas com meu olhar lombrosiano. Nada. Eu era uma cebola. Elas conversavam animadamente, pelo visto sobre a recente viagem de A. ao norte do país. Entrei na Billie Holiday do porta-retrato sobre a mesinha para ouvi-las mais de perto. A. garantia que havia provado ensopado de jacu com uísque. As duas riram. E riram. E riram. Ainda estavam rindo quando Ju disse que ia estudar literatura galega medieval no ano que vem. A. não acreditou. E riram outra vez. Ju explicou que há muito tempo era apaixonada pela literatura galega. Que nutria por seus autores "um não sei quê, que nascia não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê". A. suspirou. Eu engasguei. Outra citação? As duas suspiraram. E suspiraram. Depois começaram a cochichar e eu perdi o final da história.

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10.3.05

Waly Salomão

A memória é uma ilha de edição -- um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.

Esgotado o eu, resta o espanto do mundo
não ser levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades
esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?



A vida não é uma tela e jamais adquire
o significado estrito
que se deseja imprimir nela.
Tampouco é uma estória em que cada minúcia
encerra uma moral.
Ela é recheada de locais de desova, presuntos,
liquidações, queimas de arquivos,
divisões de capturas,
apagamentos de trechos, sumiços de originais,
grupos de extermínios e fotogramas estourados.
Que importa se as cinzas restam frias
ou se ainda ardem quentes
se não é selecionada urna alguma adequada,
seja grega seja bárbara,
para depositá-las?

Antes que o amanhã desabe aqui,
ainda hoje será esquecido o que traz
a marca d'água d'hoje.


Fragmento de "Carta Aberta a John Ashbery", 1995.

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26.2.05

A morte da crítica literária

Houve um tempo em que a tuberculose era como que a mais horrenda das pestes. Em cada rua da cidade tínhamos dois, três tuberculosos. Agora, o brasileiro não tosse. [...] Mas antigamente como se tossia, como se expectorava. No cinema era espantoso. Bastava apagar a luz. E toda a platéia começava a tossir. Era um coro absurdo de bronquites, asmas e até coqueluches. Outros se assoavam com pavoroso ronco. E o repertório de pigarros era variadíssimo.

Não sei como até agora os especialistas não se lembraram de incluir na história literária a época pulmonar. Época em que, para um poeta, era humilhante não morrer tuberculoso, aos 21 anos. Lembro-me daquele parnasiano que se apaixonou, e note-se: -- a bem-amada era casada, mãe de não sei quantos filhos. Todos os dias o poeta mandava um soneto, que a destinatária devolvia, não sei se depois de ler ou sem ler. Uma tarde, os dois se encontraram. Foi sublime. Com palpitações, falta de ar, disse a santa senhora: "Eu não traio." Tempos depois, o poeta teve uma hemoptise e encheu meio balde de sangue vivo. A heroína soube e correu para o moribundo. Sua virtude resistira a 365 sonetos. Mas não resistiu à hemoptise.


Nelson Rodrigues, em "A morte da crítica literária".

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25.2.05

Cruz e Sousa



Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
Dos teus abraços de letais flexuras,
Produzem sensações de agres torturas,
Dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
Que prendem, tetanizam como os herpes,
Dos delírios na trêmula coorte...

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
Braços de estranhas correções marmóreas,
Abertos para o Amor e para a Morte.


Cruz e Sousa, 1893.

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23.2.05

Se alguém me perguntar o que estou fazendo de pé nesta esquina há tanto tempo, eu não saberia responder. Estou parada aqui porque a calçada acabou. Há uma rua atrás que cruza com a avenida à frente, por onde os carros deslizam. Vejo outras pessoas como eu. Elas esperam o sinal fechar. Eu poderia ir ao cinema, ver como é que a tal garota de um milhão de dólares faz para chegar até o final do filme. Poderia visitar o caixa eletrônico. Um amigo desempregado. Sentar na praça e comer pipoca enquanto finjo que falo no celular. Passar o resto da tarde numa livraria. Embora os livros já não me digam mais nada, eu ainda não sei disso. Poderia sair catando papel em busca de palavras que formassem frases. Dizem que Cervantes lia os papéis rasgados que encontrava pelas ruas. Já na Austrália, qualquer jogador de sinuca é mais respeitado do que os poetas. Não sei o que decidir. Por isso fico parada me lembrando dessas coisas aqui na esquina. Todos os caminhos acabam se cortando. Não adianta passar durex.

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20.2.05

Quando ela entrou pela porta da cozinha, vi em seus olhos que havia acabado. Perdi o apoio dos pés. Conversas não adiantariam mais. Já havíamos moído toda a carne. Voltei-me para meus amigos. Eram nove pessoas transpirando álcool numa cozinha abafada e alguma coisa dentro de mim se aconchegava. Outra incomodava. Na sala alguém ouvia Cranberries sem parar. Ela teria rido de mim se já não me ignorasse. Todos teriam rido de mim se já não estivessem rindo de outra coisa. Sem tirar o cigarro da boca, ela abriu a geladeira num impulso motor. Os músculos de minhas costas trincaram. A geladeira abraçou-a. Eu não tive a mesma sede.


18.2.05

Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra.

Hilda Hilst

16.2.05

Luís Aranha



.....................................................................................
Eu morria de dieta no hospital
Emprestavam-me livros franceses e ingleses
Um dia uma revista
Conheci então Cendrars
Apollinaire
Spire
Vildrac
Duhamel
Todos os literatos modernos
Mas ainda não compreendia o modernismo
Fazia versos parnasianos
Aos livros que me davam preferia viajar com a imaginação
Paris
Bailarinas de café-concerto rodopiando na ponta dos pés
Ou então a casa de um chinês esquecimento da vida
Antro de vícios elegantes
Morfina e cocaína em champanha
Ópio
Haxixe
Maxixe
Todas as danças modernas
Doente perdi um baile numa sociedade americana de S. Paulo
Minha cabeça girava como depois de muito dançar
E o mundo é uma bailarina de vermelho rodopiando na
ponta dos pés no café-concerto universal
Gosto de bailes de matinês
E os jornais trazem anúncios de chás dançantes
La Prensa diz
"A Argentina proibiu exportação de trigo"
Nova lente no observatório de Buenos Aires
Estudo astronomia numa lente polida por Spinoza
Judeu
Uma sinagoga nos Andes
Não sei se a Cordilheira cai a pique sobre o mar
Santiago
E os barcos de minha imaginação nos mares de todo mundo...


Luís Aranha, em fragmento do seu "Poema Giratório".

12.2.05

Então, antes de entender, meu coração embranqueceu como cabelos embranquecem.


Clarice Lispector

11.2.05

Léon-Paul Fargue



Encontrado entre papéis de família


Tanto sonhei, tanto sonhei que não sou mais
Daqui.
Não me façam perguntas, não me atormentem
Não me acompanhem no meu calvário.

Não me é dado explicar-me as ordens.
Nem mesmo o direito de pensar nelas,
É mais que tempo de levantar-me e ir embora.

Ele consegue uma licença da morte e vem chegando.
Na curva da rua que leva à noite, espero por ele.
O mar já vai voltar a seus últimos terraços.
Uma primeira luz tem sede em meio às trevas.

Um passo na calçada. Sua sombra o precede
Deita-se sobre mim, a cabeça em meu peito.
Ele está aí.

Sempre de chapéu redondo, sempre de pasta na mão,

Tal como era, no dia em que voltou da Itália.
Rolo em sua direção como uma pedra obscura.
Não consigo transpor a sua sombra.

Estão passando bem de saúde? Que fizeram desde então?
Por que não subiram?
Todos os dias eu ia ver e vocês nada de chegar!

Não diz nada disso.
Mas tudo nele diz: Recorda-te.

A noite sobre ele se fechou.


Léon-Paul Fargue

9.2.05

Carta da Mia





Olá. Meu nome, querida, é Bulimia. Mas para nos tornarmos mais íntimas, pode me chamar de "Mia". Eu serei sua amiga de emergência, aquela que nas horas em que o cinto apertar você poderá contar comigo. Quase sempre acompanhada de nossa querida amiga Anna, e assim nós seremos poderosas, nós moderamos você ao nosso gosto, e assim vai conhecer o caminho da perfeição. Às vezes ficarei com ciúme da atenção que você dará à Anna, mas sei que quando a trai é a mim que você recorrerá, após suas terríveis compulsões. Quando comer mais que uma baleia, e sentir-se enorme, sou eu que lhe ajudarei curvando seu corpo à pia, ou ao vaso sanitário, fazendo com muita força; forçando sua garganta para que toda aquela comida nojenta saia descarga abaixo, e assim você se sentirá limpinha, renovada e com um belo estômago de pena. Porque você não pode pôr tudo a perder... Porque Anna e eu controlamos sua mente para que chegues à perfeição. Isso, garota, curve-se perante mim e use seus dedos, sua escova de dente ou até mesmo um pedaço de pau, deixe tudo sair até a última gota, quero sangue saindo de sua garganta e estômago. Não chore, é assim mesmo o caminho da perfeição. É doloroso. Agora levante-se sente-se um pouco, relaxe. Veja como você se sente bem melhor, não é mesmo? Está tudo limpo em você, agora sim, boa garota... Sabia que ia compreender o que se passa. Você está indo no caminho certo. Ainda falta muito e por isso trate de se empenhar... Estou aqui para o que der e vier, qualquer coisa é só me chamar.
Abraços
Mia

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Anna
A woman can never be too rich or too thin.
When you look in the mirror
Who returns your reflection,
Is it a girl who can count her ribs,
See her pelvic bones,
Do you see yourself as beautiful?
I hope you do,
Then you are at peace with your body.
If you see otherwise,
Perhaps you need reassuring
That your tiny frame
Is a thing of rare beauty.
Some men search for the " perfect woman"
Others to wallow in abundant flesh,
This man, gentle, loving, safe,
Tainted with dark sensuality
Was born to glory in
The caress of your skeletal frame.


-- Estes textos foram retirados de sites pró-anorexia cujas autoras, sempre usando nicks, participam do "movimento pró-anna"[Anna= anorexia, ou anoréxica] ou "pró-mia"[Mia= bulimia]. O poema em inglês foi feito por um rapaz, não identificado, apaixonado por uma das "Annas". Por motivos óbvios não forneci os links. O Prosa não faz a apologia da anorexia, embora não veja com bons olhos a censura exercida sobre esses sites e sobre qualquer forma de expressão. Nossa intenção, como sempre, é apenas registrar o que se escreve pela rede.



8.2.05




Impressões de Carnaval: A velha da boneca velha

Dizem os terapeutas que brincar com bonecas ajuda no desenvolvimento da criança. Pode ser. Eu tenho pavor de bonecas desde pequena. Eu já tive bonecas. Não sei como poderiam estar me ajudando a me relacionar com o ambiente se eu esquartejava a todas antes de abandoná-las de lado. Um dia descobri entre os guardados de minha vó a foto de um bebê. Perguntei a minha mãe quem era a criança. Ela disse que era a foto de um bebê morto, o primeiro filho de minha avó, que havia morrido de pneumonia por volta dos anos 20. Naquela época tinham o hábito de fotografar mortos antes de enterrá-los. Acho que desde então o meu pânico aumentou. Sempre acho que bonecas são crianças mortas. Tenho medo de todas. Bonecas de pano, de porcelana, de louça, de trapo, de papel, de borracha, origamis de bonecas, bonecas bebês, as barbies, anabeles, debbies, annies, emílias, bonecas de museu, bonecas fashion, industriais ou artesanais, grandes, pequenas, louras, morenas ou ruivas, coloridas ou da cor da pele humana, bonecas finlandesas ou suecas, as matriochkas, as bonecas country, bonecas baianas, as bonecas Kokeshi, as ore kugure, que são bonecas das indiazinhas bororos, qualquer boneca com trajes típicos, bonecas mecânicas e musicais, as bonecas falantes de Edison, bonecas bailarinas, bonecas infláveis, bonecas pedagógicas, terapêuticas e aromaterápicas. E agora principalmente eu tive um medo terrível daquela boneca velha no colo da velha guarda da Mangueira. Ó deus.



4.2.05

Mallarmagem



o ônibus arranca pra Curicica depois de eu ficar quase duas horas no ponto com o sol queimando minhas meninges. eu conheço Curicica de ouvir falar e um amigo sambista espera por mim na quadra do Grêmio Recreativo União do Parque de Curicica. o cara só pode ser maluco. firmou de fazer um samba-enredo com versinhos de Mallarmé adaptados ao gosto popular e acha que com isso vai ganhar o carnaval, ou pelo menos chamar a atenção da mídia para a sua escola. eu entro na história quando ele pede minha ajuda na letra porque me conhece dos botecos da zona sul e sabe que eu tenho muitos livros. devo entender de Mallarmé, ele pensa. mas por que Mallarmé? com tanto poeta por aí mais fácil, mais brasileiro, eu disse. o povo não gosta de Mallarmé porque é burro, ele disse. a tradição é outra, eu tentei. e qual é a diferença? ele queria esculhambar o troço, fiquei quieta. enquanto o ônibus sacoleja eu retoco num papel amassado o estribilho que já tinha rascunhado em casa, certa de que ele, quando ouvisse aquela merda, desistiria de tudo e tiraria meu nome do rolo. um temporal desaba, o trânsito pára e da minha janelinha embaçada descubro o centro espírita Amor a Cristo. pareço completamente perdida? troco um substantivo. devo estar perto do famoso sanatório de Curicica, o projeto modernista de Sérgio Bernardes. uma lata de Redbull passa boiando pela calçada. os lojistas baixam as portas. lá fora a profundidade dá quase 1 metro. ninguém pode sair do ônibus. corto um adjetivo. na porta da casa 39, a família tenta salvar um estofado Barcelona das Casas Bahia. um alto-falante engasga Festa no Apê. a água sobe os degraus do ônibus. pronto. acabei. pego o celular e ligo pro sambista. o sinal vai e vem enquanto cantarolo o estribilho: jamé jamé jamé/ um joguinho de dados vai mudar o que já é. silêncio. ele grita. diz que adora. eu não a-cre-di-to. está lá, me esperando até agora para ouvir o resto. a chuva não passa. 


(Maira Parula,  em Não feche seus olhos esta noite, 2006.)




1.2.05





Não existe literatura ruim, você é que bebeu pouco

"Álcool é vício de escritor", já dizia Scott Fitzgerald. Hemingway no café da manhã temperava o seu chá com generosas doses de gim, deixando o rodízio de absinto, uísque, vodca e vinho para o resto do dia. Seu record foram 32 doses de double frozen daiquiri numa noite. Diz a lenda que na manhã seguinte acordou normalmente às 6 horas para dar início à sua rotina de trabalho. Steinbeck, mais moderado, ficava com 1 garrafa de scotch/dia. Truman Capote começava seu dia com um martini duplo, e aos 5 anos de idade Jack London já virava cerveja. A influência do álcool na literatura é assunto mais do que batido e mexido. Tema de livros, crônicas de jornal, teses acadêmicas e estudos psiquiátricos. Portanto, sem querer me alongar aqui, brindemos pois àqueles que conseguiram fazer com que o mundo nos descesse mais redondo: Sinclair Lewis, William Faulkner, Poe, Ambrose Bierce, Hart Crane, Theodore Dreiser, Eugene O'Neill, Dorothy Parker, Ring Lardner, John O'Hara, Dashiell Hammett, e. e. cummings, Edmund Wilson, Tennessee Williams, Jack Kerouac, Bukowski, William Inge, O. Henry, John Cheever, Stephen Crane, Irwin Shaw, Robert Lowell, Ralph Maloney, Raymond Chandler, Norman Mailer, Thomas de Quincey, Jean Cocteau, Raymond Carver, Melville, Allen Tate, Conrad Aiken, Dylan Thomas, Joaquin Miller, Harold Monro, George Sterling, Sherwood Anderson, Malcom Lowry, Coleridge, Keats, George Simenon, Elizabeth Bishop, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Cruz e Sousa, Fernando Pessoa, Lúcio Cardoso, Olavo Bilac, Vinicius de Moraes, John Fante, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fausto Wolff, Carson McCullers, Saint-Exupéry, Luis da Câmara Cascudo, Antônio Houaiss, Antônio Maria, Dostoievski, Bocage, Apollinaire, Lautréamont, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Robert Louis Stevenson, Lord Byron, Ferreira Gullar, Virginia Woolf, William Shakespeare, William Blake, Rabelais, Walt Whitman, Jean Genet, Oscar Wilde, Gertrude Stein, Jorge Luis Borges, Balzac, Molière, Eça de Queirós, João Ubaldo, Luis Fernando Veríssimo, Chico Buarque, José Lino Grunewald, Mário Quintana, W. C. Fields, H. L. Mencken, Gore Vidal, Pablo Neruda, James Joyce, Somerset Maugham, Swinburne, Mário de Andrade, Paulo Leminski, Paulo Francis e paro por aqui. Esqueci de muita gente, por certo, mas é que de repente me deu uma sede...



30.1.05

Quadrilha


João chupinha Teresa que chupinha Raimundo
que chupinha Maria que chupinha Joaquim que chupinha Lili
que chupinha também.


(remake de Drummond para o blogverso.)



26.1.05



La dernière translation


Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício de verter
Vai direta pro céu, in cielo, to the heaven,
au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno, Holle, dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm'lisch)
Nem peixe nem água, ni poisson ni l'eau,
Neither water nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!, se Ele fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente no infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice, Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução para o Amén?


Millôr Fernandes

24.1.05


POST NOIR

Noite chuvosa. Meu blog estava às moscas, como ocorre a todo blogueiro do lado leste de San Francisco nesta época do ano. Eu baixava um MP3 do Wynton Marsalis enviado por Jack Fuinha, o único comentarista de meu blog - quando de repente ela entrou na caixa de comentários: alta, insinuante, cool, toda atitude, as bordas azuis e... ah, certo, eu descrevia a caixa de comentários. Mas então entrou lá aquela loura fantástica. "Meu marido sumiu", disse o comment, complementando: "Agora passa lá no meu fotolog e não esquece de deixar um comentário". Acendi um cigarro e, a bordo do meu mouse cupê 1996, rumei ao fotolog dela. Chegando lá vi as fotos do marido desaparecido. Deixei um comment: "50 dólares a hora, mais despesas". Ela postou um emoticon com uma pequena lágrima, e eu teclei: "Meu coração é mole mas o bolso é duro, boneca. É pegar ou largar". Ela postou um smilie (não sei se por causa da última frase ou do "duro") e voltei então ao meu blog. Encontrei o template todo desarrumado, como se o houvessem invadido e revirado. Já saberiam que eu estava no caso? Mandei um MSN a Little Todd, meu fornecedor de código html e de fofocas. Perguntei se ele podia arrumar o template e o que ele saberia do caso. Ele cobrou oito dólares adiantados e passou a dica: o fotolog da loura estava nos Toplinks - ela devia ser do high society da blogosfera. Acendi um cigarro, peguei novamente o cupê 96 e fui até o Google. Digitei o nome do marido desaparecido. No meio da pesquisa meu ICQ foi invadido por uma gang de vírus com sotaque armênio, que ameaçou desconfigurar meu Explorer se eu não desistisse da busca. Acendi um cigarro, arranquei com meu cupê 96, dei um cavalo-de-pau em torno do teclado até clicar no Norton Antivírus que Little Todd disponibilizara em minha máquina. Livre por um fio de mouse da máfia armênia, prossegui até descobrir, via Google: o marido desaparecido havia entrado para uma comunidade hippie no Orkut, e não retornaria mais aos blogs. Acendi um cigarro. Voltei ao fotolog da loura, o qual, para minha surpresa, mostrava fotos dela aos beijos e abraços com... Jack Fuinha. Fora tudo armação dele, vingando-se porque eu nunca respondia a seus comments. Ele na verdade era webmaster, e fora quem providenciara o ataque dos vírus armênios. Sem falar do conluio com a loura fotoblogueira, sua amante. E agora? Eu estava sem um tostão. Minha conexão era discada - quem pagaria pelas incontáveis horas em busca do marido sumido? Jack e a loura enviaram um emoticon risonho e com chifrinho, postando: "Contente-se em saber que o provedor pode desabilitar seu blog antes que a companhia telefônica corte a linha, old pal". Suspirei. Era uma noite chuvosa. Acendi um cigarro e, a bordo de meu cupê 96 - que já dava mostras de falhar a qualquer momento - acessei a página da Organização de Combate ao Enfisema.


Nelson Moraes


19.1.05




No trem que o conduzia ao norte, Mersault conservava o olhar posto nas mãos. O céu anunciava tempestade e o correr do trem arrastava um rebanho de nuvens pardas, baixas, pesadas. Mersault ia sozinho no vagão. O aquecimento era demasiado. Tinha partido apressadamente, no meio da noite, e agora que se encontrava sozinho naquele amanhecer sombrio, recebia toda a suavidade daquela paisagem da Boêmia, onde a iminência da chuva sobre os grandes plátanos sedosos e as chaminés distantes das fábricas provocavam uma indizível tristeza. Olhou para a placa branca onde se lia: Nicht hinauslehenen, E pericoloso sporgersi, Il est dangereux de se pencher au-dehors. E voltou a olhar para as mãos, animais vivos e ferozes, sobre os joelhos, que atraíam toda a sua atenção. A mão esquerda era sensivelmente mais comprida e mais fina, a direita, nodosa e cheia de veias. Conhecia-as. Sabia até que ponto elas eram diferentes uma da outra e capazes de agir sem que a sua vontade interviesse. Uma delas veio encostar-se à testa, para tentar estancar as pulsações febris que o invadiam. A outra escorregou ao longo do casaco, para ir buscar um cigarro no bolso, mas repeliu-o instantaneamente, ao sentir de novo aquela vontade de vomitar que o deixava sem forças. Voltando a pousá-las sobre os joelhos, as mãos abandonavam-se-lhe, e as palmas encurvadas ofereciam a Mersault a imagem da sua vida, que regressava à indiferença e se daria à primeira coisa que a solicitasse.(...) Gostava daquelas longas noites durante as quais o trem vibra sobre os trilhos polidos, desaba como um furacão sobre as pequenas estações, onde só o relógio se encontra iluminado, trava de súbito à vista do ninho confuso de luzes e de sinais das grandes gares, para ser engolido pela luz, pelo calor, para ser invadido por um ouro pulverizado em todos os vagões.(...) A sós consigo, na noite interminável, tinha todo o tempo para prever os mínimos gestos da sua vida futura, para lutar com paciência com a idéia que foge ao passar uma nova estação, se deixa novamente perseguir e apanhar, encontra as suas consequências, para se escapar mais uma vez na dança de fios luminosos da chuva e das luzes dos povoados. Mersault procurava a palavra, a frase que pudessem abrir de novo o seu coração à esperança e acabassem com a sua inquietação. No estado de fraqueza em que se encontrava, precisava achar uma fórmula. O dia sucedia à noite naquele combate teimoso com o verbo, com a imagem que daria, dali em diante, uma nova cor ao seu olhar sobre a vida, o sonho enternecido ou melancólico que seria o seu futuro. Fechava os olhos: é preciso tempo para viver. Como todas as obras de arte, a vida exige tempo e reflexão. Mersault pensava na sua vida e passeava a sua consciência inerte e o seu desejo de felicidade por aquele vagão que, através da Europa, constituía uma espécie de cela de meditação onde o homem aprende a conhecer-se através de tudo o que o ultrapassa.


Albert Camus, em A morte feliz, 1938. Romance que só seria publicado postumamente, A morte feliz é uma prefiguração de O estrangeiro, que começaria a ser escrito por volta de 1939. Segundo André Gide, A morte feliz foi a crisálida onde se formou a larva de O estrangeiro.


18.1.05



Há dois tipos de poetas modernos: aqueles, sutis e profundos, que adivinham a essência das coisas e escrevem: "Luzeiro, luz zero, luz Eros, a garganta da luz pare cores coleiras" etcétera, e aqueles que tropeçam em uma pedra e dizem "pedra filha da puta". Os primeiros são os mais afortunados. Sempre encontram um crítico inteligente que escreve um tratado "Sobre as relações ocultas entre o objeto e a palavra e as possibilidades existenciais da metáfora não formulada". Deles é o Olimpo que nestes dias se chama simplesmente o Clube da Fama.


Jaime Sabines, 1972.


13.1.05

Joan Brossa




UM HOMEM ESPIRRA

Um homem espirra.
Passa um carro.
Um comerciante baixa a porta de metal.
Passa uma mulher com uma garrafa
cheia de água.
Vou dormir.
Isso é tudo.






AQUI HÁ UMA PAREDE

Nela há uma porta.
A porta dá na sala de jantar.
No meio há uma mesa.
Sobre a mesa, um paliteiro.

Aqui tens um guarda-chuva.



12.1.05

Drummond



Noturno à janela do apartamento


Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração na noite.

Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.

A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.

Suicídio, riqueza, ciência...
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.

Triste farol da Ilha Rasa.


Carlos Drummond de Andrade
imagem: Suárez Canal


4.1.05

Ao Sr. Almocreve



O almocreve brasileiro Virgolino Ferreira da Silva, também chamado por estas bandas de Lampião, rei do cangaço, vem por meio desta agradecer ao distinto colega português Almocreve das Petas por ter incluído esse tal de Prosa Caótica em seu notável rol de melhores blogs estrangeiros de 2004. Brigadim, num sabe? Aproveito a viage pra lhe enviar com muito gosto um retrato dele com Maria Bonita e seus bichos de estimação num momento de descanso da lida.

O que o povo não sabe é que antes de matar à vontade um bando de cabra safado e outros aquilo que não era gente, comendo a língua deles crua com cachaça, Virgolino trabalhou como almocreve lá pelas quebradas do Recife a Rio Branco. Leitor vaidoso de jornais, onde só procurava notícias suas, aqui ele aparece folheando o periódico sertanejo O Amigo do Matuto, pelo que se vê está conferindo o "caderno feminino". Apesar da crença generalizada de que ler muito debilita a pessoa, seu escritor favorito era Edgar Wallace.

Me despeço deixando pra vosmicês tudo uns versinho popular:

Eu não sei como se viva
Num mundo tão enganoso:
Se comer pouco, é mesquinho,
Se comer muito, é guloso;
Se andar lorde, é vadio,
Se andar sujo, é preguiçoso;
Se apanhar, é mofino,
Se matar, é criminoso...

2.1.05



Vou sair.
Divirtam-se fazendo amor,
Moscas da minha cabana.


Kobayashi Issa


1.1.05

O dicionário da corte




Jorge Amado: Ganhou o Jabuti de melhor romance. Há muitos anos, como um camelo, rumina e cospe a mesma mistura de sacanagem e violência, sem ao menos o vigor ideológico, o talento primitivo e forte, de um Capitães de areia.

Simone de Beauvoir: A falta de humor de Simone era total. Seu livro mais célebre é O segundo sexo, de 1949. Pela primeira vez vi uma mulher que não era acessório, mãe, tia, irmã, complemento do homem ou objeto de desejo sexual. Mas há o mito Simone de Beauvoir. Na verdade, a mulher foi escrava branca de Sartre. Literalmente. Talentosa, talvez tenha escrito, ou ao menos completado, boa parte dos livros de Sartre. Ele passava a ela os manuscritos inacabados para que ela finalizasse. Há a suspeita de que tenha sido ela quem escreveu a obra-prima literário-existencial de Sartre, A náusea, sobre notas dele.

Jorge Luis Borges: É um imitador muito do mixuruca de Kafka. É uma esfinge sem segredos. Encarna tudo que o acadêmico típico acha supimpa: é arcano, irônico, reticente e ambivalente.

Paul Bowles: Obra pequena. Dois romances e um livro de contos. Os romances, pfui. Os contos é que são quentes. Estão reunidos num livro chamado Pages from Cold Point.

Charlotte Brontë: Na literatura inglesa, tem importância comparável à de Balzac no realismo com que trata as diferenças entre as classes sociais. Seu romance Jane Eyre é profundamente subversivo.

Albert Camus: É de um palavrório estático, solene, pomposo, típico do provinciano que aprendeu as cadências majestosas dos clássicos franceses. Tinha grandes idéias. Não era um grande escritor. Seu melhor romance é A queda, porque parodístico, cheio de humor amargo, e humor é mais ameno ao intelecto do que drama, que exige a recriação de sentimentos.

Raymond Chandler: Philip Marlowe, o detetive de Chandler, é o herói existencial do nosso tempo. Os franceses, de Gide a Sartre e Camus, tinham orgasmos com thrillers americanos precisamente por esse motivo, porque esses intelectuais falavam muito de "heróis existenciais", mas não criaram um único memorável, em ficção ou teatro, coisa que autores como Chandler, fracos em teoria literária e filosofia, faziam com a felicidade aparente de quem jorra num mictório.

Eldridge Cleaver: O melhor escritor negro americano, autor de Soul on Ice, livro que tirava faísca.

Joseph Conrad: O problema de Conrad não é o que escreve. O que escreve é paradigmático e profético, de Coração das trevas a Nostromo. Mas me parece traduzido literalmente do polonês.

Euclides da Cunha: É indispensável a leitura de Os sertões. Euclides é o anti-Machado. A prosa nobre na nossa literatura é em geral ilegível e chatíssima, mas Euclides percebeu a tragédia de Canudos e tem a estatura de um Gibbon e a paixão de um Tolstoi. É majestoso e passional ao mesmo tempo.

Emily Dickinson: A maior poeta mulher de todos os tempos.

Dostoievski: A racionalização que Raskolnikof [personagem de Crime e castigo] faz para matar a velha é o texto mais subversivo que já li. É muito mais do que a justificativa de um crime. É a subversão de toda moralidade e convenções que aprendi dos meus antepassados. Todas as "idéias recebidas", que são transmitidas, com alterações, de geração a geração, ruíram por terra. Se depois de ler o que Ivan [personagem de Os irmãos Karamazov] tem a dizer sobre Deus, você mantiver sua fé na benevolência e delineamento da nossa vida por forças sobrenaturais, parabéns, pode se considerar um Kierkegaard.

Marguerite Duras: Ela projeta sentimentos do mais profundo masoquismo feminino, mas com tal veemência que parecem afirmações de independência feminista. Uma boa maneira de enganar as otárias.

T. S. Eliot: Seu coloquialismo, em 1922, ano de publicação de A terra devastada, revolucionou a poesia moderna. Nem Laforgue nem Pound conseguiram essa consistência e expressividade. Não é a erudição, as paráfrases, as citações, a metrificação inovadora, o uso extensivo do coloquial misturado com o obscuro, que nos "pegam" em Eliot. É a musicalidade. Quando li A terra devastada, senti que aquele poeta estava falando comigo, só para mim. Tal qual Shakespeare.

Millôr Fernandes: É como café poussé, não é para todos os gostos. É picante, amargo, requer cabeça para entendê-lo. Se não escrevesse numa língua de periferia, seria considerado um dos melhores humoristas do mundo.

James Joyce: Acho Joyce muito chato. Mas é um grande escritor. Que não recomendo a não ser a quem goste muito de literatura. A beleza de sua linguagem. Joyce é para iniciados. Foi um suplício até eu entender Ulisses. Aí, confesso, valeu, mas detesto as paródias, coisa de pedante.

Franz Kafka: Acho Kafka mais difícil de ler do que Joyce. Com uma linguagem "careta", revolucionou a literatura tanto quanto Joyce. É um mestre da ambivalência.

John Keats: Depois de Shakespeare, nenhum poeta nos deu tanto sobre amor lírico e trágico quanto Keats.

Murilo Mendes: É um de nossos poetas mais inventivos, mas não caiu no abstracionismo e ilegibilidade de alguns hipermodernos. Sua destreza verbal é encantadora.

Clarice Lispector: Seus romances têm lampejos de criatividade, mas não nos mostram um mundo, e sim uma impressão vivida de circunstâncias, temperamentos, com uma preocupação excessiva com a origem e o sentido das palavras e com ontologia.

Sylvia Plath: Apesar da influência de Eliot, inevitável a alguém que aflorou nos anos 60, é inequivocamente uma voz maior, e seu livro Ariel pertence à cabeceira de quem ame poesia. Plath, com Marianne Moore, é a única grande poeta do século 20. Sylvia é a paixão de toda moça desajustada e infeliz que gosta de ler poesia. Harold Bloom diz que ela versifica mal. Fato. Mas tem imagens de gênio em Ariel, seu último livro, de que escreveu um poema por dia. Quando terminou, pôs a cabeça no forno.

Ezra Pound: Está sempre querendo chocar. Sua erudição era fajuta, num certo sentido, o de ir a fundo no que estudava, não ia, mas sabia muito no varejo, ainda que às vezes -- quase sempre -- com atraso. Pode-se pescar pérolas em sua poesia obstinada, mas é difícil amá-la. Não há afeição, amor, em Pound. É um ingrediente poético indispensável.

Virginia Woolf: Sua literatura parece diáfana, inconsistente e anêmica, de um bom gosto excessivo, que sai do terreno literário para o chique.

Paulo Francis por Paulo Francis: Eu sou o que se chama de um radical órfão. Não acredito em nada, nem em socialismo nem em capitalismo. Procuro ser um bom jornalista, cumprir meu dever, ganhar a vida. É um triste destino para quem achava que podia fazer tanto pelo seu país.

-- Fragmentos de Waaal, o dicionário da corte de Paulo Francis, 1996.


26.12.04

Alberto Blanco

A porta é estreita/ o caminho é estreito/ a noite é interminável

Alberto Blanco, México



O fim das etiquetas
A mosca se levanta da mesa
e domina os quartos até o teto,
atravessa pontualmente o corredor
que comunica o mar com o espelho.

Penetrante na luz é o seu zumbido
Uma bolha a mais dentro da água...
navegando descobre entre os botes
a borda iluminada da toalha.

O fundo é sujo, o que ela vê, claro:
esta vida que flutua vacilante
com ar de papel, branco de luz,
já não lembra nada das palavras.

(trad. MP)

--------------

Poema visto no ventilador de um hotel
Faz um calor dos diabos.
Ligo o ventilador
e começam a girar as pás...
Logo se espalha um suave vento
e as cortinas começam a dançar.
O centro do ventilador
é um espelho convexo,
um olho de peixe,
um capacete de ouro.

Ali vibram os reflexos
com o zumbido da máquina,
mas não saem do seu lugar.

Aumento a velocidade e as pás giram
até virar quase invisíveis
-- sobre uma gaze alvacenta --
mas os reflexos no centro
continuam sendo os mesmos.

Assim tem que ser com tudo -- digo para mim --
as superfícies se movem a grande velocidade
mas as formas que refletem não.

Passam os indivíduos de uma espécie,
mas a espécie continua a mesma.

Passam os homens de um povo,
mas o povo permanece.

Passam todos os poetas,
mas fica a poesia.

Passam nossos pensamentos,
mas alguma coisa, ou alguém,
está observando.
Segue observando.


(trad. Rodolfo Mata)
-




20.12.04

Machado de Assis





COGNAC


VEM, MEU COGNAC, meu licor d'amores!...
É longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração - da vida esmalte,
Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!
Cognac! - inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor - de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m'inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!


Machado de Assis, 1856.






18.12.04

sobre traduções





Duas versões d'O Meu Pipi


1) a portuguesa, original

Crítica de fodas

A foda que dei ontem devia estar preservada no Museu de História Natural. Será considerada a gambozina das fodas, uma vez que já muitos a quiseram dar, mas nunca antes tinha sido vista. Falo da pinocada que dei em crica virgem de 72 anos. Uma virgem de 72 anos, Pipi?? Pergunta o efeminado leitor, enquanto rapa os pêlos das pernas. É facto, rabichos. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudação que repelia os mais temerários, mantinha intacta a cabaça com que Deus -- por chiste, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. A cabaça não estava intacta. Estava reforçada. Décadas de falta de uso alteraram a génese da membrana virginal que, de simples selo, garante de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o hás-de: da maneira como aquilo estava, era o "não hás-de foder nunca". Quem encostasse o ouvido àquela rata avoenga, lograria ouvir os latidos do cabrão do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar.O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal precisaria de estar ano e meio sem foder, para ter o pau mais feito de sempre, 20 centímetros de força bruta, necessária para furar o contraplacado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculadas da greta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter madeiro suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu uma mistela verde. Digo eu: "Vamos lá a ver se não tem já a pachacha estragada, minha senhora. Isto devia ter começado a ser consumido por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE O PITO AINDA ESTARÁ BOM!" E ela: "Como diz?" E eu: "O PITO, O PITO! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADO!" E ela: "Escarranche-me mas é isso, jovem." Escarranchei. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segunda, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebés. No final, confessou-me que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das cricas e do chavascal, trabalhamos. Vou só actualizar o meu curriculum e já venho.



2) a brasileira, em tradução de Mario Prata 



Crítica de Fodas


A trepada que dei ontem devia ficar preservada no Museu de História Natural. Falo da pirocada que dei em xota virgem de 72 anos. "Uma virgem de 72 anos, Pipi?" Pergunta o efeminado leitor, enquanto raspa os pêlos das pernas. É verdade, bichinhas. Tratava-se de uma anciã que, por espartana educação religiosa (se bem que, evidentemente, longe de padres), acasos da vida e um problema grave de sudorese que repelia os mais temerários, mantinha intacto o cabaço com que Deus -- por gozação, não duvido -- marca todas as mulheres. Aliás, minto. O cabaço não estava intacto. Estava reforçado. Décadas de falta de uso alteraram a gênese da membrana virginal que, de simples selo, garantia de novidade, passou a lacre de chumbo, intransponível Cérbero que em vez de guardar o Hades, guardava o "há de": da maneira como aquilo estava, era o "não 'há de' foder nunca". Quem encostasse o ouvido naquela velha boceta, lograria ouvir os latidos do danado do bicho tricéfalo, tal como num búzio se sente o mar. O hímen da velha não estava difícil, meus amigos, estava calcinado. Um homem normal teria que estar há um ano e meio sem foder para ter o pau mais duro da sua vida, vinte centímetros de força bruta, necessária para furar o compensado de sangue e crosta e muco vaginal que unia as paredes musculosas da boceta. Felizmente, para o Pipi, bastou não bater punhetas nesse dia para ter um pau suficiente para a perfuração. A broca entrou às 19h45. Às 19h48 estava a perfuração concluída. Em vez do tradicional sangue, saiu um líquido verde. Eu disse: "Vamos ver se não tem a chavasca estragada, minha senhora. Isto deve ter começado a ser criado por volta de 1945." E ela: "Como diz?" E eu: "NÃO SEI SE A XOTA AINDA VAI ESTAR BOA!" E ela: "Como diz?" E eu: "A XOTA, A XOTA! É CAPAZ DE JÁ ESTAR PASSADA!" E ela: "Me fode, garoto." Fodi. A velha sorria infantilmente. Digo infantilmente por duas razões: primeiro, porque era um sorriso germinal, novo, de descoberta; segundo, porque a velha não tinha dentes, e por isso ria como os bebês. No final, me confessou que não se lembrava de ter tido uma sensação tão forte na vida -- tirando a trombose. É para momentos como este que nós, que andamos metidos nisto das xotas e da sacanagem, trabalhamos. Vou só atualizar o meu curriculum e já volto.
.......................................................


Para quem não sabe, O Meu Pipi era um blog português que chegava a receber 4.500 acessos/dia. O Prosa Caótica foi um dos primeiros blogs, senão o primeiro, a mencionar O Meu Pipi no Brasil. Transformado em livro em 2003, é um dos maiores sucessos da literatura portuguesa. Seu autor continua anônimo. Na edição brasileira, apesar dos esforços do tradutor de fidelidade ao original, o texto perde bastante do seu saboroso humor lusitano. Ah, sim, o tradutor comeu a segunda frase do texto. Saudades do Pipi.


10.12.04

Hilda Hilst




Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

9.12.04



não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
o que passou


Torquato Neto

5.12.04

João Cabral -- Os três mal-amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo-morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.



João Cabral de Melo Neto, em fragmento de "Os três mal-amados", 1943.


26.11.04

William Carlos Williams



O direito de passagem

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei --
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa --
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio --

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra --

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão




23.11.04

Guilherme Mandaro



meu amigo de infância continua emagrecendo
fala depressa
diz que a vida tá difícil
que mário continua exagerando
que ele vai à praia ali mesmo
enquanto a cerveja sobra no copo
alguma coisa sobra no papo
a noite apenas começa




16.11.04

ALEA I -- VARIAÇÕES SEMÂNTICAS
(uma epicomédia de bolso)

Haroldo de Campos
1962/63


O ADMIRÁVEL o louvável o notável o adorável
o grandioso o fabuloso o fenomenal o colossal
o formidável o assombroso o miraculoso o maravilhoso
o generoso o excelso o portentoso o espaventoso
o espetacular o suntuário o feerífico o feérico
o meritíssimo o venerando o sacratíssimo o sereníssimo
o impoluto o incorrupto o intemerato o intimorato

O ADMERDÁVEL o loucrável o nojável o adourável
o ganglioso o flatuloso o fedormenal o culossádico
o fornicaldo o ascumbroso o iragulosso o matravisgoso
o degeneroso o incéstuo o pusdentoso o espasmventroso
o espertacular o supurário o feezífero o pestifério
o merdentíssimo o venalando o cacratíssimo o sifelíssimo
o empaluto o encornupto o entumurado o intumorato

N E R U M
D I V O L
I V R E M
L U N D O
U N D O L
M I V R E
VO L U M
N E R I D
M E R U N
V I L O D
D O M U N
V R E L I
L U D O N
R I M E V
M O D U L
V E R I N
LO D U M
V R E N I
I D O L V
R U E N M
R E V I N
D O L U M
M I N D O
L U V R E
M U N D O
L I V R E


programa o leitor-operador é
convidado a extrair outras
variantes combinatórias
dentro do parâmetro semântico
dado
as possibilidades de permutação
entre dez letras diferentes
duas palavras de cinco letras cada
ascendem a 3.628.800



Haroldo de Campos


11.11.04

Do roteiro de "Total Eclipse", 1995




Verlaine: O que você acha de minha esposa?
Rimbaud: Não sei. O que você acha dela?
Verlaine: Ela ainda é muito criança.
Rimbaud: Eu também.

(pausa)
Verlaine: (para o garçom) Dois absintos...
Rimbaud: Esse seu último livro...
Verlaine: Sim...
Rimbaud: ...não é lá essas coisas.
Verlaine: Não está falando sério.
Rimbaud: Puro lixo pré-matrimonial.
Verlaine: Não. São poemas de amor. Muita gente gostou.
Rimbaud: Não passam de uma mentira.
Verlaine: Não são uma mentira, eu amo minha mulher.
Rimbaud: Amor...
Verlaine: Sim.
Rimbaud: Isso não existe.
Verlaine: O que quer dizer?
Rimbaud: O que une as famílias e os casais, isto não é amor. É burrice, egoísmo, ou medo. O amor não existe.
Verlaine: Você está enganado.
Rimbaud: O interesse próprio existe, a união para proveitos pessoais existe, a complacência existe. Não o amor. O amor tem de ser reinventado.
Verlaine: Eu amo o corpo dela.
Rimbaud: Há outros corpos.
Verlaine: Não. Eu amo o corpo de Matilde.
Rimbaud: E a alma não?
Verlaine: Acho mais importante amar o corpo do que amar a alma, afinal a alma pode ser imortal. Terei muito tempo para a alma, enquanto a carne...
Rimbaud: (bufando)
Verlaine: O que foi? É o meu amor pela carne que me mantém fiel.
Rimbaud: Fiel. O que quer dizer com isso?
Verlaine: Sou fiel a todos a quem amei. Se amei um dia, amarei para sempre...e quando estou sozinho à noite ou pela manhã, posso fechar meus olhos e celebrar a todos.
Rimbaud: Isto não é fidelidade. É nostalgia. Não espere fidelidade de mim.
Verlaine: Aaah... por que está tão azedo comigo?
Rimbaud: Porque você precisa disso.
Verlaine: Já não basta saber que amo você mais do que ninguém? E que sempre amarei?
Rimbaud: Ah, cale essa boca, seu bêbado choramingas.
Verlaine: Diga que me ama.
Rimbaud: Ah, pelo amor de Deus.
Verlaine: Por favor, é importante para mim, diga...
Rimbaud: Você sabe que gosto de você.
Verlaine: Fiz umas compras hoje de manhã. Comprei um revólver.
Rimbaud: E pra quê?
Verlaine: Para você, para mim, para todos.
Rimbaud: Espero que tenha comprado munição suficiente pra todo mundo.



(trad. Maira Parula)