6.9.04



Samba di Una Nota


Per un samba piccolino
una nota basterà
Altre note troverò
ma la base è tutta qua
E quest'altra è conseguente
puoi comprenderlo da te
perchè tu sei conseguenza
inevitabile di me.

Per non imitare
chi non parla
che in maniera imprecisata,
approssimata...
Cerco tra le note d'ogni scala
ad una eseminata
e abbandonata

E ritorno alla mia nota
come tu torni da me
e non cerco che una nota
come cerco sempre te
Che m'importa d'ogni nota
re mi fa sol la si do
me ne basta solo una
e su quella canterò.


-- Versão italiana de G. Calabrese ao "Samba de Uma Nota Só", de Tom Jobim e Newton Mendonça.



3.9.04


Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?


Tom Jobim, de Los Angeles, 1965, em carta a Vinícius de Morais.



2.9.04

A biblioteca de Babel





a Jorge Luis Borges


Se eu digo que nos galhos de um cedro do Líbano costumavam se aninhar todas as aves dos céus. Que à sua sombra se acolhiam todos os animais dos campos e descansava toda a espécie de gente. Se eu digo que meus ouvidos mortais não foram preparados para o som de cânticos, das harpas, das liras e dos címbalos. Que, antes disso, as ruas abertas de minha infância transformaram em mármore as tardes que hoje busco na memória. Se eu digo que minha raça, classe e sexo são definitivamente a garatuja de tudo aquilo que sou. Que tudo aquilo que sou poderia muito bem acomodar-se no espaço entre uma vírgula e um ponto num rodapé desnecessário. Que não tenho a pretensão das páginas elegantes para pendurar minhas reflexões rudimentares de minha vidinha rudimentar, muito menos quinhentos séculos de dúvidas. Se eu ainda assim digo que não acredito num livro total porque sempre desconfiei dos místicos e do seu Deus circular de lombada contínua, é porque, depois de tudo o que acabei de dizer ou que me disseram, o meu universo não é uma biblioteca, ou porque qualquer coisa que eu venha a dizer ou escrever não passam de letras soltas de uma história inteira de que quase nem lembro.

M.P.




1.9.04


por que eu não posso esquecer


que Deus sonda os meus rins


penetra até o fundo do meu coração


e ouve as minhas palavras?





31.8.04

Parece-me por vezes que ouço dizer o vinho (ele fala com a sua alma, com essa voz dos espíritos que só pelos espíritos é ouvida) : " -- Homem, meu bem-amado, quero lançar para ti, apesar da minha prisão de vidro e dos meus ferrolhos de cortiça, um canto cheio de alegria e de esperança. Não sou ingrato; sei que te devo a vida. Sei o que te custou de trabalho e de sol nas costas. Tu deste-me a vida, eu te recompensarei. Pagar-te-ei largamente a minha dívida; porque eu sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta sedenta pelo trabalho. O peito de um bom homem é uma morada que me agrada muito mais do que estas caves melancólicas e insensíveis. É um alegre túmulo onde cumpro o meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande reboliço, e dali, por escadas invisíveis, subo-lhe ao cérebro onde executo a minha dança suprema.

"Ouves tu agitarem-se em mim as poderosas canções dos tempos antigos, os cantos do amor e da glória? Sou a alma da pátria, meio galante, meio militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho faz os dias prósperos, o vinho faz os domingos felizes. Com os cotovelos assentes na mesa de família e as mangas arregaçadas, tu me glorificarás altivamente e estarás verdadeiramente contente.

"Iluminarei os olhos da tua velha mulher, a velha companheira dos teus desgostos cotidianos e das tuas velhas esperanças. Enternecerei o seu olhar e porei no fundo das suas pupilas o fogo da juventude. E ao teu filho, palidozinho, esse pobre burrico atrelado à mesma fadiga que o cavalo da charrua, dar-lhe-ei de volta as belas cores do seu berço, e serei para esse novo atleta da vida o óleo que reforça os músculos dos antigos lutadores.

"Cairei no fundo do teu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o sulco dolorosamente lavrado. A nossa íntima reunião criará a poesia. Nós dois faremos um Deus e voaremos para o infinito, como os pássaros, as borboletas, os fios da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."

Eis o que o vinho canta na sua linguagem misteriosa. Ai daquele cujo coração egoísta e fechado às dores dos seus irmãos nunca ouviu esta canção.


Charles Baudelaire, em "Do Vinho e do Haxixe, Comparados como Meios de Multiplicação da Individualidade", 1851.


28.8.04



Cheguei na beira do porto
Onde as ondas se espáia
As garça dá meia-volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai, ai
Aí quando eu vim de minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d`água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai


-- Pena Branca e Xavantinho, em "Cuitelinho".
Imagem: Augusto Malta. Posto 6, Copacabana, outros tempos.


Carvalho Júnior



Antropofagia

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

-- Os átomos sutis -- os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris -- esplêndidos sobejos!




27.8.04



e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta...


Al Berto

26.8.04



Índio muda de oca e tudo continua igual.
Índio muda de taba e nada é diferente.
Índio muda de tribo e é sempre a mesma nhanha.
Índio muda de provedor e não consegue nem velocidade de pangaré.
Índio tem sistema de comentários e não consegue comentar.
Índio percebe que tudo muda pra ficar a mesma merda.
Índio quer tudo e não quer coisa alguma.
Pensa em mudar de país.
Vai pra Gelolândia.
Índio quer ser amigo de Bjork no Orkut.
And nobody's bizness if I do.



25.8.04

John Lennon - Um atrapalho no trabalho



Jesus El Pifco era um estrangeiro e sabia disso. Ele tinha imigratificado de seu pequeno barraco branco em Barcelônia uns bons dezenoivos anos atrás tendo antes o cuidado de garantir um emprego como cocheiro na Escócega. O emprego era na casa do Simsenhor de MacAnus, um típico muito qualacterístico que tinha um castelo nas Highlands. A primeira coisa que Jesus El Pifco notou nos primaveiros dias foi que o Simsenhor não parecia ter nada que se assemelhasse à descrição de um coche ou mesmo uma cocheira você sabe, para seu suprêmio desgasto. Mas -- e uso a palavra em vão -- o Simsenhor parece que tinha alguns cavalos, cada um exibindo um belo par de pernas. Jesus se apaixonou por eles à primeira vista, como eles por ele, o que era muita sorte, porque os aposentos de El Pifco eram realmente no estábulo lado a lado com seus quatro nobres amigos cavalares.

Logo longo a gente dava pra ver Jesus quase todo dia, pageando os cavalos do seu patrão, penteando suas crinas e obturando seus dentes, assobiando um velho refrão espanhol sonhando com suas úteras amadas lá na terrinha em suas bastardas e brancas cabaninhas fascistas.

-- Turminha legal de cavalos, eu diria, ele observava à pequena Spastic Sporran, a camareira escorregadiça, quem ele bem não tiritava o olho desdentão Hogmanose.

-- Dá pro gasto, ela respondiva com seu lixeiro sotictac de Aberdeen-martin. Vosmecê passa mais tempo co'esses cavalos do que mecê passa comigo, com uma dessas ela se precipirulitava para suas obrigações, amarrando bem firme seu jacinto de castidade na epidorme.

Bom católico que era, Jesus limpava o cuspo da cara e oferecia a outra alface -- mas ela já tinha ido emborbas deixando ele mais uma vez numa ágata Christi.

-- Um dilha ela vai passar da conta, e eu seixo ela, ele disse ao seu cavalo Favo o Ríctus. Claro que o cavalo não responsou, porque vocês sabem eles não falam, e vê lá se iam falar logo com um comedor de alho, fedorento, baixinho, covarde, seboso, um bastardo fascista católico espanhol. Logo fizeram as aspásias e Jesus e a tal Spastic estavam de nojo unidos naquele amor sem dolores.

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(Fragmento de Um atrapalho no trabalho (1984), tradução particularíssima de Paulo Leminski ao texto A Spaniard in the Works (1965), de John Lennon. Por sua prosa pop, um mix de flash-contos, esboços de peças, poemas nonsense e desenhos, os livros de Lennon (Lennon On His Own Write e A Spaniard in the Works) têm um lugar especial na criação literária do século 20. Apesar de seus textos lembrarem o estilo de James Joyce, Lennon confessou que sua maior influência foi Lewis Carroll -- a fonte onde bebeu Joyce. Nem preciso dizer que essa tradução é na verdade uma transcriação, difícil saber onde acaba Lennon e começa Leminski.)


24.8.04

Do sovaco do Cristo: o retorno

Cá estou eu, dez dias depois, morando ao lado de um Cristo Redentor, versão reduzida. Uma imitação de pedra. Olhos de pedra, braços de pedra, sovacos de pedra. Moro debaixo do sovaco direito, o que seria esquerdo para quem sobe a rua e encara de frente o homem. Cidade pequena, uns 6 ou 7 mil habitantes, vivendo a euforia da campanha eleitoral. Carros de som passam berrando por minha porta. Trabalho com tampões de ouvido. Meu consolo é que isso passa. Fora isso, tudo corre bem. O inverno aqui é verão. O quilo do filet mignon custa 8 reais. Posso me queixar? Os mineiros recebem bem seus forasteiros. Me perguntam a toda hora por que troquei o Rio pelo interior de Minas, se no Rio também tem mil cidadezinhas. Tento explicar com lógica o que não tem muita explicação. Eles não entendem. Dizer que a vida me levou não convence muito. Estou pensando numa resposta mais convincente para tranquilizá-los: um dia, na enseada de Botafogo, a Virgem Maria me apareceu e disse: Vá embora daqui que o Rio vai se acabar. Eu fui.


11.8.04

Junqueira Freire



Martírio
Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo

Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas

Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até repúdio,
Sentir essa ironia,

Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,

Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!


Junqueira Freire, monge beneditino e poeta baiano, séc. 19.


8.8.04

Explicação de poesia sem ninguém pedir


Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.


Adélia Prado

5.8.04

Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação ou agradecimento:
(Machado de Assis)

- Uma galinha é a maneira de um ovo produzir outro ovo.
(Samuel Buttler)

- Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.
(Sartre)

- O otimista acha tudo bom exceto o pessimista. O pessimista acha tudo ruim exceto a si mesmo.
(Chesterton)

- Quando o populacho se mete a raciocinar, tudo está perdido.
(Voltaire)

- Tenho tentado viver numa torre de marfim, mas sempre uma maré de merda lhe bate nas paredes para fazê-la desabar.
(Flaubert)

- Os velhos repetem-se e os jovens nada têm para dizer. O tédio é recíproco.
(Jacques Bainville)

- Dize às vezes a verdade para que te creiam quando mentires.
(Jules Renard)

- Um idiota pobre é um idiota. Um idiota rico é um rico.
(Paul Laffitte)

- O imigrante é um indivíduo mal informado que pensa que um país é melhor que outro.
(Ambrose Bierce)

- É agradável ver o nome da gente impresso. Um livro é um livro, ainda que não contenha nada.
(Byron)

- Eu nunca viajo sem o meu diário. A gente sempre tem que ter alguma coisa sensacional para ler no trem.
(Oscar Wilde)

- Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.
(Balzac)

- Que homem Balzac teria sido se soubesse escrever!
(Flaubert)

- Não gosto de Deus porque não o conheço, nem do próximo, porque o conheço.
(Montesquieu)

- O homem só inventou Deus para poder viver sem matar-se.
(Dostoievski)

- O autodidata é o ignorante por conta própria.
(Mário Quintana)

- Quando o apocalipse vier, Senhor, que eu tenha pelo menos escovado os dentes!
(Eno Teodoro Wanke)

- Detesto citações.
(Emerson)



4.8.04

Agustín Garcia Calvo




Maletas
Bagagem
Bagaxe
Bagaje
Bagatge

En una equipaje caben todos los diccionarios.


De vuelta

Saber el nombre de los pueblos
por los que va pasando el tren
gracias al nombre de las estaciones
por las que va pasando el tren.


Recelos justificados

Prescindir de lo propio
no por propio o por impropio,
sino por enteramente ajeno.
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"La cultura es una fantasía que está a expensas del poder. "
"El artista es un estorbo para su obra."
"El cultivo del prestigio de los autores clásicos y contemporáneos es un juego de vanidades y engaños." Saiba mais do poeta e filólogo em uma entrevista de 2003 publicada no site Babab.


3.8.04



O maior poeta possível -- é o sistema nervoso.
O inventor do todo -- mas antes o único poeta.


Paul Valéry


2.8.04

Nomes de blogs, pelo mundo

A Leonor morreu (fomos nós que a matamos), Diário de cores impossíveis, O siri cascudo, Os prós e os contras de respirar, Camisas pretas cuecas brancas, Clit Pussy, Lomoblografia, Trepanação digital, Pretzels me dão sede, Lésbicas russas, Eu não sou ninguém -- e você?, Apartamento 4, Large Cunt, Pink Cunt, Wife Cunt, Bunda latina, Punhaladas em 35mm, Meu psiquiatra é um duende, Relatos de um obeso ocioso, A planta, Faca na liga, Prozac e pompons, Se você precisa perguntar é porque não merece saber, Humphrey Bloggart, Te peguei no quiosque da esquina, Uma dose liberal, Dona-de-casa com tesão, Vagina de mulheres, Vagina careca, Vagina seca, O fator vagina, À prova de falos, Império da sujeira, Reflexões sobre mamãe, Amantes de metanfetaminas, Divirta-se com Pinto, Ideorréia, Sim senhor eu gosto, A mente de Olivia Drab, 84 razões, Estilos dos professores, Por los temerosos rincones de mi cerebro, Meu cérebro é sua pista de dança, As far as the bastards are going, My thingy, Sangra Valentina, Pseudolua, Cu molhado, Cu jovem, Kiss my blog, Nômade ancorado, Quem se não eu? Ufa, há uma lista interminável de blogs aqui, com suas atualizações. Divirta-se.


1.8.04

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reincarnar, reincarnei sem mim, sem ter eu reincarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção infinítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo ? vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda. E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.
Poder saber pensar! Poder saber sentir!
Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...


Bernardo Soares (Fernando Pessoa), em O livro do desassossego.


30.7.04


 
 Tudo no mundo começou com um sim.
 
 
-- extraído das "Entrevistas Sensoriais" do Arte da Palavra, com meus agradecimentos. 

 

28.7.04

Memórias de uma forca
(fragmento)

Sou duma antiga família de carvalhos, raça austera e forte --  que já na Antiguidade deixava cair, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era uma família hospitaleira e histórica: dela tinham saído navios para a derrota tenebrosa das Índias, contos de lanças para os alucinados das Cruzadas, e vigas para os tetos simples e perfumados que abrigaram Savanarola, Espinosa e Lutero. Meu pai, esquecido das altas tradições sonoras e da sua heráldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana. Não respeitava as nobres morais antigas, nem a ideal tradição religiosa, nem os deveres da história. Era uma árvore materialista. Tinha sido pervertida pelos enciclopedistas da vegetação. Não tinha fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do Sol, da seiva e da água. Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, enquanto sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, acolhia os grandes concertos de pássaros boêmios, cuspia a chuva sobre o povo curvado e humilde das ervas e das plantas e, de noite, enlaçado pelas heras lascivas, ressonava sob o silêncio sideral.  Quando vinha o inverno, com a passividade animal dum mendigo, erguia, para a impassível ironia do azul, os seus braços magros e suplicantes!

Por isso nós, os seus filhos, não fomos felizes na vida vegetal. Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços; ramo contemplativo e romântico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, pelo escárnio, pela farsa e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de sol, de poeira, áspero solitário da vida, lutador dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre nós para ir ser tábua de esquife! -- Eu, o mais lastimável, vim a ser forca!

 
Eça de Queiroz, em "Prosas Bárbaras".

 

27.7.04

O medo é o único e verdadeiro adversário da vida. Só o medo pode derrotar a vida. Ele é um adversário inteligente e traiçoeiro, eu bem sei. Vai atrás de nosso ponto mais fraco, o que encontra com infalível facilidade.  Ele começa em nossa mente, sempre. Num momento estamos calmos, com autocontrole, felizes. Então o medo, disfarçado de dúvida, entra furtivamente em nossa mente feito um espião. A dúvida se encontra com a descrença e a descrença tenta enxotá-la. Mas a descrença é um soldado de infantaria pobremente armado. A dúvida acaba com ela sem muito problema. Ficamos ansiosos. Surge a razão para lutar por nós. Sentimo-nos tranqüilizados. A razão é totalmente equipada com a tecnologia das armas mais modernas. Contudo, para nosso espanto, apesar de sua tática superior e de inúmeras vitórias inegáveis, a razão é derrubada. A gente se sente enfraquecendo, oscilando. Nossa ansiedade se transforma em pânico.

O medo em seguida volta-se com força total para o nosso corpo, que já sabe que algo de terrivelmente errado está acontecendo. A essa altura os pulmões já voaram para longe como um pássaro e as tripas fugiram ziguezagueando como uma serpente.  A língua então cai morta feito um gambá, enquanto o maxilar se põe a galopar em seu lugar. Os ouvidos ensurdecem. Os músculos começam a tremer como se dominados pela malária e os joelhos a sacudir como se dançassem. O coração se esforça demais e o esfíncter relaxa demais. E assim acontece com o resto do corpo. Cada parte de nós, da maneira que mais lhe convém, se desintegra. Só os olhos funcionam bem. Sempre prestam atenção correta ao medo.

Logo passamos a tomar decisões precipitadas. Descartamos nossos últimos aliados: a esperança e a confiança. Aí, nós mesmos já nos derrotamos. O medo, que não passa de uma impressão, triunfou sobre nós.

 
Yann Martel, em Life of Pi, 2001.

 

26.7.04



E esse vento indo e vindo pela porta
 
 
 
- verso de Jorge de Lima
 

25.7.04

Marilyn?
 


Dizem os arquivos do FBI que Marilyn Monroe, antes do estrelato, fez um filme erótico por volta de 1948-49, supostamente antes de filmar com Groucho Marx. Um filme em 16mm, P&B, com 7 minutos de duração, e que foi descoberto por um fotógrafo sueco em 1980.  A notícia foi publicada em inúmeras revistas internacionais nos anos 90. Bom, essa dona aí não parece MM, mas também há que se pensar que ela de fato fez muitas plásticas corretivas, condição sine qua non para entrar no circuito hollywoodiano. Mais informações estão neste site espanhol, que pelo visto está é querendo vender o seu peixe, quer dizer, a fita. Sei não...

 

23.7.04



No começo eu até gostei da pinta dele, daquela cara de quem abusava do açúcar. Olhos de frade. Ele me pediu que eu mudasse de nome. Eu mudei. Dizia que eu tinha nome de boneca velha e que só de pensar ficava broxa. Durante seis anos fui Deborah. Ele nunca broxou com Deborah. Depois passou a implicar com a minha profissão. Não se conformava por eu saber exatamente qual era o tamanho do nariz de Cleópatra. Eu parei de trabalhar e mudamos de cidade. Eu queria amá-lo e sofrer ao lado dele. Principalmente sofrer, porque no amor sigo a cartilha de são Paulo: "Eu completo na minha carne o que faltou à Paixão do Cristo." Vivemos juntos por algum tempo. Nosso lar, uma câmara de eco.  Eu gostava de ver navios, os dias foram passando e me acostumei a não olhar mais pra mim.  Mas todo céu tem um inferno logo ali e uma noite o eclipse de nós dois acabou.  O saco de pipoca estourou no cinema. Hoje sou Emília de novo. Cirurgiã plástica. Rio de Janeiro. Consultas às segundas, quartas e sextas, no mesmo endereço e telefone. Obrigada. 

 

22.7.04

William Carlos Williams




O carrinho de mão vermelho



tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

reluzente de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

 


 

21.7.04

O gordo-chavão
 
 
precisão cirúrgica
vegetação exuberante
marca indelével
desabalada corrida
ironias do destino
grito lancinante
banho de sangue
festim macabro
membro túrgido
idéia inusitada
dorme como um anjo
pranto convulsivo
separar o joio do trigo
 
Estes são apenas alguns dos mais de 800 clichês que Sérgio Barcellos Ximenes, do excelente Blog do Romance, teve a paciência de catalogar dos dois romances de Jô Soares: O Xangô de Baker Street e O homem que matou Getúlio Vargas.  Um número que impressiona, principalmente quando se sabe que não representa o total de clichês utilizados pelo autor, apenas um apanhado.  Uma pequena aula de técnica literária. Vale conferir.

 

19.7.04

Os armazéns, as docas, o arsenal da marinha e a inspetoria da alfândega. Brazil: estava escrito acima, encimado por um telhado que caía em declive, 1892, a Companhia Docas de Santos estabelecida no Valongo, 14 km de cais acostável hoje. A armadora britânica de Lamport & Holt . Dezesseis navios fundeados na barra, 39 sendo esperados nas próximas 48 horas, 28 atracados no porto público, três nos terminais, o som alto de uma música techno, os cachorros pouco ferozes e muito famintos, as sobrancelhas erguidas, as digitais cheias de tinta aplainadas nos papéis. Ele encostou em um container e deixou que a brisa quente da baía entrasse & naufragasse pelos seus cabelos. Passou a mão no pescoço e acendeu um cigarro. O carregamento de banana e de café, as moscas e os cargueiros do píer 45. Levantei a cabeça: os adeuses aos adeuses pequenos, que acontecem nas noites e nos cargueiros, entre as peças de prata das pulseiras, entre diafragmas que se abrem e fecham em segundos, em papéis propositadamente envelhecidos mais tarde no laboratório. Perfumes de gardênia, boleros de satã, um poema de Pound misturado às ondulações marinhas, e os olhos dele percorreram o mapeamento dos insetos que aqui habitam, verificando toda a sua exatidão.
 
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Debrucei na sacada do apartamento e olhei minúsculos pontos ao longe, embarcações que carregam mercadorias & almas errantes & livros salubres & teares & tapeçarias. Essas embarcações que andam pelos mares e que diferem das que eu tão bem conheço, que navegam em rios lentos, densos e turvos. Como o Mekong debaixo do sol, as moscas sobre a balsa, os olhos baixos, os romances franceses. Olhei a rua lá embaixo, minúsculos pontos que se moviam, grãos de trigo rolando sobre a rua, as sacas de trigo roídas por ratazanas devassas, nos armazéns do porto. O que mesmo, eu faço aqui? Eu fotografo, é o que eu sei fazer. E assobio uma ária de Verdi. Santos, praia do Gonzaga, primeiro semestre de 2004, o apartamento no escuro, a sala com piso de lajota, as fotos do Mekong na parede, o poema de Elliot: ruivo, ruivo rio.
 
 
O Caderno Lilás de Karim Blair 
 
 

18.7.04


 
 
Ao pé da Bíblia

 
Recentemente, uma célebre animadora de rádio dos EUA afirmou que a homossexualidade era uma perversão:  É o que diz a Bíblia no livro do Levítico, capítulo 18, versículo 22: " Tu não  te deitarás com um homem como te deitarias com uma  mulher: seria uma abominação." A Bíblia refere-se assim à questão. Ponto final, afirmou ela.

Alguns  dias mais tarde, um ouvinte dirigiu-lhe uma carta aberta que dizia:  "Obrigado por colocar tanto fervor na educação das pessoas pela Lei de Deus. Aprendo muito ouvindo o  seu programa e procuro que as pessoas à minha volta a escutem também. No entanto, eu preciso de alguns conselhos quanto a outras leis bíblicas. Por exemplo, eu  gostaria de vender a minha filha como escrava, tal como nos é indicado no Livro do Êxodo, capítulo 21, versículo 7. Na sua opinião, qual seria o melhor preço?  O  Levítico também, no capítulo 25, versículo 44, ensina que posso possuir escravos, homens ou mulheres, na condição de que eles sejam comprados em nações   vizinhas. Um amigo meu afirma que  isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos  canadenses. Poderia a senhora esclarecer-me sobre este ponto? Por  que é que eu não posso possuir escravos canadenses?  Tenho um vizinho que trabalha aos sábados. O Livro do Êxodo, capítulo 25, versículo 2, diz claramente que ele deve  ser condenado à morte. Sou obrigado a matá-lo eu mesmo?  Poderia a senhora tranqüilizar-me de alguma forma neste tipo de situação constrangedora? Outra  coisa: o Levítico, capítulo 21, versículo 18, diz que não podemos aproximar-nos do altar de Deus se tivermos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual  teria de ser de 100%?  Seria possível rever esta  exigência no sentido de baixarem o limite?  Um último conselho. O meu tio não respeita o que diz o  Levítico, capítulo 19, versículo 19, plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo campo, da mesma forma  que a sua esposa usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e poliéster. Além disso, ele passa os seus dias a  maldizer e a blasfemar. Será necessário ir até o fim do processo embaraçoso que é reunir todos os habitantes da  aldeia para lapidar o meu tio e a minha tia, como  prescrito no Levítico, capítulo 24, versículos 10 a 16? Não se  poderia antes queimá-los vivos após uma simples reunião familiar privada, como se faz com aqueles que dormem com parentes próximos, tal como aparece indicado no livro  sagrado, capítulo 20, versículo 14? Confio  plenamente na sua ajuda."
 
-- (por e-mail)
 
 

16.7.04

Sombra
 
 
Vós que me ledes por certo estais entre os vivos, mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Porque de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão, antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estilete de ferro. 

O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na terra. Pois muitos prodígios e sinais se haviam produzido e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros não era desconhecido que os céus apresentavam um aspecto de desgraça e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que então sobreviera a alteração daquele ano de 794 em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico do firmamento, se muito não me engano, manifestava-se, não somente no orbe físico da terra, mas nas almas, imaginações e meditações da humanidade.
   
Éramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas do rubro vinho de Quios, entre as paredes de nobre salão, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos achávamos a única entrada que havia era uma alta porta de bronze, de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da visão da lua, das lúgubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o pressentimento e a lembrança do Flagelo não podiam ser assim excluídos. Havia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não me é possível dar precisa conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade e, sobretudo, aquele terrível estado de existência, que as pessoas nervosas experimentam, quando os sentidos estão vivos e despertos e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Um peso mortal nos acabrunhava. Oprimiam nossos ombros os móveis da sala, os copos em que bebíamos. E todas as coisas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim permaneciam, ardendo, pálidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava, sobre a redonda mesa de ébano a que estávamos sentados, cada um de nós, ali reunidos, contemplava o palor de seu próprio rosto e o brilho inquieto nos abatidos de seus companheiros. Não obstante, ríamos e estávamos alegres, a nosso modo, que era histérico. E cantávamos as canções de Anacreonte, que são doidas, e bebíamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido ao comprido, amortalhado, era como o gênio e o demônio da cena. Mas ah! Não tomava ele parte em nossa alegria, salvo seu rosto, convulsionado pela doença, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que têm de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão e, mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonorosa as canções do filho de Telos.  Mas, pouco a pouco, minhas canções cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvaecendo-se. E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das canções , se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no céu e se assemelha ao vulto de um homem: mas não era a sombra de um homem, nem a sombra de um Deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E tremendo, um instante, entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente, sobre a superfície da porta de ébano.  Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra nem de homem, nem de Deus, de deus da Grécia, de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável . Os pés do jovem Zoilo amortalhado encontravam-se, se bem me lembro, na porta na qual a sombra repousava.  Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra, no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os olhos e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e seu lugar de nascimento. E a sombra respondeu: 
   
"Eu sou a sombra e minha morada fica perto das Catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais que orlam o sujo canal de Caronte."

E então todos os sete erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra não era o de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando nas suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos, que a morte ceifara. 
 


Edgar Allan Poe
 
 


15.7.04

Fim do mundo
 
 
Eis em que deram as coisas neste mundo
As vacas sentadas nos postes telegráficos jogando xadrez
A cacatua debaixo das saias da dançarina espanhola
Canta tão triste quanto uma corneta de quartel e os canhões
                                                                 [lamentam o dia inteiro
Isso é a paisagem de lavanda de que falava Herr Mayer
quando perdeu o olho
Somente o corpo de bombeiros pode expulsar o pesadelo da
                                                                                             [sala de
visitas mas todas as mangueiras estão quebradas
Ah sim Sonya todos consideram a boneca de celulóide uma
                                                                               [criança-trocada
e gritam: God save the king
O Clube Monista em peso se reuniu no barco a vapor
                                                                                       [Meyerbeer
Mas só o piloto tem alguma idéia do que seja um dó maior
Arranco o atlas anatômico de meu tornozelo
começa um estudo sério
Você viu os peixes que têm estado de pé defronte da
ópera de gala
estes últimos dois dias e duas noites...?
Ah ah vós grandes diabos -- ah ah vós apicultores e
                                                                                  [comandantes
Como um bau au au com um bô ô ô quem hoje em dia não
                                                                                                 [sabe
o que nosso Pai Homero escreveu
Guardo a guerra e a paz em minha toga mas tomarei um
                                                                     [milk-shake de cereja
Hoje ninguém sabe se foi amanhã
Batem o compasso com uma tampa de esquife
Se ao menos alguém tivesse a coragem de arrancar as penas
                                                                                           [do rabo
do bonde é uma grande época
Os professores de zoologia reúnem-se nos prados
o grande mágico arruma os tomates na testa
Mais uma vez oh tu castelo mal-assombrado com tuas terras
O cabrito montês assobia o garanhão dá um pulo
(E é assim que é o mundo eis tudo o que vem depois de nós)
 
 
Richard Huelsenbeck, no que é considerado o primeiro poema dadaísta, 1916.
 
 
 

12.7.04



DE COMO ME TORNEI ENCANTADOR DELICIOSO
E SIMPÁTICO



Durmo muito tarde. Suicido-me 65%. Minha vida é muito barata, para mim só é 30% vida. Minha vida contém 30% de vida. Faltam-lhe braços cordas e alguns botões. 5% são consagrados ao estado de estupor semilúcido acompanhado de arquejos anêmicos. Esses 5% chamam-se dadá. Assim como vocês estão vendo a vida é barata. A morte é um pouco mais cara. Mas a vida é encantadora e a morte é encantadora também.

Alguns dias atrás assisti a uma reunião de imbecis. Havia muita gente. Todo mundo era encantador. Tristan Tzara, indivíduo pequeno, idiota e insignificante, pronunciou uma conferência sobre a arte de tornar-se encantador. E incidentalmente ele era encantador. E espirituoso. Não é delicioso? Incidentalmente, todo mundo é delicioso. 9 abaixo de zero. Não é encantador? Não, não é encantador. Deus não passa. Não está nem no catálogo de telefone. Mas seja como for ele é encantador.

Embaixadores, poetas, condes, príncipes, músicos, jornalistas, atores, escritores, diplomatas, diretores, costureiros, socialistas, princesas e baronesas -- todos encantadores. Todos vocês são encantadores, extremamente sutis, espirituosos e deliciosos.

Tristan Tzara diz a vocês: ele bem que gostaria de fazer qualquer outra coisa, mas prefere continuar sendo um idiota, um palhaço e um falsificador.

Sejam sinceros um momento: o que eu acabo de dizer é encantador ou idiota?

Há pessoas (jornalistas, advogados, diletantes, filósofos) que até mesmo consideram as outras formas -- negócios, casamentos, visitas, guerras, diversos congressos, sociedades anônimas, política, acidentes, salões de dança, crises econômicas, crises emocionais -- como variações de dadá. Como não sou imperialista, não participo da opinião deles -- prefiro acreditar que dadá é apenas uma divindade de segunda ordem, que simplesmente tem de ser posta ao lado de outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.

A simplicidade é simples ou é dadá?

Considero-me bastante encantador


Tristan Tzara, anos 10.


9.7.04

Na lápide branca de Teu túmulo
Florescem as flores brancas da vida.
Tantos anos já sem Ti.
E que anos?

Na lápide branca de Teu túmulo
Há tantos anos fechada,
Surgiu uma espécie de sombra,
A de tua morte incompreensível.

Na lápide branca de Teu túmulo
Ó minha Mãe, Amor que se foi,
Em sinal de ternura filial
Esta simples oração: Repousa eternamente em paz.



Karol Wojtyla, em poema que fez aos 19 anos, dedicado à mãe, muito antes de se transformar em João Paulo II. O sr. Karol Wojtyla em sua juventude foi poeta, ator e queria ser filólogo. Durante a Segunda Guerra Mundial, estudava e orava com afinco, enquanto a Polônia, os poloneses e a cultura polonesa eram dizimados pelos nazistas.

8.7.04

lógica kármica

para que vc exista, incontáveis pessoas existiram antes de vc.
seus pais, avós, bisavós, pentavós.
todos diretamente responsáveis por sua vida.
essas são suas vidas passadas,
num processo onde não existe a reencarnação,
mas a perpetuação.

tudo que seus ascendentes fizeram antes de vc,
cada vida prejudicada em nome da sobrevivência dos seus genes, tudo isso, é o seu karma.
.........................


já imaginava
meu tiro acertou a água
não me surpreendo, era o esperado

mas, das propriedades da esperança,
talvez a mais cruel (e mais bonita)
seja a capacidade de nos mover
mesmo existindo em doses ínfimas
.........................


- olha lá
- onde?
- ali, cacete, olha!
- ali onde, lá longe?
- é, lá mesmo. não é um pedaço de azul?
- azul? ficou maluco? aquilo ali, no máximo, é um cinza menos carregado, um quase-branco.
- olha que é azul...
- vc quer ver azul, mas não é azul. no máximo, é um pedaço já chovido. de qq forma, vc ainda tem um horizonte inteiro pra secar.
.........................


hoje me peguei imaginando
como seria se eu existisse como vcs me criam.
quem eu seria só com este ângulo escrito?
quem que conhece?
.........................


contra o escuro, qualquer faísca serve?
não?


Combustão

7.7.04

"Há qualquer coisa que não sei
e que pelo visto deveria saber.

Eu não sei o que é isso que não sei
e que pelo visto deveria saber.

E me sinto como um idiota
quando dou mostras de não saber o que é isso
de não saber o que é que eu não sei.

Finjo então saber o que não sei.
E assim fico com os nervos rebentados
já que não sei o que devo fingir que estou sabendo.

Finjo então que de tudo estou sabendo.
Acho que sabes o que eu pelo visto deveria saber
e contudo não me podes dizer do que se trata
porque não sabes que eu não sei do que se trata."

Você sabe quem é o autor?, eu não sei.







4.7.04




Não é estranho
que um poeta político
dê as costas a tudo e se fixe
em três ou quatro frutas que apodrecem
num prato
em cima da geladeira
numa cozinha da rua Duvivier?


Ferreira Gullar


3.7.04

Sophia de Mello Breyner




Devastada era eu própria como cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega


Sophia de Mello Breyner, em O Minotauro.

2.7.04



As crises de ansiedade e depressão que começaram quando minha mãe deixou Nova York continuaram durante e depois da temporada de Um bonde chamado desejo. Seriam necessários muitos anos para que eu deixasse de aceitar o que me haviam ensinado na infância: que eu era um inútil. É óbvio que naquela época eu não tinha a mínima idéia de que me sentia assim. Alguma coisa estava me corroendo e eu não sabia o que era, mas precisava esconder as emoções e parecer forte. Foi assim na maior parte da minha vida; sempre tive de fingir que era forte, quando não era.


Marlon Brando, em sua autobiografia "Canções que minha mãe me ensinou", 1994.