25.8.04

John Lennon - Um atrapalho no trabalho



Jesus El Pifco era um estrangeiro e sabia disso. Ele tinha imigratificado de seu pequeno barraco branco em Barcelônia uns bons dezenoivos anos atrás tendo antes o cuidado de garantir um emprego como cocheiro na Escócega. O emprego era na casa do Simsenhor de MacAnus, um típico muito qualacterístico que tinha um castelo nas Highlands. A primeira coisa que Jesus El Pifco notou nos primaveiros dias foi que o Simsenhor não parecia ter nada que se assemelhasse à descrição de um coche ou mesmo uma cocheira você sabe, para seu suprêmio desgasto. Mas -- e uso a palavra em vão -- o Simsenhor parece que tinha alguns cavalos, cada um exibindo um belo par de pernas. Jesus se apaixonou por eles à primeira vista, como eles por ele, o que era muita sorte, porque os aposentos de El Pifco eram realmente no estábulo lado a lado com seus quatro nobres amigos cavalares.

Logo longo a gente dava pra ver Jesus quase todo dia, pageando os cavalos do seu patrão, penteando suas crinas e obturando seus dentes, assobiando um velho refrão espanhol sonhando com suas úteras amadas lá na terrinha em suas bastardas e brancas cabaninhas fascistas.

-- Turminha legal de cavalos, eu diria, ele observava à pequena Spastic Sporran, a camareira escorregadiça, quem ele bem não tiritava o olho desdentão Hogmanose.

-- Dá pro gasto, ela respondiva com seu lixeiro sotictac de Aberdeen-martin. Vosmecê passa mais tempo co'esses cavalos do que mecê passa comigo, com uma dessas ela se precipirulitava para suas obrigações, amarrando bem firme seu jacinto de castidade na epidorme.

Bom católico que era, Jesus limpava o cuspo da cara e oferecia a outra alface -- mas ela já tinha ido emborbas deixando ele mais uma vez numa ágata Christi.

-- Um dilha ela vai passar da conta, e eu seixo ela, ele disse ao seu cavalo Favo o Ríctus. Claro que o cavalo não responsou, porque vocês sabem eles não falam, e vê lá se iam falar logo com um comedor de alho, fedorento, baixinho, covarde, seboso, um bastardo fascista católico espanhol. Logo fizeram as aspásias e Jesus e a tal Spastic estavam de nojo unidos naquele amor sem dolores.

-------------------------------------


(Fragmento de Um atrapalho no trabalho (1984), tradução particularíssima de Paulo Leminski ao texto A Spaniard in the Works (1965), de John Lennon. Por sua prosa pop, um mix de flash-contos, esboços de peças, poemas nonsense e desenhos, os livros de Lennon (Lennon On His Own Write e A Spaniard in the Works) têm um lugar especial na criação literária do século 20. Apesar de seus textos lembrarem o estilo de James Joyce, Lennon confessou que sua maior influência foi Lewis Carroll -- a fonte onde bebeu Joyce. Nem preciso dizer que essa tradução é na verdade uma transcriação, difícil saber onde acaba Lennon e começa Leminski.)


24.8.04

Do sovaco do Cristo: o retorno

Cá estou eu, dez dias depois, morando ao lado de um Cristo Redentor, versão reduzida. Uma imitação de pedra. Olhos de pedra, braços de pedra, sovacos de pedra. Moro debaixo do sovaco direito, o que seria esquerdo para quem sobe a rua e encara de frente o homem. Cidade pequena, uns 6 ou 7 mil habitantes, vivendo a euforia da campanha eleitoral. Carros de som passam berrando por minha porta. Trabalho com tampões de ouvido. Meu consolo é que isso passa. Fora isso, tudo corre bem. O inverno aqui é verão. O quilo do filet mignon custa 8 reais. Posso me queixar? Os mineiros recebem bem seus forasteiros. Me perguntam a toda hora por que troquei o Rio pelo interior de Minas, se no Rio também tem mil cidadezinhas. Tento explicar com lógica o que não tem muita explicação. Eles não entendem. Dizer que a vida me levou não convence muito. Estou pensando numa resposta mais convincente para tranquilizá-los: um dia, na enseada de Botafogo, a Virgem Maria me apareceu e disse: Vá embora daqui que o Rio vai se acabar. Eu fui.


11.8.04

Junqueira Freire



Martírio
Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo

Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas

Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até repúdio,
Sentir essa ironia,

Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,

Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!


Junqueira Freire, monge beneditino e poeta baiano, séc. 19.


8.8.04

Explicação de poesia sem ninguém pedir


Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.


Adélia Prado

5.8.04

Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação ou agradecimento:
(Machado de Assis)

- Uma galinha é a maneira de um ovo produzir outro ovo.
(Samuel Buttler)

- Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.
(Sartre)

- O otimista acha tudo bom exceto o pessimista. O pessimista acha tudo ruim exceto a si mesmo.
(Chesterton)

- Quando o populacho se mete a raciocinar, tudo está perdido.
(Voltaire)

- Tenho tentado viver numa torre de marfim, mas sempre uma maré de merda lhe bate nas paredes para fazê-la desabar.
(Flaubert)

- Os velhos repetem-se e os jovens nada têm para dizer. O tédio é recíproco.
(Jacques Bainville)

- Dize às vezes a verdade para que te creiam quando mentires.
(Jules Renard)

- Um idiota pobre é um idiota. Um idiota rico é um rico.
(Paul Laffitte)

- O imigrante é um indivíduo mal informado que pensa que um país é melhor que outro.
(Ambrose Bierce)

- É agradável ver o nome da gente impresso. Um livro é um livro, ainda que não contenha nada.
(Byron)

- Eu nunca viajo sem o meu diário. A gente sempre tem que ter alguma coisa sensacional para ler no trem.
(Oscar Wilde)

- Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.
(Balzac)

- Que homem Balzac teria sido se soubesse escrever!
(Flaubert)

- Não gosto de Deus porque não o conheço, nem do próximo, porque o conheço.
(Montesquieu)

- O homem só inventou Deus para poder viver sem matar-se.
(Dostoievski)

- O autodidata é o ignorante por conta própria.
(Mário Quintana)

- Quando o apocalipse vier, Senhor, que eu tenha pelo menos escovado os dentes!
(Eno Teodoro Wanke)

- Detesto citações.
(Emerson)



4.8.04

Agustín Garcia Calvo




Maletas
Bagagem
Bagaxe
Bagaje
Bagatge

En una equipaje caben todos los diccionarios.


De vuelta

Saber el nombre de los pueblos
por los que va pasando el tren
gracias al nombre de las estaciones
por las que va pasando el tren.


Recelos justificados

Prescindir de lo propio
no por propio o por impropio,
sino por enteramente ajeno.
---------------------

"La cultura es una fantasía que está a expensas del poder. "
"El artista es un estorbo para su obra."
"El cultivo del prestigio de los autores clásicos y contemporáneos es un juego de vanidades y engaños." Saiba mais do poeta e filólogo em uma entrevista de 2003 publicada no site Babab.


3.8.04



O maior poeta possível -- é o sistema nervoso.
O inventor do todo -- mas antes o único poeta.


Paul Valéry


2.8.04

Nomes de blogs, pelo mundo

A Leonor morreu (fomos nós que a matamos), Diário de cores impossíveis, O siri cascudo, Os prós e os contras de respirar, Camisas pretas cuecas brancas, Clit Pussy, Lomoblografia, Trepanação digital, Pretzels me dão sede, Lésbicas russas, Eu não sou ninguém -- e você?, Apartamento 4, Large Cunt, Pink Cunt, Wife Cunt, Bunda latina, Punhaladas em 35mm, Meu psiquiatra é um duende, Relatos de um obeso ocioso, A planta, Faca na liga, Prozac e pompons, Se você precisa perguntar é porque não merece saber, Humphrey Bloggart, Te peguei no quiosque da esquina, Uma dose liberal, Dona-de-casa com tesão, Vagina de mulheres, Vagina careca, Vagina seca, O fator vagina, À prova de falos, Império da sujeira, Reflexões sobre mamãe, Amantes de metanfetaminas, Divirta-se com Pinto, Ideorréia, Sim senhor eu gosto, A mente de Olivia Drab, 84 razões, Estilos dos professores, Por los temerosos rincones de mi cerebro, Meu cérebro é sua pista de dança, As far as the bastards are going, My thingy, Sangra Valentina, Pseudolua, Cu molhado, Cu jovem, Kiss my blog, Nômade ancorado, Quem se não eu? Ufa, há uma lista interminável de blogs aqui, com suas atualizações. Divirta-se.


1.8.04

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reincarnar, reincarnei sem mim, sem ter eu reincarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar. Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção infinítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo ? vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda. E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.
Poder saber pensar! Poder saber sentir!
Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...


Bernardo Soares (Fernando Pessoa), em O livro do desassossego.


30.7.04


 
 Tudo no mundo começou com um sim.
 
 
-- extraído das "Entrevistas Sensoriais" do Arte da Palavra, com meus agradecimentos. 

 

28.7.04

Memórias de uma forca
(fragmento)

Sou duma antiga família de carvalhos, raça austera e forte --  que já na Antiguidade deixava cair, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era uma família hospitaleira e histórica: dela tinham saído navios para a derrota tenebrosa das Índias, contos de lanças para os alucinados das Cruzadas, e vigas para os tetos simples e perfumados que abrigaram Savanarola, Espinosa e Lutero. Meu pai, esquecido das altas tradições sonoras e da sua heráldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana. Não respeitava as nobres morais antigas, nem a ideal tradição religiosa, nem os deveres da história. Era uma árvore materialista. Tinha sido pervertida pelos enciclopedistas da vegetação. Não tinha fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do Sol, da seiva e da água. Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, enquanto sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, acolhia os grandes concertos de pássaros boêmios, cuspia a chuva sobre o povo curvado e humilde das ervas e das plantas e, de noite, enlaçado pelas heras lascivas, ressonava sob o silêncio sideral.  Quando vinha o inverno, com a passividade animal dum mendigo, erguia, para a impassível ironia do azul, os seus braços magros e suplicantes!

Por isso nós, os seus filhos, não fomos felizes na vida vegetal. Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços; ramo contemplativo e romântico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, pelo escárnio, pela farsa e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de sol, de poeira, áspero solitário da vida, lutador dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre nós para ir ser tábua de esquife! -- Eu, o mais lastimável, vim a ser forca!

 
Eça de Queiroz, em "Prosas Bárbaras".

 

27.7.04

O medo é o único e verdadeiro adversário da vida. Só o medo pode derrotar a vida. Ele é um adversário inteligente e traiçoeiro, eu bem sei. Vai atrás de nosso ponto mais fraco, o que encontra com infalível facilidade.  Ele começa em nossa mente, sempre. Num momento estamos calmos, com autocontrole, felizes. Então o medo, disfarçado de dúvida, entra furtivamente em nossa mente feito um espião. A dúvida se encontra com a descrença e a descrença tenta enxotá-la. Mas a descrença é um soldado de infantaria pobremente armado. A dúvida acaba com ela sem muito problema. Ficamos ansiosos. Surge a razão para lutar por nós. Sentimo-nos tranqüilizados. A razão é totalmente equipada com a tecnologia das armas mais modernas. Contudo, para nosso espanto, apesar de sua tática superior e de inúmeras vitórias inegáveis, a razão é derrubada. A gente se sente enfraquecendo, oscilando. Nossa ansiedade se transforma em pânico.

O medo em seguida volta-se com força total para o nosso corpo, que já sabe que algo de terrivelmente errado está acontecendo. A essa altura os pulmões já voaram para longe como um pássaro e as tripas fugiram ziguezagueando como uma serpente.  A língua então cai morta feito um gambá, enquanto o maxilar se põe a galopar em seu lugar. Os ouvidos ensurdecem. Os músculos começam a tremer como se dominados pela malária e os joelhos a sacudir como se dançassem. O coração se esforça demais e o esfíncter relaxa demais. E assim acontece com o resto do corpo. Cada parte de nós, da maneira que mais lhe convém, se desintegra. Só os olhos funcionam bem. Sempre prestam atenção correta ao medo.

Logo passamos a tomar decisões precipitadas. Descartamos nossos últimos aliados: a esperança e a confiança. Aí, nós mesmos já nos derrotamos. O medo, que não passa de uma impressão, triunfou sobre nós.

 
Yann Martel, em Life of Pi, 2001.

 

26.7.04



E esse vento indo e vindo pela porta
 
 
 
- verso de Jorge de Lima
 

25.7.04

Marilyn?
 


Dizem os arquivos do FBI que Marilyn Monroe, antes do estrelato, fez um filme erótico por volta de 1948-49, supostamente antes de filmar com Groucho Marx. Um filme em 16mm, P&B, com 7 minutos de duração, e que foi descoberto por um fotógrafo sueco em 1980.  A notícia foi publicada em inúmeras revistas internacionais nos anos 90. Bom, essa dona aí não parece MM, mas também há que se pensar que ela de fato fez muitas plásticas corretivas, condição sine qua non para entrar no circuito hollywoodiano. Mais informações estão neste site espanhol, que pelo visto está é querendo vender o seu peixe, quer dizer, a fita. Sei não...

 

23.7.04



No começo eu até gostei da pinta dele, daquela cara de quem abusava do açúcar. Olhos de frade. Ele me pediu que eu mudasse de nome. Eu mudei. Dizia que eu tinha nome de boneca velha e que só de pensar ficava broxa. Durante seis anos fui Deborah. Ele nunca broxou com Deborah. Depois passou a implicar com a minha profissão. Não se conformava por eu saber exatamente qual era o tamanho do nariz de Cleópatra. Eu parei de trabalhar e mudamos de cidade. Eu queria amá-lo e sofrer ao lado dele. Principalmente sofrer, porque no amor sigo a cartilha de são Paulo: "Eu completo na minha carne o que faltou à Paixão do Cristo." Vivemos juntos por algum tempo. Nosso lar, uma câmara de eco.  Eu gostava de ver navios, os dias foram passando e me acostumei a não olhar mais pra mim.  Mas todo céu tem um inferno logo ali e uma noite o eclipse de nós dois acabou.  O saco de pipoca estourou no cinema. Hoje sou Emília de novo. Cirurgiã plástica. Rio de Janeiro. Consultas às segundas, quartas e sextas, no mesmo endereço e telefone. Obrigada. 

 

22.7.04

William Carlos Williams




O carrinho de mão vermelho



tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

reluzente de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

 


 

21.7.04

O gordo-chavão
 
 
precisão cirúrgica
vegetação exuberante
marca indelével
desabalada corrida
ironias do destino
grito lancinante
banho de sangue
festim macabro
membro túrgido
idéia inusitada
dorme como um anjo
pranto convulsivo
separar o joio do trigo
 
Estes são apenas alguns dos mais de 800 clichês que Sérgio Barcellos Ximenes, do excelente Blog do Romance, teve a paciência de catalogar dos dois romances de Jô Soares: O Xangô de Baker Street e O homem que matou Getúlio Vargas.  Um número que impressiona, principalmente quando se sabe que não representa o total de clichês utilizados pelo autor, apenas um apanhado.  Uma pequena aula de técnica literária. Vale conferir.

 

19.7.04

Os armazéns, as docas, o arsenal da marinha e a inspetoria da alfândega. Brazil: estava escrito acima, encimado por um telhado que caía em declive, 1892, a Companhia Docas de Santos estabelecida no Valongo, 14 km de cais acostável hoje. A armadora britânica de Lamport & Holt . Dezesseis navios fundeados na barra, 39 sendo esperados nas próximas 48 horas, 28 atracados no porto público, três nos terminais, o som alto de uma música techno, os cachorros pouco ferozes e muito famintos, as sobrancelhas erguidas, as digitais cheias de tinta aplainadas nos papéis. Ele encostou em um container e deixou que a brisa quente da baía entrasse & naufragasse pelos seus cabelos. Passou a mão no pescoço e acendeu um cigarro. O carregamento de banana e de café, as moscas e os cargueiros do píer 45. Levantei a cabeça: os adeuses aos adeuses pequenos, que acontecem nas noites e nos cargueiros, entre as peças de prata das pulseiras, entre diafragmas que se abrem e fecham em segundos, em papéis propositadamente envelhecidos mais tarde no laboratório. Perfumes de gardênia, boleros de satã, um poema de Pound misturado às ondulações marinhas, e os olhos dele percorreram o mapeamento dos insetos que aqui habitam, verificando toda a sua exatidão.
 
-------------------------
 
Debrucei na sacada do apartamento e olhei minúsculos pontos ao longe, embarcações que carregam mercadorias & almas errantes & livros salubres & teares & tapeçarias. Essas embarcações que andam pelos mares e que diferem das que eu tão bem conheço, que navegam em rios lentos, densos e turvos. Como o Mekong debaixo do sol, as moscas sobre a balsa, os olhos baixos, os romances franceses. Olhei a rua lá embaixo, minúsculos pontos que se moviam, grãos de trigo rolando sobre a rua, as sacas de trigo roídas por ratazanas devassas, nos armazéns do porto. O que mesmo, eu faço aqui? Eu fotografo, é o que eu sei fazer. E assobio uma ária de Verdi. Santos, praia do Gonzaga, primeiro semestre de 2004, o apartamento no escuro, a sala com piso de lajota, as fotos do Mekong na parede, o poema de Elliot: ruivo, ruivo rio.
 
 
O Caderno Lilás de Karim Blair 
 
 

18.7.04


 
 
Ao pé da Bíblia

 
Recentemente, uma célebre animadora de rádio dos EUA afirmou que a homossexualidade era uma perversão:  É o que diz a Bíblia no livro do Levítico, capítulo 18, versículo 22: " Tu não  te deitarás com um homem como te deitarias com uma  mulher: seria uma abominação." A Bíblia refere-se assim à questão. Ponto final, afirmou ela.

Alguns  dias mais tarde, um ouvinte dirigiu-lhe uma carta aberta que dizia:  "Obrigado por colocar tanto fervor na educação das pessoas pela Lei de Deus. Aprendo muito ouvindo o  seu programa e procuro que as pessoas à minha volta a escutem também. No entanto, eu preciso de alguns conselhos quanto a outras leis bíblicas. Por exemplo, eu  gostaria de vender a minha filha como escrava, tal como nos é indicado no Livro do Êxodo, capítulo 21, versículo 7. Na sua opinião, qual seria o melhor preço?  O  Levítico também, no capítulo 25, versículo 44, ensina que posso possuir escravos, homens ou mulheres, na condição de que eles sejam comprados em nações   vizinhas. Um amigo meu afirma que  isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos  canadenses. Poderia a senhora esclarecer-me sobre este ponto? Por  que é que eu não posso possuir escravos canadenses?  Tenho um vizinho que trabalha aos sábados. O Livro do Êxodo, capítulo 25, versículo 2, diz claramente que ele deve  ser condenado à morte. Sou obrigado a matá-lo eu mesmo?  Poderia a senhora tranqüilizar-me de alguma forma neste tipo de situação constrangedora? Outra  coisa: o Levítico, capítulo 21, versículo 18, diz que não podemos aproximar-nos do altar de Deus se tivermos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual  teria de ser de 100%?  Seria possível rever esta  exigência no sentido de baixarem o limite?  Um último conselho. O meu tio não respeita o que diz o  Levítico, capítulo 19, versículo 19, plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo campo, da mesma forma  que a sua esposa usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e poliéster. Além disso, ele passa os seus dias a  maldizer e a blasfemar. Será necessário ir até o fim do processo embaraçoso que é reunir todos os habitantes da  aldeia para lapidar o meu tio e a minha tia, como  prescrito no Levítico, capítulo 24, versículos 10 a 16? Não se  poderia antes queimá-los vivos após uma simples reunião familiar privada, como se faz com aqueles que dormem com parentes próximos, tal como aparece indicado no livro  sagrado, capítulo 20, versículo 14? Confio  plenamente na sua ajuda."
 
-- (por e-mail)
 
 

16.7.04

Sombra
 
 
Vós que me ledes por certo estais entre os vivos, mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Porque de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão, antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estilete de ferro. 

O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na terra. Pois muitos prodígios e sinais se haviam produzido e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros não era desconhecido que os céus apresentavam um aspecto de desgraça e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que então sobreviera a alteração daquele ano de 794 em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico do firmamento, se muito não me engano, manifestava-se, não somente no orbe físico da terra, mas nas almas, imaginações e meditações da humanidade.
   
Éramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas do rubro vinho de Quios, entre as paredes de nobre salão, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos achávamos a única entrada que havia era uma alta porta de bronze, de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da visão da lua, das lúgubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o pressentimento e a lembrança do Flagelo não podiam ser assim excluídos. Havia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não me é possível dar precisa conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade e, sobretudo, aquele terrível estado de existência, que as pessoas nervosas experimentam, quando os sentidos estão vivos e despertos e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Um peso mortal nos acabrunhava. Oprimiam nossos ombros os móveis da sala, os copos em que bebíamos. E todas as coisas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim permaneciam, ardendo, pálidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava, sobre a redonda mesa de ébano a que estávamos sentados, cada um de nós, ali reunidos, contemplava o palor de seu próprio rosto e o brilho inquieto nos abatidos de seus companheiros. Não obstante, ríamos e estávamos alegres, a nosso modo, que era histérico. E cantávamos as canções de Anacreonte, que são doidas, e bebíamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido ao comprido, amortalhado, era como o gênio e o demônio da cena. Mas ah! Não tomava ele parte em nossa alegria, salvo seu rosto, convulsionado pela doença, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que têm de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão e, mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonorosa as canções do filho de Telos.  Mas, pouco a pouco, minhas canções cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvaecendo-se. E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das canções , se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no céu e se assemelha ao vulto de um homem: mas não era a sombra de um homem, nem a sombra de um Deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E tremendo, um instante, entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente, sobre a superfície da porta de ébano.  Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra nem de homem, nem de Deus, de deus da Grécia, de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável . Os pés do jovem Zoilo amortalhado encontravam-se, se bem me lembro, na porta na qual a sombra repousava.  Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra, no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os olhos e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e seu lugar de nascimento. E a sombra respondeu: 
   
"Eu sou a sombra e minha morada fica perto das Catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais que orlam o sujo canal de Caronte."

E então todos os sete erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra não era o de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando nas suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos, que a morte ceifara. 
 


Edgar Allan Poe
 
 


15.7.04

Fim do mundo
 
 
Eis em que deram as coisas neste mundo
As vacas sentadas nos postes telegráficos jogando xadrez
A cacatua debaixo das saias da dançarina espanhola
Canta tão triste quanto uma corneta de quartel e os canhões
                                                                 [lamentam o dia inteiro
Isso é a paisagem de lavanda de que falava Herr Mayer
quando perdeu o olho
Somente o corpo de bombeiros pode expulsar o pesadelo da
                                                                                             [sala de
visitas mas todas as mangueiras estão quebradas
Ah sim Sonya todos consideram a boneca de celulóide uma
                                                                               [criança-trocada
e gritam: God save the king
O Clube Monista em peso se reuniu no barco a vapor
                                                                                       [Meyerbeer
Mas só o piloto tem alguma idéia do que seja um dó maior
Arranco o atlas anatômico de meu tornozelo
começa um estudo sério
Você viu os peixes que têm estado de pé defronte da
ópera de gala
estes últimos dois dias e duas noites...?
Ah ah vós grandes diabos -- ah ah vós apicultores e
                                                                                  [comandantes
Como um bau au au com um bô ô ô quem hoje em dia não
                                                                                                 [sabe
o que nosso Pai Homero escreveu
Guardo a guerra e a paz em minha toga mas tomarei um
                                                                     [milk-shake de cereja
Hoje ninguém sabe se foi amanhã
Batem o compasso com uma tampa de esquife
Se ao menos alguém tivesse a coragem de arrancar as penas
                                                                                           [do rabo
do bonde é uma grande época
Os professores de zoologia reúnem-se nos prados
o grande mágico arruma os tomates na testa
Mais uma vez oh tu castelo mal-assombrado com tuas terras
O cabrito montês assobia o garanhão dá um pulo
(E é assim que é o mundo eis tudo o que vem depois de nós)
 
 
Richard Huelsenbeck, no que é considerado o primeiro poema dadaísta, 1916.
 
 
 

12.7.04



DE COMO ME TORNEI ENCANTADOR DELICIOSO
E SIMPÁTICO



Durmo muito tarde. Suicido-me 65%. Minha vida é muito barata, para mim só é 30% vida. Minha vida contém 30% de vida. Faltam-lhe braços cordas e alguns botões. 5% são consagrados ao estado de estupor semilúcido acompanhado de arquejos anêmicos. Esses 5% chamam-se dadá. Assim como vocês estão vendo a vida é barata. A morte é um pouco mais cara. Mas a vida é encantadora e a morte é encantadora também.

Alguns dias atrás assisti a uma reunião de imbecis. Havia muita gente. Todo mundo era encantador. Tristan Tzara, indivíduo pequeno, idiota e insignificante, pronunciou uma conferência sobre a arte de tornar-se encantador. E incidentalmente ele era encantador. E espirituoso. Não é delicioso? Incidentalmente, todo mundo é delicioso. 9 abaixo de zero. Não é encantador? Não, não é encantador. Deus não passa. Não está nem no catálogo de telefone. Mas seja como for ele é encantador.

Embaixadores, poetas, condes, príncipes, músicos, jornalistas, atores, escritores, diplomatas, diretores, costureiros, socialistas, princesas e baronesas -- todos encantadores. Todos vocês são encantadores, extremamente sutis, espirituosos e deliciosos.

Tristan Tzara diz a vocês: ele bem que gostaria de fazer qualquer outra coisa, mas prefere continuar sendo um idiota, um palhaço e um falsificador.

Sejam sinceros um momento: o que eu acabo de dizer é encantador ou idiota?

Há pessoas (jornalistas, advogados, diletantes, filósofos) que até mesmo consideram as outras formas -- negócios, casamentos, visitas, guerras, diversos congressos, sociedades anônimas, política, acidentes, salões de dança, crises econômicas, crises emocionais -- como variações de dadá. Como não sou imperialista, não participo da opinião deles -- prefiro acreditar que dadá é apenas uma divindade de segunda ordem, que simplesmente tem de ser posta ao lado de outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.

A simplicidade é simples ou é dadá?

Considero-me bastante encantador


Tristan Tzara, anos 10.


9.7.04

Na lápide branca de Teu túmulo
Florescem as flores brancas da vida.
Tantos anos já sem Ti.
E que anos?

Na lápide branca de Teu túmulo
Há tantos anos fechada,
Surgiu uma espécie de sombra,
A de tua morte incompreensível.

Na lápide branca de Teu túmulo
Ó minha Mãe, Amor que se foi,
Em sinal de ternura filial
Esta simples oração: Repousa eternamente em paz.



Karol Wojtyla, em poema que fez aos 19 anos, dedicado à mãe, muito antes de se transformar em João Paulo II. O sr. Karol Wojtyla em sua juventude foi poeta, ator e queria ser filólogo. Durante a Segunda Guerra Mundial, estudava e orava com afinco, enquanto a Polônia, os poloneses e a cultura polonesa eram dizimados pelos nazistas.

8.7.04

lógica kármica

para que vc exista, incontáveis pessoas existiram antes de vc.
seus pais, avós, bisavós, pentavós.
todos diretamente responsáveis por sua vida.
essas são suas vidas passadas,
num processo onde não existe a reencarnação,
mas a perpetuação.

tudo que seus ascendentes fizeram antes de vc,
cada vida prejudicada em nome da sobrevivência dos seus genes, tudo isso, é o seu karma.
.........................


já imaginava
meu tiro acertou a água
não me surpreendo, era o esperado

mas, das propriedades da esperança,
talvez a mais cruel (e mais bonita)
seja a capacidade de nos mover
mesmo existindo em doses ínfimas
.........................


- olha lá
- onde?
- ali, cacete, olha!
- ali onde, lá longe?
- é, lá mesmo. não é um pedaço de azul?
- azul? ficou maluco? aquilo ali, no máximo, é um cinza menos carregado, um quase-branco.
- olha que é azul...
- vc quer ver azul, mas não é azul. no máximo, é um pedaço já chovido. de qq forma, vc ainda tem um horizonte inteiro pra secar.
.........................


hoje me peguei imaginando
como seria se eu existisse como vcs me criam.
quem eu seria só com este ângulo escrito?
quem que conhece?
.........................


contra o escuro, qualquer faísca serve?
não?


Combustão

7.7.04

"Há qualquer coisa que não sei
e que pelo visto deveria saber.

Eu não sei o que é isso que não sei
e que pelo visto deveria saber.

E me sinto como um idiota
quando dou mostras de não saber o que é isso
de não saber o que é que eu não sei.

Finjo então saber o que não sei.
E assim fico com os nervos rebentados
já que não sei o que devo fingir que estou sabendo.

Finjo então que de tudo estou sabendo.
Acho que sabes o que eu pelo visto deveria saber
e contudo não me podes dizer do que se trata
porque não sabes que eu não sei do que se trata."

Você sabe quem é o autor?, eu não sei.







4.7.04




Não é estranho
que um poeta político
dê as costas a tudo e se fixe
em três ou quatro frutas que apodrecem
num prato
em cima da geladeira
numa cozinha da rua Duvivier?


Ferreira Gullar


3.7.04

Sophia de Mello Breyner




Devastada era eu própria como cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega


Sophia de Mello Breyner, em O Minotauro.

2.7.04



As crises de ansiedade e depressão que começaram quando minha mãe deixou Nova York continuaram durante e depois da temporada de Um bonde chamado desejo. Seriam necessários muitos anos para que eu deixasse de aceitar o que me haviam ensinado na infância: que eu era um inútil. É óbvio que naquela época eu não tinha a mínima idéia de que me sentia assim. Alguma coisa estava me corroendo e eu não sabia o que era, mas precisava esconder as emoções e parecer forte. Foi assim na maior parte da minha vida; sempre tive de fingir que era forte, quando não era.


Marlon Brando, em sua autobiografia "Canções que minha mãe me ensinou", 1994.

1.7.04

I
Cada inseto
é um neto
de outro inseto


II
e assim num voo reto
de uma lei estabelecida


III
de driblar a morte com a vida
cada neto
de inseto
fica mais forte
tomando inseticida


Jorge Mautner


Gasosa ideológica

Me traga uma gasosa
Goza
Goza
Uma gasosa
Rosa
Rosa
Cor de rosa
Como uma garota gostosa

Uma gasosa
Linda
linda
Bem gelada
Como se fosse cocacola
Nada
Nada
Como uma gasosa

Me traga uma gasosa
Goza
Goza
Bem gostosa
Uma gasosa
Ideológica

Querida
Querida
Querida
Como é bonita
a tua ferida.
Essa cicatriz
te cai tão bem.

Conte
Conte
Conte
como foi
Neném
Alguém?
Ninguém?
Que vida
Querida

Que vida
Como é bonita
Como é
Você não vai
nem vem?


Paulo Leminski


Que é que é mais novo do que o Zen Budismo?
Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.

Clarice Lispector


Estes textos foram publicados em 1976 no jornal Ta-ta-ta, organizado por Jorge Mautner e uma equipe de colaboradores como Caetano Veloso, Waly Salomão, Gilberto Gil, Luís Melodia, Macalé, Mauro Rasi, Luís Carlos Maciel, Ezequiel Neves, Júlio Barroso entre outros. Segundo Leminski, ta-ta-ta em sânscrito significava "é isso aí". No zen budismo, quer dizer iluminação total, o mergulho no aqui-agora do real do real. Já no ancestral nhem-ga-tu indígena, ta-ta-ta significa simplesmente "fogo", dizia Júlio Bressane. Como todos esperavam que a profecia de Hegel se cumprisse, a de que o Novo viria das Américas, o jornal baseava-se na potencialidade-poética-total e na poesia como porta-estandarte do ser, segundo Heidegger, buscando nesta embolada de culturas, levantar a bandeira do samba e do maracatu, porque "o samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre uma esperança de não ser mais triste não".

Defendendo a queima de messianismos enrustidos e enrustidores, e da corrente estética da verossimilhança "socialista", Waly Salomão propõe o seu design/desenho estético:

"Vida. Poesia. Amor Amor Amor. Poesia q não fica morgada no papel poesia q não pára morgante no papel poesia q se inscreve no céu da tela de possibilidades impossíveis like a THUNDERFUCK... a visão da ciência EXPERIENCIAL da mente enquanto região sem limites - BIOCOMPUTER BIOCOMPUTER - as pontes PONTES expandidoras dos ESPAÇOS CUCAIS."

Era a era de Aquário.





28.6.04

Ode aos Calhordas

Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices ? nunca fazem nada.
Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.

Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
"O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais."

Os calhordas não morrem ? não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: "Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem."

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.


Rubem Braga


Era uma vez o Pedro Malasarte e foi ter a uma serra aonde havia uma casa de ladrões, e depois ele pediu socorro que era um triste barbeiro que andava a fazer barbas, e depois eles fugiro todos dele, e só ficou um resolvido a gardar o jantar, e depois o Pedro Malasarte dixe assim: -- "Ó meu senhor, trá-la barba tão grande... eu faço-la." O ladrão afastou-se e ele fez-la barba, e depois dixe que ele botasse a língua de fora, e cortou-la e comeu o jantar; depois o ladrão começou a fugir pelo monte abaixo e dizia: "explorai por mim!" porque não podia dizer "esperai!" E os outros cada vez fugio mais. Depois eles foro fazer o jantar para outra serra. O Pedro Malasarte subiu para cima de um pinheiro na serra e levou para lá uma cancela velha, e eles stavo por baixo a fazer o jantar; assim que estava o jantar feito, eles descobriro as panelas e ele mijou por cima delas, e depois dizem eles: "Este molhinho vem do céu, há de ser gostoso"; o Pedro Malasarte fez então a sua vida sobre as panelas, e eles dixero que a marmelada que era boa; depois ele botou-lo a cancela velha pela cabeça abaixo; e eles dixeram ansim: "Ora sempre isto agora foi demais; se vem aí o céu velho, logo vem o novo, vamos a fugir", depois olharo pra cima do pinheiro e dixero: "Ai que ele é o Pedro Malasarte, vamos fugir!" Depois dizem eles: "De que modo nos havemos de vingar?" Foro para a beira de um rio e fizero um homem de visgo[de cera]. Daí a poucos dias, ele passou por lá: "Ora para que estará este home aqui? Deixa-me dar-lhe um pontapé." Deu-le um pontapé e ficou lá com o pé; deu-le oitro pontapé e ficou com oitro pé; deu-le com os braços, ficou lá também; infim ficou lá todo. Depois ficou lá três dias; estava quase morto, passou lá o ladrão que fez o homem de visgo e atirou ao rio o homem de visgo e o Pedro. Adeus, ó Vitória, acabou-se a história!


-- conto popular português, da tradição oral, narrando as aventuras de Pedro Malasarte, registrado em Tradições Populares de Portugal, de J. Leite de Vasconcelos, 1882.

25.6.04

Uma breve história da literatura brasileira


Os primeiros escravos vieram ao Brasil para nos libertar do jugo de Camões. Atendendo ao apelo de Gonçalves Dias, que acabaria sucumbindo a bordo de um navio negreiro nas costas do Maranhão, o povo d'África aportou no Novo Mundo na época em que Anchieta ainda era coroinha. Apesar de virulentamente combatida pelo Grupo Mineiro numa publicação da revista Klaxon, esta tese não há como ser refutada pois a Biblioteca Nacional guarda a sete chaves inúmeros fragmentos de poemas de viagem que conseguiram ser resgatados após o naufrágio do navio em que viajava o bardo desaparecido. Relatos do padre Fernão Cardim dão conta de que Anchieta, ao presenciar o desembarque de tão formosos guerreiros africanos seminus em praias brasileiras, comentaria extasiado: "O Brasil não precisa de mutilados. Precisa de braços!" E, deixando de lado o índio que lhe segurava a bata, saiu correndo na direção dos escravos e rabiscando nas areias os seus sermões. Naquele mesmo dia mandou que se rezasse a primeira missa, esquecido de que esta já havia acontecido. Nessa época era popular entre as caboclas a Canção da Aranha, um canto peculiar que servia para animar a rapagem da mandioca e cujos versos diziam mais ou menos assim:

"Que ku, cama-cama
Que ku, catolé
Ó Zarizê
Casal que me coma
Casal que me deixe
O chinrimbê cum biá.
Cacholi-choli-cholê."

No entanto, as sinhás moças , mais influenciadas pelos cantos gregorianos e músicas sacras, preferiam entoar seus sentimentos em serões familiares nos velhos casarões. Eram os românticos já entrando na dança com seus pezinhos clássicos, mas as mãos ainda nas Sextilhas do Frei Antão. Foi quando surgiram os primeiros sinais do romance brasileiro. O moço loiro e a namoradeira, casal travesso e piegas, bem ao gosto popular, deram início aos primeiros autores, jamais imaginados antes em terras de Santo Inácio. Prevalecia nas letras pátrias a máxima de Santa Teresa d'Ávila: "Morrer de tanto não morrer." Para não agonizar, o barroco rococou-se: o amor pelas curvas de capelas imperfeitas. O sexo como um pássaro de rica plumagem. A mulher, antes oculta nas camarinhas, entra no mundo verbal. Da janela do convento, o Aleijadinho já pressentia o que viria a ser "o torvelinho de ímpeto convexo". Inês de Castro fugindo desabalada da oitava-rima. Como ninguém mais falasse no Sermão da Sexagésima, os vice-reis, por interesses mui excusos, incentivaram o Marquês do Lavradio para que fundasse o teatro brasileiro. Mas isto só aconteceria lá pelos idos de 1770, na Praça Tiradentes do que se conhece por Rio de Janeiro. João Caetano também nasceria na Praça Tiradentes, onde, por vaidade típica dos artistas, ganharia um teatro com o seu nome. Dizia-se na época que não se devia convidar para a mesma coxia João Caetano e Leonor de Mendonça. Martins Pena faleceria em Lisboa, no ano da graça de 1848, Cena IV, Ato III, deixando o palco livre para o psicologismo iaiá-garcia de Machado de Assis. Abriam-se as portas do Ateneu. O escritor romântico virou Capitu, mocinha pobre e ambiciosa. Herança que ainda perdura. Perdeu-se o condor e a literatura vestiu a mortalha de Pirajá. O jornalismo teria início com o periódico Bazar Volante, embora críticos tardios reivindiquem a posição para o Correio Mercantil. Começa a boemia de jornal e café. A rotina do escárnio. Sob os laranjais, Aluísio de Azevedo descobrir-se-ia gostando da filha da madame, a quem dedicava poemas socialistas notoriamente influenciados por Castro Alves: "A morte já começa/a martelar caixões na porta dos ateus!" Rejeitado, arranjou-se com Filomena Borges e foram morar num cortiço lá pros lados da Tijuca. O universo literário-cultural jamais voltaria a abolir o acaso sob o signo da navegação. Do jogo entre sombra e luz surge o espírito científico. A mocidade coimbrã daria lugar a uma geração poética, viçosa e galharda cheia de fervor, convicção e outros hipicilones. Mário de Andrade aprende o francês e nasce o modernismo, de parto atravessado. Darwin deixaria Deus de lado para abraçar o primeiro macaco. Desta troca de casais nasceriam por fim Édipo, o perverso polimorfo, a Dama das Camélias e Caetano Veloso.

24.6.04

Teste de Inteligência


1) Venho com meu carro a 120km/h por uma estrada de asfalto movediço. Se diminuir a velocidade, afundo; se acelerar, o carro afoga. O que fazer se daqui a 2 horas encontrarei uma rocha encravada no meio da estrada e não poderei chocar-me com ela, nem tampouco desviar-me pois em torno só há abismos? Considere que daqui a 3 horas tenho um compromisso inadiável ao qual não devo faltar sob nenhuma circunstância.

2) A cada tosse um indivíduo elimina 150 perdigotos de 7 diferentes níveis de periculosidade. O carro do metrô em que me encontro tem capacidade para 50 passageiros sentados. Ele está lotado e todos tossem, menos eu. Qual a probabilidade estatística de eu contrair uma doença infecto-contagiosa se ficar de pé?

3) Minha calculadora eletrônica não registra o número 13. Como poderei, sem este recurso, achar a raiz quadrada de 169?

4) A minha vizinha completará 67 anos amanhã. No entanto, ela só achou para comprar 66 velinhas. Que disposição geométrica deverá usar na hora de enfeitar o bolo para que ninguém perceba que está faltando 1 velinha? Considere que ela tem horror a velinhas numeradas.

5) Faltam 2 doses para que a garrafa de uísque que está sobre a mesa redonda da sala fique totalmente vazia. Em volta da mesa há 12 pessoas, mas 4 não bebem. Como beber 1 dose sem que ninguém perceba a diferença no nível da garrafa e todos se dêem por satisfeitos ao beber o resto?

6) Na casa há 3 crianças e 2 pães. Como multiplicá-los sem reparti-los?

7) Em um pequeno cybercafé fechado há 10 terminais de computador disponíveis aos clientes. O gerente vai abrir a loja daqui a 15 minutos mas a fila do lado de fora já tem 12 clientes, sendo que 4 são blogueiros. O que o gerente deve fazer para atender a todos os seus clientes, partindo do pressuposto de que ele não sabe o que é um blog?

23.6.04

Sylvia Plath



Aqui estou, um monte de recordações do passado e sonhos futuros reunidos num monte de carne razoavelmente atraente. Lembro-me do que esta carne já passou, sonho com o que passará. Registro aqui a ação dos nervos óticos, das papilas gustativas, da percepção sensorial. E penso: sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional -- um conjunto de valores. Esta solidão diminuirá e desvanecerá, sem dúvida, quando amanhã eu mergulhar novamente nos cursos, na necessidade de estudar para os exames. Mas agora este falso objetivo foi suspenso e giro num vácuo temporário. Em casa, descansei e me diverti, aqui onde trabalho a rotina foi momentaneamente suspensa e me perdi. Não há outro ser vivo na terra neste momento além de mim. Poderia percorrer os corredores, por todos os lados os quartos desertos escancarariam as portas para zombarem de mim. Meu Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das "festas" alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, pára chocada com as palavras pronunciadas -- são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo -- mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante...


(Sylvia Plath, em seus Diários, 1950.)

20.6.04



Das coisas que os livros contam


Que Matusalém morreu aos 979 anos.
Que Deus é esferoidal e existe sim, nós é que não existimos.
Que o mundo é minha representação. A mente, um teatro.
Que Pitágoras dialogava com um cão.
Que nunca entramos duas vezes no mesmo rio e a lua é da cor da areia.
Que a duração da vida é como a roda da carruagem, toca a terra num único ponto.
E a alma, depois da morte do corpo, esquece o próprio nome.

Feche os olhos e veja um bando de pássaros.
Eu e você jamais saberemos quantos pássaros você viu.
Por que os melhores escritores são do tempo em que não havia literatura infantil?


(imagem: Michal Macku)

18.6.04

Jorge Luis Borges


O Punhal



Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, nos fins do século passado; Luis Melián Lanifur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; em algum momento, Evaristo Carriego teve-o na mão.

Quem o vê tem de brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito o procuravam; a mão se apressa a apertar a empunhadura que a espera; a lâmina obediente e poderosa encaixa com precisão na bainha.

Outra coisa quer o punhal.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno o punhal que ontem à noite matou um homem em Tacuarembó e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da escrivaninha, entre rascunhos e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o empunha, porque o metal se anima, o metal que pressente em cada contato o homicida para quem o criaram os homens.

Às vezes me dá pena. Tanta dureza, tanta fé, tão impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.



16.6.04



Último adeus III

Tenho escrito longamente
sobre esse assunto
Aizita traz o chá
Bebericamos na varanda
Nenhum descontrole na
tarde
Intervalo para as folhas
caindo da árvore em
frente
que nos entra pela janela
Não precisamos nos dizer
nada
O parapeito vaza outra
indicação
seca do presente
Ouvimos:
outra indicação seca do
presente
Aizita vai ver na folhinha
pendurada no prego da
cozinha
Acaba o chá
Acaba a colher de chá
Longamente
Eu também, bem, tenho escrito


Ana Cristina Cesar