25.7.04

Marilyn?
 


Dizem os arquivos do FBI que Marilyn Monroe, antes do estrelato, fez um filme erótico por volta de 1948-49, supostamente antes de filmar com Groucho Marx. Um filme em 16mm, P&B, com 7 minutos de duração, e que foi descoberto por um fotógrafo sueco em 1980.  A notícia foi publicada em inúmeras revistas internacionais nos anos 90. Bom, essa dona aí não parece MM, mas também há que se pensar que ela de fato fez muitas plásticas corretivas, condição sine qua non para entrar no circuito hollywoodiano. Mais informações estão neste site espanhol, que pelo visto está é querendo vender o seu peixe, quer dizer, a fita. Sei não...

 

23.7.04



No começo eu até gostei da pinta dele, daquela cara de quem abusava do açúcar. Olhos de frade. Ele me pediu que eu mudasse de nome. Eu mudei. Dizia que eu tinha nome de boneca velha e que só de pensar ficava broxa. Durante seis anos fui Deborah. Ele nunca broxou com Deborah. Depois passou a implicar com a minha profissão. Não se conformava por eu saber exatamente qual era o tamanho do nariz de Cleópatra. Eu parei de trabalhar e mudamos de cidade. Eu queria amá-lo e sofrer ao lado dele. Principalmente sofrer, porque no amor sigo a cartilha de são Paulo: "Eu completo na minha carne o que faltou à Paixão do Cristo." Vivemos juntos por algum tempo. Nosso lar, uma câmara de eco.  Eu gostava de ver navios, os dias foram passando e me acostumei a não olhar mais pra mim.  Mas todo céu tem um inferno logo ali e uma noite o eclipse de nós dois acabou.  O saco de pipoca estourou no cinema. Hoje sou Emília de novo. Cirurgiã plástica. Rio de Janeiro. Consultas às segundas, quartas e sextas, no mesmo endereço e telefone. Obrigada. 

 

22.7.04

William Carlos Williams




O carrinho de mão vermelho



tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

reluzente de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

 


 

21.7.04

O gordo-chavão
 
 
precisão cirúrgica
vegetação exuberante
marca indelével
desabalada corrida
ironias do destino
grito lancinante
banho de sangue
festim macabro
membro túrgido
idéia inusitada
dorme como um anjo
pranto convulsivo
separar o joio do trigo
 
Estes são apenas alguns dos mais de 800 clichês que Sérgio Barcellos Ximenes, do excelente Blog do Romance, teve a paciência de catalogar dos dois romances de Jô Soares: O Xangô de Baker Street e O homem que matou Getúlio Vargas.  Um número que impressiona, principalmente quando se sabe que não representa o total de clichês utilizados pelo autor, apenas um apanhado.  Uma pequena aula de técnica literária. Vale conferir.

 

19.7.04

Os armazéns, as docas, o arsenal da marinha e a inspetoria da alfândega. Brazil: estava escrito acima, encimado por um telhado que caía em declive, 1892, a Companhia Docas de Santos estabelecida no Valongo, 14 km de cais acostável hoje. A armadora britânica de Lamport & Holt . Dezesseis navios fundeados na barra, 39 sendo esperados nas próximas 48 horas, 28 atracados no porto público, três nos terminais, o som alto de uma música techno, os cachorros pouco ferozes e muito famintos, as sobrancelhas erguidas, as digitais cheias de tinta aplainadas nos papéis. Ele encostou em um container e deixou que a brisa quente da baía entrasse & naufragasse pelos seus cabelos. Passou a mão no pescoço e acendeu um cigarro. O carregamento de banana e de café, as moscas e os cargueiros do píer 45. Levantei a cabeça: os adeuses aos adeuses pequenos, que acontecem nas noites e nos cargueiros, entre as peças de prata das pulseiras, entre diafragmas que se abrem e fecham em segundos, em papéis propositadamente envelhecidos mais tarde no laboratório. Perfumes de gardênia, boleros de satã, um poema de Pound misturado às ondulações marinhas, e os olhos dele percorreram o mapeamento dos insetos que aqui habitam, verificando toda a sua exatidão.
 
-------------------------
 
Debrucei na sacada do apartamento e olhei minúsculos pontos ao longe, embarcações que carregam mercadorias & almas errantes & livros salubres & teares & tapeçarias. Essas embarcações que andam pelos mares e que diferem das que eu tão bem conheço, que navegam em rios lentos, densos e turvos. Como o Mekong debaixo do sol, as moscas sobre a balsa, os olhos baixos, os romances franceses. Olhei a rua lá embaixo, minúsculos pontos que se moviam, grãos de trigo rolando sobre a rua, as sacas de trigo roídas por ratazanas devassas, nos armazéns do porto. O que mesmo, eu faço aqui? Eu fotografo, é o que eu sei fazer. E assobio uma ária de Verdi. Santos, praia do Gonzaga, primeiro semestre de 2004, o apartamento no escuro, a sala com piso de lajota, as fotos do Mekong na parede, o poema de Elliot: ruivo, ruivo rio.
 
 
O Caderno Lilás de Karim Blair 
 
 

18.7.04


 
 
Ao pé da Bíblia

 
Recentemente, uma célebre animadora de rádio dos EUA afirmou que a homossexualidade era uma perversão:  É o que diz a Bíblia no livro do Levítico, capítulo 18, versículo 22: " Tu não  te deitarás com um homem como te deitarias com uma  mulher: seria uma abominação." A Bíblia refere-se assim à questão. Ponto final, afirmou ela.

Alguns  dias mais tarde, um ouvinte dirigiu-lhe uma carta aberta que dizia:  "Obrigado por colocar tanto fervor na educação das pessoas pela Lei de Deus. Aprendo muito ouvindo o  seu programa e procuro que as pessoas à minha volta a escutem também. No entanto, eu preciso de alguns conselhos quanto a outras leis bíblicas. Por exemplo, eu  gostaria de vender a minha filha como escrava, tal como nos é indicado no Livro do Êxodo, capítulo 21, versículo 7. Na sua opinião, qual seria o melhor preço?  O  Levítico também, no capítulo 25, versículo 44, ensina que posso possuir escravos, homens ou mulheres, na condição de que eles sejam comprados em nações   vizinhas. Um amigo meu afirma que  isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos  canadenses. Poderia a senhora esclarecer-me sobre este ponto? Por  que é que eu não posso possuir escravos canadenses?  Tenho um vizinho que trabalha aos sábados. O Livro do Êxodo, capítulo 25, versículo 2, diz claramente que ele deve  ser condenado à morte. Sou obrigado a matá-lo eu mesmo?  Poderia a senhora tranqüilizar-me de alguma forma neste tipo de situação constrangedora? Outra  coisa: o Levítico, capítulo 21, versículo 18, diz que não podemos aproximar-nos do altar de Deus se tivermos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual  teria de ser de 100%?  Seria possível rever esta  exigência no sentido de baixarem o limite?  Um último conselho. O meu tio não respeita o que diz o  Levítico, capítulo 19, versículo 19, plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo campo, da mesma forma  que a sua esposa usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e poliéster. Além disso, ele passa os seus dias a  maldizer e a blasfemar. Será necessário ir até o fim do processo embaraçoso que é reunir todos os habitantes da  aldeia para lapidar o meu tio e a minha tia, como  prescrito no Levítico, capítulo 24, versículos 10 a 16? Não se  poderia antes queimá-los vivos após uma simples reunião familiar privada, como se faz com aqueles que dormem com parentes próximos, tal como aparece indicado no livro  sagrado, capítulo 20, versículo 14? Confio  plenamente na sua ajuda."
 
-- (por e-mail)
 
 

16.7.04

Sombra
 
 
Vós que me ledes por certo estais entre os vivos, mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Porque de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão, antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estilete de ferro. 

O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na terra. Pois muitos prodígios e sinais se haviam produzido e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros não era desconhecido que os céus apresentavam um aspecto de desgraça e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que então sobreviera a alteração daquele ano de 794 em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico do firmamento, se muito não me engano, manifestava-se, não somente no orbe físico da terra, mas nas almas, imaginações e meditações da humanidade.
   
Éramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas do rubro vinho de Quios, entre as paredes de nobre salão, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos achávamos a única entrada que havia era uma alta porta de bronze, de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da visão da lua, das lúgubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o pressentimento e a lembrança do Flagelo não podiam ser assim excluídos. Havia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não me é possível dar precisa conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade e, sobretudo, aquele terrível estado de existência, que as pessoas nervosas experimentam, quando os sentidos estão vivos e despertos e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Um peso mortal nos acabrunhava. Oprimiam nossos ombros os móveis da sala, os copos em que bebíamos. E todas as coisas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim permaneciam, ardendo, pálidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava, sobre a redonda mesa de ébano a que estávamos sentados, cada um de nós, ali reunidos, contemplava o palor de seu próprio rosto e o brilho inquieto nos abatidos de seus companheiros. Não obstante, ríamos e estávamos alegres, a nosso modo, que era histérico. E cantávamos as canções de Anacreonte, que são doidas, e bebíamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido ao comprido, amortalhado, era como o gênio e o demônio da cena. Mas ah! Não tomava ele parte em nossa alegria, salvo seu rosto, convulsionado pela doença, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que têm de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão e, mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonorosa as canções do filho de Telos.  Mas, pouco a pouco, minhas canções cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvaecendo-se. E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das canções , se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no céu e se assemelha ao vulto de um homem: mas não era a sombra de um homem, nem a sombra de um Deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E tremendo, um instante, entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente, sobre a superfície da porta de ébano.  Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra nem de homem, nem de Deus, de deus da Grécia, de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável . Os pés do jovem Zoilo amortalhado encontravam-se, se bem me lembro, na porta na qual a sombra repousava.  Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra, no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os olhos e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e seu lugar de nascimento. E a sombra respondeu: 
   
"Eu sou a sombra e minha morada fica perto das Catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais que orlam o sujo canal de Caronte."

E então todos os sete erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra não era o de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando nas suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos, que a morte ceifara. 
 


Edgar Allan Poe
 
 


15.7.04

Fim do mundo
 
 
Eis em que deram as coisas neste mundo
As vacas sentadas nos postes telegráficos jogando xadrez
A cacatua debaixo das saias da dançarina espanhola
Canta tão triste quanto uma corneta de quartel e os canhões
                                                                 [lamentam o dia inteiro
Isso é a paisagem de lavanda de que falava Herr Mayer
quando perdeu o olho
Somente o corpo de bombeiros pode expulsar o pesadelo da
                                                                                             [sala de
visitas mas todas as mangueiras estão quebradas
Ah sim Sonya todos consideram a boneca de celulóide uma
                                                                               [criança-trocada
e gritam: God save the king
O Clube Monista em peso se reuniu no barco a vapor
                                                                                       [Meyerbeer
Mas só o piloto tem alguma idéia do que seja um dó maior
Arranco o atlas anatômico de meu tornozelo
começa um estudo sério
Você viu os peixes que têm estado de pé defronte da
ópera de gala
estes últimos dois dias e duas noites...?
Ah ah vós grandes diabos -- ah ah vós apicultores e
                                                                                  [comandantes
Como um bau au au com um bô ô ô quem hoje em dia não
                                                                                                 [sabe
o que nosso Pai Homero escreveu
Guardo a guerra e a paz em minha toga mas tomarei um
                                                                     [milk-shake de cereja
Hoje ninguém sabe se foi amanhã
Batem o compasso com uma tampa de esquife
Se ao menos alguém tivesse a coragem de arrancar as penas
                                                                                           [do rabo
do bonde é uma grande época
Os professores de zoologia reúnem-se nos prados
o grande mágico arruma os tomates na testa
Mais uma vez oh tu castelo mal-assombrado com tuas terras
O cabrito montês assobia o garanhão dá um pulo
(E é assim que é o mundo eis tudo o que vem depois de nós)
 
 
Richard Huelsenbeck, no que é considerado o primeiro poema dadaísta, 1916.
 
 
 

12.7.04



DE COMO ME TORNEI ENCANTADOR DELICIOSO
E SIMPÁTICO



Durmo muito tarde. Suicido-me 65%. Minha vida é muito barata, para mim só é 30% vida. Minha vida contém 30% de vida. Faltam-lhe braços cordas e alguns botões. 5% são consagrados ao estado de estupor semilúcido acompanhado de arquejos anêmicos. Esses 5% chamam-se dadá. Assim como vocês estão vendo a vida é barata. A morte é um pouco mais cara. Mas a vida é encantadora e a morte é encantadora também.

Alguns dias atrás assisti a uma reunião de imbecis. Havia muita gente. Todo mundo era encantador. Tristan Tzara, indivíduo pequeno, idiota e insignificante, pronunciou uma conferência sobre a arte de tornar-se encantador. E incidentalmente ele era encantador. E espirituoso. Não é delicioso? Incidentalmente, todo mundo é delicioso. 9 abaixo de zero. Não é encantador? Não, não é encantador. Deus não passa. Não está nem no catálogo de telefone. Mas seja como for ele é encantador.

Embaixadores, poetas, condes, príncipes, músicos, jornalistas, atores, escritores, diplomatas, diretores, costureiros, socialistas, princesas e baronesas -- todos encantadores. Todos vocês são encantadores, extremamente sutis, espirituosos e deliciosos.

Tristan Tzara diz a vocês: ele bem que gostaria de fazer qualquer outra coisa, mas prefere continuar sendo um idiota, um palhaço e um falsificador.

Sejam sinceros um momento: o que eu acabo de dizer é encantador ou idiota?

Há pessoas (jornalistas, advogados, diletantes, filósofos) que até mesmo consideram as outras formas -- negócios, casamentos, visitas, guerras, diversos congressos, sociedades anônimas, política, acidentes, salões de dança, crises econômicas, crises emocionais -- como variações de dadá. Como não sou imperialista, não participo da opinião deles -- prefiro acreditar que dadá é apenas uma divindade de segunda ordem, que simplesmente tem de ser posta ao lado de outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.

A simplicidade é simples ou é dadá?

Considero-me bastante encantador


Tristan Tzara, anos 10.


9.7.04

Na lápide branca de Teu túmulo
Florescem as flores brancas da vida.
Tantos anos já sem Ti.
E que anos?

Na lápide branca de Teu túmulo
Há tantos anos fechada,
Surgiu uma espécie de sombra,
A de tua morte incompreensível.

Na lápide branca de Teu túmulo
Ó minha Mãe, Amor que se foi,
Em sinal de ternura filial
Esta simples oração: Repousa eternamente em paz.



Karol Wojtyla, em poema que fez aos 19 anos, dedicado à mãe, muito antes de se transformar em João Paulo II. O sr. Karol Wojtyla em sua juventude foi poeta, ator e queria ser filólogo. Durante a Segunda Guerra Mundial, estudava e orava com afinco, enquanto a Polônia, os poloneses e a cultura polonesa eram dizimados pelos nazistas.

8.7.04

lógica kármica

para que vc exista, incontáveis pessoas existiram antes de vc.
seus pais, avós, bisavós, pentavós.
todos diretamente responsáveis por sua vida.
essas são suas vidas passadas,
num processo onde não existe a reencarnação,
mas a perpetuação.

tudo que seus ascendentes fizeram antes de vc,
cada vida prejudicada em nome da sobrevivência dos seus genes, tudo isso, é o seu karma.
.........................


já imaginava
meu tiro acertou a água
não me surpreendo, era o esperado

mas, das propriedades da esperança,
talvez a mais cruel (e mais bonita)
seja a capacidade de nos mover
mesmo existindo em doses ínfimas
.........................


- olha lá
- onde?
- ali, cacete, olha!
- ali onde, lá longe?
- é, lá mesmo. não é um pedaço de azul?
- azul? ficou maluco? aquilo ali, no máximo, é um cinza menos carregado, um quase-branco.
- olha que é azul...
- vc quer ver azul, mas não é azul. no máximo, é um pedaço já chovido. de qq forma, vc ainda tem um horizonte inteiro pra secar.
.........................


hoje me peguei imaginando
como seria se eu existisse como vcs me criam.
quem eu seria só com este ângulo escrito?
quem que conhece?
.........................


contra o escuro, qualquer faísca serve?
não?


Combustão

7.7.04

"Há qualquer coisa que não sei
e que pelo visto deveria saber.

Eu não sei o que é isso que não sei
e que pelo visto deveria saber.

E me sinto como um idiota
quando dou mostras de não saber o que é isso
de não saber o que é que eu não sei.

Finjo então saber o que não sei.
E assim fico com os nervos rebentados
já que não sei o que devo fingir que estou sabendo.

Finjo então que de tudo estou sabendo.
Acho que sabes o que eu pelo visto deveria saber
e contudo não me podes dizer do que se trata
porque não sabes que eu não sei do que se trata."

Você sabe quem é o autor?, eu não sei.







4.7.04




Não é estranho
que um poeta político
dê as costas a tudo e se fixe
em três ou quatro frutas que apodrecem
num prato
em cima da geladeira
numa cozinha da rua Duvivier?


Ferreira Gullar


3.7.04

Sophia de Mello Breyner




Devastada era eu própria como cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega


Sophia de Mello Breyner, em O Minotauro.

2.7.04



As crises de ansiedade e depressão que começaram quando minha mãe deixou Nova York continuaram durante e depois da temporada de Um bonde chamado desejo. Seriam necessários muitos anos para que eu deixasse de aceitar o que me haviam ensinado na infância: que eu era um inútil. É óbvio que naquela época eu não tinha a mínima idéia de que me sentia assim. Alguma coisa estava me corroendo e eu não sabia o que era, mas precisava esconder as emoções e parecer forte. Foi assim na maior parte da minha vida; sempre tive de fingir que era forte, quando não era.


Marlon Brando, em sua autobiografia "Canções que minha mãe me ensinou", 1994.

1.7.04

I
Cada inseto
é um neto
de outro inseto


II
e assim num voo reto
de uma lei estabelecida


III
de driblar a morte com a vida
cada neto
de inseto
fica mais forte
tomando inseticida


Jorge Mautner


Gasosa ideológica

Me traga uma gasosa
Goza
Goza
Uma gasosa
Rosa
Rosa
Cor de rosa
Como uma garota gostosa

Uma gasosa
Linda
linda
Bem gelada
Como se fosse cocacola
Nada
Nada
Como uma gasosa

Me traga uma gasosa
Goza
Goza
Bem gostosa
Uma gasosa
Ideológica

Querida
Querida
Querida
Como é bonita
a tua ferida.
Essa cicatriz
te cai tão bem.

Conte
Conte
Conte
como foi
Neném
Alguém?
Ninguém?
Que vida
Querida

Que vida
Como é bonita
Como é
Você não vai
nem vem?


Paulo Leminski


Que é que é mais novo do que o Zen Budismo?
Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.

Clarice Lispector


Estes textos foram publicados em 1976 no jornal Ta-ta-ta, organizado por Jorge Mautner e uma equipe de colaboradores como Caetano Veloso, Waly Salomão, Gilberto Gil, Luís Melodia, Macalé, Mauro Rasi, Luís Carlos Maciel, Ezequiel Neves, Júlio Barroso entre outros. Segundo Leminski, ta-ta-ta em sânscrito significava "é isso aí". No zen budismo, quer dizer iluminação total, o mergulho no aqui-agora do real do real. Já no ancestral nhem-ga-tu indígena, ta-ta-ta significa simplesmente "fogo", dizia Júlio Bressane. Como todos esperavam que a profecia de Hegel se cumprisse, a de que o Novo viria das Américas, o jornal baseava-se na potencialidade-poética-total e na poesia como porta-estandarte do ser, segundo Heidegger, buscando nesta embolada de culturas, levantar a bandeira do samba e do maracatu, porque "o samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre uma esperança de não ser mais triste não".

Defendendo a queima de messianismos enrustidos e enrustidores, e da corrente estética da verossimilhança "socialista", Waly Salomão propõe o seu design/desenho estético:

"Vida. Poesia. Amor Amor Amor. Poesia q não fica morgada no papel poesia q não pára morgante no papel poesia q se inscreve no céu da tela de possibilidades impossíveis like a THUNDERFUCK... a visão da ciência EXPERIENCIAL da mente enquanto região sem limites - BIOCOMPUTER BIOCOMPUTER - as pontes PONTES expandidoras dos ESPAÇOS CUCAIS."

Era a era de Aquário.





28.6.04

Ode aos Calhordas

Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices ? nunca fazem nada.
Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.

Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
"O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais."

Os calhordas não morrem ? não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: "Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem."

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.


Rubem Braga


Era uma vez o Pedro Malasarte e foi ter a uma serra aonde havia uma casa de ladrões, e depois ele pediu socorro que era um triste barbeiro que andava a fazer barbas, e depois eles fugiro todos dele, e só ficou um resolvido a gardar o jantar, e depois o Pedro Malasarte dixe assim: -- "Ó meu senhor, trá-la barba tão grande... eu faço-la." O ladrão afastou-se e ele fez-la barba, e depois dixe que ele botasse a língua de fora, e cortou-la e comeu o jantar; depois o ladrão começou a fugir pelo monte abaixo e dizia: "explorai por mim!" porque não podia dizer "esperai!" E os outros cada vez fugio mais. Depois eles foro fazer o jantar para outra serra. O Pedro Malasarte subiu para cima de um pinheiro na serra e levou para lá uma cancela velha, e eles stavo por baixo a fazer o jantar; assim que estava o jantar feito, eles descobriro as panelas e ele mijou por cima delas, e depois dizem eles: "Este molhinho vem do céu, há de ser gostoso"; o Pedro Malasarte fez então a sua vida sobre as panelas, e eles dixero que a marmelada que era boa; depois ele botou-lo a cancela velha pela cabeça abaixo; e eles dixeram ansim: "Ora sempre isto agora foi demais; se vem aí o céu velho, logo vem o novo, vamos a fugir", depois olharo pra cima do pinheiro e dixero: "Ai que ele é o Pedro Malasarte, vamos fugir!" Depois dizem eles: "De que modo nos havemos de vingar?" Foro para a beira de um rio e fizero um homem de visgo[de cera]. Daí a poucos dias, ele passou por lá: "Ora para que estará este home aqui? Deixa-me dar-lhe um pontapé." Deu-le um pontapé e ficou lá com o pé; deu-le oitro pontapé e ficou com oitro pé; deu-le com os braços, ficou lá também; infim ficou lá todo. Depois ficou lá três dias; estava quase morto, passou lá o ladrão que fez o homem de visgo e atirou ao rio o homem de visgo e o Pedro. Adeus, ó Vitória, acabou-se a história!


-- conto popular português, da tradição oral, narrando as aventuras de Pedro Malasarte, registrado em Tradições Populares de Portugal, de J. Leite de Vasconcelos, 1882.

25.6.04

Uma breve história da literatura brasileira


Os primeiros escravos vieram ao Brasil para nos libertar do jugo de Camões. Atendendo ao apelo de Gonçalves Dias, que acabaria sucumbindo a bordo de um navio negreiro nas costas do Maranhão, o povo d'África aportou no Novo Mundo na época em que Anchieta ainda era coroinha. Apesar de virulentamente combatida pelo Grupo Mineiro numa publicação da revista Klaxon, esta tese não há como ser refutada pois a Biblioteca Nacional guarda a sete chaves inúmeros fragmentos de poemas de viagem que conseguiram ser resgatados após o naufrágio do navio em que viajava o bardo desaparecido. Relatos do padre Fernão Cardim dão conta de que Anchieta, ao presenciar o desembarque de tão formosos guerreiros africanos seminus em praias brasileiras, comentaria extasiado: "O Brasil não precisa de mutilados. Precisa de braços!" E, deixando de lado o índio que lhe segurava a bata, saiu correndo na direção dos escravos e rabiscando nas areias os seus sermões. Naquele mesmo dia mandou que se rezasse a primeira missa, esquecido de que esta já havia acontecido. Nessa época era popular entre as caboclas a Canção da Aranha, um canto peculiar que servia para animar a rapagem da mandioca e cujos versos diziam mais ou menos assim:

"Que ku, cama-cama
Que ku, catolé
Ó Zarizê
Casal que me coma
Casal que me deixe
O chinrimbê cum biá.
Cacholi-choli-cholê."

No entanto, as sinhás moças , mais influenciadas pelos cantos gregorianos e músicas sacras, preferiam entoar seus sentimentos em serões familiares nos velhos casarões. Eram os românticos já entrando na dança com seus pezinhos clássicos, mas as mãos ainda nas Sextilhas do Frei Antão. Foi quando surgiram os primeiros sinais do romance brasileiro. O moço loiro e a namoradeira, casal travesso e piegas, bem ao gosto popular, deram início aos primeiros autores, jamais imaginados antes em terras de Santo Inácio. Prevalecia nas letras pátrias a máxima de Santa Teresa d'Ávila: "Morrer de tanto não morrer." Para não agonizar, o barroco rococou-se: o amor pelas curvas de capelas imperfeitas. O sexo como um pássaro de rica plumagem. A mulher, antes oculta nas camarinhas, entra no mundo verbal. Da janela do convento, o Aleijadinho já pressentia o que viria a ser "o torvelinho de ímpeto convexo". Inês de Castro fugindo desabalada da oitava-rima. Como ninguém mais falasse no Sermão da Sexagésima, os vice-reis, por interesses mui excusos, incentivaram o Marquês do Lavradio para que fundasse o teatro brasileiro. Mas isto só aconteceria lá pelos idos de 1770, na Praça Tiradentes do que se conhece por Rio de Janeiro. João Caetano também nasceria na Praça Tiradentes, onde, por vaidade típica dos artistas, ganharia um teatro com o seu nome. Dizia-se na época que não se devia convidar para a mesma coxia João Caetano e Leonor de Mendonça. Martins Pena faleceria em Lisboa, no ano da graça de 1848, Cena IV, Ato III, deixando o palco livre para o psicologismo iaiá-garcia de Machado de Assis. Abriam-se as portas do Ateneu. O escritor romântico virou Capitu, mocinha pobre e ambiciosa. Herança que ainda perdura. Perdeu-se o condor e a literatura vestiu a mortalha de Pirajá. O jornalismo teria início com o periódico Bazar Volante, embora críticos tardios reivindiquem a posição para o Correio Mercantil. Começa a boemia de jornal e café. A rotina do escárnio. Sob os laranjais, Aluísio de Azevedo descobrir-se-ia gostando da filha da madame, a quem dedicava poemas socialistas notoriamente influenciados por Castro Alves: "A morte já começa/a martelar caixões na porta dos ateus!" Rejeitado, arranjou-se com Filomena Borges e foram morar num cortiço lá pros lados da Tijuca. O universo literário-cultural jamais voltaria a abolir o acaso sob o signo da navegação. Do jogo entre sombra e luz surge o espírito científico. A mocidade coimbrã daria lugar a uma geração poética, viçosa e galharda cheia de fervor, convicção e outros hipicilones. Mário de Andrade aprende o francês e nasce o modernismo, de parto atravessado. Darwin deixaria Deus de lado para abraçar o primeiro macaco. Desta troca de casais nasceriam por fim Édipo, o perverso polimorfo, a Dama das Camélias e Caetano Veloso.

24.6.04

Teste de Inteligência


1) Venho com meu carro a 120km/h por uma estrada de asfalto movediço. Se diminuir a velocidade, afundo; se acelerar, o carro afoga. O que fazer se daqui a 2 horas encontrarei uma rocha encravada no meio da estrada e não poderei chocar-me com ela, nem tampouco desviar-me pois em torno só há abismos? Considere que daqui a 3 horas tenho um compromisso inadiável ao qual não devo faltar sob nenhuma circunstância.

2) A cada tosse um indivíduo elimina 150 perdigotos de 7 diferentes níveis de periculosidade. O carro do metrô em que me encontro tem capacidade para 50 passageiros sentados. Ele está lotado e todos tossem, menos eu. Qual a probabilidade estatística de eu contrair uma doença infecto-contagiosa se ficar de pé?

3) Minha calculadora eletrônica não registra o número 13. Como poderei, sem este recurso, achar a raiz quadrada de 169?

4) A minha vizinha completará 67 anos amanhã. No entanto, ela só achou para comprar 66 velinhas. Que disposição geométrica deverá usar na hora de enfeitar o bolo para que ninguém perceba que está faltando 1 velinha? Considere que ela tem horror a velinhas numeradas.

5) Faltam 2 doses para que a garrafa de uísque que está sobre a mesa redonda da sala fique totalmente vazia. Em volta da mesa há 12 pessoas, mas 4 não bebem. Como beber 1 dose sem que ninguém perceba a diferença no nível da garrafa e todos se dêem por satisfeitos ao beber o resto?

6) Na casa há 3 crianças e 2 pães. Como multiplicá-los sem reparti-los?

7) Em um pequeno cybercafé fechado há 10 terminais de computador disponíveis aos clientes. O gerente vai abrir a loja daqui a 15 minutos mas a fila do lado de fora já tem 12 clientes, sendo que 4 são blogueiros. O que o gerente deve fazer para atender a todos os seus clientes, partindo do pressuposto de que ele não sabe o que é um blog?

23.6.04

Sylvia Plath



Aqui estou, um monte de recordações do passado e sonhos futuros reunidos num monte de carne razoavelmente atraente. Lembro-me do que esta carne já passou, sonho com o que passará. Registro aqui a ação dos nervos óticos, das papilas gustativas, da percepção sensorial. E penso: sou apenas uma gota a mais no imenso mar de matéria, definida, com a capacidade de perceber minha existência. Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei, e no entanto a própria satisfação de encontrá-los será manchada pelo fato de que terei atingido o ápice em matéria de vida superficial, bidimensional -- um conjunto de valores. Esta solidão diminuirá e desvanecerá, sem dúvida, quando amanhã eu mergulhar novamente nos cursos, na necessidade de estudar para os exames. Mas agora este falso objetivo foi suspenso e giro num vácuo temporário. Em casa, descansei e me diverti, aqui onde trabalho a rotina foi momentaneamente suspensa e me perdi. Não há outro ser vivo na terra neste momento além de mim. Poderia percorrer os corredores, por todos os lados os quartos desertos escancarariam as portas para zombarem de mim. Meu Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das "festas" alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, pára chocada com as palavras pronunciadas -- são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo -- mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante...


(Sylvia Plath, em seus Diários, 1950.)

20.6.04



Das coisas que os livros contam


Que Matusalém morreu aos 979 anos.
Que Deus é esferoidal e existe sim, nós é que não existimos.
Que o mundo é minha representação. A mente, um teatro.
Que Pitágoras dialogava com um cão.
Que nunca entramos duas vezes no mesmo rio e a lua é da cor da areia.
Que a duração da vida é como a roda da carruagem, toca a terra num único ponto.
E a alma, depois da morte do corpo, esquece o próprio nome.

Feche os olhos e veja um bando de pássaros.
Eu e você jamais saberemos quantos pássaros você viu.
Por que os melhores escritores são do tempo em que não havia literatura infantil?


(imagem: Michal Macku)

18.6.04

Jorge Luis Borges


O Punhal



Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, nos fins do século passado; Luis Melián Lanifur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; em algum momento, Evaristo Carriego teve-o na mão.

Quem o vê tem de brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito o procuravam; a mão se apressa a apertar a empunhadura que a espera; a lâmina obediente e poderosa encaixa com precisão na bainha.

Outra coisa quer o punhal.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno o punhal que ontem à noite matou um homem em Tacuarembó e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da escrivaninha, entre rascunhos e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o empunha, porque o metal se anima, o metal que pressente em cada contato o homicida para quem o criaram os homens.

Às vezes me dá pena. Tanta dureza, tanta fé, tão impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.



16.6.04



Último adeus III

Tenho escrito longamente
sobre esse assunto
Aizita traz o chá
Bebericamos na varanda
Nenhum descontrole na
tarde
Intervalo para as folhas
caindo da árvore em
frente
que nos entra pela janela
Não precisamos nos dizer
nada
O parapeito vaza outra
indicação
seca do presente
Ouvimos:
outra indicação seca do
presente
Aizita vai ver na folhinha
pendurada no prego da
cozinha
Acaba o chá
Acaba a colher de chá
Longamente
Eu também, bem, tenho escrito


Ana Cristina Cesar

14.6.04

Aquele que fosse capaz de atravessar o espelho do seu próprio tempo para habitar o meu tempo não veria nada demais. Perderia a viagem. O meu mundo, que lhe é estranho, mostraria uma mulher à mesa, tarde da noite, um braço jogado sobre papéis movimentando-se da esquerda para a direita. "Ela está escrevendo, diz aqui", pensaria o alienígena com os seus catálogos. Eu mesma não perceberia a sua presença de tão recolhida que estaria em minhas próprias ilusões. Além disso, o estranho -- o Outro que veio do seu mundo para me conhecer -- seria uma hipótese nebular, sem cheiro, sem cor, sem voz. Porque a voz que eu procurava estava ali no papel. Nas linhas em branco que eu precisava preencher para me julgar criativa. Mas isso o estranho não sabia. Ele só tinha que observar e de sua observação extrair uma fonte de conhecimentos inúteis que para ele seriam úteis lá no tempo de onde veio. O estranho para mim não era ninguém. Mesmo que ele fosse a simples presença de um ovo ou de algo mais picante no aparador da cozinha, eu não saberia. Era ele que buscava conhecer os meus sentimentos, não o contrário. Como eu não ouvia sua voz -- ele não era interativo -- para mim o tempo dele não existia. Era uma paralisia, uma máscara sem rosto. Se arregalasse os olhos, mesmo assim eu não o veria. Se me tocasse, eu não sentiria. O Outro para mim já não existe mais. Aprendi com o meu tempo que o Outro é o meu próprio corpo, o qual adestro regularmente com dietas de baixas calorias, exercícios, overdose de vitaminas e sexo seguro. E se por acaso o desconhecido tivesse uma voz e me dirigisse a palavra, ou um som eletrônico-gutural, eu não ia querer ouvi-lo. Me trancaria no banheiro? Sempre tive medo de estranhos, com suas perguntas, suas verdades, suas simpáticas fragilidades. Mas que merda, o que um viajante no tempo estaria fazendo na minha casa afinal? Quer saber como vivo, o que faço ou deixo de fazer, o que escrevo ou deixo de escrever, o que como? Quer trocar civilidades, me impor a intimidade de... um cafezinho? Me incomodar com a sua existência? Ele acha que compreenderia os meus medos? Não preciso pensar para escrever que não, não compreenderia e ainda me faria ver que não passo de uma paranóica cheia de melindres, quando na verdade o que mais quero é um pouco de sossego, dois tranqüilizantes antes de dormir e que o mundo se dane. Passado, presente e futuro. A minha esperança é de que ele, quem sabe, antes que eu finalize estas linhas da esquerda para a direita, da esquerda para a direita, possa perceber que seria ótimo para nós dois se ele desaparecesse pelo espelho de onde veio e me deixasse em paz com o meu mundo. Que afinal não tem nada demais.

13.6.04

W. H. Auden



Não, Platão, Não

Não consigo pensar em nada
que eu desejasse menos ser
que Espírito desencarnado
sem poder comer ou beber
e nem contactar superfícies
ou sentir os cheiros do estio
ou compreender palavra e música
ou olhar para o que está além.
Não, Deus me colocou bem lá
onde eu teria escolhido estar:
bom mesmo é o mundo sublunar,
no qual o Homem é macho ou fêmea
e dá Nomes Próprios às coisas.

Posso, porém, conceber que os
órgãos que Me deu a Natureza
tais minhas glândulas endócrinas,
dando duro vinte e quatro horas
sem demonstrar ressentimento,
para satisfazer-Me, seu Mestre,
e manter-Me sempre em boa forma
(não que eu lhes tenha dado as ordens,
pois não saberia o que gritar),
sonhem com uma outra existência
que não a que até então conhecem:
sim, talvez minha Carne esteja
rezando para que "Ele" morra
e, livre, Ela possa tornar-se
Matéria irresponsável.


As antigas damas japonesas


As antigas damas japonesas
distraidamente
agitam seus leques
no solitário mundo dos biombos

A distração
porém
é uma forma superior de ocultação
e
na enorme aridez
do seu íntimo domado
o rugido da raiva
estava contido
artisticamente comprimido
no extravagante cinto
que traziam
atado nas costas

Tocavam
dançavam
serviam o chá de joelhos
num secular seqüestro

Mas às vezes
num intervalo do desvelo
da hora e do pudor
descobriam
o esquisito sabor
que tem o crime


Ana Hatherly



12.6.04

________________

em tempo: os textos de outros autores publicados aqui não necessariamente refletem os pontos de vista da autora do blog. A concordância não é o critério norteador do Prosa Caótica. Um abraço.

Memórias de um ex-escritor (XIV)


Pedra que rola não cria limo, dizem os gaúchos. Muito menos identidade, seria bom acrescentar. Hoje, quando perguntam qual é minha cidade, tenho de refletir. Para começar, não nasci em cidade. De minha mais que metade de século, em Dom Pedrito só vivi seis anos, de 1958 a 63. Quase o mesmo tempo que vivi em Paris. Quando se tem muitas cidades nas costas, temos de estabelecer critérios para definir o que seja "minha cidade". Talvez seja aquela em que nos defrontamos com os primeiros embates existenciais, os primeiros desafios profissionais, a primeira mulher na qual apostamos tudo. Neste sentido, minha cidade é Porto Alegre. Foi lá que fiz minhas universidades, escolhi profissão, ganhei meu primeiro salário. E foi também lá - conquista mais importante que qualquer outra - que encontrei a companheira de toda uma vida, hoje ausente.

Verdade que me sinto muito mais em casa em Madri ou Buenos Aires, é como se sempre tivesse vivido nelas, enquanto na capital gaúcha ainda tenho um pouco a sensação de peixe fora d'água. Seqüelas da infância na fronteira. Em verdade, sempre me senti mais platino, uruguaio, hispânico, que brasileiro. Ao falar espanhol sinto um prazer que o português não me dá.

Em 77, quando recebi bolsa em Paris - do governo francês, que o brasileiro jamais me concedeu qualquer favor - meus professores não entendiam por que razões não escolhera obra de autor brasileiro como tema da tese. Não foi muito fácil explicar que a literatura brasileira pouco ou nada me dizia.

O Brasil ainda não produziu um poema que possa ombrear com o Martín Fierro, nem escritores do porte de um Roberto Arlt, Ernesto Sábato ou José Donoso. Machado de Assis, desculpem-me os machadianos, é literatura água-com-açúcar, tanto que é permissível em qualquer escola secundária, até mesmo religiosa. Se um escritor entra nos círculos didáticos oficiais, é porque sua literatura já perdeu seu potencial subversivo. Quando Machado começa a escrever, há um mundo editorial tão incipiente no Brasil que os escritores tinham de publicar em Paris. Como dizia Fernando Pessoa, sobre um pano de fundo de nada qualquer coisa se destaca.

Guimarães Rosa, perdoem-me os rosianos, é um elefante branco criado pela universidade brasileira. Impossível negar seu talento de poliglota e criador de uma linguagem, mas é o menos lido e mais citado dos ficcionistas brasileiros. Escreve para uma elite que sequer o lê. As tiragens de suas obras só foram possíveis porque impostas em currículos acadêmicos.

Erico Verissimo, gostei muito de conversar com o homem, mas o escritor não me diz nada. É outra planta de estufa universitária. O gaúcho pintado por Verissimo é uma ficção ao estilo dos Centros de Tradições Gaúchas, nada tem a ver com nosso homem de fronteira. (O gaúcho mesmo, sem pilchas nem fanfarronadas, está em Aureliano Figueiredo Pinto, um dos injustiçados da cultura gaúcha. Memórias do Coronel Falcão, editado postumamente, foi sufocado pelos donos da cultura na capital, entre outras razões porque continha "espanholismos".) Erico foi homem urbano, nada conhecia da vida de campo. Ele próprio jamais se considerou escritor, apenas um contador de histórias. O problema em torno a Verissimo é a simpatia e calor humano que dele emanavam. Depois de uma charla com ele, não era fácil ir aos jornais e dizer o que se pensava de sua literatura. As novas gerações têm a vantagem de não sofrer este constrangimento, e talvez dentro em breve sua obra seja avaliada com isenção. Mais ainda: Erico foi covarde e omisso em relação ao comunismo. Conto mais adiante.

Jorge Amado, cortesã de alto bordo, foi nazista, stalinista, cúmplice das duas ideologias mais assassinas que empestaram o século, e vira qualquer coisa que lhe renda fortuna. Apoiou Collor de Mello na tentativa de colocar o Itamaraty em sua campanha desesperada para receber o Nobel. Suas traduções no mundo todo se devem à sua cumplicidade com o fascismo eslavo. A bem da verdade, tem um belo livro, e um só: Os Velhos Marinheiros.
Escritor de porte, para competir na literatura universal, penso que o Brasil tem apenas um, o Nelson Rodrigues. Só começou a ser descoberto depois da queda do Muro de Berlim. Seu teatro tinha livre trânsito, afinal denunciava as "contradições da burguesia". Como malhava as esquerdas em suas crônicas, o Nelson cronista sempre foi maldito nos círculos intelectuais do país. De qualquer forma, em matéria de literatura, sempre me senti melhor freqüentando os hispânicos. Mas adoro reler o Nelson, o das crônicas. Escritor bom é o que gostamos de reler. Os outros passam. "Só escrevo para ser relido", dizia Gide. Como dizia D. H. Lawrence, é melhor ler um livro seis vezes do que seis livros.


Janer Cristaldo


10.6.04



ONTEM VI UM ANÚNCIO NO JORNAL
VI NA TV NO OUTDOOR E EM DIGITAL
PEDIAM MULHERES COM CORPO ESCULTURAL
PRA DAR PRAZER A HOMENS, MULHERES E ATÉ CASAL
MAS NA REAL O QUE EU QUERO É SER ARTISTA
DAR AUTÓGRAFOS, ENTREVISTA, SER CAPA DE REVISTA
QUERO SER VISTA BEM BONITA NA TELEVISÃO
ROLÉ DE CARRO E NÃO MAIS DE CAMBURÃO, NÃO
TÔ DEPRIMIDA NESSE AMBIENTE DE DESGRAÇA
TRAFICANTES, PARASITAS, VICIADOS PSICOPATAS
UM BASEADO PRA AFASTAR ESSA FADIGA
DESSA NOITE SEDENTÁRIA DE ORGIA E MALDORMIDA
NÃO CHORO MAIS, SEI QUE ME PERDI
TÔ CONSCIENTE, O MEU DESTINO EU ESCOLHI
DAS PRAGAS SOCIAIS SOU A PIOR
COCOROCOCÓ EU SOU O EFEITO DOMINÓ
O LENOCÍNIO OFUSCA, INDUZ, COAGE, ATRAI
O MARINHEIRO AVENTUREIRO SORRATEIRO DESEMBARCA E CAI
SOU DE QUEM ME VIR PRIMEIRO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)

SOU PUTA SIM VOU VIVENDO MEU JEITO
PROSTITUTA ATACANTE VOU DRIBLANDO O PRECONCEITO

OS CRENTES DIZEM QUE VENDO A ALMA PRO CAPETA
SEI MUITO BEM QUE NÃO SOU MAIS MULHER DIREITA
NÃO SEI SE É CERTO, MAS FAÇO PARTE DO BORDEL
UM RENDEVÚ QUE MAIS PARECE A TORRE DE BABEL
SINTO OS SINTOMAS DA FADIGA NO MEU CORPO
MAIS SEDATIVOS ALIVIAM AS CONSEQÜÊNCIAS DESSE ABORTO
A PERVERSÃO DEIXA PROFUNDAS CICATRIZES
EM DESESPERO JÁ TENTEI VÁRIOS SUICÍDIOS
QUEM ME VÊ AQUI, SORRI ASSIM TÃO INOCENTE
NÃO PERCEBE A MALÍCIA DA SERPENTE
DOU MAIS UM DOIS E ALIVIO ESSA TENSÃO, OU NÃO?
NA MADRUGADA TODA PUTA É A IMAGEM DO CÃO, OU NÃO?
SEM CARTEIRA VOU GUIANDO, SENTIDO CONTRAMÃO
ARTIGO CINCO NOVE LEI DA CONTRAVENÇÃO
VOU DESPERTANDO A LIBIDO DE UM VELHO OU DE UM MENINO
CONSIDERADA AQUI NA ZONA A RAINHA DO EROTISMO
SANTO AGOSTINHO É MEU SANTO PROTETOR
CONTRADIÇÃO É MINHA MARCA NA REZA E NA DOR
SOU O RETRATO TRÊS POR QUATRO DESSE POVO BRASILEIRO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)

SER MERETRIZ TRISTE E FELIZ, CODINOME VAGABUNDA
ENTRE O MAL E O BEM VOU DEIXAR DE SER IMUNDA
VOCÊ ACHA QUE É FALTA DE MORAL, PROMISCUIDADE EXCESSIVA
SEJA PUTA DOIS MINUTOS E SOBREVIVA
TENHO SONHO, AMOR E VAIDADE
UM TÉCO AJUDA SUPORTAR A ENFERMIDADE
AS FAMÍLIAS ME ODEIAM POR CAUSA DA LUXÚRIA
MAS SÓ VENDO A MINHA CARNE E MEU CARINHO A QUEM PROCURA
ENTRE LOGO, FECHE A PORTA MEU CLIENTE
TIRE A ROUPA, LAVE O SEXO, TOME A PASTA, ESCOVE O DENTE
NÃO PENSE NO PECADO, TENHA DECISÃO
SOU SEU VIDEOGAME, LIGUE AQUI NESSE BOTÃO
GOZE LOGO O TEMPO É CURTO O PREÇO É JUSTO
OUTROS HOMENS ME ESPERAM, VÁ SEM SUSTO
A POLÍCIA É APENAS NOSSO RISCO
A JUSTIÇA É APENAS NOSSO CISCO
A NECESSIDADE ME LEVA À SOBREVIVÊNCIA
A MISÉRIA ME LEVA À INDECÊNCIA
AS DUAS À LOUCURA, INTENSO DEVANEIO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)

SOU PROSTITUTA NA BOCA DO POVO CONHECIDA COMO PUTA
OBRIGADA A CONHECER AS POSIÇÕES DO KAMA SUTRA
SE MEU FILHO CHORA, SOU EU A MÃE QUE ESCUTA
MEU DEUS DESCULPA, NÃO TENHO CULPA SÓ FUI À LUTA
NÃO SEI SE TENHO O VALOR QUE MEREÇO
MAS PRA DEITAR COMIGO TEM UM PREÇO
PELA MINHA MÃE PELO MEU FILHO TENHO MUITO APREÇO
FOI NUM PROSTÍBULO QUE ACHEI MEU ENDEREÇO
NÃO ME ORGULHO MAS ME ASSUMO, MENOS MAL
QUEM RODA BOLSA OU FAZ PROGRAMA, PRA MIM É TUDO IGUAL
DAS CINZAS ÀS CINZAS, DO PÓ AO PÓ
SEM DÓ, OS MEGANHAS CHEGAM O TEMPO FICA BEM PIOR
VEM DI MENOR, VEM COMIGO NO XILINDRÓ
ESTAR EM CASA COM MEU FILHO AGORA SERIA BEM MELHOR
NÃO ESTOU SÓ, TENHO DEUS COMIGO
MAS CORRO O RISCO DE DEITAR COM O INIMIGO
BATE O SINO, MEU FILHO DEVE TÁ DORMINDO
ENQUANTO EU INICIO A VIDA SEXUAL DE UM MENINO
AOS DEZESSEIS SÓ CURTIÇÃO, PENSAVA EM NADA
HOJE AOS 23 NEUROSE A MIL SÓ TRANSO ANGUSTIADA
AOS 33 QUEM SABE VELHA E ARREPENDIDA
AOS 43 SÓ NO ESQUELETO RECORDO A VIDA
MINHA PUTA VIDA
REFLETE O DESESPERO
SOU A AUSÊNCIA DO AMOR COM A PRESENÇA DO DINHEIRO

(Refrão)
SOU PUTA SIM VOU VIVENDO MEU JEITO
PROSTITUTA ATACANTE VOU DRIBLANDO O PRECONCEITO


Nega Gizza, em "Prostituta".

9.6.04

VI (última parte)

Minha Alteza

Há séculos que sonho com o teu retorno triunfante de uma guerra que só faria engrandecer o teu nome na história, colocando-o ao lado de Alexandre o Grande. O sonho coroou-se de realidade. Por fim a Gália subjugada! E que butim nos trazes! Meu senhor, como me orgulho do meu rei, do meu esposo, ao lado de quem me sinto a verdadeira Hera. Ouça os dobres dos sinos que ordenei tocassem para acompanhar os passos de tão valorosos cavaleiros no seu caminho de volta ao lar. Ouça e apressa-te que hoje à noite te receberá o banquete que merece todo César. Organizado por mim mesma com as mais saborosas carnes de nosso reino, meu bravo consorte. E após refestelar-te com o sangue vigoroso da caça, um leito de depravações aguarda o corpo lúbrico do saudoso esposo em meus aposentos. Estou ansiosa para mostrar-te tudo que podemos fazer com o espelho deformante que me foi presenteado pelo cardeal de Vincennes. Acredita? Não vejo a hora de abraçar-te, de deitar fora teu gibão, arrancar teus calções suados da batalha e tocar tua espada com o bico de meus seios, ao pé da cama, derretendo-me em tuas mãos. (Não me importo mais com a história de teus folguedos com a anã, tudo descansa no passado. Desconheço o que foi feito dela. A condessa chorosa ainda procura a filha pelos pântanos e jardins da basílica, onde foi vista pela última vez.) Mas hoje à noite só seremos tu, eu e nosso lectus genialis.

Tua esposa que te adora
e jamais renuncia aos prazeres
que nascem desse direito

A Trapezista

V

Meu senhor meu herói

Todas as noites sonho contigo carregado de glória. E que beijo teu busto clássico e vivo sobre um pedestal grego. Vejo-me alisando tua coroa de louros. Acordo toda suada e te procuro em minha caverna úmida. Vazia. Tanta paixão não existe, não pode existir, nem nunca existiu. Quando não te vejo, me sinto à margem do mundo, pendurada num abismo, minhas mãos sangrando nos beirais de pedra. E se não estás dentro de mim, sou toda sangue e lágrimas, um fruto abominável do Destino. Minha boca passa seus dias tristes buscando o teu nome em um alfabeto a que jamais é permitido formar palavras. Sinto-me tragada pelas feras no Coliseu. Querido, meus pés já não dóem tanto, faltam somente quatro centímetros para caberem na palma de tua mão. Minha mãe percebe minha angústia e faz comentários sobre minha pele de mármore. Pouco me alimento e não saio à rua. Ela faz perguntas. Não sei o que responder. Começo a assustar-me e receio que não poderás mais vir me ver com a mesma tranqüilidade. Há dois guardas na porta dos meus aposentos pois a condessa minha mãe receia que eu esteja sendo "vampirizada". Ela é uma mulher sensível às superstições do populacho. Não a culpo, porém não sei mais o que fazer. Penso em fugir para procurar-te, sei que não devo. Estou desesperada com este sentimento que só faz aumentar sua própria sede. Imploro-te que venhas ao meu encontro hoje à noite nos jardins da basílica. Não me faltes, ou algo de terrível pode acontecer.

Tua escrava sempre
na vida e na morte
Urselina



8.6.04

IV

Senhor

Como diz o ditado, não creio nessa história mesmo se Catão ma contasse. Que a tua cortesã bizarra é capaz de engolir toda a tua espada vezes seguidas e ainda pedir por mais escabrosidades? Um fenômeno da fisiologia! Posso concluir daí que, enfim, chafurdarás na volúpia com que sempre sonhastes. No entanto, um culhonésimo de comedimento seria aconselhável de tua parte para que não sobrevenha novamente um desastre como o de Madame du Bressac. A pobre libertina vive até hoje mal das pernas e me dá grandes despesas e enfado com suas queixas e ameaças de escândalo. Nossa reputação não suportaria mais este abalo. E os tempos, como sabes, não são mais aqueles faustíssimos. A hipótese de uma guerra agora seria oportuna, meu caro. Ainda assim, me divirto com tuas distrações. Essa pequinesa vibrante, de admirável intrepidez, sabe de fato manejar-te, o que eu mal consigo com meus improvisos acrobáticos e louçanias de espírito. Temo não possuir os mesmos dotes da anã no coup de foudre. Para finalizar, previno-te que a tua falta não só é sentida em meu leito como nas reuniões do Conselho. Seria prudente que aparecesses. Já começam os rumores.

Tua esposa ainda amada
A Trapezista

7.6.04

III


Queridinho e todo meu senhor


Rio sozinha até agora das brincadeiras que inventas a toda hora para fazer-me sentir melhor as delícias da vida. Sou tão feliz ao teu lado que até me envergonho de perguntar: -- Quem é Maimônedes? Por que me pedes que o recite para ti sempre que me penetras por trás vestido de mulher? És louquinho, e eu louca por ti. Quase à vertigem. Tens ciúmes do meu primo? Ora, ele é um cavaleiro da Ordem de Cristo e ademais tão baixinho que só monta cabritos. Jamais seria um mestre na cavalaria como é o meu senhor, este sim, um verdadeiro prodígio na arte de ferrar. Já sinto saudades, vês? Meu senhor, não sei se poderei usar amanhã os coturnos venezianos que me destes, meus pés estão tão doloridos que tive de banhá-los com chá de murta e rosas. Mas não te preocupa. Adorei o presente. Como te adoro
e vivo
para te servir
Urselina

6.6.04

II

Senhor

És um homem ou um bebê? Por que durante o banquete de ontem percebi a centelha da cobiça em teus olhos derramados naquela monstrinha, a filha da condessa Ottinger? Por que aquela cara de gêmea siamesa caminha feito uma vagabunda de Pequim? O que ela tem nos pés? Por certo estás fascinado por sua beleza grotesca, meus ciúmes não são infundados. Só espero, como sempre, que este teu carnaval se haja com a máxima discrição. Não toleraria virar motivo de chacota nestes tempos já tão conturbados. Estou aniquilada e tua ausência me desespera. Hoje à noite me encontrarás sozinha em meus aposentos se quiseres conversar. Ou para, quem sabe, um dos nossos espetáculos sem palco (o que anseio mais do que tudo).

Tua amada esposa
A Trapezista

Meu senhor

Os pés são tudo. Os pés são o amor. Os pés precisam ser burilados. Por isso amarro os meus diariamente para que fiquem como o "lótus dourado". Para que não chamem atenção num viveiro de amoreiras. Pés de oito centímetros para que caibam docemente na palma de sua mão. Pés para o meu Marquês do Pombal. O meu fidalgo. O meu amo. (Traga as botas de hipismo neste sábado depois da ceia. Deixo a porta dos fundos encostada. Mamãe viajou.)

Tua pastora Urselina

4.6.04

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Oferece-se desespero
em excelente estado,
e espaçoso beco-sem-saída.
A preços vantajosos.

Vende-se terreno
baldio e fértil
por falta de sorte e disposição.

E tempo
totalmente por utilizar.

Informações: no beco.
Horário: sempre.

..........

Do sonho


O dia acordou.
Levantou-se na ponta dos pés
e viu o mundo
ainda deitado com os sonhos
e incantações da noite.

Subiu aos montes,
deslizou pelas colinas
e escorreu para a cidade
apressado.

Apagou os candeeiros das ruas
esganou
sombras escondidas nos pátios e nas esquinas,
e depois de repartir pelos humanos
angústias e problemas
encarregou-os de o levar até o fim.

Depois deu pela minha ausência
(estava ainda no meio do sonho
a negociar uma felicidade),
abriu a minha janela fechada
e com todo o seu peso caiu sobre mim
interrompendo as negociações.


Kiki Dimoulá

3.6.04

Nelson Rodrigues

De vez em quando entro na redação e vou dizendo, de passagem: "Dura nossa profissão de estilista!" Alguns acham graça e outros amarram a cara. Todavia, se pensarmos bem, veremos que nem uns nem outros têm razão. Pergunto: por que rir ou zangar-se com uma piada que nem piada é? Trata-se de uma verdade, nada mais que verdade. Realmente, vivemos a mais antiliterária das épocas. E mais: não só a época é antiliterária. A própria literatura também o é.

Os idiotas da objetividade hão de rosnar: "Que negócio é esse de literatura antiliterária?" Parece incrível, mas aí está outra verdade límpida, exata, inapelável. Onde encontrar uma Karenina? Uma Bovary? Conhecem algum Cervantes? Um dia, Sartre esteve na África. Na volta, deu uma entrevista. Perguntou um dos rapazes da reportagem: "Que diz o senhor da literatura africana?" Vejam a resposta do moedeiro falso: "Toda a literatura africana não vale a fome de uma criancinha negra."

Vamos imaginar se, em vez de Sartre, fosse Flaubert. Que diria Flaubert? Para Flaubert, mil vezes mais importante do que qualquer mortalidade infantil, ou adulta, é uma frase bem-sucedida. Se perguntassem a Proust: "Entre a humanidade e a literatura, quem deve morrer?" Resposta proustiana: "Que pereça a humanidade e viva a literatura."

Portanto, os estilistas, se é que ainda existem, estão condenados a falar sozinhos. Por outro lado, os escritores, em sua maioria absoluta, estão degradando a inteligência em todos os países, em todos os idiomas. É meio insultante chamar um escritor de escritor. Outro dia, num sarau de escritores, chamaram um romancista de romancista. O ofendido saltou: "Romancista é você!"

Diz o PC russo: "No tempo do czar, Tolstoi era o único escritor de Tula. Hoje, Tula tem para mais de 6 mil escritores." É verdade. Cabe, todavia, um reparo: "É que os 6 mil escritores contemporâneos não são dignos nem de amarrar os sapatos de Tolstoi."


Nelson Rodrigues, em fragmento da crônica "Inteligência Invertebrada", 1972.