19.5.04

Esquecimento

Um homem chamado Hua-tzu passou a sofrer da memória ao atingir a meia-idade. Ele esquecia durante a noite o que tinha feito durante o dia, e esquecia de manhã o que havia feito à noite. Na estrada esquecia como andar, em casa como sentar. Num determinado momento ele ficava inconsciente do que tinha feito no momento anterior, e um pouco depois ele não sabia o que iria fazer no presente.

Toda a sua família estava perturbada com o seu estado. Eles chamaram um adivinho mas não tiveram qualquer prognóstico. Convocaram um xamã para rezar por ele, mas isso não fez com que o processo de esquecimento parasse. Chamaram um médico para tratá-lo, mas ele não o curou.

Havia um confucionista que reconheceu que poderia curar o homem esquecido, e a sua mulher e filhos lhe ofereceram a metade das suas propriedades pelo remédio. O confucionista disse: "Este caso não pode ser por esconjuros, não pode ser aliviado pela prece, não pode ser tratado pela medicina. Eu tentarei transformar a sua mente e mudar o seu pensamento e espero que ele fique melhor."

Então o adepto de Confúcio o testou expondo-o aos elementos, e o homem pediu roupas para se abrigar. Quando ele o fez passar fome, o homem pediu comida. Quando o fechou num local escuro, o homem pediu luz. O confucionista alegremente anunciou aos seus filhos: "Esta doença pode ser curada. O meu remédio, entretanto, é secreto e não pode ser revelado aos outros. Por favor saiam todos e deixem-me só com ele durante sete dias." A família fez o que ele disse e com isso ninguém pôde saber que medidas o confucionista havia tomado, e um dia a doença que havia acometido o homem foi embora.

Quando o homem acordou, ele expulsou a sua mulher de casa, puniu os filhos e foi atrás do confucionista com uma machadinha. As pessoas que estavam no local seguraram-no e perguntaram qual o motivo de tanta confusão. Ele disse: "No meu passado, quando eu estava completamente esquecido de tudo, eu estava claro e livre, inconsciente da existência ou da não-existência do céu e da terra. Agora que estou subitamente consciente, todas essas décadas de ganhos e perdas, dores e alegrias, quereres e não-quereres, subitamente me ocorrem numa grande confusão. Eu tenho agora medo de que o futuro possa me trazer ganhos e perdas, que perturbarão a minha mente completamente. Será que eu terei um momento de esquecimento novamente?"


-- tradição oral retirada dos Lieh-tzu, um clássico do taoísmo.

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente

Bénédicte Houart

17.5.04

Robert Bringhurst

Pitágoras

lemuribus vertebratis ossibus inter tenebris

I
O que resta: as trinta e nove regras, um relógio solar
desamarrado como um cordão de sapato, uma teoria do número
desmembrada e dispersa como dados. E a velha
conversa-fiada a respeito da transmigração da alma.
E uma lenda: Pitágoras se recusava a comer carne
e por isso tinha as pernas bambas.
Escombros
de pensamentos recolhidos, frontões quebrados, cacos
de telhas assentadas com argamassa agora carregada pelas chuvas.

Aves marinhas sobrevoando a relva crescida,
nada ereto
exceto estes pilares:
a mente de Pitágoras repousa sobre duas colunas de palavras.

II
Não o cálculo. Números. Inteiros
atrelados em estruturas cristalinas: cobre, antimônio...
Inteiros cravados como pregos num vazio inflexível.

Discípulos obtusos, séculos após, sentando-se
para contar o catálogo,
murmurando multiplicadores.

III
A unidade é uma substância, não uma propriedade. A luz
é finita e móvel. A escuridão
é o verbo eterno.

A singularidade é reta.
A pluralidade se curva
e a escuridão é plural.
E somente a mão esquerda se move.
E a escuridão...esta...estas
escuridões estão em toda parte.

O ponteiro do relógio solar é símbolo,
assim como a régua de cálculo do carpinteiro. A aguçada
escuridão é simplesmente o índice.
A luz não se move, e a luz é a ferramenta.

IV
O princípio, portanto:
transparência.

Lavrar a obsidiana
à limpidez duma garra;
não deixar sulco, pegada, ou galho partido,
ou qualquer vestígio de repouso entre dois intervalos de movimento
que a língua não faça sombra
à palavra, nem a mão faça sombra à pedra.

A escuridão se arqueia sobre a cabeça, disse Pitágoras.
Esquecei a cabeça. Pintai retratos da mente.
A escuridão flui entre dedos fechados.
Representai-me o deus sem o corpo. Apenas
a tangência intangível, escultura como a corda dedilhada
e fala à maneira de canto inaudível.
Afina-se o plano pelo retesamento da reta.


V
Oitavas de silêncio
não existem e não ecoam. Intervalos
de escuridão desagregam-se
infinitamente. Não bebais
a escuridão
, disse Pitágoras,
a alma não pode tornar-se pura escuridão.
Talvez
. Talvez.

Robert Bringhurst

Este assunto já transbordou os pinicos, mas é sempre bom saber dos segredos de Larry Rohter.

15.5.04

Luiz Ruffato

Via internet

Estou te falando, cara, vinte e cinco!, vinte e cinco só através da internet, nos chats e ICQ. E olha que eu não sacaneio não, vou logo avisando: sou baixinho, gordinho, míope... mas muito viril! E sem viagra! Faço de tudo na cama... Bom, aí eu tasco poesia. Vinícius de Moraes é infalível. Mas se precisar, uso golpe baixo. Comprei num sebo as obras completas do J.G. de Araújo Jorge... E, se a fulaninha é dessas mais...intelectualizadas...Byron! Você sabe...aquela conversinha...no fundo no fundo as mulheres só querem ser bem comidas por alguém carinhoso, romântico... Mas que não seja boiola! Porque hoje em dia se o cara é romântico, é veado, e se é macho, insensível...troglodita... Eu junto as duas coisas: sou macho e romântico... Ressuscitei a palavra como instrumento de sedução, entende? A melodia de um verso mordiscada no lóbulo da orelha... Ai! Eu elejo a beleza delas com frases emprestadas dos outros... Claro, elas não precisam saber disso, mas eu acho que, mesmo se soubessem, nem ligariam. As poesias foram escritas não pra ficar sepultadas nas páginas dos livros, mas pra se tornarem parte da nossa memória coletiva... Eu avivo todo o meu conhecimento de moleque míope que ficava em casa lendo, enquanto a molecada ia pro campinho jogar futebol... Tem um tempo em que as mulheres dão muita atenção aos músculos, bíceps, tríceps, essas bobagens... Depois, descobrem que até cachorro sabe trepar. E trepar bem, se levar em conta os filmes que a gente vê por aí... Então, elas começam a procurar algo mais, entende? No chat, eu faço o primeiro contato, me apresento, ali a gente já sabe se somos ou não, digamos assim, almas gêmeas... Aí, se der, trocamos o número do ICQ, o e-mail... Começam as negaças, os falsos mal-entendidos, os ditos com segunda intenção, os nhenhenhéns, os hehehés... É um jogo danado, meu irmão, fascinante, melhor que todos os outros games do mundo, porque o prêmio, se você consegue chegar no final, é uma mulher na sua cama...louca pra fazer tudo que você quiser...tudo! E eu digo: não posso reclamar de nada...Já comi uma menina de dezesseis anos, cabaço, acredita?, e uma bem-casada, cinqüenta e três anos, enxutíssima, uma bunda e uns peitos de fazer inveja a muita adolescente aí; já comi uma médica e a secretária dela; já comi preta, branca, japonesa, gaúcha, nordestina e até uma judia; já broxei -- com uma paulistana bonita, gostosa, mas, porra, ela fedia a cerveja, tentei uma, duas, três vezes, estava com a cabeça em outro lugar (a cabeça do pinto, é claro), falei pra ela, caralho, isso nunca me aconteceu antes!; já consegui dar cinco numa noite (com uma japonesa, que parecia ser a luxúria em pessoa!); já tive de trocar o número do telefone (por causa de uma tal de Letícia, que me ligava toda hora e enviava uns cem e-mails por dia); já tive que negar casamento a três; já banquei o psicólogo para convencer uma a não se separar do marido; já peguei doença... Cada história, cara, que se um dia eu sentar pra te contar você escreve um livro inteiro só sobre isso... Vinte e cinco, cara, vinte e cinco! Já tive de abandonar o barco três vezes, porque não correspondiam à descrição, e uma vez me sacanearam, um cara se fez passar por mulher e no dia e hora marcados três brutamontes me cataram, encheram de porrada, quebraram meus óculos... Fiquei de licença médica por três dias (aleguei que tinha sido atropelado, não anotaram a chapa), uma merda... Mas o que fazer?, eu adoro buceta... Bom, cara, vou andando, está na hora de me conectar, você acerta aí? então, um abração, companheiro, me liga, heim, dá licença, por favor, dá licença, com licença


Luiz Ruffato, em eles eram muitos cavalos, 2001.

13.5.04

Anônima Delirante



À esquerda, a rainha-mãe, em toda a sua alteza real, adentrando o salão nobre da Universidade de Cambridge para o coquetel de lançamento do meu livro no Reino Unido. Mal pude acreditar, mas aí está a foto que não me deixa mentir. Ao lado um flagrante da presença discreta do meu queridíssimo Joyce, outro que não poderia faltar em se tratando de free cocktails...(não, ele não recitou Finnegans Wake). A nota desagradável da noite ficou por conta da antipatia ambulante das irmãs Brontë, bem visível no retrato feito na ocasião, uma vez que as sirigaitas penetras eram supersticiosas e não se deixavam fotografar por nada. Noël Coward me confidenciaria, entre um scotch e outro, que as três bruxas só apareceram porque souberam da presença da aristocracia. Humpf.

Espanha em meu coração

Parto, todos os dias, em busca daqueles que compartilharam comigo parcelas de suas vidas, afastando-se logo depois, silenciosos, a maioria deles para não me reencontrar jamais.

Meus olhos de criança seguem os gestos de meu avô, um operário da antiga Vigorelli, consertando nosso fogão na primeira casa de que me recordo. Logo depois, enquanto minha mãe lava o chão da cozinha, ele me ensina a contar, acompanhando o vai-e-vem da cadeira de balanço. O sol do princípio da tarde rompe o enorme vitrô e vou adormecendo, ouvindo os números que o velho espanhol canta, balançando a cadeira, ritmando, sem querer, os movimentos do rodo que minha mãe empunha, puxando para o quintal a água ensaboada. A luz do sol reverbera pela cozinha azulejada de branco, a água que o rodo leva também brilha, e meu avô recomeça a contar...

Ele morava em uma casa simples, na Vila São João Batista, a caminho da Colônia, em minha cidade natal, Jundiaí. Sala, dois quartos, cozinha e banheiro, mas tudo tão humildemente limpo, de um assoalho tão brilhante, que eu pisava devagar, sem forçar muito os pés sobre a madeira espelhada.

Os tamancos de minha avó esperavam na soleira da porta dos fundos, e ela os calçava quando ia cuidar da roupa, no quintal. A cozinha recendia a pedaços de toucinho, dependurados sobre o fogão, e o barulho da máquina de costura corta a rua quieta, onde a tarde vazia vinha descansar. Os pés de minha avó ainda movem o pedal de ferro, forçando a máquina a trabalhar.

Aos sábados, por vezes aquele homem tranqüilo nos visitava e, para minha tristeza, após o almoço, meus pais não renunciavam ao hábito de me fazer dormir à tarde. Resignado, eu subia para o quarto e, na penumbra, mantinha o ouvido colado à veneziana, tentando escutar não as conversas, mas somente as doces inflexões da voz de meu avô.

Uma lembrança triste me diz que aproveitei muito pouco do seu rosto de bondade, no qual um derrame, anos depois, plantou um enigmático sorriso. Mas reencontro, ao escrever, a textura da pele mal escanhoada e o seu cheiro, sentido em centenas de repetidos abraços, mescla de fumo e algum envelhecido conhaque, enquanto ouço, meio adormecido, o seu sotaque andaluz, a sua voz tisnada pelo sol da Espanha, a me cantar números infinitos...


Rodrigo Gurgel

12.5.04



Esta "pérola" saiu da boca do reverendo Pat Robertson, senador e líder da Coalizão Cristã, um paladino da ultradireita republicana e, é claro, da turma de Bush.



11.5.04

Escritor de nome disse dos meus amigos e de
mim ou que éramos gênios ou bestas. Acho que
tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos,
o anseio do farol. Se fôssemos tão carneiros a
ponto de termos escola coletiva, esta seria por
certo o "Farolismo". Nosso desejo: alumiar. A
extrema esquerda em que nos colocamos não
permite meio-termo. Se gênios: indicaremos o
caminho a seguir; bestas: naufrágios por evitar.



Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.


Mário de Andrade

Recordação do país infantil


A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.

Um camisolão. Conchas.

Vamos à praia das Tartarugas!

O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia.

O carro plecpleca nas ruas.

O trem vai vendo o Brasil.

O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus.

Depois todos morrem.


Verbo Crackar

Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa

Sê pirata
Sêde trouxas

Abrindo o pala
Pessoal sarado.

Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular.


Oswald de Andrade



10.5.04

Caçadores de ilhas


A ilha procurada
foge de quem a procura
por ser ilha ensimesmada.

Caçadores de ilhas
conhecem a lição
ilhada:
são caçadores de Tétis
na ilha dos amores
que não se dá por achada.

Há duas feições de ilha
em escala solidária.

Uma feição de ilha
é a ilha jorge de lima
que já no mundo lusíada
por máquina do mundo
passava.

Nessa ilha,
caçadores de ilha
como máquina
põem no futuro a mira
sobre a ilha
de uma utopia caçada.

Outra feição de ilha
é a ilha drummondiana
escassa.
Sem as águas de ilha navegada
é ilha camoniana
já clássica.

É ilha do mesmo mundo
que se abre como máquina,
sendo pedra que se fecha
para a perda do poeta
que se busca
sem palavra.

Em dupla escala
as duas feições de ilha
são a mesma solidária:

tanto numa como noutra
nenhuma utopia é dada.
Toda ilha é ilha
ensimesmada.


Mário Chamie




8.5.04

Anônima Delirante



Em mesas separadas, a lindíssima Brigitte Bardot, e Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Boris Vian e sua Michelle, por ocasião da noite de autógrafos de meu primeiro livro, realizada no Cafe de Flore do Boulevard St-Germain, em Paris. Merleau-Ponty não apareceu, naturellement. Jamais me perdoaria por não ter escolhido o Cafe Deux Magots para celebrar o evento. Tant pis.





7.5.04

O professor filósofo


De todas as ciências que se inculca na cabeça de uma criança quando se trabalha em sua educação, os mistérios do cristianismo, ainda que uma das mais sublimes matérias dessa educação, sem dúvida não são, entretanto, aquelas que se introjetam com mais facilidade no seu jovem espírito. Persuadir, por exemplo, um jovem de quatorze ou quinze anos de que Deus pai e Deus filho são apenas um, de que o filho é consubstancial com respeito ao pai e que o pai o é com respeito ao filho etc., tudo isso, por mais necessário à felicidade da vida, é, contudo, mais difícil de fazer entender do que a álgebra, e quando queremos obter êxito, somos obrigados a empregar certos procedimentos físicos, certas explicações concretas que, por mais que desproporcionais, facultam, todavia, a um jovem a compreensão do objeto misterioso.

Ninguém estava mais profundamente afeito a esse método do que o abade Du Parquet, preceptor do jovem conde de Nerceuil, de mais ou menos quinze anos e com o mais belo rosto que é possível ver.

— Senhor abade — dizia diariamente o pequeno conde a seu professor. — Na verdade, a consubstanciação é algo que está além das minhas forças. É-me absolutamente impossível compreender que duas pessoas possam formar uma só: explicai-me esse mistério, rogo-vos, ou pelo menos colocai-o a meu alcance.

O honesto abade, orgulhoso de obter êxito em sua educação, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agradável de dirimir as dificuldades que embaraçavam o conde, e esse meio, tomado à natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a quatorze anos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.

— Pois bem — disse-lhe o abade. — Agora, meu amigo, concebei o mistério da consubstanciação: compreendeis com menos dificuldade que é possível que duas pessoas constituam uma só?

-- Oh! meu Deus, sim, senhor abade — diz o encantador energúmeno. — Agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente. Não me admira esse mistério constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois é bem agradável quando se é dois a divertir-se em fazer um só.

Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda "no mistério" que ele não compreendia muito bem e que só poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como já o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem e a lição recomeça, mas, desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.

— Parece-me que vai demasiado rápido —diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde. — Muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjunção, não sendo mais tão íntima, apresenta bem menos a imagem do mistério que se procura aqui demonstrar. Se fixássemos, sim... dessa maneira — diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta à jovem.

— Ah! Oh! meu Deus, vós me fazeis mal— diz o jovem. — Mas essa cerimônia parece-me inútil. O que ela me acrescenta com relação ao mistério?

-- Por Deus! — diz o abade, balbuciando de prazer. — Não vedes, caro amigo, que vos ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho... é a trindade que hoje vos explico. Mais cinco ou seis lições iguais a esta e sereis doutor na Sorbonne.


Marquês de Sade, em "Contos Libertinos".


o leitor em prosa caótica



Bauer e a máquina

Herr Bauer não sabe o porquê dessa máquina, ela é um enigma que agora ele não pode mais decifrar, ele já não entende nem mesmo como ela funciona. Na verdade não se lembra de tê-la visto funcionando, mas sabe que ela alguma vez funcionou. Herr Bauer não se lembra de uma razão para ela ser. No começo havia uma razão, mas Herr Bauer ficou tão entusiasmado mexendo com algumas pecinhas e com umas várias idéias, que mais e mais idéias foram surgindo sem parar e assim naquele turbilhão de criações loucas essa razão de ser de toda aquela tempestade e de sua máquina se perdeu na sua memória. Morreu! Morreu em sua mente cedendo lugar a alguma coisa quotidiana qualquer, ou quem sabe a uma idéia filha dela própria, mas isso não serviu para salvá-la se foi assim que aconteceu. Também não serviu para salvá-la a documentação do projeto, que é um maço de folhas em branco numa pasta velha - que ele encontrou por um acaso procurando uma canetinha de escrever em cd no quartinho de bagunça - mais uma folha no topo onde se lê "Stroplusceratróica". E não poderia ser diferente a documentação desse projeto fantástico, a "Stroplusceratróica" não foi planejada, não foi sequer imaginada. A "Stroplusceratróica" é uma manifestação espontânea do poderoso inconsciente de Herr Bauer concretizada. Todas as idéias que lhe vinham à cabeça eram logo transformadas em ações! É uma máquina grande, complicada e pesada, que o Herr Bauer adora e da qual se orgulha, porque sabe que é fantástica e que ninguém jamais criou ou criará coisa igual. É quase uma obra de arte. Mas ele não se lembra pra que serve.

Billy, por e-mail


Casamento

Foi quando fiquei sabendo que Alice havia se casado com um rapaz de carreira promissora no ramo da venda de seguros de vida.Tudo bem, até os amigos um dia se casam. Mas o que mais chamou a minha atenção nesse fato que ocorrera com minha antiga amiga é que ele remonta ao meu passado; faz com que memórias dura e penosamente trancafiadas no mais oculto e obscuro nicho do meu subconsciente - muitas destruídas pelo amargor da precoce vida adulta - voltem à tona, trazendo-me de volta a figura de um colegial suburbano, ébrio e inconseqüente - que teima em continuar vivo dentro de mim.

A notícia veio da boca de um amigo que se encontrava no mesmo bar que eu. Era um dia de sábado, cuja tarde suscitava a uma reflexiva e nostálgica caminhada pelo centro da cidade. De dentro do bar eu podia sentir o vento soprando e fazendo balançar as enormes folhas das palmeiras que se estendiam pela alameda, irritando os olhos dos transeuntes sempre apressados, levando embora as folhas secas no chão bem como os anos de minha vida, como se esses fossem grãos de areia que foram se acumulando com o passar do tempo em minha face; deixando-me opaco, sem vida.

Aquele deslocamento de ar fez o tempo regredir: agora eu era um simples estudante, de tênis All Star, calça jeans e camiseta dos Ramones, que fazia do porre aos sábados sua maior preocupação na vida. Meu amigo também rejuvenescera; como tudo que estava ao meu redor. Eu podia ver novamente as garotas que me deixavam num profundo estado de torpor quando passavam e espalhavam pelo ar o cheiro doce de uma água-de-colônia qualquer. Na rua os carros ainda passavam soberbos, brilhantes, exibindo rostos jovens à procura de companhia para a noite.

Eu observava a tudo calado. Me limitava apenas a dar um leve e cético sorriso. Era impossível acreditar que os deuses haviam me dado outra chance." Malditos! Sentados numa mesa de bar e decidindo o que fazer com a vida de nós, pobres mortais, que merecem a piedade do Onipotente, obrigado." Alice entrou no bar e nos avistou. Deu um beijo breve no meu rosto e no de meu amigo e entrou na conversa. Pedimos os drinques. Nossa conversa tola, sobre coisas e pessoas tolas, se estendeu pela noite e esvaziou nossos copos e encheu o cinzeiro. Em meio a eloqüência do momento lhe perguntei sobre seu marido. Ela apenas se levantou e me deu um beijo.

E então ele veio à galope.Veio como uma bala de fuzil a atingir uma vidraça, espalhando os estilhaços pelo chão.O tempo, com um forte sopro, levou embora não só minha juventude como também mostrou o que ele havia roubado de mim; o que eu pensava que havia perdido. Arrependido do furto que fizera, me devolveu tudo como era antes - gente enlouquecida, conta de gás e previdência social.

Velho de gravata vermelha levanta-se, faz um comprimento cordial aos companheiros de desespero e parte para a rua pensando se a noiva iria gostar de uma cafeteira de segunda mão.

John Sobrante, por e-mail


5.5.04



rua gustavo sampaio: as duas rodas do táxi se aproximam. percebo sua forma, cor e velocidade na noite melancólica. minhas botas travam no asfalto coberto de areia. do outro lado do hotel, o táxi contorna o forte do Leme. ondas batendo no costão: são para mim, não são eu. não me vejo mais na praça andando de patins. hoje o mostrador embaçado dos relógios sinaliza a gringos, putas e pivetes a temperatura da avenida Atlântica. o carro escorre por Copacabana e eu desvio a cabeça das descargas de gás carbônico. a família inerte no papel de parede. passo pela esquina da rua onde costumava fumar trepada nos capôs. meus colegas da escola não estão mais lá. dentro do táxi um cheiro de lavanda insuportável. volto minha atenção para o livro que estou lendo para distrair uma vontade passageira de fazer cocô. dados da ONU: o patrimônio de somente 300 bilionários excede a renda de metade da população do planeta. tráfico internacional de lixo: a Ásia é o maior depósito de lixo tóxico do Ocidente. faço umas anotações à margem para a reunião de pauta: + economia do crime, comércio global de crianças, mulheres, órgãos etc. massa crítica de gente descartável. uma van ultrapassa o táxi pela direita e quase entra na traseira de um ônibus. ouço freios e palavrões de todos os lados. meu corpo se projeta para a frente e por pouco não vai parar no painel, sufocando as carinhas dos bebês do motorista. me recomponho no cenário e faço uma ligação pelo celular. enquanto espero que atendam procuro na porta do Roxy pelos mendigos deficientes que costumavam ficar por ali desenhando com os pés. ninguém atende. e os mendigos já se foram. preciso parar com esta mania de voltar ao passado pelas esquinas. o motorista pára o táxi na rua Miguel Lemos e espera, folheando umas fotos de Juliana Paes nua que pegou na internet. eu não desço. dou uma desculpa qualquer e seguimos para Botafogo, pela praia. ele não se queixa, diz que o dia até que está calmo, pois não pegou nenhum tiroteio. eu relaxo e acendo um cigarro. posso fumar?


A produção de um livro é assim:

Primeiro o livro chega ao editorial. É traduzido (a maioria não é de autor nacional), depois copidescado, depois segue para a produção e passa por pelo menos duas revisões tipográficas, segue para a gráfica, dali para o depósito, daí para a livraria.

Se o tradutor é ruim, a editora contrata um bom copidesque para consertar a lambança. Muitas vezes o copi não consegue, porque é lambança demais e ele não é Cristo, e o livro sai uma merda.

Se o tradutor é bom, a editora contrata um copi ruim, que acha que é bom, faz uma lambança e o livro sai uma merda.

Na produção, muitos revisores (não todos, pelamordedeus e graçasadeus) não gostam de livro. Fazem uma revisão do tipo gráfico e o resto que se foda. Se o revisor da primeira prova é bom, o da segunda não precisa ser, o da segunda não pega as lambanças que restam e o livro sai uma merda. Se o revisor da primeira é ruim, o da segunda tem que ser bom, o da segunda não consegue pegar todas as lambanças porque o prazo se estreita à medida que o livro caminha para a gráfica, e o livro sai uma merda. O da terceira prova, se houver, em geral só passeia.

O conflito de classes numa editora é agudíssimo. Marx teria poupado um tempo enorme se, em vez de passar anos estudando a história do capital e do trabalho, ficasse apenas um mês dentro de uma editora. Os revisores odeiam os copis, os copis odeiam os tradutores e os tradutores odeiam os copis e os revisores. A produção odeia o editorial e o editorial odeia a produção.

O dono finge que tudo são flores, chora miséria para justificar a merda que paga, concorda com todo mundo e só faz o que lhe dá na veneta.

É assim que se produz um livro.


Mundo Podre


4.5.04





Mas

Não há nada além deste pacto da imaginação.


Sobre o instante

clic
da luz
do intervalo
que revela
sua obscuridade.


Tramas

Uma palavra
trai
a outra versão
de si.
A transversão de si:
seu não
seu necessário
seu inaudível.


Entender

Buscando, ouvindo
essa antiga
cadência
de suas palavras
no metódico
na cifra
na citação
de uma voz anterior.


Coisa

Essa forma é a voz.


Horas

Eu aqui
no trabalho lento da matéria:
madeira
nada.


Formas

E tudo é uma cifra da memória.
E tudo é citação da memória que se repete.


Rodolfo Enrique Fogwill


3.5.04

Roteiro básico para uma vida sem livros



Um país que deseja acabar com os livros não precisa nem de prática nem de habilidade, basta seguir passo a passo os 20 mandamentos abaixo:

1. Aumente o número de editoras até chegar à seguinte equação: haverá no país mais editoras que livrarias.

2. Cada editora deve diminuir a tiragem de cada livro e aumentar os títulos publicados periodicamente.

3. Abarrote as livrarias, diminuindo o tempo de exposição de cada exemplar, pois haverá um rodízio natural.

4. As livrarias não comprarão mais livros, passarão a alugar suas estantes.

5. As livrarias pequenas tenderão a se extinguir ou mudar de ramo, pois não possuirão espaço suficiente para expor todas as novidades. Só sobrarão as megastores.

6. Em virtude do acúmulo de títulos, os jornais só darão a resenha ou crítica 3 ou 4 meses depois do lançamento.

7. Como o livro já estará na livraria há 3 meses, mas ninguém vai saber, ele será devolvido para a editora, pois não terá vendido o suficiente para continuar sendo exposto com destaque, mesmo porque já haverá outro livro mais novo no lugar, que só será resenhado pela mídia 3 ou 4 meses depois e assim por diante.

8. O setor de marketing das editoras escolherá previamente o livro em que irá investir todos os seus recursos de divulgação na mídia. O resto cairá na vala comum.

9. Os suplementos literários passarão a resenhar somente os livros de editoras que anunciarem em suas páginas.

10. Só serão vendidos nas livrarias os títulos que tiveram farta exposição na mídia, ou seja, os que já nasceram best-sellers.

11. As livrarias aumentarão cada vez mais sua porcentagem, chegando a 60%.

12. As editoras passarão a procurar uma tecnologia cada vez mais moderna para baratear os custos, mas deixarão o preço final igual ao de sempre.

13. As distribuidoras contratarão equipes cada vez menos especializadas, de preferência vendedores que nunca tenham lido um livro na vida. Alegarão que isso atrapalha.

14. O direito autoral dos escritores será diminuído dos atuais 10% para 5%.

15. As editoras extinguirão os departamentos de avaliação de originais, pois só serão publicados livros de gente conhecida, celebridades, não necessariamente escritores.

16. As editoras contratarão escritores que passarão a escrever somente livros com potencial de venda, com elementos ditados previamente pelos departamentos de marketing.

17. Só serão publicados livros de ficção que sejam baseados em fatos reais, de preferência chocantes, com a verdade nua e crua como fio condutor da trama e que possam aflorar no leitor uma emoção muito grande.

18. As livrarias passarão a incrementar cada vez mais seus espaços com bares, cafés, restaurantes, pontos de encontro, vendendo games, bichinhos de pelúcia, miniaturas, cigarros importados, bonequinhos, pôsteres, baralhos e outros acepipes.

19. Aos escritores sérios, só restará a alternativa de se mancomunarem em confrarias, onde ficarão se autocitando, autoparodiando, auto-elogiando e punhetando-se uns aos outros.

20. Só terão amplo destaque na mídia os escritores que acabaram de morrer e que, em vida, jamais viram seus nomes impressos nos jornais.


ROTEIRO DAS MELHORES LIVRARIAS


FNAC (Rio e São Paulo)
Local ideal para você comprar o seu aparelho de DVD, TVs com tela plana de 89 polegadas e micros digitais importados do Japão.

LETRAS & EXPRESSÕES (Rio)
Num ambiente agradável e arejado, você poderá escolher charutos cubanos, incrementar sua coleção de motos em miniatura, comprar mimosos bonequinhos de cristal e ainda vai curtir saborosas delicatessens. Não deixe de experimentar a torta de limão.

LIVRARIA DA VILA (São Paulo)
Amplo sortimento de enroladinhos de salsicha, espetinhos de queijo de coalho, amendoins, empadas da fazenda, café de coador, tudo muito caseiro, muito simples, você vai se sentir em casa.

LIVRARIA DA TRAVESSA (Rio)
Lugar ideal para você degustar a maravilhosa salada básica da casa, com generosas porções de rúcula, tomate seco e mussarela de búfala. Tem as atendentes mais gostosas do Rio de Janeiro.

SARAIVA MEGA STORE (Rio e São Paulo)
É lá que você vai encontrar o maior acervo de CDs da praça, todos com preços que variam entre R$ 39,70 (os nacionais) e R$ 91,70 (os japoneses). O melhor café expresso que você já tomou na vida. Tem também revistas importadas.

ARGUMENTO (Rio)
Tem vários tipos de cerveja, tira-gostos incríveis e sanduíches variados. Imperdível a panqueca de espinafre com requeijão.

SICILIANO (Rio e São Paulo)
Infelizmente, esta livraria não acompanhou a tendência atual, mas tem sempre um Habib’s por perto, onde você vai poder se embrenhar na exótica cozinha árabe. Esfihas de carne, queijo e escarola a R$ 0,49 e quibes sempre crocantes a R$ 0,89 na promoção.



Furio Lonza


2.5.04

A vita stá dificille p'ra burro! Us frigueiz nom vó maise nu saló afaze a barba. Tuttos gompra una navaglia Gigollette per trezentó i faiz a barba in casa a settimana intirinha. A literattura non dá maise nada! Anticamente io afaceva unos versinho p'ros namurado dá p'ras anamuradas i acanhava unos caraminguado. Oggi inveiz illos non quere sabe maise di verso -- pega a piquena, amunta na baratina e sái, comme un empiastro...


Juó Bananére, barbieri i giurnaliste, 1933, Zan Baolo.


1.5.04



Quero, para compor os meus castos monólogos
Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,
E, junto aos campanários, escutar sonhando
Solenes cânticos que o vento vai levando.
As mãos sob meu queixo, só, na água-furtada,
Verei a fábrica em azáfama engolfada;
Torres e chaminés, os mastros da cidade,
E o vasto céu que faz sonhar a eternidade.

É doce ver, em meio à bruma que nos vela,
Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,
Os rios de carvão galgar o firmamento
E a lua derramar seu suave encantamento.
Verei a primavera, o estio, o outono; e quando
Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,
Cada postigo fecharei com férreos elos
Para na noite erguer meus mágicos castelos.
Hei de sonhar então com azulados astros,
Jardins onde a água chora em meio aos alabastros,
Beijos, aves que cantam de manhã e à tarde,
E tudo o que no Idílio de infantil se guarde.
O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,
Não me fará volver a fronte ao que passa,
Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento
De relembrar a Primavera em pensamento
E um sol na alma colher, tal como quem, absorto,
Entre as idéias goza um tépido conforto.


Charles Baudelaire, em "Quadros Parisienses" das Flores do Mal.

28.4.04

A linguagem do cabelo


No "Dicionário do Folclore Brasileiro", de Câmara Cascudo, descubro e me especializo na linguagem do cabelo. Obra de referência indispensável para quem estuda literatura folclórica ou simplesmente gosta de saber de histórias, lendas, fábulas, mitos e crendices que o Brasil herdou da África e de Portugal, o Dicionário registra lá que, no início do século 20, a forma de arranjar a cabeleira feminina possuía um vocabulário próprio cuja significação amorosa o homem(namorado) entendia perfeitamente. Vejamos alguns significados dessa linguagem cifrada:

1) cabelo aparado na testa, com franja: "Estou feliz de te ver."

2) coque para trás: "Está perdendo seu tempo comigo."

3) coque no alto da cabeça: "Não consigo te tirar do pensamento."

4) cabelo dividido à esquerda: "Não."

5) cabelo dividido à direita: "Sim."

6) cabelo dividido no meio: "Sou tua", ou "Confio em ti".

7) com as orelhas descobertas: "Espero cartas, notícias, quero falar-te."

8) com a testa descoberta: "Não te quero", ou "Tenho outro alguém".

9) todo o cabelo puxado para trás: "Não tenho compromisso."

10) muitas tranças: "Há obstáculos demais ao nosso amor."

Há muitas outras tradições referentes ao cabelo. Mulheres solteiras costumavam usar cabelos soltos e compridos. As casadas, cabelos presos. As viúvas, em geral a cabeça coberta com uma touca. Já os cabelos cortados curtos significavam para a mulher renúncia completa à vaidade, como a das freiras e monjas. Isso sem falar na punição de mulheres acusadas de "vida dissoluta" e que consistia em rapar-lhes a cabeça. Uma punição também aplicada aos homens acusados de felonia, falsidade e covardia. No caso dos homens, ter cabelos no peito era sinônimo de valentia. E para quem exercia a bruxaria, os cabelos eram material precioso para a realização de feitiços. Por exemplo, uma porção de cabelo da cabeça seria usada para enlouquecer ou matar o desafeto. Um punhadinho de pentelhos, para anular a virilidade. Afe, eu vou é dormir de touca...

27.4.04



Meu amigo confortavelmente instalado na poltrona abre uma cerveja e me fala baixinho detalhes do turbocapitalismo. Eu estou com sono, mas ele está se coçando por um debate e ainda não deixou clara sua posição. Aquela aparente hostilidade ao capitalismo pode ter raízes na esquerda, na direita, e até na terceira via. Ainda não decidi qual é o caso dele. Não me divirto mais com essas coisas. Com o computador ligado, olho alternadamente para ele e a tela congelada. Por dentro, fico penteando um caroço de manga sem que ele perceba. Eu não gosto de desapontar um amigo.



-- Va bene, larga questa machina agora, hum?


26.4.04

Edyr Augusto



Oi


Ninguém tem nada a ver com isso. Minha vida. Eu. Quem quiser que fale. Que ria. Que vaie. Fofocas. Vivo do meu jeito. Comigo. Eles falavam que precisa ter mulher. Filhos. Família. Não deu. Houve uma. Chegava em casa cansado. Dizia oi. Não respondiam. Ficava comigo mesmo. Um dia saí e não voltei. Fiquei na rua. Achei um canto. No meio do mundo. Uma grande avenida. Gente passando. Barulho. A faina. Carros. Ninguém se vê, mesmo. O cara deixou a cadeira de engraxate dando sopa. É minha. Passei a noite. No dia seguinte, chegou todo mordido. Mostrei a faca. Nem precisei falar alto. Agora é minha. Ele foi. Chegou um gringo. Mostrou o sapato. Dei um lustro. Pagou uma banda. Um trombadinha foi comprar pra nós dois. Café da manhã. Veio outro. Almoço. Uma lata de tinta jogada fora. Põe água. Tomo banho. Os barões jogam fora. Caixas, papéis, papelão. Banho tomado, assisto o final da tarde. A pressa dos que voltam para casa. Vão dizer oi. Tá. Arrumo a cama com papelão. Faço uma parede. Durmo. É silenciosa a noite ali no centro. Lá vem o dia. E os caras, apressados. Umas donas gostosas. Quando dá vontade, as putinhas fazem por 5 reais. É coisa rápida. Sempre foi assim. 1, 2, 3. Que bom. Assisto o mundo à minha frente. Não dou opinião. Apenas coleciono imagens. Agora há uma banca de xerox na esquina. Um guardador de carros. Um carrinho de lanches. Família. De outro jeito. Família do mundo. Falamos. Contamos piadas. Trocamos favores. Não perguntamos nomes. É só assunto do dia. Do nosso dia. Às seis eles vão dizer oi. Eu fico. Vou dizer oi porra nenhuma. Os moleques pediram pra adiantar um pouco da cola. Eu devia umas. Parece que forçaram uma barra lá na Praça. De manhãzinha os meganhas vieram. Alguém dedurou. Seguraram forte, aqui no braço e no resto de cabelo no cocuruto. E ainda aquela viada escrota, velha, que mora no casarão, falando aquelas porras de sempre, me chamando de vagabundo, mendigo, drogado, traficante. Vá se foder. Me jogaram no pátio na Seccional do Comércio. No chão, levantei a vista aos poucos. Foda. Turma da pesada. Endireitei o corpo. Encarei. Alguns já me conheciam. De vista. Foda. Fiquei ali. Mofei. Escrotice. Um dia, trocou o delegado. O cara decidiu fazer limpeza. Me jogou fora. Sem culpa formalizada. Que dia era? Sei lá. O mundo aqui fora, de novo. Fui lá na casa. Entrei e disse oi. Os moleques cresceram. A mãe foi levar a roupa lavada para a patroa. Então tá. Tchau. Voltei. A cadeira tinha sumido. Um carro de cachorro-quente no lugar. Do lado, um espaço. Fui andar. Achei uma cadeira. O velhinho arrumou a trouxa e foi dizer oi. Botei lá no espaço. Dormi sentado. O cachorro-quente veio encrespar. A galera falou por mim. Tá. Dando um lustre nos sapatos. Um cuspe e brilha. Vou atrás de papelão. Meu quarto, ali, no meio do mundo. No meio do lixo, um cachorrinho, filhote, perdido. Vem comigo. Improviso uma mamadeira na garrafa descartável de Coca-Cola. Ele fica. Hoje é amigo da esquina. Fica por ali e todo mundo gosta. Não tem nome. Ninguém tem. E então ela chegou. Dessa gente, tem muito. Se tem fome, joga pedra, faz um bode, come manga. Se tem sono, deita no chão e dorme. Ficou ali, chupando uma manga batida, lentamente. Descalça. Pés imundos. Toda imunda. Deitou nos degraus de uma portaria de prédio fechada e dormiu. Deixa pra lá. No dia seguinte, sumiu. Voltou. Ficou ali, calada, olhando para nada. Me atraiu. Joguei um pedaço de pão. Ficou olhando um tempão. Ah, foda-se. Quando olhei de novo, o pedaço não estava. Bom. Fui preparar meu quarto. Ela está sentada na cadeira. No meu trono. Fico brincando em volta, assobiando qualquer coisa. Ela, nada. Peguei a lata. Tinha um resto de água. Lavei os pés. Ela continua olhando o nada. Mas havia um fio de sorriso. Me animo. Assobio à sua volta. Faço uma dança. Ela levanta e sai. Vai para o seu degrau. Deita e fecha os olhos. Lá, o fio de sorriso. Que coisa. No dia seguinte foi aquela farra. A galera zoando. Namorada, namorada. Fechei a cara. Namorada o caralho. Até peguei a faca. No fim do dia ela chegou estranha. Tremia, batia na cabeça. Não sabia se chegava junto. A gente nunca sabe. Se acocorou num canto e ficou. Sei lá. Deitei. Me acordou. O cachorro nos braços. Passando a mão na minha cabeça. Me assustei. Quase bati. Agora, eu tinha certeza, ela olhava pra mim. Assobiou minha música. Chamei pra deitar. Não era pra tirar confiança. Só pra deitar. Ela não veio. Levantei. Ficamos ali, a noite inteira. Calados. De vez em quando eu assobiava, ela respondia. Dormi. Ela foi. Mas agora volta mais cedo. Já estou pronto. Dou um lustre na bota. Não falei da minha bota? De caubói. Com desenhos. Meu tesouro. Sento no trono e espero. Quando ela chega, assume. Deixa falarem. O cachorro gosta. Assobiamos. Agora já ri. Às vezes dorme um pouquinho. Tem um sono esquisito. Curto. Diz coisas. Pede desculpas. Que não, não e não. Sei lá. Quando acorda, fecha a matraca. Passei a mão no rosto. Olhou, riu e chorou. Só. Somos eu, o cachorro e ela. No meio do mundo. Pra mim está bom. E nem dizemos oi.




24.4.04

Diatribe


Dois zoilos mui completos deste mundo,
Dois zoilos há terríveis e zelosos,
Que estando sem fazer, mui ociosos
Só tratam dum falar nauseabundo.

Eu sei mui bem seus nomes -- não confundo
Com esses bem sensatos, talentosos,
Com esses lidadores mui briosos
Que têm estudo imenso e bem profundo!

Mas ah! pra que tempo hei-de gastar
Com quem só vive imerso na caligem
D’inveja torpe e vil a esbravejar!

Isto, meus amigos, é impigem
Que quanto se procura mais coçar
Tanto e tanto mais só dá prurigem!



Escravocratas


Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos, agachados -- bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar -- formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos a espinha -- enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordinário --
Da branca consciência -- o rútilo sacrário
No tímpano do ouvido -- audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro -- ouvindo-vos urrar!


Cruz e Sousa


23.4.04



Se Leonardo dá vinte
Por que é que eu não posso dar dois

Mesmo apertando na encolha, malandro
Pinta sujeira depois

Levei um bote perfeito
Com um baseado aceso na mão
Tomei um sacode regado a tapa
Pontapé e pescoção
Eu fui levado direto à presença do dr. delegado
Ele foi logo gritando: ''Vai se abrindo, malandro
E me conta tudo como foi''
Eu respondi: ''Se Leonardo dá vinte
Por que é que eu não posso dar dois''

''Leonardo é Leonardo'', disse o doutor
Ele faz o que bem quer, está tudo bem
Infelizmente é que, na lei dos homens
A gente vale o que é e somente o que tem
Ele tem imunidade para dar quantos quiser
Porque é rico, poderoso e não perde a pose
E você que é pobre, favelado
Só deu dois, vai ficar grampeado no doze


Bezerra da Silva




Sim, eu conheci uma noviça rebelde. Seu nome não era Maria, não era Julie Andrews. Nós não estávamos em Hollywood. Para mim a Irmã Domitila era simplesmente Lolita. Que me ensinou a ter mais paciência com o seu Deus enquanto ouvíamos cantos gregorianos e eu vomitava minhas filosofias baratas madrugada adentro. Nós ríamos e secávamos uma garrafa de vinho, porque ela era afinal uma ex-freira mas não era santa. Uma amizade que atravessou anos, sem crenças, cobranças, ao som da música. Do amor puro sem Jesus. E hoje minha noviça rebelde se foi. Há uma estrela lá do lado da lua crescente que eu não sei como vocês chamam, porque para mim é Lolita. Onde sempre haverei de procurá-la. Sempre que descansar em paz.

22.4.04

MARIA VAI COM AS OUTRAS

Peguei no Mundo Podre, que pegou no Sopa (de mim), que pegou na Fal que pegou na Mel, que pegou na Dani, que pegou no Delfin:

Instruções:
1. Pegue o livro mais próximo de você;
2. Abra o livro na página 23;
3. Ache a quinta frase;
4. Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.


Bom, o meu deu o seguinte:

"He has to like me", he tried to convince himself.

A frase foi do livro There's a Boy in the Girls' Bathroom, de Louis Sachar. O livro mais perto de mim que achei no momento. Waarl, nada como uma diversão para sacudir a poeira. Já imaginou quem ficar no final da corrente?

21.4.04



Além de poeta prolífico, Byron ficou também conhecido pela profusão admirável de cartas que escreveu. Em 1819, morando em Veneza, escreve uma deliciosa carta a seu editor e amigo John Murray para contar-lhe a história de Margarita Cogni, uma de suas quase duzentas amantes no período de dois anos. Extravagante, Byron apreciava as mulheres de condição humilde, por julgar as damas da sociedade "mais feias que a própria Virtude". O excerto da longa carta publicado aqui foi realizado a partir da versão na íntegra que saiu na edição brasileira de Beppo: uma história veneziana, com tradução de Paulo Henriques Britto.

"Meu caro

...Você comprou os desenhos que Harlow [o pintor] fez de Margarita e de mim por um preço muito alto, a meu ver, mas como você quer saber a história de Margarita Cogni, vou contá-la, ainda que seja um tanto longa. Seu rosto é do belo molde veneziano dos velhos tempos e suas formas, embora ela talvez seja alta demais, não são menos belas... No verão de 1817, eu e Hobhouse [amigo e confidente de Byron] estávamos passeando a cavalo ao longo do Brenta [rio] uma tarde quando vimos, num grupo de camponeses, as duas moças mais belas dos últimos tempos. Recentemente a região passara por muito sofrimento e eu ajudara algumas pessoas. Um pouquinho de generosidade impressiona muito, quando trocada em moeda veneziana, e a minha fora talvez excessiva sendo eu inglês. Se elas perceberam que olhávamos para elas ou não, isso eu não sei, mas uma delas se dirigiu a mim em veneziano. "Por que o senhor, que ajuda os outros, não pensa em nós também?" Virei-me e respondi-lhe: "Minha cara, você é bela e jovem demais para precisar de minha ajuda." Ela respondeu, "Se o senhor visse minha cabana e minha comida, não falaria assim". Tudo isso foi num tom de brincadeira e não a vi de novo por uns dias. Algumas tardes depois, encontramos essas moças novamente e elas se dirigiram a nós em tom mais sério, garantindo que o que diziam era verdade. Eram primas, Margarita casada, e a outra solteira...combinei de encontrá-las na tarde seguinte. Hobhouse se engraçou com a jovem solteira... e a minha levantou obstáculos ante minhas propostas, dizendo que queria pensar. Disse-lhe eu: "Se você está mesmo passando necessidade, eu a ajudo sem lhe impor quaisquer condições, e você pode ou não fazer amor comigo, como quiser,... mas se não está passando necessidade, então isto aqui é um encontro amoroso e julguei que estivesse ciente deste fato quando combinou encontrar-se comigo." Ela disse que não tinha nada contra fazer amor comigo já que era casada e todas as mulheres casadas faziam isso, porém seu marido (que era padeiro) era uma fera e ia fazer-lhe algum mal. Para encurtar a história, após alguns encontros entramos em acordo e durante dois anos, no decorrer dos quais tive mais mulheres do que sou capaz de relatar, ela foi a única que manteve sobre mim uma ascendência muitas vezes disputada e nunca diminuída. Como ela própria dizia em público, "Não faz mal, ele pode arranjar mais quinhentas, sempre acaba voltando pra mim". As causas deste fato eram, em primeiro lugar, seu físico, bem trigueira, alta, rosto veneziano, olhos negros excepcionais e certas outras qualidades que não é necessário mencionar. Tinha 22 anos e, por nunca ter tido filhos, não havia estragado suas formas, nem mais coisa alguma, o que, acredite, é de grande importância num clima quente onde elas ficam frouxas e flácidas e flopt pouco tempo depois de procriar. Além disso, era uma veneziana autêntica em seu dialeto, em suas idéias, em sua expressão, em tudo, com toda a ingenuidade e o humor pantaleônico típicos de lá. Ademais, não sabia ler nem escrever, portanto não me importunaria com cartas... Sob outros aspectos ela era um tanto feroz e prepotente, costumando entrar quando lhe dava na veneta, sem ligar para hora, lugar, nem pessoas, e se encontrava alguma mulher na sua frente, a derrubava. ... Quando fui passar o inverno em Veneza, ela foi atrás: nunca tive uma relação regular com ela, mas sempre que ela aparecia, eu não deixava que qualquer outra interferisse, e assim, percebendo o meu favoritismo, ela vinha com bastante frequência. Mas seu amor-próprio era excessivo e ela não tolerava outras mulheres... e, como na época eu era um tanto promíscuo, ocorriam muitas confusões e demolições de penteados e lenços e por vezes meus criados, tentando pôr fim a um conflito entre ela e outras senhoras, recebiam mais socos do que agradecimentos por suas iniciativas de paz. ... Por fim ela brigou com o marido e uma noite fugiu para a minha casa. Expliquei-lhe que aquilo, nem pensar, e ela disse que preferia deitar-se no meio da rua a voltar para ele, que ele batia nela (a doce tigresa), gastava o dinheiro dela e abandonava seu forno de modo escandaloso. Como era meia-noite, deixei-a ficar, e no dia seguinte não havia como fazê-la sair. Veio o marido, rugindo e chorando e implorando que ela voltasse, pois sim que ela voltava! Ele então recorreu à polícia, a qual recorreu a mim e eu disse à polícia e ao marido que a levassem, eu não a queria, ela viera e eu não podia jogá-la pela janela, mas que eles poderiam levá-la pela porta se quisessem. Ela foi parar na delegacia, mas foi obrigada a voltar com aquele "becco ettico" (corno tísico), como ela se referia ao pobre coitado, que estava tuberculoso. Alguns dias depois ela fugiu de novo. Depois de pintar e bordar, instalou-se na minha casa, sem meu consentimento, por culpa exclusiva de minha indolência e por eu não conseguir manter a firmeza, pois se eu começava a me irritar, ela sempre acabava fazendo-me rir com alguma palhaçada veneziana, e a ciganinha sabia disso muito bem, tal como conhecia seus outros poderes de persuasão e os exercia com o tato e o êxito que caracterizam todas as coisas fêmeas, elevadas e baixas, são todas iguais neste ponto. ... Ela oscilava de um extremo a outro, ou chorava ou ria, e ficava tão feroz quando irritada que apavorava homens, mulheres e crianças, pois tinha a força de uma amazona e o temperamento de Medéia. Era um magnífico animal, porém impossível de domar. Eu era a única pessoa que ainda conseguia controlá-la até certo ponto...Nesse ínterim, ela batia nas mulheres e interceptava minha correspondência. ... chegou mesmo a estudar o alfabeto com o fim (segundo afirmou) de abrir todas as cartas que me eram enviadas e lê-las. Tenho de fazer justiça a seus talentos domésticos, depois que veio para minha casa como "donna di governo", as despesas caíram para menos da metade e cada um passou a cumprir suas obrigações direito, os aposentos eram mantidos em ordem como tudo o mais e todo mundo, menos ela. Eu tinha motivos para acreditar que ela, lá a seu modo louco, tinha bastante consideração por minha pessoa... porém seu reinado aproximava-se do fim. Tornou-se completamente ingovernável alguns meses depois e uma série de queixas, algumas verdadeiras e muitas falsas, "favorita não tem amigos", levaram-me a decidir afastar-me dela. Disse-lhe com calma que ela teria de voltar para casa (ela havia adquirido uma provisão suficiente para si própria, sua mãe etc., no tempo em que estivera a meu serviço) e ela recusou-se a sair da casa. Fui firme e ela saiu, com ameaças de facas e de vinganças. ... No dia seguinte, durante meu jantar, ela entrou, depois de quebrar uma porta de vidro do salão à guisa de prólogo, e, avançando até a mesa, arrancou-me a faca da mão, cortando-me de leve o polegar. ...Então, chamei meus barqueiros e mandei que aprontassem a gôndola e a levassem de volta para sua casa... Ela parecia calma enquanto descia a escada. Voltei ao jantar. Ouvimos um grande barulho, saí e encontrei-os na escada, carregando-a de volta para cima. Ela havia se jogado no canal. ...Percebi sua intenção de reinstalar-se e mandei chamar um médico. ...Após sua recuperação, mandei que a entregassem em casa discretamente e nunca mais a vi, salvo duas vezes na ópera... Ela fez muitas tentativas de voltar, mas nenhuma violenta. E esta é a história de Margarita Cogni, até onde estou envolvido. Esqueci de dizer que era muito devota e persignava-se quando ouvia o sino indicar a hora da prece, às vezes em momentos nos quais esta cerimônia não parecia muito condizente com o que ela estava fazendo. Tinha respostas rápidas na ponta da língua como, por exemplo, num dia em que ela havia me irritado muito por ter batido em alguém e chamei-a de "vaca", o que em italiano é uma séria afronta. Chamei-a de "vacca", ela virou-se, fez uma mesura e respondeu: "Vacca tua, 'Celenza." Em suma, era como já disse, um magnífico animal, de beleza e energia consideráveis, com muitas qualidades boas e algumas divertidas, porém selvagem como uma bruxa, e feroz como um demônio. Costumava vangloriar-se em público de sua ascendência sobre mim, contrastando-a com a de outras mulheres e atribuindo-a a razões de ordem física e moral que melhor diziam de seu físico que de sua moral. Era bem verdade que todas tentaram livrar-se dela e nenhuma conseguiu, até que foram ajudadas pela sua própria falta de juízo. Sempre que havia uma competição, e às vezes uma era fechada num quarto e outra noutro para impedir uma batalha, a Fornarina [a padeira] geralmente tinha a preferência.

Com muita estima e afeição

B"

19.4.04

Giovanni de' Dondi, de Pádua,
gastou uma vida
para construir um relógio.

Um relógio sem igual, insuperado
durante quatrocentos anos.
Mecanismo múltiplo,
rodas dentadas elípticas;
ligadas por engrenagens articuladas,
e o primeiro escapo fusiforme:
uma construção inaudita.

Sete mostradores
indicam a situação do firmamento
e as revoluções silenciosas
de todos os planetas.
Um oitavo mostrador,
o mais discreto de todos,
marcava a hora, o dia e o ano:
A.D. 1346.

Trabalhado à mão pelo próprio:
uma máquina celestial,
sem finalidade e plena de sentido, como os Trionfi,
um relógio de palavras
construído por Francesco Petrarca.

Mas por que perdeis tempo
com o meu manuscrito,
se não sois capazes
de me imitar?

Duração do dia solar,
nós da órbita da Lua,
festas móveis.

Uma máquina de calcular e ao mesmo tempo
uma reprodução do céu.
Em latão, em latão.
Nós continuamos a viver sob esse céu.

A gente de Pádua
não olhava para o relógio.
As carroças da peste rolavam pelas calçadas.
Os banqueiros
saldavam as suas contas.
A comida escasseava.

A origem daquela máquina
é problemática.
Um computador analógico.
Um menhir. Um astrário.
Trionfi del tempo. Restos.
Sem finalidade e plenos de sentido
como um poema de latão.

Nenhum Guggenheim mandava
cheques a Francesco Petrarca
no primeiro dia do mês.
De' Dondi não tinha contrato
com o Pentágono.

Outros predadores. Outras
palavras e rodas. Mas
o mesmo céu.
Nós continuamos a viver
nessa Idade Média.


Hans Magnus Enzensberger

17.4.04

Sou um homem doente... Um homem despeitado. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo absolutamente nada da minha doença, nem sei ao certo do que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além disso, sou supersticioso ao extremo; o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. (Tenho bastante instrução para não ser supersticioso, mas sou.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Mas eu compreendo. Está claro que não vos saberei explicar a quem exatamente estarei prejudicando, nesse caso, com a minha raiva; sei muito bem que aos médicos não causo dano algum por deixar de consultá-los; percebo melhor do que ninguém que, com tudo isto, o único a sair perdendo sou eu. Mas, seja como for, se não me trato é por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais! (...) Não consegui chegar a ser coisa alguma, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem homem de bem nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias no meu canto, escarnecendo de mim mesmo com o inútil e despeitado consolo de que um homem inteligente não pode vir a ser nada de sério e de que só o idiota o consegue. Sim, um homem inteligente do século 19 precisa e está moralmente obrigado a ser, em essência, uma criatura sem caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, é fundamentalmente uma criatura limitada. Esta é a convicção dos meus quarenta anos. Tenho agora quarenta anos, e quarenta anos são toda uma vida, são a mais irremediável velhice. Viver mais de quarenta anos é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? -- respondei-me sincera e honestamente. Vou dizer-vos quem: os idiotas e os inúteis. Vou dizer isto na cara de todos esses velhos respeitáveis de cabeleiras prateadas e perfumadas! Vou dizê-lo na cara de todo mundo! Tenho direito de falar assim, porque eu mesmo viverei até os sessenta. Até os setenta! Até os oitenta!... Um momento! Deixai-me tomar fôlego...


Dostoiévski, em Zapíski iz podpólia (Memórias do Subterrâneo, Notas do Subterrâneo ou Memórias do Subsolo), 1864.

16.4.04

Rio, apartheid social: morro x asfalto
(para refrescar a memória)


. 5 regiões + ricas da cidade: Lagoa (Ipanema+Leblon), Barra, Botafogo, Copacabana, Tijuca. Seus moradores trabalham 5 horas a menos e têm renda 5 vezes maior (R$2.145 mensais) do que a renda dos moradores das 5 maiores favelas (R$405) : Rocinha, Jacarezinho, Maré, Complexo do Alemão, Cidade de Deus.

. Taxa de desemprego nos bairros ricos: 9,9 %
. Taxa de desemprego nas favelas: 19,1 %

. O município do Rio tem 14,6% (855 mil cariocas) de miseráveis (aqueles com renda per capita de até R$79).
. O estado do Rio tem 19,45% (2,7 milhões) vivendo abaixo da linha da miséria.

. Na Rocinha, 21,8% (12 mil) de seus 56 mil moradores estão abaixo da linha da pobreza.
. No estado do Rio, o município de São Francisco de Itabapoana tem quase metade dos seus moradores vivendo abaixo da linha da pobreza.
. Erradicar a miséria na capital custaria cerca de R$34 milhões por mês. E no estado, R$109 milhões. Se cada carioca contribuísse com 5,90 reais por mês, seria possível erradicar a miséria.

.Taxa média de escolaridade:

Brasil: 4,81 anos de estudo
Estado do Rio: 5,88 anos
Município do Rio: 6,87 anos
Bairros ricos: 11,9 anos
Favelas: 6,2

. O Brasil tem 56 milhões de miseráveis.


-- dados do estudo "Mapa do fim da fome II" do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, lançado em 15.04.2004.

15.4.04

Vestida para Dormir



tropeço em volta da cama e acerto o despertador para as 5.
os três cubos de gelo no copo já derreteram.
eu daria tudo por um feijão com carne seca agora,
mas minha alma feminina remói outras delicadezas.


SO LET ME HAVE MY FUN


Tri tri tri-fru fru fru-ihu uhi uhi!

The poet's having fun;
he's mad
and out of control!
But don't say anything bad,
let him have his fun,
poor soul:
these harmless little tricks
that give him his kicks.

Cucu ruru-ruru cucu-cucucucurucu!

What are these obscenities?
These stanzas, who can read them?
Freedom, freedom,
poetic freedom!
They're my passion.

Farafarafarafa-tarataratarata
paraparaparapa-laralaralarala!

Do you know what they are?
Avant-garde stuff:
not mere grotesqueries
but the finishing off
of other poetries.

Bubububu-fufufufu-Friu-Friu

It hasn't a shred
of wit -
so why does he write it,
the block-head?

Bilobilobilobilobilo-blum
Filofilofilofilofilo-flum
Bilolu. Filolu-U.

It isn't true they have no meaning,
they mean something;
what they mean
as when
one starts to sing
and doesn't know the words . . .
a very vulgar thing,
and yet it's to my liking!

Aaaaa! Eeeee! Iiiii! Ooooo!
Uuuuu ! A ! E ! I ! O ! U !

But young man
will you tell me this:
isn't your act a pose,
to claim with such little justification
you're going to cause
a conflagration ?

Whish . . . . . whish . . . .
Shoo shoo shoo Koku koku koku

But how is one to understand?
You make pretences that are meant to please,
but all the same they sound like Japanese.

Abi, all, alari,Ririririri! Ri.

Don't go off on a spree;
it's better not to be so free.
Your fun will cost you quite a bit,
and you'll be called an ass for it.

Labala falala falala and even lala.
Lalala lalala!
The risk is certainly great
to write the way you do.
Like guards at every gate
the professors are watching you.
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
When all is said and done
I’m right, the times have changed,
And men don’t ask a thing
Of poets anymore,
So let me have my fun!


Aldo Palazzeschi, poeta futurista italiano, 1910. Poema em versão inglesa. E para você se divertir mais um pouquinho, veja a tradução do Google para o mesmo poema. Não confie.


DEIXE-ME ASSIM TÊM MEU DIVERTIMENTO


Uhi tri tri do uhi de USC-ihu da USC tri-USC!
O poeta que tem o divertimento;
é louco
e fora do controle!
Mas não diga qualquer coisa mau,
deixe-o ter seu divertimento,
alma pobre:
este harmless pouco engana
essa elasticidade ele que his retrocede.
Cucu-cucucucurucu do ruru-ruru de Cucu!
Que são estes obscenities?
Estes stanzas, quem podem lê-los?
Liberdade, liberdade,
liberdade poética!
São minha paixão.
Farafarafarafa-tarataratarata
paraparaparapa-laralaralarala!
Você sabe o que são?
Material de Avant-garde:
grotesqueries nao meros
mas o revestimento fora
de outros poetries.
Bubububu-fufufufu-Friu-Friu
Não tem um shred
da sagacidade -
assim porque a escreve,
a obstru-cabeça?
Bilobilobilobilobilo-blum
Filofilofilofilofilo-flum
Bilolu. Filolu-U.
Não é verdadeiro eles não tem nenhum meaning,
significam algo;
o que significa
como quando
um começa cantar
e não sabe as palavras. . .
uma coisa muito vulgar,
no entanto é a meu gostar!
Aaaaa! Eeeee! Iiiii! Ooooo!
Uuuuu! A! E! I! O! U!
Mas homem novo
vontade você diz-me este:
não é seu ato um o pose,
para reivindicar com tal pouca justificação
você está indo causar
um conflagration?
Whish. . . . . whish. . . .
Koku do koku de Koku do shoo do shoo de Shoo
Mas como é um a compreender?
Você faz os pretences que são significados satisfazer,
mas todos os mesmos que soam como o japonês.
Abi, tudo, alari, Ririririri! Ri.
Não vá fora em um spree;
é melhor não ser assim livre.
Seu divertimento custar-lhe-á completamente um bocado,
e você será chamado um burro para ele.
Falala e mesmo lala do falala de Labala.
Lalala de Lalala!
O risco é certamente grande
para escrever à maneira você .
Protetores do gosto em cada porta
os professores estão prestando-lhe atenção.
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
Ahahahahahaha!
Quando tudo for dito e feito
A direita de I'm, os tempos mudou,
E o don't dos homens pede uma coisa
Dos poetas anymore,
Deixe-me assim têm meu divertimento