4.3.04

John Donne




A pulga

Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
E embora possas dar-me fim, não dês:
É suicídio e sacrilégio, três
Pecados em três mortes de uma vez.

Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegres de dizer que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
Então, tua cautela é desmedida.
Tanta honra hei de tomar, se concedida,
Quanto a morte da pulga à tua vida.

3.3.04




-- A lágrima é um líquido quente que a gente expél plu glovo bisuale cando soluça.

-- U savão é uma suvstancia iscurregadia e ispumôsa que só serbe p'ra sujáre a iagua do vanho.

-- Cáim diz q'um kilo d'algodão é a mesma coisa q'um kilo de chumvo nunca biu Arithmetica ou sciencias adjacentes.

-- Cáim é rico é rico. Cáim é pobre que se dane.

-- A gente cando é, é.

-- É masmo uma pena u sol nascêre de dia! O dia, de si, já é tão claro!

-- O amôre é uma coisa que cando dá n'uma p'ssoa, ella fica logo vesta. E si a p'ssoa já é vesta antao nám se fala.


- Alguns pensamentos e ditados publicados em 1930 no livro de humor Caldo Berde, de Horácio Mendes Campos, o "Furnandes Albaralhão", ex-colaborador do famoso jornal de humor e sátira dos anos 20 "A Manha", do Barão de Itararé.

2.3.04

Os Meus Otto Anno

O chi sodades che io tegno
D'aquillo gustoso tempigno,
Ch'io stava o tempo intirigno
Brincando c'oas mulecada.
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá.

Che sbornia, che pagodêra,
Che pandiga, che arrelía,
A genti sempre afazia
No largo d'Abaxo o Piques.
Passava os dia i as notte
Brincando di scondi-scondi,
I atrepáno nus bondi,
Bulino c'os conduttore.

Deitava sempre di notte,
I alivantava cidigno.
Uguali d'un passarigno,
Allegro i cuntento da vita.
Bibia un caffé ligêro,
Pigava a penna i o tintêro
Iva curréno p'ra scuóla.

Na scuóla io non ligava!
Nunga prestava tençó,
Né nunga sapia a liçó.
O professore, furioso,
C'oa vadiação ch'io faceva,
Mi dava discompostura;
Ma io era garadura
I non ligava p'ra elli.

Inveiz di afazê a liçó,
Passava a aula intirigna,
Fazéno i giogáno boligna
Ingoppa a gabeza dos ôtro.
O professore gridava,
Mi dava un puxó di oreglio,
I mi butava di gioeglio
Inzima d'un grão di milio.

Di tardi xigava in gaza,
Comia come un danato,
Puxava u rabbo du gatto,
Giudiava du gaxorigno,
Bulia co'a guzignêra,
Brigava c'oa migna ermá:
I migna mái p'ra cabá,
Mi dava una brutta sova.

Na rua, na vizinhança,
Io era mesmo un castigo!
Ninguê puteva commigo!
Bulia con chi passava,
Quibrava tuttas vidraça,
I giunto co Bascualino
Rubava nus botteghino,
A aranxia pera du Rio.

Vivia amuntado nus muro,
Trepado nas larangiêra;
I sempre ista bringadéra
Cabava n'un brutto tombo.
Mas io éra incorrigive,
I logo nu otro dia,
Ricominciava a relia,
Gaía traveiz di novo!

A migna gaza vivia
Xiigna di genti, assim!!...
Che iva dá parti di mim.
Sembrava c'un gabinetto
Di quexa i regramaçó.
Meu páio, pobre goitado,
Vivia atrapagliado
P'ra si livrá dos quexozo.

I assi di relia in relia,
Passê tutta infança migna,
A migna infança intirigna.
Che tempo maise gotuba,
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá!


Juó Bananére, em paródia ao poema "Meus Oito Anos", de Casimiro de Abreu.




Balmasque

business as usual


Os industriais queriam artigos diários que pressionassem o governo. Hesse explicou-lhes, paciente, que semanalmente era melhor: "Os motivos são psicológicos e técnicos. Sai um numa semana. É comentado, discutido. A ausência, nos dias seguintes, saliva o apetite dos que nos apóiam, aumenta o debate e a platéia do próximo. O governo ganha tempo, porém fica inquieto, à espera de novos argumentos. Prefere não responder antes que tudo venha à luz, o que é, falando nisso, a única tática certa, do lado dele. Se soltarmos a bola de uma vez, acabaremos nos repetindo, cansando nosso público e diluindo o incentivo à divulgação de boca, e avançando demais terminaremos expondo algum flanco a um contra-ataque de Brasília, que, afinal, dispõe de um grupo culto de economistas. O negócio é mantê-los na ansiedade, na defensiva, tontos. (...) se o jornal ficasse todo dia no assunto (...) perderíamos acesso a nossos amigos nos ministérios (...) o que não nos interessa ou às classes produtoras, pois nosso objetivo é persuadir e não irritar. (...) A nossa estratégia, acreditem, é a correta."

Paulo Francis, em Cabeça de Papel.

1.3.04

"O Brasil está em nossas mãos, e não adianta lavar"



Vote em mim e não se preocupe

Povo bom da minha terra
Povo besta e sofredor
Povo que vive cansado
De ser explorado sem nenhum pudor
Supondo que você
eleitor que se preze
Tendo eu fé em você
Você fé em mim
É chegada a hora
De unir nossas fezes

Prometo ajudar o pobre
O valente e o mofino
A rapariga, o rico, o velho e o menino
A classe trabalhadora
E a minha pessoa

Não jogue fora o seu voto fora
Vote em mim nem que seja agora
Pois eu sou comprometido com as reformas
Nem que seja da piscina da casa da minha sogra


Orai & Vigiai


Eu sou o enviado divino,
O pastor que vem pra lhe salvar.
Para tanto é bastante pagar o dízimo
E diariamente no culto orar.
Chego na igreja de manhã,
Fico de sábado a sexta-feira.
Faço um acabamento nas irmãs
E ainda chuto a padroeira.

E digo conforme o versículo nono:
"Mais valem duas pedras no meio do caminho
Do que uma no rim..."

Garanta seu lugar no Paraíso,
Este campo santo ocupacional,
Pois nossa ordem é credenciada
No alto comando celestial.
Se livre de tudo que for banal:
Sua casa, seu carro, sua geladeira.
Seja manso, bom e fraternal,
Pague em dia o carnê da nossa igreja.

Pois conforme diz o versículo nono:
"Mais valem duas pombas moles na mão
Do que uma dura voando..."


Falcão

29.2.04

Blog date


27.02 Há uns meses atrás fui olimpicamente insultado por um blog. Amanhã ela vai tomar café comigo. Deve ser a tão falada crise da blogosfera.

29.02 Como escrevi na sexta-feira, fui beber café com a blogger que antes me chamou de "velho" e "alimentado a rações de nitrofuranos".
Gostei muito de a conhecer.
De notar que, antes de nos despedirmos, ela ainda disse:
"-- Mas tu és um capitalista fascista, cheio de dinheiro e amigos e coiso..."
Obviamente ficamos amigos.


No Quinto dos Impérios

arroz de tomate

nesse dia a noite viera mais cedo - na verdade, o seu particular adormecimento fizera-se pelas quatro da tarde, era dia, e com os dados assim lançados proponho um brinde à aldeia à casa amarela às ruas outonecidas que se lhe dirigem à satisfação iniciática ao pão com fiambre de vez em quando.


Homem de Cuecas


27.2.04

São os vermes que formam o húmus.
Os coqueiros só atraem relâmpagos.


As janelas do quarto estão fechadas mas eu sei que tem alguém me espionando. De dentro. Remoendo a memória. Um Cristo posando para a posteridade de gesso. Um Bel Air ano 57 sobre a mesa. A TV Emerson. A Frigidaire. Sobre os sofás pés de palito, minhas bonecas desmembradas fazem sombra. Meu pai a cabeça, minha mãe os braços, minha irmã as pernas. Eu junto toda a família e lembro de coisas que não me interessam: há dois dias, vejam só, num jantar informal na casa de L.B., a quem só conheço de mesas de bar, um sujeito com um copo de Cuttysark na mão me confidenciou seus temores. Disse que como ex-oficial da inteligência do exército brasileiro, via com preocupação a nossa "situação" em Foz do Iguaçu. Como assim?, eu perguntei, com a minha melhor expressão de espírito livre. Ele virou os olhos para um bonsai sobre a mesa e ali fixou-os por uns trinta segundos, sem me responder nada. Tive tempo de acender um cigarro, dar dois tragos e reabastecer o meu copo. Vejo com preocupação o interesse norte-americano na região de Foz do Iguaçu, ele repetiu. Essa justificativa de haver terroristas na região. Isso é preocupante. Não nos convém. Afeganistão, Iraque, agora o Haiti. Não sei não. Muito preocupante. Não foi Caetano quem disse naquela música:"o Haiti é aqui"? O Havaí, eu corrigi, começando a me coçar. Eu já conhecia essa história. Eu não queria conversar com um milico, não queria admitir a possibilidade de uma invasão. Me lembrei do pau-de-arara e molhei as calças. Deixei o cara falando sozinho e fui pro banheiro. Os tempos mudam mas minha memória é uma esponja. Não sei quando vou superar. Abro as janelas e o lado de dentro não sai.

Chegou tarde, já passava da meia-noite, deixou o fuzil 762 em cima da mesa, tirou a .40 e colocou na gaveta do armário, foi para o banheiro e lavou o rosto, o plantão fora exaustivo, enfiar cocaína na boca do viciado, comandar os PMs para bater corretamente em marido valente, forçar suspeito a assinar o boletim de ocorrência, tudo isso cansava demais, prometia toda noite não se envolver pessoalmente, mas gostava, era assim que Mendonça sempre foi considerado, um delegado que fazia o que gostava, tirou a camisa, foi até o quarto de Carol, viu que estava dormindo, as crianças também deveriam estar, achou bom, foi à geladeira, pegou uma cerveja, desceu para o porão, ligou o computador, acessou a internet e entrou no mundo que mais gostava, a braguilha foi aberta, olhava para o monitor fixamente, as calças desceram para os joelhos, estava quase gozando quando ouviu um barulho, olhou pelas escadas, não devia ser nada, abriu os botões da camisa, continuou vendo as fotos de pedofilia e finalmente gozou, abriu a gaveta da escrivaninha, tirou uma toalha, passou pela barriga e pelas pernas, cheirou a toalha e decidiu deixá-la no cesto para Carol lavar.


Ferréz, em Manual Prático do Ódio, 2003.


Rodrigo Gurgel, editor da Novae, abandonou a canoa furada do blogger.sem.br, onde publicava o seu indispensável Crônica Literária, e partiu para outra. Confira.

26.2.04

Norma Jean Baker



I stood beneath your limbs
and you flowered and finally clung to me
and when the wind struck with... the earth
and sand -- you clung to me.


-- versão na íntegra do poema "To the Weeping Willow" de autoria de Marilyn.
A foto é de André deDiennes, dos tempos pré-fama.

Era Bush: A Paixão de Cristo segundo Mel Gibson, um servo da "Sagrada Família" que fatura a Violência Sagrada. Leia mais no excelente Rua da Judiaria.

25.2.04

Aceitar é gostar


Já escrevi um pequeno poema que lerei hoje durante o jantar na casa da minha prima.
Na verdade, dizer que escrevi não é exato. Copiei, isso sim, uns versos do italiano Diogo Balzirossi, em tradução livre do chef Santo Alípio (que não transpôs as rimas mas abrilhantou a essência).
Minha prima nem vai notar a traquinagem. Não é mulher dada a leituras. Nem eu sou homem dado a poesias. Mas, se ela gosta de ouvir, o que me custa copiar, e ler?

Alcachofras (gotas)
lençóis (refogados)
de pepitas (folhadas)

Alkaseltzer (não remove)
alfaces (verdelíneos)
nabos (yellow-blue)


Diogo Balzirossi é imbatível. Faz poesia gastronômica com a mesma destreza com que minha prima esparrama suas receitas pela cozinha. Uma cozinha florida, enjoada, apinhada de potes com ervas de provence de validade vencida, que ela nem usa, mas enfeitam que é uma beleza.
Hoje à noite, ela me avisou: teremos ensopados encorpados e temperos ligeiros. Da última vez, serviu berinjela meia-tigela. Modesta, ignora se tal pitéu me apetecéu. Mas sabe muito bem distinguir os falsos dos verdadeiros apreciadores da arte. Principalmente depois de ter experimentado a obstinada rejeição da própria filha, que dispensou seu leite, e sua forquilha.
Para minha prima, aceitar é sinônimo de gostar. E ainda rima.
Sou calvo e obeso, mas não sou bobo. Uso roupas incomuns, é bem verdade, camisas listradas de cores mortas, calças largas e sapatos rotos.
Mas sei agradar quando vale a pena.
A caminho da casa da minha prima passo por uma plácida praça. Há um garoto maroto que, sobremaneira, saboreia um honestíssimo pirulito de morango.
Revolve-se-me o estômago, o trato gastro colapsa. A psicorresultante produz impasse.
Pois bem, admito: além de plagiador de poesias gastronômicas, sou ladrão de pirulito.


Arnaldo Bloch, na antologia de contos Geração 90: os transgressores, organização de Nelson de Oliveira, 2003.


22.2.04



A partir dos anos 2030 o processo de metamorphosing expande-se drasticamente. De uma primitiva técnica de animação que transformava passo a passo uma imagem em outra, o metamorphosing, apropriando-se de fundamentos da teoria dos fractais, passa a transformar progressivamente um indivíduo em outro. A princípio, esse fenômeno de "transmigração" ocorria somente on-line, em ambiente virtual. Bastava um clique do mouse para um indivíduo de carne e osso, utilizando um programa de vida artificial, transformar-se de espectador no agente à sua escolha, entre os milhões disponíveis na rede. Porém, com a explosão da inteligência coletiva e das populações imaginárias devido às sucessivas transmigrações interativas dos já agora bilhões de usuários, a indústria do metamorphosing, apostando no sucesso, partiu para a criação dos morphings off-line. Bilhões de seres humanos de carne e osso agora podem se transformar em outros seres humanos da vida real, à sua escolha. Para maiores detalhes leia o capítulo "Personalidades Compartilhadas e o Fim da Individuação" na página 325 ou visite nosso site.

21.2.04



campainha sem fio do Fluminense

Ao acionar o transmissor, o mesmo irá fazer com que
o time do Fluminense jogue por 90 minutos.
Não necessita de fiação.
Fácil instalação.

Cacaso




Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.

Toda felicidade é memória e projeto.

20.2.04

um recado transatlântico necessário


Aviz, não sei o que dizer nessas horas, muito menos o que escrever. Só sei que não tenho medo de agradecer: obrigada, Aviz, pela força que deu a este blog, uma força sem politicagem ou escambos que, coincidentemente, chegou na hora certa. Por isso, o texto aí debaixo, apenas uma lembrança de infância, é dedicado a você. Um grande abraço.


Rua Barão de Ipanema

Estou vendo 24 vultos da minha janela. "No campo de concentração de Majdanek, Kobyla chutava mulheres e crianças com uma bota cheia de ferragens." Meu tio chega da rua e põe Maysa na vitrola. Ele entra no banheiro e vai fazer a barba. Deixa a porta aberta. Eu fecho a revista dos anos 60 e o sigo pelo corredor do apartamento. O que é que foi, Fu Manchu?, ele me pergunta, porque tenho os olhos rasgados. O papa é judeu?, eu pergunto na ponta dos pés para vê-lo no reflexo do espelho. Não, que ideia. O papa é católico, como nós. Os judeus têm um papa?, eu insisto. Não, quer dizer, sei lá. Por que essa preocupação agora? É que se os judeus tivessem um papa nada disso teria acontecido, não é? Nada disso, o quê?, ele quer saber. O genocídio. Ah. Onde aprendeu esta palavra? Na revista. Uma gota de sangue escorre do rosto dele e se mistura com a espuma do creme de barba. Você foi à praia hoje?, ele muda de assunto. Não, não fez sol, eu digo, sentando na tampa da privada. Teu pai chega quando de viagem? Não sei, a mãe deve saber. Onde ela foi? Saiu. Foi na Colombo comprar um remédio. Vovô era italiano? Hum, hum. Ué, mas ele não nasceu na Argentina? Foi, mas era imigrante. Ele veio da Itália com os pais e nasceu no navio que parou na Argentina, entendeu? Então ele conhecia o papa? Chega dessa conversa de papa, o que deu em você? Olha, o disco acabou. Vai lá na sala e bota o outro lado pra mim, tá bom? Tá bom. Em vez de virar o disco, eu o guardo na capa e pego outro. Dolores Duran. Meu tio entra na sala e eu me agarro no seu pescoço com cheiro de loção pós-barba da Atkinsons. Ele me ergue do chão e do seu colo olhamos para o mar. Na beira da praia uma mulher corre ao lado de dois cachorros. Sozinha. Quer dar uma volta na praia? Mas está chovendo, eu digo, virando meus olhos rasgados para ele. E o carro velho do seu tio serve pra quê? Nós dois rimos e a mulher na praia some entre os prédios.



Meus olhos cansados de tudo
Não cansam de te procurar
Meus olhos procuram teus olhos
No espelho da água do mar


Tom Jobim

19.2.04




É preciso fazer um poema sobre a Bahia
Mas eu nunca fui lá


Drummond

18.2.04

García Lorca




Lua e Panorama dos Insetos
(O poeta pede ajuda à Virgem)


Rogo à divina Mãe de Deus,
rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos
que têm uma só letra em seu vocabulário,
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência do cavalo,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em imensos montões
para ser comidos pelos pássaros.
Rogo a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que o mercado tem,
essa multidão chinesa das cebolas decapitadas
esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre jovial. Vizinha da salsa pesteada.
Sabes que eu abranjo a carne mínima do mundo.

aonde está você?



15.2.04

chove lá fora...



Nota autobiográfica de Fernando Pessoa (1935)



Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Diretor-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exata a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa ).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prêmio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.


Lisboa, 30 de Março de 1935


Fonte: Fernando Pessoa no seu tempo, Biblioteca Nacional (Portugal), 1988 (págs. 17-22).





-- vi lá no Pano do Pó

14.2.04

eu hoje vou saber o que aconteceu a Henri Matisse
eu hoje vou palitar os dentes
eu hoje vou levar-me a sério
eu hoje vou bater com a porta
eu hoje vou confessar tudo
eu hoje vou tomar banho
eu hoje vou arranjar um álibi
eu hoje vou ao Google procurar maçãs camoesas
eu hoje vou como hei-de ir
eu hoje vou ter de escolher se quero loira ou morena
eu hoje vou atirar-me ao rio
eu hoje vou estacionar em terceira fila
eu hoje vou comê-lo todo sozinha
eu hoje vou mas não sei para onde
eu hoje vou dizer à minha sogra o que penso dela
eu hoje vou repetir a dose
eu hoje vou à net ver aquele blog de que me falaram
eu hoje vou foder o rei
eu hoje vou arranjar outro dealer
eu hoje vou a um restaurante pedir alcatra açoriana
eu hoje vou conseguir imprimir
eu hoje vou com um casal
eu hoje vou fechar para obras
eu hoje vou e ponto final


-- Eu Hoje Vou

12.2.04

12 de fevereiro de 2004


Depois do café de uma manhã das comuns entrei no meu quarto. Fechei a porta. Ninguém me ouviria. Comecei a rasgar todos os meus livros. Primeiro os contemporâneos, depois os clássicos. Não tinha ninguém ali para me impedir. Eu não chorava. Minhas mãos trabalhavam rápido. Paul Bowles, Thomas Bernhard, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Maiakovski, dicionários, glossários, antologias, revistas culturais, jornais, toda a Biblioteca Nacional e Drummond. Eu não havia bebido, sem frontal, sem referência, sem vontade de morrer, sem filosofia. A literatura é mercado. A arte é mercado. E uma idiota como eu acha que a vida é isso. Aparecer escrevendo. Vou parar de escrever, vou acabar com este blog, vou virar pedinte nas ruas de Copacabana, carregando um saco dos livros que rasguei. Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, vocês vão achar que é mais um post. Vou vender letras para sobreviver. Livros rasgados. Me dê um real aí que eu te dou um pedaço de livro. Dessas bostas que eu leio todo dia, por prazer e para sobreviver. Dessas bostas que as editoras compram e publicam. Destas bostas de editoras. Grandes e pequenas. Todas a mesma merda. Só muda o nome. Todas nepotistas, todas tribalistas. Se você não é do comando, tá fora. Sei, não precisa me dizer, ressentida? Não, realista. Leio leio os novos, bonitos, vazios, leio leio os velhos, bonitos, os clássicos. Todos que procuro imitar, que eles imitaram e imitam também. Daí vem aquele papinho chato, escritor de blog? Não, não sou escritor de blog, o blog é um instrumento. Vá se foder. O blog é um instrumento até você achar uma editora que te banque. Até tudo que você pensa sair em forma de papel. Papel para vender. Onde uns meia dúzia pagam e você continua duro, porque não é um Paulo Coelho ou Ubaldo, nem está falando de sexo, doenças ou de cidades de deus. Daí você sai em papel e abandona o blog ou o transforma em instrumento de marketing pessoal, pra você vender o seu livrinho on-line medíocre, porque você não é uma Clarice Lispector, você não é um Paulo Francis, você não é um John Fante, você não é uma Hilda Hilst, você não é. Para mimar a sua vaidade, você quer o livrinho em papel pra descolar, quem sabe, uma notinha ou resenha em jornal, que vai dizer que você escreve de uma forma diferente e moderna o que outros cansaram de dizer. Ok, sem problema, faça o que quiser. Quem sou eu pra julgar? Pouco me importa, se você quer saber. Acabei de rasgar meu último livro agora. Rápido, não foi? Acredite se quiser. Mas, apesar de tudo, continue escrevendo se lhe der na telha, pois pode ser que um dia a gente aprenda e a vida pare de imprimir rascunhos.


Antônio Maria


O encontro melancólico


Sentaram-se, os dois, já arrependidos de terem marcado o encontro. Esvaziaram os pulmões, num suspiro da saciedade. Aos dois, faltava coragem de perguntar: -- Por que isto? Por que não vamos embora de uma vez? Preferiram ser gentis e tentar. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ou comer alguma coisa. Ela respondeu um "nada" de quem anseia abreviar a angústia de estarem juntos. Ambos sentiram calor, ou porque a tarde estivesse fria, ambos suaram, sem calor, na testa e no pescoço. Que saudade os trouxera ali? Nenhuma. Vieram, simplesmente, porque um gostaria de saber, no coração do outro, o tamanho da falta que estava fazendo. As pessoas são muito vaidosas e, quando acabam seus romances, têm a mania de pensar que, de um modo ou de outro, marcaram, para sempre, a pessoa amada. É uma pretensão tola, esta de ser inesquecível, na carne ou na alma de quem se amou. O mundo renova muito a todos nós. Ou, quando não renova, envelhece, muda-nos sempre, enchendo-nos a vida de quatro ou cinco belezas novas ou de uma nova dor, que abrange todo o ser, defendendo-o contra qualquer recaída na doença de que saímos vivos.

Sentados frente a frente, fumavam e trocavam perguntas, cujas respostas eram dispensáveis: "Como vai sua irmã?" "Sua tia viajou, afinal?" "Como estão as aulas de taquigrafia?" Pediram uma cerveja, para fazer jus à mesa e à tolerância do garçom. Era uma cerveja amarga, porque o gosto das cervejas é a gente quem faz, com a doçura, o tanino ou o amargo que se traz na vida. Ela evitou que ele lhe acendesse o cigarro. Ele guardou o isqueiro, sem o menor constrangimento. Depois de tudo isso foi que se olharam bem nos olhos. Um olhar sem enlevo, sem mensagem, sem mágoa. Um olhar corajoso, só isso. Como era estranho, depois de tanto amor, depois de tantas vezes terem chegado ao trágico, verem-se agora como se fossem dois parentes. Nem ao menos se odiavam. Como a vida é sábia em suas acomodações! Riram-se, cada um de si mesmo e os dois da vida. Não havia nada a dizer, porque sabiam de tudo, sem linguagem. A palavra complica muito. Levantaram-se. Deram-se as mãos nas pontas dos dedos, foram caminhando e largando-se aos poucos, até que passou um táxi e ele correu para alcançá-lo. Ao entrar no carro, ainda olhou para trás e gritou-lhe um "adeus" qualquer. Que ela não ouviu, porque entrara numa loja de bombons. E dali por diante, nada os uniu ou mesmo separou, no ar, nas pedras e na música da cidade.


-- crônica de 29.08.1959, publicada no jornal Última Hora, RJ.

11.2.04

Emulator

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15 de março. anoto na agenda entre minhas merdinhas um retorno à terapia. o médico, le petit guignol, vai ter de me explicar por que esta pontada intra-encefálica todos os dias pela manhã. ele não vai me cozinhar mais. doze trocas de medicação em menos de oito meses de terapia, não é pra desconfiar não? não sou do tipo de paciente que se fulano diz, é porque é. vou enfim pensando essas coisas antes que o verão acabe esta noite. mal consigo enxergar aqui, o globo espelhado gira e seus reflexos iluminam minha mesa vazia em intervalos regulares, na batida. meus amigos estão todos na pista e posso desfrutar uma solidão dupla, com gelo e limão. qual o teu telefone? está na lista, respondo. a piada é datada mas ainda funciona. o bofe, meio bolado, se manda. olha só a bunda do cara, penso alto, quando ele dá as costas. me aparece cada uma. hoje estou sem paciência para éticas, bons modos e consensos. não devia ter saído de casa. as folhas da agenda estão despencando e ainda estamos em fevereiro. meu drinque parece um caldeirão celta. "não sei o que digo, não sei o que sei, não digo mais o que quero". olho para a pista e vejo meus amigos suando, frenéticos. fecho os olhos e imagino danças camponesas, coros de caçadores, cantos folclóricos. gosto destes efeitos sem causa, o que pra mim é a definição perfeita de toda a arte contemporânea: feita para não durar. amanhã a gente esquece tudo. livros, telas, filmes, músicas, peças, fotos. tudo que vejo parece oco, silêncio sem enigmas, tragédia sem mito. mas kulo tresno é eu te amo em javanês, sabia?

10.2.04

diálogo de longa distância


-- HRU
-- OK (SETE)
-- H8 LDR
-- CMON
-- ILU
-- ILU2
-- 911 2NITE
-- Y
-- MU
-- lyN
-- YKWIM
-- po$bl
-- PCM
-- SC
-- Dur?
-- DK
-- F? (FC)
-- BFz4evr
-- ZZZZ
-- UI! 8-)
-- JK
-- KIT
-- OK, H&K
-- B4N
-- ^5

ARMA ESCONDIDA NO MIOLO DO ARBUSTO/ TANTA PROCURA PARECEU UM CLISTER


...
QUERIA TER UM TESTAMENTO DE GALINHA,
PODERIA CERTAMENTE COMPARÁ-LO AO DA MINHA VIZINHA.
A RETÓRICA DANÇA EM TORNO DA VERDADE HISTÓRICA
E É ASSIM QUE A PUTA DA VERDADE HISTÓRICA SE ABRE À RETÓRICA.


Às vezes a Loucura é uma reles expressão
Sou a casta mais pura da minha Religião.
Desgasto-me quotidianamente em explicações
que degeneram sempre em complicações.
Por mim correrei mundo a vida inteira
até que pare o tempo e a maneira.
Aí envolver-me-ei provavelmente no escuro
mas desde já aviso que ao mesmo tempo
estarei provavelmente a construir um novo muro.


Let the Fly Fly

8.2.04

Sair, é?

Show?

Róqui?

Pessoas?

Hum.

Tô evitando.



Mon Coeur Vomit

Plínio Marcos




Pálido de espanto, constato que o medo é tanto e mora dentro de tantos, que até os amesquinhados por mil e uma fomes berradoras, em fúria, trucidam o que não se conteve, o que quis quebrar os vidros. E matam e trucidam na vã esperança de acabar com a violência que os aperta num terrível sufoco. Matam e trucidam o que não se conteve e quebrou o vidro que separava sua fome do pão, para mostrarem que não acreditam na polícia, mas que anseiam por justiça e ordem que não têm. Justiça e ordem das quais são desvalidos os famintos... E assim vai morrendo um povo que era generoso. Vai morrendo no desespero de se ver morrer.

6.2.04

Emulator

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Aprendi com meu pai que não se deve confiar em cavalo paraguaio, mas como eu estava dando um tempo do monitor para esticar as pernas, fiquei dando ouvidos ao trololó do cara. Eu já estava há mais de 4 horas naquela lan house lá Onde-judas-perdeu-as-botas da Serra só porque foi a mais barata que pude encontrar. 20%. Fiz baldeação -- metrô, ônibus, meia hora a pé -- e ainda não calculei se valeu a pena, não tive tempo. No botequim ao lado eu bebia uma cerveja e o cara, que tinha um olhar de chope aguado, matraqueava no meu ouvido. 40%. É como eu te disse, cara, o fim de um acontecimento sempre desencadeia um segundo acontecimento. Tudo tem uma lógica. A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao tamanho original. Meu deus, eu queria dar um Del no sujeito. Imaginei o cérebro dele inchando inchando de novas idéias e explodindo, vazando a tela, borrando o teclado. 60%. Ele ia falando e eu ia dando a descarga. Descobri outro dia num site aí que eu nasci no dia de Santa Cacilda de Toledo. Ah, é? E que dia é esse? Nove de abril. Tu nasceu que dia? Eu disse. Ah, então é dia de Santo Ildefonso. Eu decorei a porra toda. Pode me perguntar. Não precisa, eu acredito. Não sou chegado em santos. 70%. Tu se liga em blog? Já tive um, não tenho mais saco. Ah, mas tem uns bem maneiros, de gente que escreve legal, como um cara que eu li uma vez que dizia "todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para o céu". Para as estrelas, eu corrigi. É, é isso aí. Bom o cara, não é? Isso é Oscar Wilde. Bom, não me lembro o nome do blogueiro, deve ser esse mesmo aí. Pedi outra cerveja porque a minha combustão espontânea parecia iminente. 90%. O sujeito pediu um Redbull. Não tinha. Boteco de quinta, hum?, ele chiou. Do outro lado do balcão, o dono do bar olhou feio pela janela. A paciência requer muita prática. Download concluído.

5.2.04

Hilda Hilst


Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.





nota: Hilda Hilst, num passado recente, havia resistido a três isquemias cerebrais e por conta disso tinha a saúde bastante fragilizada. Internada no Hospital da Unicamp devido a uma segunda fratura no fêmur (a primeira no ano passado), faleceu por haver contraído uma infecção hospitalar. O que alguns jornais não mencionaram. Ponto.

4.2.04




"Agora que estou sem Deus, posso me coçar com mais tranqüilidade."


Hilda Hilst