18.2.04
García Lorca
Lua e Panorama dos Insetos
(O poeta pede ajuda à Virgem)
Rogo à divina Mãe de Deus,
rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos
que têm uma só letra em seu vocabulário,
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência do cavalo,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em imensos montões
para ser comidos pelos pássaros.
Rogo a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que o mercado tem,
essa multidão chinesa das cebolas decapitadas
esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre jovial. Vizinha da salsa pesteada.
Sabes que eu abranjo a carne mínima do mundo.
15.2.04
Nota autobiográfica de Fernando Pessoa (1935)
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Diretor-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exata a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa ).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prêmio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935
Fonte: Fernando Pessoa no seu tempo, Biblioteca Nacional (Portugal), 1988 (págs. 17-22).
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Diretor-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exata a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa ).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prêmio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935
Fonte: Fernando Pessoa no seu tempo, Biblioteca Nacional (Portugal), 1988 (págs. 17-22).
14.2.04
eu hoje vou saber o que aconteceu a Henri Matisse
eu hoje vou palitar os dentes
eu hoje vou levar-me a sério
eu hoje vou bater com a porta
eu hoje vou confessar tudo
eu hoje vou tomar banho
eu hoje vou arranjar um álibi
eu hoje vou ao Google procurar maçãs camoesas
eu hoje vou como hei-de ir
eu hoje vou ter de escolher se quero loira ou morena
eu hoje vou atirar-me ao rio
eu hoje vou estacionar em terceira fila
eu hoje vou comê-lo todo sozinha
eu hoje vou mas não sei para onde
eu hoje vou dizer à minha sogra o que penso dela
eu hoje vou repetir a dose
eu hoje vou à net ver aquele blog de que me falaram
eu hoje vou foder o rei
eu hoje vou arranjar outro dealer
eu hoje vou a um restaurante pedir alcatra açoriana
eu hoje vou conseguir imprimir
eu hoje vou com um casal
eu hoje vou fechar para obras
eu hoje vou e ponto final
-- Eu Hoje Vou
eu hoje vou palitar os dentes
eu hoje vou levar-me a sério
eu hoje vou bater com a porta
eu hoje vou confessar tudo
eu hoje vou tomar banho
eu hoje vou arranjar um álibi
eu hoje vou ao Google procurar maçãs camoesas
eu hoje vou como hei-de ir
eu hoje vou ter de escolher se quero loira ou morena
eu hoje vou atirar-me ao rio
eu hoje vou estacionar em terceira fila
eu hoje vou comê-lo todo sozinha
eu hoje vou mas não sei para onde
eu hoje vou dizer à minha sogra o que penso dela
eu hoje vou repetir a dose
eu hoje vou à net ver aquele blog de que me falaram
eu hoje vou foder o rei
eu hoje vou arranjar outro dealer
eu hoje vou a um restaurante pedir alcatra açoriana
eu hoje vou conseguir imprimir
eu hoje vou com um casal
eu hoje vou fechar para obras
eu hoje vou e ponto final
-- Eu Hoje Vou
12.2.04
12 de fevereiro de 2004
Depois do café de uma manhã das comuns entrei no meu quarto. Fechei a porta. Ninguém me ouviria. Comecei a rasgar todos os meus livros. Primeiro os contemporâneos, depois os clássicos. Não tinha ninguém ali para me impedir. Eu não chorava. Minhas mãos trabalhavam rápido. Paul Bowles, Thomas Bernhard, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Maiakovski, dicionários, glossários, antologias, revistas culturais, jornais, toda a Biblioteca Nacional e Drummond. Eu não havia bebido, sem frontal, sem referência, sem vontade de morrer, sem filosofia. A literatura é mercado. A arte é mercado. E uma idiota como eu acha que a vida é isso. Aparecer escrevendo. Vou parar de escrever, vou acabar com este blog, vou virar pedinte nas ruas de Copacabana, carregando um saco dos livros que rasguei. Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, vocês vão achar que é mais um post. Vou vender letras para sobreviver. Livros rasgados. Me dê um real aí que eu te dou um pedaço de livro. Dessas bostas que eu leio todo dia, por prazer e para sobreviver. Dessas bostas que as editoras compram e publicam. Destas bostas de editoras. Grandes e pequenas. Todas a mesma merda. Só muda o nome. Todas nepotistas, todas tribalistas. Se você não é do comando, tá fora. Sei, não precisa me dizer, ressentida? Não, realista. Leio leio os novos, bonitos, vazios, leio leio os velhos, bonitos, os clássicos. Todos que procuro imitar, que eles imitaram e imitam também. Daí vem aquele papinho chato, escritor de blog? Não, não sou escritor de blog, o blog é um instrumento. Vá se foder. O blog é um instrumento até você achar uma editora que te banque. Até tudo que você pensa sair em forma de papel. Papel para vender. Onde uns meia dúzia pagam e você continua duro, porque não é um Paulo Coelho ou Ubaldo, nem está falando de sexo, doenças ou de cidades de deus. Daí você sai em papel e abandona o blog ou o transforma em instrumento de marketing pessoal, pra você vender o seu livrinho on-line medíocre, porque você não é uma Clarice Lispector, você não é um Paulo Francis, você não é um John Fante, você não é uma Hilda Hilst, você não é. Para mimar a sua vaidade, você quer o livrinho em papel pra descolar, quem sabe, uma notinha ou resenha em jornal, que vai dizer que você escreve de uma forma diferente e moderna o que outros cansaram de dizer. Ok, sem problema, faça o que quiser. Quem sou eu pra julgar? Pouco me importa, se você quer saber. Acabei de rasgar meu último livro agora. Rápido, não foi? Acredite se quiser. Mas, apesar de tudo, continue escrevendo se lhe der na telha, pois pode ser que um dia a gente aprenda e a vida pare de imprimir rascunhos.
Depois do café de uma manhã das comuns entrei no meu quarto. Fechei a porta. Ninguém me ouviria. Comecei a rasgar todos os meus livros. Primeiro os contemporâneos, depois os clássicos. Não tinha ninguém ali para me impedir. Eu não chorava. Minhas mãos trabalhavam rápido. Paul Bowles, Thomas Bernhard, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Maiakovski, dicionários, glossários, antologias, revistas culturais, jornais, toda a Biblioteca Nacional e Drummond. Eu não havia bebido, sem frontal, sem referência, sem vontade de morrer, sem filosofia. A literatura é mercado. A arte é mercado. E uma idiota como eu acha que a vida é isso. Aparecer escrevendo. Vou parar de escrever, vou acabar com este blog, vou virar pedinte nas ruas de Copacabana, carregando um saco dos livros que rasguei. Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, vocês vão achar que é mais um post. Vou vender letras para sobreviver. Livros rasgados. Me dê um real aí que eu te dou um pedaço de livro. Dessas bostas que eu leio todo dia, por prazer e para sobreviver. Dessas bostas que as editoras compram e publicam. Destas bostas de editoras. Grandes e pequenas. Todas a mesma merda. Só muda o nome. Todas nepotistas, todas tribalistas. Se você não é do comando, tá fora. Sei, não precisa me dizer, ressentida? Não, realista. Leio leio os novos, bonitos, vazios, leio leio os velhos, bonitos, os clássicos. Todos que procuro imitar, que eles imitaram e imitam também. Daí vem aquele papinho chato, escritor de blog? Não, não sou escritor de blog, o blog é um instrumento. Vá se foder. O blog é um instrumento até você achar uma editora que te banque. Até tudo que você pensa sair em forma de papel. Papel para vender. Onde uns meia dúzia pagam e você continua duro, porque não é um Paulo Coelho ou Ubaldo, nem está falando de sexo, doenças ou de cidades de deus. Daí você sai em papel e abandona o blog ou o transforma em instrumento de marketing pessoal, pra você vender o seu livrinho on-line medíocre, porque você não é uma Clarice Lispector, você não é um Paulo Francis, você não é um John Fante, você não é uma Hilda Hilst, você não é. Para mimar a sua vaidade, você quer o livrinho em papel pra descolar, quem sabe, uma notinha ou resenha em jornal, que vai dizer que você escreve de uma forma diferente e moderna o que outros cansaram de dizer. Ok, sem problema, faça o que quiser. Quem sou eu pra julgar? Pouco me importa, se você quer saber. Acabei de rasgar meu último livro agora. Rápido, não foi? Acredite se quiser. Mas, apesar de tudo, continue escrevendo se lhe der na telha, pois pode ser que um dia a gente aprenda e a vida pare de imprimir rascunhos.
Antônio Maria
O encontro melancólico
Sentaram-se, os dois, já arrependidos de terem marcado o encontro. Esvaziaram os pulmões, num suspiro da saciedade. Aos dois, faltava coragem de perguntar: -- Por que isto? Por que não vamos embora de uma vez? Preferiram ser gentis e tentar. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ou comer alguma coisa. Ela respondeu um "nada" de quem anseia abreviar a angústia de estarem juntos. Ambos sentiram calor, ou porque a tarde estivesse fria, ambos suaram, sem calor, na testa e no pescoço. Que saudade os trouxera ali? Nenhuma. Vieram, simplesmente, porque um gostaria de saber, no coração do outro, o tamanho da falta que estava fazendo. As pessoas são muito vaidosas e, quando acabam seus romances, têm a mania de pensar que, de um modo ou de outro, marcaram, para sempre, a pessoa amada. É uma pretensão tola, esta de ser inesquecível, na carne ou na alma de quem se amou. O mundo renova muito a todos nós. Ou, quando não renova, envelhece, muda-nos sempre, enchendo-nos a vida de quatro ou cinco belezas novas ou de uma nova dor, que abrange todo o ser, defendendo-o contra qualquer recaída na doença de que saímos vivos.
Sentados frente a frente, fumavam e trocavam perguntas, cujas respostas eram dispensáveis: "Como vai sua irmã?" "Sua tia viajou, afinal?" "Como estão as aulas de taquigrafia?" Pediram uma cerveja, para fazer jus à mesa e à tolerância do garçom. Era uma cerveja amarga, porque o gosto das cervejas é a gente quem faz, com a doçura, o tanino ou o amargo que se traz na vida. Ela evitou que ele lhe acendesse o cigarro. Ele guardou o isqueiro, sem o menor constrangimento. Depois de tudo isso foi que se olharam bem nos olhos. Um olhar sem enlevo, sem mensagem, sem mágoa. Um olhar corajoso, só isso. Como era estranho, depois de tanto amor, depois de tantas vezes terem chegado ao trágico, verem-se agora como se fossem dois parentes. Nem ao menos se odiavam. Como a vida é sábia em suas acomodações! Riram-se, cada um de si mesmo e os dois da vida. Não havia nada a dizer, porque sabiam de tudo, sem linguagem. A palavra complica muito. Levantaram-se. Deram-se as mãos nas pontas dos dedos, foram caminhando e largando-se aos poucos, até que passou um táxi e ele correu para alcançá-lo. Ao entrar no carro, ainda olhou para trás e gritou-lhe um "adeus" qualquer. Que ela não ouviu, porque entrara numa loja de bombons. E dali por diante, nada os uniu ou mesmo separou, no ar, nas pedras e na música da cidade.
-- crônica de 29.08.1959, publicada no jornal Última Hora, RJ.
O encontro melancólico
Sentaram-se, os dois, já arrependidos de terem marcado o encontro. Esvaziaram os pulmões, num suspiro da saciedade. Aos dois, faltava coragem de perguntar: -- Por que isto? Por que não vamos embora de uma vez? Preferiram ser gentis e tentar. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ou comer alguma coisa. Ela respondeu um "nada" de quem anseia abreviar a angústia de estarem juntos. Ambos sentiram calor, ou porque a tarde estivesse fria, ambos suaram, sem calor, na testa e no pescoço. Que saudade os trouxera ali? Nenhuma. Vieram, simplesmente, porque um gostaria de saber, no coração do outro, o tamanho da falta que estava fazendo. As pessoas são muito vaidosas e, quando acabam seus romances, têm a mania de pensar que, de um modo ou de outro, marcaram, para sempre, a pessoa amada. É uma pretensão tola, esta de ser inesquecível, na carne ou na alma de quem se amou. O mundo renova muito a todos nós. Ou, quando não renova, envelhece, muda-nos sempre, enchendo-nos a vida de quatro ou cinco belezas novas ou de uma nova dor, que abrange todo o ser, defendendo-o contra qualquer recaída na doença de que saímos vivos.
Sentados frente a frente, fumavam e trocavam perguntas, cujas respostas eram dispensáveis: "Como vai sua irmã?" "Sua tia viajou, afinal?" "Como estão as aulas de taquigrafia?" Pediram uma cerveja, para fazer jus à mesa e à tolerância do garçom. Era uma cerveja amarga, porque o gosto das cervejas é a gente quem faz, com a doçura, o tanino ou o amargo que se traz na vida. Ela evitou que ele lhe acendesse o cigarro. Ele guardou o isqueiro, sem o menor constrangimento. Depois de tudo isso foi que se olharam bem nos olhos. Um olhar sem enlevo, sem mensagem, sem mágoa. Um olhar corajoso, só isso. Como era estranho, depois de tanto amor, depois de tantas vezes terem chegado ao trágico, verem-se agora como se fossem dois parentes. Nem ao menos se odiavam. Como a vida é sábia em suas acomodações! Riram-se, cada um de si mesmo e os dois da vida. Não havia nada a dizer, porque sabiam de tudo, sem linguagem. A palavra complica muito. Levantaram-se. Deram-se as mãos nas pontas dos dedos, foram caminhando e largando-se aos poucos, até que passou um táxi e ele correu para alcançá-lo. Ao entrar no carro, ainda olhou para trás e gritou-lhe um "adeus" qualquer. Que ela não ouviu, porque entrara numa loja de bombons. E dali por diante, nada os uniu ou mesmo separou, no ar, nas pedras e na música da cidade.
-- crônica de 29.08.1959, publicada no jornal Última Hora, RJ.
11.2.04
Emulator
3
15 de março. anoto na agenda entre minhas merdinhas um retorno à terapia. o médico, le petit guignol, vai ter de me explicar por que esta pontada intra-encefálica todos os dias pela manhã. ele não vai me cozinhar mais. doze trocas de medicação em menos de oito meses de terapia, não é pra desconfiar não? não sou do tipo de paciente que se fulano diz, é porque é. vou enfim pensando essas coisas antes que o verão acabe esta noite. mal consigo enxergar aqui, o globo espelhado gira e seus reflexos iluminam minha mesa vazia em intervalos regulares, na batida. meus amigos estão todos na pista e posso desfrutar uma solidão dupla, com gelo e limão. qual o teu telefone? está na lista, respondo. a piada é datada mas ainda funciona. o bofe, meio bolado, se manda. olha só a bunda do cara, penso alto, quando ele dá as costas. me aparece cada uma. hoje estou sem paciência para éticas, bons modos e consensos. não devia ter saído de casa. as folhas da agenda estão despencando e ainda estamos em fevereiro. meu drinque parece um caldeirão celta. "não sei o que digo, não sei o que sei, não digo mais o que quero". olho para a pista e vejo meus amigos suando, frenéticos. fecho os olhos e imagino danças camponesas, coros de caçadores, cantos folclóricos. gosto destes efeitos sem causa, o que pra mim é a definição perfeita de toda a arte contemporânea: feita para não durar. amanhã a gente esquece tudo. livros, telas, filmes, músicas, peças, fotos. tudo que vejo parece oco, silêncio sem enigmas, tragédia sem mito. mas kulo tresno é eu te amo em javanês, sabia?
3
15 de março. anoto na agenda entre minhas merdinhas um retorno à terapia. o médico, le petit guignol, vai ter de me explicar por que esta pontada intra-encefálica todos os dias pela manhã. ele não vai me cozinhar mais. doze trocas de medicação em menos de oito meses de terapia, não é pra desconfiar não? não sou do tipo de paciente que se fulano diz, é porque é. vou enfim pensando essas coisas antes que o verão acabe esta noite. mal consigo enxergar aqui, o globo espelhado gira e seus reflexos iluminam minha mesa vazia em intervalos regulares, na batida. meus amigos estão todos na pista e posso desfrutar uma solidão dupla, com gelo e limão. qual o teu telefone? está na lista, respondo. a piada é datada mas ainda funciona. o bofe, meio bolado, se manda. olha só a bunda do cara, penso alto, quando ele dá as costas. me aparece cada uma. hoje estou sem paciência para éticas, bons modos e consensos. não devia ter saído de casa. as folhas da agenda estão despencando e ainda estamos em fevereiro. meu drinque parece um caldeirão celta. "não sei o que digo, não sei o que sei, não digo mais o que quero". olho para a pista e vejo meus amigos suando, frenéticos. fecho os olhos e imagino danças camponesas, coros de caçadores, cantos folclóricos. gosto destes efeitos sem causa, o que pra mim é a definição perfeita de toda a arte contemporânea: feita para não durar. amanhã a gente esquece tudo. livros, telas, filmes, músicas, peças, fotos. tudo que vejo parece oco, silêncio sem enigmas, tragédia sem mito. mas kulo tresno é eu te amo em javanês, sabia?
10.2.04
ARMA ESCONDIDA NO MIOLO DO ARBUSTO/ TANTA PROCURA PARECEU UM CLISTER
...
QUERIA TER UM TESTAMENTO DE GALINHA,
PODERIA CERTAMENTE COMPARÁ-LO AO DA MINHA VIZINHA.
A RETÓRICA DANÇA EM TORNO DA VERDADE HISTÓRICA
E É ASSIM QUE A PUTA DA VERDADE HISTÓRICA SE ABRE À RETÓRICA.
Às vezes a Loucura é uma reles expressão
Sou a casta mais pura da minha Religião.
Desgasto-me quotidianamente em explicações
que degeneram sempre em complicações.
Por mim correrei mundo a vida inteira
até que pare o tempo e a maneira.
Aí envolver-me-ei provavelmente no escuro
mas desde já aviso que ao mesmo tempo
estarei provavelmente a construir um novo muro.
Let the Fly Fly
...
QUERIA TER UM TESTAMENTO DE GALINHA,
PODERIA CERTAMENTE COMPARÁ-LO AO DA MINHA VIZINHA.
A RETÓRICA DANÇA EM TORNO DA VERDADE HISTÓRICA
E É ASSIM QUE A PUTA DA VERDADE HISTÓRICA SE ABRE À RETÓRICA.
Às vezes a Loucura é uma reles expressão
Sou a casta mais pura da minha Religião.
Desgasto-me quotidianamente em explicações
que degeneram sempre em complicações.
Por mim correrei mundo a vida inteira
até que pare o tempo e a maneira.
Aí envolver-me-ei provavelmente no escuro
mas desde já aviso que ao mesmo tempo
estarei provavelmente a construir um novo muro.
Let the Fly Fly
8.2.04
Plínio Marcos
Pálido de espanto, constato que o medo é tanto e mora dentro de tantos, que até os amesquinhados por mil e uma fomes berradoras, em fúria, trucidam o que não se conteve, o que quis quebrar os vidros. E matam e trucidam na vã esperança de acabar com a violência que os aperta num terrível sufoco. Matam e trucidam o que não se conteve e quebrou o vidro que separava sua fome do pão, para mostrarem que não acreditam na polícia, mas que anseiam por justiça e ordem que não têm. Justiça e ordem das quais são desvalidos os famintos... E assim vai morrendo um povo que era generoso. Vai morrendo no desespero de se ver morrer.
Pálido de espanto, constato que o medo é tanto e mora dentro de tantos, que até os amesquinhados por mil e uma fomes berradoras, em fúria, trucidam o que não se conteve, o que quis quebrar os vidros. E matam e trucidam na vã esperança de acabar com a violência que os aperta num terrível sufoco. Matam e trucidam o que não se conteve e quebrou o vidro que separava sua fome do pão, para mostrarem que não acreditam na polícia, mas que anseiam por justiça e ordem que não têm. Justiça e ordem das quais são desvalidos os famintos... E assim vai morrendo um povo que era generoso. Vai morrendo no desespero de se ver morrer.
6.2.04
Emulator
2
Aprendi com meu pai que não se deve confiar em cavalo paraguaio, mas como eu estava dando um tempo do monitor para esticar as pernas, fiquei dando ouvidos ao trololó do cara. Eu já estava há mais de 4 horas naquela lan house lá Onde-judas-perdeu-as-botas da Serra só porque foi a mais barata que pude encontrar. 20%. Fiz baldeação -- metrô, ônibus, meia hora a pé -- e ainda não calculei se valeu a pena, não tive tempo. No botequim ao lado eu bebia uma cerveja e o cara, que tinha um olhar de chope aguado, matraqueava no meu ouvido. 40%. É como eu te disse, cara, o fim de um acontecimento sempre desencadeia um segundo acontecimento. Tudo tem uma lógica. A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao tamanho original. Meu deus, eu queria dar um Del no sujeito. Imaginei o cérebro dele inchando inchando de novas idéias e explodindo, vazando a tela, borrando o teclado. 60%. Ele ia falando e eu ia dando a descarga. Descobri outro dia num site aí que eu nasci no dia de Santa Cacilda de Toledo. Ah, é? E que dia é esse? Nove de abril. Tu nasceu que dia? Eu disse. Ah, então é dia de Santo Ildefonso. Eu decorei a porra toda. Pode me perguntar. Não precisa, eu acredito. Não sou chegado em santos. 70%. Tu se liga em blog? Já tive um, não tenho mais saco. Ah, mas tem uns bem maneiros, de gente que escreve legal, como um cara que eu li uma vez que dizia "todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para o céu". Para as estrelas, eu corrigi. É, é isso aí. Bom o cara, não é? Isso é Oscar Wilde. Bom, não me lembro o nome do blogueiro, deve ser esse mesmo aí. Pedi outra cerveja porque a minha combustão espontânea parecia iminente. 90%. O sujeito pediu um Redbull. Não tinha. Boteco de quinta, hum?, ele chiou. Do outro lado do balcão, o dono do bar olhou feio pela janela. A paciência requer muita prática. Download concluído.
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Aprendi com meu pai que não se deve confiar em cavalo paraguaio, mas como eu estava dando um tempo do monitor para esticar as pernas, fiquei dando ouvidos ao trololó do cara. Eu já estava há mais de 4 horas naquela lan house lá Onde-judas-perdeu-as-botas da Serra só porque foi a mais barata que pude encontrar. 20%. Fiz baldeação -- metrô, ônibus, meia hora a pé -- e ainda não calculei se valeu a pena, não tive tempo. No botequim ao lado eu bebia uma cerveja e o cara, que tinha um olhar de chope aguado, matraqueava no meu ouvido. 40%. É como eu te disse, cara, o fim de um acontecimento sempre desencadeia um segundo acontecimento. Tudo tem uma lógica. A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao tamanho original. Meu deus, eu queria dar um Del no sujeito. Imaginei o cérebro dele inchando inchando de novas idéias e explodindo, vazando a tela, borrando o teclado. 60%. Ele ia falando e eu ia dando a descarga. Descobri outro dia num site aí que eu nasci no dia de Santa Cacilda de Toledo. Ah, é? E que dia é esse? Nove de abril. Tu nasceu que dia? Eu disse. Ah, então é dia de Santo Ildefonso. Eu decorei a porra toda. Pode me perguntar. Não precisa, eu acredito. Não sou chegado em santos. 70%. Tu se liga em blog? Já tive um, não tenho mais saco. Ah, mas tem uns bem maneiros, de gente que escreve legal, como um cara que eu li uma vez que dizia "todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para o céu". Para as estrelas, eu corrigi. É, é isso aí. Bom o cara, não é? Isso é Oscar Wilde. Bom, não me lembro o nome do blogueiro, deve ser esse mesmo aí. Pedi outra cerveja porque a minha combustão espontânea parecia iminente. 90%. O sujeito pediu um Redbull. Não tinha. Boteco de quinta, hum?, ele chiou. Do outro lado do balcão, o dono do bar olhou feio pela janela. A paciência requer muita prática. Download concluído.
5.2.04
Hilda Hilst
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
nota: Hilda Hilst, num passado recente, havia resistido a três isquemias cerebrais e por conta disso tinha a saúde bastante fragilizada. Internada no Hospital da Unicamp devido a uma segunda fratura no fêmur (a primeira no ano passado), faleceu por haver contraído uma infecção hospitalar. O que alguns jornais não mencionaram. Ponto.
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
nota: Hilda Hilst, num passado recente, havia resistido a três isquemias cerebrais e por conta disso tinha a saúde bastante fragilizada. Internada no Hospital da Unicamp devido a uma segunda fratura no fêmur (a primeira no ano passado), faleceu por haver contraído uma infecção hospitalar. O que alguns jornais não mencionaram. Ponto.
4.2.04
Prezado editor
Entendi muito bem a sua posição quando, uns dez anos atrás, o senhor me disse que sua editora não publicava ensaios acadêmicos porque não havia público leitor para isso. Na época eu me dedicava à crítica literária e só sobrevivi porque dava aulas. Tive de me voltar para a ficção e o jornalismo literário se quisesse ganhar alguma projeção nesse meio. E consegui graças a muito esforço. Por isso foi com surpresa que recebi, após os boatos de minha provável indicação para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, um convite seu querendo justamente que eu escrevesse um ensaio sobre "as trilhas pantanosas da nossa literatura". E foi com surpresa ainda maior que vi novamente um projeto meu ser rejeitado por sua ilustre casa editorial. Concordo que o tema "a intransitividade da literatura" é bastante espinhoso, abarcando muita filosofia no contrapé. Não é para qualquer um, muito menos leitura de cabeceira. Sei que deseja muito publicar um trabalho meu, que o meu nome enriqueceria o seu catálogo, segundo suas próprias palavras, mas, francamente, a lista que me sugeriu de assuntos "palatáveis" sobre os quais eu deveria discorrer após "abiscoitar a cadeira" é no mínimo constrangedora. Coisas como "Conversas no Chá das 5", "Seja um Acadêmico em 10 Lições", "O Mundo Encantado das Letras", "Por Trás do Fardão", "ABL para Todos" certamente fariam a alegria dos seus leitores, mas o que eu ganharia com isso além de alguns tostões, se tanto? O senhor está querendo me sabotar? Quer que eu caia no ridículo público? Contrate um escritor de aluguel para falar sobre estes seus temas tão "momentosos" e deixe-me em paz. E deixe em paz a minha mulher também, pare de assediá-la para que eu aceite escrever para o senhor. Sei muito bem que não perde a chance de importuná-la sempre que a encontra, que lhe manda flores e bombons e telefona todos os dias, certamente para usá-la de intermediária nessa negociação. Ela anda muito nervosa com esta situação, já quase nem pára em casa. Diz que não consegue resistir à sua pressão e que por isso está estressada, a pobre. Mas saiba que eu resistirei, meu caro. Eu não vou escrever para o senhor. Eu não quero saber da sua editora! Eu não quero saber do senhor! E passe bem!
R. de A.
Entendi muito bem a sua posição quando, uns dez anos atrás, o senhor me disse que sua editora não publicava ensaios acadêmicos porque não havia público leitor para isso. Na época eu me dedicava à crítica literária e só sobrevivi porque dava aulas. Tive de me voltar para a ficção e o jornalismo literário se quisesse ganhar alguma projeção nesse meio. E consegui graças a muito esforço. Por isso foi com surpresa que recebi, após os boatos de minha provável indicação para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, um convite seu querendo justamente que eu escrevesse um ensaio sobre "as trilhas pantanosas da nossa literatura". E foi com surpresa ainda maior que vi novamente um projeto meu ser rejeitado por sua ilustre casa editorial. Concordo que o tema "a intransitividade da literatura" é bastante espinhoso, abarcando muita filosofia no contrapé. Não é para qualquer um, muito menos leitura de cabeceira. Sei que deseja muito publicar um trabalho meu, que o meu nome enriqueceria o seu catálogo, segundo suas próprias palavras, mas, francamente, a lista que me sugeriu de assuntos "palatáveis" sobre os quais eu deveria discorrer após "abiscoitar a cadeira" é no mínimo constrangedora. Coisas como "Conversas no Chá das 5", "Seja um Acadêmico em 10 Lições", "O Mundo Encantado das Letras", "Por Trás do Fardão", "ABL para Todos" certamente fariam a alegria dos seus leitores, mas o que eu ganharia com isso além de alguns tostões, se tanto? O senhor está querendo me sabotar? Quer que eu caia no ridículo público? Contrate um escritor de aluguel para falar sobre estes seus temas tão "momentosos" e deixe-me em paz. E deixe em paz a minha mulher também, pare de assediá-la para que eu aceite escrever para o senhor. Sei muito bem que não perde a chance de importuná-la sempre que a encontra, que lhe manda flores e bombons e telefona todos os dias, certamente para usá-la de intermediária nessa negociação. Ela anda muito nervosa com esta situação, já quase nem pára em casa. Diz que não consegue resistir à sua pressão e que por isso está estressada, a pobre. Mas saiba que eu resistirei, meu caro. Eu não vou escrever para o senhor. Eu não quero saber da sua editora! Eu não quero saber do senhor! E passe bem!
R. de A.
2.2.04
Emulator
1
você não precisa de um binóculo, a janela está sempre aberta. é só olhar. eu sou uma garota normal que se recusa a fazer parte da geração Barbie. acho até que o mundo é um lugar agradável de se viver, quando se é um ser humano. o que não é o meu caso. quando não estou vegetando, gosto de uma roda pra bater um papo e de chapar o melão. à parte minhas desconcertantes certezas ilógicas, sou o meu próprio líder: ando em círculos. não há como deixar de pensar que o destino caprichou no meu sofrimento. ela disse-me assim. ou eu li naquele blog. por que eu sempre acho que já ouvi a mesma coisa mil vezes, exatamente mil vezes? mil vezes nas 923 mensagens no celular, mil vezes nos 546 telefonemas semanais. ando precisando de posts de auto-ajuda. daí eu vi que ela disse: sorria, você está na Bahia! meu look laquê mandei cachear, ficou cantando melosa enquanto puxava o meu piercing da língua & puxava & puxava e o cara dizia pra ela mainha, mainha, diga que eu sou seu painho. tenha dó. a barra de rolagem desceu mais um pouquinho e marcamos um encontro off-blog. pergunta se eu queria? fiquei ouvindo o som do ar-condicionado e concluí que essas coisas só acontecem comigo porque moro no 13° andar, porque escolho X em vez de Y, porque saio de óculos na night quando não deveria, porque no fundo gosto quando alguém chega junto e sussurra assim: você sabia que eu e você somos dois oceanos que precisam se encontrar pra arrebentar e espumar? o que posso dizer? poderia ter sido melhor. como tudo é carnaval, eu poderia dizer quem sabe: dá uma sambadinha aí preu ver se você tem samba no pé. você não precisa de um binóculo. está tudo aqui. ao alcance de um clic. ontem fui a um churrasco no Morro Azul. toda a família comemorando um batizado em cima da laje. de repente todo mundo foi pro chão porque começou uma fuzilaria e carioca que é carioca tem um jeito Matrix de se desviar de bala perdida. o fogo cruzado durou uns vinte minutos. começou a dar tédio até. de barriga pra baixo, bebi 2 latinhas de cerveja enquanto esperava a função acabar. nunca é tarde para ser hard core, eu pensava. quando a carne, o goró e as balas acabaram, todo mundo foi embora. e eu nem vi a criança. daí cheguei em casa e escrevi que não me assusta o ruído das balas porque já o li em algum lugar, coisa que eu não fiz. mas isso você já sabe.
1
você não precisa de um binóculo, a janela está sempre aberta. é só olhar. eu sou uma garota normal que se recusa a fazer parte da geração Barbie. acho até que o mundo é um lugar agradável de se viver, quando se é um ser humano. o que não é o meu caso. quando não estou vegetando, gosto de uma roda pra bater um papo e de chapar o melão. à parte minhas desconcertantes certezas ilógicas, sou o meu próprio líder: ando em círculos. não há como deixar de pensar que o destino caprichou no meu sofrimento. ela disse-me assim. ou eu li naquele blog. por que eu sempre acho que já ouvi a mesma coisa mil vezes, exatamente mil vezes? mil vezes nas 923 mensagens no celular, mil vezes nos 546 telefonemas semanais. ando precisando de posts de auto-ajuda. daí eu vi que ela disse: sorria, você está na Bahia! meu look laquê mandei cachear, ficou cantando melosa enquanto puxava o meu piercing da língua & puxava & puxava e o cara dizia pra ela mainha, mainha, diga que eu sou seu painho. tenha dó. a barra de rolagem desceu mais um pouquinho e marcamos um encontro off-blog. pergunta se eu queria? fiquei ouvindo o som do ar-condicionado e concluí que essas coisas só acontecem comigo porque moro no 13° andar, porque escolho X em vez de Y, porque saio de óculos na night quando não deveria, porque no fundo gosto quando alguém chega junto e sussurra assim: você sabia que eu e você somos dois oceanos que precisam se encontrar pra arrebentar e espumar? o que posso dizer? poderia ter sido melhor. como tudo é carnaval, eu poderia dizer quem sabe: dá uma sambadinha aí preu ver se você tem samba no pé. você não precisa de um binóculo. está tudo aqui. ao alcance de um clic. ontem fui a um churrasco no Morro Azul. toda a família comemorando um batizado em cima da laje. de repente todo mundo foi pro chão porque começou uma fuzilaria e carioca que é carioca tem um jeito Matrix de se desviar de bala perdida. o fogo cruzado durou uns vinte minutos. começou a dar tédio até. de barriga pra baixo, bebi 2 latinhas de cerveja enquanto esperava a função acabar. nunca é tarde para ser hard core, eu pensava. quando a carne, o goró e as balas acabaram, todo mundo foi embora. e eu nem vi a criança. daí cheguei em casa e escrevi que não me assusta o ruído das balas porque já o li em algum lugar, coisa que eu não fiz. mas isso você já sabe.
31.1.04
30.1.04
Há algo de podre no reino de Itabira?: leia "O genro torto de Drummond", de Geraldo Mayrink. Aqui. É de arrepiar.
28.1.04
Eu me lembro bem de quando morei na Lagoa em 1937 e não havia nada, só os cavalos passavam carregando uns e outros ou parando para pastar. Eu me lembro que ficava numa varanda em 1937 olhando o sol se pôr e umas poucas luzes se acendiam ao longe. Tão longe que eu não poderia tocá-las, mas daí fazia frio e eu ia para dentro e começava a escrever que eu me lembro bem de quando morei no Rio Grande em 1885 e não havia nada e os cavalos ficavam parados pastando porque não havia ninguém para carregar. Eu me lembro que ficava sentada num tronco em 1885 olhando o sol se pôr e umas poucas velas se acendiam ao longe. Tão longe que eu não poderia tocá-las, mas daí fazia frio e eu ia para dentro e começava a escrever que eu me lembro bem de quando morei em Lucca em 1773 e não havia nada e nem cavalos porque não havia pasto para pastar. Eu me lembro que ficava sentada no chão em 1773 olhando o sol se pôr e escurecendo tudo ao longe. Tão longe que eu poderia tocá-lo, mas eu não sentia frio e ficava ali fora, pensando.
Pedro Oom
Actuação Escrita
Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Actuação Escrita
Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
26.1.04
Tínhamos discussões intermináveis. Eu lhe mostrava meus textos e ele dizia: tu não tens fôlego, meu chapa, tudo acaba muito depressa, tu não desenvolve o personagem, o personagem fica por aí vagando, não tem espessura, não é real. Mas é só isso que eu quero dizer, não quero contornos, não quero espessura, quero o cara leve, conciso, apressado de si mesmo, livre de dados pessoais, o cara flutua, sim, mas é vivo, mais vivo do que se ficasse preso por palavras, por atos, ele flutua livre, entende? Não. E ajeitava os óculos, não e não. Achei conveniente não lhe mostrar mais os textos. Ele me encontrava e insistia: hof hof hof, fôlego, meu chapa, fôlego, espanta as nuvenzinhas flutuantes, dá corpo às tuas carcaças, afunda os pés no chão. Eu implorava: pára com isso, pára, um dia quem sabe tu entendes. Não entendeu. Na frente de amigos, de minha mulher, de meus filhos ele começava: hof hof hof, fôlego, meu chapa. Um dia fomos à praia. Entre uma caipirinha e outra propus-lhe nadar até a ilha. Disse um sim chocho, mas topou. No meio da travessia, enquanto ele se afogava, eu aperfeiçoava a minha butterfly, e meu ritmo era rápido, harmonioso, cheio de vigor. Gritei-lhe antes de vê-lo desaparecer: fôlego é isso, negão. Estou em paz. E dedico-lhe este meu breve texto, leve, conciso, apressado de si mesmo, livre de dados pessoais, muito mais vivo do que ele morto.
Hilda Hilst, em Cartas de um Sedutor, 1991.
24.1.04
1 conto
Quase 11 horas: Acordo com uma puta dor de cabeça, torcicolo e a unha encravada latejando. O corpo encharcado de suor. Perdi a conta de quantos mosquitos me morderam essa noite. Se eu não bebesse tanto, poderia até me lembrar do nome do corno que me indicou esta pensão. Hospedagem Haway. Que merda de lugar, que merda de cidade. Uma escada de 39 degraus para quem sobe e desce. Um corredor coberto de pó e pontas de cigarro. Paredes verdes pra qualquer lado que se olhe. No final do corredor o quarto da senhoria é uma TV que grita e canta esganiçada. Respiro fundo e todo o cheiro de sebo derretido do planeta se mistura com o de gordura queimada. Acho que vou almoçar.
11:10: Caralho, cadê o outro pé da porra da sandália? Vou precisar delas pra tomar banho. O chão do box é preto, ladrilhos cheios de meleca. O chuveiro elétrico vaza água por cima. Adeus banho quente. Hoje é o meu primeiro dia de trabalho nas Tintas Marajá e não posso dar pinta de quem veio de uma charneca no cu do meio do mato que é de onde eu vim. Um buraco. Onde não aprendi a ser rei do futebol, rei da coca, rei do samba, rei de nada. O emprego é de auxiliar de balcão, mas só o que faço é carregar tranqueira. O dono é mais sujo do que eu, talvez eu não devesse me preocupar tanto com as aparências. Tintas Marajá, rua Frei Caneca. Rio de Janeiro. Esta cidade é uma bosta, mas na banca da esquina os cartões-postais mostram fotos pra provar que todos estão mentindo quando dizem a verdade. O centro da cidade é sujo, o chão gruda no sapato, o ar fede a fumaça, todo mundo buzina, todo mundo grita, o calor é infernal, os botecos têm cheiro de fritura, cu e cerveja choca, o que você pode chamar de mijo. Mas mesmo assim ontem eu vi um bando de turistas burros fotografando os prédios decrépitos do Rio antigo, todos encardidos e pixados e os gringos clicando: Belíssimo. Vão tomar no cu.
11:34: Feijão, uma caralhada de arroz e 2 almôndegas frias, preço: 8 reais. O dono das Tintas Marajá disse pra eu chegar depois de meio-dia que estaria bom. Ele é que manda. O garfo entorta na hora de cravar a almôndega. Pra arrematar, peço um cafezinho e água da bica. Acho que me contrataram pra eu ficar carregando lata de tinta, da caminhonete para o depósito, do depósito para a caminhonete. Salário mínimo + uns trocados de um bico noturno num posto Petrobras, dá pra levar. Talvez por estar escolada de tanto levar cano de vagabundo, a dona da pensão me perguntou do meu trabalho. Eu disse que trabalhava na Petrobras. Se acreditou ou não, sua expressão azeda não me disse, mas ela me deu o quarto menos sujo da Hospedagem Haway, de frente para uma oficina de lanternagem. Trabalhar na Petrobras é o sonho de todo mundo. Pra mim, me pagando em dia já é lucro, a marca do patrão que se foda. Duas putas entram e pedem uma cerveja no balcão. A mulata reclama que está quente e coça a bunda. A meia da perna esquerda tem um fio puxado bem em cima de uma variz que vai do alto da coxa até o tornozelo. Mas ninguém repara. Eu cato umas moedas no bolso da calça e despejo sobre a mesa. A loura falsa me vê passar sem interesse e as duas soltam uma gargalhada nas minhas costas. Minha camiseta suada gruda no peito e sinto uma ligeira tontura quando acelero os passos pela rua. Atravessado na calçada, um mendigo bêbado com um curativo purulento na perna dorme de boca aberta. A fumaça do ônibus cai sobre nós dois e se dispersa na cidade. Talvez cicatrize.
Meio-dia em ponto chego no trabalho e um tipinho asqueroso que eu não conhecia se apresenta como gerente da loja. Nunca vi o sujeito antes, eu havia tratado tudo com o dono, que conheci no banheiro de um bilhar da Mem de Sá, todo vomitado e dormindo na boca da privada. Eu ajudei o velho a se limpar e ele me agradeceu com o emprego na sua "firma" umas dez cachaças mais tarde. O gerente então pergunta qual o meu nível escolar. Primeiro grau completo, Supletivo Dallas, Baixada Fluminense. Pela resposta ele viu que eu não era o retardado que esperava que fosse. Caixas e mais caixas de latas de tinta. A caminhonete dispara abarrotada depois que eu carrego tudo. São duas para a loja toda. Uma delas toda comida de ferrugem por dentro. A camiseta branca que comprei num saldão da Riachuelo fica marrom. Antes de eu ir embora, o gerente me diz que meio-expediente é meio-salário. Puta que pariu. Serviço de jumento e pagando uma miséria. Dois pastéis de carne e um caldo de cana depois, me apresso até o posto de gasolina para mais uma noitada calibrando pneus e espumando para-brisa. E o pior é que nem posso ficar reclamando de dinheiro com os caras do posto porque senão o frentista-chefe do meu turno vem com aquela conversa pra me convencer a vender um rim. Diz que arranjaria tudo pra mim com direito a dez por cento do que eu recebesse pela transação. Eu teria que viajar e depois da cirurgia ficaria "afastado" um tempo do Rio. Aquilo não me cheirava bem e eu comecei a evitar o cara. Ele percebeu e agora só me oferece drogas e viagras. Pensa que sou brocha. Chego no posto e uma fila de carros me espera: calibrar e lavar. Os filhos da puta querem o carro limpinho pro feriadão.
Sento numa mesa no fundo do bilhar 75 com uma garrafa de cerveja e fico filmando os tacos em movimento. Talvez faça uma fezinha mas não conheço nenhum dos caras e ouvi o garçom dizer que o lugar estava cheio de canas. Estou estourado, só consegui sair do posto à uma hora da manhã quando o movimento caiu. Anoto essas coisas num caderno que trago comigo porque tenho essa mania, vontade de rabiscar pra passar o tempo, ficar sujando as folhas em branco. Conversando sozinho com a caneta, faço desenhos, contas, invento nomes e telefones de ninguém, uma lista de lugares onde já trabalhei, onde morei, nomes das garotas que comi, que não comi, dos filhos da puta que me sacanearam, conversas que já ouvi e não conto pra ninguém, pesadelos. Anoto tudo. O pessoal lá de casa me achava maluco e me olhava enviezado. Família. Uma traveca pisca pra mim do balcão e um minuto depois está puxando uma cadeira do meu lado. Ela já está trincada e o silicone das bochechas treme. Os tacos param. Começo a suar. A traveca finge interesse no que escrevo e se estica pra perto de mim enquanto me passa uma bolsinha por baixo da mesa. Pede pra eu guardar que depois pega comigo. Ela implora e se afasta. Os tacos voltam a se mexer. Eu esvazio o copo de cerveja e me fixo no reflexo das bolas sobre a mesa de bilhar. Lá pelas três da manhã o jogo dos canas acaba e eles se mandam. Eu vomito tudo no banheiro, lavo o rosto e vejo pelo espelho sujo que a traveca está atrás de mim, sorrindo. Lembro da bolsinha. Ela agradece e me alisa o pau por cima da calça. Eu desço o ziper e começo a mijar. Ela quer mais e eu deixo. Me convida pra aparecer no ensaio da Unidos do Cabuçu amanhã e vai embora. O garçom guarda a minha gorjeta magra e me passa um folheto de uma assembleia de Deus. Eu dou as costas e na rua dois camburões passam voando na contramão. Fuzis para o alto. Saio da gafieira quando o dia quer amanhecer e sob os arcos da Lapa uma pivete me negocia o rabo por 50 reais. Vai a merda. Quero me jogar na cama mas a Haway ainda está longe. Vou a pé. Meu caderno dentro da calça arranha minha pele. Na porta da pensão uma mulher me pede 30 paus em troca de um boquete. Não tem cara de puta. Ela está nervosa e não quer subir. Vamos para trás de uma banca de jornal e ela se ajoelha. Eu viro o rosto pra cima e uma nesga de sol me bate no olho. Ela perde a paciência comigo, fecha minha calça e eu lhe dou 10 paus. Um caveirão estaciona na esquina em frente. Subo correndo os 39 degraus e jogo meu caderno no latão de lixo do corredor. Minha barriga sangra. Não me custa nada fechar a porta do quarto.
23.1.04
22.1.04
20.1.04
Prezado editor
Queridíssimo, nem sei como desculpar-me com você depois de séculos sem lhe dar notícias minhas. Derramar-me em mil perdões seria pouco. Estou atrasadíssima, tudo isto eu sei. Imagino que foi há três meses a última vez que lhe prometi a entrega dos originais do meu A Abóbora-Moranga, não é? Não fique acabrunhado comigo, logo você, que me cobre de tantas delicadezas. Você, mais do que qualquer um, sabe como somos, nós os escritores. Além da nonchalance habitual, há sempre aquela correção de última hora, um acréscimo aqui, um corte ali, some-se a tudo a eterna dúvida de estar fazendo a coisa certa. Houve certos dias em que, transtornada por minhas notórias enxaquecas, tive vontade de atear fogo às laudas, como Kafka. Mas depois me lembrava que teria de datilografar tudo novamente (não me fale de computadores) e a vontade passava. Ah, nessas horas gostaria eu de ser poeta, pois todo poeta, disse sabiamente Cocteau, é um escritor que não escreve. Mas, meu querido, alegre-se: dei um fechamento ao livro afinal e só me resta escolher um autor para o "prefácio interessantíssimo". Preciso de tua opinião, não sei se procuro um amigo jornalista ou um amigo acadêmico. O que acha? Meu amigo jornalista goza de notoriedade, sem dúvida sua participação dará maior visibilidade ao meu romance, porém um acadêmico é sempre um acadêmico, e credibilidade não se discute. Como são difíceis as coisas neste país, não é mesmo? Ser escritor no Brasil é sujeitar-se a cada uma... mas não me queixo, os afrescos de Michelangelo foram pintados com cerdas de porco e muita cal e mesmo assim deu no que deu. Amanhã mesmo minha filha Isabel passará aí para entregar-lhe o livro pronto (não confio no correio). E por favor, fique de olho na produção. Qual o problema dos teus revisores? Eles ganham por vírgula?
Com muita estima e lembranças minhas à Lucinha
de sua amiga
N. B.
P.S. Como vão as negociações para a edição do meu primeiro romance em braille? Escreva-me dizendo. E pensando bem agora, acho que vou preferir o jornalista. Ele pode ser meio burrinho, mas é muito lido e simpático. Não quero que você se queixe das vendas, meu caro. Não se esqueça de me agendar Leda Nagle e Jô Soares, e outros de que não me lembro no momento. Uma menção na novela "Celebridade" seria recomendável. Tem sempre um personagem segurando um livro por lá. Deixe que eu fale pessoalmente com B. Ele gosta de mimos. Beijinhos.
Queridíssimo, nem sei como desculpar-me com você depois de séculos sem lhe dar notícias minhas. Derramar-me em mil perdões seria pouco. Estou atrasadíssima, tudo isto eu sei. Imagino que foi há três meses a última vez que lhe prometi a entrega dos originais do meu A Abóbora-Moranga, não é? Não fique acabrunhado comigo, logo você, que me cobre de tantas delicadezas. Você, mais do que qualquer um, sabe como somos, nós os escritores. Além da nonchalance habitual, há sempre aquela correção de última hora, um acréscimo aqui, um corte ali, some-se a tudo a eterna dúvida de estar fazendo a coisa certa. Houve certos dias em que, transtornada por minhas notórias enxaquecas, tive vontade de atear fogo às laudas, como Kafka. Mas depois me lembrava que teria de datilografar tudo novamente (não me fale de computadores) e a vontade passava. Ah, nessas horas gostaria eu de ser poeta, pois todo poeta, disse sabiamente Cocteau, é um escritor que não escreve. Mas, meu querido, alegre-se: dei um fechamento ao livro afinal e só me resta escolher um autor para o "prefácio interessantíssimo". Preciso de tua opinião, não sei se procuro um amigo jornalista ou um amigo acadêmico. O que acha? Meu amigo jornalista goza de notoriedade, sem dúvida sua participação dará maior visibilidade ao meu romance, porém um acadêmico é sempre um acadêmico, e credibilidade não se discute. Como são difíceis as coisas neste país, não é mesmo? Ser escritor no Brasil é sujeitar-se a cada uma... mas não me queixo, os afrescos de Michelangelo foram pintados com cerdas de porco e muita cal e mesmo assim deu no que deu. Amanhã mesmo minha filha Isabel passará aí para entregar-lhe o livro pronto (não confio no correio). E por favor, fique de olho na produção. Qual o problema dos teus revisores? Eles ganham por vírgula?
Com muita estima e lembranças minhas à Lucinha
de sua amiga
N. B.
P.S. Como vão as negociações para a edição do meu primeiro romance em braille? Escreva-me dizendo. E pensando bem agora, acho que vou preferir o jornalista. Ele pode ser meio burrinho, mas é muito lido e simpático. Não quero que você se queixe das vendas, meu caro. Não se esqueça de me agendar Leda Nagle e Jô Soares, e outros de que não me lembro no momento. Uma menção na novela "Celebridade" seria recomendável. Tem sempre um personagem segurando um livro por lá. Deixe que eu fale pessoalmente com B. Ele gosta de mimos. Beijinhos.
18.1.04
espelho, sim
entre outras coisas
a cidade amanheceu cinza. Agora chove.
Eu sento aqui, operando por instrumentos.
Se estiver beijando alguém,
pensa em mim esta noite.
erotismo&poesia: O Lado B
entre outras coisas
a cidade amanheceu cinza. Agora chove.
Eu sento aqui, operando por instrumentos.
Se estiver beijando alguém,
pensa em mim esta noite.
erotismo&poesia: O Lado B
livro-espelho
O "mirror-book", de John Christie e Ron King, foi originalmente criado numa "edição" de 30 páginas para ser exibido na exposição The Open and Closed Book realizada em 1979 pelo Victoria&Albert Museum em Londres. Posteriormente, em 1985, seria publicada uma edição limitada de 35 exemplares. Que tal ser um leitor-texto?
O "mirror-book", de John Christie e Ron King, foi originalmente criado numa "edição" de 30 páginas para ser exibido na exposição The Open and Closed Book realizada em 1979 pelo Victoria&Albert Museum em Londres. Posteriormente, em 1985, seria publicada uma edição limitada de 35 exemplares. Que tal ser um leitor-texto?
17.1.04
blogs&literatura
O André Leones tem 23 anos e um blog, o Canis Sapiens. Ele também corre atrás de editoras pois tem um livro de poemas engavetado de onde saem coisas assim:
INEPTISSIMA VANITAS
Eis que passo a noite tresloucado,
alto e baixo,
pá virada,
memória rouca a oprimir no riso
minha tristeza mais autêntica.
E tive febre, como de praxe.
O senhor entende, pai, o senhor sabe,
ando num esforço crescente pelo mínimo,
um mundo de pequenas boas coisas
que não me deixaram engolir.
Hoje não há hoje:
eis-me num auto-reverse inexorável,
dois olhos na nuca e nenhum na cara,
nenhum mesmo.
Deixo meio mundo aí plantado
no aguardo de notícias.
Eu os convido a me ignorar.
Amontoando versos e noites insones. Tudo é volta ao pó.
Pode ficar quieto que te alcançam.
COMO PERDER-SE DO PRÓPRIO NOME
Um sopro.
Não sou nenhum taumaturgo aferrado
à minha sombra, desinência do possível.
Minhas unhas estão grandes,
você diz do seu nicho, degrau do meio da escada.
O gelo acabou, bebemos vinho quente;
minha embriaguez salta aos olhos,
aos pés, inconsciente. Ali, bem aqui.
Você se dobra e é de fato uma mulher.
Sou do tempo em que um gemido seu
era poesia. Um seio à mostra, à mão, já transcendia tudo.
O que busco de beber que não encontro aqui?
O André Leones tem 23 anos e um blog, o Canis Sapiens. Ele também corre atrás de editoras pois tem um livro de poemas engavetado de onde saem coisas assim:
INEPTISSIMA VANITAS
Eis que passo a noite tresloucado,
alto e baixo,
pá virada,
memória rouca a oprimir no riso
minha tristeza mais autêntica.
E tive febre, como de praxe.
O senhor entende, pai, o senhor sabe,
ando num esforço crescente pelo mínimo,
um mundo de pequenas boas coisas
que não me deixaram engolir.
Hoje não há hoje:
eis-me num auto-reverse inexorável,
dois olhos na nuca e nenhum na cara,
nenhum mesmo.
Deixo meio mundo aí plantado
no aguardo de notícias.
Eu os convido a me ignorar.
Amontoando versos e noites insones. Tudo é volta ao pó.
Pode ficar quieto que te alcançam.
COMO PERDER-SE DO PRÓPRIO NOME
Um sopro.
Não sou nenhum taumaturgo aferrado
à minha sombra, desinência do possível.
Minhas unhas estão grandes,
você diz do seu nicho, degrau do meio da escada.
O gelo acabou, bebemos vinho quente;
minha embriaguez salta aos olhos,
aos pés, inconsciente. Ali, bem aqui.
Você se dobra e é de fato uma mulher.
Sou do tempo em que um gemido seu
era poesia. Um seio à mostra, à mão, já transcendia tudo.
O que busco de beber que não encontro aqui?
16.1.04
António Botto
Canções
Pedir
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
Inédito
Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho , todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!
Canções
Pedir
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
Inédito
Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho , todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!
15.1.04
E o excelente Trabalho Sujo ainda nos traz, entre mil outras coisas legais, o lúcido artigo de Hermano Vianna, "O Direito de Querer Menos", já publicado na imprensa oficial. Confira.
14.1.04
"A mulher tem uma natureza lunar, fluida. Em oposição ao homem, que é solar, concreto." Dizia minha vó, enquanto lia um exemplar da Seleções e eu, adolescente, mergulhava meu cabelo na água oxigenada para que ficassem louros. Eu queria ser surfista. "Ser mulher, no meu tempo, era ser fraca, viver nervosa, com a cabeça na lua, precisando de fortificantes." Eu penteava meu cabelo fio por fio, bebia litros de suco de laranja com cenoura para dourar a pele e aumentava o som da tv para encobrir aquela conversa toda outra vez. Minha avó fora sufragista, ou pelo menos era isso que vivia dizendo que foi nos seus tempos de solteira. Eu conhecia de cor aquelas velhas histórias de romper com o monopólio masculino, das lutas feministas, da coragem, moral e disciplina que eram necessárias para desbancar o patriarcado. Quando jovem, o sonho dela, nunca realizado, foi partir para a frente de batalha, como as russas fizeram. Mas como as feministas brasileiras sempre foram mais acanhadas e legalistas, minha vó não viu chance de romper barreiras maiores com o seu idealismo. As discussões nos almoços de domingo da família freqüentemente eram pontuadas por minha vó rebatendo a falsa idéia de que o cérebro mais leve e com menos circunvoluções da mulher gerava a suposta fragilidade feminina. Ela adorava lançar contra-argumentos científicos. Eu não entendia nada na época e saía direto da mesa para o sofá porque a conversa me dava sono. "Toda a mulher é uma degenerada por natureza, mamãe." Era o meu tio, leitor contumaz de Nelson Rodrigues, de quem se orgulhava de ser vizinho no Leme além de personagem de uma das crônicas do famoso autor. "Essa degenerescência é responsável por sua total incapacidade de se adaptar ao meio, seja qual for. A degeneração física, uma construção defeituosa, é provocada pelo óvulo." Continuava ele, citando um famoso psiquiatra naturalista que na época já era ultrapassado. Minha avó, que nunca foi de resistir a provocações, batia com o garfo no prato e faíscas voavam: "Quer dizer que, para você, toda mulher na menopausa é perfeita! Vira homem!" Meu tio gargalhava e se retirava da mesa para a varanda, onde terminava de rir baixinho. "E você, Letícia", ela se virava contra minha mãe quando a força de seus argumentos não era levada a sério, "cuide direito da educação desta menina. Ela não sai da praia. Do colégio para a praia, da praia para o colégio. Onde já se viu?" A menina era eu, no sofá dormindo. Há duas semanas que chovia e eu já estava perdendo o bronzeado. "Na minha época eu lia revistas francesas, toda a literatura francesa. Essa garota só lê gibis e quer ser surfista!" Ela estava exagerando, eu era a primeira aluna da classe, sem fazer esforço, é claro. Nisso tinha razão. Minha mãe balançava a cabeça e retirava os pratos, servil. Meu pai já tinha fugido para a sala de tv. Comerciante de calçados, nunca se interessava por esses debates familiares: "Um dia ainda embolacho essa velha", ele resmungava arrastando os chinelos. Nem preciso dizer que o domingo acabava com todos assistindo ao "Fantástico". O patriarcalismo, o matriarcalismo e o servilismo se aconchegavam bem na frente da tv onde eu ouvia, feliz, a previsão do tempo para amanhã. Sol claro.
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