Os Dez Mais dos "Piores Contos Brasileiros"
Finalistas:
-- "Fuga Desesperada dos Vales Verdes que Nunca Chegam aos Neuróticos do Coração"
Gabriel Silveira
-- "Marimbondos de Porre ou Abelhas de Fogo, Tanto Faz"
Sarna Maria
-- "Minha História"
Maricleide de Jesus
-- "No Coletivo"
Márcia Soares
-- "O Pior Conto Brasileiro"
Angela Castelo
-- "O Pior Homem do Mundo"
Miranda Neto
-- "Proseabundo"
Letra Morta
-- "Quando o Sr. Carmela Saiu de Férias"
Daniel Guimarães
-- "Uma Noite Inesquecível"
Pyra Olímpica
-- "Vitória"
Renata Finaendor
Aí estão finalmente, amigos. A tarefa não foi fácil. Muitos bons candidatos ficaram de fora, mas o que fazer? No entanto, não perca as esperanças se o seu conto não se encontra nesta lista, pois a Comissão Julgadora concederá também os prêmios Menção Honrosa para o pior conto e Menção Desonrosa, para o melhor conto -- sim, porque apareceram contos verdadeiramente bons, de candidatos que provavelmente não entenderam a proposta ou não se esforçaram o suficiente. Também serão publicados aqui. Então é isso, dia 8 veremos a classificação final e os vencedores. Até lá.
5.12.03
3.12.03
António Lobo Antunes
Não entendo por que motivo, querida, nunca te interessaste pela minha infância: sempre que falo de mim encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo louro, de modo que acabo por me calar, envergonhado, a colocar os copos, os pratos e os talheres na mesa do almoço, enquanto a tua tia tosse na despensa e o teu pai roda os botões do televisor em busca das estridências da novela. E, todavia, Iolanda, logo que adormeces, mal o teu rosto, amolgado na almofada, readquire a inocência do presépio de outrora, tal como te vi, pela primeira vez, na pastelaria à esquina do Liceu, quando os teus dedos sujos de tinta e os teus cadernos escolares me comoveram de uma alegria sem sentido,
logo que adormeces e uma brancura de olmo com pássaros nos atravessa o quarto, arengo sem que me troces, converso, pairando sobre ti, com as tuas palmas inertes e as tuas coxas indefesas, e a casa onde morei antes da família da minha mãe surge da noite, nascida de uma imperfeição do espelho ou da gaveta da cômoda em que a nossa roupa se mistura com ninhos de traças e maçanetas de cobre, desde que há meses me ordenaste Vem e eu me apresentei, com o guarda-chuva e duas malas gastas, neste andarzinho da Quinta do Jacinto, em Alcântara, para explicar que sim, que tinha mais trinta e um anos do que tu mas o emprego do Estado, Senhor Oliveira, não é mau de todo, e claro que pagaria a eletricidade, a renda e a despesa do talho.
-- Em "A Ordem Natural das Coisas", 1992.
1.12.03
"Piores Contos Brasileiros": reta final
Inscrições encerradas. Isso mesmo, amigos, o nosso Grande Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros" está chegando ao fim. Dia 5 (sexta-feira) publicaremos a lista com os 10 finalistas. Dia 8 (segunda) o tão esperado resultado! e a seguir, como prometemos, a publicação dos finalistas. Agradeço a todos os candidatos que participaram enviando suas obras (mais de 77 contos inscritos!, um fenômeno), e aos leitores e blogs que apoiaram a iniciativa sem restrições. Grande abraço a todos e não percam no dia 5 a lista dos finalistas. Você pode estar lá!
Al Berto
Vigílias
pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magníficas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo vôo lunar
enumero cuidadosamente os objetos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
-- Al Berto
pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa
deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim
agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magníficas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas
onde desenvolve o calmo vôo lunar
enumero cuidadosamente os objetos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa
então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.
-- Al Berto
28.11.03
Alexandre O'Neill
Poema pouco original do medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
-
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
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26.11.03
Lin Hsin Hsin
Phone-Mail
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the party you have just called at extension 1272 is not available
you can either leave a message or transfer out of phone-mail
to leave a message, begin speaking at the tone
to transfer out of phone-mail, press zero
peee
... begin speaking at the tone
to transfer out of mail, press zero
This is ibm, good morning
Mr Lum's secretary please
one moment please
this is Karol, I am sorry I am not at my desk now
please leave a message after you hear the beep tone
if you have something urgent
please call Xiang Hoon at extension 1542
thank you
pu-pu, pu-pu, pu-pu
Hi! this is Xiang Hoon's desk, I am afraid I am not in now
please leave a message after you hear the beep tone
for urgent matters
you can contact either Ilaine at 1632
or Karol at 1273
thanks for calling
pu-pu, pu-pu, pu-pu
Hi! this is Ilaine, I am afraid I am not available
please leave a message after you hear the beep tone
for urgent matters
please call Karol at 1273
or Xiang Hoon at 1542
have a nice day, bye now
-
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25.11.03
Heriberto Yépez
Tarde. Pôr-do-sol.
Na frente do cybercafé, o arco do milênio aparece refletido nas janelas do segundo e terceiro andares do dentista Lincoln. Estou aguardando uma máquina para poder escrever. Fumo um cigarro na calçada. Não é certo. São apenas palavras. Não acredite nelas. Aconteceu outro dia. Se você acredita. Mas não agora.
"Os escritores ruins revelam o ofício de escrever, porque neles tudo é grotesco, descarado. Eles deixam transparecer aquilo que os bons autores souberam ocultar e sublimar com muita eficiência. Um escritor ruim põe em evidência todos os outros escritores porque, ao abortar a escrita, deixa os segredos desta à vista de todos."
-
23.11.03
22.11.03
Dorothy Parker
Résumé
Razors pain you
Rivers are damp
Acid stain you
And drugs cause cramp
Guns aren't lawful
Nooses give
Gas smells awful
You might as well live
-
21.11.03
Dias de Dona Beja
Como costumo fazer toda semana, esta manhã fui até o Correio verificar a minha caixa postal. Até aí nada demais, vocês diriam. Porém minha história começa quando, ao me apoiar sobre o balcão do posto, distraída, dei de cara com um exemplar do jornal "Correio de Araxá" meio que jogado de lado. Aparentemente fora esquecido ou descartado. Até aqui nada demais também, não fosse o jornal estar endereçado ao "Professor Leonardo Boff". Minha curiosidade pipocou. Eu já sabia que o sr. Boff era meu vizinho, inclusive já o vi inúmeras vezes no mesmo posto dos Correios. Obviamente ele não me cumprimenta porque não me conhece. Motivo suficiente para despertar minha curiosidade adormecida em relação ao tipo de leitura que o meigo frei costuma descartar. O exemplar em questão datava de 8 de novembro e exibia 3 cadernos: o primeiro, mais volumoso; um outro denominado "Caderno Mulher Feminino", e, por último, o "Correio Literário". Não vou me deter aqui comentando o XXIX Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, a Expomilk 2003, o Bailão do Cowboy, ou o lançamento da primeira água de coco em pó do mundo, matérias de capa do citado hebdomadário araxaense, por julgar que não são temas de interesse direto de meus leitores. (Ou são?) E assim passo à parte mais curiosa de minha narrativa, o caderno literário em si. São 6 páginas exibindo poetas locais, o resultado de um Torneio de Xadrez (?), uma crônica assinada por Irmã Domitila, uma lista de best-sellers! locais (cujo campeão de vendas absoluto é o sr. Nuno Cobra, com o livro "Semente da Vitória") e, pasmem, um artigo do próprio teólogo Leonardo Boff intitulado "Que é o ser humano". Ora, por que será que o frei jogou fora um jornal do qual é colaborador? É o que me pergunto até agora, quatro horas depois de fazer tal descoberta... No entanto, a minha história não acaba aqui, pelo contrário. A melhor parte vem agora. Após fuçar a ostra, descubro a pérola que fez o meu dia: página 6, coluna "Araã!", assinada por Evandro Affonso Ferreira. Não preciso dizer mais nada e, como eu, tenham um bom dia depois de lê-la até o fim:
"Deuses frígidos desalumiam alma chamejante
Sim Senhor meu Deus sei que estou resvalando em culpa mas difícil saber quem neste Teu vasto mundo não tem telhado de vidro; impossível resistir Seleno aquele trilhando minhas veredas nunca antes palmilhadas; faço mea culpa deste meu ultraje ao pudor; sei que tenho praticado atos contrários à virtude; bacante insensata sim Senhor; que tenho me portado qual mulher de costume fácil feito Jezebel Messalina Dalila; que sou a mais depravada e lúbrica de todas as mulheres; impossível resistir Seleno aquele miraculoso que revivificou meus desejos impuros; sim Senhor meu Deus sei que estou salpicando meu caminho de devassidão lama mácula; sei que estou lançando sombra sobre minha angelitude; mas inútil negar Senhor meu Deus que estou vivendo a estação dos amores dos prazeres dos risos; que meu corpo desde sempre assexo ficou subitamente abrasador; impossível resistir Seleno aquele dadivoso que substancia às lufadas meu apetite depravado; sim senhor meu Deus sei que tirei pudor dos gonzos; que desarranjei meu projeto decoroso; que subverti os princípios basilares do recato; mas inútil negar que ardor fogoso desordenado bonifica minha pele alenta meu humor infunde novos ânimos; impossível resistir Seleno aquele lascivo que desnuda meus caprichos voluptuosos; ah Senhor meu Deus esperei meio século para descobrir minha capacidade de exalar encanto e sedução; foram cinqüenta anos anódinos frígidos insípidos; renasci.
Bom dia senhor Títio...sim manhã lindíssima sol esbanjando clareza...como sempre todos os dias logo cedo primeira coisa igreja...murmurando minhas preces ao som de hinos ambrosianos de louvor...entoando litanias diante Daquele-que-falou-e-o-mundo-passou-a-existir...sim sei, o senhor sempre diz isso, que Deus, sendo perfeito, não carecia de nada, logo não tinha por que digamos criar o mundo; mas meus pais ambos certamente no Céu me ensinaram na flor da idade a não abrir mão do archote da fé; sim verdade férias terminando...semana que vem Tribunal de Contas novamente.
O sexto círculo do Inferno dantesco está assim de Títios.
Parece crime de leso-bom senso...sol sobrando lá fora eu aqui hum gostoso ficar assim deitada nua pensando nele Seleno lambendo meu corpo todo feito fazem agora raios infravermelhos.
Nunca vou entender Lisístrata aquela que comandou as mulheres de Atenas numa greve de sexo.
Sim querida calcinha rendada, branca, toda branca para contrastar com minha pele bronzeada.
Hum será que ele Seleno vai gostar deste perfume cheirando a algália...acho que não...hum...jasmim também não...hummm sândalo... vou levar este.
(continua na próxima edição)"
-
20.11.03
Era uma vez uma carta que não tinha nada de mais.
Era apenas uma folha, pequena e branca,
mas não era assim que Ivaníssia a via.
Para ela, uma folha em branco era
uma janela para um outro mundo,
nela poderia escrever o que quisesse
e ser então pássaro ou baleia, seta ou perífrase,
incandescência, brilho, amizade, paixão ou mesmo amor.
No esforço que ali se coadunava
com a mais erudita imaginação,
Ivaníssia culminou num tremendo gemido
que se viu transcender com um "sploft" suave
e um friozinho molhado na base da espinha.
Atravessou uma última vez a carta em branco
com o seu doce e agora sereno olhar,
amarrotou-a um pouco, puxou o autoclismo e limpou o rabo.
-- Filipe Goulão, em Luzes Azuis
Era apenas uma folha, pequena e branca,
mas não era assim que Ivaníssia a via.
Para ela, uma folha em branco era
uma janela para um outro mundo,
nela poderia escrever o que quisesse
e ser então pássaro ou baleia, seta ou perífrase,
incandescência, brilho, amizade, paixão ou mesmo amor.
No esforço que ali se coadunava
com a mais erudita imaginação,
Ivaníssia culminou num tremendo gemido
que se viu transcender com um "sploft" suave
e um friozinho molhado na base da espinha.
Atravessou uma última vez a carta em branco
com o seu doce e agora sereno olhar,
amarrotou-a um pouco, puxou o autoclismo e limpou o rabo.
-- Filipe Goulão, em Luzes Azuis
18.11.03
Boris Vian
Tudo foi dito cem vezes
Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba
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Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba
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17.11.03
Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas
Guidons enferrujados na chuva
Devia haver um orfanato
Para essas coisas que ninguém mais quer
Setembro me lembra julho
É tempo de dizer adeus
Se o verão passou o meu amor permanece
Velhas bicicletas quebradas na chuva
Bicicletas quebradas, não digam nada aos meus pais
Com todas aquelas cartas enfiadas nos raios
Espalhadas como esqueletos sobre a grama
Rodas que não giram sem a outra metade
As estações passam a correr
E eu que me esqueço todas as vezes
Mas as coisas que me deste ficarão para sempre
Mesmo quebradas nunca as jogarei fora.
-- Tom Waits, "Bicicletas Quebradas".
Guidons enferrujados na chuva
Devia haver um orfanato
Para essas coisas que ninguém mais quer
Setembro me lembra julho
É tempo de dizer adeus
Se o verão passou o meu amor permanece
Velhas bicicletas quebradas na chuva
Bicicletas quebradas, não digam nada aos meus pais
Com todas aquelas cartas enfiadas nos raios
Espalhadas como esqueletos sobre a grama
Rodas que não giram sem a outra metade
As estações passam a correr
E eu que me esqueço todas as vezes
Mas as coisas que me deste ficarão para sempre
Mesmo quebradas nunca as jogarei fora.
-- Tom Waits, "Bicicletas Quebradas".
14.11.03
Sentada na areia. Eu tive medo. Meu pai estava lá em cima. Túnel Dois Irmãos. Atlântica. Não, eu não estou bem na foto. Não acredite em nada do que escrevo quando digo que meu pai estava lá em cima e nossas janelas não se preocupavam com detalhes. Os barcos entravam na baía do Leme. Meus olhos acompanhando os pedaços, minha mãe batia os bifes. Só de mim outros carnavais. Marina hoje perdeu a voz e eu paro na barraca de coca-cola. Peço uma cerveja. Há um Copacabana Palace em que não entro. Estou sozinha. Seguro um coco. Escuto mal. Meu pai não vê mais ninguém. Para ele tá tudo assim, diferente de um soco. Está tudo do lado atlântico. E nós na foto.
13.11.03
Despreocupada e leve, ocupei-me da vida alheia e o tempo voou. O mundo para mim era jovem, grande e gordo. O verão sempre acabava voltando e punha-se a administrar a vida de todos. Minha casa tinha pouca luz, mas as bochechas rosadas de minha irmã a tudo iluminavam. Razão suficiente para instalar-me num mau humor profundo. Segui o curso da corrente de ar e dei com meu pai parado ao pé da escada. Olhos esbugalhados, provavelmente bêbados. Escrever acerca deles exigiria um tratamento profissional. Olhos esbugalhados excluem tudo o que não seja o esbugalho, se é que me faço entender. Tenho muita preguiça e algumas dificuldades. Uma vez um cabotino me perguntou: "Você consegue conceber a totalidade de um momento?" Engasguei com a metade de um travesseirinho de ravióli. "Francamente, isso não é assunto para o momento do jantar", repliquei. Ocorreu-me na hora que minha avó dera a mesma resposta ao ser indagada em quanto aumentaria o salário da empregada. Nossa combinação genética me parecia impossível até então. Ando obcecada por limpeza. Vasculho paredes do teto ao rodapé, procurando manchas, saliências, traças. Não posso negar que me sinto um pouco esquisita esta tarde. Há algo de calculado na minha tristeza. Algo prematuramente criado para não causar surpresa. Sempre que me sinto assim desço correndo para as ruas e me misturo com os camelôs. As aglomerações são gigantescas línguas de humanidade, ou nos excitam ou dão nojo. O que perco em arriscar? Um Jesus rabugento perambula pelos corredores. Eu vi. Em torno de sua beleza lenta um festejo de criados. Cânticos, sinos de igreja. Gostaria de acordar agora, eu não suportaria toda aquela velha ladainha outra vez. Daqui a dez minutos as mariposas entrarão pela casa e eu descobrirei que é tudo mentira. As mariposas, a casa, a mentira. Tripulante da sala de visitas, o telefone faz fila para atrair os meus ouvidos. As probabilidades de um domingo agradável me cercam feito arame farpado. Estou com 37 anos e a urna com as minhas cinzas começa a ser deslocada.
-
12.11.03
Alexandre O'Neill
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
11.11.03
Paul Verlaine
Gostos imperiais
Assim como Luís XV, não gosto de perfumes.
Só posso suportá-los no justo limite.
Na cama, por favor, nem frascos nem sachês!
Mas ah, que um ar singelo e picante flutue
Ao derredor de um corpo, desde que me excite;
E meu desejo preza e minha ciência aprova
No corpo apetecido, quando se desnuda,
O odor da picardia, o odor da puberdade
E o hálito excelente das belas maduras.
Mais: me fascinam (cala, moral, essa arenga)
Como dizer? Essas exalações secretas
Do sexo e arredores, antes e depois
Do abraço celestial e durante as carícias,
Sejam elas quais forem, devam ou pareçam.
Mais tarde, sonolento, com o olfato lasso,
Saciado de prazer, como os outros sentidos,
Quando meus olhos vão morrendo noutro rosto,
Quase extinto também, lembrança e previsão
Do entrelaçamento das pernas e braços,
Da união dos pés nos lençóis úmidos, vermelhos,
Sobe desse langor de agradável volúpia
Tanta humanidade que dá um certo embaraço
Mas tão bom, tão bom, que dá ganas de comer!
Como é possível desejar, por cima disso,
Uma fragrância estranha, de planta, de besta,
Mudando a percepção, confundindo os sentidos,
Quando disponho, para aumentar a volúpia,
Da quintessência, exatamente, da beleza!
-
Assim como Luís XV, não gosto de perfumes.
Só posso suportá-los no justo limite.
Na cama, por favor, nem frascos nem sachês!
Mas ah, que um ar singelo e picante flutue
Ao derredor de um corpo, desde que me excite;
E meu desejo preza e minha ciência aprova
No corpo apetecido, quando se desnuda,
O odor da picardia, o odor da puberdade
E o hálito excelente das belas maduras.
Mais: me fascinam (cala, moral, essa arenga)
Como dizer? Essas exalações secretas
Do sexo e arredores, antes e depois
Do abraço celestial e durante as carícias,
Sejam elas quais forem, devam ou pareçam.
Mais tarde, sonolento, com o olfato lasso,
Saciado de prazer, como os outros sentidos,
Quando meus olhos vão morrendo noutro rosto,
Quase extinto também, lembrança e previsão
Do entrelaçamento das pernas e braços,
Da união dos pés nos lençóis úmidos, vermelhos,
Sobe desse langor de agradável volúpia
Tanta humanidade que dá um certo embaraço
Mas tão bom, tão bom, que dá ganas de comer!
Como é possível desejar, por cima disso,
Uma fragrância estranha, de planta, de besta,
Mudando a percepção, confundindo os sentidos,
Quando disponho, para aumentar a volúpia,
Da quintessência, exatamente, da beleza!
-
8.11.03
7.11.03
Laura Riding
William e Daisy: Fragmento de uma novela inacabada
-- Laura Riding
William e Daisy moravam na rua do Cemitério. Não possuíam nenhuma ligação entre si exceto que ambos não se sentiam atraídos pela vida tampouco pela morte; por isso viviam na rua do Cemitério. William era pessimista porque desgostava da vida um pouco mais do que da morte. Daisy era otimista porque desgostava da morte um pouco mais do que da vida. William tinha duas lembranças: uma, que já tivera familiaridade com prostitutas; e a segunda, que já tivera familiaridade com escritores famosos. Estas duas lembranças se confundiam e delas não tirava nenhum sentido. Daisy tinha duas lembranças: uma, que algum dia já fora prostituta; e a segunda, que no seu tempo ela havia conhecido vários escritores famosos. Estas duas lembranças se confundiam e delas não tirava nenhum sentido. Não tiravam nenhum sentido de suas lembranças exceto que ambos se sentiam muito dignos e não queriam acabar seus dias vivendo num casebre. Por isso viviam na rua do Cemitério.
Todas as noites Daisy caminhava pela rua do Cemitério e dizia "Que noite bonita" e passava ao lado de William e dizia "Que coincidência"; e a cada noite William, também, dizia "Que noite bonita" e "Que coincidência". Assim foi que os dois começaram a conhecer os pensamentos um do outro e mais do que nunca acabaram se cansando disso.
Os dois consertavam seus sapatos no mesmo sapateiro. Os dois sabiam que o sapateiro colocara uma menina para viver com ele na parte dos fundos da sapataria e que logo depois a expulsou dali quando a esposa ficou sabendo de tudo. No entanto, os dois continuaram considerando o sapateiro um bom homem porque não queriam se aborrecer por considerá-lo um mau sujeito. Os dois se arraigavam cada vez mais a suas idéias e hábitos até que...
Não sei o que foi feito dos dois. Nem eles.
Poema de Paul Auster
White Nights
No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.
Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.
Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body's whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.
I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.
-- Paul Auster
No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.
Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.
Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body's whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.
I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.
-- Paul Auster
5.11.03
4.11.03
Em memória de Rachel de Queiroz
Talvez o último desejo
Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
Sim, te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.
Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!
Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!
Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.
Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.
Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.
Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.
Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.
E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.
E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.
E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.
E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.
E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.
E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.
Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?
O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!
-- Rachel de Queiroz, em "Um alpendre, uma rede, um açude".
3.11.03
Alberto Moravia
Agnes podia ter-me avisado em vez de ir embora assim, sem sequer dizer: dane-se. Não pretendo ser perfeito e se ela me tivesse dito o que lhe faltava, poderíamos ter discutido. Mas não: durante dois anos de casamento, nenhuma palavra; e depois, uma manhã, aproveitando um instante em que eu não estava, foi embora sorrateiramente, como fazem as empregadas que arranjaram um serviço melhor. Foi-se e, ainda agora, seis meses depois que me deixou, não entendi por quê.
Naquela manhã, após ter feito as compras no mercadinho do bairro (gosto de fazer as compras eu mesmo: conheço os preços, sei o que quero, gosto de regatear e discutir, experimentar e apalpar, quero saber de que animal vem minha bisteca, de que cesta a maçã), saí novamente para comprar um metro e meio de franja para pregar na cortina, na sala de jantar. Como não queria gastar mais que o devido, dei muitas voltas antes de encontrar o que me convinha, numa lojinha na rua da Umiltà. Voltei para casa a umas onze e vinte, entrei na sala de jantar para comparar a cor da franja com a da cortina e logo vi em cima da mesa o tinteiro, a caneta e uma carta. Para dizer a verdade, o que, sobretudo, atraiu minha atenção foi uma mancha de tinta na toalha de centro da mesa. Pensei: "Mas olha, que porcalhona... manchou a toalha." Tirei o tinteiro, a caneta e a carta, peguei a toalha, fui à cozinha e ali, esfregando limão com força, consegui tirar a mancha. Depois voltei à sala de jantar, repus a toalha no lugar e, só então, me lembrei da carta. Era endereçada a mim: Alfredo. Abri e li: "Limpei a casa. O almoço você mesmo faça, que tem muita prática. Adeus. Volto para a casa de mamãe. Agnes." Por um instante fiquei sem entender nada. Em seguida reli a carta e finalmente entendi: Agnes tinha ido embora, me deixava após dois anos de casamento. Por força do hábito, coloquei a carta na gaveta do bufê onde guardo os recibos e a correspondência e sentei numa cadeira perto da janela. Não sabia o que pensar, não estava preparado para isso e quase que não acreditava. Enquanto assim refletia, bati os olhos no chão e vi uma pequena pena branca que devia ter se soltado do espanador quando Agnes tirara o pó. Catei a pena, abri a janela e a joguei fora. Depois peguei o chapéu e saí de casa.
-- Fragmento do conto "Não se aprofundar", do livro Contos romanos, 1954.
2.11.03
A nova caligrafia da Internet
As novas facilidades de comunicação via Internet trouxeram grandes mudanças à forma como falamos e escrevemos. As abreviaturas, a substituição de letras ("qu" por "k", "ss" por "x", etc.), a quase-eliminação da pontuação, tudo isso são constantes em e-mails, chats, e trocas de mensagens em geral.
Num esforço de propôr uma caligrafia coerente e unificada, o Quarto Segredo propõe uma série de regras comuns a utilizar na comunicação electrónica para facilitar a compreensão mútua e a troca de ideias.
1. Em primeiro lugar, por questão de simplificação, todos os "qu" deverão ser substituídos por "k". Da mesma forma, todos os "c" (excepto antes de "e" ou "i") serão também substituídos por "k".
2. Em segundo lugar, para simplifikar o duplo "s", todos os "ss" serão substituídos por "x". Por uma kestão de koerência, todos os restantes "s" serão também substituídos por "x", poupando-se assim uma letra;
3. Todox ox "e" ke extiverem ixoladox xerão xubxituídox por um "i" para evitar a má pronunciação da letra;
4. Ax cedilhax i ox axentox ortográfikox dexaparecerão porke xó provokam konfuxão (xendo ax cedilhax xubxtituidax por um "x");
5. Ja ke eliminamox ox "x", entao todox ox "c" antex de "i" ou "i" xerao tambem xubxtituidox por um "x";
6. Em todax ax palavrax ke xejam terminadax em "i" mudo, o "i" dexaparexera;
7. Todax ax palavrax kom trex ou maix xilabax xerao abreviadax. a abreviatura xera feita retirando vogaix aleatoriament a palavra;
8. Ax letrax maiuxklx i ox xinaix de pntxao xerao elminadx para xmplifkar a exkrta.
akrdto k x formox todox korentx no xeguimnt dextax regrax a knvvenxia elktrnika na intrnt xera muito maix xaudvl i hrmnioxa do k ate agora, evtndo-x as knfxoex i mal-entnddox gnralizdox.
-- O Quarto Segredo da Fátima
As novas facilidades de comunicação via Internet trouxeram grandes mudanças à forma como falamos e escrevemos. As abreviaturas, a substituição de letras ("qu" por "k", "ss" por "x", etc.), a quase-eliminação da pontuação, tudo isso são constantes em e-mails, chats, e trocas de mensagens em geral.
Num esforço de propôr uma caligrafia coerente e unificada, o Quarto Segredo propõe uma série de regras comuns a utilizar na comunicação electrónica para facilitar a compreensão mútua e a troca de ideias.
1. Em primeiro lugar, por questão de simplificação, todos os "qu" deverão ser substituídos por "k". Da mesma forma, todos os "c" (excepto antes de "e" ou "i") serão também substituídos por "k".
2. Em segundo lugar, para simplifikar o duplo "s", todos os "ss" serão substituídos por "x". Por uma kestão de koerência, todos os restantes "s" serão também substituídos por "x", poupando-se assim uma letra;
3. Todox ox "e" ke extiverem ixoladox xerão xubxituídox por um "i" para evitar a má pronunciação da letra;
4. Ax cedilhax i ox axentox ortográfikox dexaparecerão porke xó provokam konfuxão (xendo ax cedilhax xubxtituidax por um "x");
5. Ja ke eliminamox ox "x", entao todox ox "c" antex de "i" ou "i" xerao tambem xubxtituidox por um "x";
6. Em todax ax palavrax ke xejam terminadax em "i" mudo, o "i" dexaparexera;
7. Todax ax palavrax kom trex ou maix xilabax xerao abreviadax. a abreviatura xera feita retirando vogaix aleatoriament a palavra;
8. Ax letrax maiuxklx i ox xinaix de pntxao xerao elminadx para xmplifkar a exkrta.
akrdto k x formox todox korentx no xeguimnt dextax regrax a knvvenxia elktrnika na intrnt xera muito maix xaudvl i hrmnioxa do k ate agora, evtndo-x as knfxoex i mal-entnddox gnralizdox.
-- O Quarto Segredo da Fátima
31.10.03
Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais e você fica dando voltas pela casa se perguntando em voz baixa como tudo começou. Moro numa rua sem saída de uma cidade pequena onde o único armazém do lugar fica na minha esquina. Quando me canso de andar, é no balcão do armazém que eu paro para pensar. O estabelecimento tem cinco metros de largura por seis de profundidade e dois bêbados fixos que não dão conta da minha presença. Atrás do balcão descascado os braços rechonchudos da dona do armazém embrulham o feijão, o arroz, a farinha, o pacote de macarrão, a lata de sardinha, o sabão em barra, o pão de fôrma já vencido. Sim, e as salsichas. Toda vez que chego com sede eu sei que só posso pedir cerveja barata, cachaça ou coca-cola. Peço a cerveja e os braços rechonchudos erguem a tampa do freezer coberto de ferrugem. São braços brancos, flácidos, onipotentes. E ocupam o espaço de todo o armazém. Quando eles se movem, os bêbados param de beber, o ar fica em suspenso e a poeira não baixa. A lâmpada engordurada não balança mais sobre a única mesa. Quem está fora não entra, quem está dentro não sai. Eu fico imóvel e ouço a tampinha da garrafa quicar no chão. Quatro vezes. Volto a piscar só quando os braços se acomodam no balcão feito uma raposa empalhada. Retomo o pensamento de onde parei. Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais.
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29.10.03
Dos Diários de Virginia Woolf
Não: não quero qualquer introspecção. Registro a frase de Henry James: Observar sem cessar. Observar a aproximação da velhice. Observar a cobiça. Observar meu próprio desalento. Isto significa que ele se torna útil. Ao menos é o que espero. Teimo em aproveitar ao máximo esta época. Vou tombar com minha bandeira desfraldada. Percebo que isto tende à introspecção; mas não chega a tanto. Vamos supor que eu compre um ingresso para o museu; vá lá de bicicleta todo dia & estude história. Vamos supor que eu escolha uma importante personagem de cada época & escreva sobre ela & sobre o que está a sua volta. Ocupar-me é essencial. E agora com certo prazer constato que são sete; & tenho de fazer o jantar. Hadoque & carne moída. Acho que é verdade que se ganha algum poder sobre a carne moída & o hadoque ao escrevê-los.
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28.10.03
Ana Cristina Cesar
Ela ficava olhando pela janela
vertendo seu único olho pela janela
com o pé em cima da janela
Ela ficava olhando pela janela
O dia inteiro o olho, o pé, a janela
em cima embaixo pelos lados da janela
Ela ficava olhando pela janela
um dia ela cansou de olhar e fechou a janela
mas era dura e não fechava a janela
Ela ficava olhando pela janela
às vezes tentava mas logo esquecia da janela
que sempre aberta com um olho e um pé a janela
Ela ficava olhando pela janela
até que um dia seus pensamentos dissociaram a janela
que caiu inteiriça, e era uma caída janela
Ela ficava olhando pela janela
que não era, nem existia como janela:
Ela ficava olhando pelo buraco
27.10.03
Piores Contos Brasileiros
Respeitável público, amigos: há quase uma semana do lançamento do concurso "Piores Contos" e tenho em minhas mãos um número considerável de textos para ler. Agradeço aqui o empenho dos leitores/autores e não posso esquecer de agradecer também o auxílio luxuoso dos blogs que logo de início encararam com despreendimento e bom humor a iniciativa inédita deste blog. São eles Na Farmácia, Numa Cidade, Caderno de Sonhos, Catarro Verde, Sei Lá, Entende?, Mural de Recados, Crônica Literária e Letteri Café. Perdoem-me se esqueci de alguém. Outros serão igualmente benvindos. Por enquanto, é só. Continuaremos com nossa programação normal. Envie seu conto djá!
Eu não penso, por isso consigo escrever. (Plínio Marcos)
Respeitável público, amigos: há quase uma semana do lançamento do concurso "Piores Contos" e tenho em minhas mãos um número considerável de textos para ler. Agradeço aqui o empenho dos leitores/autores e não posso esquecer de agradecer também o auxílio luxuoso dos blogs que logo de início encararam com despreendimento e bom humor a iniciativa inédita deste blog. São eles Na Farmácia, Numa Cidade, Caderno de Sonhos, Catarro Verde, Sei Lá, Entende?, Mural de Recados, Crônica Literária e Letteri Café. Perdoem-me se esqueci de alguém. Outros serão igualmente benvindos. Por enquanto, é só. Continuaremos com nossa programação normal. Envie seu conto djá!
Eu não penso, por isso consigo escrever. (Plínio Marcos)
Czeslaw Milosz
"A utilidade da poesia está em nos fazer lembrar
que é difícil continuar sendo a mesma pessoa
porque nossa casa está aberta
as portas estão sem chave
e os hóspedes invisíveis entram e saem."
-- (fragmento do poema "Ars poética?")
25.10.03
O Leblon e a identidade dos indiscerníveis
15h Sentada na praia do Leblon, distraída, meu celular toca e uma voz inconfundível e melodiosa me pergunta: Oi, o que você está fazendo? Pausa. Era Caetano. Mantive a calma. Estou lendo "Budapeste" e tomando água de côco. Pausa. Que delícia! Olhe só, você viu Preta? Preciso falar com ela a-go-ra. Interferência. Querido, não sou amiga de Preta e, por falar nisso, como conseguiu o meu telefone? Silêncio. Você não é Ana de Torquato? Pausa. Não, sou Maira de... Interferência. Alô? Alô? Clic.
15:50 Depois de um demorado banho de mar, limpo a areia dos pés na calçada e 15 minutos depois estou tomando um chope de pé no Bracarense com Ubaldo que, do outro lado do balcão, não me cumprimenta porque certamente nunca viu a minha cara na vida. Me desligo do ambiente e retomo a leitura de "Budapeste" na página 81.
16:17 Um dedinho mole me cutuca e dou com os olhos esbugalhados de Carvana me fixando. Oi, Luciana. Tudo bom? Pausa. Perdão, meu nome não é Luciana. Um cheiro de lombinho nos atropela. Puxa, acho que me confundi. Pensei que você fosse a Villas-Boas. Eu deveria dar um sorriso nessa hora mas em vez disso digo Tudo bem, estou acostumada. Os olhos esbugalhados perdem instantaneamente o interesse e se voltam para a caipirinha. Dou um gole no meu chope e duas gotas pingam na página 132. Suspiro. Pago a conta e sigo à pé para a Travessa.
17:30 Descubro na estante de filosofia o princípio metafísico da identidade dos indiscerníveis, que, resumindo, é mais ou menos assim: duas coisas no universo não podem ser absolutamente iguais. Fico aliviada mas não de todo, filósofos sempre confundem coisas e fenômenos. Subo as escadas da livraria e vou até o balcão da cafeteria. Antes que possa fazer o meu pedido, a mão suave de Marina aperta meu braço e cochicha em meu ouvido: Cilene, meu amor, me sirva por favor um café carioca, e correeendo.
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24.10.03
Augusto dos Anjos
Minha Finalidade
Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!
Predeterminação imprescriptível
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!
Na canonização emocionante,
Da dor humana, sou maior que Dante,
-- A águia dos latifúndios florentinos!
Sistematizo, soluçando, o Inferno...
E trago em mim, num sincronismo eterno,
A fórmula de todos os destinos!
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Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!
Predeterminação imprescriptível
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!
Na canonização emocionante,
Da dor humana, sou maior que Dante,
-- A águia dos latifúndios florentinos!
Sistematizo, soluçando, o Inferno...
E trago em mim, num sincronismo eterno,
A fórmula de todos os destinos!
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Notícias do front 2: Amigos, devido à estonteante afluência de inscrições para o concurso literário "Piores Contos Brasileiros", minha generosidade foi despertada e leva-me a alterar o prêmio para o Primeiro Colocado: kit-surpresa contendo CD+livro. Os demais prêmios permanecem os mesmos: Menção Honrosa, livro-surpresa. Todos os 10 primeiros colocados terão seus contos publicados neste blog.
23.10.03
Notícias do front: Amigos, os primeiros textos que concorrerão ao nosso "Os Piores Contos Brasileiros" já estão chegando! Em menos de 24 horas do lançamento do concurso! Só tenho a agradecer, mas também permitam-me uma queixa: os textos estão "bons" demais! Ora, vocês estão querendo transformar o meu despretensioso concurso trash em prévia do Jabuti? Se não baixarem a qualidade, serei obrigada a desclassificá-los, ou, pior, as editoras nem prestarão atenção em vocês. Ainda estou aguardando textos deploráveis. Mãos à obra, pessoal. Como já disse em outro blog, eu só não participo porque sou a comissão julgadora, seria concursisticamente incorreto e antiético, este blog tem um nome a zelar. Vamos lá.
22.10.03
Concurso literário "Piores Contos Brasileiros"
Hoje o Prosa Caótica lança o inédito e sensacional Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros". Envie-nos agora mesmo aquele textinho que você escondeu no fundo da gaveta e já pensou em queimar, aquele conto que você morre de vergonha de ter escrito e não mostraria nem mesmo à sua mãe. As inscrições estarão abertas até o dia 30 de novembro deste ano. Não perca! A comissão julgadora será formada exclusivamente por mim. O primeiro colocado será premiado com um extraordinário CD-surpresa, de minha própria escolha. Um livro-surpresa será dado ao conto que merecer menção honrosa. Os dez primeiros colocados terão seus contos publicados neste blog, com os devidos links, caso tenham URL. Os contos deverão ter no máximo 30 linhas, com 70 caracteres por linha. É permitido o uso de pseudônimos.
Envie o conto por e-mail. O resultado será divulgado em 8 de dezembro.
Não se iniba! Participe! Esta pode ser sua primeira e única chance!
Divulgue esta idéia!
Nuevas Generaciones
Grupos de jóvenes, grupos de imbéciles.
Solo viviendo para hacerse millonari@s.
Forrarte pronto sin cansarte demasiado,
copiando el sueño de vida Americano.
Es tu felicidad, se mide en productos
Consume, Consume, Consume mas
con bolsillos y sin cerebro, sin cerebro.
Estáis manipulad@s por multinacionales
sin pensarlo es muy facil vivir sin ideales ¿Qué ideales?
Nuevas generaciones de hipocresía
queriendo siempre tener mas que los demás
L@s perfectos, l@s modern@s, l@s mejores
Vuestra competencia solo me hace vomitar
No importa a quien pises si tienes que escalar.
El sistema así lo exige y te merece mucho mas, mucho mas
Estáis tod@s podrid@s, el dinero os convenció,
la honradez siempre por fuera
pero por dentro huele mal, mal
Paga Papá
El telefono móvil
me lo paga papá
Coche descaptable
me lo paga papá
La ropa de marca
me lo paga papá
Las noches de marcha
me lo paga papá
El master en Icade
me lo paga papá
Esquiar en Baqueira
me lo paga papá
Jugar al golf en Marbella
me lo paga papá
Vacaciones en Miami
me lo paga papá
-- Sin Dios, banda de hardcore punk, Espanha.
Grupos de jóvenes, grupos de imbéciles.
Solo viviendo para hacerse millonari@s.
Forrarte pronto sin cansarte demasiado,
copiando el sueño de vida Americano.
Es tu felicidad, se mide en productos
Consume, Consume, Consume mas
con bolsillos y sin cerebro, sin cerebro.
Estáis manipulad@s por multinacionales
sin pensarlo es muy facil vivir sin ideales ¿Qué ideales?
Nuevas generaciones de hipocresía
queriendo siempre tener mas que los demás
L@s perfectos, l@s modern@s, l@s mejores
Vuestra competencia solo me hace vomitar
No importa a quien pises si tienes que escalar.
El sistema así lo exige y te merece mucho mas, mucho mas
Estáis tod@s podrid@s, el dinero os convenció,
la honradez siempre por fuera
pero por dentro huele mal, mal
Paga Papá
El telefono móvil
me lo paga papá
Coche descaptable
me lo paga papá
La ropa de marca
me lo paga papá
Las noches de marcha
me lo paga papá
El master en Icade
me lo paga papá
Esquiar en Baqueira
me lo paga papá
Jugar al golf en Marbella
me lo paga papá
Vacaciones en Miami
me lo paga papá
-- Sin Dios, banda de hardcore punk, Espanha.
21.10.03
John Fante
Tornei-me um vagabundo na minha cidade. Vadiava por lá. Peguei um serviço para capinar ervas daninhas, mas era dureza e larguei. Outro serviço, lavando janelas. Mal consegui dar conta. Procurei trabalho por toda Boulder, mas as ruas estavam cheias de homens jovens desempregados. O único emprego na cidade era para entregar jornais. Pagava cinqüenta centavos por dia. Recusei. Me escorava pelas paredes dos salões de bilhar. Me mantinha longe de casa. Ficava envergonhado de comer a comida que meu pai e minha mãe proporcionavam. Eu sempre esperava até meu pai sair de casa. Minha mãe tentava me animar. Ela fazia tortas de nozes e raviolis para mim. "Não se preocupe", ela dizia. "Espere e verá. Alguma coisa vai acontecer. Estou rezando."
Eu ia à biblioteca. Olhava as revistas, as figuras nelas. Um dia fui até as estantes de livros e puxei um livro. Era "Winesburg, Ohio". Sentei numa mesa comprida de mogno e comecei a ler. Subitamente meu mundo virou de cabeça para baixo. O céu desabou. O livro me absorveu. Fui às lágrimas. Meu coração batia rápido. Li até meus olhos arderem. Levei o livro para casa. Li outro Anderson. Eu lia e lia, e estava deprimido e solitário e apaixonado por um livro, muitos livros, até que aconteceu naturalmente, e sentei com um lápis e um bloco comprido e tentei escrever, até que senti que não poderia continuar porque as palavras não vinham como acontecia com Anderson, elas vinham somente como gotas de sangue do meu coração.
-- Em "Sonhos de Bunker Hill".
20.10.03
Ex-posição
Exposição de taças vazias e pessoas sedentas pela arte de esvaziar o copo. Eis o que acontece nessas tão esperadas aberturas de mostras artísticas nessa cidade fantasia chamada São Paulo. Performances que reavivam o parangolé, banda de rock com sotaque nacional fazendo do velho algo tão novo quanto a idade de Aguilar. Tudo bem, foi divertido, dei boas risadas com as pichações feitas em corpos embalsamados de plástico. Eu, como bom freqüentador desses eventos paulistanos queria, a princípio, descobrir onde estavam as garrafas de vinho. Afinal, fui apresentado a elas e saboreei a primeira. As outras tiveram gosto de caos artístico e pose de madame e ninfeta. Descobri que não houve curadoria, as obras foram selecionadas ao acaso ou pelo contato firmado anteriormente entre artista e pseudocurador, o que costumamos chamar por aqui de QI (quem indica?!). Uma das idéias que me ocorreram durante as passagens pelas salas era a de que algumas pessoas desejam ser confundidas com as próprias obras. Fantasiam-se. Outra delas: existe um grupo de pessoas, de uma produtora de vídeo da cidade, que se auto- intitulam “antipop” e, de uns tempos pra cá, começaram a freqüentar tais ambientes pop. Disse pra mim: “antipop é minha vozinha que assiste à missa todo dia”. Ela sim deveria criar um logo pop antipop.
Estou me achando um chato, como me achei durante o tempo em que perambulei, como um fantasma sólido, entre as cores e texturas, mármores e plásticos, estojos e pré-rupturas do pós-moderno anseio contemporâneo pela novidade, mesmo que arqueologicamente descoberta nos escombros da arte marginal de um país sem memória, onde tudo pode ser considerado novo porque já foi esquecido. Se ainda estivesse lá, escrevendo este texto, já estaria bêbado, tropeçando em alguma escultura humana, observando os famintos avançando na bandeja de torradas com patê, procurando algo naquelas obras que pudessem me dizer de perto o significado de tudo aquilo. O que menos importava naquele ambiente era justamente a causa daquela festa: a arte. Bom, ao menos tive a certeza de que cada vez mais tal desígnio “artista” pode ser aplicado a qualquer um. Seja você também um artista. Mas não freqüente aberturas de exposições. A não ser que você esteja passando fome.
Viva a paulicéia desvairada e seus tubos de ensaio.
Me dê mais um copo, ô garçom. O quê? Acabou o vinho? Que merda!!!
-- Juliano Polimeno, in Cabeza Marginal.
Exposição de taças vazias e pessoas sedentas pela arte de esvaziar o copo. Eis o que acontece nessas tão esperadas aberturas de mostras artísticas nessa cidade fantasia chamada São Paulo. Performances que reavivam o parangolé, banda de rock com sotaque nacional fazendo do velho algo tão novo quanto a idade de Aguilar. Tudo bem, foi divertido, dei boas risadas com as pichações feitas em corpos embalsamados de plástico. Eu, como bom freqüentador desses eventos paulistanos queria, a princípio, descobrir onde estavam as garrafas de vinho. Afinal, fui apresentado a elas e saboreei a primeira. As outras tiveram gosto de caos artístico e pose de madame e ninfeta. Descobri que não houve curadoria, as obras foram selecionadas ao acaso ou pelo contato firmado anteriormente entre artista e pseudocurador, o que costumamos chamar por aqui de QI (quem indica?!). Uma das idéias que me ocorreram durante as passagens pelas salas era a de que algumas pessoas desejam ser confundidas com as próprias obras. Fantasiam-se. Outra delas: existe um grupo de pessoas, de uma produtora de vídeo da cidade, que se auto- intitulam “antipop” e, de uns tempos pra cá, começaram a freqüentar tais ambientes pop. Disse pra mim: “antipop é minha vozinha que assiste à missa todo dia”. Ela sim deveria criar um logo pop antipop.
Estou me achando um chato, como me achei durante o tempo em que perambulei, como um fantasma sólido, entre as cores e texturas, mármores e plásticos, estojos e pré-rupturas do pós-moderno anseio contemporâneo pela novidade, mesmo que arqueologicamente descoberta nos escombros da arte marginal de um país sem memória, onde tudo pode ser considerado novo porque já foi esquecido. Se ainda estivesse lá, escrevendo este texto, já estaria bêbado, tropeçando em alguma escultura humana, observando os famintos avançando na bandeja de torradas com patê, procurando algo naquelas obras que pudessem me dizer de perto o significado de tudo aquilo. O que menos importava naquele ambiente era justamente a causa daquela festa: a arte. Bom, ao menos tive a certeza de que cada vez mais tal desígnio “artista” pode ser aplicado a qualquer um. Seja você também um artista. Mas não freqüente aberturas de exposições. A não ser que você esteja passando fome.
Viva a paulicéia desvairada e seus tubos de ensaio.
Me dê mais um copo, ô garçom. O quê? Acabou o vinho? Que merda!!!
-- Juliano Polimeno, in Cabeza Marginal.
19.10.03
W. H. Auden
A solitária nata
Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.
Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.
Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.
Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam certas cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos:
Palavras são só para os que estão comprometidos.
-- W. H. Auden
Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.
Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.
Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.
Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam certas cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos:
Palavras são só para os que estão comprometidos.
-- W. H. Auden
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