25.11.03

Heriberto Yépez


Tarde. Pôr-do-sol.


Na frente do cybercafé, o arco do milênio aparece refletido nas janelas do segundo e terceiro andares do dentista Lincoln. Estou aguardando uma máquina para poder escrever. Fumo um cigarro na calçada. Não é certo. São apenas palavras. Não acredite nelas. Aconteceu outro dia. Se você acredita. Mas não agora.


"Os escritores ruins revelam o ofício de escrever, porque neles tudo é grotesco, descarado. Eles deixam transparecer aquilo que os bons autores souberam ocultar e sublimar com muita eficiência. Um escritor ruim põe em evidência todos os outros escritores porque, ao abortar a escrita, deixa os segredos desta à vista de todos."


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23.11.03


I like to have a martini,
Two at the very most.
After three I'm under the table,
After four I'm under my host.


-- Dorothy Parker

... e estamos conversados


Democracia é quando eu mando em você.
Ditadura é quando você manda em mim.


-- Millôr

22.11.03

Dorothy Parker



Résumé


Razors pain you
Rivers are damp
Acid stain you
And drugs cause cramp
Guns aren't lawful
Nooses give
Gas smells awful
You might as well live

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21.11.03

Dias de Dona Beja



Como costumo fazer toda semana, esta manhã fui até o Correio verificar a minha caixa postal. Até aí nada demais, vocês diriam. Porém minha história começa quando, ao me apoiar sobre o balcão do posto, distraída, dei de cara com um exemplar do jornal "Correio de Araxá" meio que jogado de lado. Aparentemente fora esquecido ou descartado. Até aqui nada demais também, não fosse o jornal estar endereçado ao "Professor Leonardo Boff". Minha curiosidade pipocou. Eu já sabia que o sr. Boff era meu vizinho, inclusive já o vi inúmeras vezes no mesmo posto dos Correios. Obviamente ele não me cumprimenta porque não me conhece. Motivo suficiente para despertar minha curiosidade adormecida em relação ao tipo de leitura que o meigo frei costuma descartar. O exemplar em questão datava de 8 de novembro e exibia 3 cadernos: o primeiro, mais volumoso; um outro denominado "Caderno Mulher Feminino", e, por último, o "Correio Literário". Não vou me deter aqui comentando o XXIX Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, a Expomilk 2003, o Bailão do Cowboy, ou o lançamento da primeira água de coco em pó do mundo, matérias de capa do citado hebdomadário araxaense, por julgar que não são temas de interesse direto de meus leitores. (Ou são?) E assim passo à parte mais curiosa de minha narrativa, o caderno literário em si. São 6 páginas exibindo poetas locais, o resultado de um Torneio de Xadrez (?), uma crônica assinada por Irmã Domitila, uma lista de best-sellers! locais (cujo campeão de vendas absoluto é o sr. Nuno Cobra, com o livro "Semente da Vitória") e, pasmem, um artigo do próprio teólogo Leonardo Boff intitulado "Que é o ser humano". Ora, por que será que o frei jogou fora um jornal do qual é colaborador? É o que me pergunto até agora, quatro horas depois de fazer tal descoberta... No entanto, a minha história não acaba aqui, pelo contrário. A melhor parte vem agora. Após fuçar a ostra, descubro a pérola que fez o meu dia: página 6, coluna "Araã!", assinada por Evandro Affonso Ferreira. Não preciso dizer mais nada e, como eu, tenham um bom dia depois de lê-la até o fim:

"Deuses frígidos desalumiam alma chamejante

Sim Senhor meu Deus sei que estou resvalando em culpa mas difícil saber quem neste Teu vasto mundo não tem telhado de vidro; impossível resistir Seleno aquele trilhando minhas veredas nunca antes palmilhadas; faço mea culpa deste meu ultraje ao pudor; sei que tenho praticado atos contrários à virtude; bacante insensata sim Senhor; que tenho me portado qual mulher de costume fácil feito Jezebel Messalina Dalila; que sou a mais depravada e lúbrica de todas as mulheres; impossível resistir Seleno aquele miraculoso que revivificou meus desejos impuros; sim Senhor meu Deus sei que estou salpicando meu caminho de devassidão lama mácula; sei que estou lançando sombra sobre minha angelitude; mas inútil negar Senhor meu Deus que estou vivendo a estação dos amores dos prazeres dos risos; que meu corpo desde sempre assexo ficou subitamente abrasador; impossível resistir Seleno aquele dadivoso que substancia às lufadas meu apetite depravado; sim senhor meu Deus sei que tirei pudor dos gonzos; que desarranjei meu projeto decoroso; que subverti os princípios basilares do recato; mas inútil negar que ardor fogoso desordenado bonifica minha pele alenta meu humor infunde novos ânimos; impossível resistir Seleno aquele lascivo que desnuda meus caprichos voluptuosos; ah Senhor meu Deus esperei meio século para descobrir minha capacidade de exalar encanto e sedução; foram cinqüenta anos anódinos frígidos insípidos; renasci.
Bom dia senhor Títio...sim manhã lindíssima sol esbanjando clareza...como sempre todos os dias logo cedo primeira coisa igreja...murmurando minhas preces ao som de hinos ambrosianos de louvor...entoando litanias diante Daquele-que-falou-e-o-mundo-passou-a-existir...sim sei, o senhor sempre diz isso, que Deus, sendo perfeito, não carecia de nada, logo não tinha por que digamos criar o mundo; mas meus pais ambos certamente no Céu me ensinaram na flor da idade a não abrir mão do archote da fé; sim verdade férias terminando...semana que vem Tribunal de Contas novamente.
O sexto círculo do Inferno dantesco está assim de Títios.
Parece crime de leso-bom senso...sol sobrando lá fora eu aqui hum gostoso ficar assim deitada nua pensando nele Seleno lambendo meu corpo todo feito fazem agora raios infravermelhos.
Nunca vou entender Lisístrata aquela que comandou as mulheres de Atenas numa greve de sexo.
Sim querida calcinha rendada, branca, toda branca para contrastar com minha pele bronzeada.
Hum será que ele Seleno vai gostar deste perfume cheirando a algália...acho que não...hum...jasmim também não...hummm sândalo... vou levar este.
(continua na próxima edição)"
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20.11.03

Era uma vez uma carta que não tinha nada de mais.
Era apenas uma folha, pequena e branca,
mas não era assim que Ivaníssia a via.
Para ela, uma folha em branco era
uma janela para um outro mundo,
nela poderia escrever o que quisesse
e ser então pássaro ou baleia, seta ou perífrase,
incandescência, brilho, amizade, paixão ou mesmo amor.

No esforço que ali se coadunava
com a mais erudita imaginação,
Ivaníssia culminou num tremendo gemido
que se viu transcender com um "sploft" suave
e um friozinho molhado na base da espinha.

Atravessou uma última vez a carta em branco
com o seu doce e agora sereno olhar,
amarrotou-a um pouco, puxou o autoclismo e limpou o rabo.


-- Filipe Goulão, em Luzes Azuis

18.11.03

Boris Vian

Tudo foi dito cem vezes


Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba

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17.11.03

Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas
Guidons enferrujados na chuva
Devia haver um orfanato
Para essas coisas que ninguém mais quer
Setembro me lembra julho
É tempo de dizer adeus
Se o verão passou o meu amor permanece
Velhas bicicletas quebradas na chuva

Bicicletas quebradas, não digam nada aos meus pais
Com todas aquelas cartas enfiadas nos raios
Espalhadas como esqueletos sobre a grama
Rodas que não giram sem a outra metade
As estações passam a correr
E eu que me esqueço todas as vezes
Mas as coisas que me deste ficarão para sempre
Mesmo quebradas nunca as jogarei fora.


-- Tom Waits, "Bicicletas Quebradas".

14.11.03

Sentada na areia. Eu tive medo. Meu pai estava lá em cima. Túnel Dois Irmãos. Atlântica. Não, eu não estou bem na foto. Não acredite em nada do que escrevo quando digo que meu pai estava lá em cima e nossas janelas não se preocupavam com detalhes. Os barcos entravam na baía do Leme. Meus olhos acompanhando os pedaços, minha mãe batia os bifes. Só de mim outros carnavais. Marina hoje perdeu a voz e eu paro na barraca de coca-cola. Peço uma cerveja. Há um Copacabana Palace em que não entro. Estou sozinha. Seguro um coco. Escuto mal. Meu pai não vê mais ninguém. Para ele tá tudo assim, diferente de um soco. Está tudo do lado atlântico. E nós na foto.

13.11.03

Despreocupada e leve, ocupei-me da vida alheia e o tempo voou. O mundo para mim era jovem, grande e gordo. O verão sempre acabava voltando e punha-se a administrar a vida de todos. Minha casa tinha pouca luz, mas as bochechas rosadas de minha irmã a tudo iluminavam. Razão suficiente para instalar-me num mau humor profundo. Segui o curso da corrente de ar e dei com meu pai parado ao pé da escada. Olhos esbugalhados, provavelmente bêbados. Escrever acerca deles exigiria um tratamento profissional. Olhos esbugalhados excluem tudo o que não seja o esbugalho, se é que me faço entender. Tenho muita preguiça e algumas dificuldades. Uma vez um cabotino me perguntou: "Você consegue conceber a totalidade de um momento?" Engasguei com a metade de um travesseirinho de ravióli. "Francamente, isso não é assunto para o momento do jantar", repliquei. Ocorreu-me na hora que minha avó dera a mesma resposta ao ser indagada em quanto aumentaria o salário da empregada. Nossa combinação genética me parecia impossível até então. Ando obcecada por limpeza. Vasculho paredes do teto ao rodapé, procurando manchas, saliências, traças. Não posso negar que me sinto um pouco esquisita esta tarde. Há algo de calculado na minha tristeza. Algo prematuramente criado para não causar surpresa. Sempre que me sinto assim desço correndo para as ruas e me misturo com os camelôs. As aglomerações são gigantescas línguas de humanidade, ou nos excitam ou dão nojo. O que perco em arriscar? Um Jesus rabugento perambula pelos corredores. Eu vi. Em torno de sua beleza lenta um festejo de criados. Cânticos, sinos de igreja. Gostaria de acordar agora, eu não suportaria toda aquela velha ladainha outra vez. Daqui a dez minutos as mariposas entrarão pela casa e eu descobrirei que é tudo mentira. As mariposas, a casa, a mentira. Tripulante da sala de visitas, o telefone faz fila para atrair os meus ouvidos. As probabilidades de um domingo agradável me cercam feito arame farpado. Estou com 37 anos e a urna com as minhas cinzas começa a ser deslocada.
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12.11.03

Alexandre O'Neill


A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.








11.11.03

Paul Verlaine

Gostos imperiais

Assim como Luís XV, não gosto de perfumes.
Só posso suportá-los no justo limite.
Na cama, por favor, nem frascos nem sachês!
Mas ah, que um ar singelo e picante flutue
Ao derredor de um corpo, desde que me excite;
E meu desejo preza e minha ciência aprova
No corpo apetecido, quando se desnuda,
O odor da picardia, o odor da puberdade
E o hálito excelente das belas maduras.
Mais: me fascinam (cala, moral, essa arenga)
Como dizer? Essas exalações secretas
Do sexo e arredores, antes e depois
Do abraço celestial e durante as carícias,
Sejam elas quais forem, devam ou pareçam.
Mais tarde, sonolento, com o olfato lasso,
Saciado de prazer, como os outros sentidos,
Quando meus olhos vão morrendo noutro rosto,
Quase extinto também, lembrança e previsão
Do entrelaçamento das pernas e braços,
Da união dos pés nos lençóis úmidos, vermelhos,
Sobe desse langor de agradável volúpia
Tanta humanidade que dá um certo embaraço
Mas tão bom, tão bom, que dá ganas de comer!
Como é possível desejar, por cima disso,
Uma fragrância estranha, de planta, de besta,
Mudando a percepção, confundindo os sentidos,
Quando disponho, para aumentar a volúpia,
Da quintessência, exatamente, da beleza!

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7.11.03

Laura Riding

William e Daisy: Fragmento de uma novela inacabada


William e Daisy moravam na rua do Cemitério. Não possuíam nenhuma ligação entre si exceto que ambos não se sentiam atraídos pela vida tampouco pela morte; por isso viviam na rua do Cemitério. William era pessimista porque desgostava da vida um pouco mais do que da morte. Daisy era otimista porque desgostava da morte um pouco mais do que da vida. William tinha duas lembranças: uma, que já tivera familiaridade com prostitutas; e a segunda, que já tivera familiaridade com escritores famosos. Estas duas lembranças se confundiam e delas não tirava nenhum sentido. Daisy tinha duas lembranças: uma, que algum dia já fora prostituta; e a segunda, que no seu tempo ela havia conhecido vários escritores famosos. Estas duas lembranças se confundiam e delas não tirava nenhum sentido. Não tiravam nenhum sentido de suas lembranças exceto que ambos se sentiam muito dignos e não queriam acabar seus dias vivendo num casebre. Por isso viviam na rua do Cemitério.

Todas as noites Daisy caminhava pela rua do Cemitério e dizia "Que noite bonita" e passava ao lado de William e dizia "Que coincidência"; e a cada noite William, também, dizia "Que noite bonita" e "Que coincidência". Assim foi que os dois começaram a conhecer os pensamentos um do outro e mais do que nunca acabaram se cansando disso.

Os dois consertavam seus sapatos no mesmo sapateiro. Os dois sabiam que o sapateiro colocara uma menina para viver com ele na parte dos fundos da sapataria e que logo depois a expulsou dali quando a esposa ficou sabendo de tudo. No entanto, os dois continuaram considerando o sapateiro um bom homem porque não queriam se aborrecer por considerá-lo um mau sujeito. Os dois se arraigavam cada vez mais a suas idéias e hábitos até que...

Não sei o que foi feito dos dois. Nem eles.


-- Laura Riding

Poema de Paul Auster

White Nights


No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.

Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.

Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body's whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.

I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.


-- Paul Auster

5.11.03

Cálculo de probabilidades


Cada vez que um dono de terra
declara: para me tirarem este patrimônio
terão de passar por cima do meu cadáver

ele deveria levar em conta
que às vezes
passam


-- Mario Benedetti

4.11.03

Em memória de Rachel de Queiroz


Talvez o último desejo


Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?

Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!

Sim, te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.

Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!

Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!

Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.

Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.

Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.



Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.

Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.

E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.

E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.

E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.

E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.

E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.

E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.

Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?

O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!



-- Rachel de Queiroz, em "Um alpendre, uma rede, um açude".




3.11.03

Alberto Moravia


Agnes podia ter-me avisado em vez de ir embora assim, sem sequer dizer: dane-se. Não pretendo ser perfeito e se ela me tivesse dito o que lhe faltava, poderíamos ter discutido. Mas não: durante dois anos de casamento, nenhuma palavra; e depois, uma manhã, aproveitando um instante em que eu não estava, foi embora sorrateiramente, como fazem as empregadas que arranjaram um serviço melhor. Foi-se e, ainda agora, seis meses depois que me deixou, não entendi por quê.
Naquela manhã, após ter feito as compras no mercadinho do bairro (gosto de fazer as compras eu mesmo: conheço os preços, sei o que quero, gosto de regatear e discutir, experimentar e apalpar, quero saber de que animal vem minha bisteca, de que cesta a maçã), saí novamente para comprar um metro e meio de franja para pregar na cortina, na sala de jantar. Como não queria gastar mais que o devido, dei muitas voltas antes de encontrar o que me convinha, numa lojinha na rua da Umiltà. Voltei para casa a umas onze e vinte, entrei na sala de jantar para comparar a cor da franja com a da cortina e logo vi em cima da mesa o tinteiro, a caneta e uma carta. Para dizer a verdade, o que, sobretudo, atraiu minha atenção foi uma mancha de tinta na toalha de centro da mesa. Pensei: "Mas olha, que porcalhona... manchou a toalha." Tirei o tinteiro, a caneta e a carta, peguei a toalha, fui à cozinha e ali, esfregando limão com força, consegui tirar a mancha. Depois voltei à sala de jantar, repus a toalha no lugar e, só então, me lembrei da carta. Era endereçada a mim: Alfredo. Abri e li: "Limpei a casa. O almoço você mesmo faça, que tem muita prática. Adeus. Volto para a casa de mamãe. Agnes." Por um instante fiquei sem entender nada. Em seguida reli a carta e finalmente entendi: Agnes tinha ido embora, me deixava após dois anos de casamento. Por força do hábito, coloquei a carta na gaveta do bufê onde guardo os recibos e a correspondência e sentei numa cadeira perto da janela. Não sabia o que pensar, não estava preparado para isso e quase que não acreditava. Enquanto assim refletia, bati os olhos no chão e vi uma pequena pena branca que devia ter se soltado do espanador quando Agnes tirara o pó. Catei a pena, abri a janela e a joguei fora. Depois peguei o chapéu e saí de casa.


-- Fragmento do conto "Não se aprofundar", do livro Contos romanos, 1954.


2.11.03

A nova caligrafia da Internet


As novas facilidades de comunicação via Internet trouxeram grandes mudanças à forma como falamos e escrevemos. As abreviaturas, a substituição de letras ("qu" por "k", "ss" por "x", etc.), a quase-eliminação da pontuação, tudo isso são constantes em e-mails, chats, e trocas de mensagens em geral.

Num esforço de propôr uma caligrafia coerente e unificada, o Quarto Segredo propõe uma série de regras comuns a utilizar na comunicação electrónica para facilitar a compreensão mútua e a troca de ideias.

1. Em primeiro lugar, por questão de simplificação, todos os "qu" deverão ser substituídos por "k". Da mesma forma, todos os "c" (excepto antes de "e" ou "i") serão também substituídos por "k".

2. Em segundo lugar, para simplifikar o duplo "s", todos os "ss" serão substituídos por "x". Por uma kestão de koerência, todos os restantes "s" serão também substituídos por "x", poupando-se assim uma letra;

3. Todox ox "e" ke extiverem ixoladox xerão xubxituídox por um "i" para evitar a má pronunciação da letra;

4. Ax cedilhax i ox axentox ortográfikox dexaparecerão porke xó provokam konfuxão (xendo ax cedilhax xubxtituidax por um "x");

5. Ja ke eliminamox ox "x", entao todox ox "c" antex de "i" ou "i" xerao tambem xubxtituidox por um "x";

6. Em todax ax palavrax ke xejam terminadax em "i" mudo, o "i" dexaparexera;

7. Todax ax palavrax kom trex ou maix xilabax xerao abreviadax. a abreviatura xera feita retirando vogaix aleatoriament a palavra;

8. Ax letrax maiuxklx i ox xinaix de pntxao xerao elminadx para xmplifkar a exkrta.

akrdto k x formox todox korentx no xeguimnt dextax regrax a knvvenxia elktrnika na intrnt xera muito maix xaudvl i hrmnioxa do k ate agora, evtndo-x as knfxoex i mal-entnddox gnralizdox.



-- O Quarto Segredo da Fátima



31.10.03

Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais e você fica dando voltas pela casa se perguntando em voz baixa como tudo começou. Moro numa rua sem saída de uma cidade pequena onde o único armazém do lugar fica na minha esquina. Quando me canso de andar, é no balcão do armazém que eu paro para pensar. O estabelecimento tem cinco metros de largura por seis de profundidade e dois bêbados fixos que não dão conta da minha presença. Atrás do balcão descascado os braços rechonchudos da dona do armazém embrulham o feijão, o arroz, a farinha, o pacote de macarrão, a lata de sardinha, o sabão em barra, o pão de fôrma já vencido. Sim, e as salsichas. Toda vez que chego com sede eu sei que só posso pedir cerveja barata, cachaça ou coca-cola. Peço a cerveja e os braços rechonchudos erguem a tampa do freezer coberto de ferrugem. São braços brancos, flácidos, onipotentes. E ocupam o espaço de todo o armazém. Quando eles se movem, os bêbados param de beber, o ar fica em suspenso e a poeira não baixa. A lâmpada engordurada não balança mais sobre a única mesa. Quem está fora não entra, quem está dentro não sai. Eu fico imóvel e ouço a tampinha da garrafa quicar no chão. Quatro vezes. Volto a piscar só quando os braços se acomodam no balcão feito uma raposa empalhada. Retomo o pensamento de onde parei. Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais.
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29.10.03

Dos Diários de Virginia Woolf


Não: não quero qualquer introspecção. Registro a frase de Henry James: Observar sem cessar. Observar a aproximação da velhice. Observar a cobiça. Observar meu próprio desalento. Isto significa que ele se torna útil. Ao menos é o que espero. Teimo em aproveitar ao máximo esta época. Vou tombar com minha bandeira desfraldada. Percebo que isto tende à introspecção; mas não chega a tanto. Vamos supor que eu compre um ingresso para o museu; vá lá de bicicleta todo dia & estude história. Vamos supor que eu escolha uma importante personagem de cada época & escreva sobre ela & sobre o que está a sua volta. Ocupar-me é essencial. E agora com certo prazer constato que são sete; & tenho de fazer o jantar. Hadoque & carne moída. Acho que é verdade que se ganha algum poder sobre a carne moída & o hadoque ao escrevê-los.

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28.10.03

Ana Cristina Cesar


Ela ficava olhando pela janela
vertendo seu único olho pela janela
com o pé em cima da janela
Ela ficava olhando pela janela
O dia inteiro o olho, o pé, a janela
em cima embaixo pelos lados da janela
Ela ficava olhando pela janela
um dia ela cansou de olhar e fechou a janela
mas era dura e não fechava a janela
Ela ficava olhando pela janela
às vezes tentava mas logo esquecia da janela
que sempre aberta com um olho e um pé a janela
Ela ficava olhando pela janela
até que um dia seus pensamentos dissociaram a janela
que caiu inteiriça, e era uma caída janela
Ela ficava olhando pela janela
que não era, nem existia como janela:
Ela ficava olhando pelo buraco



27.10.03

Piores Contos Brasileiros

Respeitável público, amigos: há quase uma semana do lançamento do concurso "Piores Contos" e tenho em minhas mãos um número considerável de textos para ler. Agradeço aqui o empenho dos leitores/autores e não posso esquecer de agradecer também o auxílio luxuoso dos blogs que logo de início encararam com despreendimento e bom humor a iniciativa inédita deste blog. São eles Na Farmácia, Numa Cidade, Caderno de Sonhos, Catarro Verde, Sei Lá, Entende?, Mural de Recados, Crônica Literária e Letteri Café. Perdoem-me se esqueci de alguém. Outros serão igualmente benvindos. Por enquanto, é só. Continuaremos com nossa programação normal. Envie seu conto djá!


Eu não penso, por isso consigo escrever. (Plínio Marcos)

Czeslaw Milosz



"A utilidade da poesia está em nos fazer lembrar
que é difícil continuar sendo a mesma pessoa
porque nossa casa está aberta
as portas estão sem chave
e os hóspedes invisíveis entram e saem."


-- (fragmento do poema "Ars poética?")

25.10.03

O Leblon e a identidade dos indiscerníveis



15h Sentada na praia do Leblon, distraída, meu celular toca e uma voz inconfundível e melodiosa me pergunta: Oi, o que você está fazendo? Pausa. Era Caetano. Mantive a calma. Estou lendo "Budapeste" e tomando água de côco. Pausa. Que delícia! Olhe só, você viu Preta? Preciso falar com ela a-go-ra. Interferência. Querido, não sou amiga de Preta e, por falar nisso, como conseguiu o meu telefone? Silêncio. Você não é Ana de Torquato? Pausa. Não, sou Maira de... Interferência. Alô? Alô? Clic.

15:50 Depois de um demorado banho de mar, limpo a areia dos pés na calçada e 15 minutos depois estou tomando um chope de pé no Bracarense com Ubaldo que, do outro lado do balcão, não me cumprimenta porque certamente nunca viu a minha cara na vida. Me desligo do ambiente e retomo a leitura de "Budapeste" na página 81.

16:17 Um dedinho mole me cutuca e dou com os olhos esbugalhados de Carvana me fixando. Oi, Luciana. Tudo bom? Pausa. Perdão, meu nome não é Luciana. Um cheiro de lombinho nos atropela. Puxa, acho que me confundi. Pensei que você fosse a Villas-Boas. Eu deveria dar um sorriso nessa hora mas em vez disso digo Tudo bem, estou acostumada. Os olhos esbugalhados perdem instantaneamente o interesse e se voltam para a caipirinha. Dou um gole no meu chope e duas gotas pingam na página 132. Suspiro. Pago a conta e sigo à pé para a Travessa.

17:30 Descubro na estante de filosofia o princípio metafísico da identidade dos indiscerníveis, que, resumindo, é mais ou menos assim: duas coisas no universo não podem ser absolutamente iguais. Fico aliviada mas não de todo, filósofos sempre confundem coisas e fenômenos. Subo as escadas da livraria e vou até o balcão da cafeteria. Antes que possa fazer o meu pedido, a mão suave de Marina aperta meu braço e cochicha em meu ouvido: Cilene, meu amor, me sirva por favor um café carioca, e correeendo.

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24.10.03

Augusto dos Anjos

Minha Finalidade


Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!

Predeterminação imprescriptível
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!

Na canonização emocionante,
Da dor humana, sou maior que Dante,
-- A águia dos latifúndios florentinos!

Sistematizo, soluçando, o Inferno...
E trago em mim, num sincronismo eterno,
A fórmula de todos os destinos!

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Notícias do front 2: Amigos, devido à estonteante afluência de inscrições para o concurso literário "Piores Contos Brasileiros", minha generosidade foi despertada e leva-me a alterar o prêmio para o Primeiro Colocado: kit-surpresa contendo CD+livro. Os demais prêmios permanecem os mesmos: Menção Honrosa, livro-surpresa. Todos os 10 primeiros colocados terão seus contos publicados neste blog.

23.10.03

Notícias do front: Amigos, os primeiros textos que concorrerão ao nosso "Os Piores Contos Brasileiros" já estão chegando! Em menos de 24 horas do lançamento do concurso! Só tenho a agradecer, mas também permitam-me uma queixa: os textos estão "bons" demais! Ora, vocês estão querendo transformar o meu despretensioso concurso trash em prévia do Jabuti? Se não baixarem a qualidade, serei obrigada a desclassificá-los, ou, pior, as editoras nem prestarão atenção em vocês. Ainda estou aguardando textos deploráveis. Mãos à obra, pessoal. Como já disse em outro blog, eu só não participo porque sou a comissão julgadora, seria concursisticamente incorreto e antiético, este blog tem um nome a zelar. Vamos lá.

22.10.03

Concurso literário "Piores Contos Brasileiros"



Hoje o Prosa Caótica lança o inédito e sensacional Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros". Envie-nos agora mesmo aquele textinho que você escondeu no fundo da gaveta e já pensou em queimar, aquele conto que você morre de vergonha de ter escrito e não mostraria nem mesmo à sua mãe. As inscrições estarão abertas até o dia 30 de novembro deste ano. Não perca! A comissão julgadora será formada exclusivamente por mim. O primeiro colocado será premiado com um extraordinário CD-surpresa, de minha própria escolha. Um livro-surpresa será dado ao conto que merecer menção honrosa. Os dez primeiros colocados terão seus contos publicados neste blog, com os devidos links, caso tenham URL. Os contos deverão ter no máximo 30 linhas, com 70 caracteres por linha. É permitido o uso de pseudônimos.

Envie o conto por e-mail. O resultado será divulgado em 8 de dezembro.

Não se iniba! Participe! Esta pode ser sua primeira e única chance!

Divulgue esta idéia!



Nuevas Generaciones


Grupos de jóvenes, grupos de imbéciles.
Solo viviendo para hacerse millonari@s.
Forrarte pronto sin cansarte demasiado,
copiando el sueño de vida Americano.
Es tu felicidad, se mide en productos
Consume, Consume, Consume mas
con bolsillos y sin cerebro, sin cerebro.
Estáis manipulad@s por multinacionales
sin pensarlo es muy facil vivir sin ideales ¿Qué ideales?
Nuevas generaciones de hipocresía
queriendo siempre tener mas que los demás
L@s perfectos, l@s modern@s, l@s mejores
Vuestra competencia solo me hace vomitar
No importa a quien pises si tienes que escalar.
El sistema así lo exige y te merece mucho mas, mucho mas
Estáis tod@s podrid@s, el dinero os convenció,
la honradez siempre por fuera
pero por dentro huele mal, mal



Paga Papá


El telefono móvil
me lo paga papá
Coche descaptable
me lo paga papá
La ropa de marca
me lo paga papá
Las noches de marcha
me lo paga papá
El master en Icade
me lo paga papá
Esquiar en Baqueira
me lo paga papá
Jugar al golf en Marbella
me lo paga papá
Vacaciones en Miami
me lo paga papá


-- Sin Dios, banda de hardcore punk, Espanha.

21.10.03

John Fante

Tornei-me um vagabundo na minha cidade. Vadiava por lá. Peguei um serviço para capinar ervas daninhas, mas era dureza e larguei. Outro serviço, lavando janelas. Mal consegui dar conta. Procurei trabalho por toda Boulder, mas as ruas estavam cheias de homens jovens desempregados. O único emprego na cidade era para entregar jornais. Pagava cinqüenta centavos por dia. Recusei. Me escorava pelas paredes dos salões de bilhar. Me mantinha longe de casa. Ficava envergonhado de comer a comida que meu pai e minha mãe proporcionavam. Eu sempre esperava até meu pai sair de casa. Minha mãe tentava me animar. Ela fazia tortas de nozes e raviolis para mim. "Não se preocupe", ela dizia. "Espere e verá. Alguma coisa vai acontecer. Estou rezando."
Eu ia à biblioteca. Olhava as revistas, as figuras nelas. Um dia fui até as estantes de livros e puxei um livro. Era "Winesburg, Ohio". Sentei numa mesa comprida de mogno e comecei a ler. Subitamente meu mundo virou de cabeça para baixo. O céu desabou. O livro me absorveu. Fui às lágrimas. Meu coração batia rápido. Li até meus olhos arderem. Levei o livro para casa. Li outro Anderson. Eu lia e lia, e estava deprimido e solitário e apaixonado por um livro, muitos livros, até que aconteceu naturalmente, e sentei com um lápis e um bloco comprido e tentei escrever, até que senti que não poderia continuar porque as palavras não vinham como acontecia com Anderson, elas vinham somente como gotas de sangue do meu coração.


-- Em "Sonhos de Bunker Hill".

20.10.03

Ex-posição


Exposição de taças vazias e pessoas sedentas pela arte de esvaziar o copo. Eis o que acontece nessas tão esperadas aberturas de mostras artísticas nessa cidade fantasia chamada São Paulo. Performances que reavivam o parangolé, banda de rock com sotaque nacional fazendo do velho algo tão novo quanto a idade de Aguilar. Tudo bem, foi divertido, dei boas risadas com as pichações feitas em corpos embalsamados de plástico. Eu, como bom freqüentador desses eventos paulistanos queria, a princípio, descobrir onde estavam as garrafas de vinho. Afinal, fui apresentado a elas e saboreei a primeira. As outras tiveram gosto de caos artístico e pose de madame e ninfeta. Descobri que não houve curadoria, as obras foram selecionadas ao acaso ou pelo contato firmado anteriormente entre artista e pseudocurador, o que costumamos chamar por aqui de QI (quem indica?!). Uma das idéias que me ocorreram durante as passagens pelas salas era a de que algumas pessoas desejam ser confundidas com as próprias obras. Fantasiam-se. Outra delas: existe um grupo de pessoas, de uma produtora de vídeo da cidade, que se auto- intitulam “antipop” e, de uns tempos pra cá, começaram a freqüentar tais ambientes pop. Disse pra mim: “antipop é minha vozinha que assiste à missa todo dia”. Ela sim deveria criar um logo pop antipop.

Estou me achando um chato, como me achei durante o tempo em que perambulei, como um fantasma sólido, entre as cores e texturas, mármores e plásticos, estojos e pré-rupturas do pós-moderno anseio contemporâneo pela novidade, mesmo que arqueologicamente descoberta nos escombros da arte marginal de um país sem memória, onde tudo pode ser considerado novo porque já foi esquecido. Se ainda estivesse lá, escrevendo este texto, já estaria bêbado, tropeçando em alguma escultura humana, observando os famintos avançando na bandeja de torradas com patê, procurando algo naquelas obras que pudessem me dizer de perto o significado de tudo aquilo. O que menos importava naquele ambiente era justamente a causa daquela festa: a arte. Bom, ao menos tive a certeza de que cada vez mais tal desígnio “artista” pode ser aplicado a qualquer um. Seja você também um artista. Mas não freqüente aberturas de exposições. A não ser que você esteja passando fome.

Viva a paulicéia desvairada e seus tubos de ensaio.

Me dê mais um copo, ô garçom. O quê? Acabou o vinho? Que merda!!!


-- Juliano Polimeno, in Cabeza Marginal.


19.10.03

E a Poesia Vive por Aqui. Aumente o som. Dica do Paulo Bicarato.

W. H. Auden

A solitária nata


Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.

Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.

Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.

Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam certas cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos:
Palavras são só para os que estão comprometidos.

-- W. H. Auden

16.10.03

Ninguém ainda te falou...


Mataiota mataiatoten ta panta mataiota!

Literaturi i iskusstva? Ya ni panemayou.

Zhongguo zouxiang shijie, shijie zouxiang Zhongguo.

Ich grolle nicht, und wenn das Herz auch bricht.

Ars longa, vita brevis.

Nóis capota, mas num breca.

The only way out is through.

Ah, les grandes horizontales...

Vsegda Mecca Coke!

Hier ist kein Warum.

Antes pó do que mal amaconhado.

Divide et impera.

Are you that way?

Aproveita hoje porque é mais tarde do que imaginas.

Se vado io, chi resta? Se resto, chi va?

Let bygones be bygones.

Quem tem pacto com o mal não precisa de empurrão.

Ex unitate vires.

Satyasya satyam.

Couves da minha horta.

Fck, the only thing missing is you.

De omnibus dubitandum.

Mehr Licht!

A rising tide lifts all boats.

Cogito cogito ergo cogito sum.

Velho que não adivinha não vale uma sardinha.

1 colher sopa de pó de café+ 3 de chocolate em pó+ 200g de creme de leite+ 600g de chocolate em barra+ conhaque

Revertere ad locum tuum.

Gangway!

Quem fala demais acaba cumprimentando o próprio cavalo.

Lasciati ogni speranza, voi ch'entrate!

São bois pra lá, bois pra cá.

Tada yori takai mono wa nai.

No soy yo la culpable de que mi poema hable de lo que no soy.

Algum A é B. Todo A é C. Logo, algum C é B.

No pilão qu'eu piso milho, pinto não come xerém.

a+ab=a

Tudo come, de tudo se come, Kabiyesi Xangô, Alafin Oió Alayeluwa!


... que @ internet n@o tem fronteir@s?

Ambrose Bierce e o Dicionário do Diabo


M/N


Macaco -- animal arborícola que se sente perfeitamente em casa nas árvores genealógicas.

Mágica -- arte de transformar a superstição em ouro. Há inúmeras outras artes servindo a este mesmo propósito elevado, porém um lexicógrafo prudente não deve mencioná-las.

Maioria -- característica que distingue um crime de uma lei.

Matar -- criar uma vaga sem nomear sucessor.

Mausoléu -- derradeira extravagância dos ricos.

Medalha -- pequeno disco de metal com que se premia virtudes, façanhas e serviços relativamente autênticos.

Menor -- diz-se daquilo que não é passível de objeção.

Mentira -- substituto pobre da verdade, mas o único que se descobriu até agora.

Mentiroso -- sujeito viciado em retórica.

Menu -- relação dos pratos de um restaurante que acabaram de terminar.

Metade -- uma de duas partes iguais em que se pode dividir uma coisa, ou considerá-la dividida.

Meu -- tudo aquilo que pertence a mim, se eu puder pegar e não largar.

Mitologia -- corpo de crenças de um povo primitivo relacionando suas origens, história, heróis, divindades e assim por diante, de uma forma bem diferente dos relatos verdadeiros que ele inventaria mais tarde.

Moda -- despotismo que os sábios ridicularizam e obedecem.

Modéstia -- reconhecer a própria perfeição mas sem dizer isso a ninguém.

Monógamo -- polígamo reprimido.

Monumento -- estrutura projetada para comemorar algo que não precisa de comemoração ou que não devia ser comemorado.

Morrer -- desejo repentino de deixar de pecar.

Morte -- dormir sem precisar levantar-se para mijar.

Nepotismo -- contratar a própria avó em benefício do partido.

Newtoniano -- adepto da filosofia do universo inventada por Newton, que descobriu que uma maçã sempre cairá no chão mas não foi capaz de dizer por quê. Seus sucessores e discípulos até agora só conseguiram saber quando.

Niilista -- russo que nega a existência de tudo, menos de Tolstoi.

Ninfomaníaca -- termo empregado pelo homem para definir a mulher que deseja fazer sexo com mais freqüência do que ele.

Nirvana -- na religião budista, diz-se do prazeroso estado de auto-anulação experimentado pelos sábios, particularmente aqueles sábios o bastante para entendê-lo.

Noiva -- mulher que deixa para trás uma boa perspectiva de felicidade.

Notoriedade -- tipo mais acessível e aceitável de reconhecimento da mediocridade.

Novembro -- décimo primeiro mês do cansaço.


-- Ambrose Bierce

15.10.03

Hoje vou dar alguns conselhos às meninas da blogsfera. Se calhar não devia, sempre são minhas concorrentes, mas tenho tido tanta fartura de queridos a bater-me à porta que decidi dar-lhes uma ajudinha (Francisco! vá, não fique ciumento, já lhe disse que este fim de semana não posso, fica para o próximo tábem?). Enfim, vou dar algumas dicas, que isto de encontrar o marido ideal na blogsfera não é fácil. Como diz a Milu, "basta um template errado para espantar a caça! "

E por falar em template errado, começo já pela Papoila. Filha! Francamente! Cor de lagosta? A cor de um template é como a cor das unhas, quando se dá por ela é porque está mal! Nos tempos que correm temos de ter muito cuidado com as cores, até da lingerie (José!, seu maroto ternurento, não me volte a perguntar se uso ligas, essas coisas não se perguntam a uma senhora!)

Falando no Zé, hélás! não posso deixar de mandar um recadinho à Amata: menina, nem todos os queridos falam alemão, use e abuse de Ovídio (ah! obrigada querida Charlotte!) at random, com aisance, como quiser, mas de vez em quando deixe escorregar pequenas trivialidades do tipo - "adoro unhas postiças, serei doida?" - os queridos pelam-se por estas coisas, sobretudo quando vindas de alguém com tanta literatura! Do que eles não gostam é de mulher que, de tanto abusar do Gin, nem o blog consegue manter arrumado. Que desmazelo Helena!

Já a Isabel me parece mais arrumadinha, no entanto... filha, não serão horas de deitar a pequenada? Os queridos ficam aflitos quando vêem tanta pequenada à solta, nem imagina! Vá, ponha lá a sua carinha linda no header e vai ver como sobem as audiências! Claro que mais aflitos ficam quando vêem uma mulher com pêlo na venta (bigode?), como a Clara, assustam-se! Que horror Clara, já viu o que fez ao querido do Ivan? Ainda ontem reincidiu: "Quando eu tinha 15, 16, 18, 21 anos, as pessoas espantavam-se por eu tão cedo ter a cabeça tão clara sobre o que queria e fazia da vida." Está a fazer uma birra, está visto!

Melhor estratégia é deslizar no sonho, sempre muito romântica, muito suave, pele macia...Os queridos adoram! Ah! estão a tocar à campainha, as meninas que me perdoem, deve ser o Nelson, disse-me que vinha cá hoje tomar café. Desde que o Zé lhe mandou apagar os comments, tem andado todo tristinho, quer feedback da Amélia, tadito! Deixa-me ir deitar os pequenos antes de abrir a porta...

Jinhos jinhos


-- Procuro Marido


Eugénio de Andrade

À Beira de Água


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

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12.10.03

Five words in a line.


-- Gertrude Stein, 1930.



READ THIS WORD THEN READ THIS WORD READ THIS WORD NEXT READ THIS WORD NOW SEE ONE WORD SEE ONE WORD NEXT SEE ONE WORD NOW AND THEN SEE ONE WORD AGAIN LOOK AT THREE WORDS HERE LOOK AT THREE WORDS NOW LOOK AT THREE WORDS NOW TOO TAKE IN FIVE WORDS AGAIN TAKE IN FIVE WORDS SO TAKE IN FIVE WORDS DO IT NOW SEE THESE WORDS AT A GLANCE SEE THESE WORDS AT THIS GLANCE AT THIS GLANCE HOLD THIS LINE IN VIEW HOLD THIS LINE IN ANOTHER VIEW AND IN A THIRD VIEW SPOT SEVEN LINES AT ONCE THEN TWICE THEN THRICE THEN A FOURTH TIME A FIFTH A SIXTH A SEVENTH AN EIGHTH


-- Vito Acconci


10.10.03

Vincent


pela sonda
onde escorria ainda
a papa de leite
o mct-oil
os amino-ácidos essenciais

pelo botão gástrico

teve hoje
a minha mãe
finalmente coragem
para me dar

o pentotal



Estilo

Tenho um problema de estilo. No meu cabelo não pegam as cores da moda, a consistência não aguenta os penteados da colecção. Os carros memoráveis atrapalham-me a condução, a roupa dos costureiros não serve, o ar nas perfumarias põe-me o estômago em convulsão. Hei-de cruzar-te cem vezes sem sinal. Falta-me visibilidade, é o que é. Talvez um trapézio na baixa, uma corda bamba na praceta, me arranquem da indistinção que me confunde com quase nada.


-- A Natureza do Mal