27.10.03

Piores Contos Brasileiros

Respeitável público, amigos: há quase uma semana do lançamento do concurso "Piores Contos" e tenho em minhas mãos um número considerável de textos para ler. Agradeço aqui o empenho dos leitores/autores e não posso esquecer de agradecer também o auxílio luxuoso dos blogs que logo de início encararam com despreendimento e bom humor a iniciativa inédita deste blog. São eles Na Farmácia, Numa Cidade, Caderno de Sonhos, Catarro Verde, Sei Lá, Entende?, Mural de Recados, Crônica Literária e Letteri Café. Perdoem-me se esqueci de alguém. Outros serão igualmente benvindos. Por enquanto, é só. Continuaremos com nossa programação normal. Envie seu conto djá!


Eu não penso, por isso consigo escrever. (Plínio Marcos)

Czeslaw Milosz



"A utilidade da poesia está em nos fazer lembrar
que é difícil continuar sendo a mesma pessoa
porque nossa casa está aberta
as portas estão sem chave
e os hóspedes invisíveis entram e saem."


-- (fragmento do poema "Ars poética?")

25.10.03

O Leblon e a identidade dos indiscerníveis



15h Sentada na praia do Leblon, distraída, meu celular toca e uma voz inconfundível e melodiosa me pergunta: Oi, o que você está fazendo? Pausa. Era Caetano. Mantive a calma. Estou lendo "Budapeste" e tomando água de côco. Pausa. Que delícia! Olhe só, você viu Preta? Preciso falar com ela a-go-ra. Interferência. Querido, não sou amiga de Preta e, por falar nisso, como conseguiu o meu telefone? Silêncio. Você não é Ana de Torquato? Pausa. Não, sou Maira de... Interferência. Alô? Alô? Clic.

15:50 Depois de um demorado banho de mar, limpo a areia dos pés na calçada e 15 minutos depois estou tomando um chope de pé no Bracarense com Ubaldo que, do outro lado do balcão, não me cumprimenta porque certamente nunca viu a minha cara na vida. Me desligo do ambiente e retomo a leitura de "Budapeste" na página 81.

16:17 Um dedinho mole me cutuca e dou com os olhos esbugalhados de Carvana me fixando. Oi, Luciana. Tudo bom? Pausa. Perdão, meu nome não é Luciana. Um cheiro de lombinho nos atropela. Puxa, acho que me confundi. Pensei que você fosse a Villas-Boas. Eu deveria dar um sorriso nessa hora mas em vez disso digo Tudo bem, estou acostumada. Os olhos esbugalhados perdem instantaneamente o interesse e se voltam para a caipirinha. Dou um gole no meu chope e duas gotas pingam na página 132. Suspiro. Pago a conta e sigo à pé para a Travessa.

17:30 Descubro na estante de filosofia o princípio metafísico da identidade dos indiscerníveis, que, resumindo, é mais ou menos assim: duas coisas no universo não podem ser absolutamente iguais. Fico aliviada mas não de todo, filósofos sempre confundem coisas e fenômenos. Subo as escadas da livraria e vou até o balcão da cafeteria. Antes que possa fazer o meu pedido, a mão suave de Marina aperta meu braço e cochicha em meu ouvido: Cilene, meu amor, me sirva por favor um café carioca, e correeendo.

-

24.10.03

Augusto dos Anjos

Minha Finalidade


Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!

Predeterminação imprescriptível
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!

Na canonização emocionante,
Da dor humana, sou maior que Dante,
-- A águia dos latifúndios florentinos!

Sistematizo, soluçando, o Inferno...
E trago em mim, num sincronismo eterno,
A fórmula de todos os destinos!

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Notícias do front 2: Amigos, devido à estonteante afluência de inscrições para o concurso literário "Piores Contos Brasileiros", minha generosidade foi despertada e leva-me a alterar o prêmio para o Primeiro Colocado: kit-surpresa contendo CD+livro. Os demais prêmios permanecem os mesmos: Menção Honrosa, livro-surpresa. Todos os 10 primeiros colocados terão seus contos publicados neste blog.

23.10.03

Notícias do front: Amigos, os primeiros textos que concorrerão ao nosso "Os Piores Contos Brasileiros" já estão chegando! Em menos de 24 horas do lançamento do concurso! Só tenho a agradecer, mas também permitam-me uma queixa: os textos estão "bons" demais! Ora, vocês estão querendo transformar o meu despretensioso concurso trash em prévia do Jabuti? Se não baixarem a qualidade, serei obrigada a desclassificá-los, ou, pior, as editoras nem prestarão atenção em vocês. Ainda estou aguardando textos deploráveis. Mãos à obra, pessoal. Como já disse em outro blog, eu só não participo porque sou a comissão julgadora, seria concursisticamente incorreto e antiético, este blog tem um nome a zelar. Vamos lá.

22.10.03

Concurso literário "Piores Contos Brasileiros"



Hoje o Prosa Caótica lança o inédito e sensacional Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros". Envie-nos agora mesmo aquele textinho que você escondeu no fundo da gaveta e já pensou em queimar, aquele conto que você morre de vergonha de ter escrito e não mostraria nem mesmo à sua mãe. As inscrições estarão abertas até o dia 30 de novembro deste ano. Não perca! A comissão julgadora será formada exclusivamente por mim. O primeiro colocado será premiado com um extraordinário CD-surpresa, de minha própria escolha. Um livro-surpresa será dado ao conto que merecer menção honrosa. Os dez primeiros colocados terão seus contos publicados neste blog, com os devidos links, caso tenham URL. Os contos deverão ter no máximo 30 linhas, com 70 caracteres por linha. É permitido o uso de pseudônimos.

Envie o conto por e-mail. O resultado será divulgado em 8 de dezembro.

Não se iniba! Participe! Esta pode ser sua primeira e única chance!

Divulgue esta idéia!



Nuevas Generaciones


Grupos de jóvenes, grupos de imbéciles.
Solo viviendo para hacerse millonari@s.
Forrarte pronto sin cansarte demasiado,
copiando el sueño de vida Americano.
Es tu felicidad, se mide en productos
Consume, Consume, Consume mas
con bolsillos y sin cerebro, sin cerebro.
Estáis manipulad@s por multinacionales
sin pensarlo es muy facil vivir sin ideales ¿Qué ideales?
Nuevas generaciones de hipocresía
queriendo siempre tener mas que los demás
L@s perfectos, l@s modern@s, l@s mejores
Vuestra competencia solo me hace vomitar
No importa a quien pises si tienes que escalar.
El sistema así lo exige y te merece mucho mas, mucho mas
Estáis tod@s podrid@s, el dinero os convenció,
la honradez siempre por fuera
pero por dentro huele mal, mal



Paga Papá


El telefono móvil
me lo paga papá
Coche descaptable
me lo paga papá
La ropa de marca
me lo paga papá
Las noches de marcha
me lo paga papá
El master en Icade
me lo paga papá
Esquiar en Baqueira
me lo paga papá
Jugar al golf en Marbella
me lo paga papá
Vacaciones en Miami
me lo paga papá


-- Sin Dios, banda de hardcore punk, Espanha.

21.10.03

John Fante

Tornei-me um vagabundo na minha cidade. Vadiava por lá. Peguei um serviço para capinar ervas daninhas, mas era dureza e larguei. Outro serviço, lavando janelas. Mal consegui dar conta. Procurei trabalho por toda Boulder, mas as ruas estavam cheias de homens jovens desempregados. O único emprego na cidade era para entregar jornais. Pagava cinqüenta centavos por dia. Recusei. Me escorava pelas paredes dos salões de bilhar. Me mantinha longe de casa. Ficava envergonhado de comer a comida que meu pai e minha mãe proporcionavam. Eu sempre esperava até meu pai sair de casa. Minha mãe tentava me animar. Ela fazia tortas de nozes e raviolis para mim. "Não se preocupe", ela dizia. "Espere e verá. Alguma coisa vai acontecer. Estou rezando."
Eu ia à biblioteca. Olhava as revistas, as figuras nelas. Um dia fui até as estantes de livros e puxei um livro. Era "Winesburg, Ohio". Sentei numa mesa comprida de mogno e comecei a ler. Subitamente meu mundo virou de cabeça para baixo. O céu desabou. O livro me absorveu. Fui às lágrimas. Meu coração batia rápido. Li até meus olhos arderem. Levei o livro para casa. Li outro Anderson. Eu lia e lia, e estava deprimido e solitário e apaixonado por um livro, muitos livros, até que aconteceu naturalmente, e sentei com um lápis e um bloco comprido e tentei escrever, até que senti que não poderia continuar porque as palavras não vinham como acontecia com Anderson, elas vinham somente como gotas de sangue do meu coração.


-- Em "Sonhos de Bunker Hill".

20.10.03

Ex-posição


Exposição de taças vazias e pessoas sedentas pela arte de esvaziar o copo. Eis o que acontece nessas tão esperadas aberturas de mostras artísticas nessa cidade fantasia chamada São Paulo. Performances que reavivam o parangolé, banda de rock com sotaque nacional fazendo do velho algo tão novo quanto a idade de Aguilar. Tudo bem, foi divertido, dei boas risadas com as pichações feitas em corpos embalsamados de plástico. Eu, como bom freqüentador desses eventos paulistanos queria, a princípio, descobrir onde estavam as garrafas de vinho. Afinal, fui apresentado a elas e saboreei a primeira. As outras tiveram gosto de caos artístico e pose de madame e ninfeta. Descobri que não houve curadoria, as obras foram selecionadas ao acaso ou pelo contato firmado anteriormente entre artista e pseudocurador, o que costumamos chamar por aqui de QI (quem indica?!). Uma das idéias que me ocorreram durante as passagens pelas salas era a de que algumas pessoas desejam ser confundidas com as próprias obras. Fantasiam-se. Outra delas: existe um grupo de pessoas, de uma produtora de vídeo da cidade, que se auto- intitulam “antipop” e, de uns tempos pra cá, começaram a freqüentar tais ambientes pop. Disse pra mim: “antipop é minha vozinha que assiste à missa todo dia”. Ela sim deveria criar um logo pop antipop.

Estou me achando um chato, como me achei durante o tempo em que perambulei, como um fantasma sólido, entre as cores e texturas, mármores e plásticos, estojos e pré-rupturas do pós-moderno anseio contemporâneo pela novidade, mesmo que arqueologicamente descoberta nos escombros da arte marginal de um país sem memória, onde tudo pode ser considerado novo porque já foi esquecido. Se ainda estivesse lá, escrevendo este texto, já estaria bêbado, tropeçando em alguma escultura humana, observando os famintos avançando na bandeja de torradas com patê, procurando algo naquelas obras que pudessem me dizer de perto o significado de tudo aquilo. O que menos importava naquele ambiente era justamente a causa daquela festa: a arte. Bom, ao menos tive a certeza de que cada vez mais tal desígnio “artista” pode ser aplicado a qualquer um. Seja você também um artista. Mas não freqüente aberturas de exposições. A não ser que você esteja passando fome.

Viva a paulicéia desvairada e seus tubos de ensaio.

Me dê mais um copo, ô garçom. O quê? Acabou o vinho? Que merda!!!


-- Juliano Polimeno, in Cabeza Marginal.


19.10.03

E a Poesia Vive por Aqui. Aumente o som. Dica do Paulo Bicarato.

W. H. Auden

A solitária nata


Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.

Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.

Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.

Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam certas cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos:
Palavras são só para os que estão comprometidos.

-- W. H. Auden

16.10.03

Ninguém ainda te falou...


Mataiota mataiatoten ta panta mataiota!

Literaturi i iskusstva? Ya ni panemayou.

Zhongguo zouxiang shijie, shijie zouxiang Zhongguo.

Ich grolle nicht, und wenn das Herz auch bricht.

Ars longa, vita brevis.

Nóis capota, mas num breca.

The only way out is through.

Ah, les grandes horizontales...

Vsegda Mecca Coke!

Hier ist kein Warum.

Antes pó do que mal amaconhado.

Divide et impera.

Are you that way?

Aproveita hoje porque é mais tarde do que imaginas.

Se vado io, chi resta? Se resto, chi va?

Let bygones be bygones.

Quem tem pacto com o mal não precisa de empurrão.

Ex unitate vires.

Satyasya satyam.

Couves da minha horta.

Fck, the only thing missing is you.

De omnibus dubitandum.

Mehr Licht!

A rising tide lifts all boats.

Cogito cogito ergo cogito sum.

Velho que não adivinha não vale uma sardinha.

1 colher sopa de pó de café+ 3 de chocolate em pó+ 200g de creme de leite+ 600g de chocolate em barra+ conhaque

Revertere ad locum tuum.

Gangway!

Quem fala demais acaba cumprimentando o próprio cavalo.

Lasciati ogni speranza, voi ch'entrate!

São bois pra lá, bois pra cá.

Tada yori takai mono wa nai.

No soy yo la culpable de que mi poema hable de lo que no soy.

Algum A é B. Todo A é C. Logo, algum C é B.

No pilão qu'eu piso milho, pinto não come xerém.

a+ab=a

Tudo come, de tudo se come, Kabiyesi Xangô, Alafin Oió Alayeluwa!


... que @ internet n@o tem fronteir@s?

Ambrose Bierce e o Dicionário do Diabo


M/N


Macaco -- animal arborícola que se sente perfeitamente em casa nas árvores genealógicas.

Mágica -- arte de transformar a superstição em ouro. Há inúmeras outras artes servindo a este mesmo propósito elevado, porém um lexicógrafo prudente não deve mencioná-las.

Maioria -- característica que distingue um crime de uma lei.

Matar -- criar uma vaga sem nomear sucessor.

Mausoléu -- derradeira extravagância dos ricos.

Medalha -- pequeno disco de metal com que se premia virtudes, façanhas e serviços relativamente autênticos.

Menor -- diz-se daquilo que não é passível de objeção.

Mentira -- substituto pobre da verdade, mas o único que se descobriu até agora.

Mentiroso -- sujeito viciado em retórica.

Menu -- relação dos pratos de um restaurante que acabaram de terminar.

Metade -- uma de duas partes iguais em que se pode dividir uma coisa, ou considerá-la dividida.

Meu -- tudo aquilo que pertence a mim, se eu puder pegar e não largar.

Mitologia -- corpo de crenças de um povo primitivo relacionando suas origens, história, heróis, divindades e assim por diante, de uma forma bem diferente dos relatos verdadeiros que ele inventaria mais tarde.

Moda -- despotismo que os sábios ridicularizam e obedecem.

Modéstia -- reconhecer a própria perfeição mas sem dizer isso a ninguém.

Monógamo -- polígamo reprimido.

Monumento -- estrutura projetada para comemorar algo que não precisa de comemoração ou que não devia ser comemorado.

Morrer -- desejo repentino de deixar de pecar.

Morte -- dormir sem precisar levantar-se para mijar.

Nepotismo -- contratar a própria avó em benefício do partido.

Newtoniano -- adepto da filosofia do universo inventada por Newton, que descobriu que uma maçã sempre cairá no chão mas não foi capaz de dizer por quê. Seus sucessores e discípulos até agora só conseguiram saber quando.

Niilista -- russo que nega a existência de tudo, menos de Tolstoi.

Ninfomaníaca -- termo empregado pelo homem para definir a mulher que deseja fazer sexo com mais freqüência do que ele.

Nirvana -- na religião budista, diz-se do prazeroso estado de auto-anulação experimentado pelos sábios, particularmente aqueles sábios o bastante para entendê-lo.

Noiva -- mulher que deixa para trás uma boa perspectiva de felicidade.

Notoriedade -- tipo mais acessível e aceitável de reconhecimento da mediocridade.

Novembro -- décimo primeiro mês do cansaço.


-- Ambrose Bierce

15.10.03

Hoje vou dar alguns conselhos às meninas da blogsfera. Se calhar não devia, sempre são minhas concorrentes, mas tenho tido tanta fartura de queridos a bater-me à porta que decidi dar-lhes uma ajudinha (Francisco! vá, não fique ciumento, já lhe disse que este fim de semana não posso, fica para o próximo tábem?). Enfim, vou dar algumas dicas, que isto de encontrar o marido ideal na blogsfera não é fácil. Como diz a Milu, "basta um template errado para espantar a caça! "

E por falar em template errado, começo já pela Papoila. Filha! Francamente! Cor de lagosta? A cor de um template é como a cor das unhas, quando se dá por ela é porque está mal! Nos tempos que correm temos de ter muito cuidado com as cores, até da lingerie (José!, seu maroto ternurento, não me volte a perguntar se uso ligas, essas coisas não se perguntam a uma senhora!)

Falando no Zé, hélás! não posso deixar de mandar um recadinho à Amata: menina, nem todos os queridos falam alemão, use e abuse de Ovídio (ah! obrigada querida Charlotte!) at random, com aisance, como quiser, mas de vez em quando deixe escorregar pequenas trivialidades do tipo - "adoro unhas postiças, serei doida?" - os queridos pelam-se por estas coisas, sobretudo quando vindas de alguém com tanta literatura! Do que eles não gostam é de mulher que, de tanto abusar do Gin, nem o blog consegue manter arrumado. Que desmazelo Helena!

Já a Isabel me parece mais arrumadinha, no entanto... filha, não serão horas de deitar a pequenada? Os queridos ficam aflitos quando vêem tanta pequenada à solta, nem imagina! Vá, ponha lá a sua carinha linda no header e vai ver como sobem as audiências! Claro que mais aflitos ficam quando vêem uma mulher com pêlo na venta (bigode?), como a Clara, assustam-se! Que horror Clara, já viu o que fez ao querido do Ivan? Ainda ontem reincidiu: "Quando eu tinha 15, 16, 18, 21 anos, as pessoas espantavam-se por eu tão cedo ter a cabeça tão clara sobre o que queria e fazia da vida." Está a fazer uma birra, está visto!

Melhor estratégia é deslizar no sonho, sempre muito romântica, muito suave, pele macia...Os queridos adoram! Ah! estão a tocar à campainha, as meninas que me perdoem, deve ser o Nelson, disse-me que vinha cá hoje tomar café. Desde que o Zé lhe mandou apagar os comments, tem andado todo tristinho, quer feedback da Amélia, tadito! Deixa-me ir deitar os pequenos antes de abrir a porta...

Jinhos jinhos


-- Procuro Marido


Eugénio de Andrade

À Beira de Água


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

-



12.10.03

Five words in a line.


-- Gertrude Stein, 1930.



READ THIS WORD THEN READ THIS WORD READ THIS WORD NEXT READ THIS WORD NOW SEE ONE WORD SEE ONE WORD NEXT SEE ONE WORD NOW AND THEN SEE ONE WORD AGAIN LOOK AT THREE WORDS HERE LOOK AT THREE WORDS NOW LOOK AT THREE WORDS NOW TOO TAKE IN FIVE WORDS AGAIN TAKE IN FIVE WORDS SO TAKE IN FIVE WORDS DO IT NOW SEE THESE WORDS AT A GLANCE SEE THESE WORDS AT THIS GLANCE AT THIS GLANCE HOLD THIS LINE IN VIEW HOLD THIS LINE IN ANOTHER VIEW AND IN A THIRD VIEW SPOT SEVEN LINES AT ONCE THEN TWICE THEN THRICE THEN A FOURTH TIME A FIFTH A SIXTH A SEVENTH AN EIGHTH


-- Vito Acconci


10.10.03

Vincent


pela sonda
onde escorria ainda
a papa de leite
o mct-oil
os amino-ácidos essenciais

pelo botão gástrico

teve hoje
a minha mãe
finalmente coragem
para me dar

o pentotal



Estilo

Tenho um problema de estilo. No meu cabelo não pegam as cores da moda, a consistência não aguenta os penteados da colecção. Os carros memoráveis atrapalham-me a condução, a roupa dos costureiros não serve, o ar nas perfumarias põe-me o estômago em convulsão. Hei-de cruzar-te cem vezes sem sinal. Falta-me visibilidade, é o que é. Talvez um trapézio na baixa, uma corda bamba na praceta, me arranquem da indistinção que me confunde com quase nada.


-- A Natureza do Mal

9.10.03

Primavera dos Livros


A Primavera dos Livros este ano apresentará boas surpresas. No dia 18 de outubro haverá debate de literatura, leitura de textos, show e grande festa para comemorar o lançamento do site Paralelos e prenunciando a publicação da Revista Paralelos, um novo meio de divulgação da nova safra de escritores cariocas.
Presentes ao evento estarão os escritores, virtuais ou não, Alessandra Archer, Augusto Sales, Cecília Giannetti, Crib Tanaka, João Paulo Cuenca, Joca Terron, Jorge Rocha, Mara Coradello, Paloma Vidal, Paula Foschia, entre outros. Desde já agradeço a todos aqueles que lembraram do meu nome e principalmente aos amigos Jaime G. Filho, Jorge Rocha e Augusto Sales. Embora não faça parte da nova geração de escritores cariocas, pois já escrevo há um bom tempo, prometo que farei um esforço de reportagem para comparecer aos debates, ok? Falando nisso, o debate "Escritores à beira-mar: a literatura nova produzida no Rio de Janeiro" terá início às 17h do dia 18 no Armazém 5 do Cais do Porto. Todos estão convidados.

8.10.03

Hilda Hilst




Sempre fui apaixonado por mamãe. Quando completei 16 anos, ela, sabedora do meu infortúnio, sentou-se na sua linda poltrona de cetim perolado, abriu suas magníficas coxas rosadas e, colocando um cacho de uvas purpúreas nos seus meios sagrados, disse-me: chupe-as, até encontrar o paraíso. Foi o que fiz. Foram semanas felizes. Passeávamos entre as alamandas as begônias as sempre-vivas, as araucárias (estas já mais altas) os carvalhos (estes altíssimos), ela descalça, a saia florida, a blusa entreaberta e aqueles seios espoucavam do decote meia-lua, linda Ma (eu chamava-a de Ma), ela chamava-me de Júnior, nome que na verdade não quer dizer nada. Depois de três semanas descobri que Ma tinha tendências lésbicas. Vi-a beliscando o bico do peito de Armanda, nossa prima. Fiquei cego de fúria. Bem, nem tanto. Disse-lhe: Ma, você não pode fazer isso comigo. Ela: o quê? Eu: isso de bolinar mulher. Sentou-se naquela mesma poltrona de cetim perolado e agora muito séria e de coxas fechadas disse-me: todos os chamados sentimentos intensos são dolorosos. E é muitíssimo normal o que ocorre com você neste momento. Entendo tudo, Júnior, mas detesto cenas. E se você se aborrece porque além de filhos gosto um nadinha de mulheres, acho demais, será preciso uma terapia de apoio. Concordei. Apoio era com ela mesma. Abriu novamente suas magníficas coxas (desta vez sem uvas) e suspirou gemendo: aqui mais em cima, meu amor, aqui Júnior, e empurrava docemente minha cabeça de cachos dourados na direção adequada. Foram semanas felizes. Ma andava nua pelos prados, saltava pequeninos riachos, na boca hastezinhas de capim, guirlandas de diminutas margaridas à volta de seu pescoço (eu sempre levava uma caixa com agulhas e linhas para fazer estes mimos à Ma). Comíamos pitangas araçás amoras jaboticabas, depois deitávamos nas gramíneas e líamos Childe Harold. Ela amava Byron. Eu dizia-lhe: mas foi um homem abominável, tudo o que fez para a pobrezinha da Clara!
ah, tem paciência, Júnior, ela não saía da cola dele!
mas Ma e tantas mulheres que ele fez sofrer!
aquelas... fartou-se e amou a Fornarina muito tempo.
uma grossa, Ma, uma padeira.
Byron era um gênio, podia amar padeiras.
eu gosto incomparavelmente mais de Shelley.
tão frágil...
ah, por favor, Ma... fino, raro, generoso, brilhante.
ninguém lia Shelley.
claro, muito mais importante, muito mais sério.
Byron foi um dos nossos, querido, amava a própria irmã.

Como resistir a tudo que dizia aquela perfeitíssima mulher que era mamã?


-- Hilda Hilst, em "Contos D'Escárnio".

7.10.03

Feijoada com cocaína


Como alguns devem saber, no ano de 1924 o escritor francês de origem suíça Blaise Cendrars visitou o Brasil, onde conheceu o grupo modernista de São Paulo. Nesse mesmo ano, ele seguiria com uma caravana paulista para Minas Gerais juntamente com Mario de Andrade. Lá, Cendrars teve a oportunidade de conhecer, entre outros escritores mineiros, o então jovem estudante de medicina, aprendiz de poeta e desenhista Pedro Nava. Deste primeiro encontro com Cendrars, no entanto, Nava não guardaria muito boas recordações, como relatou em seu livro de memórias Beira-Mar.

Entusiasmado com os desenhos que vinha fazendo, Nava quis mostrá-los ao poeta "estrangeiro". Segundo o mineiro, eram desenhos de "formas alucinadas e de uma magreza desvairada". O que ele não pôde imaginar é que, após examiná-los atentamente, Cendrars se saísse com esta: "Dites-moi, mon ami. Comment est-ce que vous poudrez votre feijoada? À la farine? ou bien à la cocaïne?"

5.10.03

Grandes editoras preferem não ir à feira de livros dos pobres


Inaugurada na sexta, a I Feira do Livro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ) foi ignorada pela imprensa e não conta com estandes de nenhuma das grandes editoras brasileiras. Mais um sinal de como é discriminada e execrada a população de regiões pobres do país.

Dois acontecimentos de grande importância ocorreram sexta-feira (3) na Baixa Fluminense, Rio de Janeiro: a inauguração da I Feira de Livros de Nova Iguaçu e a abertura do III Fórum Social Carioca, este em Nilópolis.
A Feira do Livro se realiza nas excelentes instalações do Sesc de Nova Iguaçu e, ao contrário das Bienais do Livro, não cobra ingresso e ainda entrega às crianças vales de 4 reais para que comprem livros. É organizada pela prefeitura da cidade, patrocinada pela Petrobrás, com apoio da Câmara Brasileira do Livro.

Esta feira é também muito diferente das outras, especialmente daquela de Paraty – tão badalada pela imprensa. Ela acontece numa das maiores periferias metropolitanas do Brasil, tão execrada e discriminada, abrigo de grande quantidade de jovens pobres que só costuma ser citada nos jornais e na mídia em geral nas páginas policiais.

Com estas características, nem a realização da feira lhe permitiu superar a discriminação: nenhuma das grandes editoras está presente e apenas duas das médias vieram. Não há sinal tampouco da editora do presidente atual da Câmara do Livro, que compareceu à inauguração, discursou, mas parece não se sentir obrigado a prestar contas sobre algo dessa natureza.

Além disso, o tratamento da mídia é altamente discriminatório. O caderno “Idéias” do JB deu uma nota sobre a feira algumas semanas atrás e O Globo deu uma pequena reportagem no dia da inauguração. Foi só. Nenhuma das edições dos cadernos literários – “Idéias”, do JB, e “Prosa e Verso”, de O Globo – que saíram no dia seguinte à inauguração da feira publicaram uma nota que fosse sobre a programação do evento.

Que diferença com a Feira de Paraty, que contou com a participação das maiores editoras, que contou com recursos suficientes para levar bom número de escritores estrangeiros, que convidou e pagou a estada de grande parte dos editores de cultura da mídia brasileira e teve, como resultado, cobertura diária semanas antes do evento, durante sua realização e semanas depois! Mesmo Paraty sendo uma cidade pequena, cara, de difícil acesso, sem estrutura hoteleira para abrigar muita gente, obrigando o evento a se realizar em auditórios pequenos.

Tudo isso revela a falta de generosidade e de compreensão da mídia e das grandes editoras sobre a importância de um evento como este da Baixada, porque sabem que ali está um público com menor poder aquisitivo, com menor peso na mídia – em suma, pobre e marginalizado. (...)


-- Emir Sader, veja aqui matéria completa. Revoltante.



Fui ao mar buscar sardinhas
Para dar ao meu amor
Perdi-me nas janelinhas
Que espreitavam do vapor

A espreitar lá do vapor
Vi a cara dum francês
E seja lá como for
Eu vou ao mar outra vez

Eu fui ao mar outra vez
Lá o vapor de abalada
Já lá não vi o francês
Vim de lá toda molhada

Saltou de mim toda a esperança
Saltou do mar a sardinha
Salta a pulga da balança
Não faz mal não era minha

Vou ao mar buscar sardinha
Já me esqueci do francês
A idéia não e minha
Nem minha nem de vocês

Coisas que eu tenho na idéia
Depois de ter ido ao mar
Será que me entrou areia
Onde não devia de entrar?

Pode não fazer sentido
Pode o verso não caber
Mas o que eu tenho rido
Nem vocês queiram saber

Não é para adivinhar
Que eu não gosto de adivinhas
Já sabem que fui ao mar
E fui lá buscar sardinhas

Sardinha que anda no mar
Deve andar consoladinha
Tem água sabe nadar
Quem me dera ser sardinha


-- Amália Rodrigues

3.10.03

A noite transcorria como um século. Mesmo neste ambiente de pouca luz e algum silêncio não consegui dormir satisfatoriamente. Sonolenta, percebo o vaivém de homens, mulheres e crianças se alternando em cadeiras sóbrias e frágeis. Para os maiores não é dia de trabalho, para os pequenos não é hora de brincar. A contragosto, todos preenchem o espaço como podem.
Aqueles que chegam por último se orientam pelas grossas paredes que a todos parecem cercar. Eles esticam o pescoço procurando me divisar em meio à pequena multidão que se forma à minha volta.
O ar cheira a mofo, não sei bem se é a sala que cheira assim ou se é pelo tapete que colocaram debaixo de minha mesa. Estou rodeada de gente me encarando sem discrição, afinal vieram de longe só para me ver e cumprimentar. Por que culpá-los do desconforto que sem o saber me trazem? Se ao menos soubessem como fico sem jeito nessas horas. No entanto falar-lhes agora da minha modéstia seria no mínimo hipócrita. Jamais me perdoariam se eu dissesse que não posso oferecer dedicatórias. Não vejo a hora de sair daqui.
Mas ninguém me pede nada. Existe um assédio respeitoso. Ninguém parece ligar para as minhas roupas. Minhas respostas já não contam. Tanto sucesso involuntário deve ser porque hoje o dia é só meu.
Espontaneamente imóvel, volto a sentir sono novamente. Uma das mulheres passa com uma bandeja de salgadinhos. Onde estão as bebidas? Minha garganta está seca. A música ambiente se arrasta. O sono agora é incontrolável. Gostaria que tudo isso tivesse um fim. O burburinho, o mofo, a modéstia, os salgadinhos. Afinal é noite de sábado ou manhã de domingo?
Não sei dizer. Ninguém sabe me dizer. Na verdade não há ninguém aqui comigo para me dizer. Estou sozinha. Estou sozinha e dou por falta de um último convidado. Que senha deve ter recebido para me descobrir no meio de toda essa gente? Eu não saberei reconhecê-lo se ele não se apresentar. De qualquer modo, ou ele não existe ou está atrasado. Minha maquiagem agora começa a se desfazer. Tenho tanto sono.
Procuro adivinhar qual das paredes vai dar no banheiro. Não tenho tempo a perder pois vejo que todos já estão de pé e fica cada vez mais difícil atravessar a sala lotada eu já nem sei mais de quê.
Todos estão me encarando agora. O que será que querem de mim? O que vão me perguntar? Eu não preparei discursos. Seja o que for, eu não saberei responder. E estou derretendo. De sono. Um sono que chegou para ficar. Alguns homens se adiantam e se aproximam de mim. O que querem? Mas não. Eles estão mudos. Eles não me tocam. Eles nem me encaram mais. Só me cobrem e tudo fica escuro. Vou poder dormir afinal. Fico feliz. Ainda é noite de sábado.

1.10.03

Pizarnik



explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco que me levava




Antes

bosque musical

os pássaros desenhavam em meus olhos
pequenas gaiolas



Estranho desacostumar-me
da hora em que nasci
Estranho não exercer mais
o ofício de recém-chegada.


-- Alejandra Pizarnik

30.9.03

Baudelaire desnudado



- Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.

- A qualquer pessoa, desde que saiba entreter os outros, é dado o direito de falar de si.

- Gostar de mulheres inteligentes é um prazer de pederasta.

- O que me entedia na França é que todo mundo se parece com Voltaire.

- Não podendo suprimir o amor, a Igreja quis pelo menos desinfetá-lo -- por isso inventou o casamento.

- Quanto mais um indivíduo cultiva as artes, menos trepa.

- A fila de pequenos literatos que se pode ver nos enterros, distribuindo cumprimentos a torto e a direito e procurando fazer-se lembrados dos fazedores de jornais.

- O homem de espírito, aquele que nunca estará de acordo com os outros, deve esforçar-se em apreciar a conversa dos imbecis ou a leitura de livros ruins. Disso extrairá amargas alegrias que compensarão sua fadiga.

- É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século.

- Quando Jesus Cristo disse "Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão saciados", limitava-se a fazer um cálculo de probabilidades.

- O amor pode provir de um sentimento generoso -- o gosto de prostituir-se -- mas é logo corrompido pelo gosto da propriedade.

- Para uma natureza tímida, a portaria de um teatro assemelha-se um pouco ao Juízo Final.

- O que há de atraente no mau gosto é o prazer aristocrático que sentimos em chocar os outros.

- A glória pessoal não é mais do que o resultado da acomodação de um espírito à imbecilidade de um povo.

- Cultivei minha histeria com prazer e terror. Ainda continuo a sentir a vertigem e hoje, 23 de janeiro de 1862, tive um estranho pressentimento: senti a fria asa da imbecilidade passar sobre mim.

29.9.03

Viver é como cavalgar um tigre,
não se pode descer de suas costas.



-- coisa da China.



Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.


-- Leonard Cohen, extraído de Ruialme.


28.9.03

Cartão-postal de uma puta em Mineápolis


Olá Charley, estou grávida
E morando na rua 9
Bem em cima de uma livraria nojenta
Na esquina da Euclid Avenue
Parei com as drogas
E não bebo mais uísque
O meu homem toca trombone
E trabalha na ferrovia

Ele diz que me ama
Ainda que o bebê não seja dele
Diz que vai criá-lo como a um verdadeiro filho
E me deu um anel que a mãe costumava usar
Sai comigo para dançar
Todo sábado à noite

E, Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo num posto de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
Ainda tenho aquele disco de Little Anthony & The Imperials
Mas me roubaram o toca-discos
O que é que se há de fazer...

Aí, Charley, quase fiquei maluca
Quando o Mario entrou em cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com meus velhos
Mas todo mundo que eu conhecia
Ou morreu ou estava na cadeia
Então voltei para Mineápolis
E desta vez acho que vou ficar por aqui

Sabe, Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar com as drogas
Compraria uma oficina de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente a cada dia
Dependendo do meu astral

Oh, Charley, pelamordedeus,
Quer saber a verdade?
Não tenho marido nenhum
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar o advogado
E olha, Charley, devo sair com a condicional
No dia dos namorados.


-- Tom Waits

27.9.03

As coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.


-- Jorge Luis Borges

26.9.03

Dicionário do diabo


J/ K/ L


Julgamento -- inquérito formal criado para provar e registrar a inocência de juízes, advogados e jurados.

Justiça -- uma decisão a nosso favor.

Kilt -- saiote que os escoceses usam na América e os americanos usam na Escócia.

Ladrão -- político.

Legado -- presente de alguém que está deixando este vale de lágrimas.

Lexicógrafo -- sujeito pernicioso que, com a justificativa de estar registrando determinado estágio do desenvolvimento de uma língua, faz o possível para interromper o seu crescimento, emperrar a sua flexibilidade e mecanizar os seus métodos.

Liberdade -- um dos bens mais preciosos da imaginação.

Lícito -- compatível com a vontade do juiz.

Língua -- órgão sexual que alguns degenerados usam para falar.

Linguagem -- música com a qual encantamos as serpentes que guardam o tesouro alheio.

Litigante -- pessoa que abre mão da própria pele na esperança de conservar os ossos.

Litígio -- máquina na qual entramos como porco e saímos como salsicha.

Lógica -- arte de pensar e deduzir rigorosamente de acordo com os limites e incapacidades do entendimento humano.

Longevidade -- medo da morte de duração incomum.

Loquacidade -- distúrbio que acomete um indivíduo tornando-o incapaz de refrear a própria língua sempre que nós queremos falar.

Lord -- na sociedade americana, diz-se de todo turista inglês com status superior a um verdureiro. Já os ingleses de nível inferior são chamados de "Sir".

Louco -- pessoa dotada de um alto grau de independência intelectual.

Luminar -- diz-se daquele que lança luz sobre algum tema sobre o qual um editor não quis escrever.


-- Ambrose Bierce

22.9.03

pensamentos de segunda


das pessoas que me detestam cordialmente
só aceito pagamentos à vista
embora elas não saibam
há indisponibilidade total de estoque
conceitos são pensamentos mortos
com que vou pastichando uns
poeminhas de ambulatório
você faz poesia prèt-à-porter
e diz que é generativo
se vende por um pedaço de broa
e me repassa as despesas postais
sei que nossa mizade não tem preço
mas, pense bem, não ia dar mesmo certo.

Aramaico


Amar é arte:
Equilibrar-se
no arame arcaico.


-- Letteri café

19.9.03



saber é pouco 

como é que a água do mar

entra no coco?





Leminski

18.9.03

A vida chata de Duarte

A vida de Duarte é tão chata que ninguém, nem mesmo
sua namorada, se ele tivesse uma, lhe chama pelo
primeiro nome. Não fosse sua identidade, onde está
escrito seu primeiro nome, e até mesmo Duarte
esqueceria seu próprio nome.
Duarte é dono de uma fábrica de sabão.
Como todos nós sabemos, sabão é feito de gordura.
Independente da fórmula, tudo dá na mesma.
Como chamar o Duarte de sabão, por exemplo.
Na cidade onde Duarte tem a fábrica todos o chamam de
Sabão. Sabão não tem tempo pra ficar se importando
com essas futricas. Mais importante é deixar a cidade
limpa. De preferência com o Sabão Duarte. Que é feito
de gordura. Independente da fórmula, todos somos iguais.
Apesar do Duarte, que é feito de sabão.


A vida chata de Juarez

Juarez tem muitos cedês de rap. Public Enemy, o cacete.
Juarez tem um devedê pirata de um show dos Racionais.
Juarez tem um amigo na polícia. E outro na Cruzeiro.
Ele é um cara bem relacionado pacas.
Tem um Land Rover e pratica trekking nos Aparados.
A namorada de Juarez posou no ClicRBS.
Juarez gosta de comida tailandesa.
Até mesmo vai passar uma temporada em Três Coroas.
Juarez é um cara demais. É zen. Foderoso.
Até mesmo o tiro que ele levou ontem à
noite na Bonja foi demais. Foi do caralho.
Negro é o teu cu, berrava Nêgo Junta com a doze na mão.
Juarez acordou morto com a bunda de fora na RS de Taquara.


A vida chata de Jaime

Jaime estuda letras. Jaime é muito inteligente.
Ele já leu mais de duas vezes Ulisses.
Jaime quer criar uma língua.
Ele estuda semântica e se masturba com um
discurso em inglês do Noam Chomsky.
Jaime tem uma namorada.
O nome dela é Janete.
Janete gosta de chupar o pau de Jaime.
Jaime gosta de ver Janete chupando seu pau.
Depois de se chuparem, Jaime deita, afaga os
cabelos de Janete e pensa.
O que Joyce pensaria numa hora dessas?
E dorme depois de limpar o pau na
lista telefônica de 1998.


A vida chata de Janice

Janice está grávida. Por estar grávida, ganhou o direito de ficar
quatro meses em casa. Os direitos do trabalhador devem ser
honrados, disse o deputado federal eleito pelo Amapá.
Janice mora em Macapá. Não existe muita coisa para uma grávida
fazer em Macapá. Assim como não existe muita coisa para
uma grávida fazer em lugar algum.
Janice faz bordados. Uma meia azul, outra rosa.
O médico do posto disse que podem ser gêmeos.
Se forem gêmeos, que seja um casal, pensou Janice.
Os médicos de posto nunca erram.
Janice mora com a família da irmã mais velha.
Sua irmã cozinha muito bem. Muito bem mesmo.
Janice adora os pratos de peixe que sua irmã faz.
A irmã de Janice é descendente de índios.
Alguns deles foram mortos por brancos fazendeiros.
Janice foi estuprada por um branco fazendeiro.
Ela vai morrer no parto.
Os direitos trabalhistas, não.


A vida chata de Pedro

Pedro está em casa. Pedro sempre está em casa. Pedro
não sai de seu quarto. Sua mãe chega do trabalho e pergunta.
Pedro, sai desse quarto. Mas Pedro não sai.
O pai de Pedro mora em outra em casa.
Com outra família. Pedro tem outros irmãos.
Ele não conhece seus irmãos.
Ele não conversa com seu pai. O pai de Pedro é médico.
Sua mãe é professora de história. Pedro fuma maconha.
Assiste os Simpsons. Se masturba. Não com os Simpsons,
mas com o vídeo da Christina Aguillera.
Pedro não troca as cuecas. Toma banho quando quer.
As aulas da faculdade ainda não começaram.
A mãe de Pedro fala de novo.
Filho, lá fora tem sol. Aproveita a vida.
Ele não aproveita a vida. Pedro tem um blogue.


-- Vidas Chatas

17.9.03

Swing literário com o poeta Carlos Saraiva


fuga

papel e tinta
sopro e flautim
tudo que houver
aja por dentro
de mim


-- Carlos Saraiva

Meu medo se interessa por qualquer ruído.
Hoje quero alguém para conversar enquanto dirijo,
baixar os faróis em estrada litorânea,
enxergar pelas mãos.


-- Fabrício Carpinejar

16.9.03

(O adeus de) Teresa


A primeira vez que eu vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna.

Quando vi Teresa de novo
Achei os olhos mais velhos do que
o resto do corpo.
(Os olhos nasceram e ficaram um
ano esperando que o resto do
corpo nascesse).

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se
mover sobre a face das águas.


-- Manuel Bandeira, em brincadeira poética com os versos de "O Adeus de Teresa", poema de Castro Alves. A intenção era fazer uma "tradução para o moderno", 1925.

15.9.03

Das vantagens de ser burra feito uma porta


Ah, são incontáveis. Tentarei mencionar aqui as que julgo mais pertinentes, para que vossas senhorias e vossos senhorios possam entender este meu desejo deveras compreensível de, um dia, quiçá com o poder de minha descomunal força pensamentícia e um empurrãozinho da Marlene Mattos (já me preparo psicologicamente para o sacrifício de me sujeitar à sanha da cara-de-joelho), vir a me tornar a Xuxa.

Primeiramente, a burrice, via de regra, sempre vem acompanhada da ignorância. Poucos são os burros com interesse no saber, na informação (o leitorzinho me dirá que conhece infindáveis; eu concordaria, se não estivesse falando de uma burrice do tipo pai d'égua). E nada é capaz de gerar mais neurose, angústia, paranóia, ansiedade e hipocondria do que o excesso de informação. Um bom exemplo é o consumo desenfreado de detalhes compositórios alimentares. Há não muito tempo, quando a alguém era oferecido algo que não conhecia, digamos, salmão, este alguém perguntava: "É gostoso?" Hoje, ao comedor vem a lembrança de um artigo em um destes inúmeros cadernos sobre saúde, digo, doença, presentes em qualquer jornal, e o comentário, "Ah, tem ácidos graxos ômega três que combatem os radicais livres e retardam o envelhecimento, e também é bom contra o câncer. Vou comer". Vai achar uma merda, mas comerá assim mesmo, em nome da "boa saúde". E quando se comia uma costeleta de porco frita, pensava-se (e até se dizia), "Hmmm, que delícia!". Hoje, quando olhamos uma costeleta de porco, vemos um infarto agudo do miocárdio resultante de uma artéria entupida de colesterol. Um bufê de comida mineira assemelha-se a um compêndio ilustrado de patologia forense. Um burro, e ignorante, continuará dizendo, entre uma dentada e outra, "Hmmmm, que delícia!", sem o menor pudor. E provavelmente o burro morrerá senil aos 98 anos. Vê-se, pois, que o que apressa a morte não é o colesterol, mas o fato de se saber que ele está ali, qual abutre rondando a potencial carniça cardíaca. O que apressa a morte é a informação.

Segundamente, um burro dificilmente tem grandes responsabilidades. Se trabalha em uma empresa, jamais chegará a chefe (estou falando de burros honestos; até porque, é preciso alguma inteligência a um desonesto próspero). Está livre, pois, de um sem-número de preocupações estressantes. Ninguém pedirá a um burro que procure resolver um problema insolúvel; aos inteligentes, exigem-se verdadeiros milagres. O inteligente morrerá de infarto por estresse aos quarenta anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é o estresse.

Terceiramente, um burro tem um círculo de amigos burros. Um inteligente, por força das contingências intelecto-pensamentais, terá um círculo de amigos inteligentes. E em geral com alguma cultura, um ou outro com bastante cultura. O inteligente, então, devorará autores ilíveis segundo qualquer critério apenas para acompanhar o passo de seus amigos. Verá filmes invíveis, assistirá a peças de teatro inassistíveis, ouvirá músicas inouvíveis. Tudo em nome da "cultura", esta praga devoradora que a classe média a-do-ra pensar que tem. E o que é pior, terá de fazer um comentário inteligente e profundo a respeito de toda a tranqueira inútil que consome. O burro, sem outra preocupação a não ser a tabela do Brasileirão e o preço do cimento, manterá a cabeça fresquinha e ventilada, sem as obstruções sinápticas resultantes do vigoroso tráfego neuronal, e sem o intenso fluxo sangüíneo exigido por um encéfalo trabalhólatra. O inteligente terá um derrame aos sessenta anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a cultura.

Quartamente, um burro não se enche de culpa à toa. Pode se sentir culpado sim, por um crime terrível, por exemplo, ou por ter efetivamente magoado alguém, digamos, quando chama a namorada de "rolha-de-poço com cara de paca" e ela chora. Mas sempre por bons motivos, como podem ver. O inteligente sente-se culpado por tudo; um efeito colateral do excesso de reflexão e raciocínio, somados à informação. Freud sempre estará presente, acossando-o com o espectro da mãe que, segundo consta, ele quis comer e não comeu (se comeu, é hoje esquizofrênico e sociopata). Sentirá culpa por qualquer prazer que tenha na vida, comer, beber, fumar, cheirar, dormir, foder. Tudo. Um burro fará tudo isso e mais um pouco e ficará feliz como pinto no lixo. O inteligente, sempre bem informado, se martirizará a cada vez que gastar uma pequena fortuna em supérfluos, lembrando dos milhões que passam fome no mundo. O burro, se tiver a carteira recheada, comprará as maiores birutices que jamais vai usar só pelo prazer de comprar. O inteligente morrerá de câncer aos 58 anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a culpa.

Quintamente, o inteligente tem angústias existenciais. Passa a vida chafurdando em porquês, o porquê da vida, o porquê da morte, por que a Xuxa, tão tacanha, é podre de rica e eu não. Devora filósofos cujo hermetismo faria o próprio Hermes quicar de vergonha. Por força do hábito de raciocinar e em busca de respostas, sai ligando A com B, B com C, liga todo o alfabeto ocidental e não chega a lugar nenhum. Desespera-se. O burro entrega tudo nas mãos de uma divindade qualquer e passa a vida cagando e andando, quase literalmente. O inteligente cortará os pulsos aos 43 anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a metafísica.

Estamos esclarecidos?

Eu quero ser a Xuxa!


-- All About Eve