17.9.03

Meu medo se interessa por qualquer ruído.
Hoje quero alguém para conversar enquanto dirijo,
baixar os faróis em estrada litorânea,
enxergar pelas mãos.


-- Fabrício Carpinejar

16.9.03

(O adeus de) Teresa


A primeira vez que eu vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna.

Quando vi Teresa de novo
Achei os olhos mais velhos do que
o resto do corpo.
(Os olhos nasceram e ficaram um
ano esperando que o resto do
corpo nascesse).

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se
mover sobre a face das águas.


-- Manuel Bandeira, em brincadeira poética com os versos de "O Adeus de Teresa", poema de Castro Alves. A intenção era fazer uma "tradução para o moderno", 1925.

15.9.03

Das vantagens de ser burra feito uma porta


Ah, são incontáveis. Tentarei mencionar aqui as que julgo mais pertinentes, para que vossas senhorias e vossos senhorios possam entender este meu desejo deveras compreensível de, um dia, quiçá com o poder de minha descomunal força pensamentícia e um empurrãozinho da Marlene Mattos (já me preparo psicologicamente para o sacrifício de me sujeitar à sanha da cara-de-joelho), vir a me tornar a Xuxa.

Primeiramente, a burrice, via de regra, sempre vem acompanhada da ignorância. Poucos são os burros com interesse no saber, na informação (o leitorzinho me dirá que conhece infindáveis; eu concordaria, se não estivesse falando de uma burrice do tipo pai d'égua). E nada é capaz de gerar mais neurose, angústia, paranóia, ansiedade e hipocondria do que o excesso de informação. Um bom exemplo é o consumo desenfreado de detalhes compositórios alimentares. Há não muito tempo, quando a alguém era oferecido algo que não conhecia, digamos, salmão, este alguém perguntava: "É gostoso?" Hoje, ao comedor vem a lembrança de um artigo em um destes inúmeros cadernos sobre saúde, digo, doença, presentes em qualquer jornal, e o comentário, "Ah, tem ácidos graxos ômega três que combatem os radicais livres e retardam o envelhecimento, e também é bom contra o câncer. Vou comer". Vai achar uma merda, mas comerá assim mesmo, em nome da "boa saúde". E quando se comia uma costeleta de porco frita, pensava-se (e até se dizia), "Hmmm, que delícia!". Hoje, quando olhamos uma costeleta de porco, vemos um infarto agudo do miocárdio resultante de uma artéria entupida de colesterol. Um bufê de comida mineira assemelha-se a um compêndio ilustrado de patologia forense. Um burro, e ignorante, continuará dizendo, entre uma dentada e outra, "Hmmmm, que delícia!", sem o menor pudor. E provavelmente o burro morrerá senil aos 98 anos. Vê-se, pois, que o que apressa a morte não é o colesterol, mas o fato de se saber que ele está ali, qual abutre rondando a potencial carniça cardíaca. O que apressa a morte é a informação.

Segundamente, um burro dificilmente tem grandes responsabilidades. Se trabalha em uma empresa, jamais chegará a chefe (estou falando de burros honestos; até porque, é preciso alguma inteligência a um desonesto próspero). Está livre, pois, de um sem-número de preocupações estressantes. Ninguém pedirá a um burro que procure resolver um problema insolúvel; aos inteligentes, exigem-se verdadeiros milagres. O inteligente morrerá de infarto por estresse aos quarenta anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é o estresse.

Terceiramente, um burro tem um círculo de amigos burros. Um inteligente, por força das contingências intelecto-pensamentais, terá um círculo de amigos inteligentes. E em geral com alguma cultura, um ou outro com bastante cultura. O inteligente, então, devorará autores ilíveis segundo qualquer critério apenas para acompanhar o passo de seus amigos. Verá filmes invíveis, assistirá a peças de teatro inassistíveis, ouvirá músicas inouvíveis. Tudo em nome da "cultura", esta praga devoradora que a classe média a-do-ra pensar que tem. E o que é pior, terá de fazer um comentário inteligente e profundo a respeito de toda a tranqueira inútil que consome. O burro, sem outra preocupação a não ser a tabela do Brasileirão e o preço do cimento, manterá a cabeça fresquinha e ventilada, sem as obstruções sinápticas resultantes do vigoroso tráfego neuronal, e sem o intenso fluxo sangüíneo exigido por um encéfalo trabalhólatra. O inteligente terá um derrame aos sessenta anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a cultura.

Quartamente, um burro não se enche de culpa à toa. Pode se sentir culpado sim, por um crime terrível, por exemplo, ou por ter efetivamente magoado alguém, digamos, quando chama a namorada de "rolha-de-poço com cara de paca" e ela chora. Mas sempre por bons motivos, como podem ver. O inteligente sente-se culpado por tudo; um efeito colateral do excesso de reflexão e raciocínio, somados à informação. Freud sempre estará presente, acossando-o com o espectro da mãe que, segundo consta, ele quis comer e não comeu (se comeu, é hoje esquizofrênico e sociopata). Sentirá culpa por qualquer prazer que tenha na vida, comer, beber, fumar, cheirar, dormir, foder. Tudo. Um burro fará tudo isso e mais um pouco e ficará feliz como pinto no lixo. O inteligente, sempre bem informado, se martirizará a cada vez que gastar uma pequena fortuna em supérfluos, lembrando dos milhões que passam fome no mundo. O burro, se tiver a carteira recheada, comprará as maiores birutices que jamais vai usar só pelo prazer de comprar. O inteligente morrerá de câncer aos 58 anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a culpa.

Quintamente, o inteligente tem angústias existenciais. Passa a vida chafurdando em porquês, o porquê da vida, o porquê da morte, por que a Xuxa, tão tacanha, é podre de rica e eu não. Devora filósofos cujo hermetismo faria o próprio Hermes quicar de vergonha. Por força do hábito de raciocinar e em busca de respostas, sai ligando A com B, B com C, liga todo o alfabeto ocidental e não chega a lugar nenhum. Desespera-se. O burro entrega tudo nas mãos de uma divindade qualquer e passa a vida cagando e andando, quase literalmente. O inteligente cortará os pulsos aos 43 anos; o burro morrerá senil aos 98. Vê-se, pois, que o que apressa a morte é a metafísica.

Estamos esclarecidos?

Eu quero ser a Xuxa!


-- All About Eve

13.9.03

Frío de soledad


Miro entre las sombras
y no se que estoy buscando,
mi cuerpo se tensa a cada paso,
se enfría a cada instante.
Toco ahora el frío piso,
cual hielo es ahora el mármol
como una lápida donde se arrastra mi ser,
un tenue carmesí cubre su blanca forma,
mientras me arrastro sobre él...
Todavía cálido, fuera de su dueña,
ese río carmesí es parte de mi dolor,
es el resultado de mi soledad y
el producto de mi pasión y tristeza,
ahora corre de mis venas al mármol
dejando vacío este cuerpo triste
que ruega por un dolor menos intenso,
que pide a gritos una leve caricia de la muerte misma...
Así como la rosa marchita en mi mano,
como la sangre que se seca sobre el frío mármol...
mi existencia se apaga, se enfría
mientras se arrastra y se pierde entre las sombras.


-- Mentes Torcidas


12.9.03

Giórgios Makrópoulos

quartos de solteiro


Quando você aluga quartos no andar de baixo da sua casa, isso quer dizer que é domador de pássaros ou se tornou oleiro. Porque, o mais das vezes, existe um mistério no caso. Em certos momentos do dia -- precisamente os mesmos -- você ouve ruídos muito discretos de arrastar de pratos ou xícaras, ou um indefinido tic-tac de prego na parede. A armadilha, porém, não está aí. Deixe que o inquilino lhe devolva a chave e se mude, para então você descer ao andar de baixo com um olho bem alerta, disposto a resolver o mistério. Aí é que está a armadilha. Será mister você ter servido no exército como apanhador de torpedos para poder levar adiante o trabalho, agora. Porque os inquilinos costumam largar pelo chão camisas velhas, uma cédula de identidade plastificada, alguma fotografia antiga, tirada ao lado de uma estátua ou em companhia dos pais diante de um transatlântico, no balneário de Kaiáfa, ou então cartas não postadas contendo frases do tipo "Quando eu era criança, queria ser músico. Hoje sou empregado de escritório", "Não precisa me esperar no porto". Sem suspeitar de nada, você as apanha com a natural sofreguidão dos solitários. A bomba portátil explode, você sofre apenas ferimentos leves, mas eis que surgem ambulâncias de sirenes abertas, anjos de avental branco e expressão severa te carregam de maca. Você lhes grita que não é nada disso que estão pensando. Eles são surdos. Começa a juntar gente. Metem você na ambulância, que parte incontinenti. Você sempre gritando, eles sempre surdos. O espetáculo termina, o ajuntamento se dissolve, e você lá dentro da ambulância. Sempre gritando. Cuida agora de acertar as coisas com os carniceiros. De lhes falar de quartos de solteiro, enquanto eles correm agitados pela enfermaria perguntando a você acerca do infortunado boletim e do histórico da amputação. Sempre a correr, eles, e você a falar a surdos-mudos.

Eu alugo quartos. Sou um cidadão tranqüilo, escrevia poemas e não incomodava ninguém. Pois quem foi que me amputou a mão?


-- Em "Pirotécnicos", 1979.

11.9.03

De súbito, um quarto com sua lâmpada surgiu diante de mim, quase palpável em mim. Nele eu já era canto, mas os postigos me perceberam e tornaram a fechar-se.


-- Rilke, fragmento de "Ma vie sans moi", trad. francesa.

família


rotina de quatro portas
brincadeira a sangue-frio
onde frito luas convulsivas
coloridas pela Disney

10.9.03

Federico Garcia Lorca

dois marinheiros à margem




Trouxe no seu coração
um peixe do Mar da China.

Que às vezes se vê cruzar
diminuto por seus olhos.

Esquece sendo marítimo
os bares e as laranjas.

Olha a água.




Tinha a língua de sabão.
Lavou suas palavras e calou-se.

Mundo plano, mar riçado,
cem estrelas e seu barco.

Do Papa viu os balcões
e os peitos dourados das cubanas.

Olha a água.


8.9.03

Dicionário do diabo


I


Idiota -- membro de uma grande e poderosa tribo de preponderante influência nos assuntos humanos. A atividade do idiota não se restringe a uma área específica do pensamento ou da ação, ela está em tudo. O idiota detém a última palavra em tudo, sua decisão é inapelável. Ele dita as modas, os gostos, as opiniões e estabelece os limites do discurso e do comportamento.

Ignorante -- pessoa que desconhece coisas que já sabemos e que sabe de outras que desconhecemos.

Imbecilidade -- espécie de inspiração divina que acomete os críticos severos deste dicionário.

Imigrante -- pessoa não esclarecida que acha que um país é melhor do que outro.

Imodesto -- pessoa dotada de forte concepção de seus próprios méritos e de uma frágil noção do valor dos outros.

Imoral -- inconveniente. Tudo aquilo que o ser humano acha inconveniente a determinados propósitos é rotulado de errado, doentio e imoral.

Impaciência -- esperar com pressa.

Imparcial -- incapaz de perceber uma vantagem pessoal na adoção de um dos lados de uma controvérsia ou de adotar uma de duas opiniões conflitantes.

Impiedade -- a sua irreverência à minha divindade.

Imposição -- ato de abençoar ou consagrar por meio da colocação das mãos. Cerimônia comum em muitos sistemas eclesiásticos, porém realizada com mais sinceridade por uma seita conhecida como os Ladrões.

Imposto -- preço que pagamos para poder criticar o governo.

Impostor -- aspirante rival às honras públicas.

Improvidência -- prover as necessidades de hoje com os rendimentos de amanhã.

Imprudente -- insensível ao valor de nossos conselhos.

Impunidade -- riqueza.

Incompatibilidade -- no casamento, diz-se da semelhança de desejos, particularmente o desejo de mandar.

Incorruptível -- diz-se daquele que cobra um preço alto demais.

Influência -- na política, um visionário quo que é dado em troca de um substancial quid.

Intelectual -- indivíduo capaz de pensar por mais de duas horas em algo que não seja sexo.

Intérprete -- alguém que possibilita que dois indivíduos de línguas diferentes se comuniquem mediante a repetição a cada um daquilo que o intérprete julga conveniente que seja dito de um para o outro.

Intimidade -- relação para a qual dois idiotas são arrastados para se autodestruírem.

Inventor -- sujeito que cria uma combinação de rodas, alavancas e molas e chama a isso de civilização.


-- Ambrose Bierce

5.9.03

blogs de amigos
blogs de humor
blogs de crianças
blogs de desempregados
blogs de donas-de-casa
blogs de ninguém
blogs de jornalistas
blogs de jornalistas famosos
blogs de amigos de jornalistas famosos
blogs de alguém
blogs de cantores
blogs de esquerda
blogs de direita
blogs de amigos de esquerda da direita
blogs de escritores
blogs de poetas
blogs de worst-sellers
blogs de inéditos
blogs esotéricos
blogs intimistas
blogs-trampolim
blogs céticos
blogs de utilidade pública
blogs de hackers
blogs-agenda
blogs homofóbicos
blogs de blogs
blogs bichas
blogs copy&paste
blogs lésbicos
blogs quero-ser-famoso
blogs solitários
blogs de blogs
blogs pra pegar
blogs pra ler
blogs pra dormir
blogs pra esquecer

Câmara fria



Coloquei nos três cuzinhos
exatamente três bilhetinhos
todos perfeitamente iguais
igualmente apertadinhos
(ele haveria de achá-los
na hora do exame)

Um dia o tempo passou
e dos bilhetes não vi  resposta
mudei de plantão, mudei de amores
certo está que inda sou curiosa
do fim que levaram tão graciosos cuzinhos
pombos-correios prestimosos
de meus infames bilhetinhos



4.9.03

Emil Staiger


Ao poeta lírico, propriamente, não importa se um leitor também vibra, se ele discute a verdade de um estado lírico. O poeta lírico é solitário, não se interessa pelo público; cria para si mesmo. Porém tal afirmação exige esclarecimentos. Composições líricas também são publicadas. A colheita de anos e anos é reunida e entregue a um público. Correto. Mas já aqui, num volume de poesias, "o balbucio apaixonado em linguagem escrita apresenta-se deveras estranho", como disse Goethe. E colecionar folhas soltas não parece apenas a Goethe um contra-senso. Quando o livro está pronto, o que é que o povo faz com ele? Pode-se declamar poesias líricas, mas apenas como também se pode ler um drama teatral. Recitado, um poema lírico não pode ser apreciado como merece. Um declamador a recitar, diante de uma sala cheia, poesias exclusivamente líricas transmite quase sempre uma impressão penosa. Mais plausível é um recital para um círculo pequeno, para pessoas a cuja sensibilidade possamos abandonar-nos. Mas um trecho lírico só desabrocha inteiramente na quietude de uma vida solitária. E mesmo este desabrochar não é sorte que seja dada todos os dias ao leitor. Folheamos uma coletânea de canções. Nada nos comove. Os versos nos soam vazios e surpreendemo-nos com o poeta vaidoso que se deu ao trabalho de escrever tais coisas, catalogá-las e entregá-las a seus contemporâneos e à posteridade. Subitamente, porém, numa hora especial, uma estrofe ou toda uma poesia comove-nos. A esta juntam-se outras, e chegamos quase a reconhecer que é um grande poeta que nos fala. É o efeito de uma arte que nem nos retém como a épica, nem excita e causa tensão, como a dramática. O lírico nos é incutido. Para a insinuação ser eficaz o leitor precisa estar indefeso, receptivo. Isso acontece quando sua alma está afinada com a do autor. Portanto, a poesia lírica manifesta-se como arte da solidão, que em estado puro é receptada apenas por pessoas que interiorizam essa solidão.


-- Em "Conceitos Fundamentais da Poética".

Os melhores poemas entre 2 copos de vinho!


Da minha janela à tua
vai uma pouca de destância
vê lá se escorregas
numa casca de melãncia


-- Poesia?

3.9.03

Pequenas sugestões e receitas de espanto-antitédio para senhores e donas de casa
(fragmento)



Compre uma galinha daquelas lindas, vermelhas, gordotas, que esqueci o nome. Ensine o seu filhinho (só até 8 anos, porque senão vira "Farra da Galinha") a segurá-la (a galinha) abaixo das axilas, perdão, quero dizer das asas e naturalmente de costas para o seu rapazinho. Amarre o bico (da galinha, evidente) com um pequeno elástico colorido (para não fazer má impressão ao seu menino, a não ser que ele tenha tendências sádicas e aí, por favor não compre a galinha) para que a galinha não se vire subitamente e bique o piupiu do seu menino. (Isso não vai acontecer, madame, é apenas excesso de zelo do autor.) Ensine ao seu menino onde é o fiufiu da própria e deixe-os sozinhos na hora do recreio. Os dois vão adorar. Depois compre várias galinhas para que sua criança tenha opção de escolha. Instigue-o a convidar os amiguinhos da vizinhança. Para que as galinhas também tenham opção de escolha. Credo! Como é difícil o texto didático.


-- Hilda Hilst, em "Contos D'Escárnio".

2.9.03

Piu?


piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu
piu piu piu piu piu piu

30.8.03

O mundo tá cheio de livros, pra quê mais um?


-- Décio Pignatari

Alguma entrevista: Paulo Leminski


E o boom literário, o que há de bom no boom?

PL: O boom literário brasileiro é um fenômeno, até agora, quantitativo. Há milhares de brasileiros escrevendo contos e poemas, editando revistas regionais, suplementos literários e até mesmo livros.
Mas nada de novo. Todos estão indo no caminho da velha literatura.
O boom é um subproduto da elevação dos índices de alfabetização e universitarização que o Brasil vem conhecendo. É natural que gente que aprende a escrever comece a escrever. E entre pela porta da subliteratura. O boom tinha que ser de pensamento. O brasileiro tinha que começar a aprender a pensar. Em vez disso, ele se põe a escrever. Uma salva de palmas para a literatura.

-- íntegra publicada no jornal "GAM", Rio, 1976.



um dia a gente ia ser homero
a obra nada menos do que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


-- Paulo Leminski

29.8.03

Era um quarto realmente agradável. Daqueles em que se contam muitas histórias. Arejado, limpo, espaçoso -- como parte do mundo que era, escolhi-o entre tantos outros que havia no hospital. ( Tive muita sorte em poder escolher.) Pensei que, ao se aposentar, bastariam a qualquer um este quarto e um piano, a felicidade poderia ficar para depois. Para mim a felicidade morava sempre na sala, eu poderia dar nela a qualquer momento. Mas ali, eu só contava com um quarto, a cordialidade de uns poucos amigos e umas idéias que me faziam lembrar de mamãe. Ao pensar nela, associei a papai, como dois pratinhos sujos aguardando na pia enquanto me ocupo em lavar os copos. Emagreço um pouco a cada dia, mas sinto-me forte ainda, o que significa um belo final de manhã. Ouço dizer que estou doente, embora não exatamente. E assim a doença permanece ininteligível. Pouco converso com as enfermeiras, sinto-me aliviada quando esquecem do meu nome ao trocarem os lençóis de tempos em tempos. De qualquer maneira, o esquecimento é uma virtude em ambientes de hospital. O fim da vida sempre chega para o paciente do 201, não para você. O que nos dá outra oportunidade. O relógio passa a assinalar as horas provisoriamente, compondo seus dias provisórios em que eu ia morrendo com facilidade. E assim morrer me pareceu mais fácil do que mudar de opinião. Morrer é fácil, ainda que imperfeito. Viver é interessante, ainda que limitado. A diferença está na espessura da linha que une uma coisa à outra. E um pouco de imaginação e menos aritmética. Gostaria de parecer espirituosa agora, vou precisar disso, sem ironia. Sei que já não consigo mover os olhos, só o olhar. Sinto-me calma e auto-sugestiva. Não penso no passado ou no presente. Meu corpo me aborrece às vezes porque existe, mas não sinto cansaço físico. É uma obra-prima saber esperar quando o espírito passa a ter pressa. E uma pressa que desconheço pois tampouco conheço o espírito. Ouço passos no 202, mas o ruído se decompõe gradualmente. Minhas sensações se espreguiçam e começo a amolecer. Dentro de poucas horas meu organismo fará uma pausa, não tenho por que me preocupar. Estou tão bem quanto antes. As luzes parecem estar se apagando ou foi a manhã que deu por encerrado o seu ofício? Estou cada vez mais certa de que aguardo um futuro e coloco nele toda a minha impetuosidade. Não retornarei a nada que não pertença a este momento. E é sem me despedir dele que atravesso o silêncio que finalmente toma conta de tudo.


27.8.03

Nancy Morejón


la cena


ha llegado el tío Juan con su sombrero opaco
sentándose y contando los golpes
que el mar y los pesados sacos han propagado
por su cuerpo robusto

yo entro de nuevo a la familia
dando las buenas tardes
y claveteando sobre cualquier objeto viejo

sigo sin mirar fijamente
tomando el animal entre mis manos
distraída
pidiendo con urgencia los ojos de mi madre
como el agua de todos los días

papá llega más tarde
con sus brazos oscuros y sus manos callosas
enjuagando el sudor en la camisa simple
que amenaza dulzona con destrozar mis hombros
ahí está el padre
acurrucado casi
para que yo encontrara vida
y pudiera existir allí donde no estuvo
me detengo ante la gran puerta
y pienso
en la guerra que podría estallar súbitamente
pero veo a un hombre que construye
otro que pasa cuaderno bajo el brazo

y nadie
y nadie podrá con todo esto

ahora
vamos todos temblorosos y amables
a la mesa
nos miramos más tarde
permanecemos en silencio
reconocemos que un intrépido astro
desprende
de las servilletas las tazas de los cucharones
del olor a cebolla
de todo ese mirar atento y triste de mi madre
que rompe el pan inaugurando la noche



-- Em " Richard trajo su flauta y otros argumentos".

...Então me pus a pensar nos seus escritos, nas suas reflexões relevantes e translações diárias em torno de seu próprio eixo. Cheguei à conclusão de que é este o tipo de coisa que distingue o gênio do simples transeunte popular: a capacidade de usar o maior número de símbolos possível sem que qualquer coerência seja respeitada e tornando (brilhantemente) a comunicação em todas as frases do texto algo equivalente a 0 (zero).

Você é bom nisso. Logo, devia entrar pro Sindicato dos Notáveis e dedicar o resto da sua vida sendo um ermitão. Pois saiba que eu sempre quis ser uma ermitã, sempre, mas nunca contei pra ninguém. Passar os dias fazendo rabiscos antiquíssimos na parede, pregando aos pássaros e aos peixes, morando em cima de uma coluna e mudando de década em década apenas para viver em outra mais alta. E trocar meu nome por uma série de símbolos gregos, para que ninguém mais possa me encontrar na Lista Telefônica (eles ligam. Eles sempre ligam. É terrível). Como você pode ver, a proposição "virar ermitã" (com H seria melhor) não consta na lista de impedimentos acima enumerados e ainda está em pauta. Contanto que eu tenha um microondas e meias de lã, claro.

Mas vou embora, no momento, pois você tem que se acostumar a se virar sozinho. Tem salsicha e frango cozido no congelador, não se esqueça de colocar as crianças pra dormir antes das 5. Estou deixando uma porção de parênteses na cômoda ))))))))))))))), para que você não tenha que se preocupar em fechá-los quando escreve. Os parentes (os seus) estão no armário. Descongele antes de fritar.


-- Damnzine


25.8.03

GIRASSÓIS

A realidade é que, ao contrário
do que dizem os poetas,
os girassóis viram costas ao sol
e nas planícies de Castela
organizam-se em batalhões,
clones de aspecto triste,
vencidos sob a luz implacável;
aos girassóis agrada a sombra,
protegem as sementes estéreis,
alheias a palavras e poemas.


-- A Oeste

Haikai amétrico


Conheço um japonês
grande inimigo
dos versos que escrevo
porque tem cada estrofe mais de três


-- Joan Alcover

22.8.03

Há mil definições de poesia. E algumas dezenas de teorias. Todas igualmente chatas, enfadonhas de criatividade lógica. Entre os poetas, Maiakovski quis que a poesia arrancasse os caixões das trevas para que caminhassem quadrúpedes de cedro. Emily Dickinson escreveu que a poesia era o mar que nunca viu. Manuel Bandeira queria libertar a palavra de suas mortalhas. Para Eliot o verso nunca é livre. Valéry achava que a poesia dança na mesma pista em que a prosa anda. E como ousar não falar de Pound? O garçom que enche meu copo agora pensa que poeta é o Zeca Pagodinho. Até os psicanalistas sabem definir poesia: uma bela réplica de um self grandioso-exibicionista. Eu fico quieta no meu canto e me lembro da melhor definição que ouvi de alguém que não tinha nada a ver com isso: a poesia deve ser sempre uma embarcação que naufraga ao entrar no porto.

Dicionário do Diabo


H


Habeas corpus -- ação judicial mediante a qual pode-se retirar da cadeia um homem preso pelo crime errado.

Hábito -- grilhões do homem livre.

Herói -- indivíduo que, diferente do resto, não pode sair correndo.

Hipócrita -- pessoa que professa virtudes que não acata com a vantagem de parecer ser o que despreza.

História -- relato quase sempre falso de acontecimentos quase sempre sem importância realizados por políticos quase sempre desonestos e soldados quase sempre idiotas.

Historiador -- fofoqueiro de amplo espectro.

Homem -- ser do sexo masculino que durante os primeiros nove meses de sua vida deseja ansiosamente sair do útero para passar o resto da vida querendo entrar nele de volta.

Homeopatia -- escola da medicina situada entre a alopatia e a ciência cristã. Em relação a essas duas últimas todas as outras escolas são nitidamente inferiores, uma vez que a ciência cristã pelo menos cura doenças imaginárias.

Honesto -- desajustado social.

Hospitalidade -- virtude que nos induz a alojar e alimentar determinadas pessoas que não precisam disso.

Humanidade -- a raça humana como um todo, com exceção dos poetas antropóides.

Humildade -- paciência inusitada para planejar uma vingança que valha a pena.


-- Ambrose Bierce

Eu vou fazer o que eu gosto
Atrás da curva do perigo existe
Alguma coisa bem mais nova e menos triste


-- Raul Seixas

21.8.03

Que brasileiro não tem uma vizinha gorda e cheia de varizes como uma viúva machadiana? Dirá alguém que a vizinhança forma um elenco abundante e diversificado. Não é bem assim. A vizinha autêntica e universal há de ser obesa. E mais: - é preciso que, na estação cálida, use um colar de brotoejas.
Eis o que eu queria dizer: - uma dessas minhas vizinhas patuscas é uma maníaca de velório. Todo o santo dia, lá vai ela para a capelinha de Real Grandeza, Catumbi ou São Francisco Xavier. E, como a capela possibilita a simultaneidade de velórios, ela passa de um para outro e pranteia os vários defuntos. Ao vê-la assoar-se no lencinho, perguntam: "A senhora é parente?" Não é nada. Não conhece o morto nem de vista, nem de nome, nem de cumprimento.
( E a santa senhora chora, de preferência, o desconhecido absoluto. Tem um inconfesso e irritado preconceito contra o cadáver de suas relações.) Um dia, cruzo com a vizinha machadiana. Dou-lhe um "bom-dia" e ia passar adiante. Ela, porém, crispa no meu braço a sua mão pequena e voraz de gorda. Diga-se de passagem que é a única senhora de minhas relações que preserva o uso inatual e nostálgico do leque.
Era um dia irrespirável. A canícula lavrava por toda a cidade. Ao mesmo tempo que falava comigo ela abanava, sim, refrescava as brotoejas do pescoço. Simplesmente, a vizinha queria dizer-me, com uma convicção forte: - "Não há mais enterros como o do barão do Rio Branco." Ela, que não saía dos cemitérios, falava de cadeira. Eu, grave, concordei. Ficamos um momento, em pé, na calçada. E a vizinha e eu parecíamos achar que, entre outras coisas, um grande enterro é quase uma atração turística, assim como o Pão de Açúcar ou Paquetá.


-- Nelson Rodrigues, em "A Feia Solidão", 1968.

20.8.03

Minima Moralia



já fiz de tudo com as palavras

agora eu quero fazer de nada


-- Haroldo de Campos, em "A Educação dos Cinco Sentidos".

18.8.03

Alejandra Pizarnik

No quiero ir más que hasta el fondo


Alguien entra en el silencio y me abandona
Ahora la soledad no está sola.
Tu hablas como la noche
Te anuncias como la sed.

- - - - - - - - - - - - - - - - -

de musica la lluvia
de silencio los años
que pasam una noche
mi cuerpo nunca más
podrá recordarse

- - - - - - - - - - - - - -

Anoche tomé agua hasta las tres de la madrugada. Estaba un poco ebria y lloraba. Me pedía agua a mí como si yo fuera mi madre. Yo me daba de beber con asco.

- - - - - - - - - - - - - -

Esta voz aferrada a las consonantes. Este cuidar de que ninguna letra quede sin enunciar. Hablas literalmente. No obstante, se te comprende mal. Es como si la perfecta precisión de tu lenguaje revelara en cada palabra un caos que se vuelve más evidente en la medida en que te esfuerzas por ser comprendida.

- - - - - - - - - - - - - - -

No eres tú la culpable de que tu poema hable de lo que no eres.


(fragmentos da poesia e dos diários de Alejandra Pizarnik. A frase-título estava em meio aos seus papéis ao ser encontrada morta após uma overdose de seconal.)


Isto não é bonito

Isto não é legível

Isto não é para
crianças

Isto não é linguagem
cifrada

Isto não dignifica o
povo

Isto é o lado de
dentro

da tua porta de fora,
isto

deves conhecer: a
tua mão

colada ao trinco...


-- Gerrit Kouwewaar, no Borras de Café.

Eu abro mão dos rompantes
pela inspiração constante
Não falo em hora marcada
Tão pouco em rima cronometrada
Só não quero longos dias inférteis
Cólicas de um estado quase-poético
Se esvaindo inacabado
Como placas de um endométrio

-- Eu e o Poeta

17.8.03

O sol bate na nuca de minha mãe e seus olhos me queimam de dentro do mar. Meu pai, com a cabeça deitada no barco, parece passar uma fita métrica no céu enquanto se pergunta aonde deixou as chaves do apartamento. Ao lado do baldinho, o vento sacode minha blusa e uma onda inesperada os desmancha na areia.

15.8.03

Joan Brossa


EL RECITAL

El poeta fa un recital acompanyat per un bateria.
En començar hi ha vint espectadors.
Després, deu.
Després, cinc.
Després, tres.
Després, un, que s'aixeca i diu:
-Vol fer el favor de callar, que no
em deixa sentir la música!

-

Poema do cristão

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos mais distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E, tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!


-- Jorge de Lima

14.8.03

Isaac Bábel

Infância. Em casa de vovó


Estude e você conseguirá tudo: riqueza e glória.
Tem que saber tudo.
Todos vão cair e rebaixar-se diante de você.
Todos devem invejar você.
Não acredite nas pessoas.
Não tenha amigos.
Não lhes dê dinheiro.
Não lhes entregue o coração.

-

13.8.03

Marquês de Sade


Meu amigo, a religião só impera no espírito dos que nada podem explicar sem ela: é o nec plus ultra da ignorância. Mas a nossos olhos de filósofos, a religião não passa de uma absurda fábula feita unicamente para o nosso desprezo. E que noções, efetivamente, fornece-nos essa religião sublime? Gostaria muito que mo explicassem... Quanto mais a examinamos, mais percebemos que suas quimeras teológicas só são apropriadas a nos embrulhar as idéias: metamorfoseando tudo em mistério, essa religião fantástica nos dá como causa do que não compreendemos alguma coisa que compreendemos menos ainda. Será explicar a natureza atribuir a causa dos fenômenos a agentes desconhecidos, a potências invisíveis, a causas imateriais? Pode o espírito humano se satisfazer quando se lhe diz para tomar como razão do que não entende a idéia mais incompreensível ainda de um Deus que jamais existiu? Pode a natureza divina, da qual nada concebemos, que repugna o bom senso e a razão, fazer conceber a natureza do homem que já achamos tão difícil de se explicar? Indagai a um cristão, quer dizer, a um imbecil, já que só um deles pode ser cristão, qual a origem do mundo: ele responderá que foi Deus quem criou o universo. Perguntai-lhe então o que é Deus: ele não sabe nada a respeito. O que é criar: ele não tem a menor idéia. Qual a causa das pestes, das fomes, das guerras, das secas, das inundações, dos terremotos: dirá que é por causa da cólera de Deus. Indagai-lhe como remediar tantos males: com preces, sacrifícios, procissões, oferendas e cerimônias, responderá. Mas por que o céu está em cólera? É que os homens são maus. Porque sua natureza é corrompida. Qual a causa dessa corrupção? O primeiro homem, seduzido pela primeira mulher, comeu uma maçã que seu Deus lhe proibira de tocar. Quem mandou essa mulher fazer tamanha asneira? O diabo. Mas quem criou o diabo? Foi Deus. Por que Deus criou o diabo, destinado a perverter o gênero humano? Ignora-se... é um mistério escondido no seio da Divindade, ela mesma um mistério. Quereis prosseguir? Perguntai a esse animal qual o princípio escondido das ações e dos movimentos do coração humano? A alma, responderá. E o que é alma? Um espírito. O que é espírito? Uma substância que não tem forma, cor, extensão ou parte. Como uma tal substância pode ser concebida? Como pode movimentar um corpo? Não se sabe, é mistério. Os animais possuem alma? Não. E por que os vemos agir, sentir, pensar absolutamente como os homens? Aí se cala, não sabe o que dizer; a razão disso é simples: se empresta uma alma aos homens, é pelo interesse de fazer disso o que quiser, mediante o poder que se atribui sobre ela; ao passo que não tem o mesmo interesse em relação à dos animais, e que um doutor em teologia seria bastante humilhado pela necessidade que teríamos de comparar sua alma à de um porco. Eis as soluções pueris que somos obrigados a conceber para explicar os problemas do mundo físico e moral! ... Jamais se deve arrancar a venda dos olhos do povo. É necessário que ele se estagne em seus preconceitos, isso é essencial. Onde estariam as vítimas de nossa perversidade se todos os homens fossem criminosos! ... Jamais deixemos de manter o povo sob o jugo do engano e da mentira; apoiemo-nos sem cessar no cetro dos tiranos; protejamos seus tronos: eles por sua vez protegerão a Igreja e o despotismo, fruto dessa união, e manteremos nossos direitos no mundo.

-- Marquês de Sade, séc. 18.

12.8.03

Dicionário do Diabo


G


Genealogia -- importância que um descendente dá ao seu ancestral que, por sua vez, nunca se preocupou muito com isso.

Gentileza -- breve prefácio a dez volumes de cobranças.

Gíria -- discurso do indivíduo dotado de memória auditiva que grunhe com a língua o que ele pensa com os ouvidos; em geral ele muito se orgulha como criador ao conseguir realizar o feito de um papagaio.

Glutão -- pessoa que previne os males da moderação com a prática da dispepsia.

Gnósticos -- seita de filósofos que tentou articular uma aliança entre os primeiros cristãos e os platônicos. A aliança fracassou por falta de representantes cristãos na bancada.

Gota -- nome que os médicos dão ao reumatismo de seus pacientes ricos.

Governo -- organização que sempre leva a culpa de tudo e cujos integrantes são os únicos trabalhadores com direito a decidir sobre o próprio salário.

Gravitação -- força de atração que todos os corpos exercem uns sobre os outros determinada pela quantidade de matéria que contêm; esta quantidade de matéria é determinada pela força da atração mútua exercida. Ilustração louvável e edificante de como a ciência usa A para provar B, e B para provar A.

Guilhotina -- instrumento responsável pelo curioso hábito de dar de ombros dos franceses. Não há registros desse hábito comum antes da Revolução Francesa.

-- Ambrose Bierce, 1911.

11.8.03

Kafka em "Cartas a Milena"



-- Esta manhã tornei a sonhar contigo. Estávamos sentados, juntos, e tu me afastavas, não com maus modos, porém amavelmente. Eu me sentia muito infeliz. Não porque me afastasses, porém por minha culpa, porque te tratava como a uma silenciosa qualquer, e não percebia a voz que falava em ti, que justamente me falava, a mim. Ou talvez não fosse que não a percebesse, porém que não pudesse responder. Mais desconsolado ainda do que no outro sonho, eu me ia.

Ocorre-me à memória algo que uma vez li em alguma parte, mais ou menos assim: "Minha amada é uma coluna de fogo que traslada pela terra. Agora me tem preso. Mas não conduz aqueles que prendeu, porém aos que a vêem."

Teu.

(Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.)


9.8.03

Copacabana


Onde nunca me foi tão desnecessariamente necessário
o anjo torto de Carlos
a sopa de água dos poetas
as cartas parabólicas
e o sol a queimar

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

-- Bernardo Soares, em "Livro do Desassossego". Retirado do Silêncio.