O mundo tá cheio de livros, pra quê mais um?
-- Décio Pignatari
30.8.03
Alguma entrevista: Paulo Leminski
E o boom literário, o que há de bom no boom?
PL: O boom literário brasileiro é um fenômeno, até agora, quantitativo. Há milhares de brasileiros escrevendo contos e poemas, editando revistas regionais, suplementos literários e até mesmo livros.
Mas nada de novo. Todos estão indo no caminho da velha literatura.
O boom é um subproduto da elevação dos índices de alfabetização e universitarização que o Brasil vem conhecendo. É natural que gente que aprende a escrever comece a escrever. E entre pela porta da subliteratura. O boom tinha que ser de pensamento. O brasileiro tinha que começar a aprender a pensar. Em vez disso, ele se põe a escrever. Uma salva de palmas para a literatura.
-- íntegra publicada no jornal "GAM", Rio, 1976.
E o boom literário, o que há de bom no boom?
PL: O boom literário brasileiro é um fenômeno, até agora, quantitativo. Há milhares de brasileiros escrevendo contos e poemas, editando revistas regionais, suplementos literários e até mesmo livros.
Mas nada de novo. Todos estão indo no caminho da velha literatura.
O boom é um subproduto da elevação dos índices de alfabetização e universitarização que o Brasil vem conhecendo. É natural que gente que aprende a escrever comece a escrever. E entre pela porta da subliteratura. O boom tinha que ser de pensamento. O brasileiro tinha que começar a aprender a pensar. Em vez disso, ele se põe a escrever. Uma salva de palmas para a literatura.
-- íntegra publicada no jornal "GAM", Rio, 1976.
um dia a gente ia ser homero
a obra nada menos do que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
-- Paulo Leminski
a obra nada menos do que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
-- Paulo Leminski
29.8.03
Era um quarto realmente agradável. Daqueles em que se contam muitas histórias. Arejado, limpo, espaçoso -- como parte do mundo que era, escolhi-o entre tantos outros que havia no hospital. ( Tive muita sorte em poder escolher.) Pensei que, ao se aposentar, bastariam a qualquer um este quarto e um piano, a felicidade poderia ficar para depois. Para mim a felicidade morava sempre na sala, eu poderia dar nela a qualquer momento. Mas ali, eu só contava com um quarto, a cordialidade de uns poucos amigos e umas idéias que me faziam lembrar de mamãe. Ao pensar nela, associei a papai, como dois pratinhos sujos aguardando na pia enquanto me ocupo em lavar os copos. Emagreço um pouco a cada dia, mas sinto-me forte ainda, o que significa um belo final de manhã. Ouço dizer que estou doente, embora não exatamente. E assim a doença permanece ininteligível. Pouco converso com as enfermeiras, sinto-me aliviada quando esquecem do meu nome ao trocarem os lençóis de tempos em tempos. De qualquer maneira, o esquecimento é uma virtude em ambientes de hospital. O fim da vida sempre chega para o paciente do 201, não para você. O que nos dá outra oportunidade. O relógio passa a assinalar as horas provisoriamente, compondo seus dias provisórios em que eu ia morrendo com facilidade. E assim morrer me pareceu mais fácil do que mudar de opinião. Morrer é fácil, ainda que imperfeito. Viver é interessante, ainda que limitado. A diferença está na espessura da linha que une uma coisa à outra. E um pouco de imaginação e menos aritmética. Gostaria de parecer espirituosa agora, vou precisar disso, sem ironia. Sei que já não consigo mover os olhos, só o olhar. Sinto-me calma e auto-sugestiva. Não penso no passado ou no presente. Meu corpo me aborrece às vezes porque existe, mas não sinto cansaço físico. É uma obra-prima saber esperar quando o espírito passa a ter pressa. E uma pressa que desconheço pois tampouco conheço o espírito. Ouço passos no 202, mas o ruído se decompõe gradualmente. Minhas sensações se espreguiçam e começo a amolecer. Dentro de poucas horas meu organismo fará uma pausa, não tenho por que me preocupar. Estou tão bem quanto antes. As luzes parecem estar se apagando ou foi a manhã que deu por encerrado o seu ofício? Estou cada vez mais certa de que aguardo um futuro e coloco nele toda a minha impetuosidade. Não retornarei a nada que não pertença a este momento. E é sem me despedir dele que atravesso o silêncio que finalmente toma conta de tudo.
27.8.03
Nancy Morejón
la cena
ha llegado el tío Juan con su sombrero opaco
sentándose y contando los golpes
que el mar y los pesados sacos han propagado
por su cuerpo robusto
yo entro de nuevo a la familia
dando las buenas tardes
y claveteando sobre cualquier objeto viejo
sigo sin mirar fijamente
tomando el animal entre mis manos
distraída
pidiendo con urgencia los ojos de mi madre
como el agua de todos los días
papá llega más tarde
con sus brazos oscuros y sus manos callosas
enjuagando el sudor en la camisa simple
que amenaza dulzona con destrozar mis hombros
ahí está el padre
acurrucado casi
para que yo encontrara vida
y pudiera existir allí donde no estuvo
me detengo ante la gran puerta
y pienso
en la guerra que podría estallar súbitamente
pero veo a un hombre que construye
otro que pasa cuaderno bajo el brazo
y nadie
y nadie podrá con todo esto
ahora
vamos todos temblorosos y amables
a la mesa
nos miramos más tarde
permanecemos en silencio
reconocemos que un intrépido astro
desprende
de las servilletas las tazas de los cucharones
del olor a cebolla
de todo ese mirar atento y triste de mi madre
que rompe el pan inaugurando la noche
-- Em " Richard trajo su flauta y otros argumentos".
...Então me pus a pensar nos seus escritos, nas suas reflexões relevantes e translações diárias em torno de seu próprio eixo. Cheguei à conclusão de que é este o tipo de coisa que distingue o gênio do simples transeunte popular: a capacidade de usar o maior número de símbolos possível sem que qualquer coerência seja respeitada e tornando (brilhantemente) a comunicação em todas as frases do texto algo equivalente a 0 (zero).
Você é bom nisso. Logo, devia entrar pro Sindicato dos Notáveis e dedicar o resto da sua vida sendo um ermitão. Pois saiba que eu sempre quis ser uma ermitã, sempre, mas nunca contei pra ninguém. Passar os dias fazendo rabiscos antiquíssimos na parede, pregando aos pássaros e aos peixes, morando em cima de uma coluna e mudando de década em década apenas para viver em outra mais alta. E trocar meu nome por uma série de símbolos gregos, para que ninguém mais possa me encontrar na Lista Telefônica (eles ligam. Eles sempre ligam. É terrível). Como você pode ver, a proposição "virar ermitã" (com H seria melhor) não consta na lista de impedimentos acima enumerados e ainda está em pauta. Contanto que eu tenha um microondas e meias de lã, claro.
Mas vou embora, no momento, pois você tem que se acostumar a se virar sozinho. Tem salsicha e frango cozido no congelador, não se esqueça de colocar as crianças pra dormir antes das 5. Estou deixando uma porção de parênteses na cômoda ))))))))))))))), para que você não tenha que se preocupar em fechá-los quando escreve. Os parentes (os seus) estão no armário. Descongele antes de fritar.
-- Damnzine
Você é bom nisso. Logo, devia entrar pro Sindicato dos Notáveis e dedicar o resto da sua vida sendo um ermitão. Pois saiba que eu sempre quis ser uma ermitã, sempre, mas nunca contei pra ninguém. Passar os dias fazendo rabiscos antiquíssimos na parede, pregando aos pássaros e aos peixes, morando em cima de uma coluna e mudando de década em década apenas para viver em outra mais alta. E trocar meu nome por uma série de símbolos gregos, para que ninguém mais possa me encontrar na Lista Telefônica (eles ligam. Eles sempre ligam. É terrível). Como você pode ver, a proposição "virar ermitã" (com H seria melhor) não consta na lista de impedimentos acima enumerados e ainda está em pauta. Contanto que eu tenha um microondas e meias de lã, claro.
Mas vou embora, no momento, pois você tem que se acostumar a se virar sozinho. Tem salsicha e frango cozido no congelador, não se esqueça de colocar as crianças pra dormir antes das 5. Estou deixando uma porção de parênteses na cômoda ))))))))))))))), para que você não tenha que se preocupar em fechá-los quando escreve. Os parentes (os seus) estão no armário. Descongele antes de fritar.
-- Damnzine
25.8.03
GIRASSÓIS
A realidade é que, ao contrário
do que dizem os poetas,
os girassóis viram costas ao sol
e nas planícies de Castela
organizam-se em batalhões,
clones de aspecto triste,
vencidos sob a luz implacável;
aos girassóis agrada a sombra,
protegem as sementes estéreis,
alheias a palavras e poemas.
-- A Oeste
A realidade é que, ao contrário
do que dizem os poetas,
os girassóis viram costas ao sol
e nas planícies de Castela
organizam-se em batalhões,
clones de aspecto triste,
vencidos sob a luz implacável;
aos girassóis agrada a sombra,
protegem as sementes estéreis,
alheias a palavras e poemas.
-- A Oeste
22.8.03
Há mil definições de poesia. E algumas dezenas de teorias. Todas igualmente chatas, enfadonhas de criatividade lógica. Entre os poetas, Maiakovski quis que a poesia arrancasse os caixões das trevas para que caminhassem quadrúpedes de cedro. Emily Dickinson escreveu que a poesia era o mar que nunca viu. Manuel Bandeira queria libertar a palavra de suas mortalhas. Para Eliot o verso nunca é livre. Valéry achava que a poesia dança na mesma pista em que a prosa anda. E como ousar não falar de Pound? O garçom que enche meu copo agora pensa que poeta é o Zeca Pagodinho. Até os psicanalistas sabem definir poesia: uma bela réplica de um self grandioso-exibicionista. Eu fico quieta no meu canto e me lembro da melhor definição que ouvi de alguém que não tinha nada a ver com isso: a poesia deve ser sempre uma embarcação que naufraga ao entrar no porto.
Dicionário do Diabo
H
Habeas corpus -- ação judicial mediante a qual pode-se retirar da cadeia um homem preso pelo crime errado.
Hábito -- grilhões do homem livre.
Herói -- indivíduo que, diferente do resto, não pode sair correndo.
Hipócrita -- pessoa que professa virtudes que não acata com a vantagem de parecer ser o que despreza.
História -- relato quase sempre falso de acontecimentos quase sempre sem importância realizados por políticos quase sempre desonestos e soldados quase sempre idiotas.
Historiador -- fofoqueiro de amplo espectro.
Homem -- ser do sexo masculino que durante os primeiros nove meses de sua vida deseja ansiosamente sair do útero para passar o resto da vida querendo entrar nele de volta.
Homeopatia -- escola da medicina situada entre a alopatia e a ciência cristã. Em relação a essas duas últimas todas as outras escolas são nitidamente inferiores, uma vez que a ciência cristã pelo menos cura doenças imaginárias.
Honesto -- desajustado social.
Hospitalidade -- virtude que nos induz a alojar e alimentar determinadas pessoas que não precisam disso.
Humanidade -- a raça humana como um todo, com exceção dos poetas antropóides.
Humildade -- paciência inusitada para planejar uma vingança que valha a pena.
-- Ambrose Bierce
H
Habeas corpus -- ação judicial mediante a qual pode-se retirar da cadeia um homem preso pelo crime errado.
Hábito -- grilhões do homem livre.
Herói -- indivíduo que, diferente do resto, não pode sair correndo.
Hipócrita -- pessoa que professa virtudes que não acata com a vantagem de parecer ser o que despreza.
História -- relato quase sempre falso de acontecimentos quase sempre sem importância realizados por políticos quase sempre desonestos e soldados quase sempre idiotas.
Historiador -- fofoqueiro de amplo espectro.
Homem -- ser do sexo masculino que durante os primeiros nove meses de sua vida deseja ansiosamente sair do útero para passar o resto da vida querendo entrar nele de volta.
Homeopatia -- escola da medicina situada entre a alopatia e a ciência cristã. Em relação a essas duas últimas todas as outras escolas são nitidamente inferiores, uma vez que a ciência cristã pelo menos cura doenças imaginárias.
Honesto -- desajustado social.
Hospitalidade -- virtude que nos induz a alojar e alimentar determinadas pessoas que não precisam disso.
Humanidade -- a raça humana como um todo, com exceção dos poetas antropóides.
Humildade -- paciência inusitada para planejar uma vingança que valha a pena.
-- Ambrose Bierce
21.8.03
Que brasileiro não tem uma vizinha gorda e cheia de varizes como uma viúva machadiana? Dirá alguém que a vizinhança forma um elenco abundante e diversificado. Não é bem assim. A vizinha autêntica e universal há de ser obesa. E mais: - é preciso que, na estação cálida, use um colar de brotoejas.
Eis o que eu queria dizer: - uma dessas minhas vizinhas patuscas é uma maníaca de velório. Todo o santo dia, lá vai ela para a capelinha de Real Grandeza, Catumbi ou São Francisco Xavier. E, como a capela possibilita a simultaneidade de velórios, ela passa de um para outro e pranteia os vários defuntos. Ao vê-la assoar-se no lencinho, perguntam: "A senhora é parente?" Não é nada. Não conhece o morto nem de vista, nem de nome, nem de cumprimento.
( E a santa senhora chora, de preferência, o desconhecido absoluto. Tem um inconfesso e irritado preconceito contra o cadáver de suas relações.) Um dia, cruzo com a vizinha machadiana. Dou-lhe um "bom-dia" e ia passar adiante. Ela, porém, crispa no meu braço a sua mão pequena e voraz de gorda. Diga-se de passagem que é a única senhora de minhas relações que preserva o uso inatual e nostálgico do leque.
Era um dia irrespirável. A canícula lavrava por toda a cidade. Ao mesmo tempo que falava comigo ela abanava, sim, refrescava as brotoejas do pescoço. Simplesmente, a vizinha queria dizer-me, com uma convicção forte: - "Não há mais enterros como o do barão do Rio Branco." Ela, que não saía dos cemitérios, falava de cadeira. Eu, grave, concordei. Ficamos um momento, em pé, na calçada. E a vizinha e eu parecíamos achar que, entre outras coisas, um grande enterro é quase uma atração turística, assim como o Pão de Açúcar ou Paquetá.
-- Nelson Rodrigues, em "A Feia Solidão", 1968.
20.8.03
18.8.03
Alejandra Pizarnik
No quiero ir más que hasta el fondo
Alguien entra en el silencio y me abandona
Ahora la soledad no está sola.
Tu hablas como la noche
Te anuncias como la sed.
- - - - - - - - - - - - - - - - -
de musica la lluvia
de silencio los años
que pasam una noche
mi cuerpo nunca más
podrá recordarse
- - - - - - - - - - - - - -
Alguien entra en el silencio y me abandona
Ahora la soledad no está sola.
Tu hablas como la noche
Te anuncias como la sed.
- - - - - - - - - - - - - - - - -
de musica la lluvia
de silencio los años
que pasam una noche
mi cuerpo nunca más
podrá recordarse
- - - - - - - - - - - - - -
Anoche tomé agua hasta las tres de la madrugada. Estaba un poco ebria y lloraba. Me pedía agua a mí como si yo fuera mi madre. Yo me daba de beber con asco.
- - - - - - - - - - - - - -
Esta voz aferrada a las consonantes. Este cuidar de que ninguna letra quede sin enunciar. Hablas literalmente. No obstante, se te comprende mal. Es como si la perfecta precisión de tu lenguaje revelara en cada palabra un caos que se vuelve más evidente en la medida en que te esfuerzas por ser comprendida.
- - - - - - - - - - - - - - -
No eres tú la culpable de que tu poema hable de lo que no eres.
(fragmentos da poesia e dos diários de Alejandra Pizarnik. A frase-título estava em meio aos seus papéis ao ser encontrada morta após uma overdose de seconal.)
Isto não é bonito
Isto não é legível
Isto não é para
crianças
Isto não é linguagem
cifrada
Isto não dignifica o
povo
Isto é o lado de
dentro
da tua porta de fora,
isto
deves conhecer: a
tua mão
colada ao trinco...
-- Gerrit Kouwewaar, no Borras de Café.
Isto não é legível
Isto não é para
crianças
Isto não é linguagem
cifrada
Isto não dignifica o
povo
Isto é o lado de
dentro
da tua porta de fora,
isto
deves conhecer: a
tua mão
colada ao trinco...
-- Gerrit Kouwewaar, no Borras de Café.
Eu abro mão dos rompantes
pela inspiração constante
Não falo em hora marcada
Tão pouco em rima cronometrada
Só não quero longos dias inférteis
Cólicas de um estado quase-poético
Se esvaindo inacabado
Como placas de um endométrio
-- Eu e o Poeta
pela inspiração constante
Não falo em hora marcada
Tão pouco em rima cronometrada
Só não quero longos dias inférteis
Cólicas de um estado quase-poético
Se esvaindo inacabado
Como placas de um endométrio
-- Eu e o Poeta
17.8.03
O sol bate na nuca de minha mãe e seus olhos me queimam de dentro do mar. Meu pai, com a cabeça deitada no barco, parece passar uma fita métrica no céu enquanto se pergunta aonde deixou as chaves do apartamento. Ao lado do baldinho, o vento sacode minha blusa e uma onda inesperada os desmancha na areia.
15.8.03
Joan Brossa
EL RECITAL
El poeta fa un recital acompanyat per un bateria.
En començar hi ha vint espectadors.
Després, deu.
Després, cinc.
Després, tres.
Després, un, que s'aixeca i diu:
-Vol fer el favor de callar, que no
em deixa sentir la música!
-
Poema do cristão
Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos mais distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E, tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!
-- Jorge de Lima
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos mais distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E, tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!
-- Jorge de Lima
14.8.03
Isaac Bábel
Infância. Em casa de vovó
Estude e você conseguirá tudo: riqueza e glória.
Tem que saber tudo.
Todos vão cair e rebaixar-se diante de você.
Todos devem invejar você.
Não acredite nas pessoas.
Não tenha amigos.
Não lhes dê dinheiro.
Não lhes entregue o coração.
-
Estude e você conseguirá tudo: riqueza e glória.
Tem que saber tudo.
Todos vão cair e rebaixar-se diante de você.
Todos devem invejar você.
Não acredite nas pessoas.
Não tenha amigos.
Não lhes dê dinheiro.
Não lhes entregue o coração.
-
13.8.03
Marquês de Sade
Meu amigo, a religião só impera no espírito dos que nada podem explicar sem ela: é o nec plus ultra da ignorância. Mas a nossos olhos de filósofos, a religião não passa de uma absurda fábula feita unicamente para o nosso desprezo. E que noções, efetivamente, fornece-nos essa religião sublime? Gostaria muito que mo explicassem... Quanto mais a examinamos, mais percebemos que suas quimeras teológicas só são apropriadas a nos embrulhar as idéias: metamorfoseando tudo em mistério, essa religião fantástica nos dá como causa do que não compreendemos alguma coisa que compreendemos menos ainda. Será explicar a natureza atribuir a causa dos fenômenos a agentes desconhecidos, a potências invisíveis, a causas imateriais? Pode o espírito humano se satisfazer quando se lhe diz para tomar como razão do que não entende a idéia mais incompreensível ainda de um Deus que jamais existiu? Pode a natureza divina, da qual nada concebemos, que repugna o bom senso e a razão, fazer conceber a natureza do homem que já achamos tão difícil de se explicar? Indagai a um cristão, quer dizer, a um imbecil, já que só um deles pode ser cristão, qual a origem do mundo: ele responderá que foi Deus quem criou o universo. Perguntai-lhe então o que é Deus: ele não sabe nada a respeito. O que é criar: ele não tem a menor idéia. Qual a causa das pestes, das fomes, das guerras, das secas, das inundações, dos terremotos: dirá que é por causa da cólera de Deus. Indagai-lhe como remediar tantos males: com preces, sacrifícios, procissões, oferendas e cerimônias, responderá. Mas por que o céu está em cólera? É que os homens são maus. Porque sua natureza é corrompida. Qual a causa dessa corrupção? O primeiro homem, seduzido pela primeira mulher, comeu uma maçã que seu Deus lhe proibira de tocar. Quem mandou essa mulher fazer tamanha asneira? O diabo. Mas quem criou o diabo? Foi Deus. Por que Deus criou o diabo, destinado a perverter o gênero humano? Ignora-se... é um mistério escondido no seio da Divindade, ela mesma um mistério. Quereis prosseguir? Perguntai a esse animal qual o princípio escondido das ações e dos movimentos do coração humano? A alma, responderá. E o que é alma? Um espírito. O que é espírito? Uma substância que não tem forma, cor, extensão ou parte. Como uma tal substância pode ser concebida? Como pode movimentar um corpo? Não se sabe, é mistério. Os animais possuem alma? Não. E por que os vemos agir, sentir, pensar absolutamente como os homens? Aí se cala, não sabe o que dizer; a razão disso é simples: se empresta uma alma aos homens, é pelo interesse de fazer disso o que quiser, mediante o poder que se atribui sobre ela; ao passo que não tem o mesmo interesse em relação à dos animais, e que um doutor em teologia seria bastante humilhado pela necessidade que teríamos de comparar sua alma à de um porco. Eis as soluções pueris que somos obrigados a conceber para explicar os problemas do mundo físico e moral! ... Jamais se deve arrancar a venda dos olhos do povo. É necessário que ele se estagne em seus preconceitos, isso é essencial. Onde estariam as vítimas de nossa perversidade se todos os homens fossem criminosos! ... Jamais deixemos de manter o povo sob o jugo do engano e da mentira; apoiemo-nos sem cessar no cetro dos tiranos; protejamos seus tronos: eles por sua vez protegerão a Igreja e o despotismo, fruto dessa união, e manteremos nossos direitos no mundo.
-- Marquês de Sade, séc. 18.
12.8.03
Dicionário do Diabo
G
Genealogia -- importância que um descendente dá ao seu ancestral que, por sua vez, nunca se preocupou muito com isso.
Gentileza -- breve prefácio a dez volumes de cobranças.
Gíria -- discurso do indivíduo dotado de memória auditiva que grunhe com a língua o que ele pensa com os ouvidos; em geral ele muito se orgulha como criador ao conseguir realizar o feito de um papagaio.
Glutão -- pessoa que previne os males da moderação com a prática da dispepsia.
Gnósticos -- seita de filósofos que tentou articular uma aliança entre os primeiros cristãos e os platônicos. A aliança fracassou por falta de representantes cristãos na bancada.
Gota -- nome que os médicos dão ao reumatismo de seus pacientes ricos.
Governo -- organização que sempre leva a culpa de tudo e cujos integrantes são os únicos trabalhadores com direito a decidir sobre o próprio salário.
Gravitação -- força de atração que todos os corpos exercem uns sobre os outros determinada pela quantidade de matéria que contêm; esta quantidade de matéria é determinada pela força da atração mútua exercida. Ilustração louvável e edificante de como a ciência usa A para provar B, e B para provar A.
Guilhotina -- instrumento responsável pelo curioso hábito de dar de ombros dos franceses. Não há registros desse hábito comum antes da Revolução Francesa.
-- Ambrose Bierce, 1911.
G
Genealogia -- importância que um descendente dá ao seu ancestral que, por sua vez, nunca se preocupou muito com isso.
Gentileza -- breve prefácio a dez volumes de cobranças.
Gíria -- discurso do indivíduo dotado de memória auditiva que grunhe com a língua o que ele pensa com os ouvidos; em geral ele muito se orgulha como criador ao conseguir realizar o feito de um papagaio.
Glutão -- pessoa que previne os males da moderação com a prática da dispepsia.
Gnósticos -- seita de filósofos que tentou articular uma aliança entre os primeiros cristãos e os platônicos. A aliança fracassou por falta de representantes cristãos na bancada.
Gota -- nome que os médicos dão ao reumatismo de seus pacientes ricos.
Governo -- organização que sempre leva a culpa de tudo e cujos integrantes são os únicos trabalhadores com direito a decidir sobre o próprio salário.
Gravitação -- força de atração que todos os corpos exercem uns sobre os outros determinada pela quantidade de matéria que contêm; esta quantidade de matéria é determinada pela força da atração mútua exercida. Ilustração louvável e edificante de como a ciência usa A para provar B, e B para provar A.
Guilhotina -- instrumento responsável pelo curioso hábito de dar de ombros dos franceses. Não há registros desse hábito comum antes da Revolução Francesa.
-- Ambrose Bierce, 1911.
11.8.03
Kafka em "Cartas a Milena"
-- Esta manhã tornei a sonhar contigo. Estávamos sentados, juntos, e tu me afastavas, não com maus modos, porém amavelmente. Eu me sentia muito infeliz. Não porque me afastasses, porém por minha culpa, porque te tratava como a uma silenciosa qualquer, e não percebia a voz que falava em ti, que justamente me falava, a mim. Ou talvez não fosse que não a percebesse, porém que não pudesse responder. Mais desconsolado ainda do que no outro sonho, eu me ia.
Ocorre-me à memória algo que uma vez li em alguma parte, mais ou menos assim: "Minha amada é uma coluna de fogo que traslada pela terra. Agora me tem preso. Mas não conduz aqueles que prendeu, porém aos que a vêem."
Teu.
(Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.)
9.8.03
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
-- Bernardo Soares, em "Livro do Desassossego". Retirado do Silêncio.
-- Bernardo Soares, em "Livro do Desassossego". Retirado do Silêncio.
8.8.03
Arte de desamar
Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.
As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.
Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.
Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.
Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.
Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.
-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.
Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.
As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.
Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.
Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.
Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.
Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.
-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.
5.8.03
Patrícia Galvão
instrução publica
Escola Normal do Braz. Reduto pedagogico da pequena burguezia. O estudo não é muito caro. Os paes querem que as filhas sejam professoras, mesmo que isso custe comer feijão, banana e brôa todo dia.
O predio grande, amarelo e sujo. O jardim de formigas do jardineiro José. Eternas serventes. O porteiro bonito que estuda Direito. O secretario anão e poeta. As professoras envelhecendo, secando. Os lentes sem finalidade. O sorveteiro. O amendoim torrado. As meninas entrando, saindo. Bem vestidas. Mal vestidas. As bem vestidas são as filhas dos medicos do Braz e a Matilde, a filha daquela girl do Arruda. Todas acham ela bonita. Tem o sorriso triste. Os olhos muito verdes. As coxas aparecendo sob o jersey curtissimo. Paga sorvete pra todas. Cada lanche! Como corista ganha! Mas ela não conta pra ninguem que já trabalhou na Fabrica.
Linguas maliciosas escorregam nos sorvetes compridos. Peitos propositaes acendem os bicos sexualisados no "sweater" de listas, roçando.
O caixeirinho de calçados morde de longe.
Clelia, a portuguezinha chic, lisa como uma tabôa, sorri na boca enorme para um estudante rico.
-- Fedorzinho! Não se enxerga.
-- Deixa de historia. É o José Mojica em pessôa. Principalmente com a camisa alta.
-- Outro dia encontrei ele em Santana com a Dirce.
-- Ah! Você sabe que o pae encontrou ela numa casa de tolerancia na rua Aurora? Com um homem casado...
-- Quem é que não sabe. Por isso que ela não tem vindo. Diz que ele vae botar ela no Bom Pastor.
-- Por isso é que as normalistas têm fama. Desmoralizam a gente.
-- Ora, vae saindo! Ela foi examinada e é virgem. Ela não faz mais do que você no Recreio Santana e do que eu em Santo Amaro.
-- Mas eu nunca entrei num quarto...
-- Olha lá o decote da Edith. Ela vem assim só pra mostrar os peitos na aula de desenho.
Os bigodinhos estacionam nas esquinas. O diretor não quer estragar o nome da Escola com o escandalo diario dos pares amorosos. Nenhum homem póde parar perto do portão. Mas as saias azues se enroscam nas esquinas.
Eleonora da Normal beija a Matilde que entrou de novo. Como um homem.
O sino pesado chama na mão do porteiro.
-- Bom dia, seu Carlos!
-- Bom dia, Branquinha!
Não trata ninguem de dona. O bando azul e branco caminha pelo roseiral maltratado até a escada grande. As mãos custam a se despregar nos corredores.
-- Entrem... Entrem...
-- Só mais um sorvete, seu Carlos!
Sobem aos grupos, abraçadas.
-- Se você visse que suco o vesperal do Tennis!
-- Eu não tinha vestido, sinão ia ao Teyçandaba.
-- Eu fui ao Politeama.
-- Vá saindo. Com aquela cafagestada!
-- Você viu a Cinearte de hoje? Fala do cinema russo...
-- Escuta! Você sabe o que é o comunismo?
-- Não sei nem quero saber.
-- Em "Parque Industrial", 1933. Reproduzido de edição fac-similar.
Escola Normal do Braz. Reduto pedagogico da pequena burguezia. O estudo não é muito caro. Os paes querem que as filhas sejam professoras, mesmo que isso custe comer feijão, banana e brôa todo dia.
O predio grande, amarelo e sujo. O jardim de formigas do jardineiro José. Eternas serventes. O porteiro bonito que estuda Direito. O secretario anão e poeta. As professoras envelhecendo, secando. Os lentes sem finalidade. O sorveteiro. O amendoim torrado. As meninas entrando, saindo. Bem vestidas. Mal vestidas. As bem vestidas são as filhas dos medicos do Braz e a Matilde, a filha daquela girl do Arruda. Todas acham ela bonita. Tem o sorriso triste. Os olhos muito verdes. As coxas aparecendo sob o jersey curtissimo. Paga sorvete pra todas. Cada lanche! Como corista ganha! Mas ela não conta pra ninguem que já trabalhou na Fabrica.
Linguas maliciosas escorregam nos sorvetes compridos. Peitos propositaes acendem os bicos sexualisados no "sweater" de listas, roçando.
O caixeirinho de calçados morde de longe.
Clelia, a portuguezinha chic, lisa como uma tabôa, sorri na boca enorme para um estudante rico.
-- Fedorzinho! Não se enxerga.
-- Deixa de historia. É o José Mojica em pessôa. Principalmente com a camisa alta.
-- Outro dia encontrei ele em Santana com a Dirce.
-- Ah! Você sabe que o pae encontrou ela numa casa de tolerancia na rua Aurora? Com um homem casado...
-- Quem é que não sabe. Por isso que ela não tem vindo. Diz que ele vae botar ela no Bom Pastor.
-- Por isso é que as normalistas têm fama. Desmoralizam a gente.
-- Ora, vae saindo! Ela foi examinada e é virgem. Ela não faz mais do que você no Recreio Santana e do que eu em Santo Amaro.
-- Mas eu nunca entrei num quarto...
-- Olha lá o decote da Edith. Ela vem assim só pra mostrar os peitos na aula de desenho.
Os bigodinhos estacionam nas esquinas. O diretor não quer estragar o nome da Escola com o escandalo diario dos pares amorosos. Nenhum homem póde parar perto do portão. Mas as saias azues se enroscam nas esquinas.
Eleonora da Normal beija a Matilde que entrou de novo. Como um homem.
O sino pesado chama na mão do porteiro.
-- Bom dia, seu Carlos!
-- Bom dia, Branquinha!
Não trata ninguem de dona. O bando azul e branco caminha pelo roseiral maltratado até a escada grande. As mãos custam a se despregar nos corredores.
-- Entrem... Entrem...
-- Só mais um sorvete, seu Carlos!
Sobem aos grupos, abraçadas.
-- Se você visse que suco o vesperal do Tennis!
-- Eu não tinha vestido, sinão ia ao Teyçandaba.
-- Eu fui ao Politeama.
-- Vá saindo. Com aquela cafagestada!
-- Você viu a Cinearte de hoje? Fala do cinema russo...
-- Escuta! Você sabe o que é o comunismo?
-- Não sei nem quero saber.
-- Em "Parque Industrial", 1933. Reproduzido de edição fac-similar.
3.8.03
A confissão de Bernardo Vasques
(retirada do Arquivo das Confissões)
Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.
"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."
-- Macau
(retirada do Arquivo das Confissões)
Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.
"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."
-- Macau
31.7.03
Mensagem
Não venhas mais, querida, me encontrar!
Vais pisar, se o fizeres, no salgueiro
que plantei, recordando o alvissareiro
primeiro dia em que vieste, ao luar.
Não poderei mais ver-te. Sou escrava
da vontade inflexível de meus pais,
dos quais, quando lhes disse que te amava,
ouvi palavras ásperas demais.
Não pules outra vez o nosso muro!
quebrarias as hastes delicadas
do sândalo que rego ao claro-escuro
de evocativas, doces madrugadas.
O meu irmão, amor, também não quer
que te veja outra vez, infelizmente
o destino me fez simplesmente mulher
e devo ser humilde e obediente.
Nem arranques, num gesto impaciente,
a sebe junto à qual, um dia, enfim
me abraçaste... fazendo-o, deixarias
sem proteção as flores do jardim
confidentes, nas longas tardes frias,
do meu amor sem fim...
Despedida
O teu lenço de seda, umedecido
de lágrimas, deixaste meigamente
quando subiste ao carro, em minha mão.
Fiquei vendo teu vulto estremecido
que sumia. Meu pranto amargo e quente
molhava a poeira que cobria o chão.
Na tua direção, forte lufada
de vento sopra, agora; então me agarro
à esperança falaz de que a dourada
poeira, por minhas lágrimas molhada,
alcance, ainda, as rodas do teu carro...
-- poesia vietnamita, autor desconhecido.
30.7.03
Antonin Artaud
Toda escrita é porcaria.
Todos aqueles que saem de um lugar qualquer, para tentar explicar seja lá o que lhes passa no pensamento, são porcos.
Toda gente literária é porca, especialmente essa do nosso tempo.
Todos os que possuem pontos de referência no espírito, quero dizer, de um lado certo da cabeça, sobre lugares bem demarcados do cérebro; todos aqueles que são mestres da língua; todos aqueles para quem as palavras têm sentido; todos aqueles para quem existem elevações da alma e correntes do pensamento, aqueles que são o espírito de sua época e que nomeiam essas correntes do pensamento; penso nas suas mesquinhas atividades precisas e nesse ranger de autômatos vomitado para todos os lados por seu espírito;
-- são porcos.
Aqueles para os quais certas palavras têm sentido e certas maneiras de ser; aqueles que têm tão boas maneiras; aqueles para quem os sentimentos podem ser classificados e que discutem um grau qualquer das suas hilariantes classificações, aqueles que ainda acreditam em "termos"; os que mexem com as ideologias de destaque na época; aqueles cujas mulheres falam tão bem, e suas mulheres também, que falam tão bem, e falam das tendências da sua época; os que ainda acreditam numa orientação do espírito; os que seguem caminhos, que acenam com nomes, que fazem gritar as páginas dos livros;
-- esses são os piores porcos.
Moço, como você está sendo gratuito!
Não; penso nos críticos barbudos.
Já falei: nada de obras, nada de língua, nada de palavras, nada de espírito, nada.
Nada a não ser um belo Pesa-Nervos.
Uma espécie de parada incompreensível e bem levantada no meio de tudo no espírito.
E não esperem que eu nomeie esse tudo, diga em quantas partes se divide, qual é o seu peso, que eu entre nessa, que me ponha a discutir esse todo, e que discutindo me perca e assim comece, sem saber, a PENSAR -- e que se esclareça, que viva, que se atavie com uma multidão de palavras, todas bem untadas de sentido, todas diferentes, capazes de expor todas as atitudes, todas as sutilezas de um pensamento tão sensível e penetrante.
Ah, esses estados nunca nomeados, essas situações eminentes da alma; ah, esses intervalos do espírito; ah, essas minúsculas falhas que são o pão cotidiano das minhas horas; ah, essa formigante população de dados -- são sempre as mesmas palavras que eu uso e na verdade pareço não avançar muito no meu pensamento, mas na realidade avanço muito mais que vocês, burros barbados, porcos pertinentes, mestres do falso verbo, masturbadores com fotografias, folhetinistas, rés-do-chão, engordadores de gado, entomologistas, chaga da minha língua.
Já disse, eu perdi a fala, isso não é motivo para que persistam, para que insistam na fala.
Chega, serei compreendido daqui a dez anos pelas pessoas que então estiverem fazendo o que vocês fazem agora. Então conhecerão meus mananciais de água fervente, verão minhas geleiras, aprenderão a neutralizar meus venenos, entenderão os jogos da minha alma.
Então todos os meus cabelos estarão grudados na cal da vala comum, todas as minhas veias mentais; então enxergarão meu bestiário, e minha mística terá se transformado em bandeira. Então verão as juntas das pedras fumegarem, arborescentes ramalhetes de olhos mentais se cristalizarão em glossários; então verão tombarem aerólitos de pedra; então verão cordas; compreenderão a geometria sem espaço; entenderão a configuração do espírito, e saberão como perdi meu espírito.
Então compreenderão por que meu espírito não está mais aí; verão todas as línguas se paralisarem, todos os espíritos ressecarem, todas as línguas se encarquilharem, os vultos humanos se achatarem e desinflarem como se aspirados por ventosas sugadoras; e esta lubrificante membrana continuará flutuando no ar, esta membrana lubrificante e cáustica, esta membrana com dupla espessura, inúmeros níveis, uma infinidade de fendas, esta melancólica e vítrea membrana, porém tão sensível, tão pertinente, tão capaz de se desdobrar, se multiplicar, de dar voltas com sua reverberação de fendas, sentidos, estupefacientes, irrigações penetrantes e contagiosas;
então acharão que está tudo muito bem,
e não precisarei mais falar.
-- Antonin Artaud, em "O Pesa-Nervos", 1924-27.
29.7.03
Dicionário do Diabo
F
Fácil -- diz-se da mulher que tem a moral sexual de um homem.
Fanático -- indivíduo que defende obstinada e ardorosamente uma opinião diferente da nossa.
Fé -- crer sem evidências em algo que alguém disse sem conhecimento sobre coisas sem fundamento.
Felicidade -- agradável sensação que nasce da observação da desgraça alheia.
Fidelidade -- virtude peculiar daqueles que estão a ponto de serem traídos.
Filantropo -- indivíduo idoso e rico que aprendeu a sorrir enquanto a consciência lhe bate a carteira.
Filisteu -- indivíduo cuja mente é produto do ambiente e da moda, seja no pensamento ou sentimentos. Às vezes ele é culto, em geral próspero, vulgarmente íntegro e sempre solene.
Filosofia -- caminhos de muitos atalhos que levam de lugar nenhum a nada.
Filósofo -- indivíduo cego numa casa escura que procura um chapéu preto que não existe.
Finanças -- a arte ou ciência de administrar rendas ou recursos para auferir vantagens para o administrador.
Fisionomia -- a arte de determinar o caráter de uma pessoa através de semelhanças e diferenças entre o seu rosto e o nosso, considerado padrão de excelência.
Fonógrafo -- brinquedo irritante que dá vida a sons mortos.
Fotografia -- um quadro pintado pela luz, dispensa formação artística.
Fronteira -- em geografia política, uma linha imaginária entre dois países que divide os direitos imaginários de um dos direitos imaginários de outro.
Funeral -- cerimônia em que se prova o respeito pelos mortos engordando o bolso dos agentes funerários.
Futuro -- aquele período do tempo em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade é garantida.
-- Ambrose Bierce, 1911.
F
Fácil -- diz-se da mulher que tem a moral sexual de um homem.
Fanático -- indivíduo que defende obstinada e ardorosamente uma opinião diferente da nossa.
Fé -- crer sem evidências em algo que alguém disse sem conhecimento sobre coisas sem fundamento.
Felicidade -- agradável sensação que nasce da observação da desgraça alheia.
Fidelidade -- virtude peculiar daqueles que estão a ponto de serem traídos.
Filantropo -- indivíduo idoso e rico que aprendeu a sorrir enquanto a consciência lhe bate a carteira.
Filisteu -- indivíduo cuja mente é produto do ambiente e da moda, seja no pensamento ou sentimentos. Às vezes ele é culto, em geral próspero, vulgarmente íntegro e sempre solene.
Filosofia -- caminhos de muitos atalhos que levam de lugar nenhum a nada.
Filósofo -- indivíduo cego numa casa escura que procura um chapéu preto que não existe.
Finanças -- a arte ou ciência de administrar rendas ou recursos para auferir vantagens para o administrador.
Fisionomia -- a arte de determinar o caráter de uma pessoa através de semelhanças e diferenças entre o seu rosto e o nosso, considerado padrão de excelência.
Fonógrafo -- brinquedo irritante que dá vida a sons mortos.
Fotografia -- um quadro pintado pela luz, dispensa formação artística.
Fronteira -- em geografia política, uma linha imaginária entre dois países que divide os direitos imaginários de um dos direitos imaginários de outro.
Funeral -- cerimônia em que se prova o respeito pelos mortos engordando o bolso dos agentes funerários.
Futuro -- aquele período do tempo em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade é garantida.
-- Ambrose Bierce, 1911.
27.7.03
Bertrand Russell
Como podemos tornar-nos um homem de gênio
Se há entre os meus leitores jovens que aspiram tornar-se líderes do pensamento da sua geração, espero que evitem certos erros em que caí quando era novo por falta de bons conselhos. Quando desejava formar uma opinião sobre um certo assunto, costumava estudá-lo, avaliar os argumentos a favor dos diversos pontos de vista e tentar chegar a uma conclusão ponderada. Descobri depois que esta não é a maneira de fazer as coisas. Um homem de gênio sabe tudo sem precisar de estudar; as suas opiniões são pontificais e o seu caráter persuasivo não depende de argumentos, mas do estilo literário. É necessário ser parcial, pois isso facilita a veemência, que é considerada uma prova de força. É essencial apelar a preconceitos e a paixões de que os homens começaram a se sentir envergonhados, bem como fazer isso em nome de uma nova ética inefável. É bom rebaixar as mentes lentas e tacanhas que exigem dados para chegar a conclusões. Acima de tudo, deve-se apresentar aquilo que é mais antigo como se fosse a coisa mais inovadora.
Esta receita para ser gênio não é nova. Foi seguida por Carlyle no tempo dos nossos avós, por Nietzsche no tempo dos nossos pais e tem sido seguida no nosso tempo por D. H. Lawrence. Os discípulos de Lawrence pensam que ele anunciou toda uma nova sabedoria sobre as relações entre homens e mulheres. Na verdade ele voltou atrás, defendendo o domínio dos homens que nós associamos aos homens das cavernas. Na sua filosofia, as mulheres existem apenas como uma coisa macia e gorda para repousar o herói quando este regressa das suas ocupações. As sociedades civilizadas têm aprendido a ver mais que isto nas mulheres, mas Lawrence não quer nada da civilização. Ele quer limpar o mundo para manter o que é antigo e obscuro e adora os vestígios da crueldade azteca no México. Os jovens, que têm aprendido a comportar-se, leem-no naturalmente com prazer e andam por aí a proceder como homens das cavernas na medida em que os costumes da sociedade educada o permitem.
Um dos elementos de sucesso mais importantes para te tornares um homem de gênio é aprender a arte da denúncia. Deves fazer sempre as denúncias de maneira a que o leitor pense que são os outros que estão a ser denunciados e não ele próprio. Assim ele ficará impressionado com o teu nobre desdém, enquanto que se pensar que o estás a denunciar vai considerar-te culpado de impertinência malcriada. Carlyle comentou: “A população da Inglaterra é de vinte milhões de pessoas, sobretudo idiotas.” Todos os que leram isto consideraram-se uma das exceções, e por isso apreciaram o comentário. Não podes denunciar classes bem definidas, como pessoas com mais que um certo rendimento, habitantes de uma certa área ou crentes num certo credo definido, pois se o fizeres alguns leitores perceberão que a tua invectiva se lhes dirige. Tens que denunciar pessoas cujas emoções são atrofiadas, pessoas às quais só o estudo penoso pode revelar a verdade, pois todos sabemos que essas são outras pessoas, e por isso veremos com simpatia o teu poderoso diagnóstico dos males da época.
Ignora os fatos e a razão, vive inteiramente no mundo das tuas próprias paixões fantásticas criadoras de mitos; faz isto empenhadamente e com convicção, que assim te tornarás um dos profetas da tua época.
(“How to Become a Man of Genius”, Hearst newspapers column, 1932.)
26.7.03
Eu nunca quis ser Florbela Espanca
Não, eu não posso ser Florbela Espanca. Quando acordo, leio Pagu, eu queria saber fazer versos simples para falar de amor. Falar que na hora do café da manhã eu beberico Amália Rodrigues. E que na hora do almoço leio Sylvia Plath. Me suicido com uma sobremesa. É hora do chá, cinco da tarde: Elizabeth Bishop cresce na minha sala pelos copos d'água. E se a hora é de banho, Ana C chove sobre mim enquanto a tarde cai. Dolores Duran ou Rita Lee? Adriana diz que eu tenho meia hora pra mudar a minha vida na cinza das horas. Minha mãe não era poeta mas era minha Marina e o seu coração respira ainda selvagem no meu travesseiro: o lustre de Clarice.
Não, eu não posso ser Florbela Espanca. Quando acordo, leio Pagu, eu queria saber fazer versos simples para falar de amor. Falar que na hora do café da manhã eu beberico Amália Rodrigues. E que na hora do almoço leio Sylvia Plath. Me suicido com uma sobremesa. É hora do chá, cinco da tarde: Elizabeth Bishop cresce na minha sala pelos copos d'água. E se a hora é de banho, Ana C chove sobre mim enquanto a tarde cai. Dolores Duran ou Rita Lee? Adriana diz que eu tenho meia hora pra mudar a minha vida na cinza das horas. Minha mãe não era poeta mas era minha Marina e o seu coração respira ainda selvagem no meu travesseiro: o lustre de Clarice.
24.7.03
23.7.03
A medicina está acabando com a poesia. Hoje o sujeito sente os tormentos da alma e toma um antidepressivo. Na euforia, receitam-lhe um zepan qualquer. E o cara volta à merdiocridade que não produz nada, exceto dinheiro para o patrão e os impostos. Fernando Pessoa, se vivesse nos dias de hoje, não legaria nada à humanidade. Em qualquer farmácia vagabunda encontraria pelo menos dez remédios para cada heterônimo. O mesmo se aplica às demais artes, mas não vai dar tempo de escrever a respeito. Acabei de tomar um diazepan e não lembro onde foi que deixei meu senso crítico.
-- Catarro Verde
-- Catarro Verde
22.7.03
Chico Buarque
Torno a me lembrar do meu amigo olhando o horizonte, seus cabelos molhados negros como nunca, e ele agora se penteia com mais vagar que antes. Provavelmente se sentindo lembrado, tira logo proveito da situação. Traga um cigarro, que na lembrança anterior nem existia, e fica se deixando olhar, como um ator de perfil. Que se vira para mim de repente, querendo me surpreender, com um brilho nos olhos que me incomoda de novo. E já vai anoitecer sem que eu tenha conseguido olhar seus pés. Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois por algum viés da lembrança. Talvez dar órbita de hoje aos olhos daquele dia. E é assim que vejo finalmente os pés do meu amigo, pelo rabo do olho da lembrança. Vejo mas não sei como são; são pés refratados dentro da água turva, impossíveis de julgar.
Imagino meu amigo recebendo rapazes no apartamento. Meu amigo no sofá da sala, tomando campári e dizendo poesia para os rapazes. Com os pés descalços no sofá, mas disfarçados entre as almofadas, meu amigo passando os cabelos para trás da orelha, e imagino algum rapaz se irritando com a coisa toda. Meu amigo abrindo o álbum dos poetas franceses, e o rapaz encolhendo-se no sofá. E enchendo-se de ódio, e sofrendo de um outro ódio por não entender que ódio cruzado é aquele que o domina, e que é feito de muita humilhação e que é desprezo ao mesmo tempo. Imagino a poesia sendo interminável e o rapaz enlouquecendo, indo buscar uma corda no varal, ou uma faca na cozinha, mas daí para a frente já não dá para imaginar, porque o meu amigo nunca seria professor de ginástica. Lembro-me mais uma vez dele ao meu lado, olhando o horizonte, os braços apoiados na borda da piscina, e nem bíceps o meu amigo tinha. Lembro-me do instante em que ele ergueu o copo, agitou o copo seco com uma rodela de limão grudada no fundo, e fez menção de se levantar para reforçar a caipirinha. Ameaçou trazer os pés à tona, e eu os veria de muito perto, como vi anos depois os pés do morto. Agora me dá grande aflição a idéia de ter visto os pés do meu amigo, pés que eu olharia tranquilamente no tempo da lembrança. Mas o gesto instintivo deve ser reflexo de uma intenção que está noutro tempo. E naquela tarde eu pus a mão no seu joelho sem saber por que o fazia, e disse "não". Arranquei-lhe o copo e fui preparar a caipirinha dupla.
20.7.03
UM TEXTO LONGO, SIM. Ora, não me lixem. Às vezes há distracções nos blogs, naturalmente, e vê-se onde cada um quer chegar — a qualquer lugar muito longe, a qualquer lugar muito perto. Mas irrita-me muito aquele ar de circunspecção polida, muito culta e importante, escandalizada e correcta ao mesmo tempo. Todos querem ser o «observatório que não é observado», aquele que repara em todos os defeitos dos outros, aquele a quem nada comove, aquele para quem uma coisa é sempre outra, muito pior, muito enganadora. Ah, eu sei, todos sabemos, as pessoas fingem, exibimo-nos em todo o lado, citam-se livros, fala-se de filmes, discos, bandas, viagens, retratos, tudo o que comove. Mas irrita-me o tom, esse tom de quem desconfia que só o próprio é que lê os livros que leu — e leu, certamente. Mas as mentiras dos outros também são agradáveis, detectam-se com facilidade, paira sobre elas uma aura de vulgaridade. Desiludimo-nos? Não: a vida é assim mesmo, contabilizamos doutoramentos com bibliografias frágeis, artigos com rabos de fora. Irrita-me quem veio aos blogs para moralizar e evangelizar, espalhar a verdade, ganhar adeptos, praticar a pior das coisas que é o proselitismo no meio da tempestade e da desgraça. Porque se não houvesse desgraça não havia «blogosfera» (essa comunidade de cinquenta e seis ou oitenta e dois amigos que se conhecem e falam uns para os outros, e se cumprimentam, se visitam, se irritam), as pessoas viam televisão e faziam piqueniques debaixo dos sobreiros ou iam à pesca para a beira do mar. Mas irrita-me isso, sim, essa tendência para não ironizar, para fazer de tudo uma campanha brutal contra a fragilidade dos outros e contra os seus pecados, as suas falhas, as suas indignidades, as suas mentiras — está tudo tão à vista, aqui.
Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes?
Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo. Essa fragilidade é um bem porque podemos discutir com ela — ou comover-nos. Ah, mas claro que a comoção é um perigo, tal como a pieguice, a lamechice, o horror aos outros, sim, claro que é. Mas pior do que isso vão ser os blogs dos deputados quando o parlamento publicar o livro de estilo (será como o código de conduta do Expresso?).
E por que é que os oitenta e dois amigos ou os cinquenta e seis conhecidos não hão-de poder falar uns para os outros? Entre mil blogs portugueses, por que é que não se hão-de conhecer e dizer «piadas privadas» e falar do que lhes apetece? E por que é que tem de começar a haver auto-censura estabelecida para que fulano não desça do púlpito, a desancar? Não me lixem. Vigiemo-nos, comentemo-nos em regime de permanência. Por que é que não se há-de ser a poeira da praia?
A nossa escravidão, desde a infância, é definir «posse» e «poder». O vazio é o único lugar de encontro quando descobrimos essas circunstâncias — e, nesse lugar, compreender não é concordar, tal como discordar não significa não compreender. Um comentador do Talmude dizia que devíamos fugir da superstição e da crendice, das faúlhas do céu — mas que, na verdade, não se pode viver sem essa chama de irracionalidade, tal como a certeza absoluta é um acto de idolatria, de imprescindibilidade — e a imprescindibilidade é a idolatria com pés de barro. O que tem a ver com outra característica que anda aí à solta, oscilando entre a agressividade e a vitimização: ambas são compensações, claro, compreensíveis, somos humanos, tão humanos. Nos blogs, a única coisa a cobiçar é a aceitação dos outros, o reconhecimento — não os livros que os outros leram ou não leram , os actos de censura, a comunhão ideológica. Isso é tão humano como a chama de irracionalidade que não se pode afastar da vida inteira, sob pena de a «vida inteira» ser só «parte dela», a mais visível, a mais autoritária, a mais inflexível. Quem tem listas de reivindicações sobre o presente e culpados permanentes a apontar, vê reduzida a sua margem de criatividade.
E o riso. O riso de todas as maneiras. O riso devia ser o centro de muitos debates, contra o risco de intelectualizar toda a linguagem, isto é, de lhe criar uma autoridade escolar em anexo (sim, como attachment). Há pessoas que riem muito, há pessoas que riem pouco, há pessoas que só riem e há gente que não ri nem sabe rir. Não é obrigatório rir em nenhuma circunstância (o Nuno Costa Santos criticava essa tendência para a «obrigatoriedade do humor» nos blogs, a obrigatoriedade de se «ser engraçado»), mas o riso é um caminho que nunca se pode evitar. Tal como a ironia, a piada. A pequena piada. E rir de si próprio sobretudo, não se levar tão a sério.
-- Aviz
Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes?
Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo. Essa fragilidade é um bem porque podemos discutir com ela — ou comover-nos. Ah, mas claro que a comoção é um perigo, tal como a pieguice, a lamechice, o horror aos outros, sim, claro que é. Mas pior do que isso vão ser os blogs dos deputados quando o parlamento publicar o livro de estilo (será como o código de conduta do Expresso?).
E por que é que os oitenta e dois amigos ou os cinquenta e seis conhecidos não hão-de poder falar uns para os outros? Entre mil blogs portugueses, por que é que não se hão-de conhecer e dizer «piadas privadas» e falar do que lhes apetece? E por que é que tem de começar a haver auto-censura estabelecida para que fulano não desça do púlpito, a desancar? Não me lixem. Vigiemo-nos, comentemo-nos em regime de permanência. Por que é que não se há-de ser a poeira da praia?
A nossa escravidão, desde a infância, é definir «posse» e «poder». O vazio é o único lugar de encontro quando descobrimos essas circunstâncias — e, nesse lugar, compreender não é concordar, tal como discordar não significa não compreender. Um comentador do Talmude dizia que devíamos fugir da superstição e da crendice, das faúlhas do céu — mas que, na verdade, não se pode viver sem essa chama de irracionalidade, tal como a certeza absoluta é um acto de idolatria, de imprescindibilidade — e a imprescindibilidade é a idolatria com pés de barro. O que tem a ver com outra característica que anda aí à solta, oscilando entre a agressividade e a vitimização: ambas são compensações, claro, compreensíveis, somos humanos, tão humanos. Nos blogs, a única coisa a cobiçar é a aceitação dos outros, o reconhecimento — não os livros que os outros leram ou não leram , os actos de censura, a comunhão ideológica. Isso é tão humano como a chama de irracionalidade que não se pode afastar da vida inteira, sob pena de a «vida inteira» ser só «parte dela», a mais visível, a mais autoritária, a mais inflexível. Quem tem listas de reivindicações sobre o presente e culpados permanentes a apontar, vê reduzida a sua margem de criatividade.
E o riso. O riso de todas as maneiras. O riso devia ser o centro de muitos debates, contra o risco de intelectualizar toda a linguagem, isto é, de lhe criar uma autoridade escolar em anexo (sim, como attachment). Há pessoas que riem muito, há pessoas que riem pouco, há pessoas que só riem e há gente que não ri nem sabe rir. Não é obrigatório rir em nenhuma circunstância (o Nuno Costa Santos criticava essa tendência para a «obrigatoriedade do humor» nos blogs, a obrigatoriedade de se «ser engraçado»), mas o riso é um caminho que nunca se pode evitar. Tal como a ironia, a piada. A pequena piada. E rir de si próprio sobretudo, não se levar tão a sério.
-- Aviz
19.7.03
Anotações de aula
Neurose= desorganização simbólica. Recalque= defesa do psiquismo contra as demandas do princípio do prazer. O neurótico adoece de nostalgia (comprar sem falta "Suíte p/ Piano de Brinquedo"). Seio materno arcaico ( devo tocar?). Sexualidade não são só as práticas sexuais mas a representação do desejo (hum, Freud). O próprio desejo se desrealiza c/ a aproximação do objeto (passar na farmácia p/ trocar protetor solar c/cheiro de azeite). Só o neurótico resolve o recalque via sublimação (papinho chato, programão). Diferença entre neurótico e utopista (essa eu quero ver). Discutir pq as imagens se sobrepõem às palavras (think globally, fuck locally). Proposta de debate: "Se algo cheira mal, tampe" (Confúcio, ahrá). "A literatura é algo p/ ser observado, um descanso, um pensamento, uma marca, não um campo de análise" (Foucault? MEU CORPO NÃO É OBJETO DO MEU EGO, NÃO VIVE P/SATISFAZER O MEU ORGULHO, MAS P/ME DAR A ALEGRIA E SATISFAÇÃO DO CORPO VIVO). (Enquanto eles discutem eu penso em destituir esta classe e eleger uma nova, nunca ouvi tanta bobagem ao mesmo tempo, o q estou fazendo aqui?, eu nunca quis ser professora, deixa eu olhar pras paredes, eles são jovens, eles acreditam no retorno espiritual do investimento, a gramática do mercado, eles não pensam em apanhar moscas, quando eles nasceram eu já tomava Blue Sky, eu já sabia que a vida se paga com a morte, que as idéias são muletas intelectuais, que a psicanálise não passa de egorragia, que os políticos comem no mesmo cocho, que eu não preciso de ninguém para enfeitar o meu bunker caseiro, que qualquer migalha pode me tirar do tédio, que é fácil se desmascarar com quem não tem coragem de fazer o mesmo, que a areia é tudo o que os meus pés tocam daqui ao horizonte, que pilotar o imaginário não precisa de trilhas marcadas, que eu não preciso comprar jornais para saber de mentiras, que a literatura que todo mundo gosta é a literatura lounge, que eu sempre vou ter fome de tudo, que eu tenho fome agora e vou esquentar minha lentilha, onde deixei mesmo o meu potinho de chutney?
Neurose= desorganização simbólica. Recalque= defesa do psiquismo contra as demandas do princípio do prazer. O neurótico adoece de nostalgia (comprar sem falta "Suíte p/ Piano de Brinquedo"). Seio materno arcaico ( devo tocar?). Sexualidade não são só as práticas sexuais mas a representação do desejo (hum, Freud). O próprio desejo se desrealiza c/ a aproximação do objeto (passar na farmácia p/ trocar protetor solar c/cheiro de azeite). Só o neurótico resolve o recalque via sublimação (papinho chato, programão). Diferença entre neurótico e utopista (essa eu quero ver). Discutir pq as imagens se sobrepõem às palavras (think globally, fuck locally). Proposta de debate: "Se algo cheira mal, tampe" (Confúcio, ahrá). "A literatura é algo p/ ser observado, um descanso, um pensamento, uma marca, não um campo de análise" (Foucault? MEU CORPO NÃO É OBJETO DO MEU EGO, NÃO VIVE P/SATISFAZER O MEU ORGULHO, MAS P/ME DAR A ALEGRIA E SATISFAÇÃO DO CORPO VIVO). (Enquanto eles discutem eu penso em destituir esta classe e eleger uma nova, nunca ouvi tanta bobagem ao mesmo tempo, o q estou fazendo aqui?, eu nunca quis ser professora, deixa eu olhar pras paredes, eles são jovens, eles acreditam no retorno espiritual do investimento, a gramática do mercado, eles não pensam em apanhar moscas, quando eles nasceram eu já tomava Blue Sky, eu já sabia que a vida se paga com a morte, que as idéias são muletas intelectuais, que a psicanálise não passa de egorragia, que os políticos comem no mesmo cocho, que eu não preciso de ninguém para enfeitar o meu bunker caseiro, que qualquer migalha pode me tirar do tédio, que é fácil se desmascarar com quem não tem coragem de fazer o mesmo, que a areia é tudo o que os meus pés tocam daqui ao horizonte, que pilotar o imaginário não precisa de trilhas marcadas, que eu não preciso comprar jornais para saber de mentiras, que a literatura que todo mundo gosta é a literatura lounge, que eu sempre vou ter fome de tudo, que eu tenho fome agora e vou esquentar minha lentilha, onde deixei mesmo o meu potinho de chutney?
18.7.03
Dicionário do Diabo
E
Economia -- comprar um barril de uísque que você não vai precisar pelo preço de uma vaca que você não pode pagar.
Economista -- especialista que saberá amanhã por que o que previu ontem não aconteceu hoje.
Educação -- a hipocrisia mais aceitável.
Egoísta -- aquele que não tem consideração pelo egoísmo dos outros.
Egotista -- pessoa de mau gosto que está mais interessada em si mesma do que em mim.
Eleitor -- indivíduo que goza do sagrado privilégio de votar em alguém que outra pessoa escolheu.
Emancipação -- quando um indivíduo troca a tirania de uma pessoa pelo despotismo de si mesmo.
Entusiasmo -- perturbação da juventude que se cura com pequenas doses de arrependimento e algumas aplicações de experiência.
Epitáfio -- inscrição tumular que demonstra que as virtudes adquiridas com a morte têm efeito retroativo.
Ermitão -- pessoa cujos vícios e insensatez não são sociáveis.
Erudição -- poeira que se sacode dos livros para dentro de um cérebro vazio.
Escrituras -- os livros sagrados de nossa sagrada religião; distinguem-se dos escritos falsos e profanos nos quais se baseiam todas as outras religiões.
Esotérico -- tudo que é particularmente obscuro e consumadamente oculto. As filosofias antigas eram de duas espécies: "exotéricas", que os filósofos eram capazes de entender parcialmente, e "esotéricas", as que ninguém conseguia entender. Estas últimas foram as que mais influenciaram o pensamento moderno.
Esquecimento -- dádiva divina concedida aos médicos como compensação por serem destituídos de consciência.
Estafa -- perigoso distúrbio que acomete funcionários públicos de alto escalão sempre que estes desejam férias.
Etnologia -- ciência que estuda as várias tribos humanas, como os ladrões, vigaristas, ignorantes, lunáticos, idiotas e etnólogos.
Exceção -- diz-se daquilo que toma a liberdade de diferir de outros de sua classe, assim como um homem honesto, uma mulher sincera etc.
Excêntrico -- método vulgar de distinção utilizado pelos imbecis para acentuar sua incapacidade.
Executivo -- autoridade governamental cujo dever é garantir o cumprimento da vontade do poder legislativo até o momento em que o judiciário a invalide.
Exilado -- diz-se daquele que, sem ser um embaixador, serve ao seu país indo morar em terra estrangeira.
Experiência -- sabedoria que nos permite reconhecer como indesejáveis todas as loucuras que já desejamos.
-- Ambrose Bierce, 1911.
E
Economia -- comprar um barril de uísque que você não vai precisar pelo preço de uma vaca que você não pode pagar.
Economista -- especialista que saberá amanhã por que o que previu ontem não aconteceu hoje.
Educação -- a hipocrisia mais aceitável.
Egoísta -- aquele que não tem consideração pelo egoísmo dos outros.
Egotista -- pessoa de mau gosto que está mais interessada em si mesma do que em mim.
Eleitor -- indivíduo que goza do sagrado privilégio de votar em alguém que outra pessoa escolheu.
Emancipação -- quando um indivíduo troca a tirania de uma pessoa pelo despotismo de si mesmo.
Entusiasmo -- perturbação da juventude que se cura com pequenas doses de arrependimento e algumas aplicações de experiência.
Epitáfio -- inscrição tumular que demonstra que as virtudes adquiridas com a morte têm efeito retroativo.
Ermitão -- pessoa cujos vícios e insensatez não são sociáveis.
Erudição -- poeira que se sacode dos livros para dentro de um cérebro vazio.
Escrituras -- os livros sagrados de nossa sagrada religião; distinguem-se dos escritos falsos e profanos nos quais se baseiam todas as outras religiões.
Esotérico -- tudo que é particularmente obscuro e consumadamente oculto. As filosofias antigas eram de duas espécies: "exotéricas", que os filósofos eram capazes de entender parcialmente, e "esotéricas", as que ninguém conseguia entender. Estas últimas foram as que mais influenciaram o pensamento moderno.
Esquecimento -- dádiva divina concedida aos médicos como compensação por serem destituídos de consciência.
Estafa -- perigoso distúrbio que acomete funcionários públicos de alto escalão sempre que estes desejam férias.
Etnologia -- ciência que estuda as várias tribos humanas, como os ladrões, vigaristas, ignorantes, lunáticos, idiotas e etnólogos.
Exceção -- diz-se daquilo que toma a liberdade de diferir de outros de sua classe, assim como um homem honesto, uma mulher sincera etc.
Excêntrico -- método vulgar de distinção utilizado pelos imbecis para acentuar sua incapacidade.
Executivo -- autoridade governamental cujo dever é garantir o cumprimento da vontade do poder legislativo até o momento em que o judiciário a invalide.
Exilado -- diz-se daquele que, sem ser um embaixador, serve ao seu país indo morar em terra estrangeira.
Experiência -- sabedoria que nos permite reconhecer como indesejáveis todas as loucuras que já desejamos.
-- Ambrose Bierce, 1911.
Assinar:
Postagens (Atom)