18.8.03

Alejandra Pizarnik

No quiero ir más que hasta el fondo


Alguien entra en el silencio y me abandona
Ahora la soledad no está sola.
Tu hablas como la noche
Te anuncias como la sed.

- - - - - - - - - - - - - - - - -

de musica la lluvia
de silencio los años
que pasam una noche
mi cuerpo nunca más
podrá recordarse

- - - - - - - - - - - - - -

Anoche tomé agua hasta las tres de la madrugada. Estaba un poco ebria y lloraba. Me pedía agua a mí como si yo fuera mi madre. Yo me daba de beber con asco.

- - - - - - - - - - - - - -

Esta voz aferrada a las consonantes. Este cuidar de que ninguna letra quede sin enunciar. Hablas literalmente. No obstante, se te comprende mal. Es como si la perfecta precisión de tu lenguaje revelara en cada palabra un caos que se vuelve más evidente en la medida en que te esfuerzas por ser comprendida.

- - - - - - - - - - - - - - -

No eres tú la culpable de que tu poema hable de lo que no eres.


(fragmentos da poesia e dos diários de Alejandra Pizarnik. A frase-título estava em meio aos seus papéis ao ser encontrada morta após uma overdose de seconal.)


Isto não é bonito

Isto não é legível

Isto não é para
crianças

Isto não é linguagem
cifrada

Isto não dignifica o
povo

Isto é o lado de
dentro

da tua porta de fora,
isto

deves conhecer: a
tua mão

colada ao trinco...


-- Gerrit Kouwewaar, no Borras de Café.

Eu abro mão dos rompantes
pela inspiração constante
Não falo em hora marcada
Tão pouco em rima cronometrada
Só não quero longos dias inférteis
Cólicas de um estado quase-poético
Se esvaindo inacabado
Como placas de um endométrio

-- Eu e o Poeta

17.8.03

O sol bate na nuca de minha mãe e seus olhos me queimam de dentro do mar. Meu pai, com a cabeça deitada no barco, parece passar uma fita métrica no céu enquanto se pergunta aonde deixou as chaves do apartamento. Ao lado do baldinho, o vento sacode minha blusa e uma onda inesperada os desmancha na areia.

15.8.03

Joan Brossa


EL RECITAL

El poeta fa un recital acompanyat per un bateria.
En començar hi ha vint espectadors.
Després, deu.
Després, cinc.
Després, tres.
Després, un, que s'aixeca i diu:
-Vol fer el favor de callar, que no
em deixa sentir la música!

-

Poema do cristão

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos mais distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a Sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E, tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!
E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!


-- Jorge de Lima

14.8.03

Isaac Bábel

Infância. Em casa de vovó


Estude e você conseguirá tudo: riqueza e glória.
Tem que saber tudo.
Todos vão cair e rebaixar-se diante de você.
Todos devem invejar você.
Não acredite nas pessoas.
Não tenha amigos.
Não lhes dê dinheiro.
Não lhes entregue o coração.

-

13.8.03

Marquês de Sade


Meu amigo, a religião só impera no espírito dos que nada podem explicar sem ela: é o nec plus ultra da ignorância. Mas a nossos olhos de filósofos, a religião não passa de uma absurda fábula feita unicamente para o nosso desprezo. E que noções, efetivamente, fornece-nos essa religião sublime? Gostaria muito que mo explicassem... Quanto mais a examinamos, mais percebemos que suas quimeras teológicas só são apropriadas a nos embrulhar as idéias: metamorfoseando tudo em mistério, essa religião fantástica nos dá como causa do que não compreendemos alguma coisa que compreendemos menos ainda. Será explicar a natureza atribuir a causa dos fenômenos a agentes desconhecidos, a potências invisíveis, a causas imateriais? Pode o espírito humano se satisfazer quando se lhe diz para tomar como razão do que não entende a idéia mais incompreensível ainda de um Deus que jamais existiu? Pode a natureza divina, da qual nada concebemos, que repugna o bom senso e a razão, fazer conceber a natureza do homem que já achamos tão difícil de se explicar? Indagai a um cristão, quer dizer, a um imbecil, já que só um deles pode ser cristão, qual a origem do mundo: ele responderá que foi Deus quem criou o universo. Perguntai-lhe então o que é Deus: ele não sabe nada a respeito. O que é criar: ele não tem a menor idéia. Qual a causa das pestes, das fomes, das guerras, das secas, das inundações, dos terremotos: dirá que é por causa da cólera de Deus. Indagai-lhe como remediar tantos males: com preces, sacrifícios, procissões, oferendas e cerimônias, responderá. Mas por que o céu está em cólera? É que os homens são maus. Porque sua natureza é corrompida. Qual a causa dessa corrupção? O primeiro homem, seduzido pela primeira mulher, comeu uma maçã que seu Deus lhe proibira de tocar. Quem mandou essa mulher fazer tamanha asneira? O diabo. Mas quem criou o diabo? Foi Deus. Por que Deus criou o diabo, destinado a perverter o gênero humano? Ignora-se... é um mistério escondido no seio da Divindade, ela mesma um mistério. Quereis prosseguir? Perguntai a esse animal qual o princípio escondido das ações e dos movimentos do coração humano? A alma, responderá. E o que é alma? Um espírito. O que é espírito? Uma substância que não tem forma, cor, extensão ou parte. Como uma tal substância pode ser concebida? Como pode movimentar um corpo? Não se sabe, é mistério. Os animais possuem alma? Não. E por que os vemos agir, sentir, pensar absolutamente como os homens? Aí se cala, não sabe o que dizer; a razão disso é simples: se empresta uma alma aos homens, é pelo interesse de fazer disso o que quiser, mediante o poder que se atribui sobre ela; ao passo que não tem o mesmo interesse em relação à dos animais, e que um doutor em teologia seria bastante humilhado pela necessidade que teríamos de comparar sua alma à de um porco. Eis as soluções pueris que somos obrigados a conceber para explicar os problemas do mundo físico e moral! ... Jamais se deve arrancar a venda dos olhos do povo. É necessário que ele se estagne em seus preconceitos, isso é essencial. Onde estariam as vítimas de nossa perversidade se todos os homens fossem criminosos! ... Jamais deixemos de manter o povo sob o jugo do engano e da mentira; apoiemo-nos sem cessar no cetro dos tiranos; protejamos seus tronos: eles por sua vez protegerão a Igreja e o despotismo, fruto dessa união, e manteremos nossos direitos no mundo.

-- Marquês de Sade, séc. 18.

12.8.03

Dicionário do Diabo


G


Genealogia -- importância que um descendente dá ao seu ancestral que, por sua vez, nunca se preocupou muito com isso.

Gentileza -- breve prefácio a dez volumes de cobranças.

Gíria -- discurso do indivíduo dotado de memória auditiva que grunhe com a língua o que ele pensa com os ouvidos; em geral ele muito se orgulha como criador ao conseguir realizar o feito de um papagaio.

Glutão -- pessoa que previne os males da moderação com a prática da dispepsia.

Gnósticos -- seita de filósofos que tentou articular uma aliança entre os primeiros cristãos e os platônicos. A aliança fracassou por falta de representantes cristãos na bancada.

Gota -- nome que os médicos dão ao reumatismo de seus pacientes ricos.

Governo -- organização que sempre leva a culpa de tudo e cujos integrantes são os únicos trabalhadores com direito a decidir sobre o próprio salário.

Gravitação -- força de atração que todos os corpos exercem uns sobre os outros determinada pela quantidade de matéria que contêm; esta quantidade de matéria é determinada pela força da atração mútua exercida. Ilustração louvável e edificante de como a ciência usa A para provar B, e B para provar A.

Guilhotina -- instrumento responsável pelo curioso hábito de dar de ombros dos franceses. Não há registros desse hábito comum antes da Revolução Francesa.

-- Ambrose Bierce, 1911.

11.8.03

Kafka em "Cartas a Milena"



-- Esta manhã tornei a sonhar contigo. Estávamos sentados, juntos, e tu me afastavas, não com maus modos, porém amavelmente. Eu me sentia muito infeliz. Não porque me afastasses, porém por minha culpa, porque te tratava como a uma silenciosa qualquer, e não percebia a voz que falava em ti, que justamente me falava, a mim. Ou talvez não fosse que não a percebesse, porém que não pudesse responder. Mais desconsolado ainda do que no outro sonho, eu me ia.

Ocorre-me à memória algo que uma vez li em alguma parte, mais ou menos assim: "Minha amada é uma coluna de fogo que traslada pela terra. Agora me tem preso. Mas não conduz aqueles que prendeu, porém aos que a vêem."

Teu.

(Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.)


9.8.03

Copacabana


Onde nunca me foi tão desnecessariamente necessário
o anjo torto de Carlos
a sopa de água dos poetas
as cartas parabólicas
e o sol a queimar

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

-- Bernardo Soares, em "Livro do Desassossego". Retirado do Silêncio.

8.8.03

Arte de desamar


Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.

As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.

Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.

Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.

Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.

Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.


-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.

5.8.03

Patrícia Galvão

instrução publica


Escola Normal do Braz. Reduto pedagogico da pequena burguezia. O estudo não é muito caro. Os paes querem que as filhas sejam professoras, mesmo que isso custe comer feijão, banana e brôa todo dia.

O predio grande, amarelo e sujo. O jardim de formigas do jardineiro José. Eternas serventes. O porteiro bonito que estuda Direito. O secretario anão e poeta. As professoras envelhecendo, secando. Os lentes sem finalidade. O sorveteiro. O amendoim torrado. As meninas entrando, saindo. Bem vestidas. Mal vestidas. As bem vestidas são as filhas dos medicos do Braz e a Matilde, a filha daquela girl do Arruda. Todas acham ela bonita. Tem o sorriso triste. Os olhos muito verdes. As coxas aparecendo sob o jersey curtissimo. Paga sorvete pra todas. Cada lanche! Como corista ganha! Mas ela não conta pra ninguem que já trabalhou na Fabrica.

Linguas maliciosas escorregam nos sorvetes compridos. Peitos propositaes acendem os bicos sexualisados no "sweater" de listas, roçando.
O caixeirinho de calçados morde de longe.
Clelia, a portuguezinha chic, lisa como uma tabôa, sorri na boca enorme para um estudante rico.
-- Fedorzinho! Não se enxerga.
-- Deixa de historia. É o José Mojica em pessôa. Principalmente com a camisa alta.
-- Outro dia encontrei ele em Santana com a Dirce.
-- Ah! Você sabe que o pae encontrou ela numa casa de tolerancia na rua Aurora? Com um homem casado...
-- Quem é que não sabe. Por isso que ela não tem vindo. Diz que ele vae botar ela no Bom Pastor.
-- Por isso é que as normalistas têm fama. Desmoralizam a gente.
-- Ora, vae saindo! Ela foi examinada e é virgem. Ela não faz mais do que você no Recreio Santana e do que eu em Santo Amaro.
-- Mas eu nunca entrei num quarto...
-- Olha lá o decote da Edith. Ela vem assim só pra mostrar os peitos na aula de desenho.
Os bigodinhos estacionam nas esquinas. O diretor não quer estragar o nome da Escola com o escandalo diario dos pares amorosos. Nenhum homem póde parar perto do portão. Mas as saias azues se enroscam nas esquinas.

Eleonora da Normal beija a Matilde que entrou de novo. Como um homem.
O sino pesado chama na mão do porteiro.
-- Bom dia, seu Carlos!
-- Bom dia, Branquinha!
Não trata ninguem de dona. O bando azul e branco caminha pelo roseiral maltratado até a escada grande. As mãos custam a se despregar nos corredores.
-- Entrem... Entrem...
-- Só mais um sorvete, seu Carlos!
Sobem aos grupos, abraçadas.
-- Se você visse que suco o vesperal do Tennis!
-- Eu não tinha vestido, sinão ia ao Teyçandaba.
-- Eu fui ao Politeama.
-- Vá saindo. Com aquela cafagestada!
-- Você viu a Cinearte de hoje? Fala do cinema russo...
-- Escuta! Você sabe o que é o comunismo?
-- Não sei nem quero saber.


-- Em "Parque Industrial", 1933. Reproduzido de edição fac-similar.

3.8.03

A confissão de Bernardo Vasques
(retirada do Arquivo das Confissões)

Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.


"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."


-- Macau


31.7.03



Mensagem


Não venhas mais, querida, me encontrar!
Vais pisar, se o fizeres, no salgueiro
que plantei, recordando o alvissareiro
primeiro dia em que vieste, ao luar.

Não poderei mais ver-te. Sou escrava
da vontade inflexível de meus pais,
dos quais, quando lhes disse que te amava,
ouvi palavras ásperas demais.

Não pules outra vez o nosso muro!
quebrarias as hastes delicadas
do sândalo que rego ao claro-escuro
de evocativas, doces madrugadas.

O meu irmão, amor, também não quer
que te veja outra vez, infelizmente
o destino me fez simplesmente mulher
e devo ser humilde e obediente.

Nem arranques, num gesto impaciente,
a sebe junto à qual, um dia, enfim
me abraçaste... fazendo-o, deixarias
sem proteção as flores do jardim
confidentes, nas longas tardes frias,

do meu amor sem fim...


Despedida

O teu lenço de seda, umedecido
de lágrimas, deixaste meigamente
quando subiste ao carro, em minha mão.

Fiquei vendo teu vulto estremecido
que sumia. Meu pranto amargo e quente
molhava a poeira que cobria o chão.

Na tua direção, forte lufada
de vento sopra, agora; então me agarro

à esperança falaz de que a dourada
poeira, por minhas lágrimas molhada,

alcance, ainda, as rodas do teu carro...


-- poesia vietnamita, autor desconhecido.

30.7.03

Antonin Artaud


Toda escrita é porcaria.
Todos aqueles que saem de um lugar qualquer, para tentar explicar seja lá o que lhes passa no pensamento, são porcos.
Toda gente literária é porca, especialmente essa do nosso tempo.
Todos os que possuem pontos de referência no espírito, quero dizer, de um lado certo da cabeça, sobre lugares bem demarcados do cérebro; todos aqueles que são mestres da língua; todos aqueles para quem as palavras têm sentido; todos aqueles para quem existem elevações da alma e correntes do pensamento, aqueles que são o espírito de sua época e que nomeiam essas correntes do pensamento; penso nas suas mesquinhas atividades precisas e nesse ranger de autômatos vomitado para todos os lados por seu espírito;
-- são porcos.
Aqueles para os quais certas palavras têm sentido e certas maneiras de ser; aqueles que têm tão boas maneiras; aqueles para quem os sentimentos podem ser classificados e que discutem um grau qualquer das suas hilariantes classificações, aqueles que ainda acreditam em "termos"; os que mexem com as ideologias de destaque na época; aqueles cujas mulheres falam tão bem, e suas mulheres também, que falam tão bem, e falam das tendências da sua época; os que ainda acreditam numa orientação do espírito; os que seguem caminhos, que acenam com nomes, que fazem gritar as páginas dos livros;
-- esses são os piores porcos.
Moço, como você está sendo gratuito!
Não; penso nos críticos barbudos.
Já falei: nada de obras, nada de língua, nada de palavras, nada de espírito, nada.
Nada a não ser um belo Pesa-Nervos.
Uma espécie de parada incompreensível e bem levantada no meio de tudo no espírito.
E não esperem que eu nomeie esse tudo, diga em quantas partes se divide, qual é o seu peso, que eu entre nessa, que me ponha a discutir esse todo, e que discutindo me perca e assim comece, sem saber, a PENSAR -- e que se esclareça, que viva, que se atavie com uma multidão de palavras, todas bem untadas de sentido, todas diferentes, capazes de expor todas as atitudes, todas as sutilezas de um pensamento tão sensível e penetrante.
Ah, esses estados nunca nomeados, essas situações eminentes da alma; ah, esses intervalos do espírito; ah, essas minúsculas falhas que são o pão cotidiano das minhas horas; ah, essa formigante população de dados -- são sempre as mesmas palavras que eu uso e na verdade pareço não avançar muito no meu pensamento, mas na realidade avanço muito mais que vocês, burros barbados, porcos pertinentes, mestres do falso verbo, masturbadores com fotografias, folhetinistas, rés-do-chão, engordadores de gado, entomologistas, chaga da minha língua.
Já disse, eu perdi a fala, isso não é motivo para que persistam, para que insistam na fala.
Chega, serei compreendido daqui a dez anos pelas pessoas que então estiverem fazendo o que vocês fazem agora. Então conhecerão meus mananciais de água fervente, verão minhas geleiras, aprenderão a neutralizar meus venenos, entenderão os jogos da minha alma.
Então todos os meus cabelos estarão grudados na cal da vala comum, todas as minhas veias mentais; então enxergarão meu bestiário, e minha mística terá se transformado em bandeira. Então verão as juntas das pedras fumegarem, arborescentes ramalhetes de olhos mentais se cristalizarão em glossários; então verão tombarem aerólitos de pedra; então verão cordas; compreenderão a geometria sem espaço; entenderão a configuração do espírito, e saberão como perdi meu espírito.
Então compreenderão por que meu espírito não está mais aí; verão todas as línguas se paralisarem, todos os espíritos ressecarem, todas as línguas se encarquilharem, os vultos humanos se achatarem e desinflarem como se aspirados por ventosas sugadoras; e esta lubrificante membrana continuará flutuando no ar, esta membrana lubrificante e cáustica, esta membrana com dupla espessura, inúmeros níveis, uma infinidade de fendas, esta melancólica e vítrea membrana, porém tão sensível, tão pertinente, tão capaz de se desdobrar, se multiplicar, de dar voltas com sua reverberação de fendas, sentidos, estupefacientes, irrigações penetrantes e contagiosas;
então acharão que está tudo muito bem,
e não precisarei mais falar.

-- Antonin Artaud, em "O Pesa-Nervos", 1924-27.


29.7.03

Dicionário do Diabo



F


Fácil -- diz-se da mulher que tem a moral sexual de um homem.

Fanático -- indivíduo que defende obstinada e ardorosamente uma opinião diferente da nossa.

-- crer sem evidências em algo que alguém disse sem conhecimento sobre coisas sem fundamento.

Felicidade -- agradável sensação que nasce da observação da desgraça alheia.

Fidelidade -- virtude peculiar daqueles que estão a ponto de serem traídos.

Filantropo -- indivíduo idoso e rico que aprendeu a sorrir enquanto a consciência lhe bate a carteira.

Filisteu -- indivíduo cuja mente é produto do ambiente e da moda, seja no pensamento ou sentimentos. Às vezes ele é culto, em geral próspero, vulgarmente íntegro e sempre solene.

Filosofia -- caminhos de muitos atalhos que levam de lugar nenhum a nada.

Filósofo -- indivíduo cego numa casa escura que procura um chapéu preto que não existe.

Finanças -- a arte ou ciência de administrar rendas ou recursos para auferir vantagens para o administrador.

Fisionomia -- a arte de determinar o caráter de uma pessoa através de semelhanças e diferenças entre o seu rosto e o nosso, considerado padrão de excelência.

Fonógrafo -- brinquedo irritante que dá vida a sons mortos.

Fotografia -- um quadro pintado pela luz, dispensa formação artística.

Fronteira -- em geografia política, uma linha imaginária entre dois países que divide os direitos imaginários de um dos direitos imaginários de outro.

Funeral -- cerimônia em que se prova o respeito pelos mortos engordando o bolso dos agentes funerários.

Futuro -- aquele período do tempo em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade é garantida.


-- Ambrose Bierce, 1911.

27.7.03

Bertrand Russell


Como podemos tornar-nos um homem de gênio


Se há entre os meus leitores jovens que aspiram tornar-se líderes do pensamento da sua geração, espero que evitem certos erros em que caí quando era novo por falta de bons conselhos. Quando desejava formar uma opinião sobre um certo assunto, costumava estudá-lo, avaliar os argumentos a favor dos diversos pontos de vista e tentar chegar a uma conclusão ponderada. Descobri depois que esta não é a maneira de fazer as coisas. Um homem de gênio sabe tudo sem precisar de estudar; as suas opiniões são pontificais e o seu caráter persuasivo não depende de argumentos, mas do estilo literário. É necessário ser parcial, pois isso facilita a veemência, que é considerada uma prova de força. É essencial apelar a preconceitos e a paixões de que os homens começaram a se sentir envergonhados, bem como fazer isso em nome de uma nova ética inefável. É bom rebaixar as mentes lentas e tacanhas que exigem dados para chegar a conclusões. Acima de tudo, deve-se apresentar aquilo que é mais antigo como se fosse a coisa mais inovadora.

Esta receita para ser gênio não é nova. Foi seguida por Carlyle no tempo dos nossos avós, por Nietzsche no tempo dos nossos pais e tem sido seguida no nosso tempo por D. H. Lawrence. Os discípulos de Lawrence pensam que ele anunciou toda uma nova sabedoria sobre as relações entre homens e mulheres. Na verdade ele voltou atrás, defendendo o domínio dos homens que nós associamos aos homens das cavernas. Na sua filosofia, as mulheres existem apenas como uma coisa macia e gorda para repousar o herói quando este regressa das suas ocupações. As sociedades civilizadas têm aprendido a ver mais que isto nas mulheres, mas Lawrence não quer nada da civilização. Ele quer limpar o mundo para manter o que é antigo e obscuro e adora os vestígios da crueldade azteca no México. Os jovens, que têm aprendido a comportar-se, leem-no naturalmente com prazer e andam por aí a proceder como homens das cavernas na medida em que os costumes da sociedade educada o permitem.

Um dos elementos de sucesso mais importantes para te tornares um homem de gênio é aprender a arte da denúncia. Deves fazer sempre as denúncias de maneira a que o leitor pense que são os outros que estão a ser denunciados e não ele próprio. Assim ele ficará impressionado com o teu nobre desdém, enquanto que se pensar que o estás a denunciar vai considerar-te culpado de impertinência malcriada. Carlyle comentou: “A população da Inglaterra é de vinte milhões de pessoas, sobretudo idiotas.” Todos os que leram isto consideraram-se uma das exceções, e por isso apreciaram o comentário. Não podes denunciar classes bem definidas, como pessoas com mais que um certo rendimento, habitantes de uma certa área ou crentes num certo credo definido, pois se o fizeres alguns leitores perceberão que a tua invectiva se lhes dirige. Tens que denunciar pessoas cujas emoções são atrofiadas, pessoas às quais só o estudo penoso pode revelar a verdade, pois todos sabemos que essas são outras pessoas, e por isso veremos com simpatia o teu poderoso diagnóstico dos males da época.

Ignora os fatos e a razão, vive inteiramente no mundo das tuas próprias paixões fantásticas criadoras de mitos; faz isto empenhadamente e com convicção, que assim te tornarás um dos profetas da tua época.

(“How to Become a Man of Genius”, Hearst newspapers column, 1932.)


26.7.03

Eu nunca quis ser Florbela Espanca


Não, eu não posso ser Florbela Espanca. Quando acordo, leio Pagu, eu queria saber fazer versos simples para falar de amor. Falar que na hora do café da manhã eu beberico Amália Rodrigues. E que na hora do almoço leio Sylvia Plath. Me suicido com uma sobremesa. É hora do chá, cinco da tarde: Elizabeth Bishop cresce na minha sala pelos copos d'água. E se a hora é de banho, Ana C chove sobre mim enquanto a tarde cai. Dolores Duran ou Rita Lee? Adriana diz que eu tenho meia hora pra mudar a minha vida na cinza das horas. Minha mãe não era poeta mas era minha Marina e o seu coração respira ainda selvagem no meu travesseiro: o lustre de Clarice.

24.7.03

Meu coração a nu


Conselho aos não-comunistas:
Tudo é comum, mesmo Deus.


-- Charles Baudelaire

23.7.03

A medicina está acabando com a poesia. Hoje o sujeito sente os tormentos da alma e toma um antidepressivo. Na euforia, receitam-lhe um zepan qualquer. E o cara volta à merdiocridade que não produz nada, exceto dinheiro para o patrão e os impostos. Fernando Pessoa, se vivesse nos dias de hoje, não legaria nada à humanidade. Em qualquer farmácia vagabunda encontraria pelo menos dez remédios para cada heterônimo. O mesmo se aplica às demais artes, mas não vai dar tempo de escrever a respeito. Acabei de tomar um diazepan e não lembro onde foi que deixei meu senso crítico.


-- Catarro Verde

22.7.03

Chico Buarque


Torno a me lembrar do meu amigo olhando o horizonte, seus cabelos molhados negros como nunca, e ele agora se penteia com mais vagar que antes. Provavelmente se sentindo lembrado, tira logo proveito da situação. Traga um cigarro, que na lembrança anterior nem existia, e fica se deixando olhar, como um ator de perfil. Que se vira para mim de repente, querendo me surpreender, com um brilho nos olhos que me incomoda de novo. E já vai anoitecer sem que eu tenha conseguido olhar seus pés. Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois por algum viés da lembrança. Talvez dar órbita de hoje aos olhos daquele dia. E é assim que vejo finalmente os pés do meu amigo, pelo rabo do olho da lembrança. Vejo mas não sei como são; são pés refratados dentro da água turva, impossíveis de julgar.
Imagino meu amigo recebendo rapazes no apartamento. Meu amigo no sofá da sala, tomando campári e dizendo poesia para os rapazes. Com os pés descalços no sofá, mas disfarçados entre as almofadas, meu amigo passando os cabelos para trás da orelha, e imagino algum rapaz se irritando com a coisa toda. Meu amigo abrindo o álbum dos poetas franceses, e o rapaz encolhendo-se no sofá. E enchendo-se de ódio, e sofrendo de um outro ódio por não entender que ódio cruzado é aquele que o domina, e que é feito de muita humilhação e que é desprezo ao mesmo tempo. Imagino a poesia sendo interminável e o rapaz enlouquecendo, indo buscar uma corda no varal, ou uma faca na cozinha, mas daí para a frente já não dá para imaginar, porque o meu amigo nunca seria professor de ginástica. Lembro-me mais uma vez dele ao meu lado, olhando o horizonte, os braços apoiados na borda da piscina, e nem bíceps o meu amigo tinha. Lembro-me do instante em que ele ergueu o copo, agitou o copo seco com uma rodela de limão grudada no fundo, e fez menção de se levantar para reforçar a caipirinha. Ameaçou trazer os pés à tona, e eu os veria de muito perto, como vi anos depois os pés do morto. Agora me dá grande aflição a idéia de ter visto os pés do meu amigo, pés que eu olharia tranquilamente no tempo da lembrança. Mas o gesto instintivo deve ser reflexo de uma intenção que está noutro tempo. E naquela tarde eu pus a mão no seu joelho sem saber por que o fazia, e disse "não". Arranquei-lhe o copo e fui preparar a caipirinha dupla.


-- Em "Estorvo", 1991.

20.7.03

UM TEXTO LONGO, SIM. Ora, não me lixem. Às vezes há distracções nos blogs, naturalmente, e vê-se onde cada um quer chegar — a qualquer lugar muito longe, a qualquer lugar muito perto. Mas irrita-me muito aquele ar de circunspecção polida, muito culta e importante, escandalizada e correcta ao mesmo tempo. Todos querem ser o «observatório que não é observado», aquele que repara em todos os defeitos dos outros, aquele a quem nada comove, aquele para quem uma coisa é sempre outra, muito pior, muito enganadora. Ah, eu sei, todos sabemos, as pessoas fingem, exibimo-nos em todo o lado, citam-se livros, fala-se de filmes, discos, bandas, viagens, retratos, tudo o que comove. Mas irrita-me o tom, esse tom de quem desconfia que só o próprio é que lê os livros que leu — e leu, certamente. Mas as mentiras dos outros também são agradáveis, detectam-se com facilidade, paira sobre elas uma aura de vulgaridade. Desiludimo-nos? Não: a vida é assim mesmo, contabilizamos doutoramentos com bibliografias frágeis, artigos com rabos de fora. Irrita-me quem veio aos blogs para moralizar e evangelizar, espalhar a verdade, ganhar adeptos, praticar a pior das coisas que é o proselitismo no meio da tempestade e da desgraça. Porque se não houvesse desgraça não havia «blogosfera» (essa comunidade de cinquenta e seis ou oitenta e dois amigos que se conhecem e falam uns para os outros, e se cumprimentam, se visitam, se irritam), as pessoas viam televisão e faziam piqueniques debaixo dos sobreiros ou iam à pesca para a beira do mar. Mas irrita-me isso, sim, essa tendência para não ironizar, para fazer de tudo uma campanha brutal contra a fragilidade dos outros e contra os seus pecados, as suas falhas, as suas indignidades, as suas mentiras — está tudo tão à vista, aqui.
Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes?
Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo. Essa fragilidade é um bem porque podemos discutir com ela — ou comover-nos. Ah, mas claro que a comoção é um perigo, tal como a pieguice, a lamechice, o horror aos outros, sim, claro que é. Mas pior do que isso vão ser os blogs dos deputados quando o parlamento publicar o livro de estilo (será como o código de conduta do Expresso?).
E por que é que os oitenta e dois amigos ou os cinquenta e seis conhecidos não hão-de poder falar uns para os outros? Entre mil blogs portugueses, por que é que não se hão-de conhecer e dizer «piadas privadas» e falar do que lhes apetece? E por que é que tem de começar a haver auto-censura estabelecida para que fulano não desça do púlpito, a desancar? Não me lixem. Vigiemo-nos, comentemo-nos em regime de permanência. Por que é que não se há-de ser a poeira da praia?
A nossa escravidão, desde a infância, é definir «posse» e «poder». O vazio é o único lugar de encontro quando descobrimos essas circunstâncias — e, nesse lugar, compreender não é concordar, tal como discordar não significa não compreender. Um comentador do Talmude dizia que devíamos fugir da superstição e da crendice, das faúlhas do céu — mas que, na verdade, não se pode viver sem essa chama de irracionalidade, tal como a certeza absoluta é um acto de idolatria, de imprescindibilidade — e a imprescindibilidade é a idolatria com pés de barro. O que tem a ver com outra característica que anda aí à solta, oscilando entre a agressividade e a vitimização: ambas são compensações, claro, compreensíveis, somos humanos, tão humanos. Nos blogs, a única coisa a cobiçar é a aceitação dos outros, o reconhecimento — não os livros que os outros leram ou não leram , os actos de censura, a comunhão ideológica. Isso é tão humano como a chama de irracionalidade que não se pode afastar da vida inteira, sob pena de a «vida inteira» ser só «parte dela», a mais visível, a mais autoritária, a mais inflexível. Quem tem listas de reivindicações sobre o presente e culpados permanentes a apontar, vê reduzida a sua margem de criatividade.
E o riso. O riso de todas as maneiras. O riso devia ser o centro de muitos debates, contra o risco de intelectualizar toda a linguagem, isto é, de lhe criar uma autoridade escolar em anexo (sim, como attachment). Há pessoas que riem muito, há pessoas que riem pouco, há pessoas que só riem e há gente que não ri nem sabe rir. Não é obrigatório rir em nenhuma circunstância (o Nuno Costa Santos criticava essa tendência para a «obrigatoriedade do humor» nos blogs, a obrigatoriedade de se «ser engraçado»), mas o riso é um caminho que nunca se pode evitar. Tal como a ironia, a piada. A pequena piada. E rir de si próprio sobretudo, não se levar tão a sério.


-- Aviz

19.7.03

(Mulher
o que você quer mesmo de mim?
estou de joelhos a teu lado
esperando manhãs
veja estas bandeiras
versos do espaço
encruzilhada de cores
só pra te ver
esmolo dias
de deuses esquecidos
meus avós são cacos de portas
onde escrevo teu nome
como num sonho de noivas.)

Anotações de aula


Neurose= desorganização simbólica. Recalque= defesa do psiquismo contra as demandas do princípio do prazer. O neurótico adoece de nostalgia (comprar sem falta "Suíte p/ Piano de Brinquedo"). Seio materno arcaico ( devo tocar?). Sexualidade não são só as práticas sexuais mas a representação do desejo (hum, Freud). O próprio desejo se desrealiza c/ a aproximação do objeto (passar na farmácia p/ trocar protetor solar c/cheiro de azeite). Só o neurótico resolve o recalque via sublimação (papinho chato, programão). Diferença entre neurótico e utopista (essa eu quero ver). Discutir pq as imagens se sobrepõem às palavras (think globally, fuck locally). Proposta de debate: "Se algo cheira mal, tampe" (Confúcio, ahrá). "A literatura é algo p/ ser observado, um descanso, um pensamento, uma marca, não um campo de análise" (Foucault? MEU CORPO NÃO É OBJETO DO MEU EGO, NÃO VIVE P/SATISFAZER O MEU ORGULHO, MAS P/ME DAR A ALEGRIA E SATISFAÇÃO DO CORPO VIVO). (Enquanto eles discutem eu penso em destituir esta classe e eleger uma nova, nunca ouvi tanta bobagem ao mesmo tempo, o q estou fazendo aqui?, eu nunca quis ser professora, deixa eu olhar pras paredes, eles são jovens, eles acreditam no retorno espiritual do investimento, a gramática do mercado, eles não pensam em apanhar moscas, quando eles nasceram eu já tomava Blue Sky, eu já sabia que a vida se paga com a morte, que as idéias são muletas intelectuais, que a psicanálise não passa de egorragia, que os políticos comem no mesmo cocho, que eu não preciso de ninguém para enfeitar o meu bunker caseiro, que qualquer migalha pode me tirar do tédio, que é fácil se desmascarar com quem não tem coragem de fazer o mesmo, que a areia é tudo o que os meus pés tocam daqui ao horizonte, que pilotar o imaginário não precisa de trilhas marcadas, que eu não preciso comprar jornais para saber de mentiras, que a literatura que todo mundo gosta é a literatura lounge, que eu sempre vou ter fome de tudo, que eu tenho fome agora e vou esquentar minha lentilha, onde deixei mesmo o meu potinho de chutney?

18.7.03

Dicionário do Diabo



E


Economia -- comprar um barril de uísque que você não vai precisar pelo preço de uma vaca que você não pode pagar.

Economista -- especialista que saberá amanhã por que o que previu ontem não aconteceu hoje.

Educação -- a hipocrisia mais aceitável.

Egoísta -- aquele que não tem consideração pelo egoísmo dos outros.

Egotista -- pessoa de mau gosto que está mais interessada em si mesma do que em mim.

Eleitor -- indivíduo que goza do sagrado privilégio de votar em alguém que outra pessoa escolheu.

Emancipação -- quando um indivíduo troca a tirania de uma pessoa pelo despotismo de si mesmo.

Entusiasmo -- perturbação da juventude que se cura com pequenas doses de arrependimento e algumas aplicações de experiência.

Epitáfio -- inscrição tumular que demonstra que as virtudes adquiridas com a morte têm efeito retroativo.

Ermitão -- pessoa cujos vícios e insensatez não são sociáveis.

Erudição -- poeira que se sacode dos livros para dentro de um cérebro vazio.

Escrituras -- os livros sagrados de nossa sagrada religião; distinguem-se dos escritos falsos e profanos nos quais se baseiam todas as outras religiões.

Esotérico -- tudo que é particularmente obscuro e consumadamente oculto. As filosofias antigas eram de duas espécies: "exotéricas", que os filósofos eram capazes de entender parcialmente, e "esotéricas", as que ninguém conseguia entender. Estas últimas foram as que mais influenciaram o pensamento moderno.

Esquecimento -- dádiva divina concedida aos médicos como compensação por serem destituídos de consciência.

Estafa -- perigoso distúrbio que acomete funcionários públicos de alto escalão sempre que estes desejam férias.

Etnologia -- ciência que estuda as várias tribos humanas, como os ladrões, vigaristas, ignorantes, lunáticos, idiotas e etnólogos.

Exceção -- diz-se daquilo que toma a liberdade de diferir de outros de sua classe, assim como um homem honesto, uma mulher sincera etc.

Excêntrico -- método vulgar de distinção utilizado pelos imbecis para acentuar sua incapacidade.

Executivo -- autoridade governamental cujo dever é garantir o cumprimento da vontade do poder legislativo até o momento em que o judiciário a invalide.

Exilado -- diz-se daquele que, sem ser um embaixador, serve ao seu país indo morar em terra estrangeira.

Experiência -- sabedoria que nos permite reconhecer como indesejáveis todas as loucuras que já desejamos.


-- Ambrose Bierce, 1911.



15.7.03

Nelson Rodrigues

Bem me lembro dos meus cinco, seis anos. O vizinho era, então, todo o meu horizonte humano. Ainda vejo as pessoas que moravam ao nosso lado, ou em frente, ou na esquina. Os sujeitos se cumprimentavam assim: "Bom dia, vizinho. Como vai, vizinho?" E a simples palavra tinha uma tensão, um frêmito, uma magia. Era como se o "vizinho" fosse um enfático nome wagneriano, uma espécie de Lohengrin prodigioso.
O mundo era aquela meia dúzia de vizinhos. E justamente a Lili veio morar duas ou três casas adiante da minha. Hoje ninguém se chama Lili. Lili é um nome nostálgico, obsoleto, espectral. Naquele tempo, não. Em cada rua havia uma Lili, ou duas, ou até três. Havia um pó-de-arroz que se chamava Lili. Minto. Não era Lili, era Lady. Também havia Odetes por toda parte. Ao passo que, hoje, somos um povo de poucas Odetes.
Lili. Conheci o nome antes da pessoa. Um dia, eu estava na mesa, tomando café com macaxeira. E então alguém falou em Lili. Achei o nome lindo. Lili. Aquilo ficou gorjeando em mim. Faço, porém, a ressalva: aos cinco, seis anos, não se faz nenhuma seleção auditiva. Para mim, qualquer nome era bonito. Morava na rua Dona Maria um "seu" Sepúlveda. Era capitão da Guarda Nacional e tinha bigodões. Sepúlveda, ou qualquer outro nome, vem com um halo de mistério, de graça e de espanto. Que vontade tive de me chamar Sepúlveda!
E Lili foi, exatamente, a minha primeira paixão de menino. Antes de vê-la, eu a amei. Amei o puro nome, o puro som. Era a primeira Lili da minha infância. Cinco anos tinha eu. Ou seis. Vá lá, seis. Sentia que aquele nome insinuava um mistério ou, mais do que isso, um destino. Fui varado por um sentimento de pena e de medo. Como se Lili fosse alguém que já morreu e que só aparece, por um momento, na memória dos espelhos.
Até que, uma manhã, ou tarde, sei lá, eu a vi. E de repente Lili deixou de ser apenas um som. Passava a ter um olhar, um perfil, um gesto. E era gorda. Hoje ninguém vê uma gorda sem lhe acrescentar um ponto de exclamação. Vivemos uma época tão sem busto, tão sem quadris, que ninguém entenderia a Lili de 1918. Os homens eram magros, tinham a face e o peito cavos. Mas a mulher podia ser gorda, ou, melhor, devia ser gorda. A partir dos catorze anos, os quadris e os bustos explodiam. Simples adolescentes tinham os flancos tão pesados que precisavam se pôr de perfil para atravessar as portas. Lili era a gorda em flor...

-- Nelson Rodrigues, em "Um menino de paixões de ópera", 1967.

13.7.03

A traição



quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse


-- Alexandre O'Neill
Ah como compreendo os transsexuais. Nascem com sentir e atitude de mulher num corpo de homem; e vice-versa.
Compreendo-os porque padeço de um mal semelhante. Ah como eu gostava de ter nascido Marquês, ou ir à ópera e ouvir dizerem-me: Sr. Comendador isto, Sr. Comendador aquilo. E de viver num mundo de glamour, oferecer às top-models anéis de diamantes, beber champagne e fumar Cohibas na minha limousine, vestir nos melhores costureiros, sapatos italianos, golf, aparecer na Caras a almoçar no saloio e very tipical Gigi, ter um jacto e uma ilha, uma herdade com trinta puros lusitanos, casa de praia e de montanha e em Courchevel e em Paris e New York... Sei lá, nem sei bem o que tenho. E o meu escritório - onde nunca vou, aliás - ser imensamente, mas imensamente, melhor que a Penthouse da Segurança Social do Algarve, recheado com doze secretárias e quinze assessoras de mini-saia e wonderbra. Uma vida de diletante, interessar-me por arte, ser dono de uma colecção riquíssima, mas riquíssima mesmo, de pinturas, escrever as minhas memórias aos quarenta anos, fazer fotografia submarina nas caraíbas e caçar leões no Quénia. Tenha a bondade Sr. Presidente, faça o obséquio Sr. Governador.
Que vida a minha! Só gosto de coisas caras, quando gosto de alguma coisa e me apetece comprar, como por mau-olhado, é sempre caríssima! Uma vez em Veneza vi, numa loja, uns óculos, enchi-me de coragem, entrei, a menina diz: uma mole de milhões de "liri"; saí com o rabinho entre as pernas, optei por continuar de férias. Gosto da etiqueta Gant, mas já que não posso comprar o catálogo todo, não tenho nem uma peça.
E as pessoas confundem-me com um avarento, porque não me compreendem; já que não posso comprar o que gosto, não compro nada.
Não haverá nenhum procedimento cirúrgico ou, até, uma terapia génica para eu me transformar no grande Gatsby cá da minha terra?


-- Impressões de um Boticário de Província

12.7.03




O melhor que tenho a fazer

Estive pensando que devo escrever um livro. Tenho todas as condições necessárias para concluir o meu projeto:

1º) Quase todo escritor se isola para escrever um livro. Eu vivo em completo isolamento. Creio até ser portadora de um pouco ou muito de fobia social.

2º) É preciso ter tempo para escrever. Tempo é o que mais tenho. Tempo não é dinheiro. Falta de tempo é dinheiro. Portanto eu tenho todo o tempo do mundo ao meu inteiro dispor.

3º) Aquela frase "Fulano não pode ser interrompido, está escrevendo" vai muito bem em escritores de verdade, mas soa como falta de educação para quem está escrevendo a lista do supermercado ou fazendo o rol de roupa suja. Da próxima vez eu estarei escrevendo um livro, portanto não serei mal-educada.

4º) Geralmente escritores não se preocupam nem um pouco com aquelas coisas corriqueiras e chatas como "de que jeito vou pagar o aluguel". Todo escritor tem alguém que pague as contas, suponho, do contrário morreria de inanição antes de escrever o primeiro livro. A princípio, escritores não têm preocupações, senão não poderia escrever direito. Eu, determinantemente não me preocupo com nada, portanto...se alguém vier cobrar alguma coisa ainda tenho aquela frase: "Fulana está escrevendo. Não pode ser interrompida". Só espero que o cobrador entenda e não queira perturbar um gênio em criação.

5º) Escritor é excêntrico, estranho, e sai por aí com os cabelos desgrenhados e pode ficar até 3 dias sem tomar banho. Ninguém vai chamá-lo de porco. Ele é só um escritor. Ainda não fiquei três dias sem tomar banho, mas posso tentar.

As vantagens morais são relevantes e extraordinárias:

6º) Ninguém vai perguntar se já arranjei o que fazer ou me colocar a alcunha de vagabunda. Por mais que possa parecer estranho, escrever é trabalho sim. Pode até não ser remunerado, mas é. Pescador quando sai pro mar e não pega peixe nenhum também está trabalhando. Não é não?

7º) Se alguém perguntar "o que você faz?" vou ter alguma coisa mais concreta para responder em lugar de ficar procurando na memória qualquer uma das minhas aptidões sem efeito para justificar a minha total falta do que fazer.

8º) Por fim, se alguém perguntar por que não apareço nas festas da família, onde está enfiada aquela sua irmã, ninguém mais vai ter que inventar uma desculpa esfarrapada. Basta dizer: "Ela está recolhida escrevendo um livro" . Em lugar de "outra vez?", eles ouvirão orgulhosos: "É mesmo?". Pensando bem, se todos os argumentos acima não valerem, vale livrar a cara da família do vexame de ter alguém com o mesmo sobrenome que odeia festas.

Apenas um senão sem importância nenhuma: eu não sei, realmente, escrever. Refuto prontamente e com ardor: Paulo Coelho também não sabe e escreve sem vergonha nenhuma, inclusive é lido desavergonhadamente. Tão desavergonhadamente que está com os burros na sombra e toma chá na Academia Brasileira de Letras. Escrevo tão porcamente quanto ele portanto meu futuro está garantido e meus alfarrábios vão valer fortuna, se a premissa for válida. Eu acho que é.

A outra porcaria de senão é: sobre o que mesmo é que vou escrever?


-- Teruska.

10.7.03

Dicionário do Diabo



D


Decidir -- sucumbir à preponderância de um conjunto de influências em detrimento de outras

Dejeuner -- o café da manhã de americanos em Paris. Admite várias pronúncias.

Delegação -- em política, diz-se de mercadoria despachada em grupos.

Deliberação -- ato de examinar o pão de alguém para determinar de que lado está a manteiga.

Democracia -- forma de governo que substitui conselhos de poucos corruptos pela eleição de muitos incompetentes.

Dependente -- aquele que se fia na generosidade alheia para obter a ajuda que não tem condição de arrancar.

Destino -- autoridade do tirano para o crime. Desculpa do idiota para o fracasso.

Dez mandamentos -- condições mínimas e necessárias para não ser um ser humano.

Dia -- período de 24 horas, a maioria das quais mal aproveitadas. O período divide-se em duas partes: o dia propriamente dito e a noite, ou dia impropriamente dito. Dedica-se o dia aos pecados dos negócios e a noite, ao inverso. Estas duas espécies de atividade social se confundem.

Diagnóstico -- prognóstico de uma enfermidade feito por um médico que leva em conta os sintomas e o bolso do paciente.

Difamar -- mentir a respeito de alguém. Falar a verdade a respeito de alguém.

Digestão -- a conversão de víveres em virtudes. Quando o processo é imperfeito, arrota-se vícios.

Dinheiro -- passaporte para a sociedade civilizada.

Diplomacia -- a patriótica arte de mentir pelo país.

Diplomático -- diz-se de todo aquele que nos manda à merda de um jeito tão especial que ficamos ansiosos para que a viagem comece logo.

Discussão -- método de reafirmar os outros em seus erros.

Distância -- a única coisa que os ricos deixam de herança aos pobres para que a guardem bem.

Ditador -- chefe de nação que prefere a pestilência do despotismo à praga da anarquia.

Dívidas -- engenhoso substituto das correntes e chicotes dos tempos da escravatura.

Dor de cabeça -- o anticoncepcional mais utilizado pela mulher.

Dramaturgo -- diz-se daquele que adapta peças dos franceses.

Duas vezes -- uma vez demais.

Duelo -- cerimônia de reconciliação entre dois inimigos.


-- Ambrose Bierce, 1911. Aguarde letra "E".

9.7.03

O poeta do hediondo



Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!


-- Augusto dos Anjos

7.7.03


paisagem doméstica


no vidro rugoso
a luz que chega
se parte
(áspera)
em difrações
cintilâncias

gotas de morfina latejando.

também há o ronco do freezer,
o ruído no som do computador,
e azulejos limpos, se entreolhando.

sobre tudo se põe um pano branco.

senhoras comentam, monotonamente,
o comportamento estranho
de um garoto na última reunião

o som ritmado de um martelo
retorna, ao longe,
sem nenhuma explicação.

salgados congelados são lançados no óleo,
berrando: um coro desesperado.

.....................................................................

cantiga pra confundir moça


Amada,
só te amo e te conheço
como se ama e conhece
lugares irreais
coisas inventadas
coisas que, quando se partem,
nunca mais se recompõem.

.........................................................

a beira do mar

os rochedos de onde
nos arremessávamos

dois golpes de vento
espalhando o resto das ondas



Nel Yokomizo, poeta estreando neste blog.


5.7.03

Quem diria que eu estaria aqui de novo, bem na sua frente, cara a cara, mamãe, falando com você, finalmente com coragem de dizer tudo que me passa pela cabeça, dizendo coisas que eu jamais imaginei que pudesse dizer um dia para a minha própria mãe, sim, você, coisas que eu sempre tive medo que pudessem magoá-la pois sempre soube que você era muito sensível e chorava ou gritava à mera menção de meus problemas, fossem pessoais ou relacionados a você, e, sim, mamãe, eu me calava porque tinha medo, medo da sua reação, de você não me compreender, de interpretar tudo errado, como sempre costumava fazer quando eu era criança e tinha meus próprios desejos, bem diferentes dos seus, já que eu não fazia mais parte de você, minha carne tinha se libertado dos ganchos, você não percebeu, mamãe? Minha carne já não era sua, meu sangue já não era seu, meu corpo a abandonou com o alívio que só a dor e o prazer da separação podem trazer, meu corpo agora era meu e ele começou a gerar seus próprios pensamentos, essa coisa incomensurável e ao mesmo tempo diminuta que sou eu, por acaso sua filha. Mas você parecia que nunca percebia isso, ou não queria ver, mamãe, meus próprios pensamentos, e a mim, os meus desejos. Mas eu mudei, mãe, hoje tenho coragem de lhe falar tudo isso, não está vendo? Hoje, agora, eu estou aqui, na sua frente, sem você ter me chamado, e você vai saber de tudo. Não, não adianta fazer essa cara, não adianta fechar os olhos e fingir que não me ouve, eu sei que você pode me ouvir, você sempre tem ouvido para tudo, para todo mundo, para os meus irmãos, para os parentes, vizinhos e os poucos amigos que frequentavam a nossa casa. A nossa casa, aquele lugar arrumadinho e limpo onde eu mal podia colocar os pés onde quer que fosse, aquela cozinha, onde não me era permitido abrir as panelas para ver o que teríamos no almoço ou no jantar, aquela casa em que eu só podia deitar no meu quarto, na cama que não fazia, sobre lençóis que eu não escolhia, onde eu dormia no horário que você estabelecia, sempre antes dos melhores programas que passavam na tevê, antes que eu pudesse ouvir qualquer conversa interessante das visitas, eu ia dormir morrendo de curiosidade, mamãe, porque crianças são curiosas, eu ia dormir mas encostava o ouvido na parede e ouvia tudo, sabia? Eu ouvia o que você fazia com papai do outro lado da parede também, e nunca pude entender direito por que quando vocês se calavam e as luzes se apagavam eu continuava ouvindo e pegava no sono, hoje acho que tudo aquilo era um sonho, um sonho meu no qual vocês não me incluíam porque eu era o outro lado da parede, algo em que se pendura as fotos dos meus dois anos, dos meus cinco anos, de sua filhinha no colégio, na faculdade. Minha parede continua lá, mamãe? Está espantada com tudo isso que estou lhe dizendo? Não, não são ressentimentos, estou só me abrindo, pela primeira vez, com você, agora sou uma mulher adulta, eu envelheci, mamãe, e há momentos em que acho que você é mais jovem do que eu, estranho, não é? Você ficou tão bonita depois que envelheceu. Será que vou ficar assim também? Suas mãos são tão macias, você sempre cuidou muito bem delas, não é mesmo? Na verdade elas sempre foram muito bonitas, embora eu sempre as tivesse visto de longe, você nunca me tocava muito, não é, mamãe? Então eu as admirava de longe, quando você penteava os cabelos, arrumava os talheres sobre a mesa, adoçava o café, segurava o telefone, pintava os lábios, puxava as meias finas até as coxas e as alisava para esticar os fios, que mãos lindas, lindas se comparadas às minhas, não acha? Veja só, olhe bem para elas, está vendo? Magras, muito magras. Você emagreceu tanto, agora que estou reparando. Tem se alimentado mal? Ainda anda obcecada com suas dietas radicais? Você me parece em forma, como sempre quis ficar, eu, ao contrário, estou sempre como não quis ficar, fora de forma completamente. Se alguém nos visse juntas, diria que eu sou sua mãe e você, minha filha. Engraçado isso. Não acha? Está rindo de mim? É, você sempre riu de mim, a sua filha doidinha, a inconsequente da família, a caçula, a última a ter nascido porque você se descontrolou. É, é mesmo. Se arrependeu de eu ter nascido, não é? Eu sei que sim. Vamos, confesse, faça como eu, seja sincera pelo menos uma vez na vida, o que temos a perder? Somos mãe e filha afinal. Já não está na hora de jogarmos limpo? Eu vim aqui pra isso, pra colocar tudo em pratos limpos, tão limpos quanto os seus. Mamãe, somos duas velhas agora. Pense nisso. Sejamos como velhas camaradas, hein? Não é melhor? Velhas companheiras de luta, velhas colegas de escola, velhas amigas. Eu sou sua amiga, me reconheça. Passado é passado. Vim aqui pra lhe dizer isso. Pra lhe dizer muitas outras coisas mais, mas infelizmente estou sem tempo, tenho outros compromissos, e você também deve estar atrasada. Ah, mamãe, sempre tão pontual, sempre chegando na hora marcada, sem tempo pra mais nada. Não sou eu quem vai mais uma vez atrasá-la, não é? Quer que eu feche a gaveta pra você? Você está tão bonita, e vai ficar mais ainda com o vestido lindo que comprei para você receber seus convidados amanhã para um último beijo. Até manhã, mamãe.


3.7.03

Hoje dobro origamis em vez de papelotes de cocaína. Penso globalmente, ajo localmente. Meus amigos acreditam no socialismo de mercado em nome da sinergia. Eu acho que sinergia é um eufemismo de monopólio que é um eufemismo de uniformidade que é um eufemismo de censura embrulhados na minha síndrome de pânico. Tudo isso eu sei por best-sellers que as pessoas não lêem, pseudo-literatura pró-globalização. Procuro livrarias -- lixo encadernado -- pelas madrugadas. Oui c'est Paris. Non c'est Leblon. Abro garrafas. Não sei explicar. Certas coisas, vários dias, noites longas, voltas pela casa, quando tudo começou. Eu lavo a minha louça sozinha e sei pressentir ressentimentos. Esvazio gavetas, não vejo motivos. Falo em voz baixa. As mulheres têm trauma de pia? Salvem-nos quem puder. Anoréxicas, contra-anoréxicas. A sabotagem gramatical das ficções freudianas. Quem se descolará de mim e passará a me tratar como sombra?

Dicionário do Diabo



C


Calamidade -- lembrete inequívoco de que não podemos controlar os fatos da vida. Há duas espécies de calamidade: o nosso fracasso e o sucesso dos outros.

Caminho -- extenso pedaço de terra que permite que sigamos de onde estamos cansados para onde é inútil ir

Campanha eleitoral -- publicidade oculta de pasta de dente

Candidato -- indivíduo que obtém dinheiro dos ricos e votos dos pobres para protegê-los uns dos outros

Canhão -- instrumento usado para a retificação de fronteiras nacionais

Canibal -- gastrônomo da velha escola que conserva o gosto simples pela dieta natural da época pré-porcina

Carne -- a Segunda Pessoa da Trindade secular

Carnívoro -- indivíduo viciado na crueldade de devorar assustadiços vegetarianos e toda a sua prole

Casa -- estrutura vazia construída para a moradia do homem, da barata, do rato, da mosca, do mosquito, da pulga, do piolho e do micróbio

Casamento -- cerimônia em que duas pessoas prometem ser uma, uma promete ser nada e nada promete ser suportável

Centauro -- espécie de indivíduos que existiam antes da divisão do trabalho e que seguiam a máxima da economia primitiva: "A cada homem o seu próprio cavalo".

Cérebro -- órgão que serve para pensar que pensamos

Circo -- lugar onde é permitido que cavalos, pôneis e elefantes vejam homens, mulheres e crianças fazendo papel de palhaço

Cleptomaníaco -- ladrão rico

Comércio -- espécie de transação onde o sujeito A rouba de B os bens pertencentes a C e, para compensar, B mete a mão no dinheiro de E que pertence a um tal de D

Comestível -- diz-se de tudo aquilo que se pode comer e é de digestão saudável, como o verme para o sapo, o sapo para a cobra, a cobra para o porco, o porco para o homem e o homem para o verme

Confidente -- alguém a quem A confiou os segredos de B, confidenciados a ele por C

Confissão -- método pelo qual se limpa a alma para começar a pecar de novo

Conforto -- estado de espírito evocado pela contemplação do desconforto do próximo

Congratulação -- inveja civilizada

Conhecimento -- coisas em que se acredita

Connoisseur -- especialista que sabe tudo sobre alguma coisa e nada sobre o resto

Consciência -- voz interior que nos adverte que alguém está nos olhando

Conservador -- político aferrado aos males existentes; diferente dos liberais, que querem substituí-los por outros

Consolo -- saber que alguém melhor do que nós é mais infeliz do que somos

Contador -- indivíduo que sabe o preço de tudo e o valor de nada

Contos infantis -- histórias de terror que preparam as crianças para no futuro lerem diários

Convento -- lugar para onde se retiram os ociosos a fim de meditar no vício do ócio

Corporação -- invento engenhoso para se obter lucro individual sem responsabilidade individual

Covarde -- aquele que nas situações de perigo pensa com as pernas

Cristão -- aquele que acredita que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina perfeitamente recomendado para as necessidades espirituais dos outros

Crítico -- indivíduo que finge ser tão difícil de agradar que ninguém chega a tentar

Cura -- homem a quem todos chamam de padre, exceto seus filhos, que o chamam de tio


-- Ambrose Bierce, 1911. Breve, letra "D".

1.7.03

Helmut Heissenbuttel

Meditações gramaticais simples



a (Tautologias)
a sombra que projeto é a sombra que projeto
a situação em que me encontro é a situação
em que me encontro
a situação em que me encontro é sim e não
situação minha situação minha particular situação
grupos de grupos se movem sobre superfícies abertas
grupos de grupos se movem sobre cores puras
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
a sombra que projeto é a sombra que projeto
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
e desaparecem


(trad. MP)

29.6.03

A floresta da linguagem


Um terror me sacode; estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento não-essencial. Porém hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para não cair no terrível cipoal da regência, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptelas me cortam o rosto enquanto sufoco com o cheiro de defectivos. Ponho o pé num nome próprio, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises, e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Felizmente surge a clareira de um parágrafo. Avanço, abrindo parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silepse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopéia, sou envolvido por diversos parequemas, a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Morto de exaustão, cercado por centenas de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo que cheguei a um lugar-comum.


-- Millôr Fernandes, em "A Bíblia do Caos".

27.6.03

Kulturkampf? Brainstorming? O que é sólido desmanchou no ar. Se o mundo virtual é uma metaverdade, leitura de bisbilhotices, arquitetura de imagens, restos da cultura da palavra, videolândia, infoliteratura, empty-V de parabólicas celestiais, posto de escuta de sedentários copy&paste, imagineering de gente @, mercado de realismo comercial multimídia, cultura de shopping onde seres animatrônicos talk-show consigo mesmos inventando histórias que convêm aonde for necessário, no piloto automático, sinergia de escritores de egos superpostos, figurinhas em vez de palavras, blogs de blogs de weblogs, blogger ou blogger?, microsoft ou microsoft? como fazer a punção lombar desta hemorragia? Acabo desistindo onde começo. As baratas têm mais de 200 milhões de anos.