Arte de desamar
Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.
As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.
Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.
Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.
Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.
Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.
-- Murilo Mendes, em "O Visionário", 1930-1933.
8.8.03
5.8.03
Patrícia Galvão
instrução publica
Escola Normal do Braz. Reduto pedagogico da pequena burguezia. O estudo não é muito caro. Os paes querem que as filhas sejam professoras, mesmo que isso custe comer feijão, banana e brôa todo dia.
O predio grande, amarelo e sujo. O jardim de formigas do jardineiro José. Eternas serventes. O porteiro bonito que estuda Direito. O secretario anão e poeta. As professoras envelhecendo, secando. Os lentes sem finalidade. O sorveteiro. O amendoim torrado. As meninas entrando, saindo. Bem vestidas. Mal vestidas. As bem vestidas são as filhas dos medicos do Braz e a Matilde, a filha daquela girl do Arruda. Todas acham ela bonita. Tem o sorriso triste. Os olhos muito verdes. As coxas aparecendo sob o jersey curtissimo. Paga sorvete pra todas. Cada lanche! Como corista ganha! Mas ela não conta pra ninguem que já trabalhou na Fabrica.
Linguas maliciosas escorregam nos sorvetes compridos. Peitos propositaes acendem os bicos sexualisados no "sweater" de listas, roçando.
O caixeirinho de calçados morde de longe.
Clelia, a portuguezinha chic, lisa como uma tabôa, sorri na boca enorme para um estudante rico.
-- Fedorzinho! Não se enxerga.
-- Deixa de historia. É o José Mojica em pessôa. Principalmente com a camisa alta.
-- Outro dia encontrei ele em Santana com a Dirce.
-- Ah! Você sabe que o pae encontrou ela numa casa de tolerancia na rua Aurora? Com um homem casado...
-- Quem é que não sabe. Por isso que ela não tem vindo. Diz que ele vae botar ela no Bom Pastor.
-- Por isso é que as normalistas têm fama. Desmoralizam a gente.
-- Ora, vae saindo! Ela foi examinada e é virgem. Ela não faz mais do que você no Recreio Santana e do que eu em Santo Amaro.
-- Mas eu nunca entrei num quarto...
-- Olha lá o decote da Edith. Ela vem assim só pra mostrar os peitos na aula de desenho.
Os bigodinhos estacionam nas esquinas. O diretor não quer estragar o nome da Escola com o escandalo diario dos pares amorosos. Nenhum homem póde parar perto do portão. Mas as saias azues se enroscam nas esquinas.
Eleonora da Normal beija a Matilde que entrou de novo. Como um homem.
O sino pesado chama na mão do porteiro.
-- Bom dia, seu Carlos!
-- Bom dia, Branquinha!
Não trata ninguem de dona. O bando azul e branco caminha pelo roseiral maltratado até a escada grande. As mãos custam a se despregar nos corredores.
-- Entrem... Entrem...
-- Só mais um sorvete, seu Carlos!
Sobem aos grupos, abraçadas.
-- Se você visse que suco o vesperal do Tennis!
-- Eu não tinha vestido, sinão ia ao Teyçandaba.
-- Eu fui ao Politeama.
-- Vá saindo. Com aquela cafagestada!
-- Você viu a Cinearte de hoje? Fala do cinema russo...
-- Escuta! Você sabe o que é o comunismo?
-- Não sei nem quero saber.
-- Em "Parque Industrial", 1933. Reproduzido de edição fac-similar.
Escola Normal do Braz. Reduto pedagogico da pequena burguezia. O estudo não é muito caro. Os paes querem que as filhas sejam professoras, mesmo que isso custe comer feijão, banana e brôa todo dia.
O predio grande, amarelo e sujo. O jardim de formigas do jardineiro José. Eternas serventes. O porteiro bonito que estuda Direito. O secretario anão e poeta. As professoras envelhecendo, secando. Os lentes sem finalidade. O sorveteiro. O amendoim torrado. As meninas entrando, saindo. Bem vestidas. Mal vestidas. As bem vestidas são as filhas dos medicos do Braz e a Matilde, a filha daquela girl do Arruda. Todas acham ela bonita. Tem o sorriso triste. Os olhos muito verdes. As coxas aparecendo sob o jersey curtissimo. Paga sorvete pra todas. Cada lanche! Como corista ganha! Mas ela não conta pra ninguem que já trabalhou na Fabrica.
Linguas maliciosas escorregam nos sorvetes compridos. Peitos propositaes acendem os bicos sexualisados no "sweater" de listas, roçando.
O caixeirinho de calçados morde de longe.
Clelia, a portuguezinha chic, lisa como uma tabôa, sorri na boca enorme para um estudante rico.
-- Fedorzinho! Não se enxerga.
-- Deixa de historia. É o José Mojica em pessôa. Principalmente com a camisa alta.
-- Outro dia encontrei ele em Santana com a Dirce.
-- Ah! Você sabe que o pae encontrou ela numa casa de tolerancia na rua Aurora? Com um homem casado...
-- Quem é que não sabe. Por isso que ela não tem vindo. Diz que ele vae botar ela no Bom Pastor.
-- Por isso é que as normalistas têm fama. Desmoralizam a gente.
-- Ora, vae saindo! Ela foi examinada e é virgem. Ela não faz mais do que você no Recreio Santana e do que eu em Santo Amaro.
-- Mas eu nunca entrei num quarto...
-- Olha lá o decote da Edith. Ela vem assim só pra mostrar os peitos na aula de desenho.
Os bigodinhos estacionam nas esquinas. O diretor não quer estragar o nome da Escola com o escandalo diario dos pares amorosos. Nenhum homem póde parar perto do portão. Mas as saias azues se enroscam nas esquinas.
Eleonora da Normal beija a Matilde que entrou de novo. Como um homem.
O sino pesado chama na mão do porteiro.
-- Bom dia, seu Carlos!
-- Bom dia, Branquinha!
Não trata ninguem de dona. O bando azul e branco caminha pelo roseiral maltratado até a escada grande. As mãos custam a se despregar nos corredores.
-- Entrem... Entrem...
-- Só mais um sorvete, seu Carlos!
Sobem aos grupos, abraçadas.
-- Se você visse que suco o vesperal do Tennis!
-- Eu não tinha vestido, sinão ia ao Teyçandaba.
-- Eu fui ao Politeama.
-- Vá saindo. Com aquela cafagestada!
-- Você viu a Cinearte de hoje? Fala do cinema russo...
-- Escuta! Você sabe o que é o comunismo?
-- Não sei nem quero saber.
-- Em "Parque Industrial", 1933. Reproduzido de edição fac-similar.
3.8.03
A confissão de Bernardo Vasques
(retirada do Arquivo das Confissões)
Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.
"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."
-- Macau
(retirada do Arquivo das Confissões)
Existia na Igreja de São Paulo um Arquivo das Confissões, que ardeu no grande incêndio. Nele coleccionavam em segredo os padres jesuítas, amantes de práticas psicologistas, as confissões que lhes eram feitas pelos seus paroquianos e viajantes de passagem. Contudo, os padres eram igualmente obrigados a justificar a decisão de perdoar e as penitências aplicadas. Por um acaso do destino que não devo confessar, chegaram à minha posse alguns destes documentos que hoje tenho a ousadia de começar a revelar aos meus leitores. E que começo: Bernardo Vasques foi o canalha que roubou a Camões, na Índia, o manuscrito do Parnaso, o livro autobiográfico que o grande poeta tinha praticamente terminado. Camões sofreu uma dor imensa e não se apercebeu nunca das razões que poderiam levar alguém a cometer tão crudelíssimo acto. A dor desta perda e sequente consciência da maldade dos homens havia de o acompanhar até ao leito em que exalou o último suspiro.
"Senhor… roubei… não roubei a arca do Reino, nem a bolsa a viajantes, sequer me aproveitei do amor e confiança que em mim sempre a família depositou. Senhor… roubei um desgraçado…Senhor… roubei o ‘Parnaso’ de Camões. E Senhor… que desdita: não li uma única página que não se fixasse na minha memória como o ferro em brasa do remorso. Cada linha, cada blasfémia do poema, gradualmente se inscreviam em mim e nada mos fez esquecer. Bebi em todas as tavernas até o estomâgo ser da vastidão do planeta e a mente ter a dimensão acanhada da gruta do esquecimento. Tudo em vão. Joguei em todas as bancas de todos os portos e ganhei. Pelejei cego em mil batalhas… salvou-me a audácia dos desesperados. Um anjo maldito vigiava-me os passos para não me permitir um encontro simples com a morte. Os versos de Camões ressoavam sempre, emergiam nos meus lábios, sábios e pertinentes nas respostas, incitando ao silêncio na hora ténue do recolher. O Parnaso, que eu relia sem cessar, iluminava-me o mundo mas, ao mesmo tempo, transformava-me em alguém que a muito custo reconhecia. Toldou-se-me a memória da pesca, do manejo dos navios. Unicamente me ocorriam os versos do livro maldito e da boca, entredentes, escorriam-me imparáveis as estrofes imortais. Não houve, porém, maneira de copiá-lo com a minha letra e atribuir-me autoria: a pena rasgava o papel quando eu tentava firmar a mão trémula. Foi esta a minha penúltima infâmia. Esgotei praias em passadas ébrias de firmeza. Nas falésias rasguei o peito na rugosidade da rocha, criei sulcos de sangue que hoje alguém desatento confundirá com veios de cobre. Os desertos reconhecerão os meus lamentos. Nenhum porto bárbaro me embalou, à sombra vazia e cálida das palmeiras. Num acesso de maldade imensa, queimei o livro. As páginas maltratadas ardiam-me nas pupilas. Era o entardecer numa ilha ainda não identificada pelas cartas, um desses arquipélagos onde habitam os que se ocultam dos olhos do mundo. A fogueira encheu-me de uma alegria desmedida. Dancei como um selvagem, a boca seca e a razão perdida. Merquei uma mulher. Quando acordei no dia seguinte, sob o sol tórrido, não senti nada de estranho, nada de diferente: só um remorso singular, já não de roubar mas de matar. Percebi que não podia voltar a trás: cometera um acto abominável impossível de reparar. Soube que Camões viera até Macau. Procurei-o na ânsia de me fazer seu servo, mas quando atraquei já ele tinha partido. Passei ainda pelo suplício de encontrar os seus sinais um pouco por toda a cidade. Pressenti em muitos lugares ermos a emergência dos seus versos e o eco ténue de um suspiro, uma respiração entrecortada, a dor da perda que eu lhe infligira. Semanas depois da minha chegada chegou notícia de um naufrágio na foz do rio Mekong. Camões terá afogado as chagas em água barrenta. Por mim, aqui fiquei, desterrado, neste inferno de gente imensa e de língua incompreensível. Vi chegar e partir muita mercadoria, muitas esperanças. Só o meu remorso nunca partiu. Ficou aqui comigo, a roer devagar, nesta ponta de terra abandonada, maculada pelos homens e esquecida dos deuses."
-- Macau
31.7.03
Mensagem
Não venhas mais, querida, me encontrar!
Vais pisar, se o fizeres, no salgueiro
que plantei, recordando o alvissareiro
primeiro dia em que vieste, ao luar.
Não poderei mais ver-te. Sou escrava
da vontade inflexível de meus pais,
dos quais, quando lhes disse que te amava,
ouvi palavras ásperas demais.
Não pules outra vez o nosso muro!
quebrarias as hastes delicadas
do sândalo que rego ao claro-escuro
de evocativas, doces madrugadas.
O meu irmão, amor, também não quer
que te veja outra vez, infelizmente
o destino me fez simplesmente mulher
e devo ser humilde e obediente.
Nem arranques, num gesto impaciente,
a sebe junto à qual, um dia, enfim
me abraçaste... fazendo-o, deixarias
sem proteção as flores do jardim
confidentes, nas longas tardes frias,
do meu amor sem fim...
Despedida
O teu lenço de seda, umedecido
de lágrimas, deixaste meigamente
quando subiste ao carro, em minha mão.
Fiquei vendo teu vulto estremecido
que sumia. Meu pranto amargo e quente
molhava a poeira que cobria o chão.
Na tua direção, forte lufada
de vento sopra, agora; então me agarro
à esperança falaz de que a dourada
poeira, por minhas lágrimas molhada,
alcance, ainda, as rodas do teu carro...
-- poesia vietnamita, autor desconhecido.
30.7.03
Antonin Artaud
Toda escrita é porcaria.
Todos aqueles que saem de um lugar qualquer, para tentar explicar seja lá o que lhes passa no pensamento, são porcos.
Toda gente literária é porca, especialmente essa do nosso tempo.
Todos os que possuem pontos de referência no espírito, quero dizer, de um lado certo da cabeça, sobre lugares bem demarcados do cérebro; todos aqueles que são mestres da língua; todos aqueles para quem as palavras têm sentido; todos aqueles para quem existem elevações da alma e correntes do pensamento, aqueles que são o espírito de sua época e que nomeiam essas correntes do pensamento; penso nas suas mesquinhas atividades precisas e nesse ranger de autômatos vomitado para todos os lados por seu espírito;
-- são porcos.
Aqueles para os quais certas palavras têm sentido e certas maneiras de ser; aqueles que têm tão boas maneiras; aqueles para quem os sentimentos podem ser classificados e que discutem um grau qualquer das suas hilariantes classificações, aqueles que ainda acreditam em "termos"; os que mexem com as ideologias de destaque na época; aqueles cujas mulheres falam tão bem, e suas mulheres também, que falam tão bem, e falam das tendências da sua época; os que ainda acreditam numa orientação do espírito; os que seguem caminhos, que acenam com nomes, que fazem gritar as páginas dos livros;
-- esses são os piores porcos.
Moço, como você está sendo gratuito!
Não; penso nos críticos barbudos.
Já falei: nada de obras, nada de língua, nada de palavras, nada de espírito, nada.
Nada a não ser um belo Pesa-Nervos.
Uma espécie de parada incompreensível e bem levantada no meio de tudo no espírito.
E não esperem que eu nomeie esse tudo, diga em quantas partes se divide, qual é o seu peso, que eu entre nessa, que me ponha a discutir esse todo, e que discutindo me perca e assim comece, sem saber, a PENSAR -- e que se esclareça, que viva, que se atavie com uma multidão de palavras, todas bem untadas de sentido, todas diferentes, capazes de expor todas as atitudes, todas as sutilezas de um pensamento tão sensível e penetrante.
Ah, esses estados nunca nomeados, essas situações eminentes da alma; ah, esses intervalos do espírito; ah, essas minúsculas falhas que são o pão cotidiano das minhas horas; ah, essa formigante população de dados -- são sempre as mesmas palavras que eu uso e na verdade pareço não avançar muito no meu pensamento, mas na realidade avanço muito mais que vocês, burros barbados, porcos pertinentes, mestres do falso verbo, masturbadores com fotografias, folhetinistas, rés-do-chão, engordadores de gado, entomologistas, chaga da minha língua.
Já disse, eu perdi a fala, isso não é motivo para que persistam, para que insistam na fala.
Chega, serei compreendido daqui a dez anos pelas pessoas que então estiverem fazendo o que vocês fazem agora. Então conhecerão meus mananciais de água fervente, verão minhas geleiras, aprenderão a neutralizar meus venenos, entenderão os jogos da minha alma.
Então todos os meus cabelos estarão grudados na cal da vala comum, todas as minhas veias mentais; então enxergarão meu bestiário, e minha mística terá se transformado em bandeira. Então verão as juntas das pedras fumegarem, arborescentes ramalhetes de olhos mentais se cristalizarão em glossários; então verão tombarem aerólitos de pedra; então verão cordas; compreenderão a geometria sem espaço; entenderão a configuração do espírito, e saberão como perdi meu espírito.
Então compreenderão por que meu espírito não está mais aí; verão todas as línguas se paralisarem, todos os espíritos ressecarem, todas as línguas se encarquilharem, os vultos humanos se achatarem e desinflarem como se aspirados por ventosas sugadoras; e esta lubrificante membrana continuará flutuando no ar, esta membrana lubrificante e cáustica, esta membrana com dupla espessura, inúmeros níveis, uma infinidade de fendas, esta melancólica e vítrea membrana, porém tão sensível, tão pertinente, tão capaz de se desdobrar, se multiplicar, de dar voltas com sua reverberação de fendas, sentidos, estupefacientes, irrigações penetrantes e contagiosas;
então acharão que está tudo muito bem,
e não precisarei mais falar.
-- Antonin Artaud, em "O Pesa-Nervos", 1924-27.
29.7.03
Dicionário do Diabo
F
Fácil -- diz-se da mulher que tem a moral sexual de um homem.
Fanático -- indivíduo que defende obstinada e ardorosamente uma opinião diferente da nossa.
Fé -- crer sem evidências em algo que alguém disse sem conhecimento sobre coisas sem fundamento.
Felicidade -- agradável sensação que nasce da observação da desgraça alheia.
Fidelidade -- virtude peculiar daqueles que estão a ponto de serem traídos.
Filantropo -- indivíduo idoso e rico que aprendeu a sorrir enquanto a consciência lhe bate a carteira.
Filisteu -- indivíduo cuja mente é produto do ambiente e da moda, seja no pensamento ou sentimentos. Às vezes ele é culto, em geral próspero, vulgarmente íntegro e sempre solene.
Filosofia -- caminhos de muitos atalhos que levam de lugar nenhum a nada.
Filósofo -- indivíduo cego numa casa escura que procura um chapéu preto que não existe.
Finanças -- a arte ou ciência de administrar rendas ou recursos para auferir vantagens para o administrador.
Fisionomia -- a arte de determinar o caráter de uma pessoa através de semelhanças e diferenças entre o seu rosto e o nosso, considerado padrão de excelência.
Fonógrafo -- brinquedo irritante que dá vida a sons mortos.
Fotografia -- um quadro pintado pela luz, dispensa formação artística.
Fronteira -- em geografia política, uma linha imaginária entre dois países que divide os direitos imaginários de um dos direitos imaginários de outro.
Funeral -- cerimônia em que se prova o respeito pelos mortos engordando o bolso dos agentes funerários.
Futuro -- aquele período do tempo em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade é garantida.
-- Ambrose Bierce, 1911.
F
Fácil -- diz-se da mulher que tem a moral sexual de um homem.
Fanático -- indivíduo que defende obstinada e ardorosamente uma opinião diferente da nossa.
Fé -- crer sem evidências em algo que alguém disse sem conhecimento sobre coisas sem fundamento.
Felicidade -- agradável sensação que nasce da observação da desgraça alheia.
Fidelidade -- virtude peculiar daqueles que estão a ponto de serem traídos.
Filantropo -- indivíduo idoso e rico que aprendeu a sorrir enquanto a consciência lhe bate a carteira.
Filisteu -- indivíduo cuja mente é produto do ambiente e da moda, seja no pensamento ou sentimentos. Às vezes ele é culto, em geral próspero, vulgarmente íntegro e sempre solene.
Filosofia -- caminhos de muitos atalhos que levam de lugar nenhum a nada.
Filósofo -- indivíduo cego numa casa escura que procura um chapéu preto que não existe.
Finanças -- a arte ou ciência de administrar rendas ou recursos para auferir vantagens para o administrador.
Fisionomia -- a arte de determinar o caráter de uma pessoa através de semelhanças e diferenças entre o seu rosto e o nosso, considerado padrão de excelência.
Fonógrafo -- brinquedo irritante que dá vida a sons mortos.
Fotografia -- um quadro pintado pela luz, dispensa formação artística.
Fronteira -- em geografia política, uma linha imaginária entre dois países que divide os direitos imaginários de um dos direitos imaginários de outro.
Funeral -- cerimônia em que se prova o respeito pelos mortos engordando o bolso dos agentes funerários.
Futuro -- aquele período do tempo em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade é garantida.
-- Ambrose Bierce, 1911.
27.7.03
Bertrand Russell
Como podemos tornar-nos um homem de gênio
Se há entre os meus leitores jovens que aspiram tornar-se líderes do pensamento da sua geração, espero que evitem certos erros em que caí quando era novo por falta de bons conselhos. Quando desejava formar uma opinião sobre um certo assunto, costumava estudá-lo, avaliar os argumentos a favor dos diversos pontos de vista e tentar chegar a uma conclusão ponderada. Descobri depois que esta não é a maneira de fazer as coisas. Um homem de gênio sabe tudo sem precisar de estudar; as suas opiniões são pontificais e o seu caráter persuasivo não depende de argumentos, mas do estilo literário. É necessário ser parcial, pois isso facilita a veemência, que é considerada uma prova de força. É essencial apelar a preconceitos e a paixões de que os homens começaram a se sentir envergonhados, bem como fazer isso em nome de uma nova ética inefável. É bom rebaixar as mentes lentas e tacanhas que exigem dados para chegar a conclusões. Acima de tudo, deve-se apresentar aquilo que é mais antigo como se fosse a coisa mais inovadora.
Esta receita para ser gênio não é nova. Foi seguida por Carlyle no tempo dos nossos avós, por Nietzsche no tempo dos nossos pais e tem sido seguida no nosso tempo por D. H. Lawrence. Os discípulos de Lawrence pensam que ele anunciou toda uma nova sabedoria sobre as relações entre homens e mulheres. Na verdade ele voltou atrás, defendendo o domínio dos homens que nós associamos aos homens das cavernas. Na sua filosofia, as mulheres existem apenas como uma coisa macia e gorda para repousar o herói quando este regressa das suas ocupações. As sociedades civilizadas têm aprendido a ver mais que isto nas mulheres, mas Lawrence não quer nada da civilização. Ele quer limpar o mundo para manter o que é antigo e obscuro e adora os vestígios da crueldade azteca no México. Os jovens, que têm aprendido a comportar-se, leem-no naturalmente com prazer e andam por aí a proceder como homens das cavernas na medida em que os costumes da sociedade educada o permitem.
Um dos elementos de sucesso mais importantes para te tornares um homem de gênio é aprender a arte da denúncia. Deves fazer sempre as denúncias de maneira a que o leitor pense que são os outros que estão a ser denunciados e não ele próprio. Assim ele ficará impressionado com o teu nobre desdém, enquanto que se pensar que o estás a denunciar vai considerar-te culpado de impertinência malcriada. Carlyle comentou: “A população da Inglaterra é de vinte milhões de pessoas, sobretudo idiotas.” Todos os que leram isto consideraram-se uma das exceções, e por isso apreciaram o comentário. Não podes denunciar classes bem definidas, como pessoas com mais que um certo rendimento, habitantes de uma certa área ou crentes num certo credo definido, pois se o fizeres alguns leitores perceberão que a tua invectiva se lhes dirige. Tens que denunciar pessoas cujas emoções são atrofiadas, pessoas às quais só o estudo penoso pode revelar a verdade, pois todos sabemos que essas são outras pessoas, e por isso veremos com simpatia o teu poderoso diagnóstico dos males da época.
Ignora os fatos e a razão, vive inteiramente no mundo das tuas próprias paixões fantásticas criadoras de mitos; faz isto empenhadamente e com convicção, que assim te tornarás um dos profetas da tua época.
(“How to Become a Man of Genius”, Hearst newspapers column, 1932.)
26.7.03
Eu nunca quis ser Florbela Espanca
Não, eu não posso ser Florbela Espanca. Quando acordo, leio Pagu, eu queria saber fazer versos simples para falar de amor. Falar que na hora do café da manhã eu beberico Amália Rodrigues. E que na hora do almoço leio Sylvia Plath. Me suicido com uma sobremesa. É hora do chá, cinco da tarde: Elizabeth Bishop cresce na minha sala pelos copos d'água. E se a hora é de banho, Ana C chove sobre mim enquanto a tarde cai. Dolores Duran ou Rita Lee? Adriana diz que eu tenho meia hora pra mudar a minha vida na cinza das horas. Minha mãe não era poeta mas era minha Marina e o seu coração respira ainda selvagem no meu travesseiro: o lustre de Clarice.
Não, eu não posso ser Florbela Espanca. Quando acordo, leio Pagu, eu queria saber fazer versos simples para falar de amor. Falar que na hora do café da manhã eu beberico Amália Rodrigues. E que na hora do almoço leio Sylvia Plath. Me suicido com uma sobremesa. É hora do chá, cinco da tarde: Elizabeth Bishop cresce na minha sala pelos copos d'água. E se a hora é de banho, Ana C chove sobre mim enquanto a tarde cai. Dolores Duran ou Rita Lee? Adriana diz que eu tenho meia hora pra mudar a minha vida na cinza das horas. Minha mãe não era poeta mas era minha Marina e o seu coração respira ainda selvagem no meu travesseiro: o lustre de Clarice.
24.7.03
23.7.03
A medicina está acabando com a poesia. Hoje o sujeito sente os tormentos da alma e toma um antidepressivo. Na euforia, receitam-lhe um zepan qualquer. E o cara volta à merdiocridade que não produz nada, exceto dinheiro para o patrão e os impostos. Fernando Pessoa, se vivesse nos dias de hoje, não legaria nada à humanidade. Em qualquer farmácia vagabunda encontraria pelo menos dez remédios para cada heterônimo. O mesmo se aplica às demais artes, mas não vai dar tempo de escrever a respeito. Acabei de tomar um diazepan e não lembro onde foi que deixei meu senso crítico.
-- Catarro Verde
-- Catarro Verde
22.7.03
Chico Buarque
Torno a me lembrar do meu amigo olhando o horizonte, seus cabelos molhados negros como nunca, e ele agora se penteia com mais vagar que antes. Provavelmente se sentindo lembrado, tira logo proveito da situação. Traga um cigarro, que na lembrança anterior nem existia, e fica se deixando olhar, como um ator de perfil. Que se vira para mim de repente, querendo me surpreender, com um brilho nos olhos que me incomoda de novo. E já vai anoitecer sem que eu tenha conseguido olhar seus pés. Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois por algum viés da lembrança. Talvez dar órbita de hoje aos olhos daquele dia. E é assim que vejo finalmente os pés do meu amigo, pelo rabo do olho da lembrança. Vejo mas não sei como são; são pés refratados dentro da água turva, impossíveis de julgar.
Imagino meu amigo recebendo rapazes no apartamento. Meu amigo no sofá da sala, tomando campári e dizendo poesia para os rapazes. Com os pés descalços no sofá, mas disfarçados entre as almofadas, meu amigo passando os cabelos para trás da orelha, e imagino algum rapaz se irritando com a coisa toda. Meu amigo abrindo o álbum dos poetas franceses, e o rapaz encolhendo-se no sofá. E enchendo-se de ódio, e sofrendo de um outro ódio por não entender que ódio cruzado é aquele que o domina, e que é feito de muita humilhação e que é desprezo ao mesmo tempo. Imagino a poesia sendo interminável e o rapaz enlouquecendo, indo buscar uma corda no varal, ou uma faca na cozinha, mas daí para a frente já não dá para imaginar, porque o meu amigo nunca seria professor de ginástica. Lembro-me mais uma vez dele ao meu lado, olhando o horizonte, os braços apoiados na borda da piscina, e nem bíceps o meu amigo tinha. Lembro-me do instante em que ele ergueu o copo, agitou o copo seco com uma rodela de limão grudada no fundo, e fez menção de se levantar para reforçar a caipirinha. Ameaçou trazer os pés à tona, e eu os veria de muito perto, como vi anos depois os pés do morto. Agora me dá grande aflição a idéia de ter visto os pés do meu amigo, pés que eu olharia tranquilamente no tempo da lembrança. Mas o gesto instintivo deve ser reflexo de uma intenção que está noutro tempo. E naquela tarde eu pus a mão no seu joelho sem saber por que o fazia, e disse "não". Arranquei-lhe o copo e fui preparar a caipirinha dupla.
20.7.03
UM TEXTO LONGO, SIM. Ora, não me lixem. Às vezes há distracções nos blogs, naturalmente, e vê-se onde cada um quer chegar — a qualquer lugar muito longe, a qualquer lugar muito perto. Mas irrita-me muito aquele ar de circunspecção polida, muito culta e importante, escandalizada e correcta ao mesmo tempo. Todos querem ser o «observatório que não é observado», aquele que repara em todos os defeitos dos outros, aquele a quem nada comove, aquele para quem uma coisa é sempre outra, muito pior, muito enganadora. Ah, eu sei, todos sabemos, as pessoas fingem, exibimo-nos em todo o lado, citam-se livros, fala-se de filmes, discos, bandas, viagens, retratos, tudo o que comove. Mas irrita-me o tom, esse tom de quem desconfia que só o próprio é que lê os livros que leu — e leu, certamente. Mas as mentiras dos outros também são agradáveis, detectam-se com facilidade, paira sobre elas uma aura de vulgaridade. Desiludimo-nos? Não: a vida é assim mesmo, contabilizamos doutoramentos com bibliografias frágeis, artigos com rabos de fora. Irrita-me quem veio aos blogs para moralizar e evangelizar, espalhar a verdade, ganhar adeptos, praticar a pior das coisas que é o proselitismo no meio da tempestade e da desgraça. Porque se não houvesse desgraça não havia «blogosfera» (essa comunidade de cinquenta e seis ou oitenta e dois amigos que se conhecem e falam uns para os outros, e se cumprimentam, se visitam, se irritam), as pessoas viam televisão e faziam piqueniques debaixo dos sobreiros ou iam à pesca para a beira do mar. Mas irrita-me isso, sim, essa tendência para não ironizar, para fazer de tudo uma campanha brutal contra a fragilidade dos outros e contra os seus pecados, as suas falhas, as suas indignidades, as suas mentiras — está tudo tão à vista, aqui.
Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes?
Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo. Essa fragilidade é um bem porque podemos discutir com ela — ou comover-nos. Ah, mas claro que a comoção é um perigo, tal como a pieguice, a lamechice, o horror aos outros, sim, claro que é. Mas pior do que isso vão ser os blogs dos deputados quando o parlamento publicar o livro de estilo (será como o código de conduta do Expresso?).
E por que é que os oitenta e dois amigos ou os cinquenta e seis conhecidos não hão-de poder falar uns para os outros? Entre mil blogs portugueses, por que é que não se hão-de conhecer e dizer «piadas privadas» e falar do que lhes apetece? E por que é que tem de começar a haver auto-censura estabelecida para que fulano não desça do púlpito, a desancar? Não me lixem. Vigiemo-nos, comentemo-nos em regime de permanência. Por que é que não se há-de ser a poeira da praia?
A nossa escravidão, desde a infância, é definir «posse» e «poder». O vazio é o único lugar de encontro quando descobrimos essas circunstâncias — e, nesse lugar, compreender não é concordar, tal como discordar não significa não compreender. Um comentador do Talmude dizia que devíamos fugir da superstição e da crendice, das faúlhas do céu — mas que, na verdade, não se pode viver sem essa chama de irracionalidade, tal como a certeza absoluta é um acto de idolatria, de imprescindibilidade — e a imprescindibilidade é a idolatria com pés de barro. O que tem a ver com outra característica que anda aí à solta, oscilando entre a agressividade e a vitimização: ambas são compensações, claro, compreensíveis, somos humanos, tão humanos. Nos blogs, a única coisa a cobiçar é a aceitação dos outros, o reconhecimento — não os livros que os outros leram ou não leram , os actos de censura, a comunhão ideológica. Isso é tão humano como a chama de irracionalidade que não se pode afastar da vida inteira, sob pena de a «vida inteira» ser só «parte dela», a mais visível, a mais autoritária, a mais inflexível. Quem tem listas de reivindicações sobre o presente e culpados permanentes a apontar, vê reduzida a sua margem de criatividade.
E o riso. O riso de todas as maneiras. O riso devia ser o centro de muitos debates, contra o risco de intelectualizar toda a linguagem, isto é, de lhe criar uma autoridade escolar em anexo (sim, como attachment). Há pessoas que riem muito, há pessoas que riem pouco, há pessoas que só riem e há gente que não ri nem sabe rir. Não é obrigatório rir em nenhuma circunstância (o Nuno Costa Santos criticava essa tendência para a «obrigatoriedade do humor» nos blogs, a obrigatoriedade de se «ser engraçado»), mas o riso é um caminho que nunca se pode evitar. Tal como a ironia, a piada. A pequena piada. E rir de si próprio sobretudo, não se levar tão a sério.
-- Aviz
Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes?
Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo. Essa fragilidade é um bem porque podemos discutir com ela — ou comover-nos. Ah, mas claro que a comoção é um perigo, tal como a pieguice, a lamechice, o horror aos outros, sim, claro que é. Mas pior do que isso vão ser os blogs dos deputados quando o parlamento publicar o livro de estilo (será como o código de conduta do Expresso?).
E por que é que os oitenta e dois amigos ou os cinquenta e seis conhecidos não hão-de poder falar uns para os outros? Entre mil blogs portugueses, por que é que não se hão-de conhecer e dizer «piadas privadas» e falar do que lhes apetece? E por que é que tem de começar a haver auto-censura estabelecida para que fulano não desça do púlpito, a desancar? Não me lixem. Vigiemo-nos, comentemo-nos em regime de permanência. Por que é que não se há-de ser a poeira da praia?
A nossa escravidão, desde a infância, é definir «posse» e «poder». O vazio é o único lugar de encontro quando descobrimos essas circunstâncias — e, nesse lugar, compreender não é concordar, tal como discordar não significa não compreender. Um comentador do Talmude dizia que devíamos fugir da superstição e da crendice, das faúlhas do céu — mas que, na verdade, não se pode viver sem essa chama de irracionalidade, tal como a certeza absoluta é um acto de idolatria, de imprescindibilidade — e a imprescindibilidade é a idolatria com pés de barro. O que tem a ver com outra característica que anda aí à solta, oscilando entre a agressividade e a vitimização: ambas são compensações, claro, compreensíveis, somos humanos, tão humanos. Nos blogs, a única coisa a cobiçar é a aceitação dos outros, o reconhecimento — não os livros que os outros leram ou não leram , os actos de censura, a comunhão ideológica. Isso é tão humano como a chama de irracionalidade que não se pode afastar da vida inteira, sob pena de a «vida inteira» ser só «parte dela», a mais visível, a mais autoritária, a mais inflexível. Quem tem listas de reivindicações sobre o presente e culpados permanentes a apontar, vê reduzida a sua margem de criatividade.
E o riso. O riso de todas as maneiras. O riso devia ser o centro de muitos debates, contra o risco de intelectualizar toda a linguagem, isto é, de lhe criar uma autoridade escolar em anexo (sim, como attachment). Há pessoas que riem muito, há pessoas que riem pouco, há pessoas que só riem e há gente que não ri nem sabe rir. Não é obrigatório rir em nenhuma circunstância (o Nuno Costa Santos criticava essa tendência para a «obrigatoriedade do humor» nos blogs, a obrigatoriedade de se «ser engraçado»), mas o riso é um caminho que nunca se pode evitar. Tal como a ironia, a piada. A pequena piada. E rir de si próprio sobretudo, não se levar tão a sério.
-- Aviz
19.7.03
Anotações de aula
Neurose= desorganização simbólica. Recalque= defesa do psiquismo contra as demandas do princípio do prazer. O neurótico adoece de nostalgia (comprar sem falta "Suíte p/ Piano de Brinquedo"). Seio materno arcaico ( devo tocar?). Sexualidade não são só as práticas sexuais mas a representação do desejo (hum, Freud). O próprio desejo se desrealiza c/ a aproximação do objeto (passar na farmácia p/ trocar protetor solar c/cheiro de azeite). Só o neurótico resolve o recalque via sublimação (papinho chato, programão). Diferença entre neurótico e utopista (essa eu quero ver). Discutir pq as imagens se sobrepõem às palavras (think globally, fuck locally). Proposta de debate: "Se algo cheira mal, tampe" (Confúcio, ahrá). "A literatura é algo p/ ser observado, um descanso, um pensamento, uma marca, não um campo de análise" (Foucault? MEU CORPO NÃO É OBJETO DO MEU EGO, NÃO VIVE P/SATISFAZER O MEU ORGULHO, MAS P/ME DAR A ALEGRIA E SATISFAÇÃO DO CORPO VIVO). (Enquanto eles discutem eu penso em destituir esta classe e eleger uma nova, nunca ouvi tanta bobagem ao mesmo tempo, o q estou fazendo aqui?, eu nunca quis ser professora, deixa eu olhar pras paredes, eles são jovens, eles acreditam no retorno espiritual do investimento, a gramática do mercado, eles não pensam em apanhar moscas, quando eles nasceram eu já tomava Blue Sky, eu já sabia que a vida se paga com a morte, que as idéias são muletas intelectuais, que a psicanálise não passa de egorragia, que os políticos comem no mesmo cocho, que eu não preciso de ninguém para enfeitar o meu bunker caseiro, que qualquer migalha pode me tirar do tédio, que é fácil se desmascarar com quem não tem coragem de fazer o mesmo, que a areia é tudo o que os meus pés tocam daqui ao horizonte, que pilotar o imaginário não precisa de trilhas marcadas, que eu não preciso comprar jornais para saber de mentiras, que a literatura que todo mundo gosta é a literatura lounge, que eu sempre vou ter fome de tudo, que eu tenho fome agora e vou esquentar minha lentilha, onde deixei mesmo o meu potinho de chutney?
Neurose= desorganização simbólica. Recalque= defesa do psiquismo contra as demandas do princípio do prazer. O neurótico adoece de nostalgia (comprar sem falta "Suíte p/ Piano de Brinquedo"). Seio materno arcaico ( devo tocar?). Sexualidade não são só as práticas sexuais mas a representação do desejo (hum, Freud). O próprio desejo se desrealiza c/ a aproximação do objeto (passar na farmácia p/ trocar protetor solar c/cheiro de azeite). Só o neurótico resolve o recalque via sublimação (papinho chato, programão). Diferença entre neurótico e utopista (essa eu quero ver). Discutir pq as imagens se sobrepõem às palavras (think globally, fuck locally). Proposta de debate: "Se algo cheira mal, tampe" (Confúcio, ahrá). "A literatura é algo p/ ser observado, um descanso, um pensamento, uma marca, não um campo de análise" (Foucault? MEU CORPO NÃO É OBJETO DO MEU EGO, NÃO VIVE P/SATISFAZER O MEU ORGULHO, MAS P/ME DAR A ALEGRIA E SATISFAÇÃO DO CORPO VIVO). (Enquanto eles discutem eu penso em destituir esta classe e eleger uma nova, nunca ouvi tanta bobagem ao mesmo tempo, o q estou fazendo aqui?, eu nunca quis ser professora, deixa eu olhar pras paredes, eles são jovens, eles acreditam no retorno espiritual do investimento, a gramática do mercado, eles não pensam em apanhar moscas, quando eles nasceram eu já tomava Blue Sky, eu já sabia que a vida se paga com a morte, que as idéias são muletas intelectuais, que a psicanálise não passa de egorragia, que os políticos comem no mesmo cocho, que eu não preciso de ninguém para enfeitar o meu bunker caseiro, que qualquer migalha pode me tirar do tédio, que é fácil se desmascarar com quem não tem coragem de fazer o mesmo, que a areia é tudo o que os meus pés tocam daqui ao horizonte, que pilotar o imaginário não precisa de trilhas marcadas, que eu não preciso comprar jornais para saber de mentiras, que a literatura que todo mundo gosta é a literatura lounge, que eu sempre vou ter fome de tudo, que eu tenho fome agora e vou esquentar minha lentilha, onde deixei mesmo o meu potinho de chutney?
18.7.03
Dicionário do Diabo
E
Economia -- comprar um barril de uísque que você não vai precisar pelo preço de uma vaca que você não pode pagar.
Economista -- especialista que saberá amanhã por que o que previu ontem não aconteceu hoje.
Educação -- a hipocrisia mais aceitável.
Egoísta -- aquele que não tem consideração pelo egoísmo dos outros.
Egotista -- pessoa de mau gosto que está mais interessada em si mesma do que em mim.
Eleitor -- indivíduo que goza do sagrado privilégio de votar em alguém que outra pessoa escolheu.
Emancipação -- quando um indivíduo troca a tirania de uma pessoa pelo despotismo de si mesmo.
Entusiasmo -- perturbação da juventude que se cura com pequenas doses de arrependimento e algumas aplicações de experiência.
Epitáfio -- inscrição tumular que demonstra que as virtudes adquiridas com a morte têm efeito retroativo.
Ermitão -- pessoa cujos vícios e insensatez não são sociáveis.
Erudição -- poeira que se sacode dos livros para dentro de um cérebro vazio.
Escrituras -- os livros sagrados de nossa sagrada religião; distinguem-se dos escritos falsos e profanos nos quais se baseiam todas as outras religiões.
Esotérico -- tudo que é particularmente obscuro e consumadamente oculto. As filosofias antigas eram de duas espécies: "exotéricas", que os filósofos eram capazes de entender parcialmente, e "esotéricas", as que ninguém conseguia entender. Estas últimas foram as que mais influenciaram o pensamento moderno.
Esquecimento -- dádiva divina concedida aos médicos como compensação por serem destituídos de consciência.
Estafa -- perigoso distúrbio que acomete funcionários públicos de alto escalão sempre que estes desejam férias.
Etnologia -- ciência que estuda as várias tribos humanas, como os ladrões, vigaristas, ignorantes, lunáticos, idiotas e etnólogos.
Exceção -- diz-se daquilo que toma a liberdade de diferir de outros de sua classe, assim como um homem honesto, uma mulher sincera etc.
Excêntrico -- método vulgar de distinção utilizado pelos imbecis para acentuar sua incapacidade.
Executivo -- autoridade governamental cujo dever é garantir o cumprimento da vontade do poder legislativo até o momento em que o judiciário a invalide.
Exilado -- diz-se daquele que, sem ser um embaixador, serve ao seu país indo morar em terra estrangeira.
Experiência -- sabedoria que nos permite reconhecer como indesejáveis todas as loucuras que já desejamos.
-- Ambrose Bierce, 1911.
E
Economia -- comprar um barril de uísque que você não vai precisar pelo preço de uma vaca que você não pode pagar.
Economista -- especialista que saberá amanhã por que o que previu ontem não aconteceu hoje.
Educação -- a hipocrisia mais aceitável.
Egoísta -- aquele que não tem consideração pelo egoísmo dos outros.
Egotista -- pessoa de mau gosto que está mais interessada em si mesma do que em mim.
Eleitor -- indivíduo que goza do sagrado privilégio de votar em alguém que outra pessoa escolheu.
Emancipação -- quando um indivíduo troca a tirania de uma pessoa pelo despotismo de si mesmo.
Entusiasmo -- perturbação da juventude que se cura com pequenas doses de arrependimento e algumas aplicações de experiência.
Epitáfio -- inscrição tumular que demonstra que as virtudes adquiridas com a morte têm efeito retroativo.
Ermitão -- pessoa cujos vícios e insensatez não são sociáveis.
Erudição -- poeira que se sacode dos livros para dentro de um cérebro vazio.
Escrituras -- os livros sagrados de nossa sagrada religião; distinguem-se dos escritos falsos e profanos nos quais se baseiam todas as outras religiões.
Esotérico -- tudo que é particularmente obscuro e consumadamente oculto. As filosofias antigas eram de duas espécies: "exotéricas", que os filósofos eram capazes de entender parcialmente, e "esotéricas", as que ninguém conseguia entender. Estas últimas foram as que mais influenciaram o pensamento moderno.
Esquecimento -- dádiva divina concedida aos médicos como compensação por serem destituídos de consciência.
Estafa -- perigoso distúrbio que acomete funcionários públicos de alto escalão sempre que estes desejam férias.
Etnologia -- ciência que estuda as várias tribos humanas, como os ladrões, vigaristas, ignorantes, lunáticos, idiotas e etnólogos.
Exceção -- diz-se daquilo que toma a liberdade de diferir de outros de sua classe, assim como um homem honesto, uma mulher sincera etc.
Excêntrico -- método vulgar de distinção utilizado pelos imbecis para acentuar sua incapacidade.
Executivo -- autoridade governamental cujo dever é garantir o cumprimento da vontade do poder legislativo até o momento em que o judiciário a invalide.
Exilado -- diz-se daquele que, sem ser um embaixador, serve ao seu país indo morar em terra estrangeira.
Experiência -- sabedoria que nos permite reconhecer como indesejáveis todas as loucuras que já desejamos.
-- Ambrose Bierce, 1911.
15.7.03
Nelson Rodrigues
Bem me lembro dos meus cinco, seis anos. O vizinho era, então, todo o meu horizonte humano. Ainda vejo as pessoas que moravam ao nosso lado, ou em frente, ou na esquina. Os sujeitos se cumprimentavam assim: "Bom dia, vizinho. Como vai, vizinho?" E a simples palavra tinha uma tensão, um frêmito, uma magia. Era como se o "vizinho" fosse um enfático nome wagneriano, uma espécie de Lohengrin prodigioso.
O mundo era aquela meia dúzia de vizinhos. E justamente a Lili veio morar duas ou três casas adiante da minha. Hoje ninguém se chama Lili. Lili é um nome nostálgico, obsoleto, espectral. Naquele tempo, não. Em cada rua havia uma Lili, ou duas, ou até três. Havia um pó-de-arroz que se chamava Lili. Minto. Não era Lili, era Lady. Também havia Odetes por toda parte. Ao passo que, hoje, somos um povo de poucas Odetes.
Lili. Conheci o nome antes da pessoa. Um dia, eu estava na mesa, tomando café com macaxeira. E então alguém falou em Lili. Achei o nome lindo. Lili. Aquilo ficou gorjeando em mim. Faço, porém, a ressalva: aos cinco, seis anos, não se faz nenhuma seleção auditiva. Para mim, qualquer nome era bonito. Morava na rua Dona Maria um "seu" Sepúlveda. Era capitão da Guarda Nacional e tinha bigodões. Sepúlveda, ou qualquer outro nome, vem com um halo de mistério, de graça e de espanto. Que vontade tive de me chamar Sepúlveda!
E Lili foi, exatamente, a minha primeira paixão de menino. Antes de vê-la, eu a amei. Amei o puro nome, o puro som. Era a primeira Lili da minha infância. Cinco anos tinha eu. Ou seis. Vá lá, seis. Sentia que aquele nome insinuava um mistério ou, mais do que isso, um destino. Fui varado por um sentimento de pena e de medo. Como se Lili fosse alguém que já morreu e que só aparece, por um momento, na memória dos espelhos.
Até que, uma manhã, ou tarde, sei lá, eu a vi. E de repente Lili deixou de ser apenas um som. Passava a ter um olhar, um perfil, um gesto. E era gorda. Hoje ninguém vê uma gorda sem lhe acrescentar um ponto de exclamação. Vivemos uma época tão sem busto, tão sem quadris, que ninguém entenderia a Lili de 1918. Os homens eram magros, tinham a face e o peito cavos. Mas a mulher podia ser gorda, ou, melhor, devia ser gorda. A partir dos catorze anos, os quadris e os bustos explodiam. Simples adolescentes tinham os flancos tão pesados que precisavam se pôr de perfil para atravessar as portas. Lili era a gorda em flor...
-- Nelson Rodrigues, em "Um menino de paixões de ópera", 1967.
13.7.03
A traição
quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse
-- Alexandre O'Neill
quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse
-- Alexandre O'Neill
Ah como compreendo os transsexuais. Nascem com sentir e atitude de mulher num corpo de homem; e vice-versa.
Compreendo-os porque padeço de um mal semelhante. Ah como eu gostava de ter nascido Marquês, ou ir à ópera e ouvir dizerem-me: Sr. Comendador isto, Sr. Comendador aquilo. E de viver num mundo de glamour, oferecer às top-models anéis de diamantes, beber champagne e fumar Cohibas na minha limousine, vestir nos melhores costureiros, sapatos italianos, golf, aparecer na Caras a almoçar no saloio e very tipical Gigi, ter um jacto e uma ilha, uma herdade com trinta puros lusitanos, casa de praia e de montanha e em Courchevel e em Paris e New York... Sei lá, nem sei bem o que tenho. E o meu escritório - onde nunca vou, aliás - ser imensamente, mas imensamente, melhor que a Penthouse da Segurança Social do Algarve, recheado com doze secretárias e quinze assessoras de mini-saia e wonderbra. Uma vida de diletante, interessar-me por arte, ser dono de uma colecção riquíssima, mas riquíssima mesmo, de pinturas, escrever as minhas memórias aos quarenta anos, fazer fotografia submarina nas caraíbas e caçar leões no Quénia. Tenha a bondade Sr. Presidente, faça o obséquio Sr. Governador.
Que vida a minha! Só gosto de coisas caras, quando gosto de alguma coisa e me apetece comprar, como por mau-olhado, é sempre caríssima! Uma vez em Veneza vi, numa loja, uns óculos, enchi-me de coragem, entrei, a menina diz: uma mole de milhões de "liri"; saí com o rabinho entre as pernas, optei por continuar de férias. Gosto da etiqueta Gant, mas já que não posso comprar o catálogo todo, não tenho nem uma peça.
E as pessoas confundem-me com um avarento, porque não me compreendem; já que não posso comprar o que gosto, não compro nada.
Não haverá nenhum procedimento cirúrgico ou, até, uma terapia génica para eu me transformar no grande Gatsby cá da minha terra?
-- Impressões de um Boticário de Província
Compreendo-os porque padeço de um mal semelhante. Ah como eu gostava de ter nascido Marquês, ou ir à ópera e ouvir dizerem-me: Sr. Comendador isto, Sr. Comendador aquilo. E de viver num mundo de glamour, oferecer às top-models anéis de diamantes, beber champagne e fumar Cohibas na minha limousine, vestir nos melhores costureiros, sapatos italianos, golf, aparecer na Caras a almoçar no saloio e very tipical Gigi, ter um jacto e uma ilha, uma herdade com trinta puros lusitanos, casa de praia e de montanha e em Courchevel e em Paris e New York... Sei lá, nem sei bem o que tenho. E o meu escritório - onde nunca vou, aliás - ser imensamente, mas imensamente, melhor que a Penthouse da Segurança Social do Algarve, recheado com doze secretárias e quinze assessoras de mini-saia e wonderbra. Uma vida de diletante, interessar-me por arte, ser dono de uma colecção riquíssima, mas riquíssima mesmo, de pinturas, escrever as minhas memórias aos quarenta anos, fazer fotografia submarina nas caraíbas e caçar leões no Quénia. Tenha a bondade Sr. Presidente, faça o obséquio Sr. Governador.
Que vida a minha! Só gosto de coisas caras, quando gosto de alguma coisa e me apetece comprar, como por mau-olhado, é sempre caríssima! Uma vez em Veneza vi, numa loja, uns óculos, enchi-me de coragem, entrei, a menina diz: uma mole de milhões de "liri"; saí com o rabinho entre as pernas, optei por continuar de férias. Gosto da etiqueta Gant, mas já que não posso comprar o catálogo todo, não tenho nem uma peça.
E as pessoas confundem-me com um avarento, porque não me compreendem; já que não posso comprar o que gosto, não compro nada.
Não haverá nenhum procedimento cirúrgico ou, até, uma terapia génica para eu me transformar no grande Gatsby cá da minha terra?
-- Impressões de um Boticário de Província
12.7.03
O melhor que tenho a fazer
Estive pensando que devo escrever um livro. Tenho todas as condições necessárias para concluir o meu projeto:
1º) Quase todo escritor se isola para escrever um livro. Eu vivo em completo isolamento. Creio até ser portadora de um pouco ou muito de fobia social.
2º) É preciso ter tempo para escrever. Tempo é o que mais tenho. Tempo não é dinheiro. Falta de tempo é dinheiro. Portanto eu tenho todo o tempo do mundo ao meu inteiro dispor.
3º) Aquela frase "Fulano não pode ser interrompido, está escrevendo" vai muito bem em escritores de verdade, mas soa como falta de educação para quem está escrevendo a lista do supermercado ou fazendo o rol de roupa suja. Da próxima vez eu estarei escrevendo um livro, portanto não serei mal-educada.
4º) Geralmente escritores não se preocupam nem um pouco com aquelas coisas corriqueiras e chatas como "de que jeito vou pagar o aluguel". Todo escritor tem alguém que pague as contas, suponho, do contrário morreria de inanição antes de escrever o primeiro livro. A princípio, escritores não têm preocupações, senão não poderia escrever direito. Eu, determinantemente não me preocupo com nada, portanto...se alguém vier cobrar alguma coisa ainda tenho aquela frase: "Fulana está escrevendo. Não pode ser interrompida". Só espero que o cobrador entenda e não queira perturbar um gênio em criação.
5º) Escritor é excêntrico, estranho, e sai por aí com os cabelos desgrenhados e pode ficar até 3 dias sem tomar banho. Ninguém vai chamá-lo de porco. Ele é só um escritor. Ainda não fiquei três dias sem tomar banho, mas posso tentar.
As vantagens morais são relevantes e extraordinárias:
6º) Ninguém vai perguntar se já arranjei o que fazer ou me colocar a alcunha de vagabunda. Por mais que possa parecer estranho, escrever é trabalho sim. Pode até não ser remunerado, mas é. Pescador quando sai pro mar e não pega peixe nenhum também está trabalhando. Não é não?
7º) Se alguém perguntar "o que você faz?" vou ter alguma coisa mais concreta para responder em lugar de ficar procurando na memória qualquer uma das minhas aptidões sem efeito para justificar a minha total falta do que fazer.
8º) Por fim, se alguém perguntar por que não apareço nas festas da família, onde está enfiada aquela sua irmã, ninguém mais vai ter que inventar uma desculpa esfarrapada. Basta dizer: "Ela está recolhida escrevendo um livro" . Em lugar de "outra vez?", eles ouvirão orgulhosos: "É mesmo?". Pensando bem, se todos os argumentos acima não valerem, vale livrar a cara da família do vexame de ter alguém com o mesmo sobrenome que odeia festas.
Apenas um senão sem importância nenhuma: eu não sei, realmente, escrever. Refuto prontamente e com ardor: Paulo Coelho também não sabe e escreve sem vergonha nenhuma, inclusive é lido desavergonhadamente. Tão desavergonhadamente que está com os burros na sombra e toma chá na Academia Brasileira de Letras. Escrevo tão porcamente quanto ele portanto meu futuro está garantido e meus alfarrábios vão valer fortuna, se a premissa for válida. Eu acho que é.
A outra porcaria de senão é: sobre o que mesmo é que vou escrever?
-- Teruska.
10.7.03
Dicionário do Diabo
D
Decidir -- sucumbir à preponderância de um conjunto de influências em detrimento de outras
Dejeuner -- o café da manhã de americanos em Paris. Admite várias pronúncias.
Delegação -- em política, diz-se de mercadoria despachada em grupos.
Deliberação -- ato de examinar o pão de alguém para determinar de que lado está a manteiga.
Democracia -- forma de governo que substitui conselhos de poucos corruptos pela eleição de muitos incompetentes.
Dependente -- aquele que se fia na generosidade alheia para obter a ajuda que não tem condição de arrancar.
Destino -- autoridade do tirano para o crime. Desculpa do idiota para o fracasso.
Dez mandamentos -- condições mínimas e necessárias para não ser um ser humano.
Dia -- período de 24 horas, a maioria das quais mal aproveitadas. O período divide-se em duas partes: o dia propriamente dito e a noite, ou dia impropriamente dito. Dedica-se o dia aos pecados dos negócios e a noite, ao inverso. Estas duas espécies de atividade social se confundem.
Diagnóstico -- prognóstico de uma enfermidade feito por um médico que leva em conta os sintomas e o bolso do paciente.
Difamar -- mentir a respeito de alguém. Falar a verdade a respeito de alguém.
Digestão -- a conversão de víveres em virtudes. Quando o processo é imperfeito, arrota-se vícios.
Dinheiro -- passaporte para a sociedade civilizada.
Diplomacia -- a patriótica arte de mentir pelo país.
Diplomático -- diz-se de todo aquele que nos manda à merda de um jeito tão especial que ficamos ansiosos para que a viagem comece logo.
Discussão -- método de reafirmar os outros em seus erros.
Distância -- a única coisa que os ricos deixam de herança aos pobres para que a guardem bem.
Ditador -- chefe de nação que prefere a pestilência do despotismo à praga da anarquia.
Dívidas -- engenhoso substituto das correntes e chicotes dos tempos da escravatura.
Dor de cabeça -- o anticoncepcional mais utilizado pela mulher.
Dramaturgo -- diz-se daquele que adapta peças dos franceses.
Duas vezes -- uma vez demais.
Duelo -- cerimônia de reconciliação entre dois inimigos.
-- Ambrose Bierce, 1911. Aguarde letra "E".
D
Decidir -- sucumbir à preponderância de um conjunto de influências em detrimento de outras
Dejeuner -- o café da manhã de americanos em Paris. Admite várias pronúncias.
Delegação -- em política, diz-se de mercadoria despachada em grupos.
Deliberação -- ato de examinar o pão de alguém para determinar de que lado está a manteiga.
Democracia -- forma de governo que substitui conselhos de poucos corruptos pela eleição de muitos incompetentes.
Dependente -- aquele que se fia na generosidade alheia para obter a ajuda que não tem condição de arrancar.
Destino -- autoridade do tirano para o crime. Desculpa do idiota para o fracasso.
Dez mandamentos -- condições mínimas e necessárias para não ser um ser humano.
Dia -- período de 24 horas, a maioria das quais mal aproveitadas. O período divide-se em duas partes: o dia propriamente dito e a noite, ou dia impropriamente dito. Dedica-se o dia aos pecados dos negócios e a noite, ao inverso. Estas duas espécies de atividade social se confundem.
Diagnóstico -- prognóstico de uma enfermidade feito por um médico que leva em conta os sintomas e o bolso do paciente.
Difamar -- mentir a respeito de alguém. Falar a verdade a respeito de alguém.
Digestão -- a conversão de víveres em virtudes. Quando o processo é imperfeito, arrota-se vícios.
Dinheiro -- passaporte para a sociedade civilizada.
Diplomacia -- a patriótica arte de mentir pelo país.
Diplomático -- diz-se de todo aquele que nos manda à merda de um jeito tão especial que ficamos ansiosos para que a viagem comece logo.
Discussão -- método de reafirmar os outros em seus erros.
Distância -- a única coisa que os ricos deixam de herança aos pobres para que a guardem bem.
Ditador -- chefe de nação que prefere a pestilência do despotismo à praga da anarquia.
Dívidas -- engenhoso substituto das correntes e chicotes dos tempos da escravatura.
Dor de cabeça -- o anticoncepcional mais utilizado pela mulher.
Dramaturgo -- diz-se daquele que adapta peças dos franceses.
Duas vezes -- uma vez demais.
Duelo -- cerimônia de reconciliação entre dois inimigos.
-- Ambrose Bierce, 1911. Aguarde letra "E".
9.7.03
O poeta do hediondo
Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!
Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!
Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...
Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
-- Augusto dos Anjos
7.7.03
paisagem doméstica
no vidro rugoso
a luz que chega
se parte
(áspera)
em difrações
cintilâncias
gotas de morfina latejando.
também há o ronco do freezer,
o ruído no som do computador,
e azulejos limpos, se entreolhando.
sobre tudo se põe um pano branco.
senhoras comentam, monotonamente,
o comportamento estranho
de um garoto na última reunião
o som ritmado de um martelo
retorna, ao longe,
sem nenhuma explicação.
salgados congelados são lançados no óleo,
berrando: um coro desesperado.
.....................................................................
cantiga pra confundir moça
Amada,
só te amo e te conheço
como se ama e conhece
lugares irreais
coisas inventadas
coisas que, quando se partem,
nunca mais se recompõem.
.........................................................
a beira do mar
os rochedos de onde
nos arremessávamos
dois golpes de vento
espalhando o resto das ondas
Nel Yokomizo, poeta estreando neste blog.
5.7.03
Quem diria que eu estaria aqui de novo, bem na sua frente, cara a cara, mamãe, falando com você, finalmente com coragem de dizer tudo que me passa pela cabeça, dizendo coisas que eu jamais imaginei que pudesse dizer um dia para a minha própria mãe, sim, você, coisas que eu sempre tive medo que pudessem magoá-la pois sempre soube que você era muito sensível e chorava ou gritava à mera menção de meus problemas, fossem pessoais ou relacionados a você, e, sim, mamãe, eu me calava porque tinha medo, medo da sua reação, de você não me compreender, de interpretar tudo errado, como sempre costumava fazer quando eu era criança e tinha meus próprios desejos, bem diferentes dos seus, já que eu não fazia mais parte de você, minha carne tinha se libertado dos ganchos, você não percebeu, mamãe? Minha carne já não era sua, meu sangue já não era seu, meu corpo a abandonou com o alívio que só a dor e o prazer da separação podem trazer, meu corpo agora era meu e ele começou a gerar seus próprios pensamentos, essa coisa incomensurável e ao mesmo tempo diminuta que sou eu, por acaso sua filha. Mas você parecia que nunca percebia isso, ou não queria ver, mamãe, meus próprios pensamentos, e a mim, os meus desejos. Mas eu mudei, mãe, hoje tenho coragem de lhe falar tudo isso, não está vendo? Hoje, agora, eu estou aqui, na sua frente, sem você ter me chamado, e você vai saber de tudo. Não, não adianta fazer essa cara, não adianta fechar os olhos e fingir que não me ouve, eu sei que você pode me ouvir, você sempre tem ouvido para tudo, para todo mundo, para os meus irmãos, para os parentes, vizinhos e os poucos amigos que frequentavam a nossa casa. A nossa casa, aquele lugar arrumadinho e limpo onde eu mal podia colocar os pés onde quer que fosse, aquela cozinha, onde não me era permitido abrir as panelas para ver o que teríamos no almoço ou no jantar, aquela casa em que eu só podia deitar no meu quarto, na cama que não fazia, sobre lençóis que eu não escolhia, onde eu dormia no horário que você estabelecia, sempre antes dos melhores programas que passavam na tevê, antes que eu pudesse ouvir qualquer conversa interessante das visitas, eu ia dormir morrendo de curiosidade, mamãe, porque crianças são curiosas, eu ia dormir mas encostava o ouvido na parede e ouvia tudo, sabia? Eu ouvia o que você fazia com papai do outro lado da parede também, e nunca pude entender direito por que quando vocês se calavam e as luzes se apagavam eu continuava ouvindo e pegava no sono, hoje acho que tudo aquilo era um sonho, um sonho meu no qual vocês não me incluíam porque eu era o outro lado da parede, algo em que se pendura as fotos dos meus dois anos, dos meus cinco anos, de sua filhinha no colégio, na faculdade. Minha parede continua lá, mamãe? Está espantada com tudo isso que estou lhe dizendo? Não, não são ressentimentos, estou só me abrindo, pela primeira vez, com você, agora sou uma mulher adulta, eu envelheci, mamãe, e há momentos em que acho que você é mais jovem do que eu, estranho, não é? Você ficou tão bonita depois que envelheceu. Será que vou ficar assim também? Suas mãos são tão macias, você sempre cuidou muito bem delas, não é mesmo? Na verdade elas sempre foram muito bonitas, embora eu sempre as tivesse visto de longe, você nunca me tocava muito, não é, mamãe? Então eu as admirava de longe, quando você penteava os cabelos, arrumava os talheres sobre a mesa, adoçava o café, segurava o telefone, pintava os lábios, puxava as meias finas até as coxas e as alisava para esticar os fios, que mãos lindas, lindas se comparadas às minhas, não acha? Veja só, olhe bem para elas, está vendo? Magras, muito magras. Você emagreceu tanto, agora que estou reparando. Tem se alimentado mal? Ainda anda obcecada com suas dietas radicais? Você me parece em forma, como sempre quis ficar, eu, ao contrário, estou sempre como não quis ficar, fora de forma completamente. Se alguém nos visse juntas, diria que eu sou sua mãe e você, minha filha. Engraçado isso. Não acha? Está rindo de mim? É, você sempre riu de mim, a sua filha doidinha, a inconsequente da família, a caçula, a última a ter nascido porque você se descontrolou. É, é mesmo. Se arrependeu de eu ter nascido, não é? Eu sei que sim. Vamos, confesse, faça como eu, seja sincera pelo menos uma vez na vida, o que temos a perder? Somos mãe e filha afinal. Já não está na hora de jogarmos limpo? Eu vim aqui pra isso, pra colocar tudo em pratos limpos, tão limpos quanto os seus. Mamãe, somos duas velhas agora. Pense nisso. Sejamos como velhas camaradas, hein? Não é melhor? Velhas companheiras de luta, velhas colegas de escola, velhas amigas. Eu sou sua amiga, me reconheça. Passado é passado. Vim aqui pra lhe dizer isso. Pra lhe dizer muitas outras coisas mais, mas infelizmente estou sem tempo, tenho outros compromissos, e você também deve estar atrasada. Ah, mamãe, sempre tão pontual, sempre chegando na hora marcada, sem tempo pra mais nada. Não sou eu quem vai mais uma vez atrasá-la, não é? Quer que eu feche a gaveta pra você? Você está tão bonita, e vai ficar mais ainda com o vestido lindo que comprei para você receber seus convidados amanhã para um último beijo. Até manhã, mamãe.
3.7.03
Hoje dobro origamis em vez de papelotes de cocaína. Penso globalmente, ajo localmente. Meus amigos acreditam no socialismo de mercado em nome da sinergia. Eu acho que sinergia é um eufemismo de monopólio que é um eufemismo de uniformidade que é um eufemismo de censura embrulhados na minha síndrome de pânico. Tudo isso eu sei por best-sellers que as pessoas não lêem, pseudo-literatura pró-globalização. Procuro livrarias -- lixo encadernado -- pelas madrugadas. Oui c'est Paris. Non c'est Leblon. Abro garrafas. Não sei explicar. Certas coisas, vários dias, noites longas, voltas pela casa, quando tudo começou. Eu lavo a minha louça sozinha e sei pressentir ressentimentos. Esvazio gavetas, não vejo motivos. Falo em voz baixa. As mulheres têm trauma de pia? Salvem-nos quem puder. Anoréxicas, contra-anoréxicas. A sabotagem gramatical das ficções freudianas. Quem se descolará de mim e passará a me tratar como sombra?
Dicionário do Diabo
C
Calamidade -- lembrete inequívoco de que não podemos controlar os fatos da vida. Há duas espécies de calamidade: o nosso fracasso e o sucesso dos outros.
Caminho -- extenso pedaço de terra que permite que sigamos de onde estamos cansados para onde é inútil ir
Campanha eleitoral -- publicidade oculta de pasta de dente
Candidato -- indivíduo que obtém dinheiro dos ricos e votos dos pobres para protegê-los uns dos outros
Canhão -- instrumento usado para a retificação de fronteiras nacionais
Canibal -- gastrônomo da velha escola que conserva o gosto simples pela dieta natural da época pré-porcina
Carne -- a Segunda Pessoa da Trindade secular
Carnívoro -- indivíduo viciado na crueldade de devorar assustadiços vegetarianos e toda a sua prole
Casa -- estrutura vazia construída para a moradia do homem, da barata, do rato, da mosca, do mosquito, da pulga, do piolho e do micróbio
Casamento -- cerimônia em que duas pessoas prometem ser uma, uma promete ser nada e nada promete ser suportável
Centauro -- espécie de indivíduos que existiam antes da divisão do trabalho e que seguiam a máxima da economia primitiva: "A cada homem o seu próprio cavalo".
Cérebro -- órgão que serve para pensar que pensamos
Circo -- lugar onde é permitido que cavalos, pôneis e elefantes vejam homens, mulheres e crianças fazendo papel de palhaço
Cleptomaníaco -- ladrão rico
Comércio -- espécie de transação onde o sujeito A rouba de B os bens pertencentes a C e, para compensar, B mete a mão no dinheiro de E que pertence a um tal de D
Comestível -- diz-se de tudo aquilo que se pode comer e é de digestão saudável, como o verme para o sapo, o sapo para a cobra, a cobra para o porco, o porco para o homem e o homem para o verme
Confidente -- alguém a quem A confiou os segredos de B, confidenciados a ele por C
Confissão -- método pelo qual se limpa a alma para começar a pecar de novo
Conforto -- estado de espírito evocado pela contemplação do desconforto do próximo
Congratulação -- inveja civilizada
Conhecimento -- coisas em que se acredita
Connoisseur -- especialista que sabe tudo sobre alguma coisa e nada sobre o resto
Consciência -- voz interior que nos adverte que alguém está nos olhando
Conservador -- político aferrado aos males existentes; diferente dos liberais, que querem substituí-los por outros
Consolo -- saber que alguém melhor do que nós é mais infeliz do que somos
Contador -- indivíduo que sabe o preço de tudo e o valor de nada
Contos infantis -- histórias de terror que preparam as crianças para no futuro lerem diários
Convento -- lugar para onde se retiram os ociosos a fim de meditar no vício do ócio
Corporação -- invento engenhoso para se obter lucro individual sem responsabilidade individual
Covarde -- aquele que nas situações de perigo pensa com as pernas
Cristão -- aquele que acredita que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina perfeitamente recomendado para as necessidades espirituais dos outros
Crítico -- indivíduo que finge ser tão difícil de agradar que ninguém chega a tentar
Cura -- homem a quem todos chamam de padre, exceto seus filhos, que o chamam de tio
-- Ambrose Bierce, 1911. Breve, letra "D".
C
Calamidade -- lembrete inequívoco de que não podemos controlar os fatos da vida. Há duas espécies de calamidade: o nosso fracasso e o sucesso dos outros.
Caminho -- extenso pedaço de terra que permite que sigamos de onde estamos cansados para onde é inútil ir
Campanha eleitoral -- publicidade oculta de pasta de dente
Candidato -- indivíduo que obtém dinheiro dos ricos e votos dos pobres para protegê-los uns dos outros
Canhão -- instrumento usado para a retificação de fronteiras nacionais
Canibal -- gastrônomo da velha escola que conserva o gosto simples pela dieta natural da época pré-porcina
Carne -- a Segunda Pessoa da Trindade secular
Carnívoro -- indivíduo viciado na crueldade de devorar assustadiços vegetarianos e toda a sua prole
Casa -- estrutura vazia construída para a moradia do homem, da barata, do rato, da mosca, do mosquito, da pulga, do piolho e do micróbio
Casamento -- cerimônia em que duas pessoas prometem ser uma, uma promete ser nada e nada promete ser suportável
Centauro -- espécie de indivíduos que existiam antes da divisão do trabalho e que seguiam a máxima da economia primitiva: "A cada homem o seu próprio cavalo".
Cérebro -- órgão que serve para pensar que pensamos
Circo -- lugar onde é permitido que cavalos, pôneis e elefantes vejam homens, mulheres e crianças fazendo papel de palhaço
Cleptomaníaco -- ladrão rico
Comércio -- espécie de transação onde o sujeito A rouba de B os bens pertencentes a C e, para compensar, B mete a mão no dinheiro de E que pertence a um tal de D
Comestível -- diz-se de tudo aquilo que se pode comer e é de digestão saudável, como o verme para o sapo, o sapo para a cobra, a cobra para o porco, o porco para o homem e o homem para o verme
Confidente -- alguém a quem A confiou os segredos de B, confidenciados a ele por C
Confissão -- método pelo qual se limpa a alma para começar a pecar de novo
Conforto -- estado de espírito evocado pela contemplação do desconforto do próximo
Congratulação -- inveja civilizada
Conhecimento -- coisas em que se acredita
Connoisseur -- especialista que sabe tudo sobre alguma coisa e nada sobre o resto
Consciência -- voz interior que nos adverte que alguém está nos olhando
Conservador -- político aferrado aos males existentes; diferente dos liberais, que querem substituí-los por outros
Consolo -- saber que alguém melhor do que nós é mais infeliz do que somos
Contador -- indivíduo que sabe o preço de tudo e o valor de nada
Contos infantis -- histórias de terror que preparam as crianças para no futuro lerem diários
Convento -- lugar para onde se retiram os ociosos a fim de meditar no vício do ócio
Corporação -- invento engenhoso para se obter lucro individual sem responsabilidade individual
Covarde -- aquele que nas situações de perigo pensa com as pernas
Cristão -- aquele que acredita que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina perfeitamente recomendado para as necessidades espirituais dos outros
Crítico -- indivíduo que finge ser tão difícil de agradar que ninguém chega a tentar
Cura -- homem a quem todos chamam de padre, exceto seus filhos, que o chamam de tio
-- Ambrose Bierce, 1911. Breve, letra "D".
1.7.03
Helmut Heissenbuttel
Meditações gramaticais simples
a (Tautologias)
a sombra que projeto é a sombra que projeto
a situação em que me encontro é a situação
em que me encontro
a situação em que me encontro é sim e não
situação minha situação minha particular situação
grupos de grupos se movem sobre superfícies abertas
grupos de grupos se movem sobre cores puras
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
a sombra que projeto é a sombra que projeto
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
e desaparecem
(trad. MP)
a (Tautologias)
a sombra que projeto é a sombra que projeto
a situação em que me encontro é a situação
em que me encontro
a situação em que me encontro é sim e não
situação minha situação minha particular situação
grupos de grupos se movem sobre superfícies abertas
grupos de grupos se movem sobre cores puras
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
a sombra que projeto é a sombra que projeto
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
e desaparecem
(trad. MP)
29.6.03
A floresta da linguagem
Um terror me sacode; estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento não-essencial. Porém hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para não cair no terrível cipoal da regência, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptelas me cortam o rosto enquanto sufoco com o cheiro de defectivos. Ponho o pé num nome próprio, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises, e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Felizmente surge a clareira de um parágrafo. Avanço, abrindo parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silepse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopéia, sou envolvido por diversos parequemas, a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Morto de exaustão, cercado por centenas de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo que cheguei a um lugar-comum.
27.6.03
Kulturkampf? Brainstorming? O que é sólido desmanchou no ar. Se o mundo virtual é uma metaverdade, leitura de bisbilhotices, arquitetura de imagens, restos da cultura da palavra, videolândia, infoliteratura, empty-V de parabólicas celestiais, posto de escuta de sedentários copy&paste, imagineering de gente @, mercado de realismo comercial multimídia, cultura de shopping onde seres animatrônicos talk-show consigo mesmos inventando histórias que convêm aonde for necessário, no piloto automático, sinergia de escritores de egos superpostos, figurinhas em vez de palavras, blogs de blogs de weblogs, blogger ou blogger?, microsoft ou microsoft? como fazer a punção lombar desta hemorragia? Acabo desistindo onde começo. As baratas têm mais de 200 milhões de anos.
26.6.03
Agradeço à minha prezadíssima Ólabauti do Eu Quero ser Cora Rónai a pronta resposta aos meus problemas de acentuação do New Blogger. Agradeço aos amigos que porventura quiseram me ajudar mas não conseguiram ou chegaram tarde. O que vocês estão fazendo que ainda não conhecem All About Eve?
Dicionário do Diabo
B
Baco -- conveniente divindade inventada pelos povos da Antiguidade como uma desculpa para se embebedar
Banho -- espécie de ritual místico que substituiu o culto religioso e cuja eficácia espiritual ainda não foi comprovada
Banqueiro -- indivíduo que nos empresta o guarda-chuva quando faz sol e o tira quando começa a chover
Barato -- o que se pode vender mais caro
Barômetro -- engenhoso instrumento que indica o tempo que está fazendo
Bastante -- tudo que pode haver no mundo quando se quer
Batalha -- método de desamarrar com os dentes um nó político que não pode ser desfeito com a língua
Batismo -- rito sagrado de tamanha eficácia que todo aquele que se encontra no paraíso e não foi batizado vai se sentir eternamente infeliz por isso
Bebê -- criatura de idade e sexo indefinidos, notável pela violência de sentimentos contraditórios que desperta nos outros, quando ele próprio é desprovido de sentimentos ou emoções
Belladonna -- em italiano, uma linda mulher; em inglês, um veneno mortal. Exemplo admirável da identidade essencial entre as duas línguas
Benfeitor -- aquele que compra ingratidão em grandes quantidades sem que isso afete o preço, que continua acessível a todos
Bigamia -- erro de discernimento para o qual a sabedoria do futuro vai criar uma punição: a trigamia
Boa Aparência -- a mesma cor de pele do seu patrão
Boato -- a arma preferida dos destruidores da reputação alheia
Bobagem -- as críticas lançadas a este excelente dicionário
Bruto -- ver Marido
Burocrata -- indivíduo capaz de achar mil problemas para uma solução
Busto -- estátua de um homem sem mãos, ou parte da mulher onde estão as mãos do homem
-- Ambrose Bierce, 1911. Trad. MP. Aguarde letra "C".
B
Baco -- conveniente divindade inventada pelos povos da Antiguidade como uma desculpa para se embebedar
Banho -- espécie de ritual místico que substituiu o culto religioso e cuja eficácia espiritual ainda não foi comprovada
Banqueiro -- indivíduo que nos empresta o guarda-chuva quando faz sol e o tira quando começa a chover
Barato -- o que se pode vender mais caro
Barômetro -- engenhoso instrumento que indica o tempo que está fazendo
Bastante -- tudo que pode haver no mundo quando se quer
Batalha -- método de desamarrar com os dentes um nó político que não pode ser desfeito com a língua
Batismo -- rito sagrado de tamanha eficácia que todo aquele que se encontra no paraíso e não foi batizado vai se sentir eternamente infeliz por isso
Bebê -- criatura de idade e sexo indefinidos, notável pela violência de sentimentos contraditórios que desperta nos outros, quando ele próprio é desprovido de sentimentos ou emoções
Belladonna -- em italiano, uma linda mulher; em inglês, um veneno mortal. Exemplo admirável da identidade essencial entre as duas línguas
Benfeitor -- aquele que compra ingratidão em grandes quantidades sem que isso afete o preço, que continua acessível a todos
Bigamia -- erro de discernimento para o qual a sabedoria do futuro vai criar uma punição: a trigamia
Boa Aparência -- a mesma cor de pele do seu patrão
Boato -- a arma preferida dos destruidores da reputação alheia
Bobagem -- as críticas lançadas a este excelente dicionário
Bruto -- ver Marido
Burocrata -- indivíduo capaz de achar mil problemas para uma solução
Busto -- estátua de um homem sem mãos, ou parte da mulher onde estão as mãos do homem
-- Ambrose Bierce, 1911. Trad. MP. Aguarde letra "C".
25.6.03
22.6.03
Acabei o café, apaguei o cigarro, paguei e dirigi-me ao encontro do indivíduo da imobiliária , que me iria mostrar o apartamento para alugar. Já estava atrasado e duvidava que ele ainda estivesse à espera.
Não conhecia bem a parte da cidade onde, possivelmente, iria morar. Ficava na parte oeste, a zona mais antiga da cidade, que a partir daí se ramificou absurdamente.
Já na Rua da Misericórdia procurei o número 72. Caminhei até encontrar a porta e deparei com um edifício de aspecto sinistro, a precisar de cuidados exteriores. Empurrei a porta de entrada que, como esperava, rangeu e mergulhei na escuridão. Tentei encontrar um interruptor, mas tal tarefa revelou-se infrutífera. Deixei que os olhos se habituassem à escuridão e procurei a escada.
Subi e, ao chegar ao primeiro andar, deparei com uma velhota, em camisa de noite, com o cabelo desgrenhado que olhou fixamente, dizendo: -“Você deve ser o novo blogger. Vai gostar de viver aqui, de certeza. Mas o que vai apreciar mesmo é a vista das suas janelas!” – e a velha desapareceu na escuridão, no meio de um sorriso medonho, demasiado cinematográfico para ser real.
Continuei a subir até alcançar o segundo piso. À porta da habitação, o homem da imobiliária sorria, como se a espera não lhe tivesse custado. –“Entre! Entre, Sr. Aniceto! Venha conhecer esta maravilha!” . Os minutos seguintes foram inenarráveis: uma casa a precisar urgentemente de obras e o tipo a tentar iludir-me, com um discurso surreal acerca da beleza do espaço, até que uma frase sua me chamou verdadeiramente a atenção: “Sabe, Sr. Aniceto, se ficar com a casa vai ficar também com uma vista fabulosa sobre a cidade!”
Incomodado, decidi dar uma volta pelo resto da casa, constatando a degradação mais que evidente. A certa altura, num dos quartos notei uma saliência no rodapé. Movido por uma inusitada curiosidade, apreciei melhor tal saliência. Dei uma pancada e o som devolvido fez-me ter a certeza que aquela parte era oca. Dei um chuto o rodapé, que cedeu, dando lugar a uma concavidade. Ajoelhei-me, espreitando, e introduzi a mão para alcançar o que me parecia ser um pedaço de papel. A minha descoberta era mesmo um papel, mas dobrado, que prontamente abri e li:
“Na cidade de Palaguín
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
que frequentavam aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de «era uma vez»...
Havia hospitais repletos
onde à porta o pus escorria para as valetas;
Havia janelas que nunca se abriam
e prisões descomunais sem portas;
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida;
Havia cães enormes e famélicos
devorando mortos insepultos e voantes;
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade;
havia gente bebendo sofregamente
a água dos esgotos e das poças;
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.
Na cidade de Palaguín
havia crianças sem braços e desnudas
que brincavam em pântanos e abismos;
Havia ardinas que à tarde anunciavam
a falência do jornal que vendiam;
Havia cinemas onde o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam os sexos dos filhos
para verem cinema)
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo;
Havia pobres que somente aceitavam como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos;
E havia ricos que pelos passeios
imploravam misericórdias e chicotadas;
Na cidade de Palaguín
havia bêbedos emborcando ácidos
e retorcendo-se em espasmos na valeta;
Havia gatos sedentos
que iam beber leite aos seios das virgens;
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
Havia velhas que se suicidavam
atirando-se das paredes para o meio da multidão;
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes...
Na cidade de Palaguín
havia Havia HAVIA
Três vezes nove um milhão!” *
Dobrei cuidadosamente o manuscrito, dirigi-me ao tipo da imobiliária e com uma certeza inabalável disse-lhe que aceitava a casa.
* Carlos Eurico da Costa
20.6.03
Dicionário do Diabo
A
Abrv. -- abreviatura de abreviatura
Abstinente -- diz-se de pessoa fraca que se deixa levar pela tentação de negar um prazer a si mesma
Acidente -- circunstância em que a presença de espírito é fundamental, de preferência acompanhada da ausência física
Adão -- primeiro homem surgido na face da terra; foi expulso do paraíso por haver mantido relações sexuais com uma de suas costelas
Advogado -- político em fase larval
Agonia -- processo de aclimatação da alma antes de entrar num outro mundo bem pior
Aliança -- em política internacional, pacto firmado por dois ladrões que já roubaram tanto um ao outro que decidem unir-se para roubar um terceiro
Ambição -- desejo incontrolável de ser caluniado pelos inimigos enquanto vivo, e ridicularizado pelos amigos depois de morto
Ambidestro -- diz-se de alguém capaz de bater carteiras de um bolso esquerdo e do direito com a mesma eficiência
Amigo(a) -- pessoa dotada de "um não sei quê" que nos demove da intenção de querer deitar-se com ela
Amor -- enfermidade passageira que se cura com o casamento
Amor à primeira vista -- o que acontece quando duas pessoas pouco exigentes e excepcionalmente ardentes se conhecem
Anestesista -- um médico meio dormindo que cuida de um paciente meio acordado
Anônimo -- o autor do livro "As mil e uma noites"
Antipatia -- sentimento que nos desperta o amigo de nosso amigo
Antônimo -- o contrário da palavra que você está pensando
Aplauso -- o eco de uma banalidade
Aprendizado -- espécie de ignorância que distingue os estudiosos
Argentino -- fruto da combinação entre um navio cheio de imigrantes europeus e algumas garrafas de uísque
Aritmético -- aquele que é capaz de contar até vinte sem precisar tirar os sapatos
Assassino -- indivíduo suicida com vocação para o social
Auto-estima -- erro de apreciação
-- Ambrose Bierce, 1911. Versão resumida. Tradução Maira Parula.
A
Abrv. -- abreviatura de abreviatura
Abstinente -- diz-se de pessoa fraca que se deixa levar pela tentação de negar um prazer a si mesma
Acidente -- circunstância em que a presença de espírito é fundamental, de preferência acompanhada da ausência física
Adão -- primeiro homem surgido na face da terra; foi expulso do paraíso por haver mantido relações sexuais com uma de suas costelas
Advogado -- político em fase larval
Agonia -- processo de aclimatação da alma antes de entrar num outro mundo bem pior
Aliança -- em política internacional, pacto firmado por dois ladrões que já roubaram tanto um ao outro que decidem unir-se para roubar um terceiro
Ambição -- desejo incontrolável de ser caluniado pelos inimigos enquanto vivo, e ridicularizado pelos amigos depois de morto
Ambidestro -- diz-se de alguém capaz de bater carteiras de um bolso esquerdo e do direito com a mesma eficiência
Amigo(a) -- pessoa dotada de "um não sei quê" que nos demove da intenção de querer deitar-se com ela
Amor -- enfermidade passageira que se cura com o casamento
Amor à primeira vista -- o que acontece quando duas pessoas pouco exigentes e excepcionalmente ardentes se conhecem
Anestesista -- um médico meio dormindo que cuida de um paciente meio acordado
Anônimo -- o autor do livro "As mil e uma noites"
Antipatia -- sentimento que nos desperta o amigo de nosso amigo
Antônimo -- o contrário da palavra que você está pensando
Aplauso -- o eco de uma banalidade
Aprendizado -- espécie de ignorância que distingue os estudiosos
Argentino -- fruto da combinação entre um navio cheio de imigrantes europeus e algumas garrafas de uísque
Aritmético -- aquele que é capaz de contar até vinte sem precisar tirar os sapatos
Assassino -- indivíduo suicida com vocação para o social
Auto-estima -- erro de apreciação
-- Ambrose Bierce, 1911. Versão resumida. Tradução Maira Parula.
19.6.03
Ah, sim, me agradaria que Deus deixasse a sala. É chato ter de falar sobre essas coisas na presença dele, além do mais fico constrangida só de pensar em ter de falar baixinho na minha própria casa. Não que ele seja mais sensível do que os outros. Nem que esteja particularmente interessado na minha conversa. O fato é que nos conhecemos praticamente agora, e não sou afeita a intimidades logo de cara. Admito manifestações mais ardentes na juventude, não ficaria bem, na minha idade, me expor assim, como o filho dele fez, por exemplo. Podia estar coberto de boas intenções, vá lá, mas foi um bocado tolo e exibicionista. A humildade pomposa dos profetas chega a parecer arrogância. Você não acha? Bem, a verdade é que toda aquela história já não nos interessa. Sabia que o filho do homem costuma me visitar sempre à tardinha? Tomamos chá com biscoitos. Ouvimos um pouco de música, ele não gosta dos clássicos. Fez cara feia quando ameacei um canto gregoriano. Mas, no geral, pelo que pude notar, ele não mudou nada. Cheguei a estremecer quando desandou a expor os mesmos princípios de sempre. Sem qualquer alteração. Disfarcei, para não bocejar, servi mais um pouco de chá e desviei a conversa para plantas. Sinto-me mais reconfortada assim. Confesso que ainda hoje perco o fôlego ao lembrar-me de cruzes, chagas, pecados, milagres e, que horror, a tal da ressurreição. Sabe como é, as mulheres não esquecem com facilidade. Já os homens, eles são tão pragmáticos. No fundo, confundem trabalho com calvário. Quanto a mim, sei que minha vida pode parecer um pouco sem propósito, é o que ele sempre me diz. Mas que propósitos teriam propósito? Ele disfarça, serve-se de mais chá e desvia a mão para os biscoitos. Às vezes me acho desprezível. Nestas horas faço longas caminhadas até meus pés cobrirem-se de bolhas. Não chega a ser um flagelo, mas uma forma de espairecer. Como fazem agora nossos três cães no jardim. Reparou como eles cresceram?
18.6.03
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar
o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente
que não pretende ficar;
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena
oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais
o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro;
não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu,
nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras
feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados,
cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz
teu habitante voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo
esperto mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem.)
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes,
sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz,
balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas
de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras
pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso,
sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
-- Ascânio Lopes, "Cataguazes", poema de 1928 dedicado a Carlos Drummond de Andrade.
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar
o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente
que não pretende ficar;
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena
oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais
o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro;
não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu,
nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras
feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados,
cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz
teu habitante voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo
esperto mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem.)
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes,
sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz,
balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas
de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras
pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso,
sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
-- Ascânio Lopes, "Cataguazes", poema de 1928 dedicado a Carlos Drummond de Andrade.
17.6.03
15.6.03
Vicente Gunz chama-me para ver a lavadeira Ana Blúmia às margens do Arrudas. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta, acocorada nas margens da água espessa. Lava suas rendinhas, seus bordadinhos, suas fronhas de riso e lágrimas. As águas descem. Pelas águas descem restos de extratos bancários, restos de suflês, projetéis, canos de espingardas, pneus, uma gravata de deputado, um par de sapatos de um magnata, manchados de sangue. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta. E os bem-te-vis também cantam nos telhados de Belo Horizonte.
- - - - - - - - - - - - - - - - -
Vicente Gunz é quem diz nesta manhã de garoa: "Pobres filhos pobres da poesia do Leminski".
- - - - - - - - - - - - - - - - -
Leio na edição de hoje do SENTINELA DORMINDO que o poeta Joaquim Vírgula faz, desde a semana passada, um protesto na Rua Leopoldina. Segundo o jornal, Joaquim Vírgula empurra, rua acima, um pacote com duzentos quilos de poemas. Assim que chega aos altos do Santo Antônio, o poeta solta o pacote morro abaixo e recomeça a subida, interminavelmente, desde a esquina de Benvinda de Carvalho. “Sou o Sísifo dos tempos modernos”, diz ele. “Tudo o que escrevo, há mais de vinte anos, permanece inédito. Enquanto não for publicado, estarei aqui, rua acima e rua abaixo, em protesto pelo modo com que tratam os poetas”. Na segunda-feira, de acordo com a reportagem, o pacote quase atropelou uma madame que voltava da feira com uma sacola de alfaces.
-- A Volta de Kafka em Belo Horizonte
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Vicente Gunz é quem diz nesta manhã de garoa: "Pobres filhos pobres da poesia do Leminski".
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Leio na edição de hoje do SENTINELA DORMINDO que o poeta Joaquim Vírgula faz, desde a semana passada, um protesto na Rua Leopoldina. Segundo o jornal, Joaquim Vírgula empurra, rua acima, um pacote com duzentos quilos de poemas. Assim que chega aos altos do Santo Antônio, o poeta solta o pacote morro abaixo e recomeça a subida, interminavelmente, desde a esquina de Benvinda de Carvalho. “Sou o Sísifo dos tempos modernos”, diz ele. “Tudo o que escrevo, há mais de vinte anos, permanece inédito. Enquanto não for publicado, estarei aqui, rua acima e rua abaixo, em protesto pelo modo com que tratam os poetas”. Na segunda-feira, de acordo com a reportagem, o pacote quase atropelou uma madame que voltava da feira com uma sacola de alfaces.
-- A Volta de Kafka em Belo Horizonte
Almoço de domingo
Quando começamos a dirigir um carro
temos lá uma certa sensação bem besta de poder
sim, poder ir a qualquer lugar entre o Chuí e o Oiapoque
qualquer lugar entre a Puc e o Carrefour
ou até não ir a lugar algum e lutar contra o freio de mão
numa verdadeira cruzada para amar a namorada
sem requintes mas bem contente
pois foi num destes domingos de almoço de família
ou então num destes almoços de família de domingo
que prontifiquei-me a buscar o almoço
um frango prensado no Don Nicolla
e realmente o busquei com travessas de inox
e um duralex pro espaghetti
quando estou retornando e paro no sinal, olho pro lado
uma casa de um muro alto coberto por trepadeiras e calçada de basalto
pega fogo e um homem grita desesperado,
eu penso é um assalto, e eu VEJO, não, é um incêndio
e eu ali com o frango prensado me olhando, meu pára-brisa enfumaçado,
e eu vejo a família, o almoço esperando
e a vizinhança com mangueiras e baldes ao moço ajudando,
que até sorri agora, a agonia foi-se embora
finalmente engato a primeira, o fogo apaga, o almoço chega,
a família come, e a tristeza acaba, não é fantástico ?!
-- Frank Jorge
Quando começamos a dirigir um carro
temos lá uma certa sensação bem besta de poder
sim, poder ir a qualquer lugar entre o Chuí e o Oiapoque
qualquer lugar entre a Puc e o Carrefour
ou até não ir a lugar algum e lutar contra o freio de mão
numa verdadeira cruzada para amar a namorada
sem requintes mas bem contente
pois foi num destes domingos de almoço de família
ou então num destes almoços de família de domingo
que prontifiquei-me a buscar o almoço
um frango prensado no Don Nicolla
e realmente o busquei com travessas de inox
e um duralex pro espaghetti
quando estou retornando e paro no sinal, olho pro lado
uma casa de um muro alto coberto por trepadeiras e calçada de basalto
pega fogo e um homem grita desesperado,
eu penso é um assalto, e eu VEJO, não, é um incêndio
e eu ali com o frango prensado me olhando, meu pára-brisa enfumaçado,
e eu vejo a família, o almoço esperando
e a vizinhança com mangueiras e baldes ao moço ajudando,
que até sorri agora, a agonia foi-se embora
finalmente engato a primeira, o fogo apaga, o almoço chega,
a família come, e a tristeza acaba, não é fantástico ?!
-- Frank Jorge
14.6.03
Ó meus amantes,
Almas simplórias,
Mas que sensualidade.
Vinde me consolar das desventuras
Distraí-me dessas literaturas;
Tu, suburbano, vamos tocar uma em gíria,
E vós, do campo, contai-me em dialeto
Casos sacanas e casos singelos,
Travemos nos bosques cerrados
A grande guerra
Dos beijos vários.
Vós, espertos, caprichemos na língua,
Merda pros casos tristes,
Dos tolos e babacas.
(Babacas, isto é, imbecis,
Outras babacas são de praxe
Até para nós, os difíceis,
Os especiais, os escravos da boa Igreja
Cujo papa seria Platão
E Sócrates, protonotário,
Uma mulher de vez em quando é de bom-tom;
Uma concessãozinha não mata ninguém.
E é preciso dar a cada um sua quota:
Mulheres também têm direito a nossa glória.
Um afaguinho
De vez em quando
E voltemos ao que interessa.)
Ó meus meninos amados, vingai-me
Com vossas carícias severas
E vossos cus e picas, regalos divinos,
De todas essas carnes ocas
Que a retórica brinda aos cérebros merdosos
Desses pobres coitados que não compreendem.
Trepemos, chega de metáforas,
Brinquemos com nossos colhões,
Passemos uma água nas glandes
E depois porra, merda, nádegas e coxas!
-- Paul Verlaine, em Hommes, 1891.
Almas simplórias,
Mas que sensualidade.
Vinde me consolar das desventuras
Distraí-me dessas literaturas;
Tu, suburbano, vamos tocar uma em gíria,
E vós, do campo, contai-me em dialeto
Casos sacanas e casos singelos,
Travemos nos bosques cerrados
A grande guerra
Dos beijos vários.
Vós, espertos, caprichemos na língua,
Merda pros casos tristes,
Dos tolos e babacas.
(Babacas, isto é, imbecis,
Outras babacas são de praxe
Até para nós, os difíceis,
Os especiais, os escravos da boa Igreja
Cujo papa seria Platão
E Sócrates, protonotário,
Uma mulher de vez em quando é de bom-tom;
Uma concessãozinha não mata ninguém.
E é preciso dar a cada um sua quota:
Mulheres também têm direito a nossa glória.
Um afaguinho
De vez em quando
E voltemos ao que interessa.)
Ó meus meninos amados, vingai-me
Com vossas carícias severas
E vossos cus e picas, regalos divinos,
De todas essas carnes ocas
Que a retórica brinda aos cérebros merdosos
Desses pobres coitados que não compreendem.
Trepemos, chega de metáforas,
Brinquemos com nossos colhões,
Passemos uma água nas glandes
E depois porra, merda, nádegas e coxas!
-- Paul Verlaine, em Hommes, 1891.
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