15.7.03

Nelson Rodrigues

Bem me lembro dos meus cinco, seis anos. O vizinho era, então, todo o meu horizonte humano. Ainda vejo as pessoas que moravam ao nosso lado, ou em frente, ou na esquina. Os sujeitos se cumprimentavam assim: "Bom dia, vizinho. Como vai, vizinho?" E a simples palavra tinha uma tensão, um frêmito, uma magia. Era como se o "vizinho" fosse um enfático nome wagneriano, uma espécie de Lohengrin prodigioso.
O mundo era aquela meia dúzia de vizinhos. E justamente a Lili veio morar duas ou três casas adiante da minha. Hoje ninguém se chama Lili. Lili é um nome nostálgico, obsoleto, espectral. Naquele tempo, não. Em cada rua havia uma Lili, ou duas, ou até três. Havia um pó-de-arroz que se chamava Lili. Minto. Não era Lili, era Lady. Também havia Odetes por toda parte. Ao passo que, hoje, somos um povo de poucas Odetes.
Lili. Conheci o nome antes da pessoa. Um dia, eu estava na mesa, tomando café com macaxeira. E então alguém falou em Lili. Achei o nome lindo. Lili. Aquilo ficou gorjeando em mim. Faço, porém, a ressalva: aos cinco, seis anos, não se faz nenhuma seleção auditiva. Para mim, qualquer nome era bonito. Morava na rua Dona Maria um "seu" Sepúlveda. Era capitão da Guarda Nacional e tinha bigodões. Sepúlveda, ou qualquer outro nome, vem com um halo de mistério, de graça e de espanto. Que vontade tive de me chamar Sepúlveda!
E Lili foi, exatamente, a minha primeira paixão de menino. Antes de vê-la, eu a amei. Amei o puro nome, o puro som. Era a primeira Lili da minha infância. Cinco anos tinha eu. Ou seis. Vá lá, seis. Sentia que aquele nome insinuava um mistério ou, mais do que isso, um destino. Fui varado por um sentimento de pena e de medo. Como se Lili fosse alguém que já morreu e que só aparece, por um momento, na memória dos espelhos.
Até que, uma manhã, ou tarde, sei lá, eu a vi. E de repente Lili deixou de ser apenas um som. Passava a ter um olhar, um perfil, um gesto. E era gorda. Hoje ninguém vê uma gorda sem lhe acrescentar um ponto de exclamação. Vivemos uma época tão sem busto, tão sem quadris, que ninguém entenderia a Lili de 1918. Os homens eram magros, tinham a face e o peito cavos. Mas a mulher podia ser gorda, ou, melhor, devia ser gorda. A partir dos catorze anos, os quadris e os bustos explodiam. Simples adolescentes tinham os flancos tão pesados que precisavam se pôr de perfil para atravessar as portas. Lili era a gorda em flor...

-- Nelson Rodrigues, em "Um menino de paixões de ópera", 1967.

13.7.03

A traição



quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse


-- Alexandre O'Neill
Ah como compreendo os transsexuais. Nascem com sentir e atitude de mulher num corpo de homem; e vice-versa.
Compreendo-os porque padeço de um mal semelhante. Ah como eu gostava de ter nascido Marquês, ou ir à ópera e ouvir dizerem-me: Sr. Comendador isto, Sr. Comendador aquilo. E de viver num mundo de glamour, oferecer às top-models anéis de diamantes, beber champagne e fumar Cohibas na minha limousine, vestir nos melhores costureiros, sapatos italianos, golf, aparecer na Caras a almoçar no saloio e very tipical Gigi, ter um jacto e uma ilha, uma herdade com trinta puros lusitanos, casa de praia e de montanha e em Courchevel e em Paris e New York... Sei lá, nem sei bem o que tenho. E o meu escritório - onde nunca vou, aliás - ser imensamente, mas imensamente, melhor que a Penthouse da Segurança Social do Algarve, recheado com doze secretárias e quinze assessoras de mini-saia e wonderbra. Uma vida de diletante, interessar-me por arte, ser dono de uma colecção riquíssima, mas riquíssima mesmo, de pinturas, escrever as minhas memórias aos quarenta anos, fazer fotografia submarina nas caraíbas e caçar leões no Quénia. Tenha a bondade Sr. Presidente, faça o obséquio Sr. Governador.
Que vida a minha! Só gosto de coisas caras, quando gosto de alguma coisa e me apetece comprar, como por mau-olhado, é sempre caríssima! Uma vez em Veneza vi, numa loja, uns óculos, enchi-me de coragem, entrei, a menina diz: uma mole de milhões de "liri"; saí com o rabinho entre as pernas, optei por continuar de férias. Gosto da etiqueta Gant, mas já que não posso comprar o catálogo todo, não tenho nem uma peça.
E as pessoas confundem-me com um avarento, porque não me compreendem; já que não posso comprar o que gosto, não compro nada.
Não haverá nenhum procedimento cirúrgico ou, até, uma terapia génica para eu me transformar no grande Gatsby cá da minha terra?


-- Impressões de um Boticário de Província

12.7.03




O melhor que tenho a fazer

Estive pensando que devo escrever um livro. Tenho todas as condições necessárias para concluir o meu projeto:

1º) Quase todo escritor se isola para escrever um livro. Eu vivo em completo isolamento. Creio até ser portadora de um pouco ou muito de fobia social.

2º) É preciso ter tempo para escrever. Tempo é o que mais tenho. Tempo não é dinheiro. Falta de tempo é dinheiro. Portanto eu tenho todo o tempo do mundo ao meu inteiro dispor.

3º) Aquela frase "Fulano não pode ser interrompido, está escrevendo" vai muito bem em escritores de verdade, mas soa como falta de educação para quem está escrevendo a lista do supermercado ou fazendo o rol de roupa suja. Da próxima vez eu estarei escrevendo um livro, portanto não serei mal-educada.

4º) Geralmente escritores não se preocupam nem um pouco com aquelas coisas corriqueiras e chatas como "de que jeito vou pagar o aluguel". Todo escritor tem alguém que pague as contas, suponho, do contrário morreria de inanição antes de escrever o primeiro livro. A princípio, escritores não têm preocupações, senão não poderia escrever direito. Eu, determinantemente não me preocupo com nada, portanto...se alguém vier cobrar alguma coisa ainda tenho aquela frase: "Fulana está escrevendo. Não pode ser interrompida". Só espero que o cobrador entenda e não queira perturbar um gênio em criação.

5º) Escritor é excêntrico, estranho, e sai por aí com os cabelos desgrenhados e pode ficar até 3 dias sem tomar banho. Ninguém vai chamá-lo de porco. Ele é só um escritor. Ainda não fiquei três dias sem tomar banho, mas posso tentar.

As vantagens morais são relevantes e extraordinárias:

6º) Ninguém vai perguntar se já arranjei o que fazer ou me colocar a alcunha de vagabunda. Por mais que possa parecer estranho, escrever é trabalho sim. Pode até não ser remunerado, mas é. Pescador quando sai pro mar e não pega peixe nenhum também está trabalhando. Não é não?

7º) Se alguém perguntar "o que você faz?" vou ter alguma coisa mais concreta para responder em lugar de ficar procurando na memória qualquer uma das minhas aptidões sem efeito para justificar a minha total falta do que fazer.

8º) Por fim, se alguém perguntar por que não apareço nas festas da família, onde está enfiada aquela sua irmã, ninguém mais vai ter que inventar uma desculpa esfarrapada. Basta dizer: "Ela está recolhida escrevendo um livro" . Em lugar de "outra vez?", eles ouvirão orgulhosos: "É mesmo?". Pensando bem, se todos os argumentos acima não valerem, vale livrar a cara da família do vexame de ter alguém com o mesmo sobrenome que odeia festas.

Apenas um senão sem importância nenhuma: eu não sei, realmente, escrever. Refuto prontamente e com ardor: Paulo Coelho também não sabe e escreve sem vergonha nenhuma, inclusive é lido desavergonhadamente. Tão desavergonhadamente que está com os burros na sombra e toma chá na Academia Brasileira de Letras. Escrevo tão porcamente quanto ele portanto meu futuro está garantido e meus alfarrábios vão valer fortuna, se a premissa for válida. Eu acho que é.

A outra porcaria de senão é: sobre o que mesmo é que vou escrever?


-- Teruska.

10.7.03

Dicionário do Diabo



D


Decidir -- sucumbir à preponderância de um conjunto de influências em detrimento de outras

Dejeuner -- o café da manhã de americanos em Paris. Admite várias pronúncias.

Delegação -- em política, diz-se de mercadoria despachada em grupos.

Deliberação -- ato de examinar o pão de alguém para determinar de que lado está a manteiga.

Democracia -- forma de governo que substitui conselhos de poucos corruptos pela eleição de muitos incompetentes.

Dependente -- aquele que se fia na generosidade alheia para obter a ajuda que não tem condição de arrancar.

Destino -- autoridade do tirano para o crime. Desculpa do idiota para o fracasso.

Dez mandamentos -- condições mínimas e necessárias para não ser um ser humano.

Dia -- período de 24 horas, a maioria das quais mal aproveitadas. O período divide-se em duas partes: o dia propriamente dito e a noite, ou dia impropriamente dito. Dedica-se o dia aos pecados dos negócios e a noite, ao inverso. Estas duas espécies de atividade social se confundem.

Diagnóstico -- prognóstico de uma enfermidade feito por um médico que leva em conta os sintomas e o bolso do paciente.

Difamar -- mentir a respeito de alguém. Falar a verdade a respeito de alguém.

Digestão -- a conversão de víveres em virtudes. Quando o processo é imperfeito, arrota-se vícios.

Dinheiro -- passaporte para a sociedade civilizada.

Diplomacia -- a patriótica arte de mentir pelo país.

Diplomático -- diz-se de todo aquele que nos manda à merda de um jeito tão especial que ficamos ansiosos para que a viagem comece logo.

Discussão -- método de reafirmar os outros em seus erros.

Distância -- a única coisa que os ricos deixam de herança aos pobres para que a guardem bem.

Ditador -- chefe de nação que prefere a pestilência do despotismo à praga da anarquia.

Dívidas -- engenhoso substituto das correntes e chicotes dos tempos da escravatura.

Dor de cabeça -- o anticoncepcional mais utilizado pela mulher.

Dramaturgo -- diz-se daquele que adapta peças dos franceses.

Duas vezes -- uma vez demais.

Duelo -- cerimônia de reconciliação entre dois inimigos.


-- Ambrose Bierce, 1911. Aguarde letra "E".

9.7.03

O poeta do hediondo



Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!


-- Augusto dos Anjos

7.7.03


paisagem doméstica


no vidro rugoso
a luz que chega
se parte
(áspera)
em difrações
cintilâncias

gotas de morfina latejando.

também há o ronco do freezer,
o ruído no som do computador,
e azulejos limpos, se entreolhando.

sobre tudo se põe um pano branco.

senhoras comentam, monotonamente,
o comportamento estranho
de um garoto na última reunião

o som ritmado de um martelo
retorna, ao longe,
sem nenhuma explicação.

salgados congelados são lançados no óleo,
berrando: um coro desesperado.

.....................................................................

cantiga pra confundir moça


Amada,
só te amo e te conheço
como se ama e conhece
lugares irreais
coisas inventadas
coisas que, quando se partem,
nunca mais se recompõem.

.........................................................

a beira do mar

os rochedos de onde
nos arremessávamos

dois golpes de vento
espalhando o resto das ondas



Nel Yokomizo, poeta estreando neste blog.


5.7.03

Quem diria que eu estaria aqui de novo, bem na sua frente, cara a cara, mamãe, falando com você, finalmente com coragem de dizer tudo que me passa pela cabeça, dizendo coisas que eu jamais imaginei que pudesse dizer um dia para a minha própria mãe, sim, você, coisas que eu sempre tive medo que pudessem magoá-la pois sempre soube que você era muito sensível e chorava ou gritava à mera menção de meus problemas, fossem pessoais ou relacionados a você, e, sim, mamãe, eu me calava porque tinha medo, medo da sua reação, de você não me compreender, de interpretar tudo errado, como sempre costumava fazer quando eu era criança e tinha meus próprios desejos, bem diferentes dos seus, já que eu não fazia mais parte de você, minha carne tinha se libertado dos ganchos, você não percebeu, mamãe? Minha carne já não era sua, meu sangue já não era seu, meu corpo a abandonou com o alívio que só a dor e o prazer da separação podem trazer, meu corpo agora era meu e ele começou a gerar seus próprios pensamentos, essa coisa incomensurável e ao mesmo tempo diminuta que sou eu, por acaso sua filha. Mas você parecia que nunca percebia isso, ou não queria ver, mamãe, meus próprios pensamentos, e a mim, os meus desejos. Mas eu mudei, mãe, hoje tenho coragem de lhe falar tudo isso, não está vendo? Hoje, agora, eu estou aqui, na sua frente, sem você ter me chamado, e você vai saber de tudo. Não, não adianta fazer essa cara, não adianta fechar os olhos e fingir que não me ouve, eu sei que você pode me ouvir, você sempre tem ouvido para tudo, para todo mundo, para os meus irmãos, para os parentes, vizinhos e os poucos amigos que frequentavam a nossa casa. A nossa casa, aquele lugar arrumadinho e limpo onde eu mal podia colocar os pés onde quer que fosse, aquela cozinha, onde não me era permitido abrir as panelas para ver o que teríamos no almoço ou no jantar, aquela casa em que eu só podia deitar no meu quarto, na cama que não fazia, sobre lençóis que eu não escolhia, onde eu dormia no horário que você estabelecia, sempre antes dos melhores programas que passavam na tevê, antes que eu pudesse ouvir qualquer conversa interessante das visitas, eu ia dormir morrendo de curiosidade, mamãe, porque crianças são curiosas, eu ia dormir mas encostava o ouvido na parede e ouvia tudo, sabia? Eu ouvia o que você fazia com papai do outro lado da parede também, e nunca pude entender direito por que quando vocês se calavam e as luzes se apagavam eu continuava ouvindo e pegava no sono, hoje acho que tudo aquilo era um sonho, um sonho meu no qual vocês não me incluíam porque eu era o outro lado da parede, algo em que se pendura as fotos dos meus dois anos, dos meus cinco anos, de sua filhinha no colégio, na faculdade. Minha parede continua lá, mamãe? Está espantada com tudo isso que estou lhe dizendo? Não, não são ressentimentos, estou só me abrindo, pela primeira vez, com você, agora sou uma mulher adulta, eu envelheci, mamãe, e há momentos em que acho que você é mais jovem do que eu, estranho, não é? Você ficou tão bonita depois que envelheceu. Será que vou ficar assim também? Suas mãos são tão macias, você sempre cuidou muito bem delas, não é mesmo? Na verdade elas sempre foram muito bonitas, embora eu sempre as tivesse visto de longe, você nunca me tocava muito, não é, mamãe? Então eu as admirava de longe, quando você penteava os cabelos, arrumava os talheres sobre a mesa, adoçava o café, segurava o telefone, pintava os lábios, puxava as meias finas até as coxas e as alisava para esticar os fios, que mãos lindas, lindas se comparadas às minhas, não acha? Veja só, olhe bem para elas, está vendo? Magras, muito magras. Você emagreceu tanto, agora que estou reparando. Tem se alimentado mal? Ainda anda obcecada com suas dietas radicais? Você me parece em forma, como sempre quis ficar, eu, ao contrário, estou sempre como não quis ficar, fora de forma completamente. Se alguém nos visse juntas, diria que eu sou sua mãe e você, minha filha. Engraçado isso. Não acha? Está rindo de mim? É, você sempre riu de mim, a sua filha doidinha, a inconsequente da família, a caçula, a última a ter nascido porque você se descontrolou. É, é mesmo. Se arrependeu de eu ter nascido, não é? Eu sei que sim. Vamos, confesse, faça como eu, seja sincera pelo menos uma vez na vida, o que temos a perder? Somos mãe e filha afinal. Já não está na hora de jogarmos limpo? Eu vim aqui pra isso, pra colocar tudo em pratos limpos, tão limpos quanto os seus. Mamãe, somos duas velhas agora. Pense nisso. Sejamos como velhas camaradas, hein? Não é melhor? Velhas companheiras de luta, velhas colegas de escola, velhas amigas. Eu sou sua amiga, me reconheça. Passado é passado. Vim aqui pra lhe dizer isso. Pra lhe dizer muitas outras coisas mais, mas infelizmente estou sem tempo, tenho outros compromissos, e você também deve estar atrasada. Ah, mamãe, sempre tão pontual, sempre chegando na hora marcada, sem tempo pra mais nada. Não sou eu quem vai mais uma vez atrasá-la, não é? Quer que eu feche a gaveta pra você? Você está tão bonita, e vai ficar mais ainda com o vestido lindo que comprei para você receber seus convidados amanhã para um último beijo. Até manhã, mamãe.


3.7.03

Hoje dobro origamis em vez de papelotes de cocaína. Penso globalmente, ajo localmente. Meus amigos acreditam no socialismo de mercado em nome da sinergia. Eu acho que sinergia é um eufemismo de monopólio que é um eufemismo de uniformidade que é um eufemismo de censura embrulhados na minha síndrome de pânico. Tudo isso eu sei por best-sellers que as pessoas não lêem, pseudo-literatura pró-globalização. Procuro livrarias -- lixo encadernado -- pelas madrugadas. Oui c'est Paris. Non c'est Leblon. Abro garrafas. Não sei explicar. Certas coisas, vários dias, noites longas, voltas pela casa, quando tudo começou. Eu lavo a minha louça sozinha e sei pressentir ressentimentos. Esvazio gavetas, não vejo motivos. Falo em voz baixa. As mulheres têm trauma de pia? Salvem-nos quem puder. Anoréxicas, contra-anoréxicas. A sabotagem gramatical das ficções freudianas. Quem se descolará de mim e passará a me tratar como sombra?

Dicionário do Diabo



C


Calamidade -- lembrete inequívoco de que não podemos controlar os fatos da vida. Há duas espécies de calamidade: o nosso fracasso e o sucesso dos outros.

Caminho -- extenso pedaço de terra que permite que sigamos de onde estamos cansados para onde é inútil ir

Campanha eleitoral -- publicidade oculta de pasta de dente

Candidato -- indivíduo que obtém dinheiro dos ricos e votos dos pobres para protegê-los uns dos outros

Canhão -- instrumento usado para a retificação de fronteiras nacionais

Canibal -- gastrônomo da velha escola que conserva o gosto simples pela dieta natural da época pré-porcina

Carne -- a Segunda Pessoa da Trindade secular

Carnívoro -- indivíduo viciado na crueldade de devorar assustadiços vegetarianos e toda a sua prole

Casa -- estrutura vazia construída para a moradia do homem, da barata, do rato, da mosca, do mosquito, da pulga, do piolho e do micróbio

Casamento -- cerimônia em que duas pessoas prometem ser uma, uma promete ser nada e nada promete ser suportável

Centauro -- espécie de indivíduos que existiam antes da divisão do trabalho e que seguiam a máxima da economia primitiva: "A cada homem o seu próprio cavalo".

Cérebro -- órgão que serve para pensar que pensamos

Circo -- lugar onde é permitido que cavalos, pôneis e elefantes vejam homens, mulheres e crianças fazendo papel de palhaço

Cleptomaníaco -- ladrão rico

Comércio -- espécie de transação onde o sujeito A rouba de B os bens pertencentes a C e, para compensar, B mete a mão no dinheiro de E que pertence a um tal de D

Comestível -- diz-se de tudo aquilo que se pode comer e é de digestão saudável, como o verme para o sapo, o sapo para a cobra, a cobra para o porco, o porco para o homem e o homem para o verme

Confidente -- alguém a quem A confiou os segredos de B, confidenciados a ele por C

Confissão -- método pelo qual se limpa a alma para começar a pecar de novo

Conforto -- estado de espírito evocado pela contemplação do desconforto do próximo

Congratulação -- inveja civilizada

Conhecimento -- coisas em que se acredita

Connoisseur -- especialista que sabe tudo sobre alguma coisa e nada sobre o resto

Consciência -- voz interior que nos adverte que alguém está nos olhando

Conservador -- político aferrado aos males existentes; diferente dos liberais, que querem substituí-los por outros

Consolo -- saber que alguém melhor do que nós é mais infeliz do que somos

Contador -- indivíduo que sabe o preço de tudo e o valor de nada

Contos infantis -- histórias de terror que preparam as crianças para no futuro lerem diários

Convento -- lugar para onde se retiram os ociosos a fim de meditar no vício do ócio

Corporação -- invento engenhoso para se obter lucro individual sem responsabilidade individual

Covarde -- aquele que nas situações de perigo pensa com as pernas

Cristão -- aquele que acredita que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina perfeitamente recomendado para as necessidades espirituais dos outros

Crítico -- indivíduo que finge ser tão difícil de agradar que ninguém chega a tentar

Cura -- homem a quem todos chamam de padre, exceto seus filhos, que o chamam de tio


-- Ambrose Bierce, 1911. Breve, letra "D".

1.7.03

Helmut Heissenbuttel

Meditações gramaticais simples



a (Tautologias)
a sombra que projeto é a sombra que projeto
a situação em que me encontro é a situação
em que me encontro
a situação em que me encontro é sim e não
situação minha situação minha particular situação
grupos de grupos se movem sobre superfícies abertas
grupos de grupos se movem sobre cores puras
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
a sombra que projeto é a sombra que projeto
grupos de grupos se movem sobre a sombra que projeto
e desaparecem


(trad. MP)

29.6.03

A floresta da linguagem


Um terror me sacode; estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento não-essencial. Porém hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para não cair no terrível cipoal da regência, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptelas me cortam o rosto enquanto sufoco com o cheiro de defectivos. Ponho o pé num nome próprio, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises, e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Felizmente surge a clareira de um parágrafo. Avanço, abrindo parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silepse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopéia, sou envolvido por diversos parequemas, a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Morto de exaustão, cercado por centenas de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo que cheguei a um lugar-comum.


-- Millôr Fernandes, em "A Bíblia do Caos".

27.6.03

Kulturkampf? Brainstorming? O que é sólido desmanchou no ar. Se o mundo virtual é uma metaverdade, leitura de bisbilhotices, arquitetura de imagens, restos da cultura da palavra, videolândia, infoliteratura, empty-V de parabólicas celestiais, posto de escuta de sedentários copy&paste, imagineering de gente @, mercado de realismo comercial multimídia, cultura de shopping onde seres animatrônicos talk-show consigo mesmos inventando histórias que convêm aonde for necessário, no piloto automático, sinergia de escritores de egos superpostos, figurinhas em vez de palavras, blogs de blogs de weblogs, blogger ou blogger?, microsoft ou microsoft? como fazer a punção lombar desta hemorragia? Acabo desistindo onde começo. As baratas têm mais de 200 milhões de anos.


26.6.03

Agradeço à minha prezadíssima Ólabauti do Eu Quero ser Cora Rónai a pronta resposta aos meus problemas de acentuação do New Blogger. Agradeço aos amigos que porventura quiseram me ajudar mas não conseguiram ou chegaram tarde. O que vocês estão fazendo que ainda não conhecem All About Eve?

Dicionário do Diabo



B


Baco -- conveniente divindade inventada pelos povos da Antiguidade como uma desculpa para se embebedar

Banho -- espécie de ritual místico que substituiu o culto religioso e cuja eficácia espiritual ainda não foi comprovada

Banqueiro -- indivíduo que nos empresta o guarda-chuva quando faz sol e o tira quando começa a chover

Barato -- o que se pode vender mais caro

Barômetro -- engenhoso instrumento que indica o tempo que está fazendo

Bastante -- tudo que pode haver no mundo quando se quer

Batalha -- método de desamarrar com os dentes um nó político que não pode ser desfeito com a língua

Batismo -- rito sagrado de tamanha eficácia que todo aquele que se encontra no paraíso e não foi batizado vai se sentir eternamente infeliz por isso

Bebê -- criatura de idade e sexo indefinidos, notável pela violência de sentimentos contraditórios que desperta nos outros, quando ele próprio é desprovido de sentimentos ou emoções

Belladonna -- em italiano, uma linda mulher; em inglês, um veneno mortal. Exemplo admirável da identidade essencial entre as duas línguas

Benfeitor -- aquele que compra ingratidão em grandes quantidades sem que isso afete o preço, que continua acessível a todos

Bigamia -- erro de discernimento para o qual a sabedoria do futuro vai criar uma punição: a trigamia

Boa Aparência -- a mesma cor de pele do seu patrão

Boato -- a arma preferida dos destruidores da reputação alheia

Bobagem -- as críticas lançadas a este excelente dicionário

Bruto -- ver Marido

Burocrata -- indivíduo capaz de achar mil problemas para uma solução

Busto -- estátua de um homem sem mãos, ou parte da mulher onde estão as mãos do homem


-- Ambrose Bierce, 1911. Trad. MP. Aguarde letra "C".


25.6.03

As coisas que não têm hoje e ant'ontem amanhã: é sempre.
Ai, arre, mas; que esta minha boca não tem ordem nenhuma.
Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte e reverte.
As pessoas e as coisas não são de verdade. A vida disfarça.


-- Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas".

22.6.03

Acabei o café, apaguei o cigarro, paguei e dirigi-me ao encontro do indivíduo da imobiliária , que me iria mostrar o apartamento para alugar. Já estava atrasado e duvidava que ele ainda estivesse à espera.
Não conhecia bem a parte da cidade onde, possivelmente, iria morar. Ficava na parte oeste, a zona mais antiga da cidade, que a partir daí se ramificou absurdamente.
Já na Rua da Misericórdia procurei o número 72. Caminhei até encontrar a porta e deparei com um edifício de aspecto sinistro, a precisar de cuidados exteriores. Empurrei a porta de entrada que, como esperava, rangeu e mergulhei na escuridão. Tentei encontrar um interruptor, mas tal tarefa revelou-se infrutífera. Deixei que os olhos se habituassem à escuridão e procurei a escada.
Subi e, ao chegar ao primeiro andar, deparei com uma velhota, em camisa de noite, com o cabelo desgrenhado que olhou fixamente, dizendo: -“Você deve ser o novo blogger. Vai gostar de viver aqui, de certeza. Mas o que vai apreciar mesmo é a vista das suas janelas!” – e a velha desapareceu na escuridão, no meio de um sorriso medonho, demasiado cinematográfico para ser real.
Continuei a subir até alcançar o segundo piso. À porta da habitação, o homem da imobiliária sorria, como se a espera não lhe tivesse custado. –“Entre! Entre, Sr. Aniceto! Venha conhecer esta maravilha!” . Os minutos seguintes foram inenarráveis: uma casa a precisar urgentemente de obras e o tipo a tentar iludir-me, com um discurso surreal acerca da beleza do espaço, até que uma frase sua me chamou verdadeiramente a atenção: “Sabe, Sr. Aniceto, se ficar com a casa vai ficar também com uma vista fabulosa sobre a cidade!”
Incomodado, decidi dar uma volta pelo resto da casa, constatando a degradação mais que evidente. A certa altura, num dos quartos notei uma saliência no rodapé. Movido por uma inusitada curiosidade, apreciei melhor tal saliência. Dei uma pancada e o som devolvido fez-me ter a certeza que aquela parte era oca. Dei um chuto o rodapé, que cedeu, dando lugar a uma concavidade. Ajoelhei-me, espreitando, e introduzi a mão para alcançar o que me parecia ser um pedaço de papel. A minha descoberta era mesmo um papel, mas dobrado, que prontamente abri e li:

“Na cidade de Palaguín
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
que frequentavam aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de «era uma vez»...
Havia hospitais repletos
onde à porta o pus escorria para as valetas;
Havia janelas que nunca se abriam
e prisões descomunais sem portas;
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida;
Havia cães enormes e famélicos
devorando mortos insepultos e voantes;
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade;
havia gente bebendo sofregamente
a água dos esgotos e das poças;
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguín
havia crianças sem braços e desnudas
que brincavam em pântanos e abismos;
Havia ardinas que à tarde anunciavam
a falência do jornal que vendiam;
Havia cinemas onde o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam os sexos dos filhos
para verem cinema)
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo;
Havia pobres que somente aceitavam como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos;
E havia ricos que pelos passeios
imploravam misericórdias e chicotadas;

Na cidade de Palaguín
havia bêbedos emborcando ácidos
e retorcendo-se em espasmos na valeta;
Havia gatos sedentos
que iam beber leite aos seios das virgens;
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
Havia velhas que se suicidavam
atirando-se das paredes para o meio da multidão;
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes...
Na cidade de Palaguín
havia Havia HAVIA

Três vezes nove um milhão!” *

Dobrei cuidadosamente o manuscrito, dirigi-me ao tipo da imobiliária e com uma certeza inabalável disse-lhe que aceitava a casa.

* Carlos Eurico da Costa



20.6.03

Dicionário do Diabo


A


Abrv. -- abreviatura de abreviatura

Abstinente -- diz-se de pessoa fraca que se deixa levar pela tentação de negar um prazer a si mesma

Acidente -- circunstância em que a presença de espírito é fundamental, de preferência acompanhada da ausência física

Adão -- primeiro homem surgido na face da terra; foi expulso do paraíso por haver mantido relações sexuais com uma de suas costelas

Advogado -- político em fase larval

Agonia -- processo de aclimatação da alma antes de entrar num outro mundo bem pior

Aliança -- em política internacional, pacto firmado por dois ladrões que já roubaram tanto um ao outro que decidem unir-se para roubar um terceiro

Ambição -- desejo incontrolável de ser caluniado pelos inimigos enquanto vivo, e ridicularizado pelos amigos depois de morto

Ambidestro -- diz-se de alguém capaz de bater carteiras de um bolso esquerdo e do direito com a mesma eficiência

Amigo(a) -- pessoa dotada de "um não sei quê" que nos demove da intenção de querer deitar-se com ela

Amor -- enfermidade passageira que se cura com o casamento

Amor à primeira vista -- o que acontece quando duas pessoas pouco exigentes e excepcionalmente ardentes se conhecem

Anestesista -- um médico meio dormindo que cuida de um paciente meio acordado

Anônimo -- o autor do livro "As mil e uma noites"

Antipatia -- sentimento que nos desperta o amigo de nosso amigo

Antônimo -- o contrário da palavra que você está pensando

Aplauso -- o eco de uma banalidade

Aprendizado -- espécie de ignorância que distingue os estudiosos

Argentino -- fruto da combinação entre um navio cheio de imigrantes europeus e algumas garrafas de uísque

Aritmético -- aquele que é capaz de contar até vinte sem precisar tirar os sapatos

Assassino -- indivíduo suicida com vocação para o social

Auto-estima -- erro de apreciação


-- Ambrose Bierce, 1911. Versão resumida. Tradução Maira Parula.


19.6.03

Ah, sim, me agradaria que Deus deixasse a sala. É chato ter de falar sobre essas coisas na presença dele, além do mais fico constrangida só de pensar em ter de falar baixinho na minha própria casa. Não que ele seja mais sensível do que os outros. Nem que esteja particularmente interessado na minha conversa. O fato é que nos conhecemos praticamente agora, e não sou afeita a intimidades logo de cara. Admito manifestações mais ardentes na juventude, não ficaria bem, na minha idade, me expor assim, como o filho dele fez, por exemplo. Podia estar coberto de boas intenções, vá lá, mas foi um bocado tolo e exibicionista. A humildade pomposa dos profetas chega a parecer arrogância. Você não acha? Bem, a verdade é que toda aquela história já não nos interessa. Sabia que o filho do homem costuma me visitar sempre à tardinha? Tomamos chá com biscoitos. Ouvimos um pouco de música, ele não gosta dos clássicos. Fez cara feia quando ameacei um canto gregoriano. Mas, no geral, pelo que pude notar, ele não mudou nada. Cheguei a estremecer quando desandou a expor os mesmos princípios de sempre. Sem qualquer alteração. Disfarcei, para não bocejar, servi mais um pouco de chá e desviei a conversa para plantas. Sinto-me mais reconfortada assim. Confesso que ainda hoje perco o fôlego ao lembrar-me de cruzes, chagas, pecados, milagres e, que horror, a tal da ressurreição. Sabe como é, as mulheres não esquecem com facilidade. Já os homens, eles são tão pragmáticos. No fundo, confundem trabalho com calvário. Quanto a mim, sei que minha vida pode parecer um pouco sem propósito, é o que ele sempre me diz. Mas que propósitos teriam propósito? Ele disfarça, serve-se de mais chá e desvia a mão para os biscoitos. Às vezes me acho desprezível. Nestas horas faço longas caminhadas até meus pés cobrirem-se de bolhas. Não chega a ser um flagelo, mas uma forma de espairecer. Como fazem agora nossos três cães no jardim. Reparou como eles cresceram?

18.6.03

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar
o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente
que não pretende ficar;
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena
oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais
o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro;
não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu,
nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras
feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados,
cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz
teu habitante voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo
esperto mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem.)
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes,
sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz,
balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas
de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras
pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso,
sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.


-- Ascânio Lopes, "Cataguazes", poema de 1928 dedicado a Carlos Drummond de Andrade.

17.6.03

Complexo de épico


Todo compositor brasileiro é um complexado.
Por que então esta mania danada,
esta preocupação
de falar tão sério,
de parecer tão sério,
de sorrir tão sério,
de chorar tão sério,
de brincar tão sério,
de amar tão sério?
Ah, meu Deus do céu,
vá ser sério assim no inferno!


-- Tomzé

15.6.03

Vicente Gunz chama-me para ver a lavadeira Ana Blúmia às margens do Arrudas. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta, acocorada nas margens da água espessa. Lava suas rendinhas, seus bordadinhos, suas fronhas de riso e lágrimas. As águas descem. Pelas águas descem restos de extratos bancários, restos de suflês, projetéis, canos de espingardas, pneus, uma gravata de deputado, um par de sapatos de um magnata, manchados de sangue. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta. E os bem-te-vis também cantam nos telhados de Belo Horizonte.
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Vicente Gunz é quem diz nesta manhã de garoa: "Pobres filhos pobres da poesia do Leminski".
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Leio na edição de hoje do SENTINELA DORMINDO que o poeta Joaquim Vírgula faz, desde a semana passada, um protesto na Rua Leopoldina. Segundo o jornal, Joaquim Vírgula empurra, rua acima, um pacote com duzentos quilos de poemas. Assim que chega aos altos do Santo Antônio, o poeta solta o pacote morro abaixo e recomeça a subida, interminavelmente, desde a esquina de Benvinda de Carvalho. “Sou o Sísifo dos tempos modernos”, diz ele. “Tudo o que escrevo, há mais de vinte anos, permanece inédito. Enquanto não for publicado, estarei aqui, rua acima e rua abaixo, em protesto pelo modo com que tratam os poetas”. Na segunda-feira, de acordo com a reportagem, o pacote quase atropelou uma madame que voltava da feira com uma sacola de alfaces.


-- A Volta de Kafka em Belo Horizonte


Vá atrás do seu sonho. E quando voltar me traga uma cerveja.


-- Tomás Creus

Almoço de domingo


Quando começamos a dirigir um carro
temos lá uma certa sensação bem besta de poder
sim, poder ir a qualquer lugar entre o Chuí e o Oiapoque
qualquer lugar entre a Puc e o Carrefour
ou até não ir a lugar algum e lutar contra o freio de mão
numa verdadeira cruzada para amar a namorada
sem requintes mas bem contente
pois foi num destes domingos de almoço de família
ou então num destes almoços de família de domingo
que prontifiquei-me a buscar o almoço
um frango prensado no Don Nicolla
e realmente o busquei com travessas de inox
e um duralex pro espaghetti
quando estou retornando e paro no sinal, olho pro lado
uma casa de um muro alto coberto por trepadeiras e calçada de basalto
pega fogo e um homem grita desesperado,
eu penso é um assalto, e eu VEJO, não, é um incêndio
e eu ali com o frango prensado me olhando, meu pára-brisa enfumaçado,
e eu vejo a família, o almoço esperando
e a vizinhança com mangueiras e baldes ao moço ajudando,
que até sorri agora, a agonia foi-se embora
finalmente engato a primeira, o fogo apaga, o almoço chega,
a família come, e a tristeza acaba, não é fantástico ?!

-- Frank Jorge




14.6.03

Ó meus amantes,
Almas simplórias,
Mas que sensualidade.
Vinde me consolar das desventuras
Distraí-me dessas literaturas;
Tu, suburbano, vamos tocar uma em gíria,
E vós, do campo, contai-me em dialeto
Casos sacanas e casos singelos,
Travemos nos bosques cerrados
A grande guerra
Dos beijos vários.
Vós, espertos, caprichemos na língua,
Merda pros casos tristes,
Dos tolos e babacas.
(Babacas, isto é, imbecis,
Outras babacas são de praxe
Até para nós, os difíceis,
Os especiais, os escravos da boa Igreja
Cujo papa seria Platão
E Sócrates, protonotário,
Uma mulher de vez em quando é de bom-tom;
Uma concessãozinha não mata ninguém.
E é preciso dar a cada um sua quota:
Mulheres também têm direito a nossa glória.
Um afaguinho
De vez em quando
E voltemos ao que interessa.)
Ó meus meninos amados, vingai-me
Com vossas carícias severas
E vossos cus e picas, regalos divinos,

De todas essas carnes ocas
Que a retórica brinda aos cérebros merdosos
Desses pobres coitados que não compreendem.
Trepemos, chega de metáforas,
Brinquemos com nossos colhões,
Passemos uma água nas glandes
E depois porra, merda, nádegas e coxas!


-- Paul Verlaine, em Hommes, 1891.

12.6.03

Ele estacionou a Harley-Davidson na frente da minha casa e achou que eu iria surgir na porta como Sylvia Syms em Expresso Bongo. E lá estava eu. A moto brilhava no seu lugar ao sol. Derrame de adrenalina. "Gostou?" Minha rainha avançou uma casa. É, bonita. "Olha só, tanque em forma de gota, painel olho-de-gato, side-car, motor de fricção..." Um espalhafato. Porra, deve ter custado os tubos. "Você é a única coisa que eu não consigo comprar." Quem escreveu esta merda? Virei os olhos, Marlene Dietrich em Marroco. Fiquei ali parada feito uma idiota enquanto ele conduzia as falas. Nossa vida, um pátio de manobras. "E aí?" Tudo indo. Ele desceu da moto e avançou uma casa. Minha cabeça entrou num passo reversível. "Que cara é essa?" Dor de cabeça. "Bebeu?" Não. "Speed?" Não torra. "Não me convida pra entrar?" Hoje não. Vai garimpar o meu bar e afundar minha poltrona. "Quer dar uma volta então?" Nisso aí? Não vou pagar mico desfilando num side-car. Tenho cara de pug? "Que é que tem?" Fiz cara de heroína puritana, anos 40. Você ainda coleciona pontos G? Ele não deu o braço a torcer. Sorriu e mudou de assunto. "O que não podemos impedir, devemos querer. Lembra?" Era o nosso lema há muitas águas passadas. Comecei a me coçar. Eu queria saber falar javanês para poder mandá-lo à merda sem legenda. Ele desviou os olhos para a moto. Limpou uma poeirinha no painel. Avancei uma casa. Ninguém passava naquela rua para me distrair, uns dromedários maratonistas. Fez alguma tatuagem nova? uma body modification? uma bolsa de diálise? me conte uma novidade qualquer pelamordedeus, qualquer coisa. Ele ergueu a camiseta e no seu peito eu vi o desenho de uma serpente. "Uma serpente que engole o sol." Significa Noite. É, legal. "Achou mesmo?" Hum-hum. "E você? Trabalhando muito?" Carregando água em balaio. Ele não entendeu. Xeque-mate. Dentro da casa o telefone começou a tocar. Ele subiu na moto mas não ligou. De repente eu quis desabar. Eu queria sair dali mas meus pés pareciam chicletes no asfalto. Eu precisava sair dali e sabia que para isso tinha de achar o tom certo. No Man of Her Own. Preciso atender o telefone. "Tá bom." A gente se vê. "Tchau". Fechei a porta e corri para o telefone. Ligação a cobrar.
-

10.6.03

Natureza morta


Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados.
Como os meus dedos, na mesma frase.
As letras que eu poderia escrever
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!

Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
Os ventres estourando
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!

Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!

Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Si eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém...
Nem a presença dos corvos.


-- Pagu, 1948.



9.6.03

Pedro Nava


A cozinha mineira, pouco abundante nos pratos de sal, que ficam nas variações em torno do porco, do toucinho, da couve, do feijão, do fubá e da farinha -- é de uma riqueza extraordinária em matéria de sobrepastos. Hoje tudo mudou e minguou. Mas lembro-me bem da mesa de minha avó materna, em Juiz de Fora, onde a Inhá Luísa, da cabeceira, podia olhar a ponta dos meninos e das compoteiras, de que havia, ao jantar, umas quatro ou cinco repletas de doce. Menos, era penúria. E que doces... Os de coco e todas as variedades, como a cocada preta e a cocada branca, a cocada ralada ou em fita, a açucarada no tacho, a seca ao sol. Baba-de-moça, quindim, pudim de coco. Compota de goiaba branca ou vermelha, como orelhas em calda. De pêssego maduro ou verde cujo caroço era como um espadarte no céu-da-boca. De abacaxi, cor de ouro; de figo, cor de musgo; de banana, cor de granada; de laranja, de cidra, de jaca, de ameixa, de marmelo, de manga, de cajá-mirim, jenipapo, turanja. De carambola, derramando estrelas nos pratos. De mamão maduro, de mamão verde -- cortado em tiras ou passado na raspa. Tudo isto podia apresentar-se cristalizado -- seco por fora, macio por dentro e tendo um núcleo de açúcar quase líquido. Mais. Abóbora, batata roxa, batata doce em pasta vidrada ou pasta seca. Calda grossa de jamelão, amora, framboesa, araçá, abricó, pequiá, jaboticaba. Canjica de milho-verde tremendo como seio de moça e geléia de mocotó rebolando como bunda de negra. Mocotó batido, em espuma que se solidifica -- para comer frio. Pamonha na palha -- para comer quente, queimando os dedos. Melado. Tudo isto variando de casa para casa, segundo os segredos de suas donas e as invenções de suas negras -- se desdobrando em outros pratos, se multiplicando em novos. Dos aristocráticos, com receitas pedindo logo de saída trinta e seis gemas, aos populares, como o cuscuz (só fubá, só açúcar, só vapor d'água e tempo certo) e como a "plasta" de São João del Rei (só fubá, só rapadura, só amendoim e ponto exato) -- que tem esse nome pelo seu aspecto de bosta de boi, do emplastro que forma no tabuleiro quando cai da colher de pau. E a abóbora da noite de São João? Era aberta por cima, esvaziada dos fiapos e caroços, cheia de rapadura partida, novamente tampada, embrulhada em folhas de bananeira e enterrada a dois palmos de fundo, debaixo das grandes fogueiras. Aí ficava duas, três horas e quando saía dessa moqueada, tinha cheiro de cana queimada e gosto ainda mais profundo que o das castanhas. Comia-se no fim das festas de junho bebendo crambambali e cantando até cair ao pé das brasas que morriam. O crambambali é bebida sagrada -- um quentão legitimamente centro de Minas. A receita? Uma travessa cheia de pinga, rodelas de limão, lascas de canela e rapadura. Toca-se fogo na cachaça e deixa-se esquentar bastante. Apagar, coar e servir em canequinhas de gomo de bambu.


-- Em "Baú de Ossos".

8.6.03

E AGORA UM COCHE DE CULTURA, CARALHO


Andava a procura de pornografia e deparei-me com alguns blogs lusos. Reparei que muitos postam e comentam poesia. Apesar de saber que isso é um evidente sinal de rotura, o Meu Pipi, para não destoar, também quer mostrar que lê e sabe interpretar algo mais do que quadras tipo "João, para gajos como tu / são três na boca e dois no cu".
Começo então com um dos meus favoritos, da Sophia de Mello Breyner Andresen – que, das poetisas portuguesas com nomes estrangeiros, é a melhor.

“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”

Considero este poema a mais bela ode à masturbação de que há memória em toda a arte portuguesa. A autora começa por se referir às “ruínas” e “morte” onde acaba cada “ilusão”. Ora, não é preciso ser um punheteiro como eu para saber que ela se está a referir ao que os franceses tão candidamente chamam “petit mort”. O orgasmo é, depois do êxtase, a “morte” - dá cá uma vontade de adormecer que eu às vezes tenho de me beliscar para bater outra. As ruínas são os restos de nhanha que, quais destroços do Convento do Carmo, estão penduradas no tecto da casa de banho. A “ilusão” é a fantasia que cada qual criou para entesar o nabo, antes de o esgalhar valentemente. Ultimamente tenho usado o DNA com a Bárbara Guimarães (há lá duas ou três fotografias em que quase se conseguem ver os mamilos. Mesmo na entrevista, ela diz uma ou duas frases pirosas que me arrebitam o sardo. Adoro saloiías...). Já agora, apraz-me dizer que, finalmente, o DNA serve para alguma coisa!
Posto isto, voltemos à versalhada em questão. “A força dos meus sonhos é tão forte / que de tudo renasce a exaltação”. Ora, pegando novamente no DNA com a Bárbara Guimarães como exemplo, é óbvio que aqui Sophia se refere à segunda vaga do tesão. Eu acabo de me vir abundantemente, tenho o mangalho a arrefecer, mas, pelo canto do olho, pego novamente numa prega de teta da Bárbara Guimarães. Já estás! O nabo dá por isso e “a força dos sonhos” (eu a enfardar na Bárbara, de ladex) é tal que “renasce a exaltação” (o piço fica todo engalanado).
A última frase é mais complexa do que à primeira vista podemos supor. Uma interpretação mais simplista (e, porque não dizê-lo, facilitista) afirmará que “e nunca as minhas mãos ficam vazias” se refere ao facto de o punheteiro estar sempre agarrado ao caralho e aos colhões. Dirão que a Sophia teria em mente um gajo avantajado e pronto. Não é bem assim. As mãos não ficam vazias porque, como qualquer adolescente saberá, ao fim de três ou quatro punhetas, o jacto de langonha perde a força e a consistência. É natural, os tintins produzem o que produzem. Mas sai sempre qualquer coisinha. Agora, como não é expelida convenientemente, acaba sempre por ficar nas mãos. Que, desse modo, “não ficam vazias”.
Vão ler, caralho.


-- O Meu Pipi

7.6.03

Confesso que de dez frases pronunciadas
Escuto uma
De sessenta palavras escritas
Leio duas
De oitenta modelos de facas
Escolhi três

Gostaria de saber qual o motivo de tanto esforço
Política literatura vida
Isto já nem me passa pela cabeça

Por que carregar um peso morto
Se eu posso cortá-lo em pedacinhos?

6.6.03

Eu já não confesso, eu blogo diariamente.


-- A Conspiração do Espelho

Jack London


Apenas já na universidade foi que consegui uma pista para o significado dos meus sonhos e para a causa deles. Até então, não faziam sentido e nem tinham uma causa aparente. Mas na universidade estudei evolução e psicologia, e aprendi sobre diversos estados mentais e experiências estranhas. Por exemplo, sobre o sonho da queda no espaço -- a experiência de sonho mais comum e que praticamente todos já experimentaram.
Meu professor me disse que isso era uma memória racial. Ela remontava à época dos nossos antigos ancestrais que viviam em árvores. Como eles viviam em árvores, a probabilidade de queda era uma ameaça constante. Muitos perdiam a vida assim, todos experimentavam quedas terríveis, de que se salvavam agarrando-se nos galhos durante a queda.
Agora, uma queda terrível assim causava um choque. Tal choque produzia mudanças moleculares nas células cerebrais. Estas mudanças moleculares eram transmitidas às células cerebrais dos descendentes, tornando-se, em resumo, memórias raciais. Assim, quando você ou eu, dormindo ou no início do sono, caímos através do espaço e acordamos pouco antes do choque, estamos apenas evocando o que acontecia com os nossos ancestrais das árvores, e que ficou gravado na hereditariedade da raça através de mudanças cerebrais.
Não há nada de estranho nisso, assim como não há nada de estranho num instinto. Um instinto é apenas um hábito que ficou gravado no processo da nossa hereditariedade, somente isso. Deve-se observar, de passagem, que, nesse sonho de queda tão familiar a você, a mim e a todos nós, nunca chegamos ao chão. Chegar ao chão significaria a destruição. Aqueles dos nossos ancestrais das árvores que chegaram até o solo morreram em seguida. Na verdade, o choque da queda era transmitido às células cerebrais deles, mas morriam imediatamente, antes que pudessem ter descendentes. Nós somos descendentes dos que não atingiram o chão, e é por isso que em nossos sonhos nunca chegamos ao solo.


-- Em "Antes de Adão".

5.6.03

Alguém aí tem uma mãe que os atormenta? Que reclama o tempo todo? É, eu também. Mas a convivência com algo tão irritante e incômodo tem duas conseqüências comuns: a loucura ou o costume. No meu caso foi uma mistura dos dois, mas hoje eu gostaria de falar como me acostumei com aquela vozinha que soa constantemente as mesmas notas.

Eu desenvolvi uma espécie de filtro. O cérebro, exposto a algo que o desagrada, desenvolve boas defesas. Vejam como ele funciona. Minha mãe fala:

– De novo no computador?! Você nunca sai desse computador! Nunca ajuda na casa!! Tem louça acumulada na pia, só eu que tenho que lavar? Pra quê que eu fui ter filhos, meu Deus!?!?

Eu ouço:

– Mi mimi mi mimimimimimi?! Mimi mimi mimi mimi mimimimimi! Mimimi ajuda na mimimi!! Mimi louça mimimimi mi mimi, mi mi mimi mimi mimi mimi? Mimi mimi mi mimi mimi mimimi, mimi Mimi!?!?

Eliminando os ruídos, fica assim:

– Ajuda na louça?

Claro que, para conservar a relação (ou pelo menos a aparência dela), um filtro de saída foi desenvolvido. Ele barra qualquer coisa desagradável que eu possa falar, como também regula o tom e o volume de minha voz. Então a resposta, que deveria sair assim

– Você não pára de reclamar um minuto! Não percebe que eu tô trabalhando aqui no computador? Ah, chega, desisto, não dá pra fazer nada desse jeito, EU LAVO A MALDITA LOUÇA, TÁ BOM!! QUE SACO!!!

fica assim:

– ---- --- ---- -- -------- -- ------! --- ------- --- -- -- ----------- ---- -- ----------? --, -----, -------, --- -- --- ----- ---- ----- -----, eu lavo a ------- louça, tá bom. --- ----!!!

Percebam que o filtro alterou o tom da resposta. No final ela ouve algo só isso:

– Eu lavo a louça, tá bom.

Com o tempo o filtro (apenas o de saída) foi tomando conta da minha comunicação. Não consigo mais ser rude com as pessoas. Melhor pra mim, pior pra mim.


-- No One Knows



4.6.03

Frutas da infância e post



O jambo. O tamarindo. A guabiroba.
A uvaia. A pitanga. A carambola.
A pitangueira dá pitangas e indigestão.
Os uivos da uvaia. A raiva da cabeluda. A força da banana. O ácido do araçá.

O cântico do cambucá nos canais do intestino.

A sublevação dos indígenas alimentos frutais ingeridos e indigeridos.
O odre podre de qualquer fruta.
As comadrices da tangerina. O ubre convexo da mamoa.
O verdeveronese das frutas. As veludosas amarelezas do mamão.
Os passeios do limão nas alamedas de tangerineiras.
A fruta-de-conde. A fruta-de-condessa. Principalmente a fruta-de-condessa.
A fúria do abacaxi. A relva do abacate. A soledade da grumixama. A ironia da goiaba. A explosão da manga-espada. A glória do maracujá. O peito da laranja. O asco da toronja.

O preto da jabuticaba. As pretas da jabuticabeira. As tetas das pretas na jabuticabeira.

O sorriso em flor da canela. As congeminações da noz-moscada. Os esgares da pimenta desacompanhada da hortelã.

Morder a realidade, a matéria mordível e mordente, a universal tangerina, a fruta-esfera da terra. Saborear o sumo de todas as coisas somadas. O sumo do universo, o saber do sabor, o sabor do saber.


-- Murilo Mendes

2.6.03

1 poema de Avraham Shlonsky


O Sr. Fulano fala de sua vizinhança


Vivo num prédio de 5 andares.
As janelas bocejam para a parede oposta
Como rostos olhando nos espelhos.

Em minha cidade há 70 linhas de ônibus,
Atulhadas pelo teto e cheias do fedor dos corpos.
Eles trabalham
Trabalham
E trabalham arduamente no coração da cidade:
Quase como se não pudesse alguém morrer de tédio
Logo aqui em minha vizinhança.

É bem pequena minha vizinhança.
Todavia tem seus nascimentos, as suas mortes
E as coisas todas que acontecem no entremeio
Em cada cidade igualmente existe
Mesmo crianças radiantes rodopiando um arco
E 3 cinemas.
Assim, se eu não achasse o tédio na minha própria casa suficiente
Eu freqüentaria um dos cinemas.

Vivo num prédio de 5 andares.
A mulher que saltou pela janela oposta
Achou 3 suficientes.



(in Quatro mil anos de poesia, Coleção Judaica, ed. Perspectiva)




30.5.03

Aquele que olha, da rua, através de uma janela aberta, jamais vê tantas coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela iluminada por uma lamparina. O que se pode ver ao sol nunca é tão interessante como o que acontece por trás de uma vidraça. Naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.
Para além das ondas de telhados, diviso uma mulher já madura, enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai de casa. Pela sua fisionomia, pelas suas vestes, por um gesto seu, por um quase-nada, reconstituí a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda, que às vezes conto a mim próprio, a chorar.
Se fosse um pobre velho, eu lhe haveria reconstituído a história com a mesma facilidade.
E vou-me deitar, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.
Haveis de perguntar-me agora: -- "Estás certo de que essa história seja a verdadeira?" Que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?

-- Charles Baudelaire, "As Janelas".

29.5.03

Roteiro Turístico de Moi-Même



eu fui feita às avessas
e às avessas quero ser...
Memórias de uma Surtada Os Olhos de Nelson Rodrigues Júlia e Gin Quisto é Bossa-Nova Entro na Vida para Sair da História tanto faz tanto fez o título o diploma o nome o rótulo que queiram me dar sem uma única palavra minha doce pequinesa em Frankfurt poemas datados vão pro liquidificador moem moem moem enquanto exercito o olho direito procuro o que tem dentro deste sorvete Il fait pas-de-deux/ Tem que ser você minha necessidade de prazer olho atrás do olho alguém se lembra de Madame Morineau? da guerra no Kuwait? não é assim tão simples delicado de cá do além-paraíba Oficina Flor do Universo onde costumávamos roçar nossos subsídios depois eu larguei do vício das visitas de Januário e seus panfletos de Trotsky debaixo do braço fui convidada para dar um curso de Literaturnaia Utchioba em Moscou eu precisava vestir uma peruca holandesa pra passar pela alfândega e esconder meu camafeu de begônias da revolução permanente que tola indivisível eu era ali roendo as unhas sinais de mediunidade me disse uma parapsicóloga soviética do partido você é telecinética não tenha medo nós respeitamos os latino-americanos e suas fezes adversas eu tive de rir do português sem parecer anormal dei um sonoro peido pra começar o dia uma poesia uma poesia são duas poesias onde como minhas tias sua débil mental busco saliva pra engolir o café da manhã -- o que será que fosso mas não masso?
recebi uma proposta de morar na fronteira paraguaia declinei o padrão de tempo é frágil como em Bombaim onde tenho atitudes espasmódicas sob o cadavérico céu e os mais sóis dos tons de azul aquele horizonte pastel teorizando ortopedias quando passei a suspeitar da consciência dos objetos de que os outros não passam de pequenos embrulhos da memória de que me livro segundos antes do elevador chegar ou do diabo que os carregue
o Pão de Açúcar é uma pedra gigantesca
o Corcovado é uma pedra gigantesca
quando qualquer um, seja onde for,
estender a mão pedindo ajuda,
mostre-lhe que você não tem um braço
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minha última noite com Isolda nem te conto paralelogramo-nos entrelaçadas: A Minha Amiga Wanderléia é Você, eu gosto de viver em saciedade entre mim e o poder há uma linha que une pontos de uma mesma intensidade sísmica na propagação de um terremoto MUDA A DOUTRINA O TAMANHO DA LATRINA senhor juiz eu me confesso culpada por tornar minha memória pública por conluir com contrastes embora seja indivíduo de pouca periculosidade verbal empale-me açoite-me que o castigo seja contundente imorredouro abram o código criminal da rainha Maria I na página 127 e escolham a minha pena perdi o controle total das admissibilidades senhor juiz não toscaneje puna-me! por sonhar com as primeiras-bailarinas de Istambul imaginá-las oito corvos voando juntos em tamanha velocidade que ficam brancos por romper a casca antes do ovo por vencerem as batatas por preparar em segredo uma lista de abobrinhas só pra dizer na frente dos amigos por meu pai me beijar só em dia de aniversário por minha vidinha particular pau-sa-da-men-te por vigiar meu marido do basculante da cozinha lendo as memórias de Stalin o rei do monossílabo como meu pai folheando Mein Kampf sem ler ó rodas ó engrenagens os diplomatas do verso a embaixada de intelectuais paulistanos por ser hoje eu amanhã eu num mundo que brinca e devora por filar público de escritores famosos por procurar dentro de conchas garotas que não me querem por escrever pelas paredes da casa pensamentos graficamente desconexos tirar fotos de trás pra frente de superamanhãs esquartejadas eu preciso domar a fera musicalista dos vocais lírios dos Campos as primas rimas preciso pôr e não expor, considerai
saudades de Malhada, minha primeira namorada em Paris, uma cidade que Descartes visitava com frequência, eu não resisto ao apelo das inconsistências da opção pelos pobres da opção pelos clássicos preparo uma edição bilíngue de Moscas nos Umbrais mãos passeando esquadros desenhando pés nos jacarés inaugurando a metodologia do acento agudo misturando sombras que andam andam até que eu mude de idéia e anoiteça um mormaço dentuço quando meus nervos se reagrupam e eu saio para mais uma noitada de bingo literário com meus tristes poetas caducos e suas canetas barrocas:

Maldição linguística é um caso sério
não fosse meu crocodilo datilógrafo
não sei como fecharia de versos
essa luz tão clara ferindo o único
olho de Camões na minha mesa

Roland Barthes


9 de setembro de 1979


Noite: sem muita coisa para dizer: no Rest 7 com os amigos; era um bom momento de amizade; apesar da vizinhança estúpida (mulheres de idade muito pintadas, público toda-superfície-de-fora). Mas na tarde desse sábado, espécie de paquera variada e como que livre, insaciável: primeiro no Bain V, nada: nenhum dos árabes que conheço, nenhum interessante e muitos europeus sem jeito; única singularidade, um árabe, não jovem mas nada mal, se interessa pelos europeus. Visivelmente sem pedir dinheiro, ele lhes pega o pau depois passa para outro; não se sabe o que ele quer. Paradoxo puro: um árabe para quem existe o pau de um outro e não somente o seu (que é seu ego). Monólogo interminável, prolixo (de modo algum uma conversa) do dono, que relata seus dissabores em um hotel tunisiano (comida infecta e todos os jovens tunisianos o paqueravam descaradamente, explica ele, hipocritamente reprovador). Eu pensava em procurar um michê em Montmartre; é talvez por isso que, de má fé, nada encontrei no Voltaire. Chove muito, gotas pesadas de chuva, muitos automóveis. No Nuit, absolutamente nada (miragem do boato que diz que é preciso ir lá às cinco da tarde). No entanto, chega um morenão de rosto bem fino; meio estranho; seu francês é rude, tomo-o por um bretão; não, a mãe é húngara, o pai, russo branco (?), em suma, iugoslavo (muito delicado, muito simples). Mme. Madeleine, que me tinham dito estar muito doente (de um enfarte), surge, gorda e coxeando lá da cozinha, onde há sobre a mesa uma berinjela; está saindo um belo marroquino que bem queria me pegar e me olha longamente; ele esperará na sala de refeições que eu desça de novo, parece decepcionado que eu não o pegue de imediato (vago encontro para o dia seguinte). Saio leve, bem fisicamente, sempre com minhas idéias de regime, compro um pão (decidido a um regime muito sóbrio, mas não proibitivo) bem crocante, cuja ponta mordisco; a crosta se desfaz no metrô que tomo, com baldeações complicadas - mas sou cabeça-dura -, para ir ver a pressão barométrica, av. Rapp, a fim de regular meu novo barômetro. No táxi de volta, tempestade e chuva forte. Ando pra lá e pra cá em casa (como pão tostado e queijo de cabra), depois, dizendo comigo que é preciso que eu perca o hábito de calcular os prazeres (ou as derivas), saio de novo e vou ver o novo filme pornô do Dragon: como sempre - e talvez ainda mais - lamentável. Nem ouso paquerar meu vizinho, mas certamente disponível (medo idiota de ser recusado). Descida à sala escura; lamento sempre em seguida esse episódio sórdido em que a cada vez ponho à prova o meu desamparo.

-- Em "Incidentes".

28.5.03

Pego o ônibus da alma e por um instante acho que Deus não vai mais me aborrecer. Sou uma perfeita dama isolada numa aldeia aclimatada. Um vestido de pano faz-me oscilar durante dias, convertendo o cristianismo em bolhas soltas no ar. Sou jovem e não estremeço. Posso estruturar um negócio. Posso prolongar a melancolia. Passo de um assunto a outro sem muitos poréns, o que é uma forma divertida de não perder tempo, de evitar familiaridades com o pensamento. Tenho o rosto esbranquiçado que poderia ser o de um cachorro, o de uma irmã, o de alguém que se conhece, se eu conseguisse ler sem meus óculos.

24.5.03

Hino às lésbicas



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-- Gerhard Rühm