As coisas que não têm hoje e ant'ontem amanhã: é sempre.
Ai, arre, mas; que esta minha boca não tem ordem nenhuma.
Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte e reverte.
As pessoas e as coisas não são de verdade. A vida disfarça.
-- Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas".
25.6.03
22.6.03
Acabei o café, apaguei o cigarro, paguei e dirigi-me ao encontro do indivíduo da imobiliária , que me iria mostrar o apartamento para alugar. Já estava atrasado e duvidava que ele ainda estivesse à espera.
Não conhecia bem a parte da cidade onde, possivelmente, iria morar. Ficava na parte oeste, a zona mais antiga da cidade, que a partir daí se ramificou absurdamente.
Já na Rua da Misericórdia procurei o número 72. Caminhei até encontrar a porta e deparei com um edifício de aspecto sinistro, a precisar de cuidados exteriores. Empurrei a porta de entrada que, como esperava, rangeu e mergulhei na escuridão. Tentei encontrar um interruptor, mas tal tarefa revelou-se infrutífera. Deixei que os olhos se habituassem à escuridão e procurei a escada.
Subi e, ao chegar ao primeiro andar, deparei com uma velhota, em camisa de noite, com o cabelo desgrenhado que olhou fixamente, dizendo: -“Você deve ser o novo blogger. Vai gostar de viver aqui, de certeza. Mas o que vai apreciar mesmo é a vista das suas janelas!” – e a velha desapareceu na escuridão, no meio de um sorriso medonho, demasiado cinematográfico para ser real.
Continuei a subir até alcançar o segundo piso. À porta da habitação, o homem da imobiliária sorria, como se a espera não lhe tivesse custado. –“Entre! Entre, Sr. Aniceto! Venha conhecer esta maravilha!” . Os minutos seguintes foram inenarráveis: uma casa a precisar urgentemente de obras e o tipo a tentar iludir-me, com um discurso surreal acerca da beleza do espaço, até que uma frase sua me chamou verdadeiramente a atenção: “Sabe, Sr. Aniceto, se ficar com a casa vai ficar também com uma vista fabulosa sobre a cidade!”
Incomodado, decidi dar uma volta pelo resto da casa, constatando a degradação mais que evidente. A certa altura, num dos quartos notei uma saliência no rodapé. Movido por uma inusitada curiosidade, apreciei melhor tal saliência. Dei uma pancada e o som devolvido fez-me ter a certeza que aquela parte era oca. Dei um chuto o rodapé, que cedeu, dando lugar a uma concavidade. Ajoelhei-me, espreitando, e introduzi a mão para alcançar o que me parecia ser um pedaço de papel. A minha descoberta era mesmo um papel, mas dobrado, que prontamente abri e li:
“Na cidade de Palaguín
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
que frequentavam aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de «era uma vez»...
Havia hospitais repletos
onde à porta o pus escorria para as valetas;
Havia janelas que nunca se abriam
e prisões descomunais sem portas;
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida;
Havia cães enormes e famélicos
devorando mortos insepultos e voantes;
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade;
havia gente bebendo sofregamente
a água dos esgotos e das poças;
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.
Na cidade de Palaguín
havia crianças sem braços e desnudas
que brincavam em pântanos e abismos;
Havia ardinas que à tarde anunciavam
a falência do jornal que vendiam;
Havia cinemas onde o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam os sexos dos filhos
para verem cinema)
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo;
Havia pobres que somente aceitavam como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos;
E havia ricos que pelos passeios
imploravam misericórdias e chicotadas;
Na cidade de Palaguín
havia bêbedos emborcando ácidos
e retorcendo-se em espasmos na valeta;
Havia gatos sedentos
que iam beber leite aos seios das virgens;
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
Havia velhas que se suicidavam
atirando-se das paredes para o meio da multidão;
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes...
Na cidade de Palaguín
havia Havia HAVIA
Três vezes nove um milhão!” *
Dobrei cuidadosamente o manuscrito, dirigi-me ao tipo da imobiliária e com uma certeza inabalável disse-lhe que aceitava a casa.
* Carlos Eurico da Costa
20.6.03
Dicionário do Diabo
A
Abrv. -- abreviatura de abreviatura
Abstinente -- diz-se de pessoa fraca que se deixa levar pela tentação de negar um prazer a si mesma
Acidente -- circunstância em que a presença de espírito é fundamental, de preferência acompanhada da ausência física
Adão -- primeiro homem surgido na face da terra; foi expulso do paraíso por haver mantido relações sexuais com uma de suas costelas
Advogado -- político em fase larval
Agonia -- processo de aclimatação da alma antes de entrar num outro mundo bem pior
Aliança -- em política internacional, pacto firmado por dois ladrões que já roubaram tanto um ao outro que decidem unir-se para roubar um terceiro
Ambição -- desejo incontrolável de ser caluniado pelos inimigos enquanto vivo, e ridicularizado pelos amigos depois de morto
Ambidestro -- diz-se de alguém capaz de bater carteiras de um bolso esquerdo e do direito com a mesma eficiência
Amigo(a) -- pessoa dotada de "um não sei quê" que nos demove da intenção de querer deitar-se com ela
Amor -- enfermidade passageira que se cura com o casamento
Amor à primeira vista -- o que acontece quando duas pessoas pouco exigentes e excepcionalmente ardentes se conhecem
Anestesista -- um médico meio dormindo que cuida de um paciente meio acordado
Anônimo -- o autor do livro "As mil e uma noites"
Antipatia -- sentimento que nos desperta o amigo de nosso amigo
Antônimo -- o contrário da palavra que você está pensando
Aplauso -- o eco de uma banalidade
Aprendizado -- espécie de ignorância que distingue os estudiosos
Argentino -- fruto da combinação entre um navio cheio de imigrantes europeus e algumas garrafas de uísque
Aritmético -- aquele que é capaz de contar até vinte sem precisar tirar os sapatos
Assassino -- indivíduo suicida com vocação para o social
Auto-estima -- erro de apreciação
-- Ambrose Bierce, 1911. Versão resumida. Tradução Maira Parula.
A
Abrv. -- abreviatura de abreviatura
Abstinente -- diz-se de pessoa fraca que se deixa levar pela tentação de negar um prazer a si mesma
Acidente -- circunstância em que a presença de espírito é fundamental, de preferência acompanhada da ausência física
Adão -- primeiro homem surgido na face da terra; foi expulso do paraíso por haver mantido relações sexuais com uma de suas costelas
Advogado -- político em fase larval
Agonia -- processo de aclimatação da alma antes de entrar num outro mundo bem pior
Aliança -- em política internacional, pacto firmado por dois ladrões que já roubaram tanto um ao outro que decidem unir-se para roubar um terceiro
Ambição -- desejo incontrolável de ser caluniado pelos inimigos enquanto vivo, e ridicularizado pelos amigos depois de morto
Ambidestro -- diz-se de alguém capaz de bater carteiras de um bolso esquerdo e do direito com a mesma eficiência
Amigo(a) -- pessoa dotada de "um não sei quê" que nos demove da intenção de querer deitar-se com ela
Amor -- enfermidade passageira que se cura com o casamento
Amor à primeira vista -- o que acontece quando duas pessoas pouco exigentes e excepcionalmente ardentes se conhecem
Anestesista -- um médico meio dormindo que cuida de um paciente meio acordado
Anônimo -- o autor do livro "As mil e uma noites"
Antipatia -- sentimento que nos desperta o amigo de nosso amigo
Antônimo -- o contrário da palavra que você está pensando
Aplauso -- o eco de uma banalidade
Aprendizado -- espécie de ignorância que distingue os estudiosos
Argentino -- fruto da combinação entre um navio cheio de imigrantes europeus e algumas garrafas de uísque
Aritmético -- aquele que é capaz de contar até vinte sem precisar tirar os sapatos
Assassino -- indivíduo suicida com vocação para o social
Auto-estima -- erro de apreciação
-- Ambrose Bierce, 1911. Versão resumida. Tradução Maira Parula.
19.6.03
Ah, sim, me agradaria que Deus deixasse a sala. É chato ter de falar sobre essas coisas na presença dele, além do mais fico constrangida só de pensar em ter de falar baixinho na minha própria casa. Não que ele seja mais sensível do que os outros. Nem que esteja particularmente interessado na minha conversa. O fato é que nos conhecemos praticamente agora, e não sou afeita a intimidades logo de cara. Admito manifestações mais ardentes na juventude, não ficaria bem, na minha idade, me expor assim, como o filho dele fez, por exemplo. Podia estar coberto de boas intenções, vá lá, mas foi um bocado tolo e exibicionista. A humildade pomposa dos profetas chega a parecer arrogância. Você não acha? Bem, a verdade é que toda aquela história já não nos interessa. Sabia que o filho do homem costuma me visitar sempre à tardinha? Tomamos chá com biscoitos. Ouvimos um pouco de música, ele não gosta dos clássicos. Fez cara feia quando ameacei um canto gregoriano. Mas, no geral, pelo que pude notar, ele não mudou nada. Cheguei a estremecer quando desandou a expor os mesmos princípios de sempre. Sem qualquer alteração. Disfarcei, para não bocejar, servi mais um pouco de chá e desviei a conversa para plantas. Sinto-me mais reconfortada assim. Confesso que ainda hoje perco o fôlego ao lembrar-me de cruzes, chagas, pecados, milagres e, que horror, a tal da ressurreição. Sabe como é, as mulheres não esquecem com facilidade. Já os homens, eles são tão pragmáticos. No fundo, confundem trabalho com calvário. Quanto a mim, sei que minha vida pode parecer um pouco sem propósito, é o que ele sempre me diz. Mas que propósitos teriam propósito? Ele disfarça, serve-se de mais chá e desvia a mão para os biscoitos. Às vezes me acho desprezível. Nestas horas faço longas caminhadas até meus pés cobrirem-se de bolhas. Não chega a ser um flagelo, mas uma forma de espairecer. Como fazem agora nossos três cães no jardim. Reparou como eles cresceram?
18.6.03
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar
o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente
que não pretende ficar;
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena
oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais
o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro;
não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu,
nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras
feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados,
cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz
teu habitante voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo
esperto mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem.)
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes,
sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz,
balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas
de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras
pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso,
sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
-- Ascânio Lopes, "Cataguazes", poema de 1928 dedicado a Carlos Drummond de Andrade.
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas
que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar
o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente
que não pretende ficar;
Não! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena
oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais
o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro;
não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu,
nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras
feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados,
cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz
teu habitante voltar-se para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo
esperto mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem.)
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes,
sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz,
balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas
de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras
pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso,
sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
-- Ascânio Lopes, "Cataguazes", poema de 1928 dedicado a Carlos Drummond de Andrade.
17.6.03
15.6.03
Vicente Gunz chama-me para ver a lavadeira Ana Blúmia às margens do Arrudas. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta, acocorada nas margens da água espessa. Lava suas rendinhas, seus bordadinhos, suas fronhas de riso e lágrimas. As águas descem. Pelas águas descem restos de extratos bancários, restos de suflês, projetéis, canos de espingardas, pneus, uma gravata de deputado, um par de sapatos de um magnata, manchados de sangue. Ana Blúmia canta e lava, lava e canta. E os bem-te-vis também cantam nos telhados de Belo Horizonte.
- - - - - - - - - - - - - - - - -
Vicente Gunz é quem diz nesta manhã de garoa: "Pobres filhos pobres da poesia do Leminski".
- - - - - - - - - - - - - - - - -
Leio na edição de hoje do SENTINELA DORMINDO que o poeta Joaquim Vírgula faz, desde a semana passada, um protesto na Rua Leopoldina. Segundo o jornal, Joaquim Vírgula empurra, rua acima, um pacote com duzentos quilos de poemas. Assim que chega aos altos do Santo Antônio, o poeta solta o pacote morro abaixo e recomeça a subida, interminavelmente, desde a esquina de Benvinda de Carvalho. “Sou o Sísifo dos tempos modernos”, diz ele. “Tudo o que escrevo, há mais de vinte anos, permanece inédito. Enquanto não for publicado, estarei aqui, rua acima e rua abaixo, em protesto pelo modo com que tratam os poetas”. Na segunda-feira, de acordo com a reportagem, o pacote quase atropelou uma madame que voltava da feira com uma sacola de alfaces.
-- A Volta de Kafka em Belo Horizonte
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Vicente Gunz é quem diz nesta manhã de garoa: "Pobres filhos pobres da poesia do Leminski".
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Leio na edição de hoje do SENTINELA DORMINDO que o poeta Joaquim Vírgula faz, desde a semana passada, um protesto na Rua Leopoldina. Segundo o jornal, Joaquim Vírgula empurra, rua acima, um pacote com duzentos quilos de poemas. Assim que chega aos altos do Santo Antônio, o poeta solta o pacote morro abaixo e recomeça a subida, interminavelmente, desde a esquina de Benvinda de Carvalho. “Sou o Sísifo dos tempos modernos”, diz ele. “Tudo o que escrevo, há mais de vinte anos, permanece inédito. Enquanto não for publicado, estarei aqui, rua acima e rua abaixo, em protesto pelo modo com que tratam os poetas”. Na segunda-feira, de acordo com a reportagem, o pacote quase atropelou uma madame que voltava da feira com uma sacola de alfaces.
-- A Volta de Kafka em Belo Horizonte
Almoço de domingo
Quando começamos a dirigir um carro
temos lá uma certa sensação bem besta de poder
sim, poder ir a qualquer lugar entre o Chuí e o Oiapoque
qualquer lugar entre a Puc e o Carrefour
ou até não ir a lugar algum e lutar contra o freio de mão
numa verdadeira cruzada para amar a namorada
sem requintes mas bem contente
pois foi num destes domingos de almoço de família
ou então num destes almoços de família de domingo
que prontifiquei-me a buscar o almoço
um frango prensado no Don Nicolla
e realmente o busquei com travessas de inox
e um duralex pro espaghetti
quando estou retornando e paro no sinal, olho pro lado
uma casa de um muro alto coberto por trepadeiras e calçada de basalto
pega fogo e um homem grita desesperado,
eu penso é um assalto, e eu VEJO, não, é um incêndio
e eu ali com o frango prensado me olhando, meu pára-brisa enfumaçado,
e eu vejo a família, o almoço esperando
e a vizinhança com mangueiras e baldes ao moço ajudando,
que até sorri agora, a agonia foi-se embora
finalmente engato a primeira, o fogo apaga, o almoço chega,
a família come, e a tristeza acaba, não é fantástico ?!
-- Frank Jorge
Quando começamos a dirigir um carro
temos lá uma certa sensação bem besta de poder
sim, poder ir a qualquer lugar entre o Chuí e o Oiapoque
qualquer lugar entre a Puc e o Carrefour
ou até não ir a lugar algum e lutar contra o freio de mão
numa verdadeira cruzada para amar a namorada
sem requintes mas bem contente
pois foi num destes domingos de almoço de família
ou então num destes almoços de família de domingo
que prontifiquei-me a buscar o almoço
um frango prensado no Don Nicolla
e realmente o busquei com travessas de inox
e um duralex pro espaghetti
quando estou retornando e paro no sinal, olho pro lado
uma casa de um muro alto coberto por trepadeiras e calçada de basalto
pega fogo e um homem grita desesperado,
eu penso é um assalto, e eu VEJO, não, é um incêndio
e eu ali com o frango prensado me olhando, meu pára-brisa enfumaçado,
e eu vejo a família, o almoço esperando
e a vizinhança com mangueiras e baldes ao moço ajudando,
que até sorri agora, a agonia foi-se embora
finalmente engato a primeira, o fogo apaga, o almoço chega,
a família come, e a tristeza acaba, não é fantástico ?!
-- Frank Jorge
14.6.03
Ó meus amantes,
Almas simplórias,
Mas que sensualidade.
Vinde me consolar das desventuras
Distraí-me dessas literaturas;
Tu, suburbano, vamos tocar uma em gíria,
E vós, do campo, contai-me em dialeto
Casos sacanas e casos singelos,
Travemos nos bosques cerrados
A grande guerra
Dos beijos vários.
Vós, espertos, caprichemos na língua,
Merda pros casos tristes,
Dos tolos e babacas.
(Babacas, isto é, imbecis,
Outras babacas são de praxe
Até para nós, os difíceis,
Os especiais, os escravos da boa Igreja
Cujo papa seria Platão
E Sócrates, protonotário,
Uma mulher de vez em quando é de bom-tom;
Uma concessãozinha não mata ninguém.
E é preciso dar a cada um sua quota:
Mulheres também têm direito a nossa glória.
Um afaguinho
De vez em quando
E voltemos ao que interessa.)
Ó meus meninos amados, vingai-me
Com vossas carícias severas
E vossos cus e picas, regalos divinos,
De todas essas carnes ocas
Que a retórica brinda aos cérebros merdosos
Desses pobres coitados que não compreendem.
Trepemos, chega de metáforas,
Brinquemos com nossos colhões,
Passemos uma água nas glandes
E depois porra, merda, nádegas e coxas!
-- Paul Verlaine, em Hommes, 1891.
Almas simplórias,
Mas que sensualidade.
Vinde me consolar das desventuras
Distraí-me dessas literaturas;
Tu, suburbano, vamos tocar uma em gíria,
E vós, do campo, contai-me em dialeto
Casos sacanas e casos singelos,
Travemos nos bosques cerrados
A grande guerra
Dos beijos vários.
Vós, espertos, caprichemos na língua,
Merda pros casos tristes,
Dos tolos e babacas.
(Babacas, isto é, imbecis,
Outras babacas são de praxe
Até para nós, os difíceis,
Os especiais, os escravos da boa Igreja
Cujo papa seria Platão
E Sócrates, protonotário,
Uma mulher de vez em quando é de bom-tom;
Uma concessãozinha não mata ninguém.
E é preciso dar a cada um sua quota:
Mulheres também têm direito a nossa glória.
Um afaguinho
De vez em quando
E voltemos ao que interessa.)
Ó meus meninos amados, vingai-me
Com vossas carícias severas
E vossos cus e picas, regalos divinos,
De todas essas carnes ocas
Que a retórica brinda aos cérebros merdosos
Desses pobres coitados que não compreendem.
Trepemos, chega de metáforas,
Brinquemos com nossos colhões,
Passemos uma água nas glandes
E depois porra, merda, nádegas e coxas!
-- Paul Verlaine, em Hommes, 1891.
12.6.03
Ele estacionou a Harley-Davidson na frente da minha casa e achou que eu iria surgir na porta como Sylvia Syms em Expresso Bongo. E lá estava eu. A moto brilhava no seu lugar ao sol. Derrame de adrenalina. "Gostou?" Minha rainha avançou uma casa. É, bonita. "Olha só, tanque em forma de gota, painel olho-de-gato, side-car, motor de fricção..." Um espalhafato. Porra, deve ter custado os tubos. "Você é a única coisa que eu não consigo comprar." Quem escreveu esta merda? Virei os olhos, Marlene Dietrich em Marroco. Fiquei ali parada feito uma idiota enquanto ele conduzia as falas. Nossa vida, um pátio de manobras. "E aí?" Tudo indo. Ele desceu da moto e avançou uma casa. Minha cabeça entrou num passo reversível. "Que cara é essa?" Dor de cabeça. "Bebeu?" Não. "Speed?" Não torra. "Não me convida pra entrar?" Hoje não. Vai garimpar o meu bar e afundar minha poltrona. "Quer dar uma volta então?" Nisso aí? Não vou pagar mico desfilando num side-car. Tenho cara de pug? "Que é que tem?" Fiz cara de heroína puritana, anos 40. Você ainda coleciona pontos G? Ele não deu o braço a torcer. Sorriu e mudou de assunto. "O que não podemos impedir, devemos querer. Lembra?" Era o nosso lema há muitas águas passadas. Comecei a me coçar. Eu queria saber falar javanês para poder mandá-lo à merda sem legenda. Ele desviou os olhos para a moto. Limpou uma poeirinha no painel. Avancei uma casa. Ninguém passava naquela rua para me distrair, uns dromedários maratonistas. Fez alguma tatuagem nova? uma body modification? uma bolsa de diálise? me conte uma novidade qualquer pelamordedeus, qualquer coisa. Ele ergueu a camiseta e no seu peito eu vi o desenho de uma serpente. "Uma serpente que engole o sol." Significa Noite. É, legal. "Achou mesmo?" Hum-hum. "E você? Trabalhando muito?" Carregando água em balaio. Ele não entendeu. Xeque-mate. Dentro da casa o telefone começou a tocar. Ele subiu na moto mas não ligou. De repente eu quis desabar. Eu queria sair dali mas meus pés pareciam chicletes no asfalto. Eu precisava sair dali e sabia que para isso tinha de achar o tom certo. No Man of Her Own. Preciso atender o telefone. "Tá bom." A gente se vê. "Tchau". Fechei a porta e corri para o telefone. Ligação a cobrar.
-
10.6.03
Natureza morta
Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados.
Como os meus dedos, na mesma frase.
As letras que eu poderia escrever
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
Os ventres estourando
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Si eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém...
Nem a presença dos corvos.
-- Pagu, 1948.
Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados.
Como os meus dedos, na mesma frase.
As letras que eu poderia escrever
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
Os ventres estourando
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Si eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém...
Nem a presença dos corvos.
-- Pagu, 1948.
9.6.03
Pedro Nava
A cozinha mineira, pouco abundante nos pratos de sal, que ficam nas variações em torno do porco, do toucinho, da couve, do feijão, do fubá e da farinha -- é de uma riqueza extraordinária em matéria de sobrepastos. Hoje tudo mudou e minguou. Mas lembro-me bem da mesa de minha avó materna, em Juiz de Fora, onde a Inhá Luísa, da cabeceira, podia olhar a ponta dos meninos e das compoteiras, de que havia, ao jantar, umas quatro ou cinco repletas de doce. Menos, era penúria. E que doces... Os de coco e todas as variedades, como a cocada preta e a cocada branca, a cocada ralada ou em fita, a açucarada no tacho, a seca ao sol. Baba-de-moça, quindim, pudim de coco. Compota de goiaba branca ou vermelha, como orelhas em calda. De pêssego maduro ou verde cujo caroço era como um espadarte no céu-da-boca. De abacaxi, cor de ouro; de figo, cor de musgo; de banana, cor de granada; de laranja, de cidra, de jaca, de ameixa, de marmelo, de manga, de cajá-mirim, jenipapo, turanja. De carambola, derramando estrelas nos pratos. De mamão maduro, de mamão verde -- cortado em tiras ou passado na raspa. Tudo isto podia apresentar-se cristalizado -- seco por fora, macio por dentro e tendo um núcleo de açúcar quase líquido. Mais. Abóbora, batata roxa, batata doce em pasta vidrada ou pasta seca. Calda grossa de jamelão, amora, framboesa, araçá, abricó, pequiá, jaboticaba. Canjica de milho-verde tremendo como seio de moça e geléia de mocotó rebolando como bunda de negra. Mocotó batido, em espuma que se solidifica -- para comer frio. Pamonha na palha -- para comer quente, queimando os dedos. Melado. Tudo isto variando de casa para casa, segundo os segredos de suas donas e as invenções de suas negras -- se desdobrando em outros pratos, se multiplicando em novos. Dos aristocráticos, com receitas pedindo logo de saída trinta e seis gemas, aos populares, como o cuscuz (só fubá, só açúcar, só vapor d'água e tempo certo) e como a "plasta" de São João del Rei (só fubá, só rapadura, só amendoim e ponto exato) -- que tem esse nome pelo seu aspecto de bosta de boi, do emplastro que forma no tabuleiro quando cai da colher de pau. E a abóbora da noite de São João? Era aberta por cima, esvaziada dos fiapos e caroços, cheia de rapadura partida, novamente tampada, embrulhada em folhas de bananeira e enterrada a dois palmos de fundo, debaixo das grandes fogueiras. Aí ficava duas, três horas e quando saía dessa moqueada, tinha cheiro de cana queimada e gosto ainda mais profundo que o das castanhas. Comia-se no fim das festas de junho bebendo crambambali e cantando até cair ao pé das brasas que morriam. O crambambali é bebida sagrada -- um quentão legitimamente centro de Minas. A receita? Uma travessa cheia de pinga, rodelas de limão, lascas de canela e rapadura. Toca-se fogo na cachaça e deixa-se esquentar bastante. Apagar, coar e servir em canequinhas de gomo de bambu.
-- Em "Baú de Ossos".
8.6.03
E AGORA UM COCHE DE CULTURA, CARALHO
Andava a procura de pornografia e deparei-me com alguns blogs lusos. Reparei que muitos postam e comentam poesia. Apesar de saber que isso é um evidente sinal de rotura, o Meu Pipi, para não destoar, também quer mostrar que lê e sabe interpretar algo mais do que quadras tipo "João, para gajos como tu / são três na boca e dois no cu".
Começo então com um dos meus favoritos, da Sophia de Mello Breyner Andresen – que, das poetisas portuguesas com nomes estrangeiros, é a melhor.
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”
Considero este poema a mais bela ode à masturbação de que há memória em toda a arte portuguesa. A autora começa por se referir às “ruínas” e “morte” onde acaba cada “ilusão”. Ora, não é preciso ser um punheteiro como eu para saber que ela se está a referir ao que os franceses tão candidamente chamam “petit mort”. O orgasmo é, depois do êxtase, a “morte” - dá cá uma vontade de adormecer que eu às vezes tenho de me beliscar para bater outra. As ruínas são os restos de nhanha que, quais destroços do Convento do Carmo, estão penduradas no tecto da casa de banho. A “ilusão” é a fantasia que cada qual criou para entesar o nabo, antes de o esgalhar valentemente. Ultimamente tenho usado o DNA com a Bárbara Guimarães (há lá duas ou três fotografias em que quase se conseguem ver os mamilos. Mesmo na entrevista, ela diz uma ou duas frases pirosas que me arrebitam o sardo. Adoro saloiías...). Já agora, apraz-me dizer que, finalmente, o DNA serve para alguma coisa!
Posto isto, voltemos à versalhada em questão. “A força dos meus sonhos é tão forte / que de tudo renasce a exaltação”. Ora, pegando novamente no DNA com a Bárbara Guimarães como exemplo, é óbvio que aqui Sophia se refere à segunda vaga do tesão. Eu acabo de me vir abundantemente, tenho o mangalho a arrefecer, mas, pelo canto do olho, pego novamente numa prega de teta da Bárbara Guimarães. Já estás! O nabo dá por isso e “a força dos sonhos” (eu a enfardar na Bárbara, de ladex) é tal que “renasce a exaltação” (o piço fica todo engalanado).
A última frase é mais complexa do que à primeira vista podemos supor. Uma interpretação mais simplista (e, porque não dizê-lo, facilitista) afirmará que “e nunca as minhas mãos ficam vazias” se refere ao facto de o punheteiro estar sempre agarrado ao caralho e aos colhões. Dirão que a Sophia teria em mente um gajo avantajado e pronto. Não é bem assim. As mãos não ficam vazias porque, como qualquer adolescente saberá, ao fim de três ou quatro punhetas, o jacto de langonha perde a força e a consistência. É natural, os tintins produzem o que produzem. Mas sai sempre qualquer coisinha. Agora, como não é expelida convenientemente, acaba sempre por ficar nas mãos. Que, desse modo, “não ficam vazias”.
Vão ler, caralho.
-- O Meu Pipi
Andava a procura de pornografia e deparei-me com alguns blogs lusos. Reparei que muitos postam e comentam poesia. Apesar de saber que isso é um evidente sinal de rotura, o Meu Pipi, para não destoar, também quer mostrar que lê e sabe interpretar algo mais do que quadras tipo "João, para gajos como tu / são três na boca e dois no cu".
Começo então com um dos meus favoritos, da Sophia de Mello Breyner Andresen – que, das poetisas portuguesas com nomes estrangeiros, é a melhor.
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”
Considero este poema a mais bela ode à masturbação de que há memória em toda a arte portuguesa. A autora começa por se referir às “ruínas” e “morte” onde acaba cada “ilusão”. Ora, não é preciso ser um punheteiro como eu para saber que ela se está a referir ao que os franceses tão candidamente chamam “petit mort”. O orgasmo é, depois do êxtase, a “morte” - dá cá uma vontade de adormecer que eu às vezes tenho de me beliscar para bater outra. As ruínas são os restos de nhanha que, quais destroços do Convento do Carmo, estão penduradas no tecto da casa de banho. A “ilusão” é a fantasia que cada qual criou para entesar o nabo, antes de o esgalhar valentemente. Ultimamente tenho usado o DNA com a Bárbara Guimarães (há lá duas ou três fotografias em que quase se conseguem ver os mamilos. Mesmo na entrevista, ela diz uma ou duas frases pirosas que me arrebitam o sardo. Adoro saloiías...). Já agora, apraz-me dizer que, finalmente, o DNA serve para alguma coisa!
Posto isto, voltemos à versalhada em questão. “A força dos meus sonhos é tão forte / que de tudo renasce a exaltação”. Ora, pegando novamente no DNA com a Bárbara Guimarães como exemplo, é óbvio que aqui Sophia se refere à segunda vaga do tesão. Eu acabo de me vir abundantemente, tenho o mangalho a arrefecer, mas, pelo canto do olho, pego novamente numa prega de teta da Bárbara Guimarães. Já estás! O nabo dá por isso e “a força dos sonhos” (eu a enfardar na Bárbara, de ladex) é tal que “renasce a exaltação” (o piço fica todo engalanado).
A última frase é mais complexa do que à primeira vista podemos supor. Uma interpretação mais simplista (e, porque não dizê-lo, facilitista) afirmará que “e nunca as minhas mãos ficam vazias” se refere ao facto de o punheteiro estar sempre agarrado ao caralho e aos colhões. Dirão que a Sophia teria em mente um gajo avantajado e pronto. Não é bem assim. As mãos não ficam vazias porque, como qualquer adolescente saberá, ao fim de três ou quatro punhetas, o jacto de langonha perde a força e a consistência. É natural, os tintins produzem o que produzem. Mas sai sempre qualquer coisinha. Agora, como não é expelida convenientemente, acaba sempre por ficar nas mãos. Que, desse modo, “não ficam vazias”.
Vão ler, caralho.
-- O Meu Pipi
7.6.03
Confesso que de dez frases pronunciadas
Escuto uma
De sessenta palavras escritas
Leio duas
De oitenta modelos de facas
Escolhi três
Gostaria de saber qual o motivo de tanto esforço
Política literatura vida
Isto já nem me passa pela cabeça
Por que carregar um peso morto
Se eu posso cortá-lo em pedacinhos?
Escuto uma
De sessenta palavras escritas
Leio duas
De oitenta modelos de facas
Escolhi três
Gostaria de saber qual o motivo de tanto esforço
Política literatura vida
Isto já nem me passa pela cabeça
Por que carregar um peso morto
Se eu posso cortá-lo em pedacinhos?
6.6.03
Jack London
Apenas já na universidade foi que consegui uma pista para o significado dos meus sonhos e para a causa deles. Até então, não faziam sentido e nem tinham uma causa aparente. Mas na universidade estudei evolução e psicologia, e aprendi sobre diversos estados mentais e experiências estranhas. Por exemplo, sobre o sonho da queda no espaço -- a experiência de sonho mais comum e que praticamente todos já experimentaram.
Meu professor me disse que isso era uma memória racial. Ela remontava à época dos nossos antigos ancestrais que viviam em árvores. Como eles viviam em árvores, a probabilidade de queda era uma ameaça constante. Muitos perdiam a vida assim, todos experimentavam quedas terríveis, de que se salvavam agarrando-se nos galhos durante a queda.
Agora, uma queda terrível assim causava um choque. Tal choque produzia mudanças moleculares nas células cerebrais. Estas mudanças moleculares eram transmitidas às células cerebrais dos descendentes, tornando-se, em resumo, memórias raciais. Assim, quando você ou eu, dormindo ou no início do sono, caímos através do espaço e acordamos pouco antes do choque, estamos apenas evocando o que acontecia com os nossos ancestrais das árvores, e que ficou gravado na hereditariedade da raça através de mudanças cerebrais.
Não há nada de estranho nisso, assim como não há nada de estranho num instinto. Um instinto é apenas um hábito que ficou gravado no processo da nossa hereditariedade, somente isso. Deve-se observar, de passagem, que, nesse sonho de queda tão familiar a você, a mim e a todos nós, nunca chegamos ao chão. Chegar ao chão significaria a destruição. Aqueles dos nossos ancestrais das árvores que chegaram até o solo morreram em seguida. Na verdade, o choque da queda era transmitido às células cerebrais deles, mas morriam imediatamente, antes que pudessem ter descendentes. Nós somos descendentes dos que não atingiram o chão, e é por isso que em nossos sonhos nunca chegamos ao solo.
5.6.03
Alguém aí tem uma mãe que os atormenta? Que reclama o tempo todo? É, eu também. Mas a convivência com algo tão irritante e incômodo tem duas conseqüências comuns: a loucura ou o costume. No meu caso foi uma mistura dos dois, mas hoje eu gostaria de falar como me acostumei com aquela vozinha que soa constantemente as mesmas notas.
Eu desenvolvi uma espécie de filtro. O cérebro, exposto a algo que o desagrada, desenvolve boas defesas. Vejam como ele funciona. Minha mãe fala:
– De novo no computador?! Você nunca sai desse computador! Nunca ajuda na casa!! Tem louça acumulada na pia, só eu que tenho que lavar? Pra quê que eu fui ter filhos, meu Deus!?!?
Eu ouço:
– Mi mimi mi mimimimimimi?! Mimi mimi mimi mimi mimimimimi! Mimimi ajuda na mimimi!! Mimi louça mimimimi mi mimi, mi mi mimi mimi mimi mimi? Mimi mimi mi mimi mimi mimimi, mimi Mimi!?!?
Eliminando os ruídos, fica assim:
– Ajuda na louça?
Claro que, para conservar a relação (ou pelo menos a aparência dela), um filtro de saída foi desenvolvido. Ele barra qualquer coisa desagradável que eu possa falar, como também regula o tom e o volume de minha voz. Então a resposta, que deveria sair assim
– Você não pára de reclamar um minuto! Não percebe que eu tô trabalhando aqui no computador? Ah, chega, desisto, não dá pra fazer nada desse jeito, EU LAVO A MALDITA LOUÇA, TÁ BOM!! QUE SACO!!!
fica assim:
– ---- --- ---- -- -------- -- ------! --- ------- --- -- -- ----------- ---- -- ----------? --, -----, -------, --- -- --- ----- ---- ----- -----, eu lavo a ------- louça, tá bom. --- ----!!!
Percebam que o filtro alterou o tom da resposta. No final ela ouve algo só isso:
– Eu lavo a louça, tá bom.
Com o tempo o filtro (apenas o de saída) foi tomando conta da minha comunicação. Não consigo mais ser rude com as pessoas. Melhor pra mim, pior pra mim.
-- No One Knows
Eu desenvolvi uma espécie de filtro. O cérebro, exposto a algo que o desagrada, desenvolve boas defesas. Vejam como ele funciona. Minha mãe fala:
– De novo no computador?! Você nunca sai desse computador! Nunca ajuda na casa!! Tem louça acumulada na pia, só eu que tenho que lavar? Pra quê que eu fui ter filhos, meu Deus!?!?
Eu ouço:
– Mi mimi mi mimimimimimi?! Mimi mimi mimi mimi mimimimimi! Mimimi ajuda na mimimi!! Mimi louça mimimimi mi mimi, mi mi mimi mimi mimi mimi? Mimi mimi mi mimi mimi mimimi, mimi Mimi!?!?
Eliminando os ruídos, fica assim:
– Ajuda na louça?
Claro que, para conservar a relação (ou pelo menos a aparência dela), um filtro de saída foi desenvolvido. Ele barra qualquer coisa desagradável que eu possa falar, como também regula o tom e o volume de minha voz. Então a resposta, que deveria sair assim
– Você não pára de reclamar um minuto! Não percebe que eu tô trabalhando aqui no computador? Ah, chega, desisto, não dá pra fazer nada desse jeito, EU LAVO A MALDITA LOUÇA, TÁ BOM!! QUE SACO!!!
fica assim:
– ---- --- ---- -- -------- -- ------! --- ------- --- -- -- ----------- ---- -- ----------? --, -----, -------, --- -- --- ----- ---- ----- -----, eu lavo a ------- louça, tá bom. --- ----!!!
Percebam que o filtro alterou o tom da resposta. No final ela ouve algo só isso:
– Eu lavo a louça, tá bom.
Com o tempo o filtro (apenas o de saída) foi tomando conta da minha comunicação. Não consigo mais ser rude com as pessoas. Melhor pra mim, pior pra mim.
-- No One Knows
4.6.03
Frutas da infância e post
O jambo. O tamarindo. A guabiroba.
A uvaia. A pitanga. A carambola.
A pitangueira dá pitangas e indigestão.
Os uivos da uvaia. A raiva da cabeluda. A força da banana. O ácido do araçá.
O cântico do cambucá nos canais do intestino.
A sublevação dos indígenas alimentos frutais ingeridos e indigeridos.
O odre podre de qualquer fruta.
As comadrices da tangerina. O ubre convexo da mamoa.
O verdeveronese das frutas. As veludosas amarelezas do mamão.
Os passeios do limão nas alamedas de tangerineiras.
A fruta-de-conde. A fruta-de-condessa. Principalmente a fruta-de-condessa.
A fúria do abacaxi. A relva do abacate. A soledade da grumixama. A ironia da goiaba. A explosão da manga-espada. A glória do maracujá. O peito da laranja. O asco da toronja.
O preto da jabuticaba. As pretas da jabuticabeira. As tetas das pretas na jabuticabeira.
O sorriso em flor da canela. As congeminações da noz-moscada. Os esgares da pimenta desacompanhada da hortelã.
Morder a realidade, a matéria mordível e mordente, a universal tangerina, a fruta-esfera da terra. Saborear o sumo de todas as coisas somadas. O sumo do universo, o saber do sabor, o sabor do saber.
-- Murilo Mendes
O jambo. O tamarindo. A guabiroba.
A uvaia. A pitanga. A carambola.
A pitangueira dá pitangas e indigestão.
Os uivos da uvaia. A raiva da cabeluda. A força da banana. O ácido do araçá.
O cântico do cambucá nos canais do intestino.
A sublevação dos indígenas alimentos frutais ingeridos e indigeridos.
O odre podre de qualquer fruta.
As comadrices da tangerina. O ubre convexo da mamoa.
O verdeveronese das frutas. As veludosas amarelezas do mamão.
Os passeios do limão nas alamedas de tangerineiras.
A fruta-de-conde. A fruta-de-condessa. Principalmente a fruta-de-condessa.
A fúria do abacaxi. A relva do abacate. A soledade da grumixama. A ironia da goiaba. A explosão da manga-espada. A glória do maracujá. O peito da laranja. O asco da toronja.
O preto da jabuticaba. As pretas da jabuticabeira. As tetas das pretas na jabuticabeira.
O sorriso em flor da canela. As congeminações da noz-moscada. Os esgares da pimenta desacompanhada da hortelã.
Morder a realidade, a matéria mordível e mordente, a universal tangerina, a fruta-esfera da terra. Saborear o sumo de todas as coisas somadas. O sumo do universo, o saber do sabor, o sabor do saber.
-- Murilo Mendes
2.6.03
1 poema de Avraham Shlonsky
O Sr. Fulano fala de sua vizinhança
Vivo num prédio de 5 andares.
As janelas bocejam para a parede oposta
Como rostos olhando nos espelhos.
Em minha cidade há 70 linhas de ônibus,
Atulhadas pelo teto e cheias do fedor dos corpos.
Eles trabalham
Trabalham
E trabalham arduamente no coração da cidade:
Quase como se não pudesse alguém morrer de tédio
Logo aqui em minha vizinhança.
É bem pequena minha vizinhança.
Todavia tem seus nascimentos, as suas mortes
E as coisas todas que acontecem no entremeio
Em cada cidade igualmente existe
Mesmo crianças radiantes rodopiando um arco
E 3 cinemas.
Assim, se eu não achasse o tédio na minha própria casa suficiente
Eu freqüentaria um dos cinemas.
Vivo num prédio de 5 andares.
A mulher que saltou pela janela oposta
Achou 3 suficientes.
(in Quatro mil anos de poesia, Coleção Judaica, ed. Perspectiva)
30.5.03
Aquele que olha, da rua, através de uma janela aberta, jamais vê tantas coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela iluminada por uma lamparina. O que se pode ver ao sol nunca é tão interessante como o que acontece por trás de uma vidraça. Naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.
Para além das ondas de telhados, diviso uma mulher já madura, enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai de casa. Pela sua fisionomia, pelas suas vestes, por um gesto seu, por um quase-nada, reconstituí a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda, que às vezes conto a mim próprio, a chorar.
Se fosse um pobre velho, eu lhe haveria reconstituído a história com a mesma facilidade.
E vou-me deitar, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.
Haveis de perguntar-me agora: -- "Estás certo de que essa história seja a verdadeira?" Que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?
29.5.03
Roteiro Turístico de Moi-Même
eu fui feita às avessas
e às avessas quero ser...
Memórias de uma Surtada Os Olhos de Nelson Rodrigues Júlia e Gin Quisto é Bossa-Nova Entro na Vida para Sair da História tanto faz tanto fez o título o diploma o nome o rótulo que queiram me dar sem uma única palavra minha doce pequinesa em Frankfurt poemas datados vão pro liquidificador moem moem moem enquanto exercito o olho direito procuro o que tem dentro deste sorvete Il fait pas-de-deux/ Tem que ser você minha necessidade de prazer olho atrás do olho alguém se lembra de Madame Morineau? da guerra no Kuwait? não é assim tão simples delicado de cá do além-paraíba Oficina Flor do Universo onde costumávamos roçar nossos subsídios depois eu larguei do vício das visitas de Januário e seus panfletos de Trotsky debaixo do braço fui convidada para dar um curso de Literaturnaia Utchioba em Moscou eu precisava vestir uma peruca holandesa pra passar pela alfândega e esconder meu camafeu de begônias da revolução permanente que tola indivisível eu era ali roendo as unhas sinais de mediunidade me disse uma parapsicóloga soviética do partido você é telecinética não tenha medo nós respeitamos os latino-americanos e suas fezes adversas eu tive de rir do português sem parecer anormal dei um sonoro peido pra começar o dia uma poesia uma poesia são duas poesias onde como minhas tias sua débil mental busco saliva pra engolir o café da manhã -- o que será que fosso mas não masso?
recebi uma proposta de morar na fronteira paraguaia declinei o padrão de tempo é frágil como em Bombaim onde tenho atitudes espasmódicas sob o cadavérico céu e os mais sóis dos tons de azul aquele horizonte pastel teorizando ortopedias quando passei a suspeitar da consciência dos objetos de que os outros não passam de pequenos embrulhos da memória de que me livro segundos antes do elevador chegar ou do diabo que os carregue
o Pão de Açúcar é uma pedra gigantesca
o Corcovado é uma pedra gigantesca
quando qualquer um, seja onde for,
estender a mão pedindo ajuda,
mostre-lhe que você não tem um braço
........................................................................................
minha última noite com Isolda nem te conto paralelogramo-nos entrelaçadas: A Minha Amiga Wanderléia é Você, eu gosto de viver em saciedade entre mim e o poder há uma linha que une pontos de uma mesma intensidade sísmica na propagação de um terremoto MUDA A DOUTRINA O TAMANHO DA LATRINA senhor juiz eu me confesso culpada por tornar minha memória pública por conluir com contrastes embora seja indivíduo de pouca periculosidade verbal empale-me açoite-me que o castigo seja contundente imorredouro abram o código criminal da rainha Maria I na página 127 e escolham a minha pena perdi o controle total das admissibilidades senhor juiz não toscaneje puna-me! por sonhar com as primeiras-bailarinas de Istambul imaginá-las oito corvos voando juntos em tamanha velocidade que ficam brancos por romper a casca antes do ovo por vencerem as batatas por preparar em segredo uma lista de abobrinhas só pra dizer na frente dos amigos por meu pai me beijar só em dia de aniversário por minha vidinha particular pau-sa-da-men-te por vigiar meu marido do basculante da cozinha lendo as memórias de Stalin o rei do monossílabo como meu pai folheando Mein Kampf sem ler ó rodas ó engrenagens os diplomatas do verso a embaixada de intelectuais paulistanos por ser hoje eu amanhã eu num mundo que brinca e devora por filar público de escritores famosos por procurar dentro de conchas garotas que não me querem por escrever pelas paredes da casa pensamentos graficamente desconexos tirar fotos de trás pra frente de superamanhãs esquartejadas eu preciso domar a fera musicalista dos vocais lírios dos Campos as primas rimas preciso pôr e não expor, considerai
saudades de Malhada, minha primeira namorada em Paris, uma cidade que Descartes visitava com frequência, eu não resisto ao apelo das inconsistências da opção pelos pobres da opção pelos clássicos preparo uma edição bilíngue de Moscas nos Umbrais mãos passeando esquadros desenhando pés nos jacarés inaugurando a metodologia do acento agudo misturando sombras que andam andam até que eu mude de idéia e anoiteça um mormaço dentuço quando meus nervos se reagrupam e eu saio para mais uma noitada de bingo literário com meus tristes poetas caducos e suas canetas barrocas:
Maldição linguística é um caso sério
não fosse meu crocodilo datilógrafo
não sei como fecharia de versos
essa luz tão clara ferindo o único
olho de Camões na minha mesa
eu fui feita às avessas
e às avessas quero ser...
Memórias de uma Surtada Os Olhos de Nelson Rodrigues Júlia e Gin Quisto é Bossa-Nova Entro na Vida para Sair da História tanto faz tanto fez o título o diploma o nome o rótulo que queiram me dar sem uma única palavra minha doce pequinesa em Frankfurt poemas datados vão pro liquidificador moem moem moem enquanto exercito o olho direito procuro o que tem dentro deste sorvete Il fait pas-de-deux/ Tem que ser você minha necessidade de prazer olho atrás do olho alguém se lembra de Madame Morineau? da guerra no Kuwait? não é assim tão simples delicado de cá do além-paraíba Oficina Flor do Universo onde costumávamos roçar nossos subsídios depois eu larguei do vício das visitas de Januário e seus panfletos de Trotsky debaixo do braço fui convidada para dar um curso de Literaturnaia Utchioba em Moscou eu precisava vestir uma peruca holandesa pra passar pela alfândega e esconder meu camafeu de begônias da revolução permanente que tola indivisível eu era ali roendo as unhas sinais de mediunidade me disse uma parapsicóloga soviética do partido você é telecinética não tenha medo nós respeitamos os latino-americanos e suas fezes adversas eu tive de rir do português sem parecer anormal dei um sonoro peido pra começar o dia uma poesia uma poesia são duas poesias onde como minhas tias sua débil mental busco saliva pra engolir o café da manhã -- o que será que fosso mas não masso?
recebi uma proposta de morar na fronteira paraguaia declinei o padrão de tempo é frágil como em Bombaim onde tenho atitudes espasmódicas sob o cadavérico céu e os mais sóis dos tons de azul aquele horizonte pastel teorizando ortopedias quando passei a suspeitar da consciência dos objetos de que os outros não passam de pequenos embrulhos da memória de que me livro segundos antes do elevador chegar ou do diabo que os carregue
o Pão de Açúcar é uma pedra gigantesca
o Corcovado é uma pedra gigantesca
quando qualquer um, seja onde for,
estender a mão pedindo ajuda,
mostre-lhe que você não tem um braço
........................................................................................
minha última noite com Isolda nem te conto paralelogramo-nos entrelaçadas: A Minha Amiga Wanderléia é Você, eu gosto de viver em saciedade entre mim e o poder há uma linha que une pontos de uma mesma intensidade sísmica na propagação de um terremoto MUDA A DOUTRINA O TAMANHO DA LATRINA senhor juiz eu me confesso culpada por tornar minha memória pública por conluir com contrastes embora seja indivíduo de pouca periculosidade verbal empale-me açoite-me que o castigo seja contundente imorredouro abram o código criminal da rainha Maria I na página 127 e escolham a minha pena perdi o controle total das admissibilidades senhor juiz não toscaneje puna-me! por sonhar com as primeiras-bailarinas de Istambul imaginá-las oito corvos voando juntos em tamanha velocidade que ficam brancos por romper a casca antes do ovo por vencerem as batatas por preparar em segredo uma lista de abobrinhas só pra dizer na frente dos amigos por meu pai me beijar só em dia de aniversário por minha vidinha particular pau-sa-da-men-te por vigiar meu marido do basculante da cozinha lendo as memórias de Stalin o rei do monossílabo como meu pai folheando Mein Kampf sem ler ó rodas ó engrenagens os diplomatas do verso a embaixada de intelectuais paulistanos por ser hoje eu amanhã eu num mundo que brinca e devora por filar público de escritores famosos por procurar dentro de conchas garotas que não me querem por escrever pelas paredes da casa pensamentos graficamente desconexos tirar fotos de trás pra frente de superamanhãs esquartejadas eu preciso domar a fera musicalista dos vocais lírios dos Campos as primas rimas preciso pôr e não expor, considerai
saudades de Malhada, minha primeira namorada em Paris, uma cidade que Descartes visitava com frequência, eu não resisto ao apelo das inconsistências da opção pelos pobres da opção pelos clássicos preparo uma edição bilíngue de Moscas nos Umbrais mãos passeando esquadros desenhando pés nos jacarés inaugurando a metodologia do acento agudo misturando sombras que andam andam até que eu mude de idéia e anoiteça um mormaço dentuço quando meus nervos se reagrupam e eu saio para mais uma noitada de bingo literário com meus tristes poetas caducos e suas canetas barrocas:
Maldição linguística é um caso sério
não fosse meu crocodilo datilógrafo
não sei como fecharia de versos
essa luz tão clara ferindo o único
olho de Camões na minha mesa
Roland Barthes
9 de setembro de 1979
Noite: sem muita coisa para dizer: no Rest 7 com os amigos; era um bom momento de amizade; apesar da vizinhança estúpida (mulheres de idade muito pintadas, público toda-superfície-de-fora). Mas na tarde desse sábado, espécie de paquera variada e como que livre, insaciável: primeiro no Bain V, nada: nenhum dos árabes que conheço, nenhum interessante e muitos europeus sem jeito; única singularidade, um árabe, não jovem mas nada mal, se interessa pelos europeus. Visivelmente sem pedir dinheiro, ele lhes pega o pau depois passa para outro; não se sabe o que ele quer. Paradoxo puro: um árabe para quem existe o pau de um outro e não somente o seu (que é seu ego). Monólogo interminável, prolixo (de modo algum uma conversa) do dono, que relata seus dissabores em um hotel tunisiano (comida infecta e todos os jovens tunisianos o paqueravam descaradamente, explica ele, hipocritamente reprovador). Eu pensava em procurar um michê em Montmartre; é talvez por isso que, de má fé, nada encontrei no Voltaire. Chove muito, gotas pesadas de chuva, muitos automóveis. No Nuit, absolutamente nada (miragem do boato que diz que é preciso ir lá às cinco da tarde). No entanto, chega um morenão de rosto bem fino; meio estranho; seu francês é rude, tomo-o por um bretão; não, a mãe é húngara, o pai, russo branco (?), em suma, iugoslavo (muito delicado, muito simples). Mme. Madeleine, que me tinham dito estar muito doente (de um enfarte), surge, gorda e coxeando lá da cozinha, onde há sobre a mesa uma berinjela; está saindo um belo marroquino que bem queria me pegar e me olha longamente; ele esperará na sala de refeições que eu desça de novo, parece decepcionado que eu não o pegue de imediato (vago encontro para o dia seguinte). Saio leve, bem fisicamente, sempre com minhas idéias de regime, compro um pão (decidido a um regime muito sóbrio, mas não proibitivo) bem crocante, cuja ponta mordisco; a crosta se desfaz no metrô que tomo, com baldeações complicadas - mas sou cabeça-dura -, para ir ver a pressão barométrica, av. Rapp, a fim de regular meu novo barômetro. No táxi de volta, tempestade e chuva forte. Ando pra lá e pra cá em casa (como pão tostado e queijo de cabra), depois, dizendo comigo que é preciso que eu perca o hábito de calcular os prazeres (ou as derivas), saio de novo e vou ver o novo filme pornô do Dragon: como sempre - e talvez ainda mais - lamentável. Nem ouso paquerar meu vizinho, mas certamente disponível (medo idiota de ser recusado). Descida à sala escura; lamento sempre em seguida esse episódio sórdido em que a cada vez ponho à prova o meu desamparo.
-- Em "Incidentes".
28.5.03
Pego o ônibus da alma e por um instante acho que Deus não vai mais me aborrecer. Sou uma perfeita dama isolada numa aldeia aclimatada. Um vestido de pano faz-me oscilar durante dias, convertendo o cristianismo em bolhas soltas no ar. Sou jovem e não estremeço. Posso estruturar um negócio. Posso prolongar a melancolia. Passo de um assunto a outro sem muitos poréns, o que é uma forma divertida de não perder tempo, de evitar familiaridades com o pensamento. Tenho o rosto esbranquiçado que poderia ser o de um cachorro, o de uma irmã, o de alguém que se conhece, se eu conseguisse ler sem meus óculos.
24.5.03
Hino às lésbicas
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-- Gerhard Rühm
22.5.03
Roteiro para a visitação aos túmulos de celebridades literárias
Se um dia em sua vida você por acaso tiver interesse e oportunidade de visitar o cemitério Père Lachaise, em Paris, não se esqueça de levar um mapa para orientar-se. Você pode adquiri-lo em qualquer floricultura ou banca de jornal próximas ao cemitério. Seus anfitriões vão apreciar a lembrança. De posse do mapa, selecione as sepulturas que deseja visitar. Lembre-se de que um dia não basta para ver todas em detalhe. Você pode optar pela ordem cronológica de nascimento ou morte, por critérios estéticos ou meramente por sua preferência pessoal. Mas se você nunca leu uma linha de qualquer escritor que lá repouse, e nem sequer ouviu falar de qualquer um deles, siga um roteiro mais simples. A partir da entrada principal, avance por uma das alas a passos rápidos e se detenha naquelas sepulturas que reúnem em torno de si a maior aglomeração de pessoas. Não tem erro. Como nos museus, bienais e feiras, não deixe de levar sua máquina fotográfica. Este roteiro deverá lhe tomar umas quatro horas. Para lhe proporcionar um gostinho antecipado dos clássicos e suas famosas sepulturas, mencionarei aqui algumas delas e seus felizes possuidores:
Honoré de Balzac (1799-1850) -- autor da "Comédia Humana", encontra-se na quadra 48, sob uma sepultura que tem o seu busto. Enterrada a seu lado, a condessa Éveline Hanska, com quem se casou cinco meses antes de falecer, e com quem viveu por nove anos.
Marcel Proust (1871-1922) -- autor de "Em Busca do Tempo Perdido". Jaz ao lado dos pais em uma sepultura na quadra 85.
Oscar Wilde (1854-1900) -- autor de "O Retrato de Dorian Gray". Faleceu em Paris, onde viveu seus derradeiros três anos. Wilde está enterrado na quadra 89.
Gertrude Stein (1874-1946) -- escritora norte-americana, autora de "A Autobiografia de Alice B. Toklas". Viveu na França grande parte da sua vida e por isso acha-se sepultada na quadra 94.
Jean-Baptiste Molière (1622-1673) -- autor teatral. Escreveu "Escola de Mulheres", uma de suas inúmeras peças famosas. Você pode encontrá-lo na quadra 25.
Jean de la Fontaine (1807-1864) -- famoso escritor de fábulas. Acha-se pertinho de Molière, também na quadra 25.
E você que é um aficionado por música romântica, não se esqueça de dar um pulinho na quadra 11. Lá estão depositados os restos mortais famosos do compositor e pianista polonês Frédéric Chopin. Se depois de todas essas atrações, ainda lhe sobrou disposição física, siga até a quadra 97. É imperdível. A dona de uma das suas sepulturas foi a voz mais notável da França nos anos 40 -- sim, Edith Piaf (1915-1963). Seria imperdoável não visitá-la.
-
Joaquim Cardozo
Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.
E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
-- Todos eles perderam-se no mar.
Agora, na praia deserta estou sozinho
-- Caminho
Com os pés descalços na areia.
Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
-- A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.
-- Joaquim Cardozo, "Poesia da Presença Invisível".
21.5.03
(Aproveitando o clima do último post, vi dizê na net que basta a gente que escreve dizer no blog que tá procurando uma editora, que elas aparecem. Será? Alô, editoras, eu faço ficção, eu também digo mentiras que julgo verdades, é só fuçar nos arquivos. Tão a fim? Deixa eu puxar um sofá que vou é esperar deitada. Pedidos não ofendem.)
Leonardo Mota
O cantador pernambucano Aragão foi ter comigo, certa vez, quando no "Hotel de France", em Fortaleza, eu jantava em companhia do jornalista Manuel Monteiro. Aragão vestia um terno de roupa nova, quer dizer, havia "quebrado a tigela". Convidei-o a tomar parte na refeição e, com surpresa minha, ele prontamente aquiesceu:
-- Eu quero. Agora, matuto em frente de gente não come. O dicomê fica na mesa e ele se acanha... Matuto só tem de gente o rasto. Matuto é o bicho mais parecido com gente que Deus deixou no mundo...
Quando o criado lhe apresentou o cardápio, ele protestou:
-- Pra quê diabo é esse papelão? Quero lá sabê de iscuiê versidade de comida! Traga o que tivé! Traga a janta que eu como... Eu não sou biqueiro não. Só não me traga comida com gordura de porco, carne de capado, nem carne de criação, que é carregada. O resto...
E, chamando o criado, advertiu:
-- Sim, não vá trazê coisinha por coisinha não! Eu quero é tudo engalobado. Eu gosto é do taipeiro...
Manuel Monteiro indagou:
-- A que é que faz mal carne de criação?
-- A que é? Só pode ser ao corpo...
Enquanto aguardava o jantar, Aragão nos confessou:
-- Eu só não gosto de comedoria de hotel porque isso é uma especulação: é umas foinha lá no fundo do prato. Vou nisso não! Serei lagarta?
Perguntei-lhe se aceitava um aperitivo e expliquei: uma bebida que lhe despertasse a vontade de comer.
-- Quero não, doutô. Eu vou vê se largo o esprito. Tá me ofendendo. Eu, onte, fui a uma festa no Maranguape e me dero lá uma tal de cachaça inocente chamada "Sapupara", boa chega parecia Zinebra. O certo é que eu hoje amanheci ruim da barriga e só boto pra água que passarim não bebe... O povo lá até gostou desta "obra" que eu fiz: "Quem bebe da Sapupara/ E usa cigarro amarelo/ Parece que quando arrota/ Arrota conhaque Martelo."
Veio o jantar. Aragão devorou-o às pressas, com a colher. Depois limpou a boca na toalha da mesa, palitou os dentes e enfiou o palito entre os cabelos. O criado interpelou-o:
-- O senhor quer sobremesa?
-- Home, ocê quererá me matá! Vá dá no boi! Eu já tou cheio... Mas me traga sempre um docezinho!
-- De que qualidade?
-- Traga qualqué um! Eu, toda vida, vi dizê que não hai cabra bom nem doce ruim...
-- Em "Cantadores, Poesia e Linguagem do Sertão Cearense".
20.5.03
Afinação da Arte de Chutar Tampinhas
Há algum tempo venho afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.
Chutar tampinhas que encontro no caminho. É só ver tampinha. Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra. Qual a marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada, e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a idéia de que para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.
Meu irmão, tipo sério, responsabilidades. Ele, a camisa; eu, o avesso. Meio burguês, metido a sensato. Noivo...
-- Você é um largado. Onde se viu essa, agora!
É que eu, às vezes, interrompo conversas na calçada para os meus chutes.
Só um sujeito como eu, homem se atilando naquilo que faz, pode avaliar um chute digno para determinadas tampinhas. Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. Não demoram muito, que ainda não sou um grande chutador. Mas capricho, porque elas merecem.
Minhas tampinhas... Umas belezas.
18.5.03
Ronaldo Santos
sopinha de letras é comida de doente
internatório hospitalar
deus me dê saúde
pra que eu alimente cada uma de minhas fomes
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17.5.03
Por que ela precisava me arrastar junto por todos os bares, tarde da noite, só para ver o que ele estaria fazendo? Com quem estaria conversando, o que estaria bebendo, e quanto, o que estaria dizendo ou gritando quando, bêbado até a alma, agitava os braços e respondia às próprias perguntas que fazia. Eu estava sempre com sono, pois minha hora de dormir já ia longe. E aquela programação era sempre a mesma quase todos os dias. Antes ela tivesse o hábito de me levar pela praia e me contar histórias de sua própria cabeça para que eu as confundisse com meus sonhos e adormecesse. Mas não. Tínhamos de fazer aquele périplo por calçadas, esquinas, becos, escadas de igrejas, atrás de árvores e automóveis para não sermos vistas, bancas de jornal, vitrines apagadas, farmácias de plantão, sinais de trânsito, saídas de cinemas, portarias de edifícios, carrocinhas de pipoca, pontos de ônibus, lá íamos nós, sempre a pé, eu sendo levada por seus passos apressados, mãos suadas, como se fôssemos pegar o último trem que nos levaria para longe do mais longe. Eu não sabia então o que era pressa. Certamente foi com ela que aprendi que os dias são como ônibus desembestados que não abrem suas portas se estamos no ponto errado. De que adiantava seguir aquele homem? De que serviria acompanhar seus passos se estávamos no meio da rua, e as ruas não dão em lugar algum, exceto em outras ruas e mais ruas, ao infinito. Eu teria tempo no futuro para conhecer todas, talvez seguindo eu mesma outras pessoas numa progressão sem fim. Mas naquela hora eu queria ir para casa. Eu chorava que queria ir para casa. Ela me comprava um sorvete. Eu calava a boca. “Olhe ele lá. Vamos.” Meu sorvete derretia porque eu não tinha tempo para lambê-lo, preocupada em não ficar para trás. Lá íamos nós outra vez. E sempre. Até que ela se cansava e desistia, porque ele havia desaparecido boate adentro e lá nós não poderíamos segui-lo mais. Então voltávamos para casa e eu ia dormir satisfeita porque tinha ganho um palitinho premiado. Amanhã seria outro dia e o sol brilharia novamente para que eu pudesse ir à praia pegar umas ondas e ficar boiando, pensando em como seria bom se meus pais fossem levados pela correnteza e eu não soubesse nadar.
16.5.03
T. S. Eliot
Manhã à Janela
Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As fulvas ondas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.
-
Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As fulvas ondas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.
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15.5.03
14.5.03
13.5.03
Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
-- Hilda Hilst, em "Cantares do Sem Nome e de Partidas".
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
-- Hilda Hilst, em "Cantares do Sem Nome e de Partidas".
12.5.03
Oh noite sem objetos. Oh janela baça pelo lado de fora, oh portas cuidadosamente cerradas; antigos hábitos transmitidos, confirmados, nunca bem entendidos. Oh silêncio no vão da escada, silêncio nos quartos vizinhos, silêncio no alto, junto ao teto. Oh mãe: oh tu, única, que te puseste diante desse silêncio outrora na infância. Que o assumias, dizendo: não te assustes, sou eu. Que tinhas a coragem de ser, na noite, inteiramente esse silêncio para aquele que teme, que se consome de temor. Acendes uma luz, e já esse ruído és tu. E a seguras à tua frente e dizes: sou eu, não te assustes. E a depositas lentamente e não há dúvida: és tu, tu és a luz em torno dos objetos amavelmente familiares, que aparecem sem ambiguidade alguma, bons, simples, unívocos. E quando algo se inquieta em algum lugar da parede ou dá um passo no assoalho: então apenas sorris, sorris, sorris translúcida diante do fundo claro, para o rosto amedrontado que te perscruta como se fosses cúmplice desse segredo em meio-tom, em combinação com ele, de acordo com ele. Existirá algum poder semelhante ao teu na terra? Vê, reis jazem de olhar fixo, e o contador de histórias não consegue distraí-los. Entre os belos seios de sua mais querida amante, eles são tomados pelo terror que os deixa trêmulos e frios. Mas tu vens, detendo o monstruoso atrás de ti, inteiramente postada à sua frente; não como um cortinado que se pudesse erguer aqui ou ali. Não, é como se o tivesses superado diante do apelo de quem te necessita. Como se te houvesses adiantado muito ao que pudesse vir, e houvesse atrás de ti apenas o teu chegar, teu eterno caminho, o vôo do teu amor.
10.5.03
Meu professor na oficina literária pediu que elaborássemos um texto de influência seiscentista, e mais não disse. Eu sabia que o seiscentismo vinha antes do setecentismo e depois do quinhentismo, parava por aí. Como não ia pegar bem inventar mais uma desculpa para fugir dali, resolvi ficar e apostar no barroco. Deve ser o barroco, tem de ser o barroco. Eu tinha uma hora para garatujar todas as sandices que me viessem à cabeça com aquele estilo hiperbólico quilométrico. Não era isso o barroco? Que se foda, deve ser. Depois de dar uma última dentada no meu misto quente, segurei firme a folha de papel e com meus dedinhos gordurosos comecei a escrever de uma só tacada: "Assi passava eu o tempo: alegre de todas as cousas, buscando ora umas ora outras, per logares deleitosos, terras fermosas, recantos assossegados e cidades de luzes que endoudecem. Até que um dia o mundo me faltou com o respeito e ergueu seu grande peso contra minhalma delicada. Imbuído de grotesca fenomenalidade, tangeu as cordas do meu destino enquanto eu me distraía e o que se passou em seguida nem o mais extraordinário bardo ou oficioso meirinho seria capaz de relatar. Todas as cores que me eram vívidas, desbotaram. O céu cobriu-se de terra. As montanhas viraram cubículos, e os pássaros caíam como pedras. Seres vivos encapsularam-se em corpos brutos, escolas dividiram-se em celas, sábios transformados em retóricos. Dos lares desabrocharam asilos, da literatura, gramática."
Escrevi mais umas duas dúzias de linhas prolixas no mesmo tom, recheei com uma "boca lacrimosa" aqui, uma "brisa balsâmica" ali, temperando tudo com uma "ode degenerada", e dei por concluído o meu exercício. Fui a primeira a entregar o meu trabalho. Minha vontade foi de sair correndo, mas o combinado era esperar até que todos tivessem acabado. Voltei para o meu lugar e fui procurar alguma coisa para fazer dentro da minha bolsa. Palavras cruzadas pega bem? Se eu começar a lixar unha aqui, vão me chamar de fútil. Deixa ver... Retocar a maquiagem nem pensar. Eu paguei muito caro por esse curso para me chamarem de descerebrada. Puta merda, cadê aquele livrinho do Rilke que eu trouxe para impressionar o professor? Como essa gente demora para acabar. Devem estar achando mais difícil do que eu. Eu acho que mandei bem. Fiquei um pouco nervosa no começo mas depois me soltei. É sempre assim quando a gente escreve, não é não? A minha sorte é que, enquanto escrevia, me lembrei de que uma das características básicas do barroquismo é a atrofia de forma e conteúdo. Ou seria hipertrofia? Hiii.
Escrevi mais umas duas dúzias de linhas prolixas no mesmo tom, recheei com uma "boca lacrimosa" aqui, uma "brisa balsâmica" ali, temperando tudo com uma "ode degenerada", e dei por concluído o meu exercício. Fui a primeira a entregar o meu trabalho. Minha vontade foi de sair correndo, mas o combinado era esperar até que todos tivessem acabado. Voltei para o meu lugar e fui procurar alguma coisa para fazer dentro da minha bolsa. Palavras cruzadas pega bem? Se eu começar a lixar unha aqui, vão me chamar de fútil. Deixa ver... Retocar a maquiagem nem pensar. Eu paguei muito caro por esse curso para me chamarem de descerebrada. Puta merda, cadê aquele livrinho do Rilke que eu trouxe para impressionar o professor? Como essa gente demora para acabar. Devem estar achando mais difícil do que eu. Eu acho que mandei bem. Fiquei um pouco nervosa no começo mas depois me soltei. É sempre assim quando a gente escreve, não é não? A minha sorte é que, enquanto escrevia, me lembrei de que uma das características básicas do barroquismo é a atrofia de forma e conteúdo. Ou seria hipertrofia? Hiii.
9.5.03
Lucienne Samôr
Ala Lateral
O meu maior erro foi ter nascido depois da morte de Sigmund Freud. Havia rompido relações comigo mesmo e não sabia porque o espelho me era indiferente. Pouco a pouco, quando comecei a compreender a minha insensibilidade é que realmente nasci e a luz brilhou revelando-me o escuro abismo. (...) Houve tempo em que até andava pela casa, divertindo a todos, falando em Sigmund Freud. E todos diziam acreditar nele e os seus olhos tomavam um brilho novo e falavam no Sigmund Freud como se ele fosse chegar a qualquer momento.(...) Quando Sigmund Freud chegar, entrar por aquela porta, logo perguntará por mim e eu vou rir da estupidez deles. Vale a pena viver para esperar esse dia. Mas eu falei em morrer?
(...) Tenho medo, sabe, medo do que eles farão comigo. Outro dia fiquei sabendo que irão dar o meu cérebro para os cientistas estudarem. Não quero, não quero. Gritei isso para eles e não responderam nada. Não me levam a sério, por isso até fecharam os portões pra eu não falar com ninguém, inclusive pra não dizer que Sigmund Freud está viajando pra cá. Preciso fazer uma roupa nova, um terno sóbrio. Sim: sóbrio - para não espantar Sigmund Freud. Preciso ser discreto e ter paciência e não dizer tudo a ele de uma só vez. Sigmund Freud vai compreender e até vai me olhar com aquele olhar de compreensão. Ficarei calado. Depois direi tudo a ele e então tomará as providências necessárias. Sim, há providências necessárias a tomar - é importante. Por enquanto eu fico calado. Quero pegá-los desprevenidos. A surpresa é que é o essencial. Depois, bem, depois serei complacente porque não sou ruim. Eles me olharão e agradecerão a minha benevolência.
(...) Hoje notei maior movimento na porta do quarto. Será que Sigmund Freud chegou e eles escondem isso de mim? É bem capaz. Bando de canalhas! Bois! Animais! Abram a porta, abram a porta, miseráveis! Sigmund Freud veio para me ver - ouviram - PARA ME VER! - o que é isso? Que gritaria é essa? Não se façam de desentendidos, eu sei muito bem que Sigmund Freud chegou. Os passos se arrastam depressa e depressa todos se agrupam. As vozes de timbre cada vez mais forte emitem ecos. Eles se mexem, se agitam, correm pelos corredores, descem e sobem escadas e eu não entendo nada. Dou um murro na porta com o punho fechado: - SIGMUND FREUD, como está VIENA, o senhor VALSEIA? Olha, a valsa não é privilégio nosso, o senhor há de desculpar, mas a nossa cultura está em déficit. Sabe? O lugar-comum está tomando conta de tudo rapidamente. Desculpe a falta da VALSA. Aliás, o senhor veio foi para me ver, conversar comigo, me aconselhar como um amigo, não foi? Pois, olha: estou à sua espera há tanto tempo que perdi a conta ou esqueci de contar - esses lapsos são comuns em mim, mas não irão impressionar ao senhor, eu sei. Por isso é bom a gente ter um amigo: um amigo assim igual ao senhor substitui qualquer mulher. Mas por que esse barulho, essa agitação febril, esse telefone que sempre tilinta, esses ruídos surdos, disfarçados, esse barulho de ferros caindo num balde? Sigmund, está ouvindo? SIGMUND! Patife! Está me ouvindo ou está com eles? Eles não vão deixar o senhor falar, não vão - entende? Vem aqui que eu explico tudo; eu tenho tanta coisa para explicar: é preciso também que me expliquem muita coisa. Não sei por que quando vem gente aqui, dizem que eu fico na ala lateral; desde ontem que não vejo o sol porque joguei o prato de comida na cara da mulher. Sabe, Sigmund, aqui faz muito frio, é igual a VIENA.
-- Em "O Olho Insano", 1975.
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