22.5.03

Joaquim Cardozo


Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
-- Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
-- Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
-- A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.

-- Joaquim Cardozo, "Poesia da Presença Invisível".

21.5.03

Pena que acabou, mas que é um dos melhores, isso ele é: Chocolate.

(Aproveitando o clima do último post, vi dizê na net que basta a gente que escreve dizer no blog que tá procurando uma editora, que elas aparecem. Será? Alô, editoras, eu faço ficção, eu também digo mentiras que julgo verdades, é só fuçar nos arquivos. Tão a fim? Deixa eu puxar um sofá que vou é esperar deitada. Pedidos não ofendem.)

Leonardo Mota


O cantador pernambucano Aragão foi ter comigo, certa vez, quando no "Hotel de France", em Fortaleza, eu jantava em companhia do jornalista Manuel Monteiro. Aragão vestia um terno de roupa nova, quer dizer, havia "quebrado a tigela". Convidei-o a tomar parte na refeição e, com surpresa minha, ele prontamente aquiesceu:
-- Eu quero. Agora, matuto em frente de gente não come. O dicomê fica na mesa e ele se acanha... Matuto só tem de gente o rasto. Matuto é o bicho mais parecido com gente que Deus deixou no mundo...
Quando o criado lhe apresentou o cardápio, ele protestou:
-- Pra quê diabo é esse papelão? Quero lá sabê de iscuiê versidade de comida! Traga o que tivé! Traga a janta que eu como... Eu não sou biqueiro não. Só não me traga comida com gordura de porco, carne de capado, nem carne de criação, que é carregada. O resto...
E, chamando o criado, advertiu:
-- Sim, não vá trazê coisinha por coisinha não! Eu quero é tudo engalobado. Eu gosto é do taipeiro...
Manuel Monteiro indagou:
-- A que é que faz mal carne de criação?
-- A que é? Só pode ser ao corpo...
Enquanto aguardava o jantar, Aragão nos confessou:
-- Eu só não gosto de comedoria de hotel porque isso é uma especulação: é umas foinha lá no fundo do prato. Vou nisso não! Serei lagarta?
Perguntei-lhe se aceitava um aperitivo e expliquei: uma bebida que lhe despertasse a vontade de comer.
-- Quero não, doutô. Eu vou vê se largo o esprito. Tá me ofendendo. Eu, onte, fui a uma festa no Maranguape e me dero lá uma tal de cachaça inocente chamada "Sapupara", boa chega parecia Zinebra. O certo é que eu hoje amanheci ruim da barriga e só boto pra água que passarim não bebe... O povo lá até gostou desta "obra" que eu fiz: "Quem bebe da Sapupara/ E usa cigarro amarelo/ Parece que quando arrota/ Arrota conhaque Martelo."
Veio o jantar. Aragão devorou-o às pressas, com a colher. Depois limpou a boca na toalha da mesa, palitou os dentes e enfiou o palito entre os cabelos. O criado interpelou-o:
-- O senhor quer sobremesa?
-- Home, ocê quererá me matá! Vá dá no boi! Eu já tou cheio... Mas me traga sempre um docezinho!
-- De que qualidade?
-- Traga qualqué um! Eu, toda vida, vi dizê que não hai cabra bom nem doce ruim...


-- Em "Cantadores, Poesia e Linguagem do Sertão Cearense".

20.5.03

Afinação da Arte de Chutar Tampinhas


Há algum tempo venho afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.
Chutar tampinhas que encontro no caminho. É só ver tampinha. Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra. Qual a marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada, e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a idéia de que para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.
Meu irmão, tipo sério, responsabilidades. Ele, a camisa; eu, o avesso. Meio burguês, metido a sensato. Noivo...
-- Você é um largado. Onde se viu essa, agora!
É que eu, às vezes, interrompo conversas na calçada para os meus chutes.
Só um sujeito como eu, homem se atilando naquilo que faz, pode avaliar um chute digno para determinadas tampinhas. Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. Não demoram muito, que ainda não sou um grande chutador. Mas capricho, porque elas merecem.
Minhas tampinhas... Umas belezas.

-- João Antônio.

18.5.03

Ronaldo Santos


sopinha de letras é comida de doente
internatório hospitalar
deus me dê saúde
pra que eu alimente cada uma de minhas fomes

-

17.5.03


Por que ela precisava me arrastar junto por todos os bares, tarde da noite, só para ver o que ele estaria fazendo? Com quem estaria conversando, o que estaria bebendo, e quanto, o que estaria dizendo ou gritando quando, bêbado até a alma, agitava os braços e respondia às próprias perguntas que fazia. Eu estava sempre com sono, pois minha hora de dormir já ia longe. E aquela programação era sempre a mesma quase todos os dias. Antes ela tivesse o hábito de me levar pela praia e me contar histórias de sua própria cabeça para que eu as confundisse com meus sonhos e adormecesse. Mas não. Tínhamos de fazer aquele périplo por calçadas, esquinas, becos, escadas de igrejas, atrás de árvores e automóveis para não sermos vistas, bancas de jornal, vitrines apagadas, farmácias de plantão, sinais de trânsito, saídas de cinemas, portarias de edifícios, carrocinhas de pipoca, pontos de ônibus, lá íamos nós, sempre a pé, eu sendo levada por seus passos apressados, mãos suadas, como se fôssemos pegar o último trem que nos levaria para longe do mais longe. Eu não sabia então o que era pressa. Certamente foi com ela que aprendi que os dias são como ônibus desembestados que não abrem suas portas se estamos no ponto errado. De que adiantava seguir aquele homem? De que serviria acompanhar seus passos se estávamos no meio da rua, e as ruas não dão em lugar algum, exceto em outras ruas e mais ruas, ao infinito. Eu teria tempo no futuro para conhecer todas, talvez seguindo eu mesma outras pessoas numa progressão sem fim. Mas naquela hora eu queria ir para casa. Eu chorava que queria ir para casa. Ela me comprava um sorvete. Eu calava a boca. “Olhe ele lá. Vamos.” Meu sorvete derretia porque eu não tinha tempo para lambê-lo, preocupada em não ficar para trás. Lá íamos nós outra vez. E sempre. Até que ela se cansava e desistia, porque ele havia desaparecido boate adentro e lá nós não poderíamos segui-lo mais. Então voltávamos para casa e eu ia dormir satisfeita porque tinha ganho um palitinho premiado. Amanhã seria outro dia e o sol brilharia novamente para que eu pudesse ir à praia pegar umas ondas e ficar boiando, pensando em como seria bom se meus pais fossem levados pela correnteza e eu não soubesse nadar.

16.5.03

T. S. Eliot

Manhã à Janela

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.

As fulvas ondas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

-

15.5.03

Incompatibilidade de gênios


-- Teu corpo ao lado do meu tem um lado que eu chamo de meu corpo.

-- Olha que dançar com a própria sombra enlouquece a pessoa, hein?

14.5.03

Os 25 dias antes do nascimento de Otto


puup
qvvq
rwwr
sxxs
tyyt
uzzu
vaav
wbbw
xccx
yddy
zeez
affa
bggb
chhc
diid
ejje
fkkf
gllg
hmmh
inni
jooj
kppk
lqql
mrrm
nssn
otto


-- Ernst Jandl

13.5.03

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

-- Hilda Hilst, em "Cantares do Sem Nome e de Partidas".

12.5.03

Oh noite sem objetos. Oh janela baça pelo lado de fora, oh portas cuidadosamente cerradas; antigos hábitos transmitidos, confirmados, nunca bem entendidos. Oh silêncio no vão da escada, silêncio nos quartos vizinhos, silêncio no alto, junto ao teto. Oh mãe: oh tu, única, que te puseste diante desse silêncio outrora na infância. Que o assumias, dizendo: não te assustes, sou eu. Que tinhas a coragem de ser, na noite, inteiramente esse silêncio para aquele que teme, que se consome de temor. Acendes uma luz, e já esse ruído és tu. E a seguras à tua frente e dizes: sou eu, não te assustes. E a depositas lentamente e não há dúvida: és tu, tu és a luz em torno dos objetos amavelmente familiares, que aparecem sem ambiguidade alguma, bons, simples, unívocos. E quando algo se inquieta em algum lugar da parede ou dá um passo no assoalho: então apenas sorris, sorris, sorris translúcida diante do fundo claro, para o rosto amedrontado que te perscruta como se fosses cúmplice desse segredo em meio-tom, em combinação com ele, de acordo com ele. Existirá algum poder semelhante ao teu na terra? Vê, reis jazem de olhar fixo, e o contador de histórias não consegue distraí-los. Entre os belos seios de sua mais querida amante, eles são tomados pelo terror que os deixa trêmulos e frios. Mas tu vens, detendo o monstruoso atrás de ti, inteiramente postada à sua frente; não como um cortinado que se pudesse erguer aqui ou ali. Não, é como se o tivesses superado diante do apelo de quem te necessita. Como se te houvesses adiantado muito ao que pudesse vir, e houvesse atrás de ti apenas o teu chegar, teu eterno caminho, o vôo do teu amor.

-- Rainer Maria Rilke, em "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge".

10.5.03

Meu professor na oficina literária pediu que elaborássemos um texto de influência seiscentista, e mais não disse. Eu sabia que o seiscentismo vinha antes do setecentismo e depois do quinhentismo, parava por aí. Como não ia pegar bem inventar mais uma desculpa para fugir dali, resolvi ficar e apostar no barroco. Deve ser o barroco, tem de ser o barroco. Eu tinha uma hora para garatujar todas as sandices que me viessem à cabeça com aquele estilo hiperbólico quilométrico. Não era isso o barroco? Que se foda, deve ser. Depois de dar uma última dentada no meu misto quente, segurei firme a folha de papel e com meus dedinhos gordurosos comecei a escrever de uma só tacada: "Assi passava eu o tempo: alegre de todas as cousas, buscando ora umas ora outras, per logares deleitosos, terras fermosas, recantos assossegados e cidades de luzes que endoudecem. Até que um dia o mundo me faltou com o respeito e ergueu seu grande peso contra minhalma delicada. Imbuído de grotesca fenomenalidade, tangeu as cordas do meu destino enquanto eu me distraía e o que se passou em seguida nem o mais extraordinário bardo ou oficioso meirinho seria capaz de relatar. Todas as cores que me eram vívidas, desbotaram. O céu cobriu-se de terra. As montanhas viraram cubículos, e os pássaros caíam como pedras. Seres vivos encapsularam-se em corpos brutos, escolas dividiram-se em celas, sábios transformados em retóricos. Dos lares desabrocharam asilos, da literatura, gramática."
Escrevi mais umas duas dúzias de linhas prolixas no mesmo tom, recheei com uma "boca lacrimosa" aqui, uma "brisa balsâmica" ali, temperando tudo com uma "ode degenerada", e dei por concluído o meu exercício. Fui a primeira a entregar o meu trabalho. Minha vontade foi de sair correndo, mas o combinado era esperar até que todos tivessem acabado. Voltei para o meu lugar e fui procurar alguma coisa para fazer dentro da minha bolsa. Palavras cruzadas pega bem? Se eu começar a lixar unha aqui, vão me chamar de fútil. Deixa ver... Retocar a maquiagem nem pensar. Eu paguei muito caro por esse curso para me chamarem de descerebrada. Puta merda, cadê aquele livrinho do Rilke que eu trouxe para impressionar o professor? Como essa gente demora para acabar. Devem estar achando mais difícil do que eu. Eu acho que mandei bem. Fiquei um pouco nervosa no começo mas depois me soltei. É sempre assim quando a gente escreve, não é não? A minha sorte é que, enquanto escrevia, me lembrei de que uma das características básicas do barroquismo é a atrofia de forma e conteúdo. Ou seria hipertrofia? Hiii.

9.5.03

Lucienne Samôr


Ala Lateral


O meu maior erro foi ter nascido depois da morte de Sigmund Freud. Havia rompido relações comigo mesmo e não sabia porque o espelho me era indiferente. Pouco a pouco, quando comecei a compreender a minha insensibilidade é que realmente nasci e a luz brilhou revelando-me o escuro abismo. (...) Houve tempo em que até andava pela casa, divertindo a todos, falando em Sigmund Freud. E todos diziam acreditar nele e os seus olhos tomavam um brilho novo e falavam no Sigmund Freud como se ele fosse chegar a qualquer momento.(...) Quando Sigmund Freud chegar, entrar por aquela porta, logo perguntará por mim e eu vou rir da estupidez deles. Vale a pena viver para esperar esse dia. Mas eu falei em morrer?

(...) Tenho medo, sabe, medo do que eles farão comigo. Outro dia fiquei sabendo que irão dar o meu cérebro para os cientistas estudarem. Não quero, não quero. Gritei isso para eles e não responderam nada. Não me levam a sério, por isso até fecharam os portões pra eu não falar com ninguém, inclusive pra não dizer que Sigmund Freud está viajando pra cá. Preciso fazer uma roupa nova, um terno sóbrio. Sim: sóbrio - para não espantar Sigmund Freud. Preciso ser discreto e ter paciência e não dizer tudo a ele de uma só vez. Sigmund Freud vai compreender e até vai me olhar com aquele olhar de compreensão. Ficarei calado. Depois direi tudo a ele e então tomará as providências necessárias. Sim, há providências necessárias a tomar - é importante. Por enquanto eu fico calado. Quero pegá-los desprevenidos. A surpresa é que é o essencial. Depois, bem, depois serei complacente porque não sou ruim. Eles me olharão e agradecerão a minha benevolência.

(...) Hoje notei maior movimento na porta do quarto. Será que Sigmund Freud chegou e eles escondem isso de mim? É bem capaz. Bando de canalhas! Bois! Animais! Abram a porta, abram a porta, miseráveis! Sigmund Freud veio para me ver - ouviram - PARA ME VER! - o que é isso? Que gritaria é essa? Não se façam de desentendidos, eu sei muito bem que Sigmund Freud chegou. Os passos se arrastam depressa e depressa todos se agrupam. As vozes de timbre cada vez mais forte emitem ecos. Eles se mexem, se agitam, correm pelos corredores, descem e sobem escadas e eu não entendo nada. Dou um murro na porta com o punho fechado: - SIGMUND FREUD, como está VIENA, o senhor VALSEIA? Olha, a valsa não é privilégio nosso, o senhor há de desculpar, mas a nossa cultura está em déficit. Sabe? O lugar-comum está tomando conta de tudo rapidamente. Desculpe a falta da VALSA. Aliás, o senhor veio foi para me ver, conversar comigo, me aconselhar como um amigo, não foi? Pois, olha: estou à sua espera há tanto tempo que perdi a conta ou esqueci de contar - esses lapsos são comuns em mim, mas não irão impressionar ao senhor, eu sei. Por isso é bom a gente ter um amigo: um amigo assim igual ao senhor substitui qualquer mulher. Mas por que esse barulho, essa agitação febril, esse telefone que sempre tilinta, esses ruídos surdos, disfarçados, esse barulho de ferros caindo num balde? Sigmund, está ouvindo? SIGMUND! Patife! Está me ouvindo ou está com eles? Eles não vão deixar o senhor falar, não vão - entende? Vem aqui que eu explico tudo; eu tenho tanta coisa para explicar: é preciso também que me expliquem muita coisa. Não sei por que quando vem gente aqui, dizem que eu fico na ala lateral; desde ontem que não vejo o sol porque joguei o prato de comida na cara da mulher. Sabe, Sigmund, aqui faz muito frio, é igual a VIENA.


-- Em "O Olho Insano", 1975.


8.5.03

A Academia Brasileira de Lóides


A Gugu-dadá anda sempre de mãos dadas com o Tatibitati, e os dois quando se unem, geram o Blablablá. Os dois acham que são artistas, "literatos". A Gugu-dadá escreve porque se recusa a aceitar que tem talento para as prendas domésticas e, no seu mundo cor-de-rosa, mistura sabão em pó com idéias, que viram bolhas que a gente esquece. O Tatibitati é incapaz de ver, por trás de seu rabo de pavão, que uma enxada lhe caberia melhor nas mãos do que um teclado. Todos acreditam naquela conversa de inteligência emocional. Se eles não escrevessem, sem dúvida o QI da humanidade seria poupado, mas aí o direito de livre expressão não estaria sendo exercido. É onde entra o Blablablá.

-- polêmica colaboração de um leitor anônimo deste blog.

Robert Bringhurst


Ensaio sobre Adão

Há cinco possibilidades. Primeira: Adão caiu.
Segunda: foi empurrado. Terceira: saltou. Quarta:
ao debruçar-se sobre o parapeito perdeu o equilíbrio. Quinta:
nada digno de nota aconteceu a Adão.

A primeira, de que caiu, é primária demais. A quarta,
medo, foi examinada e revelou-se inútil. A quinta,
de que nada aconteceu, não interessa. A solução é a alternativa:
saltou ou foi empurrado. E a diferença está apenas

na questão de saber se o demônio
age de dentro para fora ou de fora para
dentro: aí está
o verdadeiro problema teológico.


-- (tradução: João Cabral de Melo Neto.)

7.5.03

José Régio


O POETA DOIDO, O VITRAL E A SANTA MORTA


Era uma vez um Poeta
Que vivia num Castelo,
Num Castelo abandonado,
Povoado só de medos...

-- Um Castelo com portões que nunca abriam,
E outros que abriam sem ninguém os ir abrir,
E onde os ventos dominavam,
E donde os corvos saíam,
Para almoços
Que faziam
De mendigos que caíam lá nos fossos...

Havia no Castelo, ao fim dum corredor,
(Um corredor grande, grande,
Frio, frio,
Com abóbadas sonoras como poços)
Um vitral.

Era um vitral singular...

E é bem verdade que ninguém sabia
O que ele ali fazia,
Ao fim daquele corredor,
Naquela parede ao fundo,
Aquele vitral baço e quase já sem cor.

Nem o Poeta o sabia...

Nem o Poeta o sabia,
Muito embora noite e dia
Meditasse
No vitral quase sem cor
Que estava pr'ali na sombra
Do fundo do corredor
-- Com ar de quem aguardasse...

Quando, a meio da noite, o Poeta acordava,
Levantava-se, e, até dia, delirava.

Era a hora do Medo...

E passeava, delirando, pelos longos corredores,
Descia as escadarias,
Corria as salas.

Sob os seus pés, as sombras deslizavam.
Pelos recantos, os fantasmas encolhiam-se.
E, devagar, bem devagar, no escuro,
Portões abriam-se, e fechavam-se, e giravam sem rumor.

O Poeta só parava
Diante do tal vitral,
Ao fim do tal corredor...

E sonhava.

Sonhava que, para lá
Daqueles doirados velhos,
Daqueles roxos mordidos,
Que morriam
Sobre o fundo espesso e negro,
Havia...

Mas que haveria?

Qualquer coisa bem ao perto
Que o chamava de tão longe...!

E, mudo, ali ficava até ser dia,
Enquanto os ventos, lá fora,
Fingiam mortos a rir...
Enquanto as sombras passavam...
Enquanto os portões rodavam,
Sem ninguém os ir abrir!

Mas, um dia,
-- Eis, ao menos, o que dizem --
O Poeta endoideceu.

E, fosse Deus que o chamasse
Ou o Diabo que lhe deu,
(Não sei...)

Sei que uma noite, a horas desconformes,
O Doido alevantou-se nu e lívido,
Com os cabelos soltos e revoltos,
A boca imóvel como as das estátuas,
Os olhos fixos, sonâmbulos, enormes...

Pegou do archote,
Desceu, escada a escada, a muda escadaria,
Seguiu pelo corredor.

Em derredor,
As sombras doidas esvoaçavam contra os muros.
Lá muito longe, o vento era um gemido que morria...

Ao fim do tal corredor,
Havia
O tal vitral.

E, de golpe,
Como dum vôo em linha recta,
O Poeta-Doido ergueu-se contra ele,
Direito como uma seta...

A cabeça ficou dentro...
O corpo ficou de fora...
E os verdes, os lilases, os vermelhos da vidraça
Laivaram-se de sangue que manava,
E que fazia,
Nas lájeas do corredor,
Um rio que não secava...

Mas, no instante em que morria,
Abrindo os olhos
-- Olhos de tentação divina e demoníaca --
O Poeta pôde ver.

... E viu:

Viu que, por trás do vitral baço, havia
Um nicho feito no muro.
Dentro, iluminando o escuro,
De pé sobre tesoiros e tesoiros,
Estava
Certo cadáver duma Santa
Que fora embalsamada há muitos séculos...

E a Santa, que o esperava,
Despertou,
E, sorrindo-se e curvando-se, beijou
A cabeça degolada.

-

6.5.03

A busca da fecalidade - Antonin Artaud


Onde cheira a merda
cheira a ser.
O homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.

Pois para não fazer cocô
teria que consentir em
não ser,
mas ele não foi capaz de se dedicar a perder o ser,
ou seja, a morrer vivo.

Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente

O COCÔ

Para existir basta abandonar-se ao ser
mas para viver
é preciso ser alguém
e para ser alguém
é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.

O homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.
Como só havia terra e madeira de ossos
ele viu-se obrigado a ganhar sua carne,
só havia ferro e fogo
e nenhuma merda
e o homem teve medo de perder a merda
ou antes desejou a merda
e para ela sacrificou o sangue.

Para ter merda,
ou seja, carne
onde só havia sangue
e um terreno baldio de ossos
onde não havia mais nada para ganhar
mas apenas algo para perder, a vida.


-- Antonin Artaud, 1948.

5.5.03

Waly: quando na rua alguém fala comigo "Oi, gente boa", penso que é pra alguém que passa ao meu lado queu passo absorto -- duas metades a sonhar.

Waly


Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto.

WALY SALOMÃO


na Rua Real Grandeza


ah, vale a pena ser poeta
escutar você torcer de volta
a chave na fechadura da porta
abra volte veja
sou um cara sem saída
mas não se iluda
com esta minha vida
toda vez que avisto
sua figura leviana
no pórtico do quarto
penso em dar um corte
em quem me embroma
sou forte
abra volte
veja se me entende e me ama
desde o berço
conservo o mesmo endereço
moro na Rua Real Grandeza
abra
abra a porta
volte veja
você não me engana
sozinho sem amor sem carinho
não digo com certeza
mas posso me arruinar
veja
jatos de sangue...
espetáculos de beleza
ah, vale a pena ser poeta
escutar você torcer de volta
a chave na fechadura da porta.

Thomas Bernhard


Por algum tempo andamos com pessoas numa direção, depois acordamos e voltamo-lhes as costas. Eu lhes voltei as costas, pensei. Nós nos prendemos a elas e de repente tomamos horror delas, e as soltamos. Corremos anos a fio atrás delas, e mendigamos sua simpatia, pensei, e de repente temos sua simpatia e não queremos mais sua simpatia. Fugimos delas, elas nos alcançam e nos apertam contra si, e nós nos submetemos a elas, a cada um de seus ditames, pensei, e nos entregamos a elas, até que morremos ou fugimos. Fugimos delas e elas nos apanham e nos esmagam. Corremos atrás delas, nós lhes imploramos que nos aceitem, e elas nos aceitam e nos matam. Ou desde o começo saímos do seu caminho e conseguimos sair do seu caminho a vida inteira, pensei. Ou caímos na sua armadilha, e sufocamos. Ou escapamos delas e as rebaixamos, caluniamos, espalhamos mentiras sobre elas, pensei, para nos salvarmos, difamamos essas pessoas onde podemos para nos salvarmos delas, fugimos delas para salvarmos nossa vida e as acusamos por toda parte, elas são culpadas por nós. Ou elas nos escapam e nos difamam e nos acusam, espalham toda a sorte de mentiras a nosso respeito para se salvarem, pensei. Acreditamos estar mortos e nos encontramos com elas e elas nos salvam, mas não lhes ficamos gratos por isso, por nos terem salvo, ao contrário, nós as amaldiçoamos, nós as odiamos por isso, nós as perseguimos a vida toda com nosso ódio por nos terem salvo. Ou nos aproximamos delas e elas nos rejeitam, e nos salvamos e vingamos e as difamamos, nós as rebaixamos por toda parte, perseguimo-las com nosso ódio até a sepultura. Ou elas nos ajudam a nos levantarmos no momento decisivo, e nós as odiamos porque nos ajudaram, como elas nos odeiam porque as ajudamos, pensei sentado na bergère.

-- Em "Árvores Abatidas".

3.5.03

6:14 Por que não fechei as janelas ontem? Devo ter desmaiado de sono. O frio desceu as paredes, umedecendo o relógio digital sobre o criado-mudo. Metade do lençol escorregou para o chão, a outra parte cobre o meu corpo empapado de um líquido viscoso gelado. Não consigo me mexer, minha cabeça dói e este cheiro adocicado invadindo o quarto.

10:58 Acordo com dificuldade e me apresso para o chuveiro. Imagino um dia cheio à minha espera. O celular sobre a pia também espera que eu o atenda se tocar.

11:30 Não tocou. Eu é que o confundi com o bipe do microondas. Se fossem parecidos.

12:15 Teclo o controle remoto da TV sem parar. Dentro da geladeira os tomates mofaram. Uma folha de alface murcha. Duas latas abertas de cerveja, sete ovos e um queijo ressecado. Água. Água. Água.

13:30 Agora o celular toca. Não, não conheço nenhuma Dona Concheta.

14:00 Recarrego a bateria do celular e bato duas carreiras meladas.

14:45 O porteiro eletrônico soa na cozinha. Estou esperando alguém?

15:11 Avisto na estante "O futuro dura muito tempo". Vejamos o que me diz a página 110.

15:37 Corto as unhas dos pés. O ponteiro dos segundos bate dentro do relógio de pulso.

17:02 Assisto a "Limite" pela terceira vez nesta semana. A garrafa de Black&White que achei na despensa acaba 12 minutos antes do filme.

20:13 Tiro a poeira dos livros. Primeiro os dicionários. Por último biografias. Dou um polimento numa edição rara de "O retrato de Dorian Gray". No fundo de uma gaveta fotos da época da faculdade. Meus amigos cheiram a sachê. Éramos tão magrinhos. Comprimidos de Lexotan misturam-se com bolinhas de naftalina. Há quanto tempo não ouço os canhões de Copacabana?

21:15 Uma calculadora arriada. Postais. Uma página de Scott Fitzgerald. Mapas da cidade. Agendas velhas. Facas Olfa enferrujadas. O que isso está fazendo aqui?

21:29 Coloco a automática sobre o criado-mudo. Esqueci que era tão pesada. Por que começo a tremer logo agora? Tiro-a lentamente de dentro do saco de pano e a manuseio com cuidado. Esqueci que era tão bonita.

21:45 Destravo o pino de segurança e levo o cano à cabeça. Posição de disparo. O dedo fora do gatilho. A boca do cano tem o diâmetro de minhas órbitas. Faz calor aqui. Deslizo o cano pelo meu rosto, pescoço, peito, barriga, coxas. Meu pulso lateja com a pressão da arma. O celular toca. Um mosquito pousa em minha perna. Coloco a S&W sobre a cama e o mosquito se assusta. Sinto sono e me deito ao lado da arma. Antes de adormecer puxo o gatilho.


1.5.03

Patativa do Assaré


Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.


No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.


Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.


Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.


Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.


Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.


Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.


Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.


Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.


Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

-

30.4.03




minha disposição poética???

AMAR a página enquanto
CARNE numa espécie per-
versa de FODA



-- Texto de Waly Salomão.

28.4.03

Herberto Helder


Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.


-- "Em silêncio descobri essa cidade no mapa".





27.4.03

Zé Limeira


Um sujeito chegou no cais do porto
E pediu emprego de alfaiate
Misturou cinturão com abacate
E depois descobriu que estava morto
Ligou seu rádio no focinho de um porco
E afogou-se num chá de erva cidreira
Requereu um diploma de parteira
E tocou numa ópera de sinos...
Eram mãos de dezoito mil meninos
E não sei quantos pés de bananeira

Eu já cantei no Recife
Na porta do Pronto Socorro
Ganhei duzentos mil réis
Comprei duzentos cachorro
Morri no ano passado
Mas este ano eu não morro

O meu nome é Zé Limeira
Cantor que não é pilhérico
Mas já sofreu de alguns males
Foi atacado de histérico
Chame logo a junta médica
Faça o exame cadavérico

Pedro Álvares Cabral
Inventor do telefone
Começou tocar trombone
Na volta do Zé Leal
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumentos
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento!

-



26.4.03

A mãe que ama é a mesma que odeia foi um dos últimos ziguezagues psicológicos que meus terapeutas inventaram para me confundir, o que eles vêm fazendo com freqüência cada vez maior. Eles pensam que eu não sei que querem mais é que eu coma sabonetes para poderem mudar o meu diagnóstico a cada dia. Apesar de ser uma grande pintora, eles dizem que eu sou uma paciente que vive assaltada pela idéia delirante de ser uma grande pintora. Nestas horas perco a cabeça, mastigo bisnagas de tinta e quebro o nariz de pelo menos três auxiliares da clínica. Depois me aplicam uns eletrochoques e não sei quantos choques insulínicos. Fico com raiva de mim por ter dado tantas informações a meu respeito. Eles acham que sou uma paciente crônica e registram na minha ficha algo parecido com destruição progressiva do afeto, pensamento e memória. Pois sim, isso é o que eles pensam. Também pensam que eu não vejo os risinhos de chacota de enfermeiros e médicos ao verem que eu não largo minhas telas e até durmo abraçada com elas. Eu sei que no fundo vão dizer lá entre eles que eu estou preenchendo o vazio de minha frustração ou qualquer bobagem parecida com isso e eu quero mais é que eles se fodam porque já pedi mil vezes pincéis mas ninguém me ouve. Todos aqui dentro estão loucos para ouvir de mim que eu vejo almas mas eu não vou lhes dar este prazer. Pouco me importa que saibam que eu só vejo pincéis. Eu só vejo pincéis. E por trás deles telas, cores e planos. Dentro destes mais pincéis. Outros. De outras telas, cores e planos. Eles supõem que eu penso na morte mas o pensamento da morte não me serve de nada. Eu não vejo e não penso em nada, eu só escuto o que quero. E como eles ficam nervosos com isso. Semideuses de ambulatório barato, quem é louco aqui? Hoje é dia de acompanhamento familiar. Minha mãe entra com uma sacolinha e se senta à minha direita. Meu pai, você viu? O terapeuta diz que enquanto eu não for capaz de ser pai e mãe de mim mesma eu não terei alta. Minha mãe boceja e me passa a sacola discretamente. Abaixo os olhos e parece que ouço o caso é grave quando do embrulho salta à minha frente o mais belo jogo de pincéis que já vi na vida.

-
A uma velha pobre


mascando ameixas pela
rua um saco de papel
cheio delas na mão

Elas lhe parecem saborosas
Elas lhe parecem
saborosas. Elas
lhe parecem saborosas

A gente pode ver isso
pelo jeito dela
se concentrar na fruta
meio chupada

Satisfeita
um gosto de ameixas maduras
como que enchendo o ar
Elas lhe parecem saborosas


-- William Carlos Williams

25.4.03

Quadras populares nordestinas


Duas coisa m'inquizila
Desde os tempo de rapais
Carça cum bôrso nos fundo
Palitó lascado atrais.

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Vancê disse que eu sou feio,
Eu não sou tão feio assim,
Foi despois que vancê veio,
Que pegou seu feio em mim.

-

24.4.03

Marguerite Duras


A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha. Há vastos espaços onde se diria haver alguém, mas não é verdade não havia ninguém. A história de uma pequena parte da minha juventude, já a escrevi mais ou menos, quero dizer, já contei alguma coisa sobre ela, falo aqui daquela mesma parte, a parte da travessia do rio. O que faço agora é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos secretos dessa mesma juventude, das coisas que ocultei sobre certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos. Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor. Escrever, para eles, era ainda moral. Hoje, muitas vezes escrever pode parecer não significar nada. Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, a confusão de todas as coisas numa única por essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconder, se fazer, ser lida, que sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso.


-- Em "O Amante".

23.4.03

De teu corpo
vou cuidar e amá-lo
como um soldado, decepado de guerra,
inútil, de ninguém,
cuida de sua única perna


-- Maiakovski, em "A nuvem de calças".

Nosso trabalho vocabular


Os antigos dividiam a literatura em poesia e prosa.
Uma e outra tinham seus cânones lingüísticos.
A poesia -- seus metros açucarados (jambos e troqueus ou o vinagrete do "verso livre"), um vocabulário "poético" peculiar (corcel e não cavalo, infante e não moleque, e demais "flores-amores", "rosas-formosas") e seus temazinhos "poéticos" (antes: noite, amor; hoje: chamas, ferreiros).
A prosa -- heróis peculiarmente postiços (ele + ela + o amante -- romancistas psicológicos; o intelectual + a jovem + o guarda-civil -- romancistas de costumes; alguém de cinza + a dama desconhecida + Cristo -- simbolistas) e seu estilo literário-artístico peculiar (1. "o sol se punha atrás do morro" + amaram ou mataram = "os choupos farfalham lá fora"; 2. "vou dizer isto a você, Vaniazinho" + "o juiz da vara dos órfãos tomava da branquinha" = ainda veremos o céu coberto de diamantes; 3. "como é estranho, Adelaida Ivanovna" + ampliava-se o mistério assustador = coroado de rosas brancas).

A poesia e a prosa dos antigos estavam igualmente afastadas da fala prática, do jargão das ruas, da linguagem exata da ciência.
Nós dissipamos a velha poeira vocabular, aproveitando apenas a tralha de ferro das velharias.
Não queremos saber de nenhuma diferença entre a poesia, a prosa e a linguagem prática.
Nós conhecemos um único material da palavra e aplicamos a ele a elaboração de hoje em dia.
Trabalhamos com a organização dos sons da língua, a polifonia do ritmo, a simplificação das construções vocabulares, a precisão da expressividade linguística, a elaboração de novos processos temáticos.
Todo este trabalho não é para nós um fim em si mesmo estético, mas um laboratório para a melhor expressão dos fatos da atualidade.

-- Maiakovski,  1923.

22.4.03

Utopia


A festa estava animada, e já havíamos esquecido o seu pretexto. Cloé, a quem há pouco eu havia sugerido, baixando viva e indicativamente os olhos, que pusesse a mão em meu pinto, está sentada ao meu lado, zangada ainda. Mas penso que refletiu na minha proposta. Fala-se de um concerto de violoncelo que dentro em breve ela dará no Seminário B. Bartok. Sento no chão e viro-lhe as costas. Enquanto aprecio as dificuldades da situação, sigo atentamente a conversa de uns rapazes, que discutem o preço da soja. Sem mais demora escorrego a mão para dentro das saias dela, e com o dedo médio lhe procuro os pequenos lábios. Cloé, que estava parada, escutando, ficou mais parada ainda, como se fosse de pau. Mas lentamente deixou-se ficar, e começou um balanço ligeiro, como quem considera o que os outros têm a dizer. Breve o meu dedo estava quente e umedecido, e se o tirasse, estaria luzidio. Senti uma grande ternura por Cloé, e tive a certeza de ser correspondido. Neste momento, silenciosa, surpreendente como um tiro de pistola, aparecia Aurora no umbral da porta. Ela tem o segredo destas entradas quietas e vistosas, razão pela qual não a esquecerei jamais. Fiz-lhe um sinal de silêncio e com os olhos indiquei o que se passava. Ela levou a mão à boca, inclinou o corpo para trás e arregalou os seus olhos ridentes. Em seguida atravessou a sala, balançando o corpo de modo muito intencional. Estava tendo idéias. Cloé vira-se para mim e pergunta com amável petulância: "Você permite?" Pega-me pelo pulso e, afastando a minha mão, sai para passear pelo jardim. Levantei-me e cruzei com Aurora no centro da sala. "Eu quero alguma coisa no gênero", me disse ela, com um reproche no olhar. Respondi-lhe que não, que estava excitado, e que não era o dedo que eu queria lhe dar. Ela me olha com desprezo, dizendo que neste caso não interessava. É raro que duas pessoas se entendam.

-- Roberto Schwarz, 1972.

21.4.03

Tribulação de um pai de família


Dizem alguns que a palavra odradek provém do eslavo, e procuram determinar a formação da palavra com base nesta afirmação. Já outros acreditam que ela provenha do alemão, do eslavo tendo apenas a influência. A incerteza das duas interpretações autoriza entretanto a supor que nenhuma delas acerta, mormente porque nenhuma nos leva a encontrar um sentido para a palavra.
Como é natural, ninguém se ocuparia de tais estudos se não existisse realmente um ser chamado odradek. À primeira vista, parece um carretel de linha, achatado e estreliforme, e aparenta, de fato, estar enrolado em fio; é bem verdade que os fios não serão mais do que fiapos, restos remendados ou simplesmente embaraçados de fio gasto, da mais diversa cor e espécie. Mas não se trata apenas de um carretel, pois no centro da estrela nasce uma vareta transversal, de cuja extremidade sai mais outra, em ângulo reto. Com auxílio desta segunda vareta por um lado, e de uma das pontas da estrela por outro, o todo se põe de pé, como sobre duas pernas.
Seria o caso de se acreditar que este objeto outrora tenha tido alguma finalidade, e que agora esteja apenas quebrado. Mas ao que parece, não é o que se dá; ao menos não há sinal disso; não se vê marca alguma de inserção ou de ruptura que indicasse uma coisa destas; embora sem sentido, o todo parece completo à sua maneira. Aliás, não há como dizer coisa mais exata a respeito, pois Odradek é extraordinariamente móvel e impossível de ser pego.
Ele vive alternadamente no sótão, na escadaria, nos corredores, no vestíbulo. Às vezes desaparece por semanas inteiras; provavelmente se muda para outras casas, mas é certo que acaba voltando à nossa. Cruzando a soleira, se ele está encostado ao corrimão, lá embaixo, às vezes dá vontade de lhe falar. Não se fazem naturalmente perguntas difíceis, ele é tratado -- já o seu tamaninho nos induz -- como uma criança. Pergunta-se "qual é o teu nome?" Ele responde, "Odradek". "E onde você mora?" Ele responde, "residência indeterminada", e ri. Mas é uma risada como só sem pulmões se produz. Soa, quem sabe, como o cochicho de folhas caídas. De hábito este é o fim da conversa. Mesmo essas respostas, aliás, não é sempre que se obtém; em geral ele fica mudo por um longo tempo, como a madeira que aparenta ser.
Inutilmente eu me pergunto, o que será dele? É possível que ele morra? Tudo o que morre teve, anteriormente, uma espécie de finalidade, uma espécie de atividade, na qual se desgastou. Não é o que se passa com Odradek. Será então que no futuro, quem sabe se diante dos pés dos meus filhos, e filhos dos meus filhos, ele ainda rolará pelas escadas, arrastando os seus fiapos? Evidentemente ele não faz mal a ninguém, mas a idéia de que, além de tudo, ele me sobreviva, para mim é quase dolorosa.

-- Kafka

20.4.03

Quando repasso atentamente minha infância, me dou conta de que minha memória das palavras começa muito antes da minha memória da carne. Na pessoa comum, imagino, o corpo vem antes da linguagem. No meu caso, antes vieram palavras. Depois -- pé ante pé, com toda a aparência de extrema relutância e já vestida de conceitos -- veio a carne. Já estava, nem é preciso dizer, estragada pelas palavras.
Primeiro vem o pilar de madeira pura, depois os cupins que o comem. No meu caso, os cupins já estavam lá desde o começo, e o pilar de madeira pura só emergiu mais tarde, já meio carcomido.
O leitor que não me censure por comparar minha atividade com a do cupim. Em sua essência, qualquer arte que se baseie em palavras faz uso do poder que elas têm de carcomer -- sua função corrosiva -- assim como gravar em metal depende do poder corrosivo do ácido nítrico. Mas o paralelo ainda não está exato o bastante: o cobre e o ácido nítrico usados na gravação estão de acordo entre si, os dois oriundos da natureza.
A relação entre as palavras e a realidade não é a mesma que existe entre o ácido e a placa de metal. Palavras são um recurso que reduz a realidade a uma abstração que nossa razão possa aceitar, e em seu poder de corroer a realidade inevitavelmente insinua-se o perigo de que as próprias palavras também sejam corroídas. Melhor, na verdade, comparar sua ação com o excesso de sucos estomacais que digerem e, pouco a pouco, acabam por carcomer o próprio estômago.
Muitos expressarão sua descrença em que tal processo pudesse já estar em ação nos verdes anos primeiros anos de uma pessoa. Mas foi isso, sem sombra de dúvida, que me aconteceu, lançando as bases para duas tendências contraditórias que batalham dentro de mim. Uma, a gana de levar em frente, com lealdade, a função corrosiva das palavras, e disso fazer a obra da minha vida. A outra, o desejo de me encontrar com a realidade em algum ponto onde as palavras não tivessem nenhum papel a desempenhar.


-- Yukio Mishima, em "Sol e Aço".

19.4.03

Serafim saiu só pela noite de Jerusalém. Era a rua principal em descida. Penetrou nas luzes do Café Bristol. A sala abafada coloria-se de papel no jazz idiota. Um pianista saracoteava nulamente entre garçons e cadeiras vazias. Havia sírios gordos, homens vagos do Sul, caixeiros, viajantes bêbados e duas alemãzinhas globe-trotters. Um ar de inocência iluminava aquela blasfêmia que um cachorro enorme vigiava. No interior do bar um rei mago tingia um cocktail.
Nosso herói saiu pelo vento. Em cima fazia uma lua paulista. Passou os armazéns, o Hotel Allemby, um café turco. De repente a noite crenelada dos cruzados gritou quem vens lá! A Torre Antônia velava sobre a lama dos quarteirões. Havia sombras de guardas ao lado dos degraus de um portão. Serafim aproximou-se. Eram dois soldados curdos. Perguntou-lhes pelo Santo Sepulcro.
-- Não há nenhum Santo Sepulcro...
-- Como?
-- Nunca houve.
-- E Cristo?
-- Quem?
O outro esclareceu:
-- Cristo nasceu na Bahia.


-- Oswald de Andrade, em "Serafim Ponte Grande".

18.4.03

Por que gosto de pecar


Hoje vou comer da carne
Vou beber do vinho
Ao que pouco se perdoa
Pouco ama

16.4.03

Por que você não me quer? O que há de tão desinteressante em mim para que você me esqueça? Por favor assinale as alternativas corretas abaixo e devolva-me. Porque eu babo, eu interpreto vírgulas, gosto de visitar o Talavera Bruce e fujo de feriadão na Região dos Lagos, me deixo embalar pelo marasmo, dou sugestão de epitáfios em chás de bebês, costumo medir o espaço entre o teto e o alto da minha cabeça, a minha capacidade de tolerar incertezas é maior do que a sua, os meus sinais de dependência são mais claros do que os seus, finjo que não te conheço no elevador, na melhor das hipóteses fico na dúvida, deixo resto no prato, sei reconhecer os benefícios da urinoterapia, papo hóstias, confundo hipertexto com subtexto, aprecio os versinhos de Ho Chi Minh e os haicais de Yoko Ono, não quero ver Carandiru hoje à noite nem amanhã nem depois, acho que segundo o índice Big Mac você ganha pouco, desconfio que a Miss Idaho Potato foi assassinada, coloco gelo na cerveja quente, acredito piamente que a Lua é uma cabeça que subiu aos céus, você não consegue se entrosar com meus amigos mirmecólogos, faço dietas para não parar de comer, sou canhota em público, sou hipocondríaca com a saúde dos outros, sou de estatura mediana, meio magra meio gorda, meio por dentro meio por fora, sou exatamente o que sou, não sou diferente de ninguém, sou diferente de todo mundo. Tecle Reply.

15.4.03

Eu tenho um fraquinho por ti
tu não me dás atenção
tu não me passas cartão
quando me ponho a teu lado
tremo nervoso de agrado
e meto os pés pelas mãos
tu vais gozando um bocado
a beber vinho tostão
eu com o discurso engasgado
fico a um canto, que arrelia
de toda a cervejaria
onde vais rasgar a noite
se te olho com ternura
olhas-me do alto da burra
que mais parece um açoite
é um susto um arrepio
que me malha em ferro frio.

Eu tenho um fraquinho por ti
que me vai de lés a lés
tu dás-me sempre com os pés
quando me atiro enamorado
num estilo desajeitado
disfarço em bagaço e café
tu fumas o teu cruzado
e fazes troça, pois é,
já tenho o caldo entornado
esqueces-me da noite p´ro dia
em alegre companhia
de batidas e rodadas
tu ficas nas sete quintas
marimbas, estás-te nas tintas
p´ra que eu ande às três pancadas
basta um toque sedutor
eu cá sou um pinga-amor.

Eu tenho um fraquinho por ti
que me abrasa o coração
quase me arrasa a razão
a tua risada rasteira
põe-me de rastos, à beira
do enfarte da congestão
encharco-me em chá de cidreira
mofas de mim atiras-te ao chão
zombando à tua maneira
lá fazes a despedida
ao grupo que vai de saída
dos amigos da Trindade
mas no fim da noite, à noitinha,
tu ficas triste e sozinha
à procura de amizade
e como é costume teu
chamas o parvo que sou eu.

Afino uma voz de tenor
ensaio um ar duro de macho
quando estás na mó de baixo
quero ver-te arrependida
mas numa manobra atrevida
rufia, muito mansinha,
dás-me um beijo e uma turrinha
que me põe num molho num cacho
estremeço com pele de galinha
e gosto de ti trapaceira
da tua piada certeira
do teu aparte final
do teu jeito irreverente
do teu aspecto contente
do teu modo bestial
noutra palavra mais quente
eu tenho um fraquinho por ti.


-- Fausto Bordalo Dias, "Tenho um fraquinho por ti".