SONETO
primeira estrofe primeiro verso
primeira estrofe segundo verso
primeira estrofe terceiro verso
primeira estrofe quarto verso
segunda estrofe primeiro verso
segunda estrofe segundo verso
segunda estrofe terceiro verso
segunda estrofe quarto verso
terceira estrofe primeiro verso
terceira estrofe segundo verso
terceira estrofe terceiro verso
quarta estrofe primeiro verso
quarta estrofe segundo verso
quarta estrofe terceiro verso
-- Gerhard Rühm, trad. MP.
30.3.03
29.3.03
ROLOS COMPRESSORES
-- Níkos Eggonópoulos
Meu coração é um sólido objeto de borracha. Dentro tem dois pregos de vidro dolorosos e indignos. Pego esse objeto e, enquanto ele resiste com unhas e dentes, consigo escondê-lo com grande dificuldade na gaveta onde guardo ocultamente palavras e histórias do país das bicicletas. Não temo nem a virgem portadora do falo nem o homem de olhos peludos que sobe e desce a escada em trevas. Conheço desde criança o espelho das flores. Canto a glória dos rolos compressores, recito o salmo das garrafas enquanto a minha coruja de papel diz dentro dela -- com o seu funil -- precisamente a palavra "estrangeira".
"... Tenho me dedicado, o que não deixará de surpreendê-lo, à especulação -- em parte com fundos americanos, mas sobretudo com ações inglesas, que este ano parecem cogumelos, de tanto que se multiplicam (mais do que qualquer sociedade por ações, verdadeira ou imaginária), subindo a patamares inteiramente despropositados para em seguida, na sua maioria, entrar em colapso. Com isto, já ganhei mais de 400 libras e, agora que a complexidade da situação política está ampliando as oportunidades, vou começar tudo de novo. É um tipo de operação que demanda pouco tempo. Vale a pena correr um certo risco para tomar o dinheiro do inimigo."
-- Karl Marx (correspondência particular, anos 1860), na biografia de Francis Wheen, Marx.
-- Karl Marx (correspondência particular, anos 1860), na biografia de Francis Wheen, Marx.
28.3.03
A CÓPULA
Depois de lhe beijar meticulosamente
O cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
O moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
Culhões e membro, um membro enorme e turgescente.
Ela toma-o na boca e morde-o, incontinenti
Não pode ele conter-se e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alterou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente
Que vai morrer: "Eu morro! ai não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz, que aceso como um Diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra.
E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
Lhe enfia cono a dentro o mangalho até o cabo.
-- Manuel Bandeira, 1962. Este surpreendente soneto de Bandeira, com nítida influência de Bocage, faz parte da coleção de Obras Raras da Biblioteca da Universidade de Brasília. Foi publicado pela primeira vez na revista Bric a Brac, Brasília, 1986.
Depois de lhe beijar meticulosamente
O cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
O moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
Culhões e membro, um membro enorme e turgescente.
Ela toma-o na boca e morde-o, incontinenti
Não pode ele conter-se e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alterou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente
Que vai morrer: "Eu morro! ai não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz, que aceso como um Diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra.
E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
Lhe enfia cono a dentro o mangalho até o cabo.
-- Manuel Bandeira, 1962. Este surpreendente soneto de Bandeira, com nítida influência de Bocage, faz parte da coleção de Obras Raras da Biblioteca da Universidade de Brasília. Foi publicado pela primeira vez na revista Bric a Brac, Brasília, 1986.
27.3.03
26.3.03
Kaváfis
As janelas
Nestes quartos sombrios, os dias de estupor
que eu passo, a procurar em vão janelas por
toda parte. Que alívio não seria
uma janela aberta à minha frente.
Mas não as há, ou não posso achá-las. Seja como for,
melhor talvez não ter janelas ao dispor.
Talvez a luz trouxesse dores mais pungentes.
Quem sabe as novas coisas que não mostraria.
-
Acordei cedo para dar uma caminhada sozinha. O jardim está vazio e os passarinhos dividem comigo os contornos das calçadas. Eu devia estar contente pois venho emagrecendo espontaneamente sem precisar de dietas rígidas ou exercícios. Com o passar dos dias consigo ver meu corpo por inteiro refletido em superfícies cada vez menores: monitores de TV, copos de água, lentes de óculos e nas poças de chuva sob o banco no qual me sento para descansar.
Antes eu dividia este banco com meus amigos, mas agora o telefone já não toca mais como antigamente. O que ouço são portas que se abrem e fecham com cuidado, vozes abafadas e passos de pessoas indo e vindo pelos cômodos da casa.
Meu cabelo começou a cair, fio por fio, até restarem dois que eu tive de arrancar para não atrapalhar a peruca.
A peruca faz sombra no papel da carta que estou lhe escrevendo. Mas não me importo porque sei de cor o que devo dizer. Hoje tenho 25 quilos, nenhum cabelo e é domingo. Aguardo ansiosamente a sua visita.
Antes eu dividia este banco com meus amigos, mas agora o telefone já não toca mais como antigamente. O que ouço são portas que se abrem e fecham com cuidado, vozes abafadas e passos de pessoas indo e vindo pelos cômodos da casa.
Meu cabelo começou a cair, fio por fio, até restarem dois que eu tive de arrancar para não atrapalhar a peruca.
A peruca faz sombra no papel da carta que estou lhe escrevendo. Mas não me importo porque sei de cor o que devo dizer. Hoje tenho 25 quilos, nenhum cabelo e é domingo. Aguardo ansiosamente a sua visita.
25.3.03
Manifesto "Contra a Poesia"
Por que razão não gosto eu da poesia pura? Pelas mesmíssimas razões que me levam a não gostar de açúcar "puro". O açúcar é coisa deliciosa quando se o toma no café, mas ninguém se poria a comer uma pratada de açúcar -- seria demais. E em poesia o excesso cansa -- excesso de poesia, excesso de palavras poéticas, excesso de metáforas, excesso de nobreza, excesso de depuração e de condensação, excessos esses que assimilam o verso a um produto químico.
Como chegamos nós a isto? Quando um homem se exprime com naturalidade, quer dizer, em prosa, a sua linguagem abarca uma gama infinita de elementos que refletem por inteiro a sua natureza; mas há os poetas que procuram eliminar gradualmente da linguagem humana todo o elemento apoético, que querem cantar em vez de falar, que se convertem em bardos e em prestidigitadores, tudo sacrificando em prol do canto.
Quando um tal trabalho de depuração e de eliminação se mantém durante séculos, a síntese a que chega é tão perfeita que só restam algumas notas, e a monotonia forçosamente invade o domínio do melhor dos poetas. O seu estilo desumaniza-se, a sua referência deixa de ser a sensibilidade do homem comum, passando a ser a de um outro poeta, uma sensibilidade "profissional" -- e, entre profissionais, cria-se então uma linguagem tão inacessível como certos dialetos técnicos; e sobem uns para as costas dos outros, constroem uma pirâmede cujo cume se perde nos céus, enquanto nós, algo desconcertados, ficamos a seus pés. Mas o mais interessante é que todos eles se tornam escravos do seu instrumento, pois é tão rígido este gênero, é tão determinado, tão sagrado, tão reconhecido, que deixa de ser um modo de expressão; poder-se-ia então definir o poeta profissional como um ser que não se exprime porque exprime versos.
-- Witold Gombrowicz, no manifesto "Contra a Poesia", 1957.
24.3.03
É o amor. Terei de me esconder ou fugir.
Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz. A bela máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, o aprendizado das palavras que usou o áspero Norte para cantar seus mares e suas espadas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar de meus mortos, a noite intemporal, o gosto do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida de meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já se levanta o homem à voz da ave, já escureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, eu sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Agora os exércitos me cercam, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher me delata.
Dói-me uma mulher por todo o corpo.
-- Jorge Luis Borges, "O Ameaçado".
22.3.03
21.3.03
Mais um poeta dos bons na rede: Carlos Saraiva, do Um Dia Gnóstico. Entre outras coisas
Inquisição 2003:
esprema o papa,
até que escorra o
sumo pontífice
Inquisição 2003:
esprema o papa,
até que escorra o
sumo pontífice
20.3.03
Josephine Hart
Nossa sanidade depende, essencialmente, de uma estreiteza de visão -- a habilidade de selecionar os elementos vitais à sobrevivência, ao mesmo tempo em que se ignoram as grandes verdades. Assim, o indivíduo vive sua vida cotidiana sem dar a devida atenção ao fato de que não há garantias de um amanhã. Ele esconde de si mesmo o conhecimento de que sua vida é uma experiência única, que chegará ao fim numa sepultura; que, a cada segundo, vidas tão únicas como a sua começam e acabam. Esta cegueira permite que um padrão de vida se perpetue ao longo do tempo, e são poucos os que desafiam este padrão e sobrevivem. Por um bom motivo. Todas as leis da vida e da sociedade pareceriam irrelevantes se cada homem se concentrasse diariamente na realidade da própria morte.
19.3.03
17.3.03
Karl Krolow
Eu vejo de outro modo
Eu vejo de outro modo:
as palavras são resíduos
do capitalismo.
Não creio.
Digo neve, e sinto
o inverno de 1929 na boca.
Água, digo, afogando-me
outra vez no mar do Norte.
Fogo: uma de minhas mãos
continua ardendo desde
a última guerra.
Digo liberdade, e continuo sem saber
o que digo.
(trad. MP)
15.3.03
OFÉLIA
ofélia tem sede
ofélia tem sede
ofélia bebe um copo de água
ofélia bebeu um copo de água
ofélia bebe um copo de água
ofélia bebeu um copo de água
ofélia bebe um copo de água
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
ofélia vai chorar
ofélia vai chorar
ofélia chorou
ofélia
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
água fria
água fria
água fria que ofélia bebeu
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
faz calor
faz calor
faz calor
ofélia vai banhar-se
se despiu
se despiu
ofélia vai banhar-se
se despe
se despe
a água está quente
a água está quente
água quente
ofélia se chama ofélia
se despiu
se banhou
se despiu
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
ofélia vai se afogar
ofélia corre e o suor corre pela pele
ofélia corre e o suor corre pela pele
se afoga
ofélia corre
ofélia corre
ofélia corre
ofélia corre
e o suor corre pela pele
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
ofélia se afogou
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
ofélia é uma nuvem
ofélia é uma nuvem
-- Gerhard Rühm, trad. MP.
ofélia tem sede
ofélia tem sede
ofélia bebe um copo de água
ofélia bebeu um copo de água
ofélia bebe um copo de água
ofélia bebeu um copo de água
ofélia bebe um copo de água
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
ofélia vai chorar
ofélia vai chorar
ofélia chorou
ofélia
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
água fria
água fria
água fria que ofélia bebeu
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
faz calor
faz calor
faz calor
ofélia vai banhar-se
se despiu
se despiu
ofélia vai banhar-se
se despe
se despe
a água está quente
a água está quente
água quente
ofélia se chama ofélia
se despiu
se banhou
se despiu
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
chuva
ofélia vai se afogar
ofélia corre e o suor corre pela pele
ofélia corre e o suor corre pela pele
se afoga
ofélia corre
ofélia corre
ofélia corre
ofélia corre
e o suor corre pela pele
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
tudo é azul
ofélia se afogou
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
não chove
ofélia é uma nuvem
ofélia é uma nuvem
-- Gerhard Rühm, trad. MP.
14.3.03
Margens
-- Jürgen Becker, "Margens", trad. MP.
Ali está pendurado o mapa, todas as paredes são brancas, este é o país, esta é a costa, esta é a história, esta é a janela alta com as árvores do parque, acima, o céu, este é o DC 8 de todos os dias, esta é a gata Nina, hoje é sexta-feira, não parece verão, tudo continua igual, este é o coração que acaba de bater, ali vem outra vez o que se chama esperança, esta foi a duração de um cigarro, aproxima-se um prazo, este é Münchhausen que traz um javali preso pela corrente, isto é o mais próximo do que se fala, pronuncia-se o nome de Mila Schön, isto deve ser Milão, o copo cheio, o copo vazio, ali está sentada uma pessoa e está sentada à mesa e ergue os olhos da mesa, isso é outra coisa, esse é O continente interior, tão limpo como um Opel de Opel, ali está pendurado o gesso do kaiser Guilherme, ali são dez da noite e lá são oito da manhã, aquela mosca não voa, isso é o que importa, isso é o que alguém esquece, esse é o Mississippi, é a palavra que designa um rio, ali há um forno vazio e apagado, ali um bom rádio portátil e ali dois fragmentos de coluna, ali há algo para se sentar e lá para se sentar e deitar.
Lá fora cai um temporal, um bando de pássaros luta contra o vento até que escurece.
12.3.03
obra póstuma do poeta
Entre os papéis do poeta Aluvião Malomar, foram encontrados rascunhos de poemas, idéias a serem desenvolvidas, bilhetes para ele mesmo com temas que obviamente pretendia usar em sua obra futura -- enfim, um verdadeiro tesouro de material inédito que seus editores fizeram muito bem em publicar, postumamente. Aluvião, como se recorda, esteve no noticiário dos jornais pouco antes da sua morte. Compareceu à delegacia de seu bairro para se queixar de perseguições fantásticas que estaria sofrendo, e que muito divertiram o plantão. Todos na delegacia sentiram a morte de, como o chamavam carinhosamente, "o doido aquele". O poeta era um asceta que vivia sozinho, voltado inteiramente para a sua arte. Três vezes por semana ia uma pretinha fazer a limpeza e as compras, mas é certo que Aluvião nem notava sua presença, tão absorto estava na criação do seu mundo imaginário.
No livro póstumo, agora oportunamente lançado, o material compilado, organizado e anotado por uma equipe de críticos estruturalistas dá uma nítida idéia do novo rumo que Aluvião pretendia para a sua poesia. De especial interesse para os estudiosos de sua obra é um poema semi-erótico que ele estava escrevendo em fragmentos, em pedaços de papel que os pesquisadores encontraram espalhados pelo seu quarto-e-sala, e que foram montados na seqüência aparente. O poema começa assim:
"Amanhã Doraci não me escapa. Coragem!"
É clara a intenção do poeta de experimentar um estilo mais coloquial para seus versos, ele que fora chamado "o último parnasiano", e que se notabilizara nos meios literários pela apaixonada defesa que fez do seu estilo numa monografia intitulada 117 Rimas Para Quimera, sem Contar a Primavera.
Na página 46, utilizando-se da forma revolucionária de uma lista de compras na feira, Aluvião vai mais longe na incorporação do cotidiano à sua imagística. O poema -- certamente ainda em embrião -- é assim:
"Chuchu, agrião, arroz
feijão e uma lata de óleo.
Ah, sim, e uma vassoura.
E passe no meu quarto para pegar
o dinheiro, Doraci."
Na página 47, o estilo torna-se mais elaborado. Sua intenção, agora indisfarçável, é a de contrastar a alegre fartura de uma feira livre com a contenção de sua misteriosa Doraci, um símbolo claro da fêmea enquanto pureza pré-cultural. Numa nota de pé de página, os compiladores chamam a atenção para esta quase paródia de um dos temas mais constantes do romantismo, que o poeta aqui renega.
"Alface, muita alface.
Aquelas batatas pequenas.
Miúdos de porco para o feijão.
Você ficou sentida comigo, Doraci?
Venha ao meu quarto,
que desta vez nada acontecerá.
Juro. O dinheiro está sobre a cômoda
longe da cama."
Página 48. Este esboço de verso intrigou os pesquisadores, pois parecia escrito por outra pessoa. É possível que, como utilizasse o ponto de vista da sua Doraci, o poeta tentasse escrever como a personagem escreveria. Há, inclusive, erros deliberados de ortografia.
"Seu Aluvião, assim não dá.
No seu quarto eu não entro mais.
Deixa o dinheiro na mesa da sala.
Olha que meu pai vai ficar sabendo.
Doraci."
Mas é a partir da página 49 que Aluvião começa a dominar o seu novo estilo. Seus versos ganham em força e expressão. Na certa seriam publicados como estão, se o autor não tivesse morrido tão misteriosamente.
"Doraci: Para o almoço,
quero carne assada, uma saladinha,
pêssegos em calda
e você."
O trecho seguinte é escrito, outra vez, na letra de Doraci.
"Seu Aluvião, meu pai descobriu tudo.
Vem aqui conversar com o senhor,
e meus irmãos também."
Na página 51:
"Doraci, diga a seu pai
que fiz queixa na polícia.
Se alguma coisa me acontecer,
eles saberão quem procurar.
Da feira não quero nada
E você está despedida."
Quando foi encontrado sem vida no poço do edifício, depois de ter-se jogado da área de serviço do seu apartamento -- certamente preso de profunda depressão por ter renegado o romantismo -- Aluvião tinha na mão o último verso desta admirável obra de sua surpreendente imaginação:
"Estão arrombando a porta.
Deve ser o pai da Do..."
-- Luís Fernando Veríssimo, 1978.
Entre os papéis do poeta Aluvião Malomar, foram encontrados rascunhos de poemas, idéias a serem desenvolvidas, bilhetes para ele mesmo com temas que obviamente pretendia usar em sua obra futura -- enfim, um verdadeiro tesouro de material inédito que seus editores fizeram muito bem em publicar, postumamente. Aluvião, como se recorda, esteve no noticiário dos jornais pouco antes da sua morte. Compareceu à delegacia de seu bairro para se queixar de perseguições fantásticas que estaria sofrendo, e que muito divertiram o plantão. Todos na delegacia sentiram a morte de, como o chamavam carinhosamente, "o doido aquele". O poeta era um asceta que vivia sozinho, voltado inteiramente para a sua arte. Três vezes por semana ia uma pretinha fazer a limpeza e as compras, mas é certo que Aluvião nem notava sua presença, tão absorto estava na criação do seu mundo imaginário.
No livro póstumo, agora oportunamente lançado, o material compilado, organizado e anotado por uma equipe de críticos estruturalistas dá uma nítida idéia do novo rumo que Aluvião pretendia para a sua poesia. De especial interesse para os estudiosos de sua obra é um poema semi-erótico que ele estava escrevendo em fragmentos, em pedaços de papel que os pesquisadores encontraram espalhados pelo seu quarto-e-sala, e que foram montados na seqüência aparente. O poema começa assim:
"Amanhã Doraci não me escapa. Coragem!"
É clara a intenção do poeta de experimentar um estilo mais coloquial para seus versos, ele que fora chamado "o último parnasiano", e que se notabilizara nos meios literários pela apaixonada defesa que fez do seu estilo numa monografia intitulada 117 Rimas Para Quimera, sem Contar a Primavera.
Na página 46, utilizando-se da forma revolucionária de uma lista de compras na feira, Aluvião vai mais longe na incorporação do cotidiano à sua imagística. O poema -- certamente ainda em embrião -- é assim:
"Chuchu, agrião, arroz
feijão e uma lata de óleo.
Ah, sim, e uma vassoura.
E passe no meu quarto para pegar
o dinheiro, Doraci."
Na página 47, o estilo torna-se mais elaborado. Sua intenção, agora indisfarçável, é a de contrastar a alegre fartura de uma feira livre com a contenção de sua misteriosa Doraci, um símbolo claro da fêmea enquanto pureza pré-cultural. Numa nota de pé de página, os compiladores chamam a atenção para esta quase paródia de um dos temas mais constantes do romantismo, que o poeta aqui renega.
"Alface, muita alface.
Aquelas batatas pequenas.
Miúdos de porco para o feijão.
Você ficou sentida comigo, Doraci?
Venha ao meu quarto,
que desta vez nada acontecerá.
Juro. O dinheiro está sobre a cômoda
longe da cama."
Página 48. Este esboço de verso intrigou os pesquisadores, pois parecia escrito por outra pessoa. É possível que, como utilizasse o ponto de vista da sua Doraci, o poeta tentasse escrever como a personagem escreveria. Há, inclusive, erros deliberados de ortografia.
"Seu Aluvião, assim não dá.
No seu quarto eu não entro mais.
Deixa o dinheiro na mesa da sala.
Olha que meu pai vai ficar sabendo.
Doraci."
Mas é a partir da página 49 que Aluvião começa a dominar o seu novo estilo. Seus versos ganham em força e expressão. Na certa seriam publicados como estão, se o autor não tivesse morrido tão misteriosamente.
"Doraci: Para o almoço,
quero carne assada, uma saladinha,
pêssegos em calda
e você."
O trecho seguinte é escrito, outra vez, na letra de Doraci.
"Seu Aluvião, meu pai descobriu tudo.
Vem aqui conversar com o senhor,
e meus irmãos também."
Na página 51:
"Doraci, diga a seu pai
que fiz queixa na polícia.
Se alguma coisa me acontecer,
eles saberão quem procurar.
Da feira não quero nada
E você está despedida."
Quando foi encontrado sem vida no poço do edifício, depois de ter-se jogado da área de serviço do seu apartamento -- certamente preso de profunda depressão por ter renegado o romantismo -- Aluvião tinha na mão o último verso desta admirável obra de sua surpreendente imaginação:
"Estão arrombando a porta.
Deve ser o pai da Do..."
-- Luís Fernando Veríssimo, 1978.
11.3.03
Gosto quando posso ouvir ao longe
a palavra ritmando a poesia.
Gosto de um certo ar parado
circulando o poema,
enquanto nasce a vontade fugidia.
Bem que podia a fome
fazer poetas em qualquer esquina,
eu ficaria dias,
esperando os dentes comerem
qualquer palavra minha.
-- Kora, "Tribal". Uma gratíssima surpresa, Kora está lá no Olhos Sobre Telas.
a palavra ritmando a poesia.
Gosto de um certo ar parado
circulando o poema,
enquanto nasce a vontade fugidia.
Bem que podia a fome
fazer poetas em qualquer esquina,
eu ficaria dias,
esperando os dentes comerem
qualquer palavra minha.
-- Kora, "Tribal". Uma gratíssima surpresa, Kora está lá no Olhos Sobre Telas.
põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa
trabalha à mesa
desmanivela-a
desce
é cama
faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama
desmanivela-a
desce mais
é caixão
entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão
era a brincar
era a brincar
manivela-o
sobe
é cama
manivela-o
sobe
é mesa
põe os cotovelos na mesa
-- Alexandre O'Neill
come à mesa
levanta a mesa
trabalha à mesa
desmanivela-a
desce
é cama
faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama
desmanivela-a
desce mais
é caixão
entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão
era a brincar
era a brincar
manivela-o
sobe
é cama
manivela-o
sobe
é mesa
põe os cotovelos na mesa
-- Alexandre O'Neill
9.3.03
Poetas e Vagabundos
O cartaz na parede ensinava "Beba mais leite" Dono do "flor do estácio" dizia que aquele cartaz era um bom negócio Era mesmo Tão bom que quando desabrigo mais miquimba acabaram de boiar e viram o cartaz se lembraram na mesma horinha de tomar umas batidas de limão Depois tiraram o gosto ruim do limão com umas batidas de abacaxi e só depois é que desabrigo sentiu umas porradinhas nas costas Virou pra ver quem tava dando e ficou cheio de vento quando evêmero falou que tinha vindo só por causa dele e mandou logo o garçom trazer três batidas duplas de tamarindo Apresentou também
-- Esse aqui é o miquimba que já boi bicheiro jogador de chapinha e agora vai ser beque do "poesia futebol clube"
-- Muito prazer
-- Muito prazer
Se apertaram as mãos e evêmero sentou Desabrigo pegou a falar
-- Sabe miquimba?...
Miquimba não sabia mas ficou sabendo que evêmero já tinha escrevido poesia no jornal e agora ia botar num livro a vida de todo vagabundo e mulher da vida que ele sobesse
-- ... não é seu evêmero?
Seu evêmero fez que sim com a cabeça e como já tava mais pra lá do que pra cá por causa das batidas deu de contar uma história comprida de miserê que acabou com um negócio assim
-- Sou poeta por ser vagabundo ou vagabundo por ser poeta? A resposta depende muito de quem faz a pergunta Do ponto de vista ético todo poeta é vagabundo e do ponto de vista estético todo vagabundo é poeta Poeta ou vagabundo em potencial mas sempre poeta e vagabundo ou vagabundo e poeta Ora se entre poetas e vagabundos a diferença é milimínima não acontece o mesmo entre vagabundos e malandros O primeiro é sempre um idealista e é portanto individualista enquanto que o segundo é pragmatista e é povo Há entre os dois a diferença quilométrica que há entre uma balada de françois villon e um samba de noel rosa...
Miquimba não tava pescando níquel e ia pedir pra ele trocar aquilo em miúdos quando desabrigo disse
-- Quando ele começa a falar difícil é porque já tá porradinho da silva
-- Antônio Fraga, em "Desabrigo e Outros Trecos", 1945.
6.3.03
A lenda macabra de Carlos Magno
Não sei se a história que vou relatar aqui é muito antiga ou se chegou aos meus ouvidos há muito tempo. Se uma verdade contada por tantos acaba virando mentira, peço que me perdoem se os detalhes da narrativa acidentalmente estropiarem a natureza dos acontecimentos. Pois a outra verdade até onde sou capaz de acreditar e de me lembrar é que o imperador Carlos Magno já era muito velho quando tudo isso aconteceu. Vivendo solitário em seu palácio de Aix-la-Chapelle, o rei, já tantas vezes viúvo, não tinha muito com o que se distrair além das infinitas reflexões acerca da sua sucessão. Os barões da corte, preocupados com a saúde frágil do rei que a cada dia parecia mais deprimido, e temendo que a morte súbita de Carlos Magno fizesse subir ao trono Pepino, o Corcunda, o primogênito herdeiro que não lhes convinha, decidiram em uma assembleia de notáveis que o rei precisava de uma rainha. E uma rainha jovem. O rei concordou com a decisão é só exigiu que ele mesmo escolhesse sua futura consorte. No entanto, o alívio de todos durou pouco porque, para surpresa geral, a escolhida foi uma jovem donzela alemã, criada do palácio. As bodas foram realizadas com toda a pompa e em pouco tempo o rei deixou de lado a sua tristeza para entregar-se a uma paixão amorosa irrefreável que fazia com que se esquecesse de sua dignidade real e negligenciasse os deveres da coroa. Do nascer ao pôr do sol o casal era visto em folguedos sensuais, totalmente nus, correndo pelos jardins do palácio ou se esgueirando pelos corredores, sem se preocupar ou se intimidar com a atenção de olhos estranhos, fizesse chuva, fizesse sol. A situação passou do constrangimento abafado ao escândalo declarado. A vida íntima do rei era motivo de chacota nas tavernas mais longínquas. Quando um dia a jovem esposa do rei caiu doente, vindo a falecer subitamente não se sabe se de friagem ou envenenada, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. Inconsolável, o imperador mandou embalsamar o corpo morto de sua amada e ordenou que o colocassem em seu leito nupcial, recusando-se a se separar dele. Todas as noites o rei deitava-se ao lado do corpo frio de Constança. Tal paixão macabra espalhou-se pelo vento chegando aos ouvidos sagrados do papa que, suspeitando de bruxaria, enviou um emissário para solucionar o mistério daquela obsessão necrófila. Em chegando ao palácio, o bispo exigiu uma vistoria completa do corpo insepulto da rainha, a ser realizada por ele mesmo. Vasculhando aqui e ali, erguendo pernas e braços, examinando dedos, separando fio por fio da farta cabeleira da jovem morta, o bispo nada encontrou. Seria preciso um exame das cavidades. Por onde começaria? Achou menos grotesco começar pela boca. Afastou com dificuldade os lábios rígidos e ao puxar para fora a gélida língua, seus dedos esbarraram num metal frio. Banhado em saliva, um anel encimado por uma pedra preciosa pulou na palma da mão do bispo, que guardou-o consigo para posteriores exames. E assim, um dia depois, surpreendentemente, o rei mandou sepultar o cadáver da rainha e, esquecido de tudo, passou a perseguir o bispo pelos corredores do palácio, derramando-se em gentilezas. Desdobrava-se em mimos e elogios, lançando olhares lânguidos constantes ao religioso, situação que deixou toda a corte e o próprio bispo presos de visível embaraço. O bispo, não suportando mais aquele estado de coisas e vendo-se impedido pelo rei de viajar de volta à presença do papa, desesperou-se e, numa noite fria, após muitas orações e sentindo que seu coração fosse desfalecer, correu até as cercanias do palácio, carregando o amaldiçoado anel, e lançou-o no primeiro charco que avistou. No dia seguinte e nos muitos dias que se seguiram até sua morte, Carlos Magno nunca mais foi visto em qualquer dos aposentos do palácio. Apaixonado pelo charco, ao qual chamava de Lago de Constança, o imperador nunca mais se afastaria de suas margens e era visto frequentemente aspirando com voluptuosidade todo o odor fétido de sua lama. Pepino, o Corcunda, jamais subiria ao trono do pai. Com a alma coberta de ressentimento, o que chamava de Deus, virou monge copista e posteriormente magister officiorum da Casa do Senhor, onde inventou esta história. Debruçado sobre códices e pergaminhos, seu ofício incansável provocou-lhe a alcunha com que é conhecido até hoje.
3.3.03
Vinicius de Moraes
O ônibus Greyhound atravessa o Novo México
Terra seca árvore seca
E a bomba de gasolina
Casa seca paiol seco
E a bomba de gasolina
Serpente seca na estrada
E a bomba de gasolina
Pássaro seco no fio
(E a bomba de gasolina)
Do telégrafo: S.O.S.
E a bomba de gasolina
A pele seca o olhar seco
(E a bomba de gasolina)
Do índio que não esquece
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina...
(1962)
1.3.03
Waly Salomão
Derradeira photo: mágoas de caboclo: estou levando uma vida de sábio santo solitário: acordo ao romper da barra do sol me levanto saio pra passear nos arredores ouvindo passarinhos indo até a fonte dágua vendo a cidade do Corcovado cantando pra dentro:
27.2.03
Mitologia dos orixás
Xangô e Ogum sempre lutaram entre si,
ora disputando o amor da mãe, Iemanjá,
ora disputando o amor da amada, Oxum,
ora disputando o amor da companheira, Iansã.
Lutaram no começo do mundo e ainda lutam agora.
Ogum usa da sua força física e das armas que fabrica,
Xangô usa da estratégia e da magia.
Ambos são fortes e valentes,
ambos são guerreiros temidos.
Mas só uma vez Xangô venceu Ogum na luta.
Numa disputa que travaram por Iansã,
ora a batalha pendia para um lado,
ora pendia para o outro.
Ninguém conseguia prever o final,
ninguém podia apostar quem seria o vencedor.
Foi então que Xangô apelou para a astúcia,
como é de seu feitio numa hora dessa.
Conduziu a batalha como quem se retirava
e, sem que Ogum percebesse, Xangô o atraiu para a pedreira.
Foi então que Xangô apelou para a magia,
como é de seu feitio numa hora dessa.
Quando Ogum estava bem no pé da montanha de pedra,
Xangô lançou seu machado oxé de fazer raio
e um grande estrondo se ouviu.
Com o trovão veio abaixo uma avalanche de pedras
e as pedras soterraram o desprevenido Ogum.
Xangô vencera Ogum na pedreira,
que desde então foi considerada o elemento de Xangô.
Xangô venceu Ogum naquele dia,
única vez que alguém venceu Ogum.
Mas esses dois filhos de Iemanjá seguem lutando ainda,
ora disputando o amor da mãe, Iemanjá,
ora disputando o amor da amada, Oxum,
ora disputando o amor da companheira, Iansã.
-- "Xangô vence Ogum na pedreira", mito recolhido por Reginaldo Prandi, em "Mitologia dos Orixás".
26.2.03
John Dos Passos
O corpo de um americano
levaram para Chalôns-sur-Marne
e puseram-no limpo num caixão de pinho
e levaram-no de volta ao País de Deus num navio de guerra
e enterraram-no num sarcófago no Memorial
do Cemitério Nacional de Arlington
e envolveram-no no velho pavilhão
e o corneteiro fez soar o toque de silêncio
...........................................................
Woodrow Wilson trouxe um buquê de papoulas.
Guerra e pânico na bolsa de valores,
metralhadora, fogo e incêndio criminoso,
falências, empréstimos,
fome, piolhos, cólera e tifo;
bom tempo de crescimento para a Morgan House
........................................................................
-- Em 1919.
25.2.03
a cultura
a civilização
elas que se danem ou não
somente me interessam
contanto que me deixem
meu licor de jenipapo
o papo das noites de são joão
somente me interessam
contanto que me deixem
meu cabelo belo
meu cabelo belo
como a juba de um leão
contanto que me deixem
ficar na minha
contanto que me deixem
ficar com minha vida na mão
minha vida na mão
minha vida
a cultura a civilização
elas que se danem ou não
eu gosto mesmo
é de comer com coentro
eu gosto mesmo
é de ficar por dentro
como eu estive algum tempo
na barriga de claudina
uma velha baiana
cem por cento
a cultura a civilização...
-- Gilberto Gil, "Cultura e Civilização", anos 70.
a civilização
elas que se danem ou não
somente me interessam
contanto que me deixem
meu licor de jenipapo
o papo das noites de são joão
somente me interessam
contanto que me deixem
meu cabelo belo
meu cabelo belo
como a juba de um leão
contanto que me deixem
ficar na minha
contanto que me deixem
ficar com minha vida na mão
minha vida na mão
minha vida
a cultura a civilização
elas que se danem ou não
eu gosto mesmo
é de comer com coentro
eu gosto mesmo
é de ficar por dentro
como eu estive algum tempo
na barriga de claudina
uma velha baiana
cem por cento
a cultura a civilização...
-- Gilberto Gil, "Cultura e Civilização", anos 70.
24.2.03
Traduzir é sempre trair?
Sabe-se que por uma tradução malfeita dos Diálogos de Platão, o francês Étienne Dolet foi condenado à fogueira no séc. 16. O mesmo destino tiveram vários tradutores da Bíblia. No entanto, hoje em dia os tradutores que cometem erros crassos nada têm a temer. Obrigados a traduzir uma média de 50/70 laudas por dia para garantir a sobrevivência, é de se esperar que cometam barbaridades. Na outra ponta do barbante está o pobre leitor que não tem nada com isso e que, sem saber, pode estar levando gato por lebre. Antônio Houaiss costumava dizer que o fundamental num tradutor é que ele tenha o domínio da língua de destino, mais do que da língua de origem. Sendo assim, médicos deveriam traduzir livros de medicina, advogados, livros de direito, psicanalistas, livros de psicanálise e assim por diante. O que quase nunca acontece. As editoras têm pressa e hoje qualquer um que saiba falar um idioma estrangeiro já é considerado habilitado para fazer uma tradução. Talvez por preguiça, insegurança ou por achar mais divertido, eu abri mão de traduzir e me dediquei a revisar traduções como forma de ganhar a vida. É um trabalho espinhoso, muitas vezes não reconhecido por aquele tipo de tradutor arrogante que deseja sempre ser tratado como co-autor das obras que traduz. Como minha linha de trabalho é respeitar ao máximo o texto do autor, evitando erros e firulas de tradução, sou considerada a indispensável pedra no sapato. Eu e meus colegas de profissão. Mas não me queixo, pois até pode ser divertido ganhar a vida com as "traições" dos outros, vejam só:
. my job sucks - "meu trabalho chupa"
. life sucks - "chupadores da vida"
. half-nelson - "meio-nelson" (em vez de chave de nuca)
. misunderstand - "descompreender"
. mother tongue - "a língua da sua mãe"
. try hard - "tentar duro"
. Piss on me! - "Urinaram em mim!"
. patrician nose - "nariz patrício" (em vez de perfil aristocrático)
. political people - "o pessoal político"
. to turn a blind eye - "virar um olho cego" (em vez de fazer vista grossa)
. démon semi-chevalin - "demônio semicavalar" (em vez de demônio em forma de centauro)
. employee suits for sexual harassment - "funcionários organizam suítes p/ assédio sexual"
. to let the cat out of the bag - "deixar o gato fora do saco" (em vez de dar c/ a língua nos dentes)
. the least observant of mothers - "o menor observador de mães" (em vez de a menos observadora das mães)
. Grandma Moses (a pintora) - " a avó de Moisés"
e por aí vai...
Sabe-se que por uma tradução malfeita dos Diálogos de Platão, o francês Étienne Dolet foi condenado à fogueira no séc. 16. O mesmo destino tiveram vários tradutores da Bíblia. No entanto, hoje em dia os tradutores que cometem erros crassos nada têm a temer. Obrigados a traduzir uma média de 50/70 laudas por dia para garantir a sobrevivência, é de se esperar que cometam barbaridades. Na outra ponta do barbante está o pobre leitor que não tem nada com isso e que, sem saber, pode estar levando gato por lebre. Antônio Houaiss costumava dizer que o fundamental num tradutor é que ele tenha o domínio da língua de destino, mais do que da língua de origem. Sendo assim, médicos deveriam traduzir livros de medicina, advogados, livros de direito, psicanalistas, livros de psicanálise e assim por diante. O que quase nunca acontece. As editoras têm pressa e hoje qualquer um que saiba falar um idioma estrangeiro já é considerado habilitado para fazer uma tradução. Talvez por preguiça, insegurança ou por achar mais divertido, eu abri mão de traduzir e me dediquei a revisar traduções como forma de ganhar a vida. É um trabalho espinhoso, muitas vezes não reconhecido por aquele tipo de tradutor arrogante que deseja sempre ser tratado como co-autor das obras que traduz. Como minha linha de trabalho é respeitar ao máximo o texto do autor, evitando erros e firulas de tradução, sou considerada a indispensável pedra no sapato. Eu e meus colegas de profissão. Mas não me queixo, pois até pode ser divertido ganhar a vida com as "traições" dos outros, vejam só:
. my job sucks - "meu trabalho chupa"
. life sucks - "chupadores da vida"
. half-nelson - "meio-nelson" (em vez de chave de nuca)
. misunderstand - "descompreender"
. mother tongue - "a língua da sua mãe"
. try hard - "tentar duro"
. Piss on me! - "Urinaram em mim!"
. patrician nose - "nariz patrício" (em vez de perfil aristocrático)
. political people - "o pessoal político"
. to turn a blind eye - "virar um olho cego" (em vez de fazer vista grossa)
. démon semi-chevalin - "demônio semicavalar" (em vez de demônio em forma de centauro)
. employee suits for sexual harassment - "funcionários organizam suítes p/ assédio sexual"
. to let the cat out of the bag - "deixar o gato fora do saco" (em vez de dar c/ a língua nos dentes)
. the least observant of mothers - "o menor observador de mães" (em vez de a menos observadora das mães)
. Grandma Moses (a pintora) - " a avó de Moisés"
e por aí vai...
O Grande Circo Místico
O médico de câmara da imperatriz Teresa -- Frederico Knieps -- resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun -- a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo -- o trapezista Ludwig -- nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.
-- Jorge de Lima, 1938.
O médico de câmara da imperatriz Teresa -- Frederico Knieps -- resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun -- a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo -- o trapezista Ludwig -- nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.
-- Jorge de Lima, 1938.
22.2.03
A minha saia velhinha
Está toda rotinha
d'andar a bailar
agora tenh'uma nova
feitinha na moda
p'ra eu estriar.
Minha mãe casai-me cedo
enquanto sou rapariga:
que o milho ceifado tarde
não dá palha nem espiga!
O meu amor era torto
e eu mandei-o cavacar:
agora já tenho lenha
para fazer um jintar.
-- cantiga popular do Minho, Portugal.
Está toda rotinha
d'andar a bailar
agora tenh'uma nova
feitinha na moda
p'ra eu estriar.
Minha mãe casai-me cedo
enquanto sou rapariga:
que o milho ceifado tarde
não dá palha nem espiga!
O meu amor era torto
e eu mandei-o cavacar:
agora já tenho lenha
para fazer um jintar.
-- cantiga popular do Minho, Portugal.
21.2.03
Como se Deus não tivesse nada mais sério em que pensar, ele resolveu aviar o dia em que colocaria as mãos na alma de minha mãe.
E como se eu não tivesse nada mais sério em que acreditar, resolvi que não esperarei pelo Juízo Final para acertar minhas contas com ele.
A temporada de caça está aberta. Procuro Deus Vivo ou Morto. Pago bem.
E como se eu não tivesse nada mais sério em que acreditar, resolvi que não esperarei pelo Juízo Final para acertar minhas contas com ele.
A temporada de caça está aberta. Procuro Deus Vivo ou Morto. Pago bem.
O Arenque Defumado
Havia uma grande parede branca --
nua, nua, nua
Encostada na parede uma escada --
alta, alta, alta
E debaixo, um arenque defumado --
seco, seco, seco.
Compus esta história simples --
simples, simples, simples
Para enfurecer as pessoas sérias --
solenes, solenes, solenes
E entreter as criancinhas --
pequenas, pequenas, pequenas
-- Charles Cros
Havia uma grande parede branca --
nua, nua, nua
Encostada na parede uma escada --
alta, alta, alta
E debaixo, um arenque defumado --
seco, seco, seco.
Compus esta história simples --
simples, simples, simples
Para enfurecer as pessoas sérias --
solenes, solenes, solenes
E entreter as criancinhas --
pequenas, pequenas, pequenas
-- Charles Cros
20.2.03
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
-- Ana C, "Flores do mais".
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
-- Ana C, "Flores do mais".
19.2.03
A literatura das "boas maneiras" através dos tempos
séc. 13:
- Quando assoar o nariz ou tossir, vire-se de modo que nada caia em cima da mesa. (De la zinquanta cortesie da tavola, Bonvicino da Riva)
séc. 15:
séc. 13:
- Quando assoar o nariz ou tossir, vire-se de modo que nada caia em cima da mesa. (De la zinquanta cortesie da tavola, Bonvicino da Riva)
séc. 15:
- É indelicado assoar o nariz na toalha da mesa. (Ein spruch der ze tische kêrt)
- Não assoe o nariz com a mesma mão que usa para segurar a carne. (S'ensuivent les contenances de la table)
séc. 16:
- Assoar o nariz no chapéu ou na roupa é grosseiro, e fazê-lo com o braço ou o cotovelo é coisa de mercador. Tampouco é muito mais educado usar a mão, se imediatamente limpa a meleca na roupa. O correto é limpar as narinas com um lenço e fazer isto enquanto se vira, se pessoas mais respeitáveis estiverem presentes. Entre a meleca e o escarro há pouca diferença, exceto que o primeiro fluido deve ser interpretado como mais grosso e o segundo como mais sujo. Os autores latinos confundem constantemente o babador, o guardanapo, ou qualquer pedaço de linho, com o lenço. (...) É indelicado engolir a saliva, como também aqueles que vemos escarrando a cada 3 palavras, não por necessidade, mas por hábito.(...) O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas. Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um acesso de tosse. (...) Considerando a insalubridade de reter o peido: há uns dois versos no volume II dos epigramas de Nicharchos em que ele descreve a capacidade do peido retido de provocar doenças, mas uma vez que esses versos são citados por todo mundo, não vou comentá-los aqui. (De civilitate morum puerilium, Erasmo)
- Não ofereça o lenço a ninguém, a menos que ele esteja recém-lavado... Tampouco é correto, após assoar o nariz, abrir o lenço e olhar dentro dele como se pérolas e rubis pudessem ter caído de sua cabeça.(...) O que direi então... daqueles que enfiam o lenço na boca? ( Galateo, Della Casa)
séc. 17:
- À mesa assoar abertamente o nariz no lenço, sem se ocultar atrás do guardanapo, e enxugar o suor com ele...são hábitos sujos que dão a todos desejo de vomitar...Evite bocejar, assoar o nariz e escarrar. Se for obrigado a proceder assim em lugares mantidos limpos, use o lenço, ao mesmo tempo virando o rosto e ocultando-se com a mão esquerda, e não olhe para o lenço depois. (Nouveau traité de civilité, Courtain)
séc. 18:
- Há alguns anos as pessoas faziam uma arte do ato de assoar o nariz. Um imitava o som do trompete, outro o miado do gato. A perfeição residia em não fazer nem muito nem pouco ruído. (Le voyageur de Paris, La Mésangère)
- Na igreja, nas casas dos grandes, em todos os lugares onde reina a limpeza, você deve escarrar no lenço. Constitui um hábito imperdoavelmente grosseiro de crianças cuspir no rosto de seus companheiros de folguedos. Não há castigo que seja suficiente para essas maneiras deploráveis, como também para quem cospe pelas janelas, nas paredes e nos móveis...("Les Règles de la bienséance et de la civilité chrêtienne", La Salle)
séc. 19:
- Escarrar a todo momento é um hábito repugnante. Além de grosseiro e atroz, é muito ruim para a saúde. ("The habits of good society")
séc. 20:
- Você já notou que hoje relegamos para algum canto discreto o que nossos pais não hesitavam em exibir abertamente? Por isso mesmo, certa peça íntima tinha um lugar de honra... ninguém pensava em ocultá-la da vista. O mesmo se aplica a outra peça de mobília não mais encontrada em residências modernas, cujo desaparecimento alguém lamentará talvez nesta era de "bacilofobia": estou me referindo à escarradeira. (Moeurs intimes du temps passé, Cabanès)
-- Em "O Processo Civilizador", de Norbert Elias, 1939.
NOTAS PESSOAIS
Abandonei o hábito de ler. Não leio mais nada exceto um ou outro jornal, literatura leve e ocasionalmente livros técnicos referentes a algum assunto que possa estar estudando e no qual o simples raciocínio possa ser suficiente.
Quase que abandonei o tipo definido de literatura. Poderia lê-la para aprender ou por prazer. Mas nada tenho que aprender e o prazer que se pode colher de livros é de um tipo que se pode substituir com vantagem por aquele que o contacto com a natureza e a observação da vida podem diretamente proporcionar-me.
Encontro-me agora de plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare não pode mais ensinar-me a ser sutil, nem Milton a ser completo. Meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance que me possibilitam assumir qualquer emoção que desejo e penetrar à vontade dentro de qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que lutar é sempre um esforço e uma angústia, a plenitude, nenhum livro pode servir absolutamente de ajuda.
Não significa isto que me tenha livrado da tirania da arte literária. Aceito-a, apenas sujeita a mim mesmo.
Há um livro que sempre tenho a meu lado, Aventuras de Pickwick. Li e reli várias vezes livros de W.W. Jacobs. A decadência do romance policial fechou para sempre uma porta por onde penetrava eu na literatura moderna.
Deixei me interessar-me por gente simplesmente inteligente -- Wells, Chesterton, Shaw. As idéias que essa gente tem são iguais às que ocorrem a muitos não-escritores; a construção de suas obras é uma quantidade inteiramente negativa.
Houve um tempo em que eu lia apenas pela utilidade da leitura. Compreendi agora que há muito poucos livros úteis, mesmo em matérias técnicas pelas quais possa estar interessado.
A sociologia é por atacado...; quem pode suportar esse escolasticismo na Bizâncio de hoje?
Todos os meus livros são livros de consulta. Leio Shakespeare apenas com relação ao "problema Shakespeariano"; o resto já conheço.
Descobri que a leitura é uma espécie de sonho escravizador. Se devo sonhar, por que não sonhar os meus próprios sonhos?
-- Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo".
17.2.03
Lunário Perpétuo
O "Lunário Perpétuo" foi durante dois séculos o livro mais lido nos sertões do Nordeste. Dava informações sobre horóscopos, física rudimentar, fenômenos meteorológicos, receitas médicas, calendários, vidas de santos, biografias de papas, conhecimentos agrícolas, conselhos de veterinária e ensinamentos gerais. Ensinava até como construir um relógio de sol. Os fazendeiros seguiam seus prognósticos meteorológicos como lei, e os cantadores populares o consultavam quando precisavam saber noções de gramática, história, geografia, religião e mitologia. A primeira edição do "Lunário Perpétuo" é de 1703, em Lisboa. Hoje virou relíquia. Eis um dos conselhos publicados na edição de 1921: "Quando o bicho ou cobra entrar no corpo de alguma pessoa que estiver dormindo, o melhor remédio é tomar fumo de solas de sapatos velhos pela boca, por um funil, e o bicho sairá pela parte de baixo: coisa experimentada."
-
Cantiga nordestina
Mandei fazê um liforme
Bem feito, com perfeição,
Mode botá na cidade
No dia de uma enleição,
E o qual admirô
A toda população.
O chapéu de arroz doce,
Forrado de tapioca,
As fitas de alfenim
E as fivelas de paçoca
E a camisa de nata
E os botões de pipóca.
A ceroula de soro
E a calça de coalhada,
O cinturão de mantêga
E o broche de carne assada,
O sapato de pirão
E as biqueiras de cocáda.
As meias de mingáu
E os véus de gergelim,
E as aspas de pão-de-ló
E o anelão de bulim,
As fitas de gordura
E as luvas de toicim.
O colete de banana
O fraque de carne frita,
O lenço de marmê
E o lecre de cambica,
O colarim de bolacha
E a gravata de tripa.
O relógio de queijo,
A chave de rapadura,
A caçuleta de doce
E o trancelim de gordura.
Quem tem um liforme deste
Pode julgar-se em fartura.
-- Cantiga popular nordestina do início do séc. 20.
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