27.2.03
Mitologia dos orixás
Xangô e Ogum sempre lutaram entre si,
ora disputando o amor da mãe, Iemanjá,
ora disputando o amor da amada, Oxum,
ora disputando o amor da companheira, Iansã.
Lutaram no começo do mundo e ainda lutam agora.
Ogum usa da sua força física e das armas que fabrica,
Xangô usa da estratégia e da magia.
Ambos são fortes e valentes,
ambos são guerreiros temidos.
Mas só uma vez Xangô venceu Ogum na luta.
Numa disputa que travaram por Iansã,
ora a batalha pendia para um lado,
ora pendia para o outro.
Ninguém conseguia prever o final,
ninguém podia apostar quem seria o vencedor.
Foi então que Xangô apelou para a astúcia,
como é de seu feitio numa hora dessa.
Conduziu a batalha como quem se retirava
e, sem que Ogum percebesse, Xangô o atraiu para a pedreira.
Foi então que Xangô apelou para a magia,
como é de seu feitio numa hora dessa.
Quando Ogum estava bem no pé da montanha de pedra,
Xangô lançou seu machado oxé de fazer raio
e um grande estrondo se ouviu.
Com o trovão veio abaixo uma avalanche de pedras
e as pedras soterraram o desprevenido Ogum.
Xangô vencera Ogum na pedreira,
que desde então foi considerada o elemento de Xangô.
Xangô venceu Ogum naquele dia,
única vez que alguém venceu Ogum.
Mas esses dois filhos de Iemanjá seguem lutando ainda,
ora disputando o amor da mãe, Iemanjá,
ora disputando o amor da amada, Oxum,
ora disputando o amor da companheira, Iansã.
-- "Xangô vence Ogum na pedreira", mito recolhido por Reginaldo Prandi, em "Mitologia dos Orixás".
26.2.03
John Dos Passos
O corpo de um americano
levaram para Chalôns-sur-Marne
e puseram-no limpo num caixão de pinho
e levaram-no de volta ao País de Deus num navio de guerra
e enterraram-no num sarcófago no Memorial
do Cemitério Nacional de Arlington
e envolveram-no no velho pavilhão
e o corneteiro fez soar o toque de silêncio
...........................................................
Woodrow Wilson trouxe um buquê de papoulas.
Guerra e pânico na bolsa de valores,
metralhadora, fogo e incêndio criminoso,
falências, empréstimos,
fome, piolhos, cólera e tifo;
bom tempo de crescimento para a Morgan House
........................................................................
-- Em 1919.
25.2.03
a cultura
a civilização
elas que se danem ou não
somente me interessam
contanto que me deixem
meu licor de jenipapo
o papo das noites de são joão
somente me interessam
contanto que me deixem
meu cabelo belo
meu cabelo belo
como a juba de um leão
contanto que me deixem
ficar na minha
contanto que me deixem
ficar com minha vida na mão
minha vida na mão
minha vida
a cultura a civilização
elas que se danem ou não
eu gosto mesmo
é de comer com coentro
eu gosto mesmo
é de ficar por dentro
como eu estive algum tempo
na barriga de claudina
uma velha baiana
cem por cento
a cultura a civilização...
-- Gilberto Gil, "Cultura e Civilização", anos 70.
a civilização
elas que se danem ou não
somente me interessam
contanto que me deixem
meu licor de jenipapo
o papo das noites de são joão
somente me interessam
contanto que me deixem
meu cabelo belo
meu cabelo belo
como a juba de um leão
contanto que me deixem
ficar na minha
contanto que me deixem
ficar com minha vida na mão
minha vida na mão
minha vida
a cultura a civilização
elas que se danem ou não
eu gosto mesmo
é de comer com coentro
eu gosto mesmo
é de ficar por dentro
como eu estive algum tempo
na barriga de claudina
uma velha baiana
cem por cento
a cultura a civilização...
-- Gilberto Gil, "Cultura e Civilização", anos 70.
24.2.03
Traduzir é sempre trair?
Sabe-se que por uma tradução malfeita dos Diálogos de Platão, o francês Étienne Dolet foi condenado à fogueira no séc. 16. O mesmo destino tiveram vários tradutores da Bíblia. No entanto, hoje em dia os tradutores que cometem erros crassos nada têm a temer. Obrigados a traduzir uma média de 50/70 laudas por dia para garantir a sobrevivência, é de se esperar que cometam barbaridades. Na outra ponta do barbante está o pobre leitor que não tem nada com isso e que, sem saber, pode estar levando gato por lebre. Antônio Houaiss costumava dizer que o fundamental num tradutor é que ele tenha o domínio da língua de destino, mais do que da língua de origem. Sendo assim, médicos deveriam traduzir livros de medicina, advogados, livros de direito, psicanalistas, livros de psicanálise e assim por diante. O que quase nunca acontece. As editoras têm pressa e hoje qualquer um que saiba falar um idioma estrangeiro já é considerado habilitado para fazer uma tradução. Talvez por preguiça, insegurança ou por achar mais divertido, eu abri mão de traduzir e me dediquei a revisar traduções como forma de ganhar a vida. É um trabalho espinhoso, muitas vezes não reconhecido por aquele tipo de tradutor arrogante que deseja sempre ser tratado como co-autor das obras que traduz. Como minha linha de trabalho é respeitar ao máximo o texto do autor, evitando erros e firulas de tradução, sou considerada a indispensável pedra no sapato. Eu e meus colegas de profissão. Mas não me queixo, pois até pode ser divertido ganhar a vida com as "traições" dos outros, vejam só:
. my job sucks - "meu trabalho chupa"
. life sucks - "chupadores da vida"
. half-nelson - "meio-nelson" (em vez de chave de nuca)
. misunderstand - "descompreender"
. mother tongue - "a língua da sua mãe"
. try hard - "tentar duro"
. Piss on me! - "Urinaram em mim!"
. patrician nose - "nariz patrício" (em vez de perfil aristocrático)
. political people - "o pessoal político"
. to turn a blind eye - "virar um olho cego" (em vez de fazer vista grossa)
. démon semi-chevalin - "demônio semicavalar" (em vez de demônio em forma de centauro)
. employee suits for sexual harassment - "funcionários organizam suítes p/ assédio sexual"
. to let the cat out of the bag - "deixar o gato fora do saco" (em vez de dar c/ a língua nos dentes)
. the least observant of mothers - "o menor observador de mães" (em vez de a menos observadora das mães)
. Grandma Moses (a pintora) - " a avó de Moisés"
e por aí vai...
Sabe-se que por uma tradução malfeita dos Diálogos de Platão, o francês Étienne Dolet foi condenado à fogueira no séc. 16. O mesmo destino tiveram vários tradutores da Bíblia. No entanto, hoje em dia os tradutores que cometem erros crassos nada têm a temer. Obrigados a traduzir uma média de 50/70 laudas por dia para garantir a sobrevivência, é de se esperar que cometam barbaridades. Na outra ponta do barbante está o pobre leitor que não tem nada com isso e que, sem saber, pode estar levando gato por lebre. Antônio Houaiss costumava dizer que o fundamental num tradutor é que ele tenha o domínio da língua de destino, mais do que da língua de origem. Sendo assim, médicos deveriam traduzir livros de medicina, advogados, livros de direito, psicanalistas, livros de psicanálise e assim por diante. O que quase nunca acontece. As editoras têm pressa e hoje qualquer um que saiba falar um idioma estrangeiro já é considerado habilitado para fazer uma tradução. Talvez por preguiça, insegurança ou por achar mais divertido, eu abri mão de traduzir e me dediquei a revisar traduções como forma de ganhar a vida. É um trabalho espinhoso, muitas vezes não reconhecido por aquele tipo de tradutor arrogante que deseja sempre ser tratado como co-autor das obras que traduz. Como minha linha de trabalho é respeitar ao máximo o texto do autor, evitando erros e firulas de tradução, sou considerada a indispensável pedra no sapato. Eu e meus colegas de profissão. Mas não me queixo, pois até pode ser divertido ganhar a vida com as "traições" dos outros, vejam só:
. my job sucks - "meu trabalho chupa"
. life sucks - "chupadores da vida"
. half-nelson - "meio-nelson" (em vez de chave de nuca)
. misunderstand - "descompreender"
. mother tongue - "a língua da sua mãe"
. try hard - "tentar duro"
. Piss on me! - "Urinaram em mim!"
. patrician nose - "nariz patrício" (em vez de perfil aristocrático)
. political people - "o pessoal político"
. to turn a blind eye - "virar um olho cego" (em vez de fazer vista grossa)
. démon semi-chevalin - "demônio semicavalar" (em vez de demônio em forma de centauro)
. employee suits for sexual harassment - "funcionários organizam suítes p/ assédio sexual"
. to let the cat out of the bag - "deixar o gato fora do saco" (em vez de dar c/ a língua nos dentes)
. the least observant of mothers - "o menor observador de mães" (em vez de a menos observadora das mães)
. Grandma Moses (a pintora) - " a avó de Moisés"
e por aí vai...
O Grande Circo Místico
O médico de câmara da imperatriz Teresa -- Frederico Knieps -- resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun -- a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo -- o trapezista Ludwig -- nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.
-- Jorge de Lima, 1938.
O médico de câmara da imperatriz Teresa -- Frederico Knieps -- resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun -- a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo -- o trapezista Ludwig -- nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.
-- Jorge de Lima, 1938.
22.2.03
A minha saia velhinha
Está toda rotinha
d'andar a bailar
agora tenh'uma nova
feitinha na moda
p'ra eu estriar.
Minha mãe casai-me cedo
enquanto sou rapariga:
que o milho ceifado tarde
não dá palha nem espiga!
O meu amor era torto
e eu mandei-o cavacar:
agora já tenho lenha
para fazer um jintar.
-- cantiga popular do Minho, Portugal.
Está toda rotinha
d'andar a bailar
agora tenh'uma nova
feitinha na moda
p'ra eu estriar.
Minha mãe casai-me cedo
enquanto sou rapariga:
que o milho ceifado tarde
não dá palha nem espiga!
O meu amor era torto
e eu mandei-o cavacar:
agora já tenho lenha
para fazer um jintar.
-- cantiga popular do Minho, Portugal.
21.2.03
Como se Deus não tivesse nada mais sério em que pensar, ele resolveu aviar o dia em que colocaria as mãos na alma de minha mãe.
E como se eu não tivesse nada mais sério em que acreditar, resolvi que não esperarei pelo Juízo Final para acertar minhas contas com ele.
A temporada de caça está aberta. Procuro Deus Vivo ou Morto. Pago bem.
E como se eu não tivesse nada mais sério em que acreditar, resolvi que não esperarei pelo Juízo Final para acertar minhas contas com ele.
A temporada de caça está aberta. Procuro Deus Vivo ou Morto. Pago bem.
O Arenque Defumado
Havia uma grande parede branca --
nua, nua, nua
Encostada na parede uma escada --
alta, alta, alta
E debaixo, um arenque defumado --
seco, seco, seco.
Compus esta história simples --
simples, simples, simples
Para enfurecer as pessoas sérias --
solenes, solenes, solenes
E entreter as criancinhas --
pequenas, pequenas, pequenas
-- Charles Cros
Havia uma grande parede branca --
nua, nua, nua
Encostada na parede uma escada --
alta, alta, alta
E debaixo, um arenque defumado --
seco, seco, seco.
Compus esta história simples --
simples, simples, simples
Para enfurecer as pessoas sérias --
solenes, solenes, solenes
E entreter as criancinhas --
pequenas, pequenas, pequenas
-- Charles Cros
20.2.03
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
-- Ana C, "Flores do mais".
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
-- Ana C, "Flores do mais".
19.2.03
A literatura das "boas maneiras" através dos tempos
séc. 13:
- Quando assoar o nariz ou tossir, vire-se de modo que nada caia em cima da mesa. (De la zinquanta cortesie da tavola, Bonvicino da Riva)
séc. 15:
séc. 13:
- Quando assoar o nariz ou tossir, vire-se de modo que nada caia em cima da mesa. (De la zinquanta cortesie da tavola, Bonvicino da Riva)
séc. 15:
- É indelicado assoar o nariz na toalha da mesa. (Ein spruch der ze tische kêrt)
- Não assoe o nariz com a mesma mão que usa para segurar a carne. (S'ensuivent les contenances de la table)
séc. 16:
- Assoar o nariz no chapéu ou na roupa é grosseiro, e fazê-lo com o braço ou o cotovelo é coisa de mercador. Tampouco é muito mais educado usar a mão, se imediatamente limpa a meleca na roupa. O correto é limpar as narinas com um lenço e fazer isto enquanto se vira, se pessoas mais respeitáveis estiverem presentes. Entre a meleca e o escarro há pouca diferença, exceto que o primeiro fluido deve ser interpretado como mais grosso e o segundo como mais sujo. Os autores latinos confundem constantemente o babador, o guardanapo, ou qualquer pedaço de linho, com o lenço. (...) É indelicado engolir a saliva, como também aqueles que vemos escarrando a cada 3 palavras, não por necessidade, mas por hábito.(...) O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas. Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um acesso de tosse. (...) Considerando a insalubridade de reter o peido: há uns dois versos no volume II dos epigramas de Nicharchos em que ele descreve a capacidade do peido retido de provocar doenças, mas uma vez que esses versos são citados por todo mundo, não vou comentá-los aqui. (De civilitate morum puerilium, Erasmo)
- Não ofereça o lenço a ninguém, a menos que ele esteja recém-lavado... Tampouco é correto, após assoar o nariz, abrir o lenço e olhar dentro dele como se pérolas e rubis pudessem ter caído de sua cabeça.(...) O que direi então... daqueles que enfiam o lenço na boca? ( Galateo, Della Casa)
séc. 17:
- À mesa assoar abertamente o nariz no lenço, sem se ocultar atrás do guardanapo, e enxugar o suor com ele...são hábitos sujos que dão a todos desejo de vomitar...Evite bocejar, assoar o nariz e escarrar. Se for obrigado a proceder assim em lugares mantidos limpos, use o lenço, ao mesmo tempo virando o rosto e ocultando-se com a mão esquerda, e não olhe para o lenço depois. (Nouveau traité de civilité, Courtain)
séc. 18:
- Há alguns anos as pessoas faziam uma arte do ato de assoar o nariz. Um imitava o som do trompete, outro o miado do gato. A perfeição residia em não fazer nem muito nem pouco ruído. (Le voyageur de Paris, La Mésangère)
- Na igreja, nas casas dos grandes, em todos os lugares onde reina a limpeza, você deve escarrar no lenço. Constitui um hábito imperdoavelmente grosseiro de crianças cuspir no rosto de seus companheiros de folguedos. Não há castigo que seja suficiente para essas maneiras deploráveis, como também para quem cospe pelas janelas, nas paredes e nos móveis...("Les Règles de la bienséance et de la civilité chrêtienne", La Salle)
séc. 19:
- Escarrar a todo momento é um hábito repugnante. Além de grosseiro e atroz, é muito ruim para a saúde. ("The habits of good society")
séc. 20:
- Você já notou que hoje relegamos para algum canto discreto o que nossos pais não hesitavam em exibir abertamente? Por isso mesmo, certa peça íntima tinha um lugar de honra... ninguém pensava em ocultá-la da vista. O mesmo se aplica a outra peça de mobília não mais encontrada em residências modernas, cujo desaparecimento alguém lamentará talvez nesta era de "bacilofobia": estou me referindo à escarradeira. (Moeurs intimes du temps passé, Cabanès)
-- Em "O Processo Civilizador", de Norbert Elias, 1939.
NOTAS PESSOAIS
Abandonei o hábito de ler. Não leio mais nada exceto um ou outro jornal, literatura leve e ocasionalmente livros técnicos referentes a algum assunto que possa estar estudando e no qual o simples raciocínio possa ser suficiente.
Quase que abandonei o tipo definido de literatura. Poderia lê-la para aprender ou por prazer. Mas nada tenho que aprender e o prazer que se pode colher de livros é de um tipo que se pode substituir com vantagem por aquele que o contacto com a natureza e a observação da vida podem diretamente proporcionar-me.
Encontro-me agora de plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare não pode mais ensinar-me a ser sutil, nem Milton a ser completo. Meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance que me possibilitam assumir qualquer emoção que desejo e penetrar à vontade dentro de qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que lutar é sempre um esforço e uma angústia, a plenitude, nenhum livro pode servir absolutamente de ajuda.
Não significa isto que me tenha livrado da tirania da arte literária. Aceito-a, apenas sujeita a mim mesmo.
Há um livro que sempre tenho a meu lado, Aventuras de Pickwick. Li e reli várias vezes livros de W.W. Jacobs. A decadência do romance policial fechou para sempre uma porta por onde penetrava eu na literatura moderna.
Deixei me interessar-me por gente simplesmente inteligente -- Wells, Chesterton, Shaw. As idéias que essa gente tem são iguais às que ocorrem a muitos não-escritores; a construção de suas obras é uma quantidade inteiramente negativa.
Houve um tempo em que eu lia apenas pela utilidade da leitura. Compreendi agora que há muito poucos livros úteis, mesmo em matérias técnicas pelas quais possa estar interessado.
A sociologia é por atacado...; quem pode suportar esse escolasticismo na Bizâncio de hoje?
Todos os meus livros são livros de consulta. Leio Shakespeare apenas com relação ao "problema Shakespeariano"; o resto já conheço.
Descobri que a leitura é uma espécie de sonho escravizador. Se devo sonhar, por que não sonhar os meus próprios sonhos?
-- Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo".
17.2.03
Lunário Perpétuo
O "Lunário Perpétuo" foi durante dois séculos o livro mais lido nos sertões do Nordeste. Dava informações sobre horóscopos, física rudimentar, fenômenos meteorológicos, receitas médicas, calendários, vidas de santos, biografias de papas, conhecimentos agrícolas, conselhos de veterinária e ensinamentos gerais. Ensinava até como construir um relógio de sol. Os fazendeiros seguiam seus prognósticos meteorológicos como lei, e os cantadores populares o consultavam quando precisavam saber noções de gramática, história, geografia, religião e mitologia. A primeira edição do "Lunário Perpétuo" é de 1703, em Lisboa. Hoje virou relíquia. Eis um dos conselhos publicados na edição de 1921: "Quando o bicho ou cobra entrar no corpo de alguma pessoa que estiver dormindo, o melhor remédio é tomar fumo de solas de sapatos velhos pela boca, por um funil, e o bicho sairá pela parte de baixo: coisa experimentada."
-
Cantiga nordestina
Mandei fazê um liforme
Bem feito, com perfeição,
Mode botá na cidade
No dia de uma enleição,
E o qual admirô
A toda população.
O chapéu de arroz doce,
Forrado de tapioca,
As fitas de alfenim
E as fivelas de paçoca
E a camisa de nata
E os botões de pipóca.
A ceroula de soro
E a calça de coalhada,
O cinturão de mantêga
E o broche de carne assada,
O sapato de pirão
E as biqueiras de cocáda.
As meias de mingáu
E os véus de gergelim,
E as aspas de pão-de-ló
E o anelão de bulim,
As fitas de gordura
E as luvas de toicim.
O colete de banana
O fraque de carne frita,
O lenço de marmê
E o lecre de cambica,
O colarim de bolacha
E a gravata de tripa.
O relógio de queijo,
A chave de rapadura,
A caçuleta de doce
E o trancelim de gordura.
Quem tem um liforme deste
Pode julgar-se em fartura.
-- Cantiga popular nordestina do início do séc. 20.
15.2.03
Zé do Caixão
Quem sou eu, não interessa, como também não interessa quem é você, ou melhor, não interessa quem somos. Na realidade o que importa é saber o que somos. Não se dê ao trabalho de pensar porque a conclusão seria: a loucura. O final de tudo, para o início de nada.
A coragem inicia onde o medo termina. O medo inicia onde a coragem termina. Mas será que existem a coragem e o medo? Coragem para quê? Medo do quê? De tudo? O que é tudo? Do nada? O que é nada?
A existência, o que é a existência? A morte? O que é a morte? Não seria a morte o início da vida? Ou seria a vida o início da morte?
Você não viu nada e quer ver tudo. Você viu tudo, mas não viu nada. Teme o que desconhece e enfrenta o que conhece. Por que teme o que desconhece e enfrenta o que conhece? Sua mente confusa não sabe o que procura. Porque o que procura confunde a sua mente. E nasce o terror. O terror da morte. O terror da dor. O terror do fantasma. O terror do outro mundo. Agora vê no terror que nada é terror, não existe o terror. No entanto o terror o aprisiona. O que é o terror? Ah! não aceita o terror porque o terror é você.
-
14.2.03
Mario Peixoto
Para sempre,
nem mais os braços enrodilhados dos amantes,
nem os lábios prestes ao sigilo
poderiam prender o fito corrompido
que o tempo encardiu,
reconquistando-o ao mar...
... As promessas são muitas
carregadas de correntes impossíveis
e as velas acesas queimam na noite intensa,
pelo desejo de uma prece,
derramadas nas lajes surdas
o derradeiro alento das ceras...
-- Em "Poemas de Permeio com o Mar".
12.2.03
Campos de Carvalho
Na Frente entregávamo-nos a todos os excessos, os previstos e os imprevistos, o uranismo comia à solta -- nem o general logrou escapar, nem fez por onde. Aquele silêncio acordava os apetites mais estranhos, era-se antropófago, onanista, hermafrodita, pederasta passivo ativo ou neutro, por nossas veias corria o esperma em vez do sangue: ceifavam-se muito mais vidas sob nossos testículos do que nas fileiras inimigas, havia um cabo Salvino que, esse, não tirava a mão do sexo. De uma feita surgiu um poema a um tenente muito loiro, era às vésperas de um combate que se tornaria histórico, o que contava era o momento presente, ninguém tinha família nem pênis definido: o general se emocionou e consentiu numa bacanal em grande estilo: era o que se poderia chamar uma ciranda copulativa, todos de mãos dadas -- de mãos propriamente não. O tenente foi um dos que morreram, como verdadeiro herói naturalmente; lutou como um bravo até o último instante, o esperma dentro das tripas.
Na volta não nos quiseram aceitar como pederastas passivos nem ativos: acabou-se a brincadeira, a coisa agora é pra valer. Quem tinha mulher muito bem, quem não tinha que se arrumasse: o Código Penal não distinguia entre vanguarda e retaguarda, nessa questão de sexo sempre fora intransigente -- pão pão, queijo queijo. Restava evidentemente o prazer solitário, contra esse não havia nenhuma sanção positiva, era como que tocar um instrumento de ouvido -- sua alma sua palma. Minha palma, minha alma: Helena em decúbito dorsal ou em decúbito ventral, não era a mesma coisa; Aristides com as suas nádegas, era perigoso, nunca se sabe ao certo o que um mudo pensa, nem qual o seu sexo; eu vagava entre as prostitutas e me sentia um estranho -- e aquele vazio por dentro pesando como um canhão.
11.2.03
Brane Mozetic
há coisas que você não sabe dizer
há coisas que você não se atreve dizer
não pode, não deve
poucas vezes se escapa uma frase doce
quando sinto que o frio está perto
há mentiras que na tua pele
deixam rastros, contusões, arranhões,
que longas semanas batem nos olhos
há palavras que você esconde
sussurra timidamente, me abraça
e com os olhos grandes pergunta
apenas perceptível, tremendo:
se continuará a me amar depois
e se é verdade que terei de morrer.
-
Sinto falta do Cruzeiro do Sul
quando a sede me faz erguer a cabeça
para beber teu vinho negro meia-noite.
E sinto falta das esquinas com armazéns dormilões
onde o perfume do mate treme na pele do ar.
Compreendo que isto está sempre lá
como um bolso onde a cada instante
a mão busca uma moeda o canivete o pente
a mão infatigável de uma estranha memória
que reconta seus mortos.
-- Julio Cortázar, em "Milonga", canção dedicada a Buenos Aires.
quando a sede me faz erguer a cabeça
para beber teu vinho negro meia-noite.
E sinto falta das esquinas com armazéns dormilões
onde o perfume do mate treme na pele do ar.
Compreendo que isto está sempre lá
como um bolso onde a cada instante
a mão busca uma moeda o canivete o pente
a mão infatigável de uma estranha memória
que reconta seus mortos.
-- Julio Cortázar, em "Milonga", canção dedicada a Buenos Aires.
10.2.03
Inutilidades úteis (2)
xumbrega -- palavra originária da expressão tomar uma xumbrega, embriagar-se. O soldado alemão Friedrich Hermann von Schomberg serviu como instrutor do exército português em Lisboa lá pelos idos de 1660. Como era beberrão, criou-se a expressão tomar uma Schomberg, por deturpação chegou-se a xumbrega. A expressão chegou ao Brasil com o mesmo significado, sofrendo com o tempo alterações. O folclorista Rodrigues de Carvalho registra em seu "Cancioneiro do Norte" o uso da expressão casa xumbrega ou à chomberga, significando casa pequena.
rasgar seda -- até onde se sabe a expressão foi usada por Martins Pena em uma de suas comédias(sem título). Um dos personagens, um vendedor de fazendas, corteja insistentemente uma dama, ao que ela retruca: "Não rasgue a seda, que esfiapa-se."
quando a galinha tiver dente -- o mesmo que "no dia de São Nunca". Expressão corrente em Portugal, no Brasil tomou a forma de "criar dente". A mesma expressão existe na França: "Quand les poules aurons des dents."
puxa vida! -- interjeição muito antiga, já era usada por D. Francisco Manuel de Melo na forma "hadepuxa!", considerada chula.
xumbrega -- palavra originária da expressão tomar uma xumbrega, embriagar-se. O soldado alemão Friedrich Hermann von Schomberg serviu como instrutor do exército português em Lisboa lá pelos idos de 1660. Como era beberrão, criou-se a expressão tomar uma Schomberg, por deturpação chegou-se a xumbrega. A expressão chegou ao Brasil com o mesmo significado, sofrendo com o tempo alterações. O folclorista Rodrigues de Carvalho registra em seu "Cancioneiro do Norte" o uso da expressão casa xumbrega ou à chomberga, significando casa pequena.
rasgar seda -- até onde se sabe a expressão foi usada por Martins Pena em uma de suas comédias(sem título). Um dos personagens, um vendedor de fazendas, corteja insistentemente uma dama, ao que ela retruca: "Não rasgue a seda, que esfiapa-se."
quando a galinha tiver dente -- o mesmo que "no dia de São Nunca". Expressão corrente em Portugal, no Brasil tomou a forma de "criar dente". A mesma expressão existe na França: "Quand les poules aurons des dents."
puxa vida! -- interjeição muito antiga, já era usada por D. Francisco Manuel de Melo na forma "hadepuxa!", considerada chula.
9.2.03
Relato [de um ex-macaco] a uma Academia
-- Kafka
Temo que talvez vocês não compreendam muito bem o que quero dizer com "saída". Uso a expressão no seu sentido mais pleno e popular. Deliberadamente não uso a palavra "liberdade". Não quero dizer o sentimento espaçoso de liberdade de todos os lados. Como macaco talvez eu soubesse disso, e conheci homens que anseiam por isso. Mas eu mesmo não desejei essa liberdade nem antes nem agora. A propósito, posso dizer que os homens são traídos com frequência pela palavra liberdade. E como a liberdade é considerada um dos sentimentos mais sublimes, assim a decepção correspondente também pode ser sublime. Nos teatros de variedades observei muitas vezes, antes de chegar a minha vez, um casal de acrobatas atuando nos trapézios lá em cima. Eles se balançavam, giravam para frente e para trás. Lançavam-se ao ar, flutuavam para os braços um do outro, um preso pelos cabelos nos dentes do outro. "E isso também é liberdade humana", pensei, "o autocontrole dos movimentos." Que imitação ridícula da Mãe Natureza! Se os macacos assistissem a tal espetáculo, as paredes do teatro não se suportariam de pé com o estrondo das suas gargalhadas.
Não, liberdade não era o que eu queria. Só uma saída. Para a direita ou para a esquerda, em qualquer direção. Eu não pedia outra coisa, mesmo que a saída provasse ser uma ilusão. O pedido era pequeno, o desapontamento não poderia ser maior. Sair! Só não ficar imóvel com os braços erguidos, esmagado contra uma parede de madeira.
-- Kafka
6.2.03
Por mais que eu desvie os olhos, elas estão lá, disputando espaço comigo no meu reflexo. Só eu envelheço, elas não. Eu as ovulo a cada mês. São muitas, são milhares. E depois de mim outras as ovularão, porque sua história não tem fim. Estão aqui agora. Eu posso vê-las. Estão aqui a Medusa, a Mulher Barbada, a Bruaca, a Dona Gorda, a Mulher Tatuada, a Indisciplinada, a Vênus, a Faminta, a Histérica, a Vampira, a Bulímica, as Gêmeas Siamesas, a Mãe, a Esposa, a Filha, a Bruxa, a Sogra, a Anã, a Anoréxica, as Sufragistas, as Megeras, a Modelo, a Criada, a Desregrada, a Prostituta, a Mutilada, a Mulher-Gorila, a Cyborg, a Mutante e todas as outras de que não lembro os nomes, embaçando a minha imagem. Onde eu estou no meio delas? Em que parte de mim? Por um segundo me ocorre que a felicidade deve ser um espelho em menopausa. Eu só tenho que esperar.
Jorge Mautner
Os pessimistas dizem: "Estamos numa época de decadência cultural, porque, vejam, sempre havia um movimento, a Bossa Nova, o Tropicalismo. Agora, nada! Isto é decadência!"
Esses lamentadores, ressentidos e chorosos pessimistas estão mais do que cegos. Não entendem que o que estão lamentando é o fim da cultura proposta como coisa linear, absoluta, dogmática, um movimento único, forte como flecha. Não entendem que o "último" destes movimentos, o Tropicalismo, justamente propunha o fim desse linearismo, desse sentido de "movimento único" e propunha em sua ontologia profunda a descentralização da liberdade.
5.2.03
Sabedoria árabe
-- Eu já falei que é boi, mas ele insiste em querer ordenhar...
-- Não gaste duas palavras se uma única basta.
-- O camelo riu uma vez na vida e rasgou os lábios para sempre.
-- Quem quer ficar bêbado não fica contando os copos.
-- Não pressiones demais o covarde que ele vira valente.
-- Quem quer comer o pão do rei deve cortá-lo com a espada.
-- Janta-o antes que ele te almoce.
-- Não adianta querer apressar o camelo.
-- Tudo dói na madame, só sua garganta continua boa.
-- Quando disseram ao gato que o seu excremento era útil, ele passou a enterrá-lo.
-- Só a tua unha é capaz de te coçar direito.
-- Pela repetição até o asno aprende.
-- Não aconselhes o tolo: em qualquer caso ele te culpará depois.
-- Não é por amor a Deus que o gato caça os ratos.
-- Tu és o que te habituaste a ser.
-- A vida é assim: um dia a favor, outro contra... isto para os mais afortunados.
-- Ano ruim tem 24 meses.
-- "Nora, nora... um dia também serás sogra!"
-- Não dá trela ao desocupado: ele fará de ti a sua ocupação.
-- É o homem que ganha o dinheiro, ou é o contrário?
-- Eu já falei que é boi, mas ele insiste em querer ordenhar...
-- Não gaste duas palavras se uma única basta.
-- O camelo riu uma vez na vida e rasgou os lábios para sempre.
-- Quem quer ficar bêbado não fica contando os copos.
-- Não pressiones demais o covarde que ele vira valente.
-- Quem quer comer o pão do rei deve cortá-lo com a espada.
-- Janta-o antes que ele te almoce.
-- Não adianta querer apressar o camelo.
-- Tudo dói na madame, só sua garganta continua boa.
-- Quando disseram ao gato que o seu excremento era útil, ele passou a enterrá-lo.
-- Só a tua unha é capaz de te coçar direito.
-- Pela repetição até o asno aprende.
-- Não aconselhes o tolo: em qualquer caso ele te culpará depois.
-- Não é por amor a Deus que o gato caça os ratos.
-- Tu és o que te habituaste a ser.
-- A vida é assim: um dia a favor, outro contra... isto para os mais afortunados.
-- Ano ruim tem 24 meses.
-- "Nora, nora... um dia também serás sogra!"
-- Não dá trela ao desocupado: ele fará de ti a sua ocupação.
-- É o homem que ganha o dinheiro, ou é o contrário?
4.2.03
Inutilidades úteis
a dar com pau: quando as aves de arribação vinham em numerosos bandos da África para o Nordeste e pousavam nos campos, extenuadas, eram mortas a pauladas pelos sertanejos, aos milhares. Daí o significado de "grande abundância", "em demasia".
Amélia: na Inglaterra sinônimo de boa esposa, modelo de afeição conjugal citado no romance "Amelia", de Henry Fielding, em 1751.
rua da amargura: a Via Sacra.
não-me-toques: forma substantivada da frase que Cristo disse a Madalena depois da Ressurreição.
até aí morreu Neves: deriva de "Inês é morta" e de "Queen Anne is dead", na Inglaterra. O significado é o mesmo nos 3 casos: resposta a uma longa narrativa de fatos já sabidos.
para baixo todo santo ajuda: provém de "Facilis descensus Averno", frase de Virgílio na "Eneida", significando "a descida para o inferno é mais fácil", e assim "descer é mais fácil do que subir".
boi voar: locução adaptada de um ditado latino, "Asinus in tegulis": burro no telhado, com o mesmo significado. Rui Barbosa adorava utilizar a expressão em seus discursos políticos, afirmando ser mais fácil um boi voar do que ver o extermínio das oligarquias.
E chega.
a dar com pau: quando as aves de arribação vinham em numerosos bandos da África para o Nordeste e pousavam nos campos, extenuadas, eram mortas a pauladas pelos sertanejos, aos milhares. Daí o significado de "grande abundância", "em demasia".
Amélia: na Inglaterra sinônimo de boa esposa, modelo de afeição conjugal citado no romance "Amelia", de Henry Fielding, em 1751.
rua da amargura: a Via Sacra.
não-me-toques: forma substantivada da frase que Cristo disse a Madalena depois da Ressurreição.
até aí morreu Neves: deriva de "Inês é morta" e de "Queen Anne is dead", na Inglaterra. O significado é o mesmo nos 3 casos: resposta a uma longa narrativa de fatos já sabidos.
para baixo todo santo ajuda: provém de "Facilis descensus Averno", frase de Virgílio na "Eneida", significando "a descida para o inferno é mais fácil", e assim "descer é mais fácil do que subir".
boi voar: locução adaptada de um ditado latino, "Asinus in tegulis": burro no telhado, com o mesmo significado. Rui Barbosa adorava utilizar a expressão em seus discursos políticos, afirmando ser mais fácil um boi voar do que ver o extermínio das oligarquias.
E chega.
3.2.03
Noémia de Sousa
Deixa passar o meu povo
Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
-- certos e constantes --
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spirituals negros do Harlem.
Let my people go
-- oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo --,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
Let my people go.
Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo...
(Dentro de mim,
oh let my people go...)
deixa passar o meu povo.
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda -- minha Irmã.
Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé -- meu irmão -- e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
-- let my people go,
oh let my people go.
E enquanto me vierem do Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insônia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go,
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.
-
2.2.03
Camões para Normais
Todo mundo tem um amigo ou pelo menos conhece alguém que quer ser escritor e que deseja fazer da literatura uma forma de alpinismo sociocultural. Arrogantes, blasé e auto-referenciados, julgam que por dominarem um universo lingüístico mais dilatado do que o dos comuns normais possuem um pensamento mais sofisticado, um raciocínio que pode se provar equivocado. Como em geral eles adoram, em conversas informais, fazer citações de autores de que você nunca ouviu falar (os nomes abreviados tipo W.C. Fulano, W.H. Sicrano, ou D.H. Beltrano são os preferidos), não se sinta mais constrangido. Tasque logo um Camões na conversa que eles podem até lhe fazer o favor de calar a boca para ouvi-lo. Quantos deles sabem realmente o significado das estrofes mais conhecidas de "Os Lusíadas", por exemplo? Veja aqui e não perca tempo. A vingança é doce.
As armas e os barões assinalados (= homens ilustres)
Que, da Ocidental praia Lusitana, (= Portugal)
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana, (= nome clássico da ilha de Ceilão)
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram; (= império português na Ásia)
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas (= privadas da religião cristã)
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas (= feitos)
Se vão da lei da Morte libertando: (= esquecimento)
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (= eloqüência)
Cessem do sábio Grego e do Troiano (= Ulisses e Enéias)
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano (= Alexandre Magno; Trajano, imperador romano)
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano, (= o valor português)
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, (= Poesia)
Que outro valor mais alto se alevanta.
Todo mundo tem um amigo ou pelo menos conhece alguém que quer ser escritor e que deseja fazer da literatura uma forma de alpinismo sociocultural. Arrogantes, blasé e auto-referenciados, julgam que por dominarem um universo lingüístico mais dilatado do que o dos comuns normais possuem um pensamento mais sofisticado, um raciocínio que pode se provar equivocado. Como em geral eles adoram, em conversas informais, fazer citações de autores de que você nunca ouviu falar (os nomes abreviados tipo W.C. Fulano, W.H. Sicrano, ou D.H. Beltrano são os preferidos), não se sinta mais constrangido. Tasque logo um Camões na conversa que eles podem até lhe fazer o favor de calar a boca para ouvi-lo. Quantos deles sabem realmente o significado das estrofes mais conhecidas de "Os Lusíadas", por exemplo? Veja aqui e não perca tempo. A vingança é doce.
As armas e os barões assinalados (= homens ilustres)
Que, da Ocidental praia Lusitana, (= Portugal)
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana, (= nome clássico da ilha de Ceilão)
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram; (= império português na Ásia)
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas (= privadas da religião cristã)
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas (= feitos)
Se vão da lei da Morte libertando: (= esquecimento)
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (= eloqüência)
Cessem do sábio Grego e do Troiano (= Ulisses e Enéias)
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano (= Alexandre Magno; Trajano, imperador romano)
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano, (= o valor português)
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, (= Poesia)
Que outro valor mais alto se alevanta.
31.1.03
Já passava da meia-noite. Passava da meia-noite e chovia fino, o que para mim não significaria nada se não estivesse chovendo há mais de três dias. A louça sobre a pia ia desaparecendo peça por peça enquanto eu recheava os armários da cozinha. Xícaras à direita, pratos à esquerda, panelas no alto, copos e talheres embaixo. Na mesa das refeições apenas a minha sombra dividia o espaço com garrafas vazias. Estaria mentindo se dissesse que estou com sono. Eu não sabia mais o que era dormir, embora não me faltassem silêncio e tudo o que pudesse imaginar para dar forma a uma boa noite de descanso. Cortinas fechadas, luzes baixas, poltronas de almofadões, sofás convidativos, televisão acesa e muda, cobertores espalhados pelo chão, tapetes felpudos e ninguém mais. Ainda assim alguma coisa parecia me impedir de pregar o olho. Alguma coisa de que eu não me dava conta mas que no entanto estava lá. Há muito tempo. Tempo suficiente para me incomodar, me perturbar as horas, atrapalhar meu banho, amarrotar minhas roupas, embaçar meu espelho, azedar minha comida, esfriar minha cama. E eu sabia que era alguma coisa que não fazia barulho ao andar, embora andasse. Que não batia à porta, embora entrasse. Que não conversava comigo, embora falasse. Alguma coisa medonha, de hálito medonho e medonha geometria. Alguma coisa que já havia se transformado em sensação, uma sensação desprezível, ao mesmo tempo intrusa e vazia, como se eu tivesse recebido a notícia de uma tragédia na qual não tomara parte. E a sensação estava lá. Acompanhando meus passos pela casa. Infiltrada nas paredes, bastava tocá-las. Misturada na água, fervida nos temperos, evaporando dos perfumes, na trama das toalhas, na superfície dos capachos, nas fotos de casamento, nas dobras dos lençóis, nas páginas dos livros, na gaveta das meias, nos brinquedos pelo chão, na garrafa térmica, nas chaves do carro, nas fotos dos filhos, nos diálogos dos personagens, na roupa lavada, na tinta da caneta, nas folhas do calendário, nos fios de tampax, nos telefonemas, nos dias de festa, no cheiro de gordura, no sol refletido nas lentes, nas quinas dos móveis, nos bicos de gás, nos cremes hidratantes, nas contas de luz empilhadas, no mofo, nas fotos dos netos, nas janelas empenadas, na caixa de costura, nos sacos de supermercado, nas flores secas, no pêndulo do relógio, nas receitas de remédios. Estava lá. E me acompanhava sem estar ao meu lado. Eu podia sentir suas mãos firmes se fechando sobre as minhas e me levando para dentro de sua casa. Uma casa onde as noites chegam de repente e não há fila de espera. Uma casa comum, numa rua como as demais. Uma casa comum mas com uma única diferença, e essa diferença distraía minhas horas.
30.1.03
Nesse sábado, com um otimismo radioativo, abri o jornal:
QUESTÃO DE MOMENTO
A Sociedade Protetora dos Animais e a Prefeitura
Grande Escândalo
"Faz muito tempo já que essa
Benemérita sociedade que usa o
..............................................."
O artigo preenchia uma viagem de bonde. Dava-me a impressão de um anúncio num muro. Uma questão de bois. Antes foi uma longínqua complicação dos Bálcãs -- intestinos da Europa. O caso era o seguinte: o Conselho Municipal legislara sobre a condução e proteção bovinas. Os bois da cidade deveriam ter a sua carteira de identidade escrita no chifre esquerdo, para que todos vissem, menos as pessoas do lado direito. Para protegê-los, cada boi deveria ter um homem vestido de verde, ao lado. Este homem estava encarregado de proteger e educar o animal. A S.P. dos A. protestou declarando que era uma barbaridade MEDIEVAL (oxalá!) gravar números (equações e logaritmos) nos chifres bovinos: sugeriu mui nobre e alcandoramente que se amarrasse a certidão à ponta da cauda. Discussões e descomposturas pelos a-pedidos dos jornais existentes e inexistentes, lidos e ignorados. Finalmente a Cara da Cidade (que eu estava lendo) espalhou que o prefeito queria nomear amigos seus para esses novos cargos. Jornais oposicionistas como os poetas ao dinheiro diziam a mesma coisa. O prefeito queria nomear os bacharéis F, S, B. Há um mês e tanto essa questão preocupava o espírito de todos os cidadãos. Os bairros da cidade entrecombatiam-se. Tentativas de separatismo. Botafogo quis constituir-se independente sob a regência de um dinheiroso toucinheiro local.
Pensei longamente a respeito. Fi-lo de tal modo que deixei de pensar. Dobrei outra página.
Escândalo! Escândalo!
O caso dos pijamas cor de sabão
O prefeito resolvera decretar que na cidade, dentro e fora de casa, só se poderiam usar pijamas cor de sabão. Os críticos literários protestaram logo. A lei não dizia de que cor era o sabão. Toda a gente se indignou com grande veemência de pronomes mal colocados. Sabão, diziam os peritos prefeiturais, é mais ou menos amarelado; sabonete, sim, é colorido. Invocara-se um longínquo texto russo ou chinês. Decretara-se um tipo uniforme. A casa vendedora? Percorreram-se todas ( a população tem o excesso da obediência). Só se encontrou uma --- F X & Cia. O escândalo? O prefeito queria enriquecer uma firma.
Tomei o café depressa, detestando as mulheres que cheiram a museus e coleções de selos.
-- Teixeira Soares, em "Vida em Espiral", publicado na revista literária "Estética", 1924.
27.1.03
Manual de Civilidade das Meninas
Manual de Civilidade das Meninas
(destinado às escolas)
Não digas... Diz...
Não digas "a minha cona", diz "o meu coração".
Não digas "tenho vontade de foder", diz "estou nervosa".
Não digas "gozei que foi uma loucura", diz "sinto-me um pouco fatigada".
Não digas "vou masturbar-me", diz "vou ali e volto já".
Não digas "quando eu tiver pentelhos", diz "quando eu for crescida".
Não digas "gosto mais de língua do que de pixota", diz "sou chegada a prazeres delicados".
Não digas "entre as refeições só bebo esperma", diz "sigo um regime especial".
Não digas "os romances honestos me chateiam", diz "quero qualquer coisa interessante para ler".
Não digas "deixa-se enrabar por todos os que lhe fazem minete", diz "é muito namoradeira".
Não digas "vi-a foder pelos dois buracos", diz "é uma eclética".
Não digas "ela goza como uma égua", diz "é uma exaltada".
Não digas "é uma menina que se masturba até morrer", diz "é uma sentimental".
Não digas "ela se deixa enrabar por todos que a masturbam", diz "ela flerta um pouco".
Não digas "ele entesa como um cavalo", diz "é um jovem completo".
Não digas "quando o chupam, descarrega no ato", diz "ele é muito espontâneo".
Não digas "tem a pixota grossa demais para a minha boca", diz "sinto-me pequena quando falo com ele".
Não digas "gozou na minha boca e eu na dele", diz "trocamos algumas impressões".
Não digas "tenho uma dúzia de consolos na gaveta", diz "nunca me aborreço sozinha".
Não digas "ele dá três sem desencavar", diz "tem um caráter muito firme".
Não digas "fode muito bem mas não sabe enrabar", diz "é um simplório".
-- Pierre Louÿs
24.1.03
-- Eu não acredito em deus -- disse eu. Arlene começara a primeira das muitas margaritas que se seguiriam durante o dia. Fora avisada por seu médico para deixar de tomar tequila de manhã. Ele suplicara a ela que substituísse por um vinho leve, refrescante, bom para o desjejum, como os de Napa Valley. Ele mesmo possuía ações da viticultura. Venderia sua própria marca. "Mas vinho me dá gases", dizia Arlene com firmeza.
-- Ah, tudo é deus. -- Arlene olhou para o tudo a sua volta. Neste caso, tudo representava a treliça de sequóia ao redor da piscina que ela pintara de amarelo, um trecho de céu marrom de poluição, moitas de hibiscos empoeiradas, o passarinho morto que o jardineiro japonês vivia esquecendo de tirar do pequeno jardim de cactos.
-- Ou nada.
-- Isso é metafísico demais. -- Arlene gostava de me lembrar da boa educação que tivera no Meio-oeste. Porém, como era a primeira a confessar, ela esqueceu tudo que aprendeu, junto com as milhões de palavras que fora obrigada a decorar como atriz, cantora e camelô de TV. Quando menina, sempre disse que queria ser veterinária. Porém o mundo do show-business a havia agarrado pela bela garganta. No final dos anos 40 e início dos 50, ela foi quase, mas não chegou a ser, uma estrela de cinema. Agora, na meia-idade do nunca é tarde demais, ela era a camelô mais bem paga da TV, depois de Barbara Walters. Uma celebridade total.
-- Gore Vidal, em "Kalki".
23.1.03
Poeta bom é poeta morto
Para as grandes editoras, poeta bom é poeta morto. Bom aqui significando viável comercialmente. Viável comercialmente por sua vez tanto pode ser que dê lucros de vendagem ou que proporcione um verniz de seriedade ao catálogo da editora perante a mídia e o público leitor. Para a mão invisível do mercado, poeta bom é poeta morto principalmente se morreu jovem e/ou de forma trágica. Se você possui alguma notoriedade como poeta no seu pequeno círculo de amigos escritores ou aficionados por literatura, se já inclusive publicou seus textos naquelas brochuras ridículas de 32 páginas porque seu dinheiro não deu para pagar mais, ou teve a sorte de algum jornalista vagamente conhecido seu publicar um poeminha de sua autoria no caderno especial de um grande jornal ou num jornal pequeno lá do Nordeste, fique sabendo que se você se jogar do alto de um prédio ou enfiar a cabeça num forno, certamente vai ganhar muito mais espaço de divulgação. Se você for craque mesmo, é provável até que consiga uma edição de tiragem limitada de sua obra póstuma. Agora, se o suicídio não está na agenda de sua estratégia de marketing (até porque você é covarde demais para isso) e você sabe que no pequeno mundo de poetas maiores e poetas menores você não passa de mais um nanopoeta condenado a ouvir de sucessivos editores que o seu livro é muito bom mas que infelizmente a programação para o ano já está fechada, então eu só posso sinceramente nos desejar boa sorte.
22.1.03
DIALÉTICA NEGATIVA I
no não o sim
no sim no não o não
no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não o não
no não no sim no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não no sim no não o não
mas como vai ser possível
--------------------------------------
DIALÉTICA NEGATIVA II
não
não?
não não
não não?
não não não
não não não?
não não não não
não não não não?
não não não não não
não não não não não?
não não não não não não
não não não não não não?
não não não não não não não
não não não não não não não?
não não não não não não não não
não não não não não não não não?
não não não não não não não não não
não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não não?
então tá
--- Helmut Heissenbüttel, trad. MP.
no não o sim
no sim no não o não
no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não o não
no não no sim no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não no sim no não o não
mas como vai ser possível
--------------------------------------
DIALÉTICA NEGATIVA II
não
não?
não não
não não?
não não não
não não não?
não não não não
não não não não?
não não não não não
não não não não não?
não não não não não não
não não não não não não?
não não não não não não não
não não não não não não não?
não não não não não não não não
não não não não não não não não?
não não não não não não não não não
não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não não?
então tá
--- Helmut Heissenbüttel, trad. MP.
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