30.1.03

Nesse sábado, com um otimismo radioativo, abri o jornal:

QUESTÃO DE MOMENTO
A Sociedade Protetora dos Animais e a Prefeitura
Grande Escândalo
"Faz muito tempo já que essa
Benemérita sociedade que usa o
..............................................."

O artigo preenchia uma viagem de bonde. Dava-me a impressão de um anúncio num muro. Uma questão de bois. Antes foi uma longínqua complicação dos Bálcãs -- intestinos da Europa. O caso era o seguinte: o Conselho Municipal legislara sobre a condução e proteção bovinas. Os bois da cidade deveriam ter a sua carteira de identidade escrita no chifre esquerdo, para que todos vissem, menos as pessoas do lado direito. Para protegê-los, cada boi deveria ter um homem vestido de verde, ao lado. Este homem estava encarregado de proteger e educar o animal. A S.P. dos A. protestou declarando que era uma barbaridade MEDIEVAL (oxalá!) gravar números (equações e logaritmos) nos chifres bovinos: sugeriu mui nobre e alcandoramente que se amarrasse a certidão à ponta da cauda. Discussões e descomposturas pelos a-pedidos dos jornais existentes e inexistentes, lidos e ignorados. Finalmente a Cara da Cidade (que eu estava lendo) espalhou que o prefeito queria nomear amigos seus para esses novos cargos. Jornais oposicionistas como os poetas ao dinheiro diziam a mesma coisa. O prefeito queria nomear os bacharéis F, S, B. Há um mês e tanto essa questão preocupava o espírito de todos os cidadãos. Os bairros da cidade entrecombatiam-se. Tentativas de separatismo. Botafogo quis constituir-se independente sob a regência de um dinheiroso toucinheiro local.
Pensei longamente a respeito. Fi-lo de tal modo que deixei de pensar. Dobrei outra página.

Escândalo! Escândalo!
O caso dos pijamas cor de sabão

O prefeito resolvera decretar que na cidade, dentro e fora de casa, só se poderiam usar pijamas cor de sabão. Os críticos literários protestaram logo. A lei não dizia de que cor era o sabão. Toda a gente se indignou com grande veemência de pronomes mal colocados. Sabão, diziam os peritos prefeiturais, é mais ou menos amarelado; sabonete, sim, é colorido. Invocara-se um longínquo texto russo ou chinês. Decretara-se um tipo uniforme. A casa vendedora? Percorreram-se todas ( a população tem o excesso da obediência). Só se encontrou uma --- F X & Cia. O escândalo? O prefeito queria enriquecer uma firma.
Tomei o café depressa, detestando as mulheres que cheiram a museus e coleções de selos.

-- Teixeira Soares, em "Vida em Espiral", publicado na revista literária "Estética", 1924.

27.1.03

Manual de Civilidade das Meninas



Manual de Civilidade das Meninas
(destinado às escolas)


Não digas... Diz...


Não digas "a minha cona", diz "o meu coração".

Não digas "tenho vontade de foder", diz "estou nervosa".
Não digas "gozei que foi uma loucura", diz "sinto-me um pouco fatigada".
Não digas "vou masturbar-me", diz "vou ali e volto já".
Não digas "quando eu tiver pentelhos", diz "quando eu for crescida".
Não digas "gosto mais de língua do que de pixota", diz "sou chegada a prazeres delicados".
Não digas "entre as refeições só bebo esperma", diz "sigo um regime especial".
Não digas "os romances honestos me chateiam", diz "quero qualquer coisa interessante para ler".
Não digas "deixa-se enrabar por todos os que lhe fazem minete", diz "é muito namoradeira".
Não digas "vi-a foder pelos dois buracos", diz "é uma eclética".
Não digas "ela goza como uma égua", diz "é uma exaltada".
Não digas "é uma menina que se masturba até morrer", diz "é uma sentimental".
Não digas "ela se deixa enrabar por todos que a masturbam", diz "ela flerta um pouco".
Não digas "ele entesa como um cavalo", diz "é um jovem completo".
Não digas "quando o chupam, descarrega no ato", diz "ele é muito espontâneo".
Não digas "tem a pixota grossa demais para a minha boca", diz "sinto-me pequena quando falo com ele".
Não digas "gozou na minha boca e eu na dele", diz "trocamos algumas impressões".
Não digas "tenho uma dúzia de consolos na gaveta", diz "nunca me aborreço sozinha".
Não digas "ele dá três sem desencavar", diz "tem um caráter muito firme".
Não digas "fode muito bem mas não sabe enrabar", diz "é um simplório".

-- Pierre Louÿs


Poema Datado (1)


mamãe vivia dizendo que ele não prestava
mas eu o achava um partidão
troquei os bobes pelas reformas de base


maira parula

24.1.03

-- Eu não acredito em deus -- disse eu. Arlene começara a primeira das muitas margaritas que se seguiriam durante o dia. Fora avisada por seu médico para deixar de tomar tequila de manhã. Ele suplicara a ela que substituísse por um vinho leve, refrescante, bom para o desjejum, como os de Napa Valley. Ele mesmo possuía ações da viticultura. Venderia sua própria marca. "Mas vinho me dá gases", dizia Arlene com firmeza.

-- Ah, tudo é deus. -- Arlene olhou para o tudo a sua volta. Neste caso, tudo representava a treliça de sequóia ao redor da piscina que ela pintara de amarelo, um trecho de céu marrom de poluição, moitas de hibiscos empoeiradas, o passarinho morto que o jardineiro japonês vivia esquecendo de tirar do pequeno jardim de cactos.

-- Ou nada.

-- Isso é metafísico demais. -- Arlene gostava de me lembrar da boa educação que tivera no Meio-oeste. Porém, como era a primeira a confessar, ela esqueceu tudo que aprendeu, junto com as milhões de palavras que fora obrigada a decorar como atriz, cantora e camelô de TV. Quando menina, sempre disse que queria ser veterinária. Porém o mundo do show-business a havia agarrado pela bela garganta. No final dos anos 40 e início dos 50, ela foi quase, mas não chegou a ser, uma estrela de cinema. Agora, na meia-idade do nunca é tarde demais, ela era a camelô mais bem paga da TV, depois de Barbara Walters. Uma celebridade total.

-- Gore Vidal, em "Kalki".

23.1.03

Poeta bom é poeta morto


Para as grandes editoras, poeta bom é poeta morto. Bom aqui significando viável comercialmente. Viável comercialmente por sua vez tanto pode ser que dê lucros de vendagem ou que proporcione um verniz de seriedade ao catálogo da editora perante a mídia e o público leitor. Para a mão invisível do mercado, poeta bom é poeta morto principalmente se morreu jovem e/ou de forma trágica. Se você possui alguma notoriedade como poeta no seu pequeno círculo de amigos escritores ou aficionados por literatura, se já inclusive publicou seus textos naquelas brochuras ridículas de 32 páginas porque seu dinheiro não deu para pagar mais, ou teve a sorte de algum jornalista vagamente conhecido seu publicar um poeminha de sua autoria no caderno especial de um grande jornal ou num jornal pequeno lá do Nordeste, fique sabendo que se você se jogar do alto de um prédio ou enfiar a cabeça num forno, certamente vai ganhar muito mais espaço de divulgação. Se você for craque mesmo, é provável até que consiga uma edição de tiragem limitada de sua obra póstuma. Agora, se o suicídio não está na agenda de sua estratégia de marketing (até porque você é covarde demais para isso) e você sabe que no pequeno mundo de poetas maiores e poetas menores você não passa de mais um nanopoeta condenado a ouvir de sucessivos editores que o seu livro é muito bom mas que infelizmente a programação para o ano já está fechada, então eu só posso sinceramente nos desejar boa sorte.

Três semanas depois

Quando voltei de viagem
e entrei no meu apartamento
vi sobre a mesa aquele cinzeiro
que esqueci de esvaziar. ---
Há coisas que não têm desculpa.

-- Günter Grass, trad. MP.

Nota de rodapé sobre Roma


Eu não lanço moedas às fontes:
não penso em voltar.

Tanto Ocidente
parece suspeito.

Deixaram de fora mundo demais
e não há lugar
para os jardins japoneses.

-- Günter Eich, trad. MP.

22.1.03

DIALÉTICA NEGATIVA I

no não o sim
no sim no não o não
no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não o não
no não no sim no não no sim no não o sim
no sim no não no sim no não no sim no não o não

mas como vai ser possível

--------------------------------------


DIALÉTICA NEGATIVA II

não
não?
não não
não não?
não não não
não não não?
não não não não
não não não não?
não não não não não
não não não não não?
não não não não não não
não não não não não não?
não não não não não não não
não não não não não não não?
não não não não não não não não
não não não não não não não não?
não não não não não não não não não
não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não?
não não não não não não não não não não não não não
não não não não não não não não não não não não não?

então tá


--- Helmut Heissenbüttel, trad. MP.

21.1.03

Bebo para
poder falar ao idiota.
O que me inclui.

-- Jim Morrison, em "As I Look Back".

É tempo de apertar os freios à minha inspiração e de deter na estrada por um instante, como quando se contempla a vagina de uma mulher; é bom examinar o caminho percorrido e lançar seguidamente num salto impetuoso os membros repousados. Não é fácil fazer uma caminhada de um só fôlego; e as asas cansam-se muito num vôo alto, sem esperança e sem remorso. Não... não levemos mais ao fundo a feroz matilha das picaretas e escavações através das minas explosivas deste canto ímpio! O crocodilo não mudará uma palavra ao vômito que lhe saiu de debaixo do crânio. Tanto pior se alguma sombra furtiva, levada pelo objetivo louvável de vingar a humanidade por mim injustamente atacada, abrir sub-repticiamente a porta do meu quarto, roçando a parede como a asa de um albatroz, e cravar um punhal nas costas do salteador dos destroços celestes! É indiferente que a argila dissolva os seus átomos dessa ou de outra maneira.

-- Conde de Lautréamont, em "Cantos de Maldoror".

19.1.03

dizem que em alguma parte
parece que no Brasil
existe um homem feliz

-- Maiakovski, 1913.

17.1.03

De modo algum eu revelaria o meu nome a vocês. Por dois motivos. Primeiro, e menos importante, porque ele é muito idiota. Pior do que burros, meus pais eram preguiçosos. No dia em que nasci, eles ligaram a TV do quarto do hospital e escolheram para mim o nome do morto célebre do dia. Sorte que era mulher, eu gostaria ainda menos se me chamassem por aí de Louis de Funès. O segundo motivo é aquele que diz que uma mulher não deve vir a público confessar suas intimidades, o que estou prestes a fazer neste exato momento. E não deve fazê-lo muito menos por escrito, o que dá à confissão um caráter de revelação oficial, inapagável. Mesmo assim, estou decidida a fazer tudo por escrito, embora não seja escritora. O fato de ter uma idéia na cabeça e um laptop à mão não faz de mim uma escritora, embora tenha gente que não pense assim. Como quase todo mundo, sou uma Homo sapiens alfabetizada. E já me dou por satisfeita. Faço questão de manter o meu narcisismo em rédea curta e assim livro os outros do inconveniente de ter de me dar respostas positivas a tudo que faço. Não pensem que é fácil. Mais difícil é abrir mão das reservas e me expor completamente aqui. De que forma introduzir o assunto? É um tema mundano que poucos homens abordam, quase sempre em tom de piada, para disfarçar o constrangimento ou para agredir propositadamente ouvidos puritanos. Mulher então, nem se fala. Sim, porque eu nunca vi uma mulher dizer com todas as letras que peida. Ufa, pronto. Saiu. Consegui afinal. É isso. Totalmente despida das vaidades mais pessoais, eu confesso que peido. E não é pouco. Peido pela manhã, à tardinha e à noite. Peido sempre que me sinto compelida a peidar. Peido na intimidade do meu banheiro, em ambientes semi-abertos e ao ar livre. Peido sem preconceito de tempo e espaço. E como se meus flatos tivessem mais urgência do que eu em cumprir o seu próprio destino, eles me convocam nas horas e lugares mais absurdos só para pôr à prova a minha coragem de extravasá-los. Numa reunião de condomínio, no cinema, numa pool-party, segundos antes do orgasmo, durante um brainstorming, na decolagem do avião, dentro de elevadores, na cadeira do dentista, descendo o Pelourinho, num almoço de negócios, num jantar em família. A princípio eu os interpretava como puros sinais de nervosismo. Tensão acumulada. Estresse. Mas com o tempo fui percebendo que eu peidava sob a pressão de quaisquer circunstâncias. Favoráveis ou não. Peidava de alegria e peidava de tristeza. Tudo era motivo para peidar. Falando assim, posso estar dando a impressão de uma personalidade compulsiva e abjeta. Nojenta mesmo. Mas não. Nunca me encarei desta forma. Nunca ninguém me encarou desta forma, pelo menos até o momento em que escrevo estas confissões. E sabem por quê? Porque antes de tudo, sou uma flatuosa discreta, anônima. Aqueles que me cercam certamente já desfrutaram o odor de minhas entranhas, mas jamais souberam localizá-lo. E mesmo se soubessem, dariam a importância que dão à atmosfera de Cubatão. Isto é dizer, nenhuma. Representantes privilegiados de uma classe média em órbita, meus amigos só sabem distinguir os perfumes pelo preço. Para eles só o que é barato fede. E como eu sou relativamente bem-sucedida e bem relacionada, o que os torna doentiamente dependentes da minha proximidade, para eles eu sou sempre cheirosa. E sou mesmo. Ninguém pode negar. Pode-se conhecer uma pessoa pelo cheiro. E ainda hoje, apesar da globalização, pode-se conhecer a nacionalidade de uma pessoa pelo cheiro. Os húngaros cheiram a cebola. Os armênios cheiram a carne crua. Os gregos têm cheiro de alho e iogurte. Os portugueses cheiram a chouriço e pão-de-ló. E os belgas, a roupa suja. Já os meus cachorros têm cheiro de roupa recém-passada. E eu, antes que me perguntem, tenho cheiro de sol. Um sol tão agradável ao olfato que até me esqueço que o que me trouxe aqui foi um motivo tão torpe. E você? Tem cheiro de quê?


maira parula

15.1.03

MEU CORPO CAIU ASSIM

BATENDO BATENDO

QUERENDO QUE O VENTO

SE ESPATIFASSE NO IMPERFEITO



maira parula

Como vão o seu revólver, a sua Bíblia e seus comprimidos para dormir? Você ainda continua pulando das janelas com roupas caras?

-- Tom Waits, em "Who are you?"

"A geração beat foi só um nome que usei no original de On the road para descrever caras como Moriarty, que percorriam o país de carro, atrás de biscates, mulheres e farras. Mais tarde foi aproveitado por grupos de esquerda da Costa Oeste e ganhou um sentido de "rebelião beat" e "insurreição beat" e outras bobagens. Eles só queriam se agarrar a um movimento qualquer da juventude para atingir seus objetivos políticos e sociais. Eu não tive nada a ver com isso. Eu era um jogador de futebol, bolsista da universidade, marinheiro, guarda-freios e redator de sinopses... e Moriarty-Cassady era um cowboy de verdade no rancho de Dave Uhl, em New Raymer, Colorado... Que tipo de beatnik é este? (...) Conhecíamos milhares de poetas e pintores e músicos de jazz. Não havia uma "turma beat"... O que me diz de Scott Fitzgerald e sua "turma perdida", ou de Goethe e da "turma de Wilhelm Meister"? Esse assunto é muito chato. Me passa aquele copo. (...) Ginsberg começou a se interessar por política, pela esquerda... como Joyce, eu disse a mesma coisa que Joyce disse a Ezra Pound nos anos 20: "Não me amole com a política, a única coisa que me interessa é estilo." Além disso, eu estou cheio da nova vanguarda e do sensacionalismo em ascensão. Estou lendo Blaise Pascal e fazendo anotações sobre religião. Eu gosto de andar com não-intelectuais, se quiser chamá-los assim, em vez de ter minha cabeça como vítima ad infinitum do proselitismo. Hoje tenho uma vida caseira, com um pequeno porre de vez em quando em bares das redondezas."

-- Jack Kerouac, em entrevista à Paris Review, 1967.

12.1.03

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.

-- Manoel de Barros

10.1.03

Crônica da casa assassinada


Ao colocar as flores no seu colo, ela reabriu os olhos e vi então que já parecia inteiramente ausente deste mundo. Poderia repetir ainda os mesmos gestos dos vivos, pronunciar até palavras semelhantes -- mas a força vital já se despedia do seu corpo, e ela se achava nesta fronteira indevassável de onde os mortos espiam indiferentes a área por onde transitamos. Mesmo assim, por um esforço de sobrevivência, ou quem sabe por uma simples imposição do hábito, tomou as violetas nas mãos e levou-as devagar às narinas -- tal qual fazia nos tempos passados, com a diferença que não sorvia mais o perfume com a mesma sofreguidão, e seu gesto de agora era relaxado e mole. O braço descaiu e as violetas espalharam-se sobre a cama. "Não posso", ela disse. Também nada mais reconheci naquela voz -- era um produto mecânico e frio, um som emitido com dificuldade, audível ainda, mas sem consistência, com a flacidez morna do algodão. Não tive coragem para dizer coisa alguma e fiquei simplesmente ao seu lado, pedindo a Deus, com lábios que não tinham nenhum calor da fé, que me transmitisse um pouco daquele sofrimento. Advertida talvez por essa última consciência dos moribundos, que os faz bruscamente destacar uma minúcia do amontoado em que as formas se aglutinam, fitou-me. Depois, com um lampejo de compreensão, procurou ocultar o que se passava com ela, e voltou a cabeça para o lado. Assim ficamos, perto e distantes, tendo entre nós dois a poderosa presença que nos dividia. Eu jurara que seria sensato e que forçaria a dor a calar-se no fundo do meu coração, não porque me importasse sua repercussão aos olhos alheios, mas unicamente a fim de evitar a criação dessa tensa atmosfera de adeus que circula entre os agonizantes. Vendo-a porém já meio submersa na noite, e tão apartada de mim como se sua presença fosse apenas memória, sentia galopar em meu peito o ritmo de um desespero, de uma raiva que não se continha mais. E por uma bizarra coincidência -- ou quem sabe precisamente pelo inelutável da hora -- eu adivinhava que em nossas memórias subiam apenas imagens do tempo esgotado.

-- Lúcio Cardoso.

9.1.03

"foi quando a boca do céu se partiu em pedaços -- e as carcaças de lobo não foram poucas. em algumas esquinas se fez uma grande festa, despropositada, onde se gritavam frases incompreensíveis, desarticuladas, em alta voz.

disseram-lhe então, mesmo que em névoas sonhadas: esse dado é tua vida. veja como o lançamos, descuidados, em poças de merda, em pântanos sujos -- e tenta ver, se quiser, que possível resultado se formou lá no fundo, se fizer de fato alguma questão de ver seja lá o que for."

Este texto é só um fragmento dos "Cantos Esquizofrênicos" que o misterioso Nel, ou p13571113, leitor-poeta/poeta-leitor deste blog, enviou-me gentilmente, a meu pedido. Desnecessário explicar mais. Nel é um poeta em silêncio. Era.

"Uma vida contemplada em bandeiras cinzentas.
-- seus olhos: quando foi que se tornaram tão inúteis?
sua própria vida. do que lhe restava,
(era possível esperar ainda) esperava não mais
que a caminhada macia, a contemplação cega.
-- deixa os dias passarem, deixa que passem
os dias...
os olhos de meu pai: digo que faz bem em se mudar pra praia.
os olhos de meu pai: e o medo de que não sejam espelhos."

8.1.03

A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver cair,
Já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Ouço, mãe, é outra vez a chuva,
A chuva sobre o teu rosto.

-- Eugenio de Andrade, "Casa na Chuva".

Sobre a cômoda em Buenos Aires
o espelho reflete o vidro de água de colônia
Avant la Fête (antes,
muito antes da festa), reflete
o vidro de Supradyn, um tubo
de esparadrapo,
a parede em frente, uma parte do teto.
Não me reflete a mim
deitado fora do ângulo como um objeto que respira.
Os barulhos da rua
não penetram este universo de coisas silenciosas.
Nos quartos vazios
na sala vazia na cozinha
vazia
os objetos (que não se amam),
uns de costas para os outros.

-- Ferreira Gullar, "Ao Rés-do chão".

3.1.03

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

-- Mário de Sá-Carneiro.

2.1.03

Is it the sea you hear in me,
Its dissatisfactions?
Or the voice of nothing, that was your madness?

-- Sylvia Plath, fragmento de "Elm".

Poesia - disciplina tirânica


"Poesia é uma disciplina tirânica. Você tem de ir tão longe, tão rápido, em tão pouco tempo, que nem sempre é possível dar conta do periférico. Num romance talvez eu possa conseguir mais da vida, mas num poema eu consigo uma vida mais intensa." (...) "Não estou falando de poemas épicos. Falo do poema curto, não oficial. Como descrevê-lo? Uma porta se abre, uma porta se fecha. Entre os dois momentos você tem um golpe de olhar: um jardim, uma pessoa, uma tempestade, uma libélula, um coração, uma cidade... O poeta se torna um especialista em fazer as malas."

--- Sylvia Plath.

30.12.02

Alberto Janes


Foi no domingo passado que passei
à casa onde vivia a Mariquinhas,
mas 'stá tudo tão mudado
que não vi em nenhum lado
as tais janelas que tinham tabuinhas.

Do rés-do-chão ao telhado
não vi nada, nada, nada
que pudesse recordar-me a Mariquinhas,
e há um vidro pregado e azulado
onde havia as tabuinhas.

Entrei e onde era a sala agora está
à secretária um sujeito que é lingrinhas,
mas não vi colchas com barra
nem viola, nem guitarra,
nem espreitadelas furtivas das vizinhas.

O tempo cravou a garra
na alma daquela casa
onde às vezes petiscávamos sardinhas
quando em noites de guitarra e de farra
estava alegre a Mariquinhas.

As janelas tão garridas que ficavam
com cortinados de chita às pintinhas
perderam de todo a graça
porque é hoje uma vidraça
com cercadura de lata às voltinhas.

E lá pra dentro quem passa
hoje é pra ir aos penhores
entregar ao usurário umas coisinhas,
pois chega a esta desgraça toda a graça
da casa da Mariquinhas.

Pra terem feito da casa o que fizeram
melhor fora que a mandassem pras alminhas,
pois ser casa de penhores
o que foi viveiro d'amores
é idéia que não cabe cá nas minhas

Recordaçoes do calor
e das saudades. O gosto
que eu vou procurar esquecer
numas ginginhas,
pois dar de beber à dor é o melhor,
já dizia a Mariquinhas.

--- "Vou Dar de Beber à Dor", letra e música de Alberto Janes, intérprete Amália Rodrigues.



26.12.02

A revolução americana


No séc. 18, o abade Morellet, um dos líderes do Iluminismo francês, declarou que a verdadeira motivação dos americanos para a Revolução não foi se libertar da coroa inglesa, mas conseguir se livrar da cerveja inglesa para poder pôr a mão no vinho francês. Benjamin Franklin então respondeu ao abade que a prova da vontade de Deus de que o homem devia beber vinho está na localização do cotovelo. Se este ficasse localizado mais acima ou mais abaixo no braço, seria impossível levar o copo de vinho diretamente à boca. Para incrementar o debate, Franklin escreveu uma canção sobre o tema, cujos versos finais dizem mais ou menos assim:

Neste ponto da história descobrimos simplesmente
que a água não é boa nem para o corpo, nem para a mente;
que Virtude & Proteção só no vinho vamos encontrar,
e os que bebem água merecem mais é se afogar.

23.12.02

Dylan Thomas

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
-

17.12.02

La Fontaine

Epigrama

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco
Foder sem amar não é nada.
-

Goethe



Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.


-- Fragmento dos "Epigramas Venezianos".




Benjamin Péret

Ah! as mocinhas que erguem o vestido
para se esfregarem na moita
ou então nos museus
atrás de Apolos de gesso
enquanto a mãe delas compara a vara da estátua
com a do marido
e suspira
Ah! se meu marido fosse parecido
Um dia a mãe voltará sozinha ao museu
mas a filha dela fugirá pelo outro lado
vara na mão
e a mãe desolada
roubará de uma porta
a maçaneta de cristal

--  "As Ferrugens Engaioladas".

16.12.02

William Carlos Williams



Nada Ter Feito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito





12.12.02

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

--  "Psicologia de um Vencido".

Tagore

Em minha frágil canoa, luto por atravessar o mar do desejo 
e esqueço que eu também estou brincando.
-

11.12.02

Você diz que sabe muito
Borboleta sabe mais:
Anda com os pés pra riba
Coisa que você não faz.

-- Trova popular, autor anônimo.

Cada cabelo tem a sua sombra na testa.

7.12.02

Murilo Mendes

O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.

A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.

O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.

O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.

No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.

Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.

--  "O Ovo".

6.12.02

Vinicius

Certa época, Vinicius de Moraes andava muito incomodado com a moda de musicalização de poemas. Virou-se para Tom e pediu: "Olha, parceirinho, antes que algum aventureiro apareça, faça por favor uma musiquinha para o meu 'Soneto da Separação'." Vinicius ficou encantado com o resultado do trabalho e comentou: "Está lindo, porque é uma música que não atrapalha o soneto. Que o deixa quieto." Essa foi uma das raras vezes, na carreira do poeta, em que a música sucedeu a um poema. Tinha medo de que a música viesse incomodar os versos, acordá-los de sua elegância. Era um mestre da brandura. Vinicius não acreditava em seriedade, acreditava no momento, com o roldão de emoções caóticas que ele arrasta atrás de si. Tom nunca negou que deve tudo, ou quase tudo, a esse sentimentalista. Mas Vinicius sempre renegou a posição de mestre - o que, aliás, faz parte da posição de mestre. Enigmas que não se dão esse nome. Tom testemunhou que, de todos os enigmas, o mais atroz para o poeta era a mulher. "A mulher não é para ser entendida, é para ser amada", argumentava sempre com o parceiro. E, com um cerimonioso português castiço, completava: "Não há entender mulheres." Essas confissões de ignorância mobilizavam Tom mais do que qualquer exibição luxuosa de saber. Vinicius o guiara para a incompletude atordoante dos sentimentos, e isso agora era um caminho sem volta.

-- José Castello, "Vinicius de Moraes, Livro de Letras", 1991.

4.12.02

Na verdade, eu me sinto como se já fosse tricolor antes do Fluminense, antes de mim mesmo e até, se me permitem o exagero: eu era tricolor antes de Cristo.

-- Nelson Rodrigues, em "O Profeta Tricolor".

 "Bem-aventurado aquele que nada espera, pois é isso mesmo que vai receber".
Li por aí.
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3.12.02

Kurt Vonnegut

Sempre tive dificuldade para terminar os contos de uma forma que satisfizesse o público em geral. Na vida real, as pessoas não mudam, não aprendem nada com seus erros e não pedem desculpas. Num conto, elas precisam fazer pelo menos duas dessas três coisas, ou será melhor jogá-lo fora na lata de lixo sem tampa presa com corrente e cadeado a um hidrante em frente à Academia Americana de Letras e Artes.
Tudo bem, isso eu podia resolver. Mas depois de fazer um personagem mudar, aprender alguma coisa e/ou pedir desculpas, isso deixava o resto do elenco parado chupando o dedo. Isso não é jeito de dizer ao leitor que o espetáculo terminou.
Quando eu era jovem e inexperiente, imaturo nas minhas opiniões e, para começo de conversa, sem nunca ter pedido para nascer, pedi conselho a meu agente literário daquela época sobre como terminar os contos sem matar todos os personagens. Ele havia sido editor de ficção de uma revista importante, além de consultor de roteiros para um estúdio de Hollywood. "Nada mais simples, meu rapaz", disse ele. "O herói monta no seu cavalo e sai cavalgando em direção ao pôr-do-sol."
Muitos anos depois, ele se mataria deliberadamente com uma espingarda calibre 12.

-- Em "Timequake".

2.12.02

Mallarmé

Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,

O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.

Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal

E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.

--  "O Sineiro".