3.1.03

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

-- Mário de Sá-Carneiro.

2.1.03

Is it the sea you hear in me,
Its dissatisfactions?
Or the voice of nothing, that was your madness?

-- Sylvia Plath, fragmento de "Elm".

Poesia - disciplina tirânica


"Poesia é uma disciplina tirânica. Você tem de ir tão longe, tão rápido, em tão pouco tempo, que nem sempre é possível dar conta do periférico. Num romance talvez eu possa conseguir mais da vida, mas num poema eu consigo uma vida mais intensa." (...) "Não estou falando de poemas épicos. Falo do poema curto, não oficial. Como descrevê-lo? Uma porta se abre, uma porta se fecha. Entre os dois momentos você tem um golpe de olhar: um jardim, uma pessoa, uma tempestade, uma libélula, um coração, uma cidade... O poeta se torna um especialista em fazer as malas."

--- Sylvia Plath.

30.12.02

Alberto Janes


Foi no domingo passado que passei
à casa onde vivia a Mariquinhas,
mas 'stá tudo tão mudado
que não vi em nenhum lado
as tais janelas que tinham tabuinhas.

Do rés-do-chão ao telhado
não vi nada, nada, nada
que pudesse recordar-me a Mariquinhas,
e há um vidro pregado e azulado
onde havia as tabuinhas.

Entrei e onde era a sala agora está
à secretária um sujeito que é lingrinhas,
mas não vi colchas com barra
nem viola, nem guitarra,
nem espreitadelas furtivas das vizinhas.

O tempo cravou a garra
na alma daquela casa
onde às vezes petiscávamos sardinhas
quando em noites de guitarra e de farra
estava alegre a Mariquinhas.

As janelas tão garridas que ficavam
com cortinados de chita às pintinhas
perderam de todo a graça
porque é hoje uma vidraça
com cercadura de lata às voltinhas.

E lá pra dentro quem passa
hoje é pra ir aos penhores
entregar ao usurário umas coisinhas,
pois chega a esta desgraça toda a graça
da casa da Mariquinhas.

Pra terem feito da casa o que fizeram
melhor fora que a mandassem pras alminhas,
pois ser casa de penhores
o que foi viveiro d'amores
é idéia que não cabe cá nas minhas

Recordaçoes do calor
e das saudades. O gosto
que eu vou procurar esquecer
numas ginginhas,
pois dar de beber à dor é o melhor,
já dizia a Mariquinhas.

--- "Vou Dar de Beber à Dor", letra e música de Alberto Janes, intérprete Amália Rodrigues.



26.12.02

A revolução americana


No séc. 18, o abade Morellet, um dos líderes do Iluminismo francês, declarou que a verdadeira motivação dos americanos para a Revolução não foi se libertar da coroa inglesa, mas conseguir se livrar da cerveja inglesa para poder pôr a mão no vinho francês. Benjamin Franklin então respondeu ao abade que a prova da vontade de Deus de que o homem devia beber vinho está na localização do cotovelo. Se este ficasse localizado mais acima ou mais abaixo no braço, seria impossível levar o copo de vinho diretamente à boca. Para incrementar o debate, Franklin escreveu uma canção sobre o tema, cujos versos finais dizem mais ou menos assim:

Neste ponto da história descobrimos simplesmente
que a água não é boa nem para o corpo, nem para a mente;
que Virtude & Proteção só no vinho vamos encontrar,
e os que bebem água merecem mais é se afogar.

23.12.02

Dylan Thomas

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
-

17.12.02

La Fontaine

Epigrama

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco
Foder sem amar não é nada.
-

Goethe



Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.


-- Fragmento dos "Epigramas Venezianos".




Benjamin Péret

Ah! as mocinhas que erguem o vestido
para se esfregarem na moita
ou então nos museus
atrás de Apolos de gesso
enquanto a mãe delas compara a vara da estátua
com a do marido
e suspira
Ah! se meu marido fosse parecido
Um dia a mãe voltará sozinha ao museu
mas a filha dela fugirá pelo outro lado
vara na mão
e a mãe desolada
roubará de uma porta
a maçaneta de cristal

--  "As Ferrugens Engaioladas".

16.12.02

William Carlos Williams



Nada Ter Feito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito





12.12.02

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

--  "Psicologia de um Vencido".

Tagore

Em minha frágil canoa, luto por atravessar o mar do desejo 
e esqueço que eu também estou brincando.
-

11.12.02

Você diz que sabe muito
Borboleta sabe mais:
Anda com os pés pra riba
Coisa que você não faz.

-- Trova popular, autor anônimo.

Cada cabelo tem a sua sombra na testa.

7.12.02

Murilo Mendes

O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.

A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.

O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.

O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.

No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.

Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.

--  "O Ovo".

6.12.02

Vinicius

Certa época, Vinicius de Moraes andava muito incomodado com a moda de musicalização de poemas. Virou-se para Tom e pediu: "Olha, parceirinho, antes que algum aventureiro apareça, faça por favor uma musiquinha para o meu 'Soneto da Separação'." Vinicius ficou encantado com o resultado do trabalho e comentou: "Está lindo, porque é uma música que não atrapalha o soneto. Que o deixa quieto." Essa foi uma das raras vezes, na carreira do poeta, em que a música sucedeu a um poema. Tinha medo de que a música viesse incomodar os versos, acordá-los de sua elegância. Era um mestre da brandura. Vinicius não acreditava em seriedade, acreditava no momento, com o roldão de emoções caóticas que ele arrasta atrás de si. Tom nunca negou que deve tudo, ou quase tudo, a esse sentimentalista. Mas Vinicius sempre renegou a posição de mestre - o que, aliás, faz parte da posição de mestre. Enigmas que não se dão esse nome. Tom testemunhou que, de todos os enigmas, o mais atroz para o poeta era a mulher. "A mulher não é para ser entendida, é para ser amada", argumentava sempre com o parceiro. E, com um cerimonioso português castiço, completava: "Não há entender mulheres." Essas confissões de ignorância mobilizavam Tom mais do que qualquer exibição luxuosa de saber. Vinicius o guiara para a incompletude atordoante dos sentimentos, e isso agora era um caminho sem volta.

-- José Castello, "Vinicius de Moraes, Livro de Letras", 1991.

4.12.02

Na verdade, eu me sinto como se já fosse tricolor antes do Fluminense, antes de mim mesmo e até, se me permitem o exagero: eu era tricolor antes de Cristo.

-- Nelson Rodrigues, em "O Profeta Tricolor".

 "Bem-aventurado aquele que nada espera, pois é isso mesmo que vai receber".
Li por aí.
-

3.12.02

Kurt Vonnegut

Sempre tive dificuldade para terminar os contos de uma forma que satisfizesse o público em geral. Na vida real, as pessoas não mudam, não aprendem nada com seus erros e não pedem desculpas. Num conto, elas precisam fazer pelo menos duas dessas três coisas, ou será melhor jogá-lo fora na lata de lixo sem tampa presa com corrente e cadeado a um hidrante em frente à Academia Americana de Letras e Artes.
Tudo bem, isso eu podia resolver. Mas depois de fazer um personagem mudar, aprender alguma coisa e/ou pedir desculpas, isso deixava o resto do elenco parado chupando o dedo. Isso não é jeito de dizer ao leitor que o espetáculo terminou.
Quando eu era jovem e inexperiente, imaturo nas minhas opiniões e, para começo de conversa, sem nunca ter pedido para nascer, pedi conselho a meu agente literário daquela época sobre como terminar os contos sem matar todos os personagens. Ele havia sido editor de ficção de uma revista importante, além de consultor de roteiros para um estúdio de Hollywood. "Nada mais simples, meu rapaz", disse ele. "O herói monta no seu cavalo e sai cavalgando em direção ao pôr-do-sol."
Muitos anos depois, ele se mataria deliberadamente com uma espingarda calibre 12.

-- Em "Timequake".

2.12.02

Mallarmé

Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,

O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.

Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal

E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.

--  "O Sineiro".

28.11.02

As pulgas saltam.
O percevejo nada.
E alguns besouros hibernam.
O tomate tem licopeno.
O melão tem potássio.
E as bananas têm silício.
A Casa Branca tem seu Steinway.
O mercado tem sua mão invisível.
E o WTC tem seu Bin Laden.
Os homens não são falastrões quando nada têm a pedir.
Os escritores tendem a colocar palavras onde faltam idéias.
E provavelmente meu bisavô morreu sifilítico.


-- maira

Groucho Marx

Para aqueles de meus leitores que nunca viram um convidado, posso descrevê-los facilmente. São altos ou baixos, ligeiramente maltrapilhos e vêm em todas as cores. Um convidado pode ser identificado como aquele que vem a nossa casa a nosso convite. Aquele que vem sem convite ou é uma aranha viúva-negra ou um parente.
Há todo tipo de convidados. Há o convidado para jantar, a visita de fim de semana, o convidado mensal e, se você não tomar cuidado, o convidado permanente. Mas o mais inocente, o mais amigável e relativamente inofensivo de todos é o convidado para jantar.
Um jantar é geralmente composto por um grupo de seis, oito ou dez pessoas. O tamanho do jantar, é claro, depende muito do tamanho da sala de jantar. E, em muitos casos, do tamanho da cozinheira. (...) Em todo grupo de seis ou mais pessoas que vêm para o jantar, pelo menos quatro delas não só o detestam, como também à comida. Não gostar da comida é privilégio dos convidados. Eu quase sempre não gosto da comida da casa dos outros, e quando isso acontece, discretamente encho minha boca de pão e torço para que a sobremesa não seja pudim de pão. (...) Também há os casais que nunca vêm sozinhos. Sempre trazem um convidado extra, com muita elegância e esperteza. Mesmo assim, você encaixa uma cadeira extra, tira o seu belo serviço para seis e rearruma a mesa com uma miscelânea de louças de cerâmica que há anos vinha roubando de alguns dos melhores hotéis do país.
Para começar a noite com uma bomba, tem o espertinho que sempre chega uma hora antes que os outros. Se você disser: "O jantar é às sete", pode ter certeza de que ele estará lá às seis. Se disser "nove", ele chegará às oito. Não se sabe como ele entra na casa - ou é um ladrão ou um duende - ninguém jamais o escuta entrar, nenhuma porta bate, nenhuma campainha bate. (...) E existe aquele casal que sempre sai à meia-noite, mas que só chega até a porta da frente. É praticamente impossível tirá-los da casa - algo como um jogador de futebol que chega na área e não consegue marcar o gol. Esse tipo de gente que reluta em sair de perto da porta tem um rival à altura naquele outro que se levanta de vinte em vinte minutos, como se fosse ir embora. Cada vez que ele se levanta, você pula cheio de esperança e, como um cão de caça, aponta na direção do armário de casacos. Mas seu pulo foi em vão. Essa caixa de surpresas levará horas para sair!
Os métodos mais simples geralmente são os mais eficazes para se livrar dos convidados de fim de semana. Alguns comentários bem colocados durante o jantar em geral resolverão o problema. Por exemplo, quando o assado for servido, você pode se queixar:"A carne está ficando tão cara! Não é fácil manter uma família hoje em dia, sem falar nos convidados." Quando chegar à última parte desse discurso, encare o convidado. Se ele tiver algum orgulho ( e muito poucos o têm), irá para o quarto e imediatamente começará a fazer as malas. Se, no entanto, ele for o típico habitué de fim de semana, tais sutilezas são uma perda de tempo, é métodos mais esquisitos devem ser usados, mesmo e até e inclusive a força. (...) Cortar o suprimento de água e os fios telefônicos é geralmente muito eficaz. Botar fogo em sua correspondência (especialmente se for as do tipo que recebo) às vezes ajuda. Muita gente é alérgica a migalhas de bolacha na cama, e geralmente ficam prontas para partir se acordarem de manhã transformadas em costeletas de vitela empanada. (Um hóspede, contudo, ficou tão encantado com esse tratamento, que passou a comer as bolachas toda noite antes de dormir e, depois de uma semana, desfez todas as suas malas e começou a pedir queijo aos berros pelo buraco da fechadura.)

-- Em "Como se Livrar dos Convidados".

27.11.02

Alasdair Gray

COMECEI A FAZER MAPAS QUANDO ERA PEQUENO.
EU MOSTRAVA LUGARES, RECURSOS, ONDE O INIMIGO
E ONDE O AMOR ESTÃO. EU NÃO SABIA
QUE O TEMPO CONTRIBUI PARA A TERRA. ACONTECIMENTOS
AFUNDAM CONTINUAMENTE, APAGANDO MARCOS,
ELEVANDO NÍVEIS, COMO NEVE.

EU CRESCI. MEUS MAPAS JÁ NÃO SERVEM MAIS.
AGORA A TERRA ESTÁ SOBRE MIM.
NÃO CONSIGO ME MEXER. É HORA DE IR.

--- Em "Lanark".

25.11.02

Nossa cruenta alma espanhola


A tauromaquia é praticada na Espanha desde o séc. 18, e no séc. 19 atingiu um alto grau de profissionalismo e controle estatal. No séc. 20 foram realizadas mais de 31 mil touradas oficiais, todas envolvendo a tortura e morte de touros. Paixão nacional, o evento mobiliza multidões, elevadas somas em dinheiro, a mídia, criadores e empresários e profissionais especializados na construção e manutenção de arenas. Toureiros e fabricantes de novos modelos de espadas costumam reunir-se em sigilo para discutir a qualidade das armas, testando-as em novilhos. Enquanto os animais agonizam, eles avaliam o grau de facilidade e dificuldade com que elas penetraram na carne. Não menos terrível é a preparação dos touros para o dia do espetáculo. Seus chifres são cortados, ficam sob pesados sacos de areia durante horas, até que as patas, inchadas, são mergulhadas em aguarrás para que eles não consigam ficar parados devido à extrema ardência. Seus olhos são untados com vaselina e para empurrá-los para o corredor, espetam-nos repetidas vezes. O touro, já enfraquecido, aterrorizado e enxergando apenas cores fortes e quentes, corre na direção do que julga ser a saída, onde é recebido pelos gritos da multidão. A tourada, um jogo de celebração da morte, divide-se em três etapas de tortura do animal. Cada uma cheia de truques e recursos para enganar o público de que o toureiro é que é o herói corajoso e destemido. Após a execução, "el matador" empina os quadris, faz caras e bocas e sorri, orgulhoso, para uma platéia que prefere não levar em conta que o animal já entrou quase morto na arena. Obviamente justifica-se tudo como "expressão da cultura espanhola" para mascarar a sofisticada tortura dos animais e tratá-la como algo natural e até apreciável. O estigma de bárbaros, no entanto, não está só no povo espanhol. Está um pouco em cada um de nós. E em Gisele Bündchen, sim. Por que não?

--- (sobre o artigo de Marco Frenette, "O Balé da Morte Lenta", in rev. "Bravo!", 2002.)

22.11.02


Às três horas de uma manhã inquieta sonhei que a figura de um demônio com cabeça de galo, barriga descomunal e rabo cheio de nós me avisava que as formigas tinham uma missão. Que cada formiga tem uma missão. E como ele mais não detalhou, só ficava repetindo isso vezes sem conta, acabei me desinteressando e acordei. Eu havia suado muito e tive de me levantar para trocar de roupa. Sentada na privada, eu não conseguia mais dormir. Acendi um cigarro e peguei o caderno do penúltimo domingo para ler. Minha cabeça pesava. O coração batia acelerado. As letras se embaralhavam na minha frente. Desviei os olhos para o chão frio e vi a mesma fila de formigas de sempre. Rumando para o box. Eu as acompanhei. A formiga sempre foi um símbolo de organização, industriosidade e previdência. Antigos ritos de fecundidade eram associados à formiga: toda mulher estéril devia sentar-se em cima de um formigueiro para tornar-se fecunda. A terra de um formigueiro simbolizava a energia circulando nas entranhas da terra. Isso foi há muito tempo. Hoje, como se controladas por computador e alimentadas com drogas letárgicas, elas não passam de predadoras indestrutíveis designadas para fazer da Terra o seu posto avançado. Pouco a pouco elas invadiram comunidades pacatas, desertos inabitáveis, palácios reais, os quatro ângulos da Terra. O perecível e o imperecível. Por mais que as esmaguemos, elas se reproduzem a cada vez com mais vigor. Quanto mais as vaporizamos, mais elas mutam. Um dia elas pedirão a minha cabeça e eu não vou poder fazer nada. Um dia, em algum ponto do círculo, eu vou acordar e encontrar o mundo todo roído. Cuspida por um gêiser, descobrirei que nem a Islândia foi poupada. Nesse dia, eu vou deixar o medo de lado e me oferecer inteira ao doce repasto de minha rainha.


-- maira 





18.11.02

Jack Kerouac

NUM HORRÍVEL APOSENTO em Nova York, toda a minha família, composta por mamãe, papai & Nin e eu, se instala e "todos conseguiram emprego" -- aqui dentro já é noite, e há uma única luz, muito fraca, acesa -- a gente conversa, mas é um papo meio esquisito -- parece que não sei o que faço e sem querer, ou por descuido (porque não sinto medo da raiva das mulheres da família e já me esqueci da de meu pai; faz tanto tempo que ele morreu), começo a enrolar um baseado, continuando a falar com eles uma porção de maluquices, empolgado, louco (por causa da erva); nem sequer prestam atenção, preferindo debater solenemente a meu respeito, até que meu pai se levanta e pergunta: "Mas ele não tem medo da maconha? Hem?" se aproximando de mim -- vejo que vem vindo e fico cego, a escuridão toma conta por completo da cena, mas sinto, contudo, a mão dele no meu braço; é possível que tenha um machado, qualquer coisa, e não consigo enxergar -- caio desmaiado feito morto no escuro, com um rugido que me acorda e impede que seja encontrado morto (se é que existe uma coisa como a morte) de manhã, na cama -- pois meu sangue parou de palpitar quando o Viajante Amortalhado cravou finalmente as garras em mim -- se aproxima cada vez mais -- agora já sei como fugir dele -- não me preocupando nem acreditando na vida ou na morte, se é que isso pode ser possível num humilde Pratyeka a essa altura.

-- Em "O Livro dos Sonhos".

17.11.02

Drummond

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

(Drummond, "Para Sempre")



15.11.02

Rosa, pura contradição
Volúpia de ser o sono de ninguém
Sob tantas pálpebras

--- Epitáfio de Rainer Maria Rilke para si mesmo.

Nelson Rodrigues

Quando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis, sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na frente, ao lado do chauffeur,teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e às vezes só tenho o dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente, um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus apinhado é o túmulo do pudor. "Exagero", dirão. Paciência. Mas quando eu passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes. A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente, queria andar de táxi e nada mais.

--- Fragmento da crônica "Nenhum Vento Pode Apagar", 1967.

14.11.02

São minhas as ruas que dão na praia

e o sono das manhãs que dão no mar.

São meus a areia o barco e o vazio dentro do barco.

São meus o mar e o vazio dentro do mar

em que mergulho sem qualquer vestígio de sangue.



-- maira


Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
Uma noite me dei conta de que possuía uma história
e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
O que existe são coisas, não palavras.
Granito, lápide, crepe
nuvem, saudades, lembranças.
Em todo enterro choro com um olho só,
com o outro acho coisas no meu sonho:
os toquinhos de vela crepitam e morrem.
Quando eu sofria dos nervos
fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu.
De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
As formigas passeiam na parede, sobre
a cômoda, num quarto
Elas querem me matar, me comer, me cagar.
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, listas de compras
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.

--- Maira. Montagem criada a partir de versos isolados de Adélia Prado ("Poesias Reunidas").

13.11.02

Maiakovski

Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.

O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.

Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.

Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.

Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.

E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.

Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.

Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.

Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.

Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?


---  "Hino ao Crítico", 1915.

12.11.02

Federico Garcia Lorca

Calar e consumir-se é o maior castigo a que podemos nos condenar. De que me serviu a mim o orgulho, e o não te olhar, e o deixar-te acordada noites e noites? De nada! Serviu para abrasar-me. Porque tu acreditas que o tempo cura e as paredes tapam, e não é verdade, não é verdade! Quando as coisas chegam ao fundo, não há quem as arranque!
(...)
Que vidros cravam minha língua presa!
Porque eu te quis esquecer,
e pus um muro de pedra
entre a tua casa e a minha.
É verdade. --- Não te lembras?
E quando te vi de longe,
enchi meus olhos de areia.
Mas, se montava a cavalo,
em tua porta me achava ---
Tornou-se o sangue negro,
com alfinetes de prata.
E o sonho me foi cobrindo
as carnes de erva daninha.
Pois a culpa não é minha.
A culpa, a culpa é da terra
e do cheiro que desprendem
teus peitos e tuas tranças.

--- Em "Bodas de Sangue".

Jorge Luis Borges

Se não existe emoção, não pode existir poesia. Tampouco há necessidade de que haja esta poesia. Assim, eu diria que se escreve ungido pela emoção e melhor seria tentar desencorajar a emoção, porque se um tema não nos deixa sossegados, então o escrevemos para nos livrar dele ou, como disse Reyes, para que não passemos a vida corrigindo rascunhos.
(...)
O escritor deve ser submisso e não convém que tente compreender demais o que está fazendo, porque qualquer ato consciente pode deitar a perder a obra.
-

8.11.02

Era uma vez uma cidade maravilhosa
cheia de praias, praças e mulheres gostosas
cidade bela vislumbrada pelo mundo inteiro
quem não conhece o famoso Rio de Janeiro
bonde, corcovado, cristo redentor
praia de Copacabana e circo voador
lugares bonitos que atraem os turistas
mas somente o que convém é o que mostram as revistas
e em nossas vistas
do outro lado o sangue tem manchado
nossos cartões-postais, nossos cartões-postais
quadrilhas rivais, matanças brutais
por isso e por outras coisas nem turistas tem mais
o que acontece aqui e lá, pá, pá, pá
tem influência no país inteiro, ra-tá-tá
um quarto mundo dentro de um terceiro
barril de pólvora pra explodir cadê meu isqueiro?
de São Paulo ao Rio são só 6 horas
é logo ali aliado não demora
e a chacina impera onde a lei não vigora
cartão-postal do futuro de agora
o pouco que ele passa estou certo não agrada ninguém
mas se o que mostra for verdade está tudo bem
bem te faço um convite, mas escuta o que falo
bem-vindo ao Rio, bem-vindo a São Paulo
a nossa vida desse modo está por um fio
bem-vindo a São Paulo, bem-vindo ao Rio
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil

--- Pavilhão 9, fragmento do rap "Vietnã do Brasil".

Quando te encontrei, de que país estranho foi que imaginei mesmo que tu acabavas de regressar? (Emílio Moura)


Hoje em dia eu sei que o louco é aquele que se deixa afogar pelos símbolos do seu inconsciente, mas houve um tempo em que eu achava que cada um era de um jeito, e eu tinha o meu. Simples assim. Blake, por exemplo, gostava de desenhar pulgas. Ou melhor, espectros de pulgas. Isso mesmo, fantasmas de pulgas. Demóstenes, o mestre da oratória, para conseguir uma perfeita articulação das palavras, costumava encher a boca de pedrinhas, ia para a beira do mar e ficava lá duelando com o barulho das ondas para treinar os seus discursos. Lope de Vega passou a vida escrevendo cerca de 1.800 comédias e outras tantas centenas de histórias. Era tão profícuo que Cervantes o chamava de "monstro da natureza". Pascal, por sua vez, cismava que humor e ironia na literatura eram sinais de mau caráter. Zoilo, antigo crítico dos poemas de Homero, era um comentarista tão azedo e invejoso que ficou para a posteridade como um crítico faccioso e medíocre. Rui Barbosa, sempre vigilante nos cuidados com o vernáculo, fazia de tudo para evitar o encontro de consoantes dentais. Em vez de "dentro do", tascava um "dentro no". Já Cassiano Ricardo chegou a não admitir a existência do verso livre: "Basta ser livre pra não ser verso." Manias? Loucura? Pode ser. Tem gente cuja profissão é estudar o ritmo na poesia clássica antiga. Eles se orgulham de saber que o verso aristofânio são 2 dímetros anapésticos, separados por diérese e dos quais o segundo deve ser catalético. Se você lhes mostrar um verso como "Vejo-te, mísero ser", para eles isso não passa de uma tripódia catalética em 1 sílaba. Ainda bem que o verso livre nos livrou disso tudo. Cada um tem o seu jeito, eu tenho o meu. Posso passar horas dentro de uma livraria ou um sebo. Esqueço da vida. Tenho curiosidade de ler coisas como "Frívola City", de João do Rio, "Mixuangos", de Valdomiro Silveira, e a canção do Boi Surubi. Alguém já ouviu falar de Quinto Cúrcio?

-- maira parula

7.11.02

Marquês de Maricá

Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.
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Olavo Bilac

"Não faça notícias. A notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. (...) O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político... o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro d'Arte."

--- Olavo Bilac, aconselhando o escritor Coelho Netto.

4.11.02

Joseph Conrad

... a maioria dos marujos leva, por assim dizer, uma vida sedentária. Eles sempre se sentem em casa, pois sua casa sempre os acompanha -- o navio; bem como seu país -- o mar. Um navio é muito parecido com outro, e o mar é sempre o mesmo. Num ambiente imutável, os litorais estrangeiros, as fisionomias estrangeiras, a variada imensidão da vida -- tudo passa imperceptível, velado não por um misterioso sentido, mas por uma ignorância levemente desdenhosa; pois não existe mistério para um homem do mar, a não ser o próprio mar, que é senhor de sua existência e inescrutável como o Destino. Quanto ao resto, nas suas horas de folga, uma caminhada casual, ou uma eventual bebedeira em terra bastam para revelar-lhe o segredo de todo um continente -- e geralmente acha que o segredo não vale a pena ser conhecido. As histórias dos homens do mar têm uma simplicidade direta, cujo significado cabe inteiramente na casca de uma noz partida.

---- Em "O Coração das Trevas".

1.11.02

Virginia Woolf

Domingo, 29 de dezembro


Há momentos em que a vela trapeia. Depois, como sou grande amante da arte da vida, decidida a chupar minha laranja, sugá-la, como uma vespa se a flor em que pousei murchar, & murchou ontem --- cavalgo as colinas até o penhasco. Um rolo de arame farpado cerca a beira. Friccionei minha cabeça energicamente ao longo da estrada de Newhaven. Velhas solteiras andrajosas comprando em mercearias, naquela estrada erma com as villas; debaixo de chuva. E Newhaven arruinada. Mas que se canse o corpo & a cabeça dorme. Toda a vontade de escrever no diário se perdeu. Qual é o antídoto mais adequado? Preciso farejá-lo por aí. Penso em Mme de Sevigné. Escrever haverá de ser um prazer diário. Charleston mudo; Leslie sonoro. Os Anrep almoçaram. Detesto a dureza da velhice --- sinto-a. Irrito. Sou ácida.

The foot less prompt to meet the morning dew,
The hert less bounding at emotion new,
And hope, once crush'd, less quick to spring again.

Na realidade abri Matthew Arnold & copiei estes versos. Ao copiá-lo, ocorreu-me a idéia de que a razão por que desgosto, & gosto, de tantas coisas de maneira tão idiossincrática agora é que vou me desprendendo cada vez mais da hierarquia, do patriarcado. Quando Desmond elogia East Coker, & fico enciumada, caminho pelo pântano dizendo: eu sou eu; & tenho de seguir este sulco, não copiar outro. Esta é a única justificação para meu escrever & viver.

Como saboreio a comida agora: faço refeições imaginárias.


---- Virginia Woolf, em seus "Diários", três meses antes de cometer o suicídio em 1941.