O ovo é um monumento fechado, automonumento; plano-piloto, realizado agora, do germe inicial da criação.
A exemplo da torre de Pisa, o ovo não costuma sustentar-se em pé. Ninguém ignora que a torre gosta de emigrar durante a noite. De resto, ela subsiste somente porque amparada por uma pena num quadro de René Magritte.
O mesmo pintor em outro quadro Les vacances de Hegel mostra um guarda-chuva aberto: em cima pousa um copo contendo um líquido. Evidentemente todos os observadores sofrem uma ilusão de ótica, trocando o copo por um ovo, de resto mais vizinho ao pensamento do filósofo.
O ovo, objeto concreto de alto coturno, caríssimo, quase inacessível: diamante do pobre.
No meu tempo de infância, indo a noite alta a dois metros, eu já não ouvia mais o tique-taque do relógio; antes, o pulsar do ovo na sua gema, nunca sua clara.
Num tempo ainda mais recuado eu tinha medo do ovo. O medo: confere-nos uma téssera de identidade, fazendo-nos enfrentar algo de real, o próprio medo. O medo é o ovo da aventura posterior.
-- "O Ovo".
7.12.02
6.12.02
Vinicius
Certa época, Vinicius de Moraes andava muito incomodado com a moda de musicalização de poemas. Virou-se para Tom e pediu: "Olha, parceirinho, antes que algum aventureiro apareça, faça por favor uma musiquinha para o meu 'Soneto da Separação'." Vinicius ficou encantado com o resultado do trabalho e comentou: "Está lindo, porque é uma música que não atrapalha o soneto. Que o deixa quieto." Essa foi uma das raras vezes, na carreira do poeta, em que a música sucedeu a um poema. Tinha medo de que a música viesse incomodar os versos, acordá-los de sua elegância. Era um mestre da brandura. Vinicius não acreditava em seriedade, acreditava no momento, com o roldão de emoções caóticas que ele arrasta atrás de si. Tom nunca negou que deve tudo, ou quase tudo, a esse sentimentalista. Mas Vinicius sempre renegou a posição de mestre - o que, aliás, faz parte da posição de mestre. Enigmas que não se dão esse nome. Tom testemunhou que, de todos os enigmas, o mais atroz para o poeta era a mulher. "A mulher não é para ser entendida, é para ser amada", argumentava sempre com o parceiro. E, com um cerimonioso português castiço, completava: "Não há entender mulheres." Essas confissões de ignorância mobilizavam Tom mais do que qualquer exibição luxuosa de saber. Vinicius o guiara para a incompletude atordoante dos sentimentos, e isso agora era um caminho sem volta.
-- José Castello, "Vinicius de Moraes, Livro de Letras", 1991.
4.12.02
3.12.02
Kurt Vonnegut
Sempre tive dificuldade para terminar os contos de uma forma que satisfizesse o público em geral. Na vida real, as pessoas não mudam, não aprendem nada com seus erros e não pedem desculpas. Num conto, elas precisam fazer pelo menos duas dessas três coisas, ou será melhor jogá-lo fora na lata de lixo sem tampa presa com corrente e cadeado a um hidrante em frente à Academia Americana de Letras e Artes.
Tudo bem, isso eu podia resolver. Mas depois de fazer um personagem mudar, aprender alguma coisa e/ou pedir desculpas, isso deixava o resto do elenco parado chupando o dedo. Isso não é jeito de dizer ao leitor que o espetáculo terminou.
Quando eu era jovem e inexperiente, imaturo nas minhas opiniões e, para começo de conversa, sem nunca ter pedido para nascer, pedi conselho a meu agente literário daquela época sobre como terminar os contos sem matar todos os personagens. Ele havia sido editor de ficção de uma revista importante, além de consultor de roteiros para um estúdio de Hollywood. "Nada mais simples, meu rapaz", disse ele. "O herói monta no seu cavalo e sai cavalgando em direção ao pôr-do-sol."
Muitos anos depois, ele se mataria deliberadamente com uma espingarda calibre 12.
2.12.02
Mallarmé
Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,
O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.
Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal
E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.
-- "O Sineiro".
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperta, infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,
O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.
Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal
E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.
-- "O Sineiro".
28.11.02
As pulgas saltam.
O percevejo nada.
E alguns besouros hibernam.
O tomate tem licopeno.
O melão tem potássio.
E as bananas têm silício.
A Casa Branca tem seu Steinway.
O mercado tem sua mão invisível.
E o WTC tem seu Bin Laden.
Os homens não são falastrões quando nada têm a pedir.
Os escritores tendem a colocar palavras onde faltam idéias.
E provavelmente meu bisavô morreu sifilítico.
O percevejo nada.
E alguns besouros hibernam.
O tomate tem licopeno.
O melão tem potássio.
E as bananas têm silício.
A Casa Branca tem seu Steinway.
O mercado tem sua mão invisível.
E o WTC tem seu Bin Laden.
Os homens não são falastrões quando nada têm a pedir.
Os escritores tendem a colocar palavras onde faltam idéias.
E provavelmente meu bisavô morreu sifilítico.
Groucho Marx
Para aqueles de meus leitores que nunca viram um convidado, posso descrevê-los facilmente. São altos ou baixos, ligeiramente maltrapilhos e vêm em todas as cores. Um convidado pode ser identificado como aquele que vem a nossa casa a nosso convite. Aquele que vem sem convite ou é uma aranha viúva-negra ou um parente.
Há todo tipo de convidados. Há o convidado para jantar, a visita de fim de semana, o convidado mensal e, se você não tomar cuidado, o convidado permanente. Mas o mais inocente, o mais amigável e relativamente inofensivo de todos é o convidado para jantar.
Um jantar é geralmente composto por um grupo de seis, oito ou dez pessoas. O tamanho do jantar, é claro, depende muito do tamanho da sala de jantar. E, em muitos casos, do tamanho da cozinheira. (...) Em todo grupo de seis ou mais pessoas que vêm para o jantar, pelo menos quatro delas não só o detestam, como também à comida. Não gostar da comida é privilégio dos convidados. Eu quase sempre não gosto da comida da casa dos outros, e quando isso acontece, discretamente encho minha boca de pão e torço para que a sobremesa não seja pudim de pão. (...) Também há os casais que nunca vêm sozinhos. Sempre trazem um convidado extra, com muita elegância e esperteza. Mesmo assim, você encaixa uma cadeira extra, tira o seu belo serviço para seis e rearruma a mesa com uma miscelânea de louças de cerâmica que há anos vinha roubando de alguns dos melhores hotéis do país.
Para começar a noite com uma bomba, tem o espertinho que sempre chega uma hora antes que os outros. Se você disser: "O jantar é às sete", pode ter certeza de que ele estará lá às seis. Se disser "nove", ele chegará às oito. Não se sabe como ele entra na casa - ou é um ladrão ou um duende - ninguém jamais o escuta entrar, nenhuma porta bate, nenhuma campainha bate. (...) E existe aquele casal que sempre sai à meia-noite, mas que só chega até a porta da frente. É praticamente impossível tirá-los da casa - algo como um jogador de futebol que chega na área e não consegue marcar o gol. Esse tipo de gente que reluta em sair de perto da porta tem um rival à altura naquele outro que se levanta de vinte em vinte minutos, como se fosse ir embora. Cada vez que ele se levanta, você pula cheio de esperança e, como um cão de caça, aponta na direção do armário de casacos. Mas seu pulo foi em vão. Essa caixa de surpresas levará horas para sair!
Os métodos mais simples geralmente são os mais eficazes para se livrar dos convidados de fim de semana. Alguns comentários bem colocados durante o jantar em geral resolverão o problema. Por exemplo, quando o assado for servido, você pode se queixar:"A carne está ficando tão cara! Não é fácil manter uma família hoje em dia, sem falar nos convidados." Quando chegar à última parte desse discurso, encare o convidado. Se ele tiver algum orgulho ( e muito poucos o têm), irá para o quarto e imediatamente começará a fazer as malas. Se, no entanto, ele for o típico habitué de fim de semana, tais sutilezas são uma perda de tempo, é métodos mais esquisitos devem ser usados, mesmo e até e inclusive a força. (...) Cortar o suprimento de água e os fios telefônicos é geralmente muito eficaz. Botar fogo em sua correspondência (especialmente se for as do tipo que recebo) às vezes ajuda. Muita gente é alérgica a migalhas de bolacha na cama, e geralmente ficam prontas para partir se acordarem de manhã transformadas em costeletas de vitela empanada. (Um hóspede, contudo, ficou tão encantado com esse tratamento, que passou a comer as bolachas toda noite antes de dormir e, depois de uma semana, desfez todas as suas malas e começou a pedir queijo aos berros pelo buraco da fechadura.)
-- Em "Como se Livrar dos Convidados".
27.11.02
Alasdair Gray
COMECEI A FAZER MAPAS QUANDO ERA PEQUENO.
EU MOSTRAVA LUGARES, RECURSOS, ONDE O INIMIGO
E ONDE O AMOR ESTÃO. EU NÃO SABIA
QUE O TEMPO CONTRIBUI PARA A TERRA. ACONTECIMENTOS
AFUNDAM CONTINUAMENTE, APAGANDO MARCOS,
ELEVANDO NÍVEIS, COMO NEVE.
EU CRESCI. MEUS MAPAS JÁ NÃO SERVEM MAIS.
AGORA A TERRA ESTÁ SOBRE MIM.
NÃO CONSIGO ME MEXER. É HORA DE IR.
--- Em "Lanark".
EU MOSTRAVA LUGARES, RECURSOS, ONDE O INIMIGO
E ONDE O AMOR ESTÃO. EU NÃO SABIA
QUE O TEMPO CONTRIBUI PARA A TERRA. ACONTECIMENTOS
AFUNDAM CONTINUAMENTE, APAGANDO MARCOS,
ELEVANDO NÍVEIS, COMO NEVE.
EU CRESCI. MEUS MAPAS JÁ NÃO SERVEM MAIS.
AGORA A TERRA ESTÁ SOBRE MIM.
NÃO CONSIGO ME MEXER. É HORA DE IR.
--- Em "Lanark".
25.11.02
Nossa cruenta alma espanhola
A tauromaquia é praticada na Espanha desde o séc. 18, e no séc. 19 atingiu um alto grau de profissionalismo e controle estatal. No séc. 20 foram realizadas mais de 31 mil touradas oficiais, todas envolvendo a tortura e morte de touros. Paixão nacional, o evento mobiliza multidões, elevadas somas em dinheiro, a mídia, criadores e empresários e profissionais especializados na construção e manutenção de arenas. Toureiros e fabricantes de novos modelos de espadas costumam reunir-se em sigilo para discutir a qualidade das armas, testando-as em novilhos. Enquanto os animais agonizam, eles avaliam o grau de facilidade e dificuldade com que elas penetraram na carne. Não menos terrível é a preparação dos touros para o dia do espetáculo. Seus chifres são cortados, ficam sob pesados sacos de areia durante horas, até que as patas, inchadas, são mergulhadas em aguarrás para que eles não consigam ficar parados devido à extrema ardência. Seus olhos são untados com vaselina e para empurrá-los para o corredor, espetam-nos repetidas vezes. O touro, já enfraquecido, aterrorizado e enxergando apenas cores fortes e quentes, corre na direção do que julga ser a saída, onde é recebido pelos gritos da multidão. A tourada, um jogo de celebração da morte, divide-se em três etapas de tortura do animal. Cada uma cheia de truques e recursos para enganar o público de que o toureiro é que é o herói corajoso e destemido. Após a execução, "el matador" empina os quadris, faz caras e bocas e sorri, orgulhoso, para uma platéia que prefere não levar em conta que o animal já entrou quase morto na arena. Obviamente justifica-se tudo como "expressão da cultura espanhola" para mascarar a sofisticada tortura dos animais e tratá-la como algo natural e até apreciável. O estigma de bárbaros, no entanto, não está só no povo espanhol. Está um pouco em cada um de nós. E em Gisele Bündchen, sim. Por que não?
--- (sobre o artigo de Marco Frenette, "O Balé da Morte Lenta", in rev. "Bravo!", 2002.)
A tauromaquia é praticada na Espanha desde o séc. 18, e no séc. 19 atingiu um alto grau de profissionalismo e controle estatal. No séc. 20 foram realizadas mais de 31 mil touradas oficiais, todas envolvendo a tortura e morte de touros. Paixão nacional, o evento mobiliza multidões, elevadas somas em dinheiro, a mídia, criadores e empresários e profissionais especializados na construção e manutenção de arenas. Toureiros e fabricantes de novos modelos de espadas costumam reunir-se em sigilo para discutir a qualidade das armas, testando-as em novilhos. Enquanto os animais agonizam, eles avaliam o grau de facilidade e dificuldade com que elas penetraram na carne. Não menos terrível é a preparação dos touros para o dia do espetáculo. Seus chifres são cortados, ficam sob pesados sacos de areia durante horas, até que as patas, inchadas, são mergulhadas em aguarrás para que eles não consigam ficar parados devido à extrema ardência. Seus olhos são untados com vaselina e para empurrá-los para o corredor, espetam-nos repetidas vezes. O touro, já enfraquecido, aterrorizado e enxergando apenas cores fortes e quentes, corre na direção do que julga ser a saída, onde é recebido pelos gritos da multidão. A tourada, um jogo de celebração da morte, divide-se em três etapas de tortura do animal. Cada uma cheia de truques e recursos para enganar o público de que o toureiro é que é o herói corajoso e destemido. Após a execução, "el matador" empina os quadris, faz caras e bocas e sorri, orgulhoso, para uma platéia que prefere não levar em conta que o animal já entrou quase morto na arena. Obviamente justifica-se tudo como "expressão da cultura espanhola" para mascarar a sofisticada tortura dos animais e tratá-la como algo natural e até apreciável. O estigma de bárbaros, no entanto, não está só no povo espanhol. Está um pouco em cada um de nós. E em Gisele Bündchen, sim. Por que não?
--- (sobre o artigo de Marco Frenette, "O Balé da Morte Lenta", in rev. "Bravo!", 2002.)
22.11.02
Às três horas de uma manhã inquieta sonhei que a figura de um demônio com cabeça de galo, barriga descomunal e rabo cheio de nós me avisava que as formigas tinham uma missão. Que cada formiga tem uma missão. E como ele mais não detalhou, só ficava repetindo isso vezes sem conta, acabei me desinteressando e acordei. Eu havia suado muito e tive de me levantar para trocar de roupa. Sentada na privada, eu não conseguia mais dormir. Acendi um cigarro e peguei o caderno do penúltimo domingo para ler. Minha cabeça pesava. O coração batia acelerado. As letras se embaralhavam na minha frente. Desviei os olhos para o chão frio e vi a mesma fila de formigas de sempre. Rumando para o box. Eu as acompanhei. A formiga sempre foi um símbolo de organização, industriosidade e previdência. Antigos ritos de fecundidade eram associados à formiga: toda mulher estéril devia sentar-se em cima de um formigueiro para tornar-se fecunda. A terra de um formigueiro simbolizava a energia circulando nas entranhas da terra. Isso foi há muito tempo. Hoje, como se controladas por computador e alimentadas com drogas letárgicas, elas não passam de predadoras indestrutíveis designadas para fazer da Terra o seu posto avançado. Pouco a pouco elas invadiram comunidades pacatas, desertos inabitáveis, palácios reais, os quatro ângulos da Terra. O perecível e o imperecível. Por mais que as esmaguemos, elas se reproduzem a cada vez com mais vigor. Quanto mais as vaporizamos, mais elas mutam. Um dia elas pedirão a minha cabeça e eu não vou poder fazer nada. Um dia, em algum ponto do círculo, eu vou acordar e encontrar o mundo todo roído. Cuspida por um gêiser, descobrirei que nem a Islândia foi poupada. Nesse dia, eu vou deixar o medo de lado e me oferecer inteira ao doce repasto de minha rainha.
18.11.02
Jack Kerouac
NUM HORRÍVEL APOSENTO em Nova York, toda a minha família, composta por mamãe, papai & Nin e eu, se instala e "todos conseguiram emprego" -- aqui dentro já é noite, e há uma única luz, muito fraca, acesa -- a gente conversa, mas é um papo meio esquisito -- parece que não sei o que faço e sem querer, ou por descuido (porque não sinto medo da raiva das mulheres da família e já me esqueci da de meu pai; faz tanto tempo que ele morreu), começo a enrolar um baseado, continuando a falar com eles uma porção de maluquices, empolgado, louco (por causa da erva); nem sequer prestam atenção, preferindo debater solenemente a meu respeito, até que meu pai se levanta e pergunta: "Mas ele não tem medo da maconha? Hem?" se aproximando de mim -- vejo que vem vindo e fico cego, a escuridão toma conta por completo da cena, mas sinto, contudo, a mão dele no meu braço; é possível que tenha um machado, qualquer coisa, e não consigo enxergar -- caio desmaiado feito morto no escuro, com um rugido que me acorda e impede que seja encontrado morto (se é que existe uma coisa como a morte) de manhã, na cama -- pois meu sangue parou de palpitar quando o Viajante Amortalhado cravou finalmente as garras em mim -- se aproxima cada vez mais -- agora já sei como fugir dele -- não me preocupando nem acreditando na vida ou na morte, se é que isso pode ser possível num humilde Pratyeka a essa altura.
-- Em "O Livro dos Sonhos".
17.11.02
Drummond
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Drummond, "Para Sempre")
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Drummond, "Para Sempre")
15.11.02
Nelson Rodrigues
Quando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis, sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na frente, ao lado do chauffeur,teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e às vezes só tenho o dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente, um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus apinhado é o túmulo do pudor. "Exagero", dirão. Paciência. Mas quando eu passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes. A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente, queria andar de táxi e nada mais.
14.11.02
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
Uma noite me dei conta de que possuía uma história
e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
O que existe são coisas, não palavras.
Granito, lápide, crepe
nuvem, saudades, lembranças.
Em todo enterro choro com um olho só,
com o outro acho coisas no meu sonho:
os toquinhos de vela crepitam e morrem.
Quando eu sofria dos nervos
fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu.
De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
As formigas passeiam na parede, sobre
a cômoda, num quarto
Elas querem me matar, me comer, me cagar.
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, listas de compras
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
--- Montagem criada a partir de versos isolados de Adélia Prado ("Poesias Reunidas").
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
Uma noite me dei conta de que possuía uma história
e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
O que existe são coisas, não palavras.
Granito, lápide, crepe
nuvem, saudades, lembranças.
Em todo enterro choro com um olho só,
com o outro acho coisas no meu sonho:
os toquinhos de vela crepitam e morrem.
Quando eu sofria dos nervos
fiz curso de filosofia pra escovar o pensamento,
não valeu.
De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
As formigas passeiam na parede, sobre
a cômoda, num quarto
Elas querem me matar, me comer, me cagar.
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, listas de compras
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
--- Montagem criada a partir de versos isolados de Adélia Prado ("Poesias Reunidas").
13.11.02
Maiakovski
Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?
--- "Hino ao Crítico", 1915.
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?
--- "Hino ao Crítico", 1915.
12.11.02
Federico Garcia Lorca
Calar e consumir-se é o maior castigo a que podemos nos condenar. De que me serviu a mim o orgulho, e o não te olhar, e o deixar-te acordada noites e noites? De nada! Serviu para abrasar-me. Porque tu acreditas que o tempo cura e as paredes tapam, e não é verdade, não é verdade! Quando as coisas chegam ao fundo, não há quem as arranque!
(...)
Que vidros cravam minha língua presa!
Porque eu te quis esquecer,
e pus um muro de pedra
entre a tua casa e a minha.
É verdade. --- Não te lembras?
E quando te vi de longe,
enchi meus olhos de areia.
Mas, se montava a cavalo,
em tua porta me achava ---
Tornou-se o sangue negro,
com alfinetes de prata.
E o sonho me foi cobrindo
as carnes de erva daninha.
Pois a culpa não é minha.
A culpa, a culpa é da terra
e do cheiro que desprendem
teus peitos e tuas tranças.
--- Em "Bodas de Sangue".
(...)
Que vidros cravam minha língua presa!
Porque eu te quis esquecer,
e pus um muro de pedra
entre a tua casa e a minha.
É verdade. --- Não te lembras?
E quando te vi de longe,
enchi meus olhos de areia.
Mas, se montava a cavalo,
em tua porta me achava ---
Tornou-se o sangue negro,
com alfinetes de prata.
E o sonho me foi cobrindo
as carnes de erva daninha.
Pois a culpa não é minha.
A culpa, a culpa é da terra
e do cheiro que desprendem
teus peitos e tuas tranças.
--- Em "Bodas de Sangue".
Jorge Luis Borges
Se não existe emoção, não pode existir poesia. Tampouco há necessidade de que haja esta poesia. Assim, eu diria que se escreve ungido pela emoção e melhor seria tentar desencorajar a emoção, porque se um tema não nos deixa sossegados, então o escrevemos para nos livrar dele ou, como disse Reyes, para que não passemos a vida corrigindo rascunhos.
(...)
O escritor deve ser submisso e não convém que tente compreender demais o que está fazendo, porque qualquer ato consciente pode deitar a perder a obra.
-8.11.02
Era uma vez uma cidade maravilhosa
cheia de praias, praças e mulheres gostosas
cidade bela vislumbrada pelo mundo inteiro
quem não conhece o famoso Rio de Janeiro
bonde, corcovado, cristo redentor
praia de Copacabana e circo voador
lugares bonitos que atraem os turistas
mas somente o que convém é o que mostram as revistas
e em nossas vistas
do outro lado o sangue tem manchado
nossos cartões-postais, nossos cartões-postais
quadrilhas rivais, matanças brutais
por isso e por outras coisas nem turistas tem mais
o que acontece aqui e lá, pá, pá, pá
tem influência no país inteiro, ra-tá-tá
um quarto mundo dentro de um terceiro
barril de pólvora pra explodir cadê meu isqueiro?
de São Paulo ao Rio são só 6 horas
é logo ali aliado não demora
e a chacina impera onde a lei não vigora
cartão-postal do futuro de agora
o pouco que ele passa estou certo não agrada ninguém
mas se o que mostra for verdade está tudo bem
bem te faço um convite, mas escuta o que falo
bem-vindo ao Rio, bem-vindo a São Paulo
a nossa vida desse modo está por um fio
bem-vindo a São Paulo, bem-vindo ao Rio
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
--- Pavilhão 9, fragmento do rap "Vietnã do Brasil".
cheia de praias, praças e mulheres gostosas
cidade bela vislumbrada pelo mundo inteiro
quem não conhece o famoso Rio de Janeiro
bonde, corcovado, cristo redentor
praia de Copacabana e circo voador
lugares bonitos que atraem os turistas
mas somente o que convém é o que mostram as revistas
e em nossas vistas
do outro lado o sangue tem manchado
nossos cartões-postais, nossos cartões-postais
quadrilhas rivais, matanças brutais
por isso e por outras coisas nem turistas tem mais
o que acontece aqui e lá, pá, pá, pá
tem influência no país inteiro, ra-tá-tá
um quarto mundo dentro de um terceiro
barril de pólvora pra explodir cadê meu isqueiro?
de São Paulo ao Rio são só 6 horas
é logo ali aliado não demora
e a chacina impera onde a lei não vigora
cartão-postal do futuro de agora
o pouco que ele passa estou certo não agrada ninguém
mas se o que mostra for verdade está tudo bem
bem te faço um convite, mas escuta o que falo
bem-vindo ao Rio, bem-vindo a São Paulo
a nossa vida desse modo está por um fio
bem-vindo a São Paulo, bem-vindo ao Rio
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
não tente viver um dia no Vietnã do Brasil
--- Pavilhão 9, fragmento do rap "Vietnã do Brasil".
Quando te encontrei, de que país estranho foi que imaginei mesmo que tu acabavas de regressar? (Emílio Moura)
Hoje em dia eu sei que o louco é aquele que se deixa afogar pelos símbolos do seu inconsciente, mas houve um tempo em que eu achava que cada um era de um jeito, e eu tinha o meu. Simples assim. Blake, por exemplo, gostava de desenhar pulgas. Ou melhor, espectros de pulgas. Isso mesmo, fantasmas de pulgas. Demóstenes, o mestre da oratória, para conseguir uma perfeita articulação das palavras, costumava encher a boca de pedrinhas, ia para a beira do mar e ficava lá duelando com o barulho das ondas para treinar os seus discursos. Lope de Vega passou a vida escrevendo cerca de 1.800 comédias e outras tantas centenas de histórias. Era tão profícuo que Cervantes o chamava de "monstro da natureza". Pascal, por sua vez, cismava que humor e ironia na literatura eram sinais de mau caráter. Zoilo, antigo crítico dos poemas de Homero, era um comentarista tão azedo e invejoso que ficou para a posteridade como um crítico faccioso e medíocre. Rui Barbosa, sempre vigilante nos cuidados com o vernáculo, fazia de tudo para evitar o encontro de consoantes dentais. Em vez de "dentro do", tascava um "dentro no". Já Cassiano Ricardo chegou a não admitir a existência do verso livre: "Basta ser livre pra não ser verso." Manias? Loucura? Pode ser. Tem gente cuja profissão é estudar o ritmo na poesia clássica antiga. Eles se orgulham de saber que o verso aristofânio são 2 dímetros anapésticos, separados por diérese e dos quais o segundo deve ser catalético. Se você lhes mostrar um verso como "Vejo-te, mísero ser", para eles isso não passa de uma tripódia catalética em 1 sílaba. Ainda bem que o verso livre nos livrou disso tudo. Cada um tem o seu jeito, eu tenho o meu. Posso passar horas dentro de uma livraria ou um sebo. Esqueço da vida. Tenho curiosidade de ler coisas como "Frívola City", de João do Rio, "Mixuangos", de Valdomiro Silveira, e a canção do Boi Surubi. Alguém já ouviu falar de Quinto Cúrcio?
Hoje em dia eu sei que o louco é aquele que se deixa afogar pelos símbolos do seu inconsciente, mas houve um tempo em que eu achava que cada um era de um jeito, e eu tinha o meu. Simples assim. Blake, por exemplo, gostava de desenhar pulgas. Ou melhor, espectros de pulgas. Isso mesmo, fantasmas de pulgas. Demóstenes, o mestre da oratória, para conseguir uma perfeita articulação das palavras, costumava encher a boca de pedrinhas, ia para a beira do mar e ficava lá duelando com o barulho das ondas para treinar os seus discursos. Lope de Vega passou a vida escrevendo cerca de 1.800 comédias e outras tantas centenas de histórias. Era tão profícuo que Cervantes o chamava de "monstro da natureza". Pascal, por sua vez, cismava que humor e ironia na literatura eram sinais de mau caráter. Zoilo, antigo crítico dos poemas de Homero, era um comentarista tão azedo e invejoso que ficou para a posteridade como um crítico faccioso e medíocre. Rui Barbosa, sempre vigilante nos cuidados com o vernáculo, fazia de tudo para evitar o encontro de consoantes dentais. Em vez de "dentro do", tascava um "dentro no". Já Cassiano Ricardo chegou a não admitir a existência do verso livre: "Basta ser livre pra não ser verso." Manias? Loucura? Pode ser. Tem gente cuja profissão é estudar o ritmo na poesia clássica antiga. Eles se orgulham de saber que o verso aristofânio são 2 dímetros anapésticos, separados por diérese e dos quais o segundo deve ser catalético. Se você lhes mostrar um verso como "Vejo-te, mísero ser", para eles isso não passa de uma tripódia catalética em 1 sílaba. Ainda bem que o verso livre nos livrou disso tudo. Cada um tem o seu jeito, eu tenho o meu. Posso passar horas dentro de uma livraria ou um sebo. Esqueço da vida. Tenho curiosidade de ler coisas como "Frívola City", de João do Rio, "Mixuangos", de Valdomiro Silveira, e a canção do Boi Surubi. Alguém já ouviu falar de Quinto Cúrcio?
7.11.02
Olavo Bilac
"Não faça notícias. A notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. (...) O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político... o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro d'Arte."
--- Olavo Bilac, aconselhando o escritor Coelho Netto.
4.11.02
Joseph Conrad
... a maioria dos marujos leva, por assim dizer, uma vida sedentária. Eles sempre se sentem em casa, pois sua casa sempre os acompanha -- o navio; bem como seu país -- o mar. Um navio é muito parecido com outro, e o mar é sempre o mesmo. Num ambiente imutável, os litorais estrangeiros, as fisionomias estrangeiras, a variada imensidão da vida -- tudo passa imperceptível, velado não por um misterioso sentido, mas por uma ignorância levemente desdenhosa; pois não existe mistério para um homem do mar, a não ser o próprio mar, que é senhor de sua existência e inescrutável como o Destino. Quanto ao resto, nas suas horas de folga, uma caminhada casual, ou uma eventual bebedeira em terra bastam para revelar-lhe o segredo de todo um continente -- e geralmente acha que o segredo não vale a pena ser conhecido. As histórias dos homens do mar têm uma simplicidade direta, cujo significado cabe inteiramente na casca de uma noz partida.
1.11.02
Virginia Woolf
Domingo, 29 de dezembro
---- Virginia Woolf, em seus "Diários", três meses antes de cometer o suicídio em 1941.
Há momentos em que a vela trapeia. Depois, como sou grande amante da arte da vida, decidida a chupar minha laranja, sugá-la, como uma vespa se a flor em que pousei murchar, & murchou ontem --- cavalgo as colinas até o penhasco. Um rolo de arame farpado cerca a beira. Friccionei minha cabeça energicamente ao longo da estrada de Newhaven. Velhas solteiras andrajosas comprando em mercearias, naquela estrada erma com as villas; debaixo de chuva. E Newhaven arruinada. Mas que se canse o corpo & a cabeça dorme. Toda a vontade de escrever no diário se perdeu. Qual é o antídoto mais adequado? Preciso farejá-lo por aí. Penso em Mme de Sevigné. Escrever haverá de ser um prazer diário. Charleston mudo; Leslie sonoro. Os Anrep almoçaram. Detesto a dureza da velhice --- sinto-a. Irrito. Sou ácida.
The foot less prompt to meet the morning dew,
The hert less bounding at emotion new,
And hope, once crush'd, less quick to spring again.
Na realidade abri Matthew Arnold & copiei estes versos. Ao copiá-lo, ocorreu-me a idéia de que a razão por que desgosto, & gosto, de tantas coisas de maneira tão idiossincrática agora é que vou me desprendendo cada vez mais da hierarquia, do patriarcado. Quando Desmond elogia East Coker, & fico enciumada, caminho pelo pântano dizendo: eu sou eu; & tenho de seguir este sulco, não copiar outro. Esta é a única justificação para meu escrever & viver.
Como saboreio a comida agora: faço refeições imaginárias.
---- Virginia Woolf, em seus "Diários", três meses antes de cometer o suicídio em 1941.
31.10.02
Gustavo Lisboa
"Mar é moto contínuo/ dentro da alma sem paz." Gustavo Lisboa não é muderno, muito menos pós-moderno, mas escreve como quem sonha. Hoje, dia 31, aniversário de Drummond, leio os poemas dispersos de Gustavo Lisboa organizados em uma pequena coletânea chamada "Azul" que ele me enviou por e-mail. Como "anonimato pouco é bobagem", tomei a liberdade de publicar aqui um dos seus textos.
"Tardíssima tarde de inverno: azul esfregado
no céu, nuvens rápidas e inóspitas, a cidade
e seus seres, carros, ônibus, lixo nas calçadas,
escrevo sob um teto indiferente, décimo andar.
No sonho não me realizo, o leito é desprezado
pela amante incompleta, ela é só irrealidade;
ontem, o abraço inútil, a alma também ignorada:
hoje escrevo, olhando a vida e seu repassar.
Breve, não breve, irei sair na noite por ali e acolá;
breve, não leve, vestirei o casaco da noite fria:
avenidas, sonhos, luzes, bares, calçadas, becos,
Porto Alegre, oito graus, mais frio em Santa Maria,
onde já refiz variadamente o trajeto do vinho seco:
Porto Alegre, inverno, julho, um úmido qualquer já."
30.10.02
Beowulf precisou de 3.183 versos para relatar suas façanhas heróicas no início da época medieval. Foi modesto. Mesmo depois de velho e caquético, o rei lutava com monstros, dragões e sereias igualmente monstruosas. Já os franceses, bem mais verborrágicos, lançaram mão de 30.000 versos para fechar o "Romance de Tróia" pela pena de Benoit de Sainte More. Me recuso a ler tanto papel. Quem tem tempo pra isso hoje em dia? A "Divina Comédia" por sua vez tem 100 cantos. Um repositório de conhecimentos enciclopédicos, só esta frase me dá preguicinha. Nunca li a obra-prima de Dante de cabo a rabo. Toda vez que a via pela frente ficava em dúvida se começava pelo Inferno, pelo Purgatório ou pelo Paraíso. Verdade que a inscrição da porta do Inferno sempre me atraiu mais: "Lasciati ogni speranza, voi ch' entrate!", o que significa mais ou menos "tirem o cavalinho da chuva daqui para a frente". Grande coisa. Os melhores ficavam no Limbo: Sócrates, Platão, Homero e o resto da galera. Como estou bocejando e este post já está ficando extenso demais, escolho pra ler uns poeminhas safados e de tamanho bem mais conveniente, o que os sofisticados gostam de chamar de haicai.
"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"
(de Charles, em "Perpétuo Socorro")
"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio
o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"
(de Ronaldo Santos, em "14 bis").
"troco um chumaço de poesia pelo amor da macaca
sou um romântico cubalibre dançando conforme a lua"
(de Charles, em "Perpétuo Socorro")
"beijos fecham a mala
o trem parte mudo
eu, poeta, apagado no cinzeiro
sem a coragem das noites
sem a alma dos vagabundos
logo eu
pronto por não ter planos maiores
que três versos faltando num poema maluco
enterrado no bolso sem um aceno
alheio à cor das bandeiras
tremendo que nem assovio
o trem parte mudo
eu canto fora dos trilhos"
(de Ronaldo Santos, em "14 bis").
Álvares de Azevedo
É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até...perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d' honra, és tu, ó meu charuto!
--- "Terza Rima".
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até...perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d' honra, és tu, ó meu charuto!
--- "Terza Rima".
28.10.02
Caetano Veloso
e era nada de nem noite de nego não
e era nê de nunca mais
e era noite de nê nunca de nada mais
e era nem de negro não
porém parece que a golpes de pê
de pé de pão
de parecer poder
(e era não de nada nem)
pipoca ali pipoca aqui
pipoca além
desanoitece a manhã
tudo mudou
---- "Pipoca Moderna".
e era nê de nunca mais
e era noite de nê nunca de nada mais
e era nem de negro não
porém parece que a golpes de pê
de pé de pão
de parecer poder
(e era não de nada nem)
pipoca ali pipoca aqui
pipoca além
desanoitece a manhã
tudo mudou
---- "Pipoca Moderna".
Félix de Athayde
brasil não finda em abril
há outubros
o tempo é trabalho do homem
de tempo em tempo o tempo
dá um salto
como tudo que é vivo e pássaro
brasil não finda em abril
há muito tempo pela frente
outubro pode vir em maio ou dezembro
é questão de não se perder tempo
volta a viver teu dia
como se vivesses uma mulher
trabalhando todas as partes do seu corpo
brasil não finda em abril
nem finda em mim nem em ti
há outubros e há outros outros
além de nós que sabem
no amor e no ódio
que o tempo é a esperança dos homens
há outubro
--- "Há Outubros".
há outubros
o tempo é trabalho do homem
de tempo em tempo o tempo
dá um salto
como tudo que é vivo e pássaro
brasil não finda em abril
há muito tempo pela frente
outubro pode vir em maio ou dezembro
é questão de não se perder tempo
volta a viver teu dia
como se vivesses uma mulher
trabalhando todas as partes do seu corpo
brasil não finda em abril
nem finda em mim nem em ti
há outubros e há outros outros
além de nós que sabem
no amor e no ódio
que o tempo é a esperança dos homens
há outubro
--- "Há Outubros".
21.10.02
D. H. Lawrence
A indecência pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.
Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.
Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.
--- "A Indecência Pode Ser Saudável".
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.
Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.
Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.
--- "A Indecência Pode Ser Saudável".
20.10.02
Ana Cristina Cesar
Me deu uma dor forte de repente e eu disse -- me leva para o hospital.
O casal do lado me levou no carro.
Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.
Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio.
Você não apaga -- acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê Tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta: no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso. Você pode também sentar de novo na Place des Vôges, que é perfeita, cartão postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não é vago.
--- Em "Luvas de Pelica".
15.10.02
Rio em preto-e-branco
Nos anos 1930, o aluguel de um apartamento mobiliado na Cinelândia (centro do Rio) custava 400 mil réis. Na época, só uma elite emergente podia morar bem nessas vizinhanças. Um médico bem-sucedido podia ganhar 1:500.000 ( 1 conto e 500 mil réis), um operário têxtil ganhava 240 mil réis por mês e uma empregada doméstica, 120 mil. O quilo de arroz custava no mínimo 500 réis, o açúcar, 700; o bacalhau, 2.100; café, 2.400; carne de primeira e frango, 2.000; feijão preto, 500; leite, 800 o litro, e ovos, 2.200 a dúzia. Já um par de sapatos de pelica, modelo Luís XV, para moças de fino trato chegava a custar 36 mil réis. Nessa época o rádio e a propaganda incentivavam os "novos" hábitos: "Não há mais belo destino para um cigarro do que o de luzir, como um astro, nos lábios de uma mulher bonita." Nas ruas trafegavam os ônibus de dois andares, os "chope-duplo", os táxis passaram a calcular a corrida por taxímetros e ganhou popularidade o hábito de se tomar café em pé, no balcão. No comércio estabelece-se o "horário comercial" e as vendas são incrementadas com a introdução do crediário. Um grande número de mendigos "transfere-se" para São Paulo, alegando que lá serão tratados com mais civilidade, pois um decreto recém-criado os protegia da polícia. Dizia-se que alguns chegaram a fazer fortunas só de pedir esmolas. Nas farmácias podia-se comprar 5 gramas de cocaína malhada a 2.000 réis, e uma ampola de heroína custava 1.500. Na Lapa bebia-se cerveja por 1.100 a garrafa. Com seus casarões antigos de paredes enegrecidas, seus bares, restaurantes, cabarés e bordéis, a Lapa era ponto de encontro de intelectuais e artistas. Freqüentavam a Lapa Plínio Salgado, San Tiago Dantas, Noel Rosa, Assis Valente, Heitor dos Prazeres, Cartola, Nelson Cavaquinho, Francisco Alves, Araci de Almeida, Jorge Amado, Cândido Portinari, Villa-Lobos, Sérgio Buarque de Holanda, Rubem Braga, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Madame Satã, um dos mitos do bas-fond, e muitos outros. No final dos anos 1930 a polícia do Estado Novo fechou todos os bordéis da Lapa, decidida a acabar violentamente com a prostituição na Capital Federal. Nos anos 1940, o bairro entra em franca decadência devido à Segunda Guerra Mundial. A Lapa é invadida por marinheiros americanos vomitando dólares e pelos "falsos malandros", deixando de ser a partir daí a Montmartre carioca.
14.10.02
Torquato Neto
o poeta nasce feito
assim como dois mais dois
; se por aqui me deleito
é por questão de depois
a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara
ou seja:
quarenta a sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites,
calmas, desperdiçadas.
saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida
no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender -
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto. e querer
não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.
-
assim como dois mais dois
; se por aqui me deleito
é por questão de depois
a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara
ou seja:
quarenta a sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites,
calmas, desperdiçadas.
saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida
no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender -
de qualquer forma, o A-caso
me deixa tonto. e querer
não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.
-
Rogério Duarte
Depois que eu deixei crescer a barba as coisas continuaram igualmente confusas, exceto pelo acréscimo da barba que se associa ao antigo caos e o revela com aparente nova fúria. Não sei mesmo por que me permiti tal embuste (sim, nada agora merece mais do que este qualificativo).
Foi depois da visita à fazenda natal e do retrato do bisavô peludo que acabou por me sugerir reencarná-lo. Caricatura do meu passado me tornei porque caricaturei a busca de mim mesmo indo atrás dos detritos que o meu caminho deixou à margem.
Estranho às vezes o meu corpo assusto-me frente ao espelho na vã tentativa de captar-me outro e recebê-lo na minha ternura ou, menos ainda, procurando especular sobre a aparência nova e suas possibilidades de realizar o paradoxal embuste de parecer humana, coisa aliás que não se realiza é apenas em função da minha recusa.
Terá que ser desta mesma guitarrística maneira o continuar no ato de fazer a ladainha dos pães de cada dia. Talvez tenha descoberto eu hoje uma maneira nova: não se trata de cometer o verbo mas sim de esgotar-se no só afã de cometê-lo, ou de convencionar-se para si a fatalidade de cumpri-lo. Isto poderia se compreender imaginando-se a ação de modo a não diferenciá-la da não-ação. E é tangível quando tragicamente se cai na penumbra da unidade, ou zona do fenômeno.
Talvez, se a fidelidade a cada dia me compra o direito de depuração contínua, eu chegue a escutar a viva voz que articula a vibração do manifesto.
Guitarristicamente tecendo em dedos e espera-deflagração.
Que chance? O meu destino desenvolveu-se enquanto eu mantinha os olhos tapados e já nem me reconheço nele.
Brutalmente a qualquer momento pode surgir a vida, eu sei que não estou preparado. O medo, que é sombra da luxúria, aproveitou-se do meu corpo inteiro como morada do seu escuro.
Eu sinto, quando estou falando com alguém, nitidamente a sensação de não controlar a espontânea linguagem de loucura e sofrimento que torna como que desconcertantemente ridícula (já que a cobre e nega) a comunicação esboço-vomitada.
É absolutamente igual à fé na chegada do Messias o prognóstico sobre a passagem de um Cometa. Se nos voltamos para o grande corpo, sem um sequer leve cilício, tomamos o líquido aviso, confundimos a nossa alma com Ele.
Daqui a alguns anos a moral será uma ciência misteriosa ao alcance apenas de uns poucos iniciados que, de resto, ninguém viu. A Fé, as Leis etc. serão no Futuro não muito distante de uns duzentos anos como hoje são a alquimia, astrologia e lá vai fumaça...
Eu sou muito amigo do Rei, eu me dou bem com o Rei, Eu sou o outro Rei.
Hereafter all will be different, you need to get a very human face...
--- Na revista "Navilouca", anos 1970.
8.10.02
Faça-se o cogumelo
"Sentimo-nos como se estivéssemos presentes no momento da criação, quando Deus disse 'Faça-se a luz' ... a imensa nuvem de cogumelo por um instante pareceu a gigantesca estátua da Liberdade, o braço elevado para o céu, simbolizando o nascimento de uma nova liberdade para o homem." (General Leslie Groves, comandante do Projeto Manhattan que desenvolveu a bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial e um dos idealizadores do Pentágono.) Duas bombas seriam lançadas no Japão. Uma sobre Hiroshima, a "Little Boy", e outra sobre Nagasaki, a "Fat Man". O resto da tragédia já se sabe. O presidente Truman, ao ser entrevistado anos depois, diria a respeito de seu primeiro pensamento ao saber do programa atômico: "Eu esperava que desse certo, principalmente porque custou 2,6 bilhões de dólares, o que dava uma média de 400 milhões por quilo de bomba...um explosivo caro demais." Uma pesquisa do Gallup feita em 1944 revelou que 13% dos americanos eram favoráveis à eliminação do povo japonês por meio do genocídio. Estima-se que, até 1950, 350 mil pessoas morreram como resultado direto das bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki.
Em 20 de agosto de 1998, o governo americano usou mísseis de longo alcance para destruir uma fábrica de remédios na capital do Sudão, com a justificativa de que a fábrica produzia gás dos nervos para ser usado por agentes de Bin Laden. Como se provaria logo depois, esse argumento era falso, a fábrica produzia apenas remédios contra a malária e a tuberculose, e drogas de uso veterinário. A Medical Emergency Relief International, entidade de ajuda humanitária sediada em Londres, declarou que na época do ataque americano, o Sudão passava por uma grave epidemia de malária, o que transformava a destruição da única fábrica do país que produzia remédios contra a doença num grave crime contra a humanidade.
-
7.10.02
Guilhem de Peitieu
Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.
Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.
Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.
Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.
Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.
Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.
Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.
--- "Canção", séc. 12.
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.
Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.
Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.
Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.
Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.
Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.
Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.
--- "Canção", séc. 12.
4.10.02
Aos 100 anos de Drummond
É noite. Sinto que é noite. E amanhã o nome, letra por letra, se desletrará. Farta de komunikar-me na pequenina taba, no pavilhão da komunikânsia interplanetária interpatetal, eis-me prostrada a vossos peses, que sendo tantos todo plural é pouco.
Cem anos: espelho d'água ou névoa? Que palavra é essa que a vida não alcança ainda quando morte esculpida em vida? Sede que bebo, vento que me arrasta, há uma hora em que todos os bares se fecham porque você não está mais na idade de sofrer por estas coisas e tudo que se pensa, tudo que se fala, tudo que se conta não passa de papel. Vamos para a Lua, Carlos. Vamos para Marte. Vamos a outra parte. Sem tir-te nem guar-te amanhã o nome, letra por letra, se desletrará.
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1.10.02
Ser carioca não é pra qualquer um. Morar de frente pro morro e lambuzar o cérebro de areia só pra quem tem a praia logo ali ó. Passo correndo por ruas vazias e desperdício de cores onde analfabetos contam casos. Carioca espanta a preguiça dormindo em pé. Celulares sebentos espalham boatos. O Iraque é aqui. Quase. E nem vamos precisar da intervenção da ONU. Antes que a noite avance me tranco em casa, encho a banheira e fecho os olhos. A obra civilizadora do narcotráfico. A água respinga nos jornais. Os salões de Tarsila estão cobertos de asfalto. Só posso dizer duas coisas, ou é isso ou é o quê?
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